segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O carrasco e a vítima
baudelaireando no séc. XXI

Somos todos Carrascos na cena de Fou Tchou Li E também a vítima. A mirar o linchamento Daquele ser que teatraliza Sua própria morte Sem, no entanto, Urrar de angústia Gritar de dor. Somos todos Carrascos na cena de Fou Tchou Li E o próprio ser que se abre aos cortes Como um cravo desabrocha Fou Tchou Li inventou um outro Bunraku Boneco cheio de sangre Sem nada de lágrima Fou Tchou Li lambe suas próprias chagas E tomado pelo ópio De leve sorri Ao ser esquartejado Fou Tchou Li está em todos os lados O personagem desse kabuki Festeja o suplício dos “cem pedaços”
c.moreira
O ELEFANTE



Eis-me levado em dorso elefantino... Feito o poeta-cometa-semântico Vielimir Khlébnikov Eis-me aqui senhor Eis-me aqui fanfarrão Espero que a tua tromba Não seja senão a de um elefantinho . Tem que ser dos grandes tem que ser dos bons
ora direis elefantinho Ora direis elefantão. Enquanto a virgem se deleita Numa augusta e harolda senda branca e barroca De um agora outro elefante, o traduzido Só me resta subir no seu dorso e seguir adiante

c.moreira
ISTO AQUI NÃO É UM GATO
SEGUINDO OS PASSOS DE MAGRITTE


descrever o olho-objeto cheio de nuances querendo cheio de minúcias extraindo o azul compacto querendo do objeto apenas o ultra super trajeto fazer como se fosse de verdade a ilusão do substrato o azul que mora no olho apenas se diz como se quisesse dar graça no poema a mais presente verdade verdadeira e para que tudo se resumisse e se deixasse em realidade como se as coisas descritas sempre pudessem sempre ser elas de verdade inteiras

c.moreira
WALY AQUI ALI

EU. eu sigo "dos" passos - não "os" passos - do piloto-caixeiro-pirata da Stultífera Navis como quem quer tudo difícil, nada fácil como quem tem "olho míssil, não fóssil"eu apenas sigo, pressinto sinto e me examino na margem de um fonema dissonante na espreita de um tiro sem destino A BALA que me segue pensa que não balança pensa que um dia chega, mas nunca chega, apenas dança É que PRESSINTO olhar para o lado desviar o meu rosto assim meu contínuo ritual, palavra que apago à borracha, DESVIOÂNGULO AMBULANTE assim talvez não me dê nenhum troço, assim talvez eu adie meu súbito final

c.moreira

(foto: parangolé: h. oiticica)
CORPO ANTIGAMENTE



Enquanto minha cabeça pensa Meu corpo pesa. Minha cabeça organiza meu tempo Mas meu corpo nunca espera. Meu corpo tem vida própria E pensa mais nele do que nos outros. No entanto, já sou um outro e mais outro Pensa o meu lado de fora No meu lado de dentro. Sou um mais um igual a um. Minha matemática é morte épica. Enquanto isso, tento comandar Meus anti-parcos instintos, meus lábios famintos, meus desejos fesceninos, Uma coisa estranha que eu mesmo nunca inventei Mas sempre existiu no próprio pensamento Nas ondas e ondas de um bico seio No meio fabuloso de seus pêlos negros Que num simples segundo Desconstroem toda a minha Grade conceitual Essas glândulas-constelações não são astronômicas mas sempre mudam meu astral.

sábado, 13 de setembro de 2008

POEMA PARA CALAR A BOCA

"QUEM ME DERA SE DEUS PERMITISSE
E A TAREFA NÃO SERIA POUCA
DESVENDAR TODOS OS MISTÉRIOS
ESCONDIDOS NAS ESTRELAS
DO CÉU DE SUA BOCA"
.
C. MOREIRA

quarta-feira, 3 de setembro de 2008



LEMINSKIANDO

QUEM DE TI NÃO PRECISA,
PRECISA PROEZA,
A PACIÊNCIA ALQUÍMICA
DE TRANSFORMAR FERRO EM OURO
ENQUANTO A BRASA LENTA
ESQUENTA

A PACIÊNCIA DE FAZER
ALGO ALÉM DE ALGO
O MUNDO VELOZ
EM FILME DE CÂMERA LENTA

POETA SEM SETA E SENTIDO
ALVO INVENTA

c.moreira


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

CESTRUM NOCTURNUM

Uma dama da noite já nasce cheirosa toda propícia para encantos. Seu destino de flor não impede de invadir a vizinhança que a toma de ardores pelo faro de seus segredos e mesuras. Tem da noite todas as delícias e sentidos, e da manhã todas as olheiras que o sol traz – é chegada a luz que silencia todos os seus rubros uivos de planta inebriante, quase uma gata feroz. Mas é só voltar a lua e logo comunica através do vento os seus talentos para rainha endiabrada da noite. Com propósito seduz o vagabundo a perambular pela rua, sedento por arrancar-lhe a roupa, todas as folhas, galhos até a raiz; Colhendo todas as flores na lapela, e a correr para casa crente a capturar seus vestígios e fazê-los cativos até quando o tempo deixar. Em vão. Não à toa uma dama da noite aprendeu com as outras damas todas as astúcias e macetes necessários para continuar sendo assim uma espécie estranha de enigma. De dia, recolhe todo o seu ardor para que à noite, enfim, renasça o perfume, cestrum nocturnum, fina flor de desejo, sentido e paixão.
c. moreira