terça-feira, 20 de abril de 2010

Papoula (da série Flores)

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A papoula me dorme. Sonífera flor, asiática e fantasista, sumo dos pobres poetas e outros insones. Vela meu sono e meu sonho, enquanto o sonho não vem. Veneno e remédio, o phármakon do jardim. Depois da papoula, talvez acorde em outro lugar, quem saberá? Planta favorita de Hipnos, da família das papaveráceas, a danada, dormideira e dengosa possui um caule alto, ramificado, com folhas sésseis e ovaladas. Coroa a cabeça de Nix e o poeta enxerga no teu branco leque aberto a asa de uma garça, talvez o efeito de um paraíso artificial, ópio, morfina, ou o mágico láudano de Paracelso. Vejo-te discreta noctâmbula, o punctum pintado num quadro de John William Waterhouse, em que o pai de Morfeu te segura enquanto dorme, apenas um detalhe. Do teu suco e perfume, saem todas as cantigas de ninar. Mas cuidado, a aparente fragilidade que se desenha em tua geografia poética esconde uma femme fatal, a rainha dos piores pesadelos, discreta Medéia preparando o veneno ou mesmo Salomé, dançando como serpente e pedindo a cabeça do nobre Iokanaan.
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c.moreira

Margarida (da série Flores)

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Vez e outra meu avô plantava uma flor e colhia uma poesia. A margarida é poeta e nem sabe. Sua fala, uma arte: elabora pausas, metrifica os horizontes e deixa todo mundo curioso. Não sabe escrever, mas vai longe. Tão fácil escondê-la num labirinto botânico, botá-la no bolso, ou desidratá-la em um livro. Mas não te quero peça de museu nem adereço na lapela. Imagino-te assim, livre e desimpedida, sem prazo de validade, descontada das dívidas do amor. No máximo descascá-la numa séria brincadeira de bem me quer e mal me quer. Dessa maneira, poderei te ler em braille, dedos, toque e coração. No quintal do meu avô, quem manda mesmo é a margarida. Enquanto as formigas vão inventando sua própria sintaxe e os pardais vão tecendo um inusitado idioma repleto de variações lingüísticas, a flor canta Fellings e cava a tarde sem fazer alarde, esperando o príncipe que nunca vem.
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c.moreira

terça-feira, 6 de abril de 2010

Tulipa (da série Flores)

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Tua flor predileta. Como não cantá-la? Qual troféu natural, campanulada e solitária, a tulipa encanta. Como se o corpo, apontando para cima e aspirando a tocar as estrelas, saudasse o céu. Bolbo tunicado, pedúnculos, braços finos e pernas delicadas, desfila pelo jardim qual modelo magra e marota. Sem origem específica e ascendência precisa, da família das liliáceas, essa guardiã do jardim não tem começo, meio ou fim. Suas folhas oblongas, ovais ou lanceoladas revestem uma haste ereta, em cujo centro talvez morasse uma deusa grega ou um periquito que me dissesse “teu olhar é só meu”. Como uma mulher, dona de cem espécies, a tulipa não hesita em forjar mil máscaras. Sou todas, sou nenhuma. Ninguém desconfiaria que algumas delas seriam por demais venenosas, causando a morte do beija-flor, da abelha, do namorado, hipnotizado por seu fulgor.
Pensei que fosse fácil namorá-la no verão. Ledo engano. Aprendeu a guardar seu charme, uma espécie de chama, fogo e paixão, só para dias de frio, casaco e cobertor. Por baixo da coberta é que a flor desabrocha fazendo o pássaro cantar, enquanto venta lá fora. E se sugere por trás de um suposto turbante a ausência de qualquer perfume, mais um engano. Tua discrição esconde todos os cheiros que há neste mundo. Mas as palavras também não têm cheiro. Melhor abandonar as frases e ficar só com as tulipas.
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c.moreira

Bromélias (da série Flores)

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Quem disse que as bromélias, à noite, não tramam planos para que o jardim amanheça em candura? São cúmplices do sol que as tem como exímias escudeiras. Quando a manhã acontece, o vento primeiro traz do céu todas as mensagens. Se não chegam ao destino, como se poderia supor, a bromélia, quase uma casa de Gaudí, conduz mais triste a tarde como quem carregasse sozinha o canteiro florido nas costas.
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c.moreira

Rosa (da série Flores)

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As rosas não falam, mas dizem tudo. Pequena princesa do meu canto. Nada como ser rosa na vida. Tem esplendor de música e dependendo da cor que escolhe para vestimenta, molda a máscara que traduz fiel la piu belle chanson. Divina e graciosa, estátua majestosa, a donzela do jardim caiu de amores pelo jardineiro-escritor e acabou triste por não poder beijá-lo. Quem era? Nicanor... aquele que tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor. Qual o quê, condenada a somente receber carícias, a rosa nem sonha que é rainha. Em suas pétalas as gotas de orvalho percorrem um corpo como que a buscar o centro de um labirinto perdido em meio a sorrisos e sábias satisfações. Ninfa transformada em flor, de mais ativo olor, ah sim, é também a preferida pelo beija-flor. Vestida de pétalas, dança sobre a terra em meio a músicas do vento.
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c.moreira