terça-feira, 16 de abril de 2013

Na franja dos dias: Marcelo Sandman, o homem sem cabeça e a mancha




Que poemas ainda podemos escrever em nosso tempo? Que livros de poesia ainda temos tempo de publicar? Que pode ainda o poeta em seu tempo de poetar? Que vida é aquela que vemos no avesso do tempo do verso? Que tempo teima tanto e ainda na poesia?
Os poemas que integram o livro "Na franja dos dias" (7 Letras, 2012), de Marcelo Sandmann, estão manchados de tempo. O próprio título assume o seu traçado. Que tempos manchados são esses? As manchas, sabemos, possuem muitos sentidos. Seja como uma obra do acaso ou fruto de uma ação planejada, elas inserem sempre uma diferença. Com o tempo, as manchas do corpo ou das roupas, ou mesmo aquelas do café derramado sobre o papel, ganham uma tonalidade nova e, à medida que os dias correm, vão passando de uma cor a outra como que esboçando uma outra semântica, uma outra sintaxe. Barthes, em A Câmara Clara, definia o punctum como picada, pequeno burado, pequeno corte, mas também como pequena mancha, ou seja um lance de dados. Se o punctum é um pequeno detalhe que chama a atenção, aquilo que atinge o olhar, inserindo uma diferença, poderíamos tratar as manchas de Sandmann como pontos, pequenas imagens, que nos olham à medida que as olhamos, como o mar de estrelas no teto, pés bonitos nas sandálias, o brilho daquela janela, o cheiro de éter no corredor, ruídos de talheres no apartamento contíguo, um sonho lúcido sem mácula, WTC ainda não construído. Outras manchas são filhas do tempo e do espaço: um soneto que volta estropiado como ruína, o poeta suicida servido ao molho pardo, Dalton, Catulo, Leminski, Marcos Prado, Zappa, etc.  



A ação do tempo faz da mancha uma marca que é vestígio de algo que passou. O isso-foi de que nos fala ainda Barthes, como nas fotografias. Como ruína de outro tempo, a mancha é também a prova de que o passado pervive de alguma forma no corpo, na roupa, no papel. Apagar a mancha, alvejá-la, nunca é destruí-la, mas apenas obliterá-la, ou agir sobre sua cor, dando-lhe outra. Tapa-se a mancha (tatuagem) com outra mancha. Sobre poemas, escrevemos outros poemas. E só!   

No livro de Sandmann, o interesse pelo tempo aparece antes mesmo dos textos em uma pequena e curiosa nota "explicativa" que antecede o sumário, e cuja autoria nos é vedada: "Com este seu terceiro livro - rebatizado Na franja dos dias para trazer à tona um de seus temas principais, o tempo que nos foge - e trazendo sempre o inesperado na ponta da língua (ou do lápis), Marcelo Sandmann confirma a sua trajetória como um dos poetas mais originais da atualidade". O tempo foge, mas as manchas, os rastros, as pistas perduram. 

Como em um fenômeno da mancha cega, as imagens da tradição, nos poemas de Sandmann, são fantasmáticas. São ruínas que sobrevivem, marcando a passagem do tempo, bem como a sua suspensão,  um evento que faz do poema um corpo entre corpos, um tempo entre tempos, um incidente ou uma singularidade. Escrever hoje é retraçar, é recortar, fazer cut-and-past. É o que Sandmann demonstra no poema "Rua Real Grandeza (compacto simples)", sobre Jards Macalé e Waly Salomão, a partir de versos "recortados" de canções da dupla. Como não lê-lo sem ouvir a dissonância produzida pela junção dos fragmentos musicais? Quem conhece as músicas, inevitavelmente, relembra suas passagens tendo a impressão de ler e ouvir ao mesmo tempo o poema de Sandmann e  as canções de Waly e Macalé, bem como visualizar um quadro intersemiótico cubista por excelência: "vou-me embora, embromadora / vou tomar aquele velho navio / se me der na veneta, eu vou // oh! sim, eu estou tão cansado / anjo exterminado / sou um cara sem saída (...)". Trata-se  de um im(puro) movimento dialético (poético). 

Já não podemos dizer se as letras musicais, aqui, são manchas no poema, ou se as canções foram por ele manchadas. Aliás, este é apenas um dos poemas que estão interessados no universo musical. Sandmann, que além de professor e poeta é também compositor, faz da música uma órbita sobre a qual se move o livro. No entanto, a música não inspira apenas temas para os poemas, pois estamos diante de uma obra - ou álbum - cuja linha está sustentada também pela musicalidade. Diz, ainda, a já citada nota "explicativa": "Não se engane o leitor: aqui ele vai encontrar muito mais do que poesia. O título original, Allegro ma non troppo (lira dos cinquent'aninhos), dá algumas pistas da musicalidade que conduz o andamento da leitura, bem como do toque de humor que tempera as riquezas vocabulares e temáticas, desconstruindo as profundezas poéticas (ainda assim presentes) em fluências que cabem até numa conversa de bar".
    
©iStockphoto.com/Renee Lee

Penso que é no diálogo interessante e inteligente com a tradição que se encontra o seu teor de presente. Seu universo é da ordem do "inatual", para usar uma expressão de Agamben, ou de Alberto Pucheu lendo Antonio Cicero. Vale lembrar que Cláudio Daniel, no prefácio da antologia de poesia contemporânea Na Virada do Século, observa que a poesia do presente não pretende exorcizar o passado, "com furor iconoclástico", nem praticar a "necrofilia dos gênios tutelares/tumulares". A principal característica de nossa in(atual) poesia seria a de produzir uma "conversa inteligente entre poéticas de diferentes tempos históricos". Giorgio Agamben, no ensaio O que é o contemporâneo?, com outras palavras, mas em um sentido semelhante, escreve: "Pertence verdadeiramente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo, aquele que não coincide perfeitamente com este, nem está adequado às suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e aprender o seu tempo". Marcelo Sandmann ouve Padre Vieira assoprando em seu ouvido: "Há que se estar apartado dos olhos para poder ver".

Re-ler é também manchar um corpo, inserindo nele outros tempos, outros compassos, outras marcas, outros ritmos. Para conquistar essa potência só mesmo vivendo um sonho lúcido.   

Penso que um dos poemas do livro, intitulado "Salomé Revisitada (sexta-feira 13)", podemos encontrar a materialização desse procedimento de leitura criativa da tradição e mais especificamente de uma ideia  que fazemos da modernidade. Diz o texto: "Quando adentrou / o recinto do rei, // trazia nas mãos / uma bandeja, // e na bandeja / minha cabeça // o coração / enfiado na boca // e os cabelos guarnecidos / de cerejas." O poema parece estar atravessado por uma linhagem da poesia moderna - e mais especificamente por aquela que inaugura uma certa modernidade - na qual o poeta abre mão de sua cabeça como forma de sacrifício. Abrir mão de sua cabeça no sentido de produzir uma despersonalização, tal como a discute Hugo Friedrich, em "Estrutura da Lírica Moderna", ao propor uma reflexão sobre o conceito de poesia para Edgar Alan Poe, Charles Baudelaire, Fernando Pessoa, Rimbaud, entre outros. 

Poema e ilustração do simbolista Jonas da Silva sobre Salomé para o livro Ulanos(1902).
No desenho, a cabeça do próprio poeta é servida em um prato,
como em um ritual de sacrifício, ou de abandono de si para o surgimento do outro. Ecos de Rimbaud: "Je est un autre"

Com o advento da modernidade (refiro-me a uma modernidade específica, como aquela do século XIX, oriunda da Segunda Revolução Industrial) a poesia deixa ser entendida como linguagem em estado de ânimo. Não estamos mais diante da embriaguez do coração, mas da construção sistemática de uma arquitetura. O poeta passa a ser um operador da língua, um operador de própria tradição (o poeta reinventa a própria tradição, no sentido borgeano), ou seja, é também o operador de uma máquina de produzir imagens. Abrir mão da cabeça, dessa maneira, equivale também a adotar uma outra experiência poética, abandonando uma ideia de literatura entendida como expressão de um sujeito. Sandmann é nesse sentido um fingidor. Feito um João Batista curitiboca (a expressão é carinhosa), entrega a cabeça como forma de redenção. Qualquer semelhança com a capa das revistas do grupo Acephale, liderado por Bataille, não é mera coincidência. 


Capa da Revista Acephale, de Bataille

Abrir mão da cabeça significa compreender que a literatura nasce da morte e da sobrevivência da tradição. Nasce também para devolver vida para os mortos, como Sandmann fez com Sá-Carneiro. Para César Aira, a literatura nasce do abandono. Devemos abandonar para poder criar. No entanto, o próprio abandono deve ser abandonado, o que significa que ser inatual é ser contemporâneo. Mr. Sandmann sabe. Todas essas questões nos levam a vislumbrar um diálogo muito sugestivo entre Sandmann e os poetas simbolistas (Curitiba é o epicentro do simbolismo brasileiro). Essa concepção poética lhe chega também pelas vias desse movimento. Não significa que Curitiba adora cultuar fantasmas, vampiros, mas que sabe ler de forma criativa a própria tradição que inventou. 

CENA DE JORNAL TRIBUNA: Depois de perder a cabeça, o corpo do poeta foi encontrando ainda vivo. O sangue que jorrava ia manchando os papéis que ainda segurava na mão. Ao lado, fazendo careta, como o João Batista de Laforgue, a cabeça, depois de rolar, sangrava cerejas!


domingo, 14 de abril de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Bakun, Poty, Valêncio

                                                                    auto-retrato de Bakun

A figura de Miguel Bakun, um dos maiores pintores do Paraná, sempre me impressionou. Seu traço forte (os adjetivos não não capazes descrevê-lo), que a meu ver figura  entre os mais expressionistas do nosso país, fundou no Paraná uma linhagem de pintores interessados nessa estética cerebral que pinta a própria linguagem e não apenas a natureza ou a embriaguez do coração. Lembro de Bakun quando vejo os desenhos de Poty, as ilustrações do jovem Fabiano Viana, bem como quando leio a prosa de Dalton Trevisan. Um dos retratos do pintor nascido em Mallet, mas que viveu boa parte de sua vida em Curitiba, foi produzido pelo Poty, para figurar no livro "A propósito de Figurinhas", de Valêncio Xavier. O livro, inspirado nas tradicionais balas Zequinha, apresenta, além da imagem, um poema de Valêncio sobre Bakun: "Foi ser pintor / do pinho fez o quadro / da estopa fez a tela / da terra fez a tinta / da corda do enforcado / fez os pêlos do pincel / e começou seu retrato / saiu a cara do Miguel Bakun / não tenho nada a dizer". No desenho, o quadro com o semblante de Bakun sobrepõe-se ao rosto, que não aparece mas que também é uma representação (palavra estranha que apesar de tudo ainda ouso usar). Desenho sobre desenho, camada sobre camada, personagem sobre personagem, o espelho pelo avesso de si mesmo. Bakun ganha, assim, uma aura fantasmática no livro "A propósito de figurinhas". O que por sua vez injeta potência na própria figura do escritor que, ao fazer da arte uma forma suprema de vida, comete o suicídio, gesto máximo do silenciar, fazendo do fim um quadro trágico de sua vida pintado a garrote. Pobre e sem o reconhecimento do público e da crítica, o artista enforca-se em 1963. Bakun reaparece em outros dois livros de Valêncio. Primeiro no livro "Curitiba de Nós". Depois no livro "Poty, trilhos, trilhas e traços", uma biografia sobre o maior muralista do Paraná. Ao apresentar a influência do pintor de Mallet na obra de Poty, Valêncio compara a obra de Bakun a de Goeldi. Estamos diante de um homem-fantasma, rabiscado por Goeldi: "Coisa que não consigo entender é como o Goeldi, que nunca veio a Curitiba, nem conhecia o Bakun, creio eu, fez, nessa gravura que mandou para a Joaquim, um homem com a cara dele, torturado como ele era no meio duma paisagem bem alucinada como a dos quadros de Bakun". Bakun talvez seja o homem do guarda-chuva vermelho da xilogravura de Goeldi que caminha na selva escura da cidade para lugar  nenhum.
Depois de assistir ao curta-metragem de Sylvio Back sobre Bakun fiquei ainda mais fascinado ainda pela figura do pintor suicida (O município de Mallet tem valorizado seu artista mais importante?). A trilha sonora mística cria um forte impacto ao misturar-se com as pinturas apresentadas no vídeo. Em uma das cenas mais impressionantes, Back filmou uma médium que incorporou o espírito do pintor. Então, Bakun (seu espírito ou seja lá o que for) fala sobre a arte e sobre o suicídio. Cinema, espiritismo, pintura e mistério se misturam compondo algo que transcende o próprio cinema como os quadros do artista transcenderam a própria arte vigente no Estado.

Ilustração de Bakun feita por Poty para o livro A propósito de figurinhas, de Valêncio Xavier

Ilustração de Poty e texto de Valêncio Xavier sobre Bakun para o livro Curitiba de Nós

Ilustração de Goeldi, presente na biografia de Poty escrita por Valêncio Xavier

segunda-feira, 1 de abril de 2013

PERIMETRAL


                                                           Jardim das Delícias, de Bosch

No verão, a Perimetral de Porto União é o jardim das delícias de Bosch. Me encanta o vai e vem de suas gazelas eufóricas e dedicadas na arte de um andar quase voo. Invento um passeio só para flanar nesse museu a céu aberto de quadros e musas, donas de casa e cães de caminhada, jovens e cardíacos, estes reincidentes no pecado da gula e sedentarismo. Mas gosto mesmo de mirar as musas. Vejo Vênus, esbelta, saindo da concha, da curva, a dama de cabelos dourados e esvoaçantes, protetor solar fator 30, tênis com amortecedor da Nike, pernas longas, porte fino. Roupa discreta, sem curvas, nada barroca, apenas clássica, como sempre se supôs. Só não é perfeita porque lhe falta o encurvamento das formas, bem como a minha companhia no trote do flanar. Delira-me a dança de seus cabelos como delirou a Homero que disso fez canção. Botticelli pintou Zéfiro a soprar  as melenas da ninfa não menos aquática que a fonte. Olho tudo. Mas vejo somente aquilo que eu quero. É preciso contemplá-la antes que o passeio acabe, antes que o verão acabe, antes que ela case, se mude para Curitiba, ou volte aqui, depois da lua de mel, com gajo e anel. Vejo Monalisa (sua voz falando baixinho dentro da minha), caminhando com a amiga, uma ruiva de Botero, que é caixa de supermercado. Ambas levitando com o doce incenso de um suor a não poupar perfume e propostas pouco ingênuas. Apresso o passo e chego mais perto. Falam de homens e outras sobremesas, surpresa nenhuma. Vejo Primavera acompanhada das três Graças. Todas riem, menos uma delas que, ouvindo seu MP3, nem olha para os lados. Ou talvez nada escape pelo canto de seus olhos de lua e lince. Que música penetra em seus lindos ouvidinhos de dobras e dengos de aurora? Em meu escritório, num dia chuvoso, me quedo a contemplar a lembrança fictícia desses quadros. Escrevo para não perdê-los. Guardar acesa no texto - caixa de cachivaches - a ruína de uma rubra memória. Apenas um lamento: no quarto ao lado, limpando as vidraças, Isabel, sem escolha e sem passeios, nem sonha o que vou fazendo por aqui. Que música toca no ouvido da Graça? Quem saberá? Nunca olvidar das graciosas gazelas de nuestra perimetral. Nossas Graças, como as de Rubens, têm curvas. Queira Zeus que os exercícios do caminhar não lhes furtem esse bem precioso.