quarta-feira, 31 de março de 2010

Verônica (da série Flores)

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Foste tu que amparaste o Nosso Senhor no martírio do Calvário. O jardim repleto de Verônicas parece a catequese de todos os astros, um chão de estrelas salpicado de um azul celeste ou cerúleo. Sim, o planeta é azul porque você existe. Tenho medo de te acordar num vaso, porque o sol amanhece nos ombros da divina pureza de uma verônica. Decifrar teu código genético é tarefa para botânico graduado em sensibilidade, paciência e música. Talvez fazendo poesia o trovador pudesse conquistar uma verônica, pequena soberana que não se entrega fácil a caprichos e mesuras do cantor. O poeta esqueceria todos os textos se pudesse te guardar num livro, sem subtrair o tom magnífico e sagrado de tuas líquidas pétalas.
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c.moreira

Violeta (da série Flores)

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Seqüestrada do jardim, descansa solitária e inerte na mesa da sala. Desterrada, deslocada e violada, a violeta fica banzando com saudades de casa. Ou presa num quadro de Natureza Morta, nem imagina que o outro lado do mundo fica a dois passos dali. Que pena, tão longe pra ela. Mas se bem cuidada, no vaso, já resiste, imagine na natureza morta, fadada a ser eterna e falsa como a dublagem de um filme mexicano. Não suporta raios solares em excesso, e não basta uréia, nitrato de cálcio e potácio para adubá-la no quadro. É preciso também a reverência de um manto e a divina presença de um mestre ascencionado. A violeta, assim, é bem mais que uma simples flor. É uma onda de luz, o nome de uma mulher vaidosa e a chama acesa da minha sala mandando lembranças para casa.
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c.moreira

Nenúfar (da série Flores)

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Agarro minha luneta mágica e, feito um voyeur, te vigio compenetrado do alpendre da varanda. Aproximo a lente e descubro que ampliado o nenúfar nada mais me diz sobre as formas da planta. AUMENTO. De perto, o nenúfar, como um quadro de Monet ou uma fotografia de Karl Blossfeldt, me apresenta um outro mundo. Uma síntese misteriosa que oscila entre a ponte japonesa de um quadro impressionista e as formas originárias da flor, um ovo se abrindo numa casca de brigadeiro. Olho por mais de 3 minutos e tenho a visão do bem. Tua qualidade, ser bem mais que um sim ou o céu da Catedral de Brasília. Com a outra lente, vem a visão do mal. Teu defeito: ficar por demais parado, qual um barco entorpecido flutuando pelo lago do jardim. Bem ou mal, melhor ver o nenúfar com próteses do olhar. Mil coisas ele diz.
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c.moreira

Dália (da série Flores)

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Os índios cultivavam a dália nos jardins do Império Asteca. Mas a história pode ser outra. Foi David Brewster que inventou a dália. Ou terá sido ela a inventora do caleidoscópio? Talvez isso tudo seja uma ilusão de ótica, ou apenas badulaques de artista. O que ela quer mesmo é operar uma montagem de singularidades, um quebra cabeça de cores e formas, círculos concêntricos de flor. Quer ver uma? É só mirar um mosaico de Escher, as ruínas romanas de Conímbriga, ou a Rosácea, na entrada oeste da Catedral de Chartres. Sem ninguém perceber, enquanto todos dormem, a exímia da arte musiva vai juntando tesselas, tagliolo e martellina, formando a representação geométrica daquilo que chamamos mandala. Redonda como uma máscara bellacoola da Índia, como a Mandala de Vishnu, no Nepal, como um disco solar da Nova Guiné, ou mesmo como o Ó da barriga de Nossa Senhora. Também impetulante e mística ao bordar tantas pétalas, o centro do bosque e das atenções.
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c.moreira

Girassol (da série Flores)

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Antes mesmo de Akhenaton, aprendeu cedo a saudar um só deus. O girassol, monoteísta, fiel discípulo de Aton ou Taita Inti, governa o mundo do quintal. Seu gesto, puro movimento de um saber natural, desenha no ar, sem fazer alarido, uma circunferência invisível e precisa como o traço moderno de Oscar Niemeyer. Em busca do Grande Arquiteto, cabeça voltada para o céu, mas sem tirar o pé do chão – telúrico e camponês - o Helianthus reza toda manhã em ritmos de ouro e de verso os ritos órficos de planta, quase uma missa crioula. O rei egípcio, que nem sabia de tua existência, se soubesse talvez cultuasse um girassol. Divino. Um jardim cheio deles é grande demais pra caber num quadro de Van Gogh. Urubus passeiam entre os girassóis, mas não roubam o charme de Clítia, ninfa aquática e apaixonada que melhor traduz tua reverência.
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c.moreira

Jasmim (da série Flores)

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Depois de quase fervida e posta em xícara branca da China, a água lentamente molha tua flor. Borbulham cheiros, sabores e sete haicais. Desfilam gueixas, lendas de alguns samurais e outras imagens de um mundo flutuante. Qual o que, melhor dizer um banho de jasmim. A cena: uma cerimônia do chá. A tokonoma, perfumada e silenciosa, sábia e milenar, abriga caligrafias miúdas sobre o papel emoldurado, raro kakemono de séculos atrás, enquanto espíritos como os de Murata Juko e Sen no Rikyu visitam o templo. O jasmim a lenta infusão espera. Sem pressa que esse é o segredo de um chá. Tchâ-no-yu, o império de todos os sentidos, qual uma cena de Nagisa Oshima ou Akira Kurosawa. O cheiro do jasmim, plantado numa paisagem de ukiyo-e, traduz todos os signos e alimenta todos os mistérios de um mundo que não é meu.
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c.moreira

terça-feira, 30 de março de 2010

Calêndula (da série Flores)

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Tua sinfonia não carece de partitura. Manhã logo cedo vem o vento e te faz dançar balé. O jardim, o palco, o tule, a nuvem, o pardal, o sabiá, toda uma orquestra de passarinhos. Delicadas e donzelas, dezenas de calêndulas encenam o Lago dos Cisnes. Sem piriri, lombriga ou ameba, a mais bonita, prisioneira de Rothbart, balança pra lá, balança pra cá, desenhando no ar sincopado movimento, quase um abraço no silêncio. Sem tirar o pé do chão, Pas de Deux ou Pas de Valse, a calêndula parece ter fugido de uma escultura de Degas, Prima Ballerina ou La Petite denseuse de Quatorze ans. No fim de todos os atos, esquece de sair do palco como se desdenhasse todos os aplausos, um tipo estranho, um charme de artista. Insistindo em ficar. Plantada no chão, executando um perfeito Glissade Derrière, por um segundo só esquece que é flor. E a tragédia de Siegfried, que também é a de Odette, não impede o Allegro Vivace. Um jardim de calêndulas é aqui na terra um palco todo iluminado.
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c.moreira

quinta-feira, 25 de março de 2010

Azaléia (da série Flores)

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Não fosse você, o sol nem nascia. No entanto, o excesso de humildade não impede o camarim, champanha e brioche. Gosta mesmo é de luz. E ninguém imagina o trabalho. Primeiro, num silêncio circunspecto de quase oração, lava a pele. Com capricho, inicia o ritual. Espalha a base, o pó facial que te realça o tom da pele. Ou camufla? Depois, com cerimônia, aplica o fixador de sombra, azul brilhante, royal ou turquesa. Só então, com o legítimo pincel chanfrado que tua amiga trouxe do Paraguai, distribui um cinza cintilante, em forma de degradé, na extremidade da pálpebra. Teu blush rouge opera milagres. Cílios postiços e rimel fazem de teus olhos duas amêndoas selvagens, quase uma Brigitte Bardot. E não satisfeita em ser apenas um protótipo da estrela de Les Femmes, exagera no gloss brilhante, talvez ficar assim com os lábios de Claudia Cardinale. Tua musa não é como as de hoje, sem curvas. Tua musa tem as pernas de Sophia Loren, ou Nike de Samotrácia, e os seios montanhosos e cinematográficos de Anita Ekberg. Em teu jardim, só falta mesmo um ar romântico de fonte, o sorriso de Mastroianni, uma lua italiana, e a trilha sonora de Nino Rota. Se o crime é natural, a virtude é artificial como a maquiagem da Azaléia. Mentirosa e sublime, assim te gosto. Maquiada, dourada, sobrenatural e melindrosa, assim te quero. Teus adereços são sinais de uma nobreza primitiva e divina. Desfila.
c.moreira

terça-feira, 16 de março de 2010

Nunca mais seremos os mesmos

Photo By Patrícia del Rey

Um tango para ler ouvindo o livro... ou melhor, um livro para ler ouvindo um tango. Daniel Galera passou uma temporada em Buenos Aires, a convite do projeto Amores Expressos, desenvolvido pela Companhia das Letras. O resultado pode ser conferido no livro Cordilheira. A narradora, Anita von der Goltz Vianna, é uma jovem escritora brasileira que é convidada para uma feira literária, na capital argentina. A viagem caiu como uma luva. Anita vivia um momento conturbado em sua relação com Danilo. A moça queria engravidar, para a infelicidade do namorado. A autora promissora põe fim a sua relação e parte pra Buenos Aires. É aí que a história começa.
Em uma conferência sobre Descrições da Chuva, seu livro de estréia, a jovem conhece um argentino chamado Holden, pelo menos esse é o nome que nos é apresentado. Holden também é um escritor de um único e renegado livro. Os dois começam, então, a viver um caso estranho que envolve transas mirabolantes, bem como encontros literários com um curioso grupo do qual Holden faz parte. No início da trama, pouco sabemos sobre essa "sociedade secreta". Basta dizer que ela é responsável pelo desenrolar dos fatos.

Daniel Galera foi finalista do Jabuti com esse romance. Ganhou o prêmio de melhor romance de 2008, pela Fundação Nacional do Livro. Prêmio, aliás, merecido. Isso porque o romance se sustenta, não apenas pela história, regada a vinho e muito tango, na Confiteria Ideal, e passeios na Reserva Ecológica de Buenos Aires, mas também pela sua estrutura.

Depois da leitura, fica a impressão de que o ritmo da narrativa poderia ser um pouco mais lento. Tudo tão bom e acontecendo tão depressa! Mas não me cabe julgar esse aspecto, já que é parte do estilo do autor e da respiração do narrador. A Buenos Aires do livro é também personagem. Enquanto a trama se enrola e desenrola, paralelamente, a cidade vai passando, acariciando e beijando o leitor, com seus cafés e praças, costumes e mates. Mas em primeiro plano o que está em jogo é a experiência vivida por Anita, que perdeu a mãe e o pai muito cedo. A moça possuía uma rara sensibilidade não apenas para a literatura, mas também  para a maternidade – basta ler os fragmentos de seu romance, que aparecem ao longo da narrativa. Anita procura conceber um filho, logo, precisa do sêmen de um macho. Para isso, Holden, o argentino, serviu muito bem. Enquanto as moças preferem abdicar da maternidade, mergulhando na vida profissional e nas experiências amorosas fugidias e vazias, Anita procura inverter esse processo, sendo a mãe que nunca teve. No entanto, o único filho gerado é o livro Cordilheira, ou seja, sua própria história. E Anita nem ficou sabendo disso. O título é uma alusão às montanhas da Terra do Fogo, lugar em que o desfecho da história acontece. A viagem é sintoma de uma transformação pela qual passa a narradora.

Há um fato que gostaria de comentar brevemente. As transformações acontecem também em um outro plano. O livro poderia ser lido como uma reflexão sobre a possibilidade da arte, e não apenas da viagem, transformar os homens. Nem sempre essa transformação é boa. A confraria de literatos intenta fazer algo que escritores como Alfred Jarry tentaram fazer... explodir os limites entre arte e vida, o que de certa maneira os surrealista também almejaram – com sucesso ou sem, não sei dizer. É que cada membro dessa “seita” escreveu um livro e aceitou vivê-lo, chegando a adotar o nome da personagem que inventou. Cada um deveria, assim, repetir todos os passos dessa obra que engoliu as suas vidas. Mas a vida é grande de mais para caber num livro. Anita não aceitaria jamais esse jogo, apesar de ser o outro lado, que é apenas o avesso que é o mesmo, de sua personagem no livro Descrições da Chuva, a jovem Magnólia.

Anita anda, anda, anda em Buenos Aires, mas volta pra casa, para o mesmo lugar, que agora é outro, ou terá sido ela que mudou? Podemos voltar de uma viagem de Buenos Aires, ou da leitura de um livro (que também é uma viagem), mas nunca seremos os mesmos.

(Algum tempo depois de ler o livro de Galera, li o Golpe de Ar, do Fabrício Corsaletti, cuja história também se passa em Buenos Aires. Seria interessante confrontar os dois livros. Fica para outro momento)

c.moreira

O Dia Mastroianni


Misture o Panamérica, do Zé Agrippino, o Agora é que são Elas, do Leminski, A Doce Vida e Ensaio de Orquestra, de Fellini, e terás alguma coisa quase tão louca quanto o romance O Dia Mastroianni, de João Paulo Cuenca. A diferença é que o Agrippino é o Agrippino, o Leminski é o Leminski e o Fellini é o Fellini. Não estou querendo comparar esses grandes para provar que Cuenca é grande ou pequeno. Esse lance de grande e pequeno é muito sexual e pouco literário.

O fato é que o livro foi saudado como uma das coisas mais incríveis da literatura brasileira dos últimos tempos. Basta ler um fragmento da crítica escrita por Márcio Renato dos Santos, publicada no jornal Rascunho: “O dia Mastroianni é um livro absurda e absolutamente indispensável. Para pensar o presente. E chorar pelo futuro. E ter vontade de viver no passado. Romance com brilho, irônico, escrito com fúria e força raras - momento raro de força nestes tempos insossos em que qualquer Pose se quer um gênio inédito da raça. O dia Mastroianni é prosa para ler - e reler, rindo, para gargalhar. E, então, se dar conta de que João Paulo Cuenca é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea”.
Tudo bem que a crítica ao mundo das celebridades é interessante. Cuenca consegue abalar as estruturas narrativas tradicionais. Basta pensar nos capítulos que permeiam a “história” propriamente dita. Tais passagens comentam a própria história, como se o texto fosse um work-in-progress comentado ao longo do livro. Assim, os clichês são propositais. O cinema acaba se transformando em um dos personagens principais, e não é difícil ler o livro imaginando o absurdo de uma cena felliniana, o sorrido amarelo de Mastroianni, um bolero ao fundo, e lindas mulheres que deixam de ser excitantes quando abrem a boca. Só não acho que esse livro seja tão fundamental assim para se ler a literatura brasileira contemporânea. Não preciso dele para perceber como vão as coisas. Por isso, penso que a importância do livro se dá mais pela graça das cenas, pelo irônico beirando o sarcástico, pelo absurdo quase surrealista, misturado com gim e tônica. As pessoas quando lêem uma obra geralmente ficam tentando encontrar valores, críticas, alguma coisa que possa justificar a sua existência como algo importante e digno de nota. Prefiro ler o livro de outra maneira, ler deseducadamente, como escreve Cuenca, DESEDUCADAMENTE. Cada livro nos ensina a lê-lo. Encanta-me a provocação, as frases impensáveis, os cortes cinematográficos, e a patetice dos dandys pintados por Cuenca. Lembrei imediatamente das maluquices de Zé Agrippino, que provavelmente deve fazer parte do paideuma de Cuenca. As festas, o sexo, as bebidas, uma cena pulando loucamente para a outra, como não pensar em Agora é que São Elas e algumas viagens literárias de Bukowski. Antes de falar sobre o mundo e criticar a sociedade do espetáculo, o livro de Cuenca fala sobre o cinema e sobre a própria literatura. É como se o autor – que se despedaça a medida que se confunde com os personagens – pretendesse dar continuidade, mas não numa linha diacrônica, à prosa experimental brasileira. O narrador fala, fala, mas nada acontece, como em Catatau, de Leminski. Assim, o que está em jogo não é necessariamente a in-ação do playboy, e consequentemente do mundo medíocre que o rodeia, mas uma in-ação, que se converte em ação ao pensar a própria literatura, a ausência de caminhos – aporia. É preciso ter coragem para escrever um livro desses.


c.moreira