Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Sueño de tango



Messi é um acontecimento! Força, ímpeto, movimento, precisão, imaginação, beleza, seriedade e respeito, tudo o que um bom bailarino de tango oferece quando dança. No passe ou passo de un gancho, un boleo, la finta, aguja, lapiz y ocho. Un señor milonguero!! Quando a bola chega em seus pés (qual mãos de maestro escrevendo no ar um compasso) do céu azul de Rosário - como se a distância longínqua ou o tempo não fossem mais do que um drible ou uma música de Osvaldo Pugliese ou uma nota de Piazzola - dá de ouvir um anjo rebelde desses de arrabalde que é também um sol a sussurrar: !baila baila!

c.moreira

O encantado



Eis que versa o seu lamento

Aquele que cantou em rima
O peito ilustre Lusitano
Do Algarve até o Aveiro
De Cascais até Barreiro
do Tejo ao Bojador
História anunciada
Numa lenda que pervive
Lá na Ilha dos Lençóis
do Maranhão
É o fado e o fardo
Que vira festa
Em Rabat ou Marrakech
Em Alcácer-Quibir ou Agadir
Lá nas terras do açafrão
Com o gol de El-Nesyri
Encantou-se o encantado
Que voltou agora vertido
Em craque mouro marroquino
El Rei Dom Sebastião

c.moreira

Gal Fa-tal






 Morrer é assim

Como dizem alguns
Uma coisa muito normal
Todo mundo morre um dia
Ou de susto
Ou de doença
De acidente
Ou de causa natural
Fosse assim tão simples
Não deixava ninguém surpreso
Tão triste
Esse aperto no peito
Esse nó na garganta
Essa saudade que fica
E vai levando a todo vapor
um pouco
da gente junto
Sem deixar nenhum sinal
Hoje o dia amanheceu
tão claro,
Divino e maravilhoso
E ninguém imaginava
O vendaval
Porque no fundo
Tempo bom
não tem Tempo
pra temporal
Vi que o Gil
Falou da voz
Maviosa da Gal
Vi Bethânia
Em choque
Chorar ao lembrar
De sua voz magistral
Vi Caetano relembrar
A canção "Sorte" e
E o beijo entre eles
Na cena final
E tudo me fez pensar em
Como o dia pôde nascer
Tão claro justamente
Na manhã em que se apagam
Para sempre aqui
Os olhos acesos da Gal?
Como pode a vida
Ser ao mesmo tempo
Tão doce e tão bárbara
Tão Azul e tão Fa-tal?

c.moreira

quarta-feira, 6 de abril de 2022

"Moacir"


"Moacir" é um poema que escrevi para meu avô. É sobre ele, mas também sobre aqueles que vieram antes dele, e para os que virão depois. Foi publicado inicialmente numa edição da @quintamaldita , do Demétrio Panarotto. Aqui, o poema pode ser ouvido na linda voz da poeta Elisa Tonon. Na foto, meu avô, criança, no colo de seu pai João Moreira.

Poema:

https://www.youtube.com/watch?v=rqwJhaSnPUs

sábado, 1 de janeiro de 2022

Maria Sandlak Pastuchen


(à memória da família Pastuchaki)

A avó da minha avó,
ou melhor, a mãe da mãe
da mãe de minha mãe,
era bonita,
mas tinha o olhar triste.
É o que a foto me diz.
Sobre ela pouco sei.
Quase nada. Mas a foto,
que me chegou hoje ao acaso,
como presente ou destino,
revelou para mim seus olhos tristes.
Vinha dela a filha com olhos azuis
a lembrar o turquesa que me deu a bisavó.
São os tons claros que me signaram
os olhos que trago.
Sei que tinha o nome
da filha, ou melhor, que a filha
tinha o nome da mãe, Maria.
Minha mãe, aliás, também tem este nome.
Quantas Marias pariram o mundo?
Entre as três Marias, estrelas,
(duas delas brilhando no céu)
uma quarta, Helena.
O marido da Maria mais velha
era mesmo um João, João Pastuchen,
que no Brasil virou Pastuchaki.
É um mistério.
Quantos Joões lavraram o mundo?
A foto não diz, mas meus tataravós chegaram
no Brasil em 17 de julho de 1895,
no Rio de Janeiro, ou teria sido em
21 de março de 1896.
Há uma imprecisão na data, como tudo
ou quase que rege ou ronda nosso passado remoto.
Em 17 de julho de 1895, o Frei Marciano
publicava no jornal O Apóstolo (RJ) um relatório
recomendando a intervenção do Governo em Canudos.
O religioso, ali, elogiava a energia e o patriotismo
do Presidente Prudente de Morais.
A Guerra logo chegaria. João era também
o nome de um dos Companheiros
de Antonio Conselheiro.
Em 21 de março de 1896 nascia o matemático,
filósofo e físico Friedrich Waismann,
que era austríaco como João,
muito embora sob o domínio do Império
Austro-Húngaro, a terra de meu tataravô
talvez fosse mesmo a Galícia, na Ucrânia.
Talvez ele assim se considerasse,
Muito embora a sonoridade de seu sobrenome indicasse uma origem judia.
Muitos que viviam na região eram também judeus. Do Pastuchen judaico ao Pastuchaki ucraniano, o antissemitismo já favorecia a diáspora. É bem provável, porque um teste de ancestralidade genética revelou em mim 6% de sangue judeu.

Viria de lá, do meu lado Pastuchen?
Porque trocaram de nome lá ou aqui, no processo de imigração?
O Arquivo Público do Paraná
informa que o número de minha família
era 243. Está no livro 821 n° 1219.
O livro informa também que João
era católico e agricultor.
Que a família tinha como destino à Colônia Rio Claro,
mas não informa como vieram parar em Caçador (SC).
O arquivo diz ainda que João e Maria chegaram
com os filhos Tomaz e Pedro. Os outros nasceriam no Brasil:
Demétrio, Catarina, Alexandre, Maria, Lídia e Odócia (Doca).

(Lídia foi criada por outra família. É mais um mistério. Os detalhes do fato estariam ligados à pobreza da época. A menina teria voltado para os pais depois de alguns anos). 

(Maria, a filha, que me liga ao clã, trabalhou como doméstica na juventude. No surto da gripe espanhola, cuidou sozinha da família do patrão, um médico de Porto União. Todos na casa haviam sido contaminados menos a empregada).  

A Doca está na foto, ao lado da mãe. Tem o olhar feliz,
o mesmo que conheci na velhinha,
irmã de minha bisavó, que um dia abracei.
O arquivo não informa se a família de número 243
estava feliz no Brasil. Se viviam em boas condições.
Se aprenderam com facilidade a falar o português.
Se comiam pirogue ou sopa borsch.
Se cantavam no Brasil em ukrayins'ka 
suas hailkas da Terra Natal.

A foto não mostra o João, mas numa outra
imagem - que vi na infância -, talvez agora perdida,
descobri que ele tinha um olho apenas.
Teria perdido a vista em alguma
batalha no Leste Europeu?
Minha tataravó tinha os dois olhos,
mas desconfio que não enxergavam só o Brasil.
Quase 130 anos depois de abandonar seu solo calejado,
a velha Maria mira triste nos olhos do tataraneto
e vê nos dele refletidas a imagem dela mesma
e sua memória de tantas luas eslavas.


Caio Ricardo Bona Moreira

 

domingo, 20 de junho de 2021

Dádiva




 Diviso-te, assim, como uma dádiva por dar ao desenho da foto um quê de luz e cor e contornos tão espontâneos. E por ser tão espontaneamente o dom de si própria para si mesma - e para o outro que diz amar - só me cabe como efeito evocá-la numa talvez vã tentativa de sugeri-la já que a descrição só faz substrair boa dose da animada fulguração de tua beleza e graça, seja nas manhãs sem maquiagem, filtro ou qualquer outro artifício, de cara lavada e sem ainda escovar os dentes, seja na tarde que nasce com os teus cabelos penteados depois do almoço ao som da TV num canal ao léu, seja ainda no anoitecer esfumando azul e cobre no idílio de duas metades, lusco-fusco, arrebol, ou já na noite profunda em que se adorna com fantasia, brilho e perfume, combinados numa engenharia calculadamente precisa e feminina. Diviso-te, assim, na foto, entre uma e outra parede de vermelho carmim, com a pele tocada por aquela luz que transpassou a janela só para iluminar você. E se sorve com volúpia ou mera elegância teu gim com tônica, limão e zimbro, enquanto lê, é para sentir nesses dias de clausura e temor o amargo misturado ao doce numa transa que fosse como o claro e escuro, o frio e calor que equilibram a vida. Nas horas vadias do nosso confinamento você vai me ensinando que ficar dentro de si, seja onde for, geralmente pode ser mais belo e interessante do que passear livre pelas ruas da cidade ou em qualquer lugar.


c.moreira 

 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Para Gullar, quando fez 90 anos



 

O poeta diz o ver

em relâmpagos
como um raio de tinta
ou um lance ou um traço
que neoconcretiza
ou (es)maravalha
seu mundo sujo
em palavras límpidas
tudo porque a vida não basta
nem cabe nela um preço
nem resta nela um ranço
(mesmo a colagem sendo
perfeitamente geométrica)
tudo assim no Ferreira aflora
seu crime é nos dar
sempre esperança

c.moreira

Iemanjá


Dedicado à memória de Mãe Giselle Cossard


Senhora Sereia,

Dona de muitos filhos,
Peixes e nomes,
Janaína, Iamassê,
Dandalunda, Inaiê,
Asagba ou Sobá,
Mucunã, Oguntê,
Princesa de Aiocá,
De olhos azuis,
Serena e francesa
É Omindarewá

Ela é quem pesca o pescador
De Ondina a Amaralina
Do Pontal ao Arpoador

Mora nas águas fundas e grandes
Mora na beira do cais ou da praia
E na água salgada
Que rola em meu rosto
Lavando minh'alma
Molhando meu olhar!

c.moreira

Imagem: Iemanjá na casa de Jorge Amado


Bleu


A liberdade é azul
Diz o filme
Com Binoche
Ou as águas
de Iemanjá
Salgadas (e doces) que levam
A vida no suor a tantos cais
e lavam a mesma
com tantas lágrimas em seus ais
Diria mais
Que a cor
Do céu e do seu olhar
(Do bleu)
Arrebatam
Em ressaca
Ou no firmamento
Como num espelho
E nele espelham
Como coisas distintas
Mas não de todo apartadas:
O Mar do céu
O Céu do mar

c.moreira

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Moacir




Para o Vô Moacir,
Pela passagem
de seus 85 anos


Aquela história da "índia" tapuia que se casou com um português de sobrenome Moreira, contada pela minha árvore genealógica, teria sido fruto de amor ou de estupro? Desse caso ficou dois ou três porcento no registro de meu DNA, o que pude certificar com um eficiente teste de ancestralidade genética. Devo dizer agora que sou o carrasco e a vítima de minha própria história? Ou que pelo menos guardo em mim os vestígios de uma luta? Restou disso tudo um certo traço, um olhar guarani ou quem sabe pataxó, com um quê oblíquo e bonito no rosto de meu avô paterno, ou mesmo em seu gosto pelo mato, por subir em árvores, pela caça agora proibida, pela pesca, por passarinhos, ou mesmo por sumir de casa durante uns dias vez e outra quando inventa com os amigos um acampamento mesmo depois de ter completado mais de oitenta anos. Seu gosto por taxidermia parece sugerir um talento em preservar na selva urbana o mundo natural da floresta. Insisto no olhar de meu avô: nele há um ar indígena que se intensifica quando sorri e o olho vai de um jeito faceiro afinando quase num tom andino, ou oriental, o que à ciência serve para confirmar a teoria de que as tribos americanas são mesmo descendentes daqueles que viveram na China há mais de quarenta mil anos. É o mesmo tom que reconheço no olhar de meu pai e de minha filha mais nova, quando o rosto em Aurora se abre para a alegria, sugerindo assim lembrar o que ela, meu pai e meu avô não viveram - só os antepassados -, mas que vive neles, em nós, como uma lembrança perdida, mas reencontrada, uma voz sussurrando que tudo pervive além de tudo, como o vestígio fóssil de uma vida antiga sedimentada na terra, no gelo ou no âmbar. Penso nesse traço que sou deles e no dos outros que serão em mim. Que trago o passado um pouco comigo e que eu, meu pai e meu avô ficaremos um pouco em tudo, em todos os nossos, mesmo daqui a alguns séculos. É a certeza de que meu avô vive em mim, na minha filha, no meu pai e nos nossos ancestrais, assim como eles ou nós, com amor, vivemos nele. Só para deixar registrado, meu avô se chama Moacir. É o mesmo nome do filho de Iracema, romance de José de Alencar cujo título pode ser lido como um anagrama da palavra América. Filho de branco e de índia, da Europa e das Matas, da civilização indígena e da barbárie europeia, Moacir significa o "filho da dor". Meu avô, no entanto, em graça transforma o sofrimento quando cultiva seu quintal e lembra de que colher é uma forma feliz de viver e acertar as contas com tudo aquilo que plantamos.

Caio Ricardo Bona Moreira

(O poema integra a "Quinta Maldita", n. 95, idealizada por Demétrio Panarotto, indo ao ar no dia 15 de Abril de 2021, no canal do youtube https://www.youtube.com/watch?v=GNpK1Ll_lLs&t=789s )

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Os Buenos

 


Seriam pássaros feito anjos, não fosse a ausência de asas, bem como o excesso de amor pelos livros, essa fonte ou deságua de tanto desejo e inenarrável paixão. Com qualidades variadas, a julgar pelo nome, são capazes de bem falar várias línguas ou de escrever com presteza o que chamamos de vida, mal rompa a aurora com seus tons violáceos no matiz virginal da manhã. No entanto, gostam mesmo é da noite, quando enclausurando-se nos breus dos bares se travestem de artistas, poetas polimórficos fingindo ser o que de fato e direito são. Nesse palco, são capazes de clarear a escuridão só com seus paetês refletindo a luz de spots, tal qual um ouro de Ofir. Tudo com graça e dom como quem inventaria novos ritmos no arpejo musical de uma cadência que vai se dobrando ao infinito numa trama barroca de luz e sombra. Revoltam-se mas sem nunca perder a ternura, embora a solidão maltrate voraz seus corações inebriados de gim e canção. Talvez por isso muitos deles sejam dedicados na arte de colecionar uma gama enorme de bichos, estranhamente guardados no seio de seus bestiários. Na ficção, os Buenos, infelizmente, morrem cedo, ou seja, antes que a faca do fim corte naturalmente o fio de seus dias. Na vida real, ao contrário, encantam-se, fadados sem dublê a levantarem do chão tirando o pó das roupas, depois de ouvirem ansiosos a sentença final: “Corta!”.  

c.moreira

Imagem: cena do filme Asas do Desejo, de Wim Wenders 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Canto e sangue negro de um branco




À memória dos ancestrais
Dos pais dos pais
De nossos pais
Ou melhor da mãe
Do pai de meu avô
Que é pai de meu pai
Negra e neta
De uma escrava
Ou melhor filha
Da filha de uma
Mulher escravizada
(Cujo nome meu avô
Diz ter infelizmente
Esquecido)
Trago comigo
Não na pele mas na alma
Um quinhão, o gosto ou a marca
Uma pequena parcela no sangue
Mas no ser extenso traço
Longa saga bem gravada
na complexa genética memória.
A dívida do meu lado branco
É assim um saldo que salga
A minha própria história
O canto da avó do meu avô
vem de longe e me cala
De alguma fazenda longínqua,
de algum lugar de Santa Catarina,
Corupá ou São Francisco,
de algum canto de alguma senzala,
Das entranhas de seu corpo
Brotam longe seu banzo e suspiro
Um misto da beleza
e da tragédia africana
Que hoje ainda perdura
E nos conclama, com desespero, ao grito!

c.moreira

Foto de Mateus Aleluia
Créditos da imagem: Vinícius Xavier

Comentários

domingo, 1 de novembro de 2020

Vejo Ana C. numa foto colorida por Rubens A.



Na vida
Bela ou mais
Ou menos
Que na foto
Como saber?
Se o que me resta
É o artifício
Sempre fabricado
Nessa ou em qualquer outra peça
Do conjunto de retratos
Quase todos
Em preto & branco
Em que na maioria
Ela aparece séria e concentrada
Em alguma outra coisa
que a lente da câmera
(Essa prótese do olhar)
Faz questão de não captar
E neste caso
como saber com precisão
O tom da pele ou a cor dos olhos
Se ela gostava mais de Bandeira ou de Baudelaire,
Se as camisas azuis lhe agradavam mais que as brancas ou pretas,
Se traduzir lhe era mais árduo que fazer os próprios poemas,
Se escrever era para ela uma forma de cifrar ou apenas voar.
Mas quem a viu
De perto
Há de confirmar
Como fez Roberto C.
Que a vislumbrou
Nos corredores da PUC
Que ela de fato
Como na foto
Era todo esplendor
E essa Lua em Touro
No Outubro de Escorpião
Me traz a lembrança
Daquela noite de 2005 ou 2006
Em que perdido no Rio
Depois de um congresso na UERJ,
Metrô e Coletivo em direção à Copacabana
(Havia descido duas estações antes),
Ia tentando me localizar por placas
Até me achar ao acaso ou ao destino
Plantado na Rua Tonelero,
Aquela que mudou o Brasil
Nos tempos de Getúlio
E onde de um dos prédios
Alguém um dia, nos fins de Outubro,
Tentou ancorar um navio no espaço.
A poesia pode ser doce ou alegre
Mas o chão é sempre duro.
Ali, na rua, foi o lugar
em que mais perto estive de ti,
além da poesia.
Onde andará agora o pensamento de Ana?

c.moreira

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Vinícius de Moraes





Libriano como eu
Ou eu de libra feito ele
Temos com a poesia
Essa musa nunca substituída
Uma história em comum
e longa de amor e interesse
Libriano como eu
Ou eu de libra feito ele
Vinicius meu velho,
Saravá,
Este filho de Oxalá
Vem e mata
Como a água de beber,
Camarada, a nossa sede
Goza os prazeres deste mundo
E chora do mundo também a dor
Canta a Rosa desfolhada
Ou aquela de Hiroshima,
E faz da natureza -
Seja ela morta ou viva -
Um caso permanente de amor

c.moreira

terça-feira, 6 de outubro de 2020

Praça Alvir Riesemberg


 



Na Praça Alvir Riesemberg, o busto de Getúlio recebe flores, ano após ano, religiosamente, no fatídico 24 de agosto. No local, tudo envelhece menos o presidente, fundido em metal perene, e a célebre dúvida: foi assassinato ou suicídio? No começo de setembro, ainda é possível vislumbrar a homenagem posta ali por algum fiel correligionário do PDT. Mas dia após dia o buquê vai decompondo como a história do Brasil, contrastando com o monumento a simbolizar outra decadência, a de um país petrificado pela mão do homem e pelo olhar da Medusa. A estátua solitária faz lembrar o sujeito parado na esquina do Boulevard du Temple na foto de Daguerre. Em repouso, a personagem lustra os sapatos e tem por isso sua imagem gravada pelo daguerreótipo. Os que passam pela rua não são registrados na foto porque estão em movimento. O filósofo Giorgio Agamben enxergou nessa foto, e na fotografia em geral, a imagem adequada do Juízo Universal: “A multidão dos humanos – aliás, a humanidade inteira – está presente, mas não se vê, pois o juízo refere-se a uma só pessoa, a uma só vida: exatamente àquela, e não a outra”. Assim como o homem que lustra os sapatos e o busto do presidente, uma foto e um poema existem para serem vistos ou lidos, mas também para nos lerem ou verem lá de onde estiverem. No fim, não seremos nós as imagens deles? Dependendo da posição em que estou é a estátua que me olha. No Dia do Juízo, todos serão julgados: o homem que lustra os sapatos, o presidente, a mulher do presidente, o juiz, o ministro, as fotos, os poemas, nós mesmos, e os assassinos que num dos prédios defronte à praça esquartejaram o corpo de um homem que saiu da vida para entrar para a história. Como os crimes não são perfeitos, os rastros sempre aparecem com o tempo ou com luminol. Nas fotos, estátuas, textos e autos policiais, os finados estão sempre lá a nos perscrutarem da iníqua profundeza da morte, dispostos a contar o que de fato aconteceu. Mas a verdade nem sempre vem à tona porque os mortos não falam e o silêncio dá margem para muitas interpretações.

c.moreira

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR (03/10-2020)