quinta-feira, 15 de dezembro de 2022
Sueño de tango
O encantado
Eis que versa o seu lamento
Gal Fa-tal
Morrer é assim
quarta-feira, 6 de abril de 2022
"Moacir"
"Moacir" é um poema que escrevi para meu avô. É sobre ele, mas também sobre aqueles que vieram antes dele, e para os que virão depois. Foi publicado inicialmente numa edição da @quintamaldita , do Demétrio Panarotto. Aqui, o poema pode ser ouvido na linda voz da poeta Elisa Tonon. Na foto, meu avô, criança, no colo de seu pai João Moreira.
Poema:
sábado, 1 de janeiro de 2022
Maria Sandlak Pastuchen
(à memória da família Pastuchaki)
A
avó da minha avó,
ou melhor, a mãe da mãe
da mãe de minha mãe,
era bonita,
mas tinha o olhar triste.
É o que a foto me diz.
Sobre ela pouco sei.
Quase nada. Mas a foto,
que me chegou hoje ao acaso,
como presente ou destino,
revelou para mim seus olhos tristes.
Vinha dela a filha com olhos azuis
a lembrar o turquesa que me deu a bisavó.
São os tons claros que me signaram
os olhos que trago.
Sei que tinha o nome
da filha, ou melhor, que a filha
tinha o nome da mãe, Maria.
Minha mãe, aliás, também tem este nome.
Quantas Marias pariram o mundo?
Entre as três Marias, estrelas,
(duas delas brilhando no céu)
uma quarta, Helena.
O marido da Maria mais velha
era mesmo um João, João Pastuchen,
que no Brasil virou Pastuchaki.
É um mistério.
Quantos Joões lavraram o mundo?
A foto não diz, mas meus tataravós chegaram
no Brasil em 17 de julho de 1895,
no Rio de Janeiro, ou teria sido em
21 de março de 1896.
Há uma imprecisão na data, como tudo
ou quase que rege ou ronda nosso passado remoto.
Em 17 de julho de 1895, o Frei Marciano
publicava no jornal O Apóstolo (RJ) um relatório
recomendando a intervenção do Governo em Canudos.
O religioso, ali, elogiava a energia e o patriotismo
do Presidente Prudente de Morais.
A Guerra logo chegaria. João era também
o nome de um dos Companheiros
de Antonio Conselheiro.
Em 21 de março de 1896 nascia o matemático,
filósofo e físico Friedrich Waismann,
que era austríaco como João,
muito embora sob o domínio do Império
Austro-Húngaro, a terra de meu tataravô
talvez fosse mesmo a Galícia, na Ucrânia.
Talvez ele assim se considerasse,
Muito embora a sonoridade de seu sobrenome indicasse uma origem judia.
Muitos que viviam na região eram também judeus. Do Pastuchen judaico ao Pastuchaki
ucraniano, o antissemitismo já favorecia a diáspora. É bem
provável, porque um teste de ancestralidade genética revelou em mim
6% de sangue judeu.
Viria
de lá, do meu lado Pastuchen?
Porque trocaram de nome lá ou aqui, no processo de imigração?
O Arquivo Público do Paraná
informa que o número de minha família
era 243. Está no livro 821 n° 1219.
O livro informa também que João
era católico e agricultor.
Que a família tinha como destino à Colônia Rio Claro,
mas não informa como vieram parar em Caçador (SC).
O arquivo diz ainda que João e Maria chegaram
com os filhos Tomaz e Pedro. Os outros nasceriam no Brasil:
Demétrio, Catarina, Alexandre, Maria, Lídia e Odócia (Doca).
(Lídia
foi criada por outra família. É mais um mistério. Os detalhes do fato
estariam ligados à pobreza da época. A menina teria voltado para os pais depois
de alguns anos).
(Maria,
a filha, que me liga ao clã, trabalhou como doméstica na juventude.
No surto da gripe espanhola, cuidou sozinha da família do patrão, um
médico de Porto União. Todos na casa haviam sido contaminados menos a empregada).
A
Doca está na foto, ao lado da mãe. Tem o olhar feliz,
o mesmo que conheci na velhinha,
irmã de minha bisavó, que um dia abracei.
O arquivo não informa se a família de número 243
estava feliz no Brasil. Se viviam em boas condições.
Se aprenderam com facilidade a falar o português.
Se comiam pirogue ou sopa borsch.
Se cantavam no Brasil em ukrayins'ka suas hailkas da Terra Natal.
A foto não mostra o João, mas numa outra
imagem - que vi na infância -, talvez agora perdida,
descobri que ele tinha um olho apenas.
Teria perdido a vista em alguma
batalha no Leste Europeu?
Minha tataravó tinha os dois olhos,
mas desconfio que não enxergavam só o Brasil.
Quase 130 anos depois de abandonar seu solo calejado,
a velha Maria mira triste nos olhos do tataraneto
e vê nos dele refletidas a imagem dela mesma
e sua memória de tantas luas eslavas.
Caio Ricardo Bona Moreira
domingo, 20 de junho de 2021
Dádiva
Diviso-te, assim, como uma dádiva por dar ao desenho da foto um quê de luz e cor e contornos tão espontâneos. E por ser tão espontaneamente o dom de si própria para si mesma - e para o outro que diz amar - só me cabe como efeito evocá-la numa talvez vã tentativa de sugeri-la já que a descrição só faz substrair boa dose da animada fulguração de tua beleza e graça, seja nas manhãs sem maquiagem, filtro ou qualquer outro artifício, de cara lavada e sem ainda escovar os dentes, seja na tarde que nasce com os teus cabelos penteados depois do almoço ao som da TV num canal ao léu, seja ainda no anoitecer esfumando azul e cobre no idílio de duas metades, lusco-fusco, arrebol, ou já na noite profunda em que se adorna com fantasia, brilho e perfume, combinados numa engenharia calculadamente precisa e feminina. Diviso-te, assim, na foto, entre uma e outra parede de vermelho carmim, com a pele tocada por aquela luz que transpassou a janela só para iluminar você. E se sorve com volúpia ou mera elegância teu gim com tônica, limão e zimbro, enquanto lê, é para sentir nesses dias de clausura e temor o amargo misturado ao doce numa transa que fosse como o claro e escuro, o frio e calor que equilibram a vida. Nas horas vadias do nosso confinamento você vai me ensinando que ficar dentro de si, seja onde for, geralmente pode ser mais belo e interessante do que passear livre pelas ruas da cidade ou em qualquer lugar.
c.moreira
sexta-feira, 30 de abril de 2021
Para Gullar, quando fez 90 anos
O poeta diz o ver
Iemanjá
Dedicado à memória de Mãe Giselle Cossard
Dona de muitos filhos,
Peixes e nomes,
Janaína, Iamassê,
Dandalunda, Inaiê,
Asagba ou Sobá,
Mucunã, Oguntê,
Princesa de Aiocá,
De olhos azuis,
Serena e francesa
É Omindarewá
Ela é quem pesca o pescador
De Ondina a Amaralina
Do Pontal ao Arpoador
Mora nas águas fundas e grandes
Mora na beira do cais ou da praia
E na água salgada
Que rola em meu rosto
Lavando minh'alma
Molhando meu olhar!
c.moreira
Imagem: Iemanjá na casa de Jorge Amado
Bleu
quarta-feira, 21 de abril de 2021
Moacir
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021
Os Buenos
Seriam pássaros feito anjos, não fosse a ausência de asas, bem como o excesso de amor pelos livros, essa fonte ou deságua de tanto desejo e inenarrável paixão. Com qualidades variadas, a julgar pelo nome, são capazes de bem falar várias línguas ou de escrever com presteza o que chamamos de vida, mal rompa a aurora com seus tons violáceos no matiz virginal da manhã. No entanto, gostam mesmo é da noite, quando enclausurando-se nos breus dos bares se travestem de artistas, poetas polimórficos fingindo ser o que de fato e direito são. Nesse palco, são capazes de clarear a escuridão só com seus paetês refletindo a luz de spots, tal qual um ouro de Ofir. Tudo com graça e dom como quem inventaria novos ritmos no arpejo musical de uma cadência que vai se dobrando ao infinito numa trama barroca de luz e sombra. Revoltam-se mas sem nunca perder a ternura, embora a solidão maltrate voraz seus corações inebriados de gim e canção. Talvez por isso muitos deles sejam dedicados na arte de colecionar uma gama enorme de bichos, estranhamente guardados no seio de seus bestiários. Na ficção, os Buenos, infelizmente, morrem cedo, ou seja, antes que a faca do fim corte naturalmente o fio de seus dias. Na vida real, ao contrário, encantam-se, fadados sem dublê a levantarem do chão tirando o pó das roupas, depois de ouvirem ansiosos a sentença final: “Corta!”.
c.moreira
Imagem: cena do filme Asas do Desejo, de Wim Wenders
quarta-feira, 25 de novembro de 2020
Canto e sangue negro de um branco
Comentários
domingo, 1 de novembro de 2020
Vejo Ana C. numa foto colorida por Rubens A.
terça-feira, 20 de outubro de 2020
Vinícius de Moraes
terça-feira, 6 de outubro de 2020
Praça Alvir Riesemberg
Na Praça Alvir Riesemberg, o busto de Getúlio recebe flores, ano após ano, religiosamente, no fatídico 24 de agosto. No local, tudo envelhece menos o presidente, fundido em metal perene, e a célebre dúvida: foi assassinato ou suicídio? No começo de setembro, ainda é possível vislumbrar a homenagem posta ali por algum fiel correligionário do PDT. Mas dia após dia o buquê vai decompondo como a história do Brasil, contrastando com o monumento a simbolizar outra decadência, a de um país petrificado pela mão do homem e pelo olhar da Medusa. A estátua solitária faz lembrar o sujeito parado na esquina do Boulevard du Temple na foto de Daguerre. Em repouso, a personagem lustra os sapatos e tem por isso sua imagem gravada pelo daguerreótipo. Os que passam pela rua não são registrados na foto porque estão em movimento. O filósofo Giorgio Agamben enxergou nessa foto, e na fotografia em geral, a imagem adequada do Juízo Universal: “A multidão dos humanos – aliás, a humanidade inteira – está presente, mas não se vê, pois o juízo refere-se a uma só pessoa, a uma só vida: exatamente àquela, e não a outra”. Assim como o homem que lustra os sapatos e o busto do presidente, uma foto e um poema existem para serem vistos ou lidos, mas também para nos lerem ou verem lá de onde estiverem. No fim, não seremos nós as imagens deles? Dependendo da posição em que estou é a estátua que me olha. No Dia do Juízo, todos serão julgados: o homem que lustra os sapatos, o presidente, a mulher do presidente, o juiz, o ministro, as fotos, os poemas, nós mesmos, e os assassinos que num dos prédios defronte à praça esquartejaram o corpo de um homem que saiu da vida para entrar para a história. Como os crimes não são perfeitos, os rastros sempre aparecem com o tempo ou com luminol. Nas fotos, estátuas, textos e autos policiais, os finados estão sempre lá a nos perscrutarem da iníqua profundeza da morte, dispostos a contar o que de fato aconteceu. Mas a verdade nem sempre vem à tona porque os mortos não falam e o silêncio dá margem para muitas interpretações.c.moreira
Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR (03/10-2020)
Na Praça Alvir Riesemberg, o busto de Getúlio recebe flores, ano após ano, religiosamente, no fatídico 24 de agosto. No local, tudo envelhece menos o presidente, fundido em metal perene, e a célebre dúvida: foi assassinato ou suicídio? No começo de setembro, ainda é possível vislumbrar a homenagem posta ali por algum fiel correligionário do PDT. Mas dia após dia o buquê vai decompondo como a história do Brasil, contrastando com o monumento a simbolizar outra decadência, a de um país petrificado pela mão do homem e pelo olhar da Medusa. A estátua solitária faz lembrar o sujeito parado na esquina do Boulevard du Temple na foto de Daguerre. Em repouso, a personagem lustra os sapatos e tem por isso sua imagem gravada pelo daguerreótipo. Os que passam pela rua não são registrados na foto porque estão em movimento. O filósofo Giorgio Agamben enxergou nessa foto, e na fotografia em geral, a imagem adequada do Juízo Universal: “A multidão dos humanos – aliás, a humanidade inteira – está presente, mas não se vê, pois o juízo refere-se a uma só pessoa, a uma só vida: exatamente àquela, e não a outra”. Assim como o homem que lustra os sapatos e o busto do presidente, uma foto e um poema existem para serem vistos ou lidos, mas também para nos lerem ou verem lá de onde estiverem. No fim, não seremos nós as imagens deles? Dependendo da posição em que estou é a estátua que me olha. No Dia do Juízo, todos serão julgados: o homem que lustra os sapatos, o presidente, a mulher do presidente, o juiz, o ministro, as fotos, os poemas, nós mesmos, e os assassinos que num dos prédios defronte à praça esquartejaram o corpo de um homem que saiu da vida para entrar para a história. Como os crimes não são perfeitos, os rastros sempre aparecem com o tempo ou com luminol. Nas fotos, estátuas, textos e autos policiais, os finados estão sempre lá a nos perscrutarem da iníqua profundeza da morte, dispostos a contar o que de fato aconteceu. Mas a verdade nem sempre vem à tona porque os mortos não falam e o silêncio dá margem para muitas interpretações.
c.moreira
Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR (03/10-2020)















