segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Palavra de Índio: uma reflexão sobre as Poéticas Ameríndias





A poesia é também coisa de índio e, no entanto, muito pouco se fala das manifestações poéticas praticadas pelas mais variadas tribos indígenas que povoam o Brasil. Aprende-se na escola que o português, logo aqui chegado, em 1500, registrou na “Carta do Achamento” suas primeiras impressões sobre o nativo brasileiro, estranho aos olhos do europeu pelo seu modo de vida e, principalmente, por não sentir vergonha alguma de suas vergonhas. Aprende-se também que, desde então, o índio tornou-se personagem dos mais variados e fantasiosos textos literários, elevando-se no século XVIII a símbolo de luta da elite mineira contra o colonialismo europeu e à herói nacional no contexto de Independência no século XIX. Em muitas obras poéticas deu-se voz ao índio, no entanto, essa voz, trazendo na maior parte das vezes um sotaque europeu, pouco traduziu a imensa riqueza e complexidade de sua cultura. Ao invés de darmos voz ao índio – algo que ele inevitavelmente possui – penso que deveríamos ouvi-lo.



Tenho me interessado pelas Poéticas Ameríndias, que se caracterizam como um conjunto de textos artísticos que brotam da oralidade indígena. Geralmente, são produções culturais relacionadas a cosmogonias, ritos sagrados e festividades das tribos. Nesse contexto, a arte não está desvinculada do universo religioso, pois para os índios não há uma separação entre arte e vida, ou entre arte, religião e vida. Antonio Risério, no livro “Textos e Tribos”, problematizará a noção de Poética indígena, pois para ele os conceitos de poesia e literatura são ocidentais e não traduzem a experiência cultural da palavra operada pelos índios. Ele opta pelo conceito de “textualidades extra-ocidentais”. Para Risério, a marginalização dos textos indígenas e negroafricanos, no Brasil, é um reflexo do “estatuto subordinado dessas culturas no espaço mental brasileiro – reflexo, por sua vez, do lugar ocupado por essa gente, e pela maioria dos seus descendentes mestiços, na estrutura da sociedade nacional”.



Prefiro pensar que os índios, desde muito antes da invasão branca, já eram também poetas. Isso porque em muitas culturas ameríndias o trabalho artístico com a palavra assemelha-se de forma impressionante à atividade que caracterizamos como poesia. Os mbyá-guaranis, situados entre o Paraguai, Uruguai, Argentina e sul do Brasil, por exemplo, chamam de “ñe´eporã” o conjunto de belas palavras - ou palavras adornadas - usadas em seus cantos religiosos. Em tais cantos podemos encontrar expressões metafóricas, polifônicas, léxicos diferenciados, ou seja, elementos encontrados com frequência em textos poéticos da nossa cultura. Usam, por exemplo, a expressão “pequena flor do arco” para falar de uma flecha, ou “esqueleto da bruma” para falar de um cachimbo (os exemplos são dados por Pierre Clastres, em seu livro “A Fala Sagrada”, que compila mitos e cantos sagrados dos índios guaranis). As “ñe´eporã” teriam como objetivo, antes de comunicar algo ou descrever, voltar o seu olhar para a beleza da própria linguagem, intenção maior da poesia também para nós. E essa experiência para os mbyá-guaranis é profundamente sagrada. Exatamente por isso, na maior parte das vezes, o acesso a tais textualidades é vedado ao homem branco.  


Nos anos 50, o antropólogo León Cadogan, depois de salvar um índio de uma condenação injusta, recebeu a permissão dos mbyá-guaranis para ouvir e registrar os cantos chamados “Ayvu rapyta”, que descrevem a origem de todas as coisas depois do surgimento do deus supremo e das palavras. No mito, Ñamandu desdobra-se de si mesmo como uma flor e é alimentado por um beija-flor com alimentos sagrados. Brota, então, a fonte da fala, que para os guaranis é a origem de tudo. E o poder que esse grupo dá à palavra é simplesmente comovente. Alma e palavra são elementos indissociáveis, traduzidos na expressão “ñe´eng” (Palavra-alma). Por meio da palavra, a divindade faz fecundar o ser, portanto a procriação para eles, como sugeriu Bartolomeu Melià, é um ato poético-religioso e não erótico-sexual. O nome de uma pessoa, por exemplo, é a própria pessoa e muitas vezes um xamã usará isso a favor de um doente, trocando um nome por outro para espantar a morte. Aliás, os xamãs, transmissores de vozes divinas, pontes para o além, são verdadeiros poetas que usam as palavras e as músicas para curar. Para os mbyá a cultura branca não sabe usar de forma adequada a linguagem. Para eles, não levamos a sério as palavras e seus poderes. É por isso que quando um índio nos dá sua palavra está nos dando a sua alma. Quantas coisas temos a aprender com eles.



Alguns poetas e tradutores contemporâneos têm se interessado pelas Poéticas Ameríndias, traduzindo cantos indígenas e resgatando, assim, parte de uma sabedoria que ainda está para ser explorada. Falo do trabalho de Josely Vianna Baptista, que traduziu criativamente os cantos do “Ayvu rapyta” no livro “Roça Barroca”. Falo de Alberto Mussa que recriou mitos fundacionais da cultura Tupinambá, em “Meu destino é ser onça”. Falo do poeta português Herberto Helder, que traduziu cantos caxinauás. Falo do portunhol selvagem de Douglas Diegues. Falo de Eduardo Viveiros de Castro, seu perspectivismo, e seu estudo dos cantos xamânicos arawetés. Escritores indígenas têm também se destacado na literatura brasileira como Kaká Werá Jecupé e Daniel Munduruku. Outros têm lutado bravamente por direitos e causas socioambientais, como Davi Kopenawa. São promotores de sabedorias milenares. Que possamos ouvir suas palavras adornadas a nos ensinar que a poesia não pertence apenas a nossa cultura, mas que tem em outras sua morada. Conhecer as palavras sagradas e poéticas dos índios talvez seja um passo importante na luta contra o seu extermínio. O nome deste jornal nunca soou tão poético e profundo para mim quanto hoje.



 Publicado no jornal Caiçara, em União da Vitória,
03/11/2017. As imagens são de Eduardo 
Viveiros de Castro. retratam os Arawetés. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Chimamanda Ngozi Adichie: É coisa de preto!





Na segunda-feira (20), em todo o território nacional, comemorou-se o Dia da Consciência Negra, que acontece concomitante ao Dia Nacional de Zumbi dos Palmares, devido à possível data de sua morte. Aproveito o momento para perguntar aqui quais são os verdadeiros motivos que temos para comemorá-lo. À força do afrodescendente e à alta qualidade da cultura negra em nosso país – fundamentais para a nossa história, para nossa sensibilidade nacional, para nosso presente e futuro – contrapõe-se o racismo velado ou explícito ainda ativo na mediocridade daqueles a quem falta o bom senso. Há alguns dias, por exemplo, redes sociais divulgaram um vídeo no qual um famoso apresentador da Rede Globo, em uma gravação realizada durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos - ao irritar-se com o som de buzinas que atrapalhavam a matéria -, cochicha a seu companheiro de trabalho: “É coisa de preto!”. O vídeo viralizou e a emissora acabou afastando o jornalista. As expressões racistas são tão recorrentes ainda no nosso dia a dia que é bem possível que os leitores deste texto já tenham ouvido muitas vezes durante sua vida a frase “É coisa de preto!”. E enquanto ela for proferida, estando consciente ou inconscientemente atravessada por intenções racistas, uma margem da escravidão não terá terminado. Prefiro inverter o seu sentido para celebrar a vida e a força dos negros e de sua cultura entre nós.



É coisa de preto a obra de Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto. Os três maiores escritores do final do século XIX e início do século XX, no Brasil, eram negros, o que ironicamente desmonta as teorias racistas vigentes naquele período. É coisa de preto a Geografia de Milton Santos, bem como a arte de Emanoel Araújo. É coisa de preto a literatura de Carolina Maria de Jesus e o inventivo talento musical de Pixinguinha, Donga, João da Baiana, entre tantos outros. O samba na casa da Tia Ciata era coisa de preto. A escultura barroca de Aleijadinho também. O Quilombo de Zumbi era coisa de preto. Todos os outros Quilombos também. A prosa de Joel Rufino dos Santos é coisa de preto, assim como a poesia de Elisa Lucinda, ou os textos de Conceição Evaristo. A música de Caymmi, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Luiz Melodia, Djavan, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, é coisa de preto. O futebol de Leônidas da Silva, Amarildo, Canhoteiro era coisa de preto também. A capoeira do Mestre Pastinha. O cinema de Milton Gonçalves e Grande Otelo. É coisa de preto a voz de Jamelão, as músicas de Lupicínio Rodrigues, e de Nelson Cavaquinho. O sagrado de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Senhora e Mãe Stella. É coisa de preto a poesia de Vinícius de Moraes, que se considerava o branco mais negro do Brasil. O trabalho de Abdias Nascimento, Beatriz Nascimento, Jurema Werneck é coisa de preto. A performance musical de Paulo Moura e Johnny Alf também. Poderia preencher páginas e páginas aqui. Faltaria espaço, então, celebramos todos com um salve à negritude brasileira! Principalmente, àquela negritude anônima que desde as senzalas até os trabalhos contemporâneos menos reconhecidos atua bravamente no cotidiano desse imenso Brasil.




Recentemente, descobri uma jovem escritora africana que muito me encantou. Falo de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela ficou conhecida também por alguns vídeos que circulam na internet, nos quais fala sobre questões políticas de grande importância. Em um deles, discorre sobre os perigos de contarmos apenas uma versão da história. Nele lamenta, por exemplo, a ausência de personagens negras em contos de fadas e de heróis em geral.




Gostaria de usar o espaço que me resta para fazer uma referência ao livro de contos “No seu pescoço”, de Adichie, traduzido e publicado recentemente pela Companhia das Letras. No conto que dá nome à coletânea, a escritora relata a vida de uma jovem nigeriana de Lagos que vai tentar a vida universitária nos Estados Unidos. Um aspecto curioso do conto é o fato dele ser narrado em segunda pessoa, mas retratando experiências da primeira pessoa, como se o narrador escrevesse sobre si como sendo um outro, o que demonstra possivelmente um determinada crise de identidade enfrentada pelo ser estrangeiro. Em meio ao choque cultural, social e econômico que Akunna – esse é o nome da personagem – encontra na América, a jovem sente na pele o poder que a pele tem para torná-la vítima de um racismo atroz. A começar pelo desconforto que vivencia em uma faculdade comunitária quando suas colegas olham boquiabertas para o seu cabelo, perguntando se ele ficava de pé quando ela soltava as tranças. Ao invés de responder, Akunna sorria de um jeito forçado. Depois de sofrer tentativas de abuso sexual na casa onde estava hospedada, muda-se para uma cidade que não possuía universidade comunitária. Lá, a jovem trabalha muito por uma remuneração baixíssima e se aproxima de um jovem americano que não a olha como um ser exótico, ao contrário da maioria das pessoas. Com ele se relaciona, mas cedo percebe a distância que marcava fortemente o encontro entre uma negra e um branco: “Pela reação das pessoas, você sabia que vocês dois eram anormais – o jeito como os grosseiros eram grosseiros demais e os simpáticos, simpáticos demais (...)”. Os homens e mulheres brancos diziam “Que casal bonito”, “num tom alegre demais, alto demais, como se quisessem provar para si próprios que tinham a mente aberta”.




Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora feminista que tem levado para seus livros uma intensa reflexão sobre o racismo. Tem, nesse sentido, feito um barulho na literatura contemporânea. Ao invés de lamentar esse barulho, dizendo que é “coisa de preto!”, prefiro saudá-la como uma das grandes revelações da atual ficção nigeriana. A sua arte é também e com muito orgulho “coisa de preto”!       

publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 
em 25 de novembro de 2017 

sábado, 18 de novembro de 2017

Matilde Campilho: Salvando momentos





Lembro de ter chorado, copiosamente – e a expressão não é hiperbólica –, quando assisti, há uns quinze anos, à sequência final de Cinema Paradiso (1988), filme do italiano Giuseppe Tornatore. Recentemente, emocionei-me profundamente lendo o último capítulo do romance “Vida e Proezas de Aléxis Zorbás”, do grego Nikos Kazantzakis. Em ambos, a emoção suscitada parece brotar de uma certa beleza que não sei explicar. Não costumo me derramar em lágrimas diante de qualquer dor ou estímulo artístico, mas, às vezes, acontece. Nem sempre as emoções que a arte nos proporciona são sublimes. O susto, o horror, o medo e a raiva, por exemplo, fazem parte do universo artístico que também nos aprimora e que nos move para dentro e fora de nós mesmos.  A literatura que mais me encanta é aquela que deixa em meu ser cicatrizes. Diante da boa arte, transformo-me, nunca mais restando em mim o mesmo que sou. E a marca que trago comigo é o resultado desse contato. São coisas que nos constroem. Ando repleto, assim, de cicatrizes. O crítico e escritor José Castello escreveu que a literatura é uma “máquina de perfuração do espírito. Nele deixa marcas contundentes e feridas que nunca cicatrizam por completo (...) Dor interminável, que se transforma em uma iluminação”. E a iluminação nos salva.
A jovem poeta Matilde Campilho - nascida em Cascais, em 1982 -, uma das grandes revelações da poesia portuguesa, acredita que a arte pode não salvar o mundo ou uma vida, mas salva momentos. Nos últimos cinco minutos de Cinema Paradiso, ou nas últimas dez páginas de Zorbás, a arte salvou um momento meu e por causa disso minha vida ficou mais bela e plena.  Em uma entrevista concedida ao jornalista Eric Nepomuceno, Matilde defendeu que a arte fraqueja os joelhos quando é preciso, tira a atenção da dor em alguns momentos e, em outros, leva a nossa atenção para a dor, porque, às vezes, estamos distraídos para perceber seu real valor. Por isso escrevi que as emoções propiciadas pela arte nem sempre são sublimes. Kafka, por exemplo, não me trouxe conforto algum e, no entanto, saí de sua leitura positivamente transformado.  


Tenho me emocionado lendo os poemas do livro “Jóquei”, de Matilde Campilho, lançado no Brasil em 2015, um ano depois de vir a lume em Portugal. Principalmente quando os leio em voz alta, tentando imitar seu lindo sotaque, tal como ele pode ser ouvido em vídeo-poemas disponibilizados pela escritora no Youtube. Poemas portugueses lidos em voz alta pedem uma leitura espirituosa. Chego a pensar, às vezes, que o sotaque que simulo não chega a ficar tão falso quanto aquele de Caio Castro, na novela das 18h, a imitar D. Pedro I.



Admiradora de poetas estrangeiros como Antonio Cisneros, Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, e dos conterrâneos Antonio Franco Alexandre e Fernando Dias Pacheco, Matilde se apaixonou pelo Brasil e aqui morou durante alguns anos. Depois de sua participação na Flip (Feira Literária de Parati), em 2015, a poeta se tornou mais conhecida no Brasil. Ler seus poemas é como passear pelo Rio de Janeiro de seu coração, porque ali toda a cidade é poesia: “Hoje se eu pudesse / eu voltava à cidade / só pra beijar / a cidade na boca”, diz Campilho no poema “Eu já escuto teus sinais”, no qual faz referências à famosa canção de Alceu Valença. O amor pela cidade parece ser suplantado apenas pelo amor por uma pessoa, que paira como interlocutor e como fantasma durante boa parte do livro. E essa comunhão com o outro é também uma comunhão com a vida. E para a poeta ela é sempre mais importante que razão, a ciência, a política ou a matemática. No poema “Dia de São Tomé”, ela escreve: “Com partido político / dá sempre zero a zero / e vantagem do serviço / com partido alto / dá sempre dez a dez / e vantagem do amor / você levou meu samba”. Em outro poema, um sentimento semelhante: “Aprenderei a amar as casas / quando entender que as casas / são feitas de gente / que foi feita por gente / e que contém em si a possibilidade / de fazer gente”. Trata-se de perceber a natureza da vida como algo acima do cálculo. O tema reaparece no poema “A primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos”: “A matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de um cardume”. 



No poema “Veleiro”: “A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo (...) No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará”. A poeta vai passeando pela vida e guardando momentos: as mãos do ser amado desenhando uma dança, o cheiro da maresia, o rosto doce de Antonio por ela fotografado (talvez o poeta Antonio Cicero), os lábios de Dadá pintados de vermelho, as folhas crescendo no vaso, o “brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra”, enfim, a vida acontecendo. A poesia, assim, salva o instante da vida e a vida de nossos instantes.
Em uma das passagens do poema “Notícias escrevinhadas na beira de estrada” a poeta escreve que não é de choro fácil a não ser quando pensa em determinados milagres que ainda não aconteceram. Ela olha com atenção para a vida e conclui que “a raça humana é toda brilho”. Ao salvar esse momento talvez chore, como eu, ao assistir ao final de Cinema Paradiso. E assim a arte vai salvando momentos.


 Publicado originalmente no jornal O Caiçara, 
em 18 de novembro de 2017,
União da Vitória

domingo, 12 de novembro de 2017

O Rei da Vela em três tempos



Edição de O Rei da Vela com capa de Oswald de Andrade Filho

ATO 1: 1933, Oswald de Andrade, alguns anos depois de publicar o romance experimental “Memórias Sentimentais de João Miramar” (1924), o livro de poemas “Pau-Brasil” (1925), bem como o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” (1924) e o “Manifesto Antropófago” (1928), escreve a primeira peça de teatro modernista de nosso país, “O Rei da Vela”. Censurado pelo Governo de Getúlio Vargas, o texto só seria encenado pela primeira vez mais de trinta anos depois. A peça tem como tema a história de Abelardo I, um burguês em ascensão que, no contexto da crise de 29, enriquece explorando por meio de agiotagem seus devedores. O personagem também fabrica e vende velas, pois com a crise financeira as empresas elétricas faliram. Em uma cena que retrata uma conversa de Abelardo I com a esposa Heloísa, o protagonista revela seu perfil de explorador ao observar que “num país medieval como o nosso”, ninguém se atreve a passar pelos umbrais da eternidade sem uma vela na mão. Assim, ele herda de cada finado nacional um tostão, pela tradição de se colocar uma vela na mão de cada morto. Os devedores aparecem já no primeiro ato enjaulados no escritório do usurário, sendo torturados e gradativamente executados (nos dois sentidos da palavra). “O Rei da Vela” tem como pano de fundo a presença de ingleses e norte-americanos, representantes do capital estrangeiro, que são os verdadeiros donos do poder. A peça termina com o assassinato do protagonista pelas mãos de seu funcionário ambicioso, Abelardo II. O novo agiota casa com Heloísa de Lesbos, viúva do primeiro Abelardo, que descendia de uma família aristocrata rural e falida. A peça, escrita na fase mais socialista da obra de Oswald, evoca a decadência da burguesia e a revolução social com base na ascensão do proletariado. No entanto, até que isso aconteça, ambos continuarão “domados” pelo capital estrangeiro. O americano é o último que aparece e fala na peça, dizendo: “Oh good business!” 

Abelardo I, por Renato Borghi em 1967

ATO 2: Em 1967, durante a Ditadura Militar, estreava no Teatro Oficina a peça de Oswald, montada pelo dionisíaco e inventivo Zé Celso Martinez Corrêa. Curiosamente, a princípio, o espetáculo não foi censurado. “O Rei da Vela” promoveu naquele período de intensa repressão uma revolução cultural, pois a atualidade da linguagem teatral bem como o olhar crítico do modernista convidavam o espectador a olhar de forma mais atenta para a sua complexa realidade. Visualmente rica - lembrando por vezes uma chanchada com ares expressionistas -, e tendo o ator Renato Borghi no papel principal, a peça surpreendeu artistas como Caetano Veloso que nela se inspirou para a criação do movimento tropicalista. A encenação teve para ele um impacto semelhante ao cinema de Glauber Rocha – em especial do filme “Terra em Transe” -, bem como ao romance experimental “Panamérica”, de José Agrippino de Paula. Caetano escreveu em seu livro “Verdade Tropical” que tinha escrito a canção “Tropicália” quando “O Rei da Vela” estreou e que assistir a essa peça representou para ele “a revelação de que havia de fato um movimento acontecendo no Brasil. Um movimento que transcendia o âmbito da música popular”.

Abelardo I, por Renato Borghi em 2017

ATO 3: outubro de 2017. Em comemoração aos cinquenta anos da primeira montagem, o Teatro Oficina estreou uma remontagem do mesmo espetáculo. Vivemos novamente em um tempo social e político complexos, o que faz da peça uma obra atual, cuja potência é capaz de iluminar nosso olhar sobre a realidade ou de pelo menos nos convidar a “enxergar” o escuro em que estamos. A peça conta com a participação de alguns atores que integraram o primeiro grupo, como Renato Borghi, que vive ainda o papel de Abelardo I. Zé Celso, além de dirigir, atua como a virgem octogenária Dona Poloca, senhora de boa moral e bons costumes, que na versão atual se apresenta como transexual. A nova montagem faz referências aos dias de hoje, aludindo, por exemplo, ao senador Aécio Neves (chamado na peça de Aécio Never) e ao presidente Donald Trump.

Zé Celso e Renato Borghi, no Teatro Oficina

A remontagem acontece no mesmo período em que o Teatro Oficina trava uma batalha com o Grupo Silvio Santos, por causa de um terreno ao lado de sua sede. O Oficina defende que no terreno baldio em seu entorno não sejam construídos prédios para especulação imobiliária, mas um parque cultural que conservaria uma área verde na cidade de São Paulo e ainda promoveria apresentações artísticas para a comunidade. No dia 23 de outubro, o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) tomou decisão favorável ao Grupo Silvio Santos. Abelardo I venceu o artista.

publicado originalmente no dia 11 de novembro de 2017, 
no jornal O Caiçara, de União da Vitória



sábado, 28 de outubro de 2017

21 de outubro de 1967, a noite que não terminou




Há cinquenta anos, na noite de 21 de outubro de 1967, no auge do governo militar, o Brasil assistia pela televisão à final do 3° Festival da Música Popular Brasileira que, lotando o Teatro Paramount, no Rio de Janeiro, reuniu finalistas como Roberto Carlos, Sérgio Ricardo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Edu Lobo. Os efeitos musicais daquela noite reverberam até hoje na cultura de nosso país, pois daquela disputa e encontro históricos saíram os grandes nomes de nossa MPB, bem como se delinearam os futuros caminhos de nossa música. Logo depois do Festival, Caetano e Gil implantariam sua revolução tropicalista, Chico Buarque mergulharia em uma empreitada crítica à ditadura militar com suas canções de protesto e Roberto Carlos – que já vinha se projetando nacionalmente com a Jovem Guarda – se consolidaria definitivamente como nosso grande cantor popular. Digo que o Festival reverbera até hoje também, porque todos os artistas citados continuam produzindo significativamente. Chico Buarque acaba de lançar “Caravanas”, com nove faixas, sendo delas sete inéditas, demonstrando, assim, seu permanente vigor como compositor e intérprete. Caetano está realizando com seus filhos – desde o dia 14 de outubro - a turnê “Caetano Moreno Zeca Tom Veloso” que será registrada em disco. Gilberto Gil está com álbum gravado - prestes a ser lançado - no qual aborda temas familiares e seu recente tratamento de saúde. Paralelamente a esse projeto, o cantor/compositor tem comemorado os 40 anos do clássico “Refavela” e formado com Nando Reis e Gal Costa uma “Trinca de Ases”, em uma série de shows. Roberto Carlos segue firme naquele ritmo já conhecido que vai desde sua turnê em cruzeiros, passando pelos especiais da Globo com direito a tema na novela das nove, sereia etc e tal. Aquele Festival de 67 realmente ainda não terminou.
Na noite do Festival, Sérgio Ricardo promoveu um dos episódios mais curiosos de nossa história musical, sendo duramente criticado e desclassificado depois de se recusar a cantar devido às intensas vaias e de quebrar o violão no palco para depois jogá-lo sobre a plateia. Em um depoimento que integra o documentário “Uma noite em 67”, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, o compositor diz não se arrepender do fato - fruto dos ânimos exaltados da época -, mas afirma que hoje não faria o mesmo. O quinto lugar ficou para Roberto Carlos, que cantou “Maria, Carnaval e Cinzas”, de autoria de Luiz Carlos Paraná. A música é linda e foi bem interpretada, no entanto ficou ofuscada pelas demais concorrentes, que se tornaram clássicas desde aquela noite. Caetano participou com “Alegria, Alegria”, que inovava não só no arranjo que tinha como base as guitarras elétricas dos Beat Boys, mas também com uma letra inusitada para a época ao fazer, por meio de uma colagem poética cubista, referências à Coca-Cola, ao jornal alternativo “O Sol”, à Claudia Cardinale, entre outros elementos típicos da cultura contemporânea. A canção ficou em quarto lugar. A terceira colocada, “Roda Viva”, de Chico Buarque, com acompanhamento do grupo MPB4, encantou o público com seus jogos vocais e posicionamento crítico em relação à realidade da época. O samba-canção de Chico integraria no final do mesmo ano a peça teatral que teria o mesmo nome da música. O segundo ficou para Gilberto Gil que, ao lado dos Mutantes, interpretou “Domingo no Parque”, contando com arranjo orquestral de Rogério Duprat. A música, de estrutura circular, que narra uma tragédia envolvendo paixão, ciúme e assassinato, é muito rica na sua construção estética e mereceria um artigo à parte. A canção campeã foi “Ponteio”, de Edu Lobo e Capinam, interpretada por, além de Edu, Marília Medalha e dos grupos Momento Quatro e Quarteto Novo. O primeiro lugar consagrava naquele ano uma linhagem mais tradicional da Música Popular Brasileira que de certa forma se colocava em franca oposição às novidades tropicalistas da guitarra elétrica e à onda do Iê-iê-iê da Jovem Guarda. De um lado Edu Lobo, Chico Buarque, Elis Regina, Jair Rodrigues, de outro, Gil, Caetano, Mutantes, Tom Zé etc. Todos filhos da Bossa Nova e desse Brasil musicalmente colorido e plural. Não seria fortuito lembrar que no mesmo ano, alguns meses antes do Festival, ocorrera a famosa “Passeata contra a Guitarra Elétrica”, na qual defensores e integrantes de uma linhagem mais tradicional da MPB se voltavam contra as fortes influências do rock and roll na música brasileira. Foi um período muito fértil de nossa história que sobrevive até os nossos dias. Lembrando de Guimarães Rosa, poderíamos dizer que aquela noite não morreu, ficou encantada.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória, em 28 de outubro de 2017

sábado, 21 de outubro de 2017

Aqui jazz Clarice


 

Na terça-feira (10), o curso de Letras da UNESPAR, campus de União da Vitória, promoveu um encontro literário em homenagem à Clarice Lispector, enfocando não só o aspecto filosófico e jornalístico de sua obra, mas também musical, traço ainda pouco explorado na leitura de seus textos. O evento, intitulado “Aqui jazz Clarice”, contou com uma mesa-redonda formada pelas professoras Angela Farah e Renata Noyama, bem como com apresentações musicais do grupo 6 Assis e participação de acadêmicos lendo fragmentos de livros da escritora.
É perceptível a prática de um diálogo profundo entre a escritura de Clarice Lispector e o universo de outras artes, como a pintura, a escultura e a música. Em Paixão segundo G.H., publicado em 1964, a narradora é uma escultora que se debate sobre questões existenciais, imprimindo em suas páginas uma complexa e rica reflexão sobre a condição humana. Em Água Viva, ficção que Cazuza afirmava ser seu livro de cabeceira (ele confessou ter lido a obra mais de uma centena de vezes), a narradora é uma pintora que troca pinceis e tintas por palavras, deparando-se com a impossibilidade de substituir uma experiência por outra. Em sua vã tentativa de captar o que ela chama de o “instante-já”, o “é da coisa”, ou “it”, a narradora nos apresenta intensas páginas de uma magia que está para além da literatura. Certa vez, Guimarães Rosa afirmou que lia Clarice não para a literatura, mas para a vida. Sim, a obra de Clarice ultrapassa o próprio conceito de literatura, situando-se como um corpo estranho no modernismo brasileiro, e colocando-se no patamar da bruxaria. Aliás, nos anos 70, a escritora chegou a participar de um congresso de bruxaria na cidade de Bogotá, na Colômbia.
Magia, alquimia ou bruxaria são palavras que talvez definam melhor o universo artístico de Clarice. E tal experiência é impossível de ser interpretada objetivamente. Ao longo dos anos, lendo com meus alunos e alunas a sua obra, assisto nas aulas aos efeitos dos mais variados que vão desde o descaso de quem leu e não “sentiu” até aqueles que revelam profundo encantamento, medo, paixão, e a ativação ou transformação de sensibilidades. Fazendo parte daqueles escritores de quem se diz “ame-o ou deixe-o”, Clarice me convida para a leitura em momentos específicos da minha vida. Às vezes, fico meses sem ler uma linha sua sequer, em outros, avidamente, procuro suas pegadas, suas palavras, ou por elas me deixo encontrar. Eis o mistério da palavra poética. Ultimamente, ando de novo encantado com essa ucraniana que se fez brasileira e que afirmou certa vez ter feito da língua portuguesa “sua língua interior”. Tenho pensado muito na música que se depreende de sua escritura, como tema ou ritmo, sugerindo que essa arte também faz da parte da sua.
Em Perto do Coração Selvagem, o pensamento é música se criando. Nele, Clarice escreveu: “A música era da categoria do pensamento, ambos vibravam no mesmo movimento e espécie. Da mesma qualidade do pensamento tão íntimo que ao ouvi-la, este se revelava.” A aproximação da música à escrita ou ao pensamento é recorrente em sua obra. Numa das passagens do já citado Água Viva, Clarice compara a escrita automática de seu texto ao jazz, gênero musical pautado pelo movimento e improvisação: “Sei o que estou fazendo aqui: estou improvisando. Mas que mal tem isso? improviso como no jazz improvisam música, jazz em fúria, improviso diante da plateia”. Em Um sopro de vida, escreveu, ou melhor, cantou: “Estou ouvindo música. (...) Meu vocabulário é triste e às vezes wagneriano-polifônico-paranoico. Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere. Sou uma paisagem cinzenta e azul. Elevo-me na fonte seca e na luz fria”. 
Interpretar é uma palavra bastante usada nas aulas de literatura, bem como no universo da música e do teatro. Interpreta-se um texto, assim como interpreta-se uma peça musical ou teatral. Não aprecio a palavra no sentido usado nas aulas. Textos literários não foram escritos para serem interpretados, como quem “descobre o que o autor quis dizer” ou como quem decifra um segredo para, então, ele deixar de existir. O enigma sempre perdurará. A não ser que o leitor interprete o texto como quem toca uma música à medida que lê, não para decifrar, mas apenas para pôr em movimento seus sons, proliferando seus mistérios. Ler Clarice em voz alta, aliás, é uma delícia. Desconfio que uma linda passagem do início de Água Viva nos ajude a (in)definir melhor essa ideia: “Não se compreende música: ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro”. Assim como a música, não se compreende Clarice, mas lendo-a e ouvindo-a, sentimos sua escritura com nosso corpo inteiro.


Doutor em Teoria Literária, professor da UNESPAR
publicado originalmente em O Caiçara, 
de União da Vitória, no dia 21/10/2017

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A arte em tempos de cólera


“Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva”, de Fernando Baril (1996)

Nas últimas semanas, assistimos a um longo frisson causado pela exposição “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, do Santander Cultural, de Porto Alegre. Depois de várias manifestações negativas que consideraram a mostra pornográfica, imoral e com apologias à pedofilia, a empresa promotora optou pelo fechamento da exposição. A curadoria lamentou e a decisão se manteve apesar do Ministério Público Federal, depois de analisar o conteúdo, recomendar a sua reabertura, defendendo a liberdade de expressão e entendendo que as obras apresentadas não faziam qualquer apologia ou incentivo à pedofilia. O fechamento acontece no mesmo período em que a arte, no Brasil, vem sofrendo uma repressão intensa que assinala cada vez mais um descompasso entre a realidade do moralmente aceitável, do “politicamente correto”, e o anarquicamente intolerável que a arte nos apresenta. Naturalmente, não levaríamos crianças para visitar essa exposição e o que nos inquieta não é a opinião daqueles que consideram a mostra uma afronta - já que a liberdade de opinião pressupõe justamente esse embate -, mas a forma como, muitas vezes, uma ação oficial, e por vezes jurídica, decide controlar o que pode ou não ser visto, produzindo a censura, essa velha conhecida. Tomemos como exemplo o quadro de uma exposição do Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande apreendido na mesma semana pela polícia, depois de três deputados registrarem um boletim de ocorrência, considerando que a obra agredia a “família, a moral e os bons costumes”. Um dia depois, uma peça teatral foi cancelada, por decisão judicial, em Jundiaí, (SP), ao recriar a história de Jesus como uma transexual. Desde a semana passada, o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) vem sendo alvo de ataques pela performance “La Bête”, de Wagner Schwartz.
Depois de tomar conhecimento dos fatos acima narrados, lembrei-me das lúcidas e intensas reflexões sobre arte do professor e ensaísta Raúl Antelo. Em uma entrevista concedida para o VII ENAPOL (Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana), que aconteceu em São Paulo, em setembro de 2015, Antelo discorreu sobre o império das imagens no mundo contemporâneo, refletindo principalmente sobre o atual estado da arte. Creio que suas observações nos ajudam a pensar no fechamento da exposição como sintoma de um tempo no qual impera uma concepção de arte bastante rasa, moralizante e discutível. O que de certa forma sempre aconteceu em momentos específicos e obscuros de nossa história. 
Lembremos da maneira como críticos do século XVIII e XIX consideraram o barroco uma degeneração da arte clássica. Monteiro Lobato fulminou Anita Malfatti, na famigerada exposição de 1917, ao considerar sua arte anormal e teratológica, fruto de uma paranoia ou mistificação. Hitler mandou confiscar e destruir inúmeras obras de arte de vanguarda ao considerá-las degeneradas, e por aí vai. Preocupa-me o senso comum, a falta de disposição para uma discussão mais profunda e fundamentada sobre o conceito que se debate, o "achismo" com ares de certeza, a censura como forma de eliminação daquilo que nos perturba, o juízo de valor inquisitorial, apontando para o que seria arte e o que não seria arte.
Antelo nos lembra do caráter inoperante da arte, como forma de sabotagem aos sistemas, observando que Giorgio Agamben, a partir de Guy Debord - no bojo de uma sociedade do espetáculo entronizada, dominando nossas vidas -, propõe "uma lógica claramente anarquista", que é a lógica do "inoperar", que é o que faziam os primeiros anarquistas. Raúl lembra que eles lançavam um tamanco na polia da máquina para que o motor parasse: "Tamanco se diz 'sabot', daí a 'sabotagem'. Ou seja, uma das maneiras da fruição seria sabotar". Em oposição ao gozo administrado, previsto para todos na sociedade do espetáculo, a arte visa a provocar um curto-circuito: "Provavelmente o espectador vai receber uma carga de 220w e provavelmente sua reação será dizer que isso não é arte, ou que isto é um nojo, ou como permitem isso no museu?, na galeria?, na rua?, onde for. Mas justamente essa é a função, apresentar aquilo que o olhar não segura".
O quadro “Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva”, de Fernando Baril (1996), por exemplo, foi considerado ofensivo ao cristianismo. Nele, aparece a figura de Cristo com vários braços. Suas mãos carregam objetos da cultura ocidental. Imagino que ao invés de lermos nele o desrespeito a uma crença religiosa, poderíamos refletir sobre a forma como o capitalismo tem se devotado a transformar em objeto de culto - quase sagrado - seus bens de consumo.

A proposta da exposição parece ter cumprido parte de seu papel. Suas narrativas parecem afetar o corpo e perturbar, inquietando o olhar. Oscar Wilde escreveu que “a arte não é moral nem imoral, mas amoral”. O assunto ainda vai dar pano para manga. Espero que não se voltem contra os murais eróticos das ruínas de Pompeia ou contra a imagem de Adão nu, na Capela Sistina. Seria uma perda para a humanidade tapá-los ou destruí-los em nome dos bons costumes.

Publicado no jornal Caiçara, 
em União da Vitória, no dia 08/10/2017

domingo, 8 de outubro de 2017

às 15h30, numa tarde outubro de 2013, na praça Coronel Amazonas


inspirado em G. Perec, em Tentative d'épuisement d'un lieu parisien




Na praça, ao lado de um poste, cuja copa tridente faz lembrar a lança furiosa de um Júpiter, Zeus ou Jove, uma senhora, nada furiosa, de tênis com cadarço vermelho, pita um Palermo, ou será um Marlboro, Charme ou Hilton, ou Free Azul ou Cinza? Talvez esteja pensando que é hora de parar ou apenas planejando o jantar de hoje, almôndegas ao molho, depois sobremesa com o marido, ou apenas novela das oito. Não muito longe, um casal jovem se aproxima, senta-se na grama, conversa. Ele segura um celular vermelho, tão vermelho quanto o cadarço da senhora que fuma um Palermo, ou Marlboro, Charme ou Hilton, Free Azul ou Cinza. Ele segura o celular vermelho, mira na moça, tira uma foto. Mostra para ela a imagem. A moça sorri. Ela veste uma calça branca florida, camiseta cor de rosa, como a da senhora que fumava e que agora não está mais ao lado do poste. A moça mexe na bolsa, também cor de rosa, sem tirar o olho do celular, ou melhor, da imagem, que é também a sua. Teria a máquina captado a luz desta tarde de sol e passarinho? Há alguns passos atrás do casal, dois senhores tagarelam, sem perder a pose de aposentados honestos e honrados. Quais serão os seus pecados? O menos velho, de bigode e boné azul, cruza os braços e ri. De quê, meu Deus? Que falam? Governo, bandido, família, paixão? Enquanto isso, estudantes, ou seja, pombos elétricos, vão se movendo pela praça, desenhando um contorno invisível e não menos febril. Passa um homem rápido, de bicicleta. Falta-me o tempo suficiente para capturá-lo com eficácia na lembrança do lápis e papel. O tempo é sempre a alma do negócio. Lembro apenas do chapéu e do cigarro na mão esquerda. Na mão esquerda como a da senhora de cadarços vermelhos e camiseta rosa. Uma dama loira de blusa azul, azul como o boné do senhor do bigode de braços cruzados que ri, lê em um banco mais distante. Que livro será? Miro melhor. Ou escreve em um caderno também azul? Minha miopia impede de saber. No prédio da antiga Prefeitura decifro o mistério de tanto rosa por aí. Como pude esquecer, estamos em outubro. Pergunto-me o que aproxima tantas pessoas além do rosa e do azul que nos cobre e envolve nesta tarde de sol e passarinho, por sobre o boné azul do senhor do bigode, de braços cruzados que ri, ou do rosa da camiseta de senhora de cadarços vermelhos, que fuma um Palermo, ou Marlboro, Charme ou Hilton, Free Azul ou Cinza. Talvez o movimento. É isso, pessoas na praça são cores em movimento

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Deus e suas artes! Um breve passeio pela exposição Religiosidade, de Salete Strobino




Na noite da última sexta-feira (22), foi inaugurada na Galeria de Arte Erich Herbert Will, em União da Vitória, a exposição “Religiosidade”, da artista plástica Salete Strobino, que reúne uma série de quadros cuja temática perpassa o universo sagrado das religiões. Em um mundo no qual impera cada vez mais a falta de amistosidade entre crenças diferentes, bem como a falta de disposição para aceitar a fé alheia com o decoro que lhe é necessário e devido, um evento como este não apenas nos oferece uma oportunidade de deleite – o que a boa arte sempre faz -, mas também nos convida a uma reflexão sobre o momento crítico que atravessamos, no que se refere ao preconceito contra variadas práticas religiosas e a consequente falta de liberdade de cultos. Digo que essa reflexão é cada vez mais fundamental num mundo cada vez mais fundamentalista.
No discurso de abertura da exposição, em meio a um clima místico e de profundo encantamento, a pintora falou com beleza sobre a importância da fé sem preconceito, da tolerância como motor do bem viver, da religião como forma de religação do homem com o divino, o que está sugerido na própria etimologia da palavra. Tais observações não apenas orientavam os presentes para uma compreensão mais apurada das obras - favorecendo assim a leitura de cada um dos quadros -, mas também criavam pelo axé que mora nas palavras de luz e pelo diálogo com as pinturas uma força capaz de iluminar não apenas a exposição, mas também a consciência dos espectadores.
De um lindo e inusitado Jesus Cristo, pintado com inspiração na linguagem de 8bits, a um retrato de Omulu, orixá africano que é o senhor das doenças e da cura (e que é bastante cultuado no Candomblé), as obras nos apresentam uma pluralidade de estilos, de temas e de perspectivas religiosas que dificilmente encontraríamos em outro lugar a não ser na exposição. Uma bela representação de Nossa Senhora Czestochowa pode ser apreciada na mesma sala que abriga uma exuberante e colorida cabocla da Umbanda. Anjos, Budas, Deuses egípcios, Yabás africanas, Ganesha, São Jorge, entre outros, fazem a festa de um Deus que ama a todos e que a todos abraça. Esse Deus é arquiteto de muitas artes. Nesse sentido, a exposição parece realizar um feito impossível (ou quase) no nosso mundo, que é o de reunir e fazer conviver, respeitadas em suas diferenças, culturas religiosas distintas. Não se trata de exigir que todas as religiões cultuem todos os santos ou deuses, mas de apontar para a necessidade do respeito à crença alheia, lançando-nos a sempre pertinente pergunta: “Como eu trato o meu irmão e a sua fé?”
A constituição garante a liberdade de culto, mas na prática assistimos ao apedrejamento de candomblecistas e umbandistas, à destruição de terreiros, ao desconhecimento que gera violência. É sempre bom conhecer antes de julgar, diz a máxima. Há alguns dias, foram colados em postes de uma cidade catarinense cartazes em que a imagem ameaçadora de um sujeito encapuzado da Ku Klux Klan era acompanhada das seguintes palavras: “Negro, comunista, antifa e macumbeiro, estamos de olho em você”. Algo está muito errado! Estamos de olho também em movimentos como este. Destruir, aniquilar, silenciar o que “não faz parte do meu mundo e da minha ideologia” não é fenômeno novo, mas parece ganhar nova força na contemporaneidade. A exposição de Salete Strobino reflete com presteza também sobre isso.
O evento, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de União da Vitória em parceria com a Associação de Artistas Plásticos do Vale do Iguaçu, ficará aberto para visitação até sábado (30) na Galeria de Arte Erich Herbert Will, na Estação.

Caio Ricardo Bona Moreira

publicado originalmente no dia 30 de setembro de 2017 
no jornal O Caiçara, de União da Vitória

domingo, 24 de setembro de 2017

Sobre monumentos e documentos




Jacques Le Goff, numa das passagens do livro História e Memória, elenca dois tipos de materiais da memória coletiva e da história. São eles: o monumento e o documento. O primeiro está relacionado à herança do passado, enquanto que o segundo, às escolhas feitas pelo historiador. O estudo etimológico de monumento, apresentado por Le Goff, nos fornece pistas importantes para entendermos a relação que se processa entre os já citados materiais da memória:

“A palavra latina monumentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (meminí). O verbo monere significa 'fazer recordar', de onde 'avisar', 'iluminar', 'instruir'. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos. Quando Cícero fala dos monumenta hujus ordinis [Philippicae, XIV, 41], designa os atos comemorativos, quer dizer, os decretos do senado. Mas desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura: arco de triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc.; 2) um monumento funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte (1990, p. 535)”.


O monumento, lido como um sinal do passado, teria o poder de perpetuar voluntária ou involuntariamente não uma sociedade histórica propriamente dita, que nele sobrevive como ruína, mas o testemunho de determinada sociedade. Esse poder que o monumento materializa, no dizer de Flávio de Carvalho, teria a possibilidade de reviver o sopro das civilizações perdidas e esquecidas, possuindo a vantagem de oferecer àquele que mira o monumento uma visão mais ampla do que no tempo em que ela aconteceu. Isso porque a ruína possibilitaria o distanciamento necessário ao observador:

“Para enxergar e apreciar, ele precisa afastar-se dos acontecimentos, adquirir um ponto de vista. O acontecimento remoto é mais visível e apreciável ao observador que os acontecimentos que o afogam. A ideia mesmo de apreciação envolve viver fora do local, dos apreciadores de um certo local, já que aqueles que enxergam não são nunca os habitantes do local, pois que estes acostumados à visão diária do ambiente deixam de perceber as mutações do ambiente e o que ele possui de sugestivo (2005, p. 41)”.

Flávio de Carvalho tinha em vista nessa passagem do texto “As ruínas do mundo”, presente no livro Os Ossos do Mundo, a claridade propiciada por museus, galerias, coleções e castelos, no que se refere à possibilidade de tais elementos focalizarem uma “luminosidade supra-realista”, ou de apagarem numa “nebulose impressionista” as fases de uma civilização. Eles funcionariam como resíduos sobreviventes. Poderíamos acrescentar, junto de Walter Benjamin, que o “arqueólogo” seria o responsável por devolver “energia” a essas formas fósseis. Em um dos fragmentos de Rua de Mão Única, o filósofo, provavelmente seguindo os passos de George Simmel, observa: “Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava” (2000, p.239).



No ato de uma exploração cuidadosa, para Benjamin, se ilude quem só faz o inventário dos achados, não sabendo assinalar no terreno de hoje o lugar no qual é conservado o velho. A contribuição do filósofo parece ser a de demonstrar que as verdadeiras lembranças devem proceder informativamente menos do que indicar o “lugar exato” onde o investigador se apoderou delas.



Não seria fortuito lembrar a importância que o monumento adquire nos escritos de Benjamin, seja na recorrência da ideia de coleção, presente principalmente em excertos de Rua de Mão Única e Passagens. O filósofo alemão ainda se interessaria pelos monumentos como instrumentos de cristalização de um determinado pensamento. Poderíamos tomar como exemplo dessa cristalização o emblema da arquitetura barroca. Afonso Ávila, em Circularidade da Ilusão, analisa a função que igrejas, conventos e templos exerciam nos Seiscentos e Setecentos. Além de terem um papel importante no surgimento dos núcleos urbanos e de serem fundamentais para a atuação do regime religioso na vida social e comunitária, poderíamos acrescentar que tais agentes, ao mergulharem na suntuosidade da arquitetura barroca, estariam contribuindo para a persuasão que fundamentou essa mentalidade, pautando-se, assim, na valorização do elemento visual. Esse aspecto é lido por Ávila como uma das pedras angulares do barroco: “Pedra angular 2: assumindo a feição de arte persuasória, de uma arte a serviço, seria natural que o barroco buscasse, como instrumento de rendimento imediato da comunicação de sua mensagem – a da Contra-Reforma e do Absolutismo – o primado do visual (...)” (2004, p.22).


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A DEMORA DO OLHAR QUE VEMOS NO QUE NOS OLHA, ou VivER É MUITO PERIGOSO


O homem com a câmera na mão (Dziga Vertov, 1929) 

Em janeiro de 1980, alguns meses antes de sua morte, Roland Barthes escreveu o texto “Caro Antonioni”, que seria publicado em maio do mesmo ano nos Cahiers du Cinema. Barthes, ao comentar as três forças que constituem o artista (vigilância – sabedoria – fragilidade), presta uma homenagem ao cineasta de Blow-up. Gostaria aqui de fazer referência a apenas uma das virtudes abordadas, aquela que diz respeito à questão do olhar como fator de fragilidade. Essa fragilidade, que não deixa de ser uma virtude, está ligada à questão do tempo. O artista, segundo Barthes, nunca sabe se a obra que propõe é produzida pela mudança do mundo ou pela mudança de sua objetividade. Para Barthes, Antonioni tinha a consciência dessa relatividade do tempo. Outro motivo de fragilidade seria a firmeza e a insistência de seu olhar:

"O poder, seja qual for, por ser violência, nunca olha; se olhasse um minuto a mais (um minuto demais), perderia sua essência de poder. O artista, porém, pára e olha demoradamente (...). Isso é perigoso, pois olhar por mais tempo do que o solicitado (insisto nesse suplemento de intensidade) desarranja todas as ordens estabelecidas, sejam elas quais forem, uma vez que, normalmente, o próprio tempo do olhar é controlado pela sociedade".

É justamente essa capacidade de “demora do olhar” que faz do texto artístico o que ele é ou pode vir a ser. Talvez seja essa mesma demora responsável por fazer com que aquilo que vemos também nos olhe, apontando para além de si mesmo, numa espécie de cisão do olhar. Didi-Huberman lembra que o ato de ver não é o ato de uma máquina de perceber o real enquanto composto de evidências tautológicas: “Dar a ver é sempre inquietar o ver, em seu ato, em seu sujeito”. O que causa tamanha inquietação não seria pautado necessariamente nem pela falta de sentido, nem pelo seu excesso, mas pelo limiar entre aquilo que vemos e aquilo que nos olha. O que faz com que Didi-Huberman recuse duas posturas que poderíamos chamar de modalidades do olhar: uma delas é a tautologia, em que aquilo que vemos é somente aquilo que vemos; a segunda é a crença, em que o sentido estaria guardado, escondido, sempre em um outro lugar: “Estamos de fato entre um diante e um dentro. E essa desconfortável postura define toda a nossa experiência, quando se abre em nós o que nos olha no que vemos”. Na esteira de Walter Benjamin, Didi-Huberman credita à imagem dialética a superação tanto da crença quanto da tautologia. Evocando Rosa, lembro que VivER É MUITO PERIGOSO.



terça-feira, 19 de setembro de 2017

resposta a Chuang Tzu




para M. Passos

Nessa estrada de cristo-jesus, o moço-sinhô encontra mato adentro um espelho, ou teria sido um lago? um açude? um tanque?, a ver nele sua cara baloiçando de onça e ele pensou talvez tendo sonhado e no sonho sendo um menino encontrando mato adentro um espelho, ou um rio ou riacho, e vendo nele seu rosto de onça, ou teria sido a onça sussuarana, vulgo parda ou concolor, sonhando ser o menino sonhado? Em um e no outro o bichano abria a boca e engolia os dois no seu destino de mais-livrai-nos-do-mal-amém. O pensar é cheio de mistérios. Fim.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

poema-tempo escrito depois de um satori musical




para C. Azevedo

enquanto o damasco
arma a dura pele
e vai passando o fruto
do verde ao amarelo rubro
em seu lento madurar 
um monge de sobrancelhas grossas
e pés ásperos de sandália
tira com cuidado e volúpia
acordes vibrantes de uma viola escarlate
cujo som por hora faz lembrar
os ares de um solista da Orquestra Sinfônica Simon Bolívar
no mesmo minuto a léguas dali
uma eslava octogenária
com roupas coloridas
saia longa, tamanco e meia
planta repolho em um campo aberto
que antes abrigou refugiados
perto de Kiev, no norte da Ucrânia
sem saber que a filha de sua neta
nascia naquele exato momento no sul do Brasil
(uma linda criança que ela nunca viria a conhecer)
no mesmo momento em que o mouro
de sobrancelhas grossas
e pés cansados
tirava da viola escarlate
um som vibrante que traduzia
no meio do deserto
tudo aquilo que nascia e se perdia como música
em tantos e outros lugares

c.moreira

sábado, 16 de setembro de 2017

O Urinol voltando para o banheiro


Detalhe da "Cena de interior II", e Adriana Varejão, 1994, 
obra que estava na exposição Queermuseu

Depois de assistir a um longo frisson por parte de algumas pessoas que consideraram justo e merecido o fechamento da exposição Queermuseu, do Santander Cultural, em Porto Alegre (muitos "julgando" a mostra imoral e prejudicial aos bons costumes - Oscar Wilde escreveu que “a arte não é moral nem imoral, mas amoral”), lembrei-me das lúcidas e intensas reflexões sobre arte, do grande professor e ensaísta Raúl Antelo, em seus textos e em suas aulas, quando fui seu aluno durante alguns anos na UFSC. Na entrevista concedida para o VII ENAPOL (o vídeo pode ser encontrado no youtube), Antelo discorre sobre o império das imagens no mundo contemporâneo, refletindo sobre o atual estado da arte. Creio que suas observações nos ajudam a pensar no veto da exposição como sintoma de um tempo no qual impera uma concepção de arte bastante rasa e moralizante. O que de certa forma sempre aconteceu em momentos específicos e obscuros. 

Como não lembrar da maneira como críticos e historiadores do século XVIII e XIX consideraram o barroco como degeneração da arte clássica. Monteiro Lobato fulminou Anita Malfatti, na exposição de 1917, ao considerar sua arte anormal e teratológica, fruto de uma paranoia ou mistificação. Hitler mandou destruir boa parte da arte de vanguarda ao considerá-la arte degenerada, e por aí vai (preocupa-me o senso comum, a falta de disposição para uma discussão mais profunda e fundamentada sobre o conceito que se debate, o "achismo" com ares de certeza, a censura como forma de eliminação daquilo que perturba, o juízo de valor - como em um tribunal da Santa Inquisição - apontando para o que seria arte e o que não seria arte). Antelo lucidamente nos lembra do caráter inoperante da arte, como forma de sabotagem aos sistemas, observando que Agamben, a partir de Debord, no bojo de uma sociedade do espetáculo entronizada, dominando nossas vidas, propõe "uma lógica claramente anarquista", que é a lógica do "inoperar", que é o que faziam os primeiros anarquistas. Raúl lembra que os anarquistas lançavam um tamanco na polia, na máquina, para que o motor parasse: "Tamanco se diz ´sabot`,daí a ´sabotagem´. Ou seja, uma das maneiras da fruição seria sabotar". Em oposição ao gozo administrado, previsto para todos, na sociedade do espetáculo, a arte visa a provocar um curto-circuito no espectador: "Provavelmente o espectador vai receber uma carga de 220w e provavelmente sua reação será dizer que isso não é arte, ou que isto é um nojo, ou como permitem isso no museu, na galeria, na rua, onde for. Mas justamente essa é a função, apresentar aquilo que o olhar não segura"

Raúl Antelo, na UNTREF, em Buenos Aires, 2011

Nesse sentido, a proposta da exposição parece ter cumprido parte de seu papel. Suas narrativas parecem afetar o corpo e perturbar, inquietando o olhar. O que o cinema de Pasolini, esse vaga-lume alucinado, fez muito bem. O que seria dele nos dias atuais? O que seria de Bataille? Os motivos de uma veemente censura por parte de uma parcela da população são variados e, certamente, evocam causas íntimas, profundas e até inconscientes. O assunto ainda vai dar pano para a manga. Espero que pessoal do MBL e afins não se voltem contra os murais eróticos das ruínas de Pompeia.

Tragicômico: A revista Veja publica uma matéria no dia 13 de set. com a seguinte manchete: "Veja imagens da exposição cancelada pelo Santander, no RS". Os incomodados cancelarão a assinatura? Que pulem as páginas...

Link: entrevista: Raúl Antelo: https://www.youtube.com/watch?v=xOEuexByp2I