quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Patafísica e Simbolismo


Alfred Jarry

Asger Jorn, que foi engajado na causa situacionista, escreve em “La patafísica, una religión en formación” (2003), que a história das religiões se compõe aparentemente de três estágios, ou seja, três religiões. A primeira é a religião chamada materialista, ou natural, aquela que chegou a sua maturidade na Idade do Bronze. A segunda é a religião metafísica, que começa com o zoroastrismo e se desenvolve através do judaísmo, do cristianismo, passando pelo islamismo até o movimento da Reforma, no século XVI. A terceira religião é aquela surgida no século XX a partir das ideias de Alfred Jarry. Trata-se de uma nova religião, a patafísica. 

Enquanto a religião natural era uma confirmação espiritual da vida material e a religião metafísica representava uma oposição cada vez mais profunda entre a vida material e espiritual, a religião patafísica, filiada no pressuposto de Kierkegaard, segundo o qual é necessário crer no absurdo, apresentaria uma nova mitologia. Essa nova religião estaria pautada na crença das equivalências, equivalências entre os deuses, homens e objetos. 

A patafísica englobaria indiferentemente todas as religiões possíveis do passado, do presente e do futuro. Mas há uma provocação muito interessante que é ressaltada por Jorn, segundo o qual o mérito da patafísica consiste em ter confirmado que não há nenhuma justificação metafísica para obrigar todas as pessoas a acreditar em um mesmo absurdo. Encontramos aqui, na aceitação de que as possibilidades do absurdo são diversas, a tese anarquista dos patafísicos: “(...) a cada cual sus propios absurdos. El poder legal que fuerza a todos los miembros de la sociedad a someterse completamente a las reglas del absurdo político del Estado expresa lo contrario” (JORN, 2003).   

A patafísica, uma arte do viver, ou mesmo uma religião sem igreja, seria assim uma espécie de religião da “passividade”, da “pura ausência”. Como não poderia deixar de ser, a organização do Colégio Patafísico se daria como paródia. Encontramos em seus organogramas estatutos e hierarquias que fazem lembrar a sistematização de sociedades sérias e bem organizadas, mas, aqui, trata-se de uma paródia, já que a linha que separa o sério do jocoso se perdeu.

Que tipo de conhecimento está em jogo aqui? Estamos diante de uma recusa do positivismo, mas não uma mera negação e sim um mergulho carnavalizado contra a doutrina do progresso numa época em que a ciência e a filosofia pensavam pisar em terreno seguro e circunscrito. Defendendo que tudo pode ser o oposto, os patafísicos não hesitaram em afirmar que a essência do mundo só poderia ser uma alucinação. Vamos aqui uma aproximação com o movimento simbolista de poesia.  Claudio Willer observou que o encontro dos dois simbolismos, o literário e o hermético, deu-se de modo mais rico em Alfred Jarry, ponte entre a poesia simbolista e vanguardas. Jarry, que recorreu ao ocultismo, imprimindo em sua obra, à sua maneira, a conjunção dos contrários, emO amor absoluto, sugere o amor incestuoso entre Cristo e a Virgem; emCesar Anticristo, Nero é interpretado como santo; em Messalina, vê a grande prostituta como santa. As inversões promovidas por ele tendem a tomar cada personagem por seu contrário, um princípio da simbólica. Assim, magia e literatura estariam intimamente ligadas para Jarry:

 Aplica, a seu modo, a coincidentia oppositorum, conforme Éliphas Lévi. Portanto, o que poderia ser tomado como excentricidade ou manifestação de loucura, as inversões de valores e símbolos, substituições de signo e significado, tem intenções precisas, fundamentadas em estudos sistemáticos (...) Na criação e encarnação de Ubu, e em tantas outras ocasiões e episódios, Jarry pôs em ação o pensamento mágico, ao identificar linguagem e realidade, querendo que o símbolo fosse ativo no plano do real. De modo assistemático e anárquico, um empreendimento assemelhado àquele do mago.Uma figura como Jarry representa a Belle Époque. Portanto, foi um homem de seu tempo, do “grande banquete”, entre 1885 e 1918, marcado pela intensa exteriorização da vida cultural, quando, argumenta Roger Shattuck, a obra de arte passa a ser vista, não mais como reprodução de uma norma, mas como desvio das normas, iniciando-se o primado vanguardista da experimentação. Correlatamente, o artista não é mais quem eterniza, a seu modo, o cânone, o ideal estético à maneira do classicismo, mas aquele que rompe com esse ideal, afirmando-se como diferença, como individualidade radical (WILLER, 2009). 

Curiosamente, o patafísico estaria construindo uma ponte entre o simbolismo e a arte de vanguarda no século XX. Poderíamos imaginar, então, que a crença patafísica na equivalência dos contrários não significava apenas uma provocação gratuita, mas a absorção de um princípio da magia, pressupondo assim um outro tipo de conhecimento, considerado já na definição proposta por Jarry: “a patafísica é a ciência das soluções imaginárias”. O paideuma já aparece em um dos capítulos de Gestas e Opiniões do Doutor Faustroll, Patafísico (2004). Presentes na biblioteca de Faustroll Baudelaire, Maeterlink, Mallarmé, Péladan, Verlaine e Rimbaud. São um pequeno número de eleitos que não só reforçam o pertencimento de Jarry à esfera da poesia finissecular, como apontam seu interesse pelo pensamento mágico. A equivalência dos contrários é reafirmada por René Daumal, “La Patafísica y la revelación de la risa”, em que o humor, via riso patafísico, é lido como a consciência viva de uma dualidade absurda que reinventa os olhos: “en este sentido, es la única expresión humana y, cosa destacable, formulada en un lenguaje universal, expresión de la identidad de los contrarios (...)”. Assim, o riso do patafísico era também a única “expressão humana do desespero”. 

A peça Ubu Rei, de Alfred Jarry, foi encenada pela primeira vez em 10 de dezembro de 1896, pelo Théâtre de l`Oeuvre de Paris, um reduto simbolista do final do século XIX. A peça, marco inicial da Patafísica, é considerada como precursora de algumas das linhagens teatrais mais importantes do século XX, como o Dadaísmo, o Surrealismo, o Teatro do Absurdo e a performance. Cumpre lembrar que na avidez do personagem Ubu, Jarry sublinha a “força irrepreensível dos instintos, cuja única justificativa são as necessidades primárias do estômago. Não por acaso, cornegidouille (cornupapança) é a palavra cunhada por Jarry para expressar as maiores fontes de poder de Ubu, os cornos e o ventre monstruoso (...)” (FERNANDES in JARRY, 2007. P. 16). 




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