sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Claudia Andujar e a Luta Yanomami



Está aberta até novembro deste ano, no Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro, a exposição “Claudia Andujar: A luta Yanomami”, que apresenta uma retrospectiva do trabalho desta fotógrafa e ativista que nasceu na Suíça, se naturalizou brasileira e, a partir dos anos setenta, começou a se interessar pelo povo Yanomami, retratando seus costumes e, ao mesmo tempo, lutando por suas causas. A exposição já passou por São Paulo e rendeu um belo livro-catálogo, organizado por Thyago Nogueira e editado em 2018 pelo IMS, que reúne reproduções de imagens que compõe o acervo disponível na mostra, bem como uma série de textos que apresentam e comentam a vida e obra dessa artista de oitenta e oito anos que teve um papel fundamental no registro dos Yanomami.


Folhear as páginas da magnífica publicação é uma forma de passear pela exposição, conhecendo além das imagens que compõe sua obra poético/fotográfica, uma luta política que já rendeu a elaboração não só da Comissão Pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), mas também a idealização de programas de saúde que contribuíram para a sobrevivência de muitos índios. Tudo isso gerou uma sólida amizade entre a artista e os povos tradicionais amazônicos.

Andujar e índia

A convivência com a floresta ao longo dos anos transformou a vida de Andujar, uma judia que perdeu boa parte da família em campos de concentração e que depois de fugir com a mãe, chegando aos Estados Unidos e depois ao Brasil, continuou lutando pela sobrevivência, agora dos índios e sua cultura: “Esse pequeno mundo na imensidão do mato amazônico era meu lugar e sempre será. Estou ligada ao índio, à terra, à luta primária. Tudo isso me comove profundamente. Tudo parece essencial. E talvez nem entenda tudo, e não pretendo entender. Nem preciso, basta amar. Talvez sempre procurei a resposta à razão da vida nessa essencialidade. E fui levada para lá, na mata amazônica, por isso. Foi instintivo. À procura de me encontrar”, escreveu a fotógrafa em um depoimento publicado em 1975, no jornal Ex-. Esse encontro com o mundo indígena é um encontro consigo mesma, via fotografia: “Fotografar é processo de descobrir o outro, e através do outro, si mesmo”. Essa imersão na vida Yanomami produz uma ligação na qual a realidade do outro deixa de ser uma outra realidade, passando a ser uma espécie de prolongamento de seu próprio mundo e vice-versa. É por isso que ela não sente saudades quando volta para casa, porque a casa de todos é uma só, o mundo é a casa que temos (Lembre-se: os índios quando lutam pela floresta estão lutando pela nossa sobrevivência também). Em suas anotações de 1974, pode-se ler: “Não me sinto mais uma estranha. Este mundo ajuda a me compreender e a aceitar o outro mundo em que me criei. Os dois mundos estão se juntando, num grande abraço. É, para mim, um mundo só! Não sinto saudades!”. Viajar parece ser a melhor forma de se voltar para casa.


O trabalho de Andujar, apesar de ter sido divulgado principalmente por meios jornalísticos, revistas de reportagens nos anos 70, suplanta a linguagem jornalística, aproximando-se de uma dimensão poética, já que ela está mais preocupada em narrar uma experiência do que em contar uma história ou representar a realidade. Lembremos com Susan Sontag que a fotografia apresenta uma interpretação da realidade tanto quanto uma pintura. Uma das marcas disso em sua obra ameríndia pode ser percebida não apenas no seu olhar poético que pervive nas cenas que registrou, mas também nos aspectos técnicos que envolvem uma superação de linguagens tradicionais ou a inserção de técnicas inusitadas, como nos apontou Thyago Nogueira, em um dos textos que integram o livro: “Fotografar na mata fechada também é difícil, e a pouca luz que atravessa as copas a obrigava a usar filmes de alta sensibilidade e velocidades de 1/8s e 1/15s, com abertura de f.3.5 no diafragma, que borrava os movimentos rápidos. Nas imagens feitas à época, Andujar espalhou vaselina nas bordas da lente da câmera, criando um desfoque radical que confere encantamento onírico às imagens, como no banho de jovens num riacho”. O uso por vezes de infravermelho ou de desfoques propositais criam efeitos oníricos também nos registros de rituais xamânicos, o que mostra que o trabalho da fotógrafa é bastante subjetivo e propõe uma outra relação com o real, em seu trabalho simultaneamente artístico, etnográfico e jornalístico.




O encontro com o outro ao qual a fotografia de Andujar nos convida é potencializado por essa propensão poética, o que sugere que a arte suscita uma dimensão política mais profunda se nela prestarmos mais atenção. E o encontro com o outro – índio - que somos nós mesmos, índios que somos (em termos empáticos, genéticos e culturais), via poesia/fotografia/cinema é capaz não só de promover o prazer estético, mas principalmente de ampliar nossa empatia pelo próximo, alargando nossa percepção e oferecendo ao nosso olhar um perspectivismo fundante. A saber, nunca mais olhar de forma neutra as atrocidades que vimos presenciando todos os dias, a destruição de nossos povos tradicionais, o genocídio de tantos em prol de uma política neoliberal devastadora. Vejamos as fotos de Claudia Andujar e nos aprofundemos em sua luta, para olharmos os Yanomami com outros olhos. Prestemos atenção em Davi Kopenawa e suas palavras de salvação contra a Queda do Céu. Ouçamos Ailton Krenak e suas ideias para adiar o fim do mundo. Leiamos Kaká Werá Jecupé, sua voz de trovão e vento, a pensar num novo tempo. Ao invés de imaginarmos uma nova democracia, que possamos ir mais longe, imaginando um novo mundo. Para finalizar, lembremos que enquanto era inaugurada a exposição de Andujar em São Paulo, o deputado Jair Bolsonaro era eleito presidente do Brasil e ameaçava rever a demarcação de terras indígenas. A profecia vai se cumprindo. Tem muita coisa absurda acontecendo sob os nossos olhos. Basta ter olhos de ver.




Este texto é dedicado à memória do líder indígena Emyra Waiãpi, assassinado há alguns dias em meio a uma invasão de garimpeiros, no interior do Amapá. É dedicado também a muitos outros, que vão desaparecendo sem chamar a atenção, virando cacos da história embora estrelas no céu.


Publicado no jornal Caiçara, em 03 de Agosto de 2019

terça-feira, 30 de julho de 2019

Salve o índio que nos salva!




Acaba de sair o dossiê sobre Textualidades Indígenas, da revista Chuy, de Buenos Aires, na qual publico o ensaio "Poéticas Ameríndias: Perspectivismo e Transcriação Canibal", pensando o trabalho de Josely Vianna Baptista, entre outros. O link abaixo:

domingo, 28 de julho de 2019

Sobre livros, poesia e paternidade




Poderia falar de greve, mas hoje falarei de algo menos grave. Há algum tempo, venho adiando a leitura e escrita de textos (ou pelo menos diminuindo consideravelmente o ritmo). Os motivos são variados, no entanto, não estando disposto a importunar o leitor com lengalengas, prefiro nem elencá-los. Cito apenas dois deles. O primeiro diz respeito aos compromissos do magistério, profissão que abraço todos os dias com um misto de amor e temor. Os leitores bem sabem o quanto exige a docência de um professor disposto a ensinar a seus alunos e aprender com eles também. Mas, pensando bem, essa questão não vale como desculpa. Há sempre um tempo entre uma aula e outra, entre reuniões pedagógicas, orientações, correções de trabalhos e elaboração de planos de ensino. Que essa tarefa não seja nunca motivo para adiarmos a escrita. Pelo contrário, que seja um convite a permanente construção de ideias, mola propulsora de todo exercício de pensamento e ação. Há anos, leciono literatura e para mim pensar e escrever sobre ela será sempre um prazer, apesar de que toda escrita traz em seu bojo um fantasma com o qual é difícil conviver. 
O segundo motivo de tal adiamento vale como justifica, pois é o mais belo de todos os outros que poderiam nos roubar o tempo e as condições necessárias à escrita de um texto ou a consecução de toda e qualquer atividade. Falo da paternidade. O texto que não paro e não me canso de ler e escrever há três anos se chama Catarina. Ela chegou para alegrar a nossa vida. Tem um sorriso encantador, menos de um metro, e uma energia capaz de movimentar uma usina hidroelétrica (Perdoem-me a hipérbole, coisa de pai exagerado). Para somar-se à Catarina, multiplicando-nos em afeto, acaba de chegar a Aurora, que tem, ao lado de sua irmã, nos dado alegrias imensas. Aurora, de olhar terno e doce, veio para nos amanhecer lá em casa, que agora anda de novo com cheirinho de bebê.
Minhas filhas têm sido os únicos motivos a dificultar consideravelmente as condições da prática de leitura e escrita, o que me deixa muito feliz porque se ler é bom, ser pai é muito melhor. Qualquer outro motivo - que não elas - a me impedir ou dificultar o exercício do pensamento, deixaria em mim um sentimento de falta que não conseguiria mensurar. E, no entanto, ter lido ou escrito nos últimos três anos muito menos do que costumava fazer até então tem me deixado imensamente feliz. É que Catarina e Aurora são para mim pura literatura.
Nos olhos de minhas filhas encontro a força de William Shakespeare, a doçura e o amor dos versos de Vinícius de Moraes, o mar de Homero ou Camões, o céu de Saint-Exupéry, a terra de fadas ou do nunca, o fogo que a literatura tenta traduzir em palavras, os mistérios de uma civilização perdida escondida em um livro esquecido em alguma biblioteca. Escrevo isso para dizer o quanto de poesia existe naquilo que amamos, para além de palavras e textos. O leitor me questionará e eu responderei com um piparote. Sim, um poema é feito de palavras, mas a alma que nele se guarda ou voa se chama poesia. E o prazer gratuito que nela encontramos pode se traduzir na alegria de um abraço, no calor de um beijo, no trabalho de um povo, nas cores de um quadro, no sorriso de uma criança, nas cenas de um filme, nas notas de uma música, no sal de uma emoção, no último capítulo de uma novela, na alegria da amizade, entre outras coisas boas que a vida nos dá ou que damos a ela enquanto ainda estamos aqui. Que essa poesia nos convide sempre à leitura e escrita de novos poemas. Que possamos ler e escrever a nossa própria vida. Isso dá um belo livro. Sem falar na maternidade, cujo dispêndio de forças e tempo supera em muito todo e qualquer exercício de paternidade. É sim o amor mais belo. Daria muito mais do que um livro. Daria todos. Daria tudo. Amor de mãe é uma imensa biblioteca.  


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 27 de julho de 2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

João Gilberto, um roteiro que nunca será filmado porque o filme já existe





Dedicado ao professor e amigo Antonio Carlos dos Santos, o Caco,
que um dia, no Campeche, tocou Estate de forma primorosa


(Em 2008, quando comecei a prestar mais atenção em João Gilberto, entre audições de música e a leitura de “Balanço da Bossa e Outras Bossas”, de Augusto de Campos, escrevi o texto abaixo, que releio agora depois de tantos anos, ao saber da partida do mestre da Bossa Nova. Caetano Veloso, na bela canção “Pra Ninguém”, citou muitos intérpretes da MPB, como Gilberto Gil, Nana Caymmi, Tim Maia, Gal Costa, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Carmem Miranda, Djavan, Paulinho da Viola, etc, para finalizar dizendo: “Melhor do que isso só mesmo o silêncio, melhor do que o silêncio só João”)

Talvez fosse possível escrever um roteiro poético sobre uma cena de cinema. Lembro-me de algumas cenas que são antológicas, como a dança ingênua de Fred Astaire e Cyd Charisse, em “A Roda da Fortuna”, ou mesmo o nascimento de Macunaíma, protagonizado pelo grande Grande Otelo, na belíssima adaptação (ou melhor transcriação) de Joaquim Pedro de Andrade. Outras são menos conhecidas, mas não menos interessantes: o momento em que um anjo ganha cor, quando resolve se tornar um humano por causa de uma paixão pela bailarina do circo, em “Asas do Desejo”, de Wim Wenders. A serenata que Vadinho faz para Dona Flor, cantando Noite Cheia de Estrelas, de Vicente Celestino: “Noite Alta, céu risonho...”.


Há uma linda e comovente interpretação de João Gilberto, cantando “Estate”, na Itália. Geralmente um roteiro deve ser escrito antes da filmagem. Neste caso, tomei a liberdade de inventar um depois de assistir ao filme “Bahia de Todos os Sambas”, de Leon Hirzman e Paulo César Saraceni, gravado em Roma, em 1983. O filme registra um dos maiores shows de MPB que já aconteceu na Europa. Eu, com apenas dois anos na época, nem sonhava com aquilo: “O que é que a Bahia tem?”. E o show não era apenas musical. A Bahia baixou em Roma – com seus atabaques e pais de santo, suas rezas, acarajés, danças e candomblés. Um encontro para gringo nenhum botar defeito. O encontro foi organizado por Gianni Amico, um italiano que juntou figuras como Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Gal Costa, Moraes Moreira, Naná Vasconcelos e o grande João. O roteiro poético que segue não tem pretensão alguma de aproximar-se do formato oficial – até porque nunca será filmado, como o roteiro esquecido de Mário Peixoto, “Outono – jardim petrificado”. Por isso poético. Instruções: Para ser lido ao som de “Estate”.

CENA 1 (Plano de conjunto)

Noite. Um palco, pouca luz, um banquinho, um violão e João Gilberto. O suficiente. Terno azul-cinza, paletó aberto. João olha para o violão. Atrás dele, uma orquestra. Começa: “Estate sei calda come i baci che ho perduto / sei piena di un amore che è passato / che il cuore mio vorrebbe cancellare”.

CENA 2 (Corte para Plano médio)

João balança a cabeça. Toda a história da Bossa Nova se resume nesse breve movimento de João, como que hesitando entre uma voz e um olhar, ou mesmo expressando a letra por meio do gesto. João frisa a testa, talvez para alcançar a precisão. Não, seria a perfeição: “Estate il sole che ogni giorno ci scaldava / che splendidi tramonti dipingeva / adesso brucia solo con furore”.

João olha para o céu. Não, olha para cima. Não, olha para cima, mas para coisa nenhuma. Um lugar, sim. Só ele pode saber. Torna a olhar para o violão. Quase fecha os olhos. J.Joyce, em Ulysses, diria: “Fecha os olhos e vê”: “Tornerà un altro inverno / cadranno mille petali di rose / la neve coprirà tutte le cose / e forse un po' di pace tornerà”

Os pitagóricos acreditavam (e acreditam) que o segredo do universo estaria explicado na matemática. A precisão dos números revelaria a ordem de todas as coisas. A música, por incrível que pareça, está mais próxima da matemática do que se pode supor. Se a música pode ser registrada numa partitura é porque sua matemática de tempos e de tons a permite. João volta a olhar para o céu. É, agora é para o céu. Talvez sua partitura esteja registrada na ordem das estrelas: “Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore / l'estate che ha creato il nostro amore / per farmi poi morire di dolore”

CENA 3 (Zoom-in no rosto de João. Plano de detalhe)


A cena é comovente. Agora, o que se vê é uma sequência de alguns minutos no rosto de João. Sua testa sua. Seu olhar é suave e contínuo, feito fio de água antes de explodir em rio. O pai da Bossa Nova olha para o violão como quem a ninar o primeiro filho. Como quem olha apaixonado a amada ainda sem saber se tem também o seu amor. Como quem abraça um triste amigo, feliz por sabê-lo um dos seus. Levemente, sorri. E esse sorriso é para o violão, como a agradecê-lo por não estar sozinho. Todo o mistério de João se revela nessa sequência. E toda a potência de seu comedimento também. João repete a letra. No entanto, sabe que toda repetição traz em seu bojo a força de uma diferença. João nunca repete. Bossa-cancione sempre outra a mesma.

CENA 4 (Zoom-out do rosto de João. Volta para Plano médio)


A música termina. O menino levemente sorri. As luzes se apagam...

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 13 de julho de 2019

sábado, 29 de junho de 2019

Sobre Kafka, Hitchcock, Orson Welles e a recente política brasileira: um olhar sobre o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa




Próximo do nascimento de minha segunda filha, assisti ao documentário “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, que acaba de ser disponibilizado na plataforma Netflix. Ao longo da narrativa, fui sendo tomado por uma triste emoção que me levou a perguntar: Que Brasil será o país de minhas filhas? Que país será o Brasil dos filhos de todos os outros brasileiros? Esse sentimento de apreensão não brotou só agora com o filme. Ele já vem se delineando há alguns anos, no entanto, “Democracia em Vertigem” me fez lembrar com vigor dos acontecimentos políticos que têm transformado o Brasil em palco de um drama que, como nas antigas tragédias gregas, apresentava a transição de um estado de felicidade à infelicidade nos caminhos de um herói cujo destino era sofrer. Lembrando do filme “Um corpo que cai”, de Alfred Hitchcock, cujo título original é “Vertigo”, constato que nossa democracia está atravessando um momento de grande desequilíbrio. Se a vertigem nos dá uma falsa sensação de movimento de rotação, isso significa que enquanto alguns pensam que estamos caminhando para frente, talvez estejamos apenas nos desequilibrando numa trágica e inevitável lei do eterno retorno. Talvez estejamos caminhando para trás.



Sou um admirador do cinema de Petra Costa desde que vi o belo documentário “Elena”, que reflete poética e autobiograficamente sobre o suicídio de sua irmã. Percebi ali uma sensibilidade cinematográfica que faz jus ao trabalho de documentaristas como Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. A influência é visível. Petra articula com propriedade a linguagem artística de suas narrativas com questões íntimas, usando em seus filmes inclusive imagens de arquivo pessoal. No caso do novo filme, podemos vislumbrar um olhar pessoal sobre a decadência de nossa jovem democracia que cresceu junto com a diretora. Nesse sentido, a história é especial também para mim, porque minhas mais remotas lembranças estão ligadas às manifestações em prol da democracia no início dos anos 80, bem como a morte de Tancredo Neves e o processo de redemocratização, a que eu assistia pela TV entre desenhos infantis. Envelhecemos agora tão jovens.     


“Democracia em Vertigem” começa com a prisão de Lula, mesclando cenas de protestos a favor e contra a condenação, bem como tomadas do interior do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, onde podem ser vistos os bastidores da prisão. Logo depois, a voz de Petra Costa começa a narrar de forma melancólica, tendo como fundo visual uma panorâmica do interior do Palácio do Alvorada, em Brasília. A diretora fala sobre a dura construção de uma estabilidade política que parece ter durado pouco. A narradora teme que a nossa democracia tenha sido um sonho efêmero. Imagens de sua infância vão sendo intercaladas com registros do movimento das Diretas Já. É aí que entra Lula e sua importância histórica no processo de redemocratização. Comenta-se, in media res, a criação do Partido dos Trabalhadores, sua ascensão, bem como uma série de derrotas presidenciais até a eleição de Lula, em 2002, com posse em 2003. A diretora apresenta as contradições de seu governo, que foram desde o mensalão até a subida do Brasil no ranking das maiores economias mundiais, em tempos de crise internacional, evocando com nostalgia a saída de milhões de brasileiros da zona de pobreza. Petra celebra as conquistas, mas não perde o senso crítico ao apontar falhas do governo, inclusive aquelas ligadas a uma perigosa aliança com o PMDB, que seria peça-chave para a derrocada do governo alguns anos depois. Na sequência, assistimos à eleição de Dilma e o início de uma grande crise nacional no final de seu primeiro mandato, em 2013, tensão que foi sendo agravada por uma série de motivos até o processo que motivou seu impeachment.


A tônica do documentário está nos acontecimentos que precipitaram a saída de Dilma, como as manifestações que tomaram as ruas do país, muitas vezes influenciadas pela grande mídia, que foi profundamente parcial, passando pelo advento da Lava Jato, que ganhou infelizmente um ar partidarista ao longo de seu processo, até a ópera simultaneamente bufa e grotesca da votação no Congresso para a aprovação da instauração do impeachment. Dali, sairiam nossos próximos líderes, com seus votos sensacionalistas, seus discursos altamente questionáveis e sua esquizofrenia em relação a uma suposta invasão comunista em nosso país, dignas de um roteiro de Orson Welles, em “A Guerra dos Mundos”, inspirado em H.G. Wells. Tudo isso tendo como pano de fundo uma movimentação clandestina movida pelo PMDB disposto a comprar o silêncio de Cunha para manter Michel Temer no poder, o que veio à tona por meio da escuta telefônica de uma conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado. Petra Costa apresenta também o parecer de juristas internacionais apontando problemas no julgamento de Lula, que não teria sido imparcial, o que os adventos das últimas semanas envolvendo o atual Ministro Sérgio Moro têm consignado.



Há uma complexidade que está por trás de todos os acontecimentos políticos que desencadearam não só o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a emergência de uma ultradireita em nosso país, cujo espaço aqui é insuficiente para ser esmiuçada. O documentário de Petra Costa, em suas quase duas horas de duração, consegue resumir com nitidez os fatos. O momento mais trágico talvez seja aquele em que Dilma confessa ser o próprio Josef K, personagem do romance “O Processo”, de Franz Kafka.

  

Em certo momento do filme, a narradora observa que na construção de Brasília o povo foi esquecido, e a cidade acabou se solidificando em cima da corrupção. Petra observa que é a história de um país rachado que estamos herdando. A história da família da própria diretora está repleta de contradições já que, ao lado dos ideais de direita de seus avós, filhos de uma elite mineira tradicional, estão os ideias de seus pais, que sonharam com uma democracia nos anos 60 e 70, tornando-se militantes contra a ditadura que chegaram a viver na clandestinidade. As próximas cenas desse filme estão ainda para ser escritas. Que nossos filhos não cresçam se sentindo envergonhados por nós. Que a vertigem seja passageira.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 29 de junho de 2019.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Coisas da Argentina



Dentre as literaturas latino-americanas, aprecio consideravelmente a da Argentina, em especial aquela produzida pelos contemporâneos. Para além de Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar - autores que dispensam comentários -, gosto muito de Alan Pauls e Cesar Aira (já escrevi sobre eles neste Caiçara). São escritores muito diferentes, no entanto bastante comprometidos com uma linguagem sofisticada e enredos bem elaborados, bem como fieis a um projeto literário muito criativo e singular. Gosto também de Martin Kohan, mas não tanto. Seus temas são bons, porém suas narrativas e o trato com a linguagem (pelo menos dos livros que li) em geral ficam devendo. Gosto é gosto, não se discute. Encantam-me as obras de Leónidas Lamborghini, de seu irmão Osvaldo Lamborghini e de Rodolfo Fogwill, autores ainda pouco conhecidos no Brasil. Aprecio o neobarroco Néstor Perlongher, que chegou a morar no nosso país durante alguns anos. Tenho lido com muito interesse os livros de Daniel Link, escritor que tive o prazer de conhecer e reencontrar em alguns eventos literários no Brasil e na Argentina. Recentemente, descobri a poesia de Ricardo Daniel Piña, poeta que tive também o prazer de conhecer de uma maneira bem inusitada. Vou contar.
Certa vez, passeando pela Calle Corrientes, no centro de Buenos Aires, parei para observar jornais em um dos tradicionais “kioscos”, aquelas bancas de revista que estão situadas no meio das calçadas em qualquer grande cidade. Em muitos “kioscos” de Buenos Aires, podem ser encontrados exemplares das famosas cartoneras, livros confeccionados de forma artesanal e com baixo custo por uma editora chamada Eloísa Cartonera. Os livros possuem capa de papelão e este é comprado de uma cooperativa de catadores (cartoneros), daí o nome da publicação. Curiosamente, a aparente simplicidade da cartonera contrasta com a qualidade dos autores editados por ela. A Eloísa seleciona muito bem os livros que edita, geralmente escritos por grandes nomes da literatura argentina (alguns brasileiros já foram editados por ela). Há um outro elemento curioso na confecção das cartoneras: a reprodutibilidade mecânica dos textos (geralmente fotocopiados), de forma bastante comum, contrasta com o caráter irreprodutível das capas, pintadas uma a uma de forma artesanal e diferentes umas das outras, o que lhe dá um caráter verdadeiramente artístico. Cada exemplar é único e irrepetível. O fenômeno das cartoneras nasceu com a Eloísa num período de grave crise econômica da Argentina, e se espalhou por toda a América Latina. No Brasil, já existem muitas dessas editoras: a Dulcinéia Catadora, em São Paulo, a Katarina Cartonera, em Florianópolis, a Severina Catadora, em Pernambuco, só para citar algumas. Em 2013, aqui em União da Vitória, tive o prazer de criar, com acadêmicos do curso de Letras da UNESPAR, a Therezinha Cartonera, cujo nome é inspirado na querida amiga e poeta local, Therezinha Thiel Moreira. De lá para cá, pudemos lançar algumas edições inéditas sempre promovendo a obra de autores locais. Os livros eram distribuídos gratuitamente na cidade, em uma tentativa de promoção do ato de ler. Quem sabe no futuro possam nascer outras edições. Mas voltemos ao “kiosco” e a Ricardo Daniel Piña.



Depois de escolher algumas cartoneras (cada uma custando um valor quase irrisório) em um “kiosco” da Calle Corrientes - esquina com a Paraná -, dirigi-me ao dono da banca para pagar. Qual a minha surpresa ao descobrir que o proprietário do “kiosco” era poeta e, ainda mais, um dos autores editados pela Eloísa Cartonera. Um dos livros artesanais que eu escolhera, “La Bicicleta”, tinha sido escrito justamente por ele. Demos boas risadas e Piña ainda autografou o livro para mim. Ele me falou de sua amizade com poetas brasileiros, alguns dos quais sou fiel leitor. Perguntou-me de Douglas Diegues, Joselly Vianna Baptista e Haroldo de Campos. Saí da banca imaginando qual seria a chance de encontrar no caixa de uma livraria ou de uma banca de jornais e revistas o autor do livro comprado. Coisas da Argentina. Se o leitor passar pela esquina da Corrientes com Paraná, em Buenos Aires, leve a Ricardo o meu abraço.




Ricardo Daniel Piña

Outro fato que me chamou a atenção em Buenos Aires foi a quantidade de livrarias na cidade, bem como o interesse que os livreiros têm de falar sobre os livros que vendem com um conhecimento particular de quem lê. Aí concluí que não se pode vender um livro como se vende um sapato ou um guarda-chuva. É preciso amar minimamente aquilo que se vende. O que se ama se vende melhor, o que se ama se dá para além do vender. Vislumbrei com alegria muitas pessoas na rua com livros na mão e fiquei surpreso ao ouvir, no congresso de literatura, vários jovens pesquisadores falarem com entusiasmo e propriedade sobre a obra de Clarice Lispector. Aí fiquei preocupado pensando se Clarice não estaria hoje sendo mais lida por jovens argentinos do que brasileiros. Tomara que não. Tudo bem que uma escritura como a de Clarice seja pós-nacionalista, para muito além da pátria - Clarice é cósmica -, mas seria um desperdício perder para “los hermanos” neste campo tão poético quanto o futebol.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 08 de junho de 2019

sábado, 18 de maio de 2019

51 motivos para se investir na Educação




Investir na Educação é uma forma de criar caminhos para se resolver problemas. Investir na Educação é uma forma de imaginar mundos possíveis, outras formas de vida, mais felizes e eficazes. Investir na Educação é uma forma de conceber outros modos de comunidade. Investir na Educação é uma forma de recuperar o tempo perdido. Investir na Educação é uma forma criar alternativas para os problemas ambientais. Investir na Educação é uma forma de combater preconceitos. Investir na Educação é uma forma de criar beleza. Investir na Educação é uma forma de criar condições para se responder perguntas. Investir na Educação é uma forma de criar condições para se fazer outras perguntas (são elas que movem o mundo). Investir na Educação é uma forma de combater a violência. Investir na Educação é uma forma de se criar condições para viajar. Investir na Educação é uma forma de não ser um idiota útil. Investir na Educação é uma forma de não ser massa de manobra. Investir na Educação é uma forma de melhorar a economia. Investir na Educação é uma forma de fazer valer os direitos humanos. Investir na Educação é uma forma de povoar o mundo com esperança. Investir na Educação é uma forma de investir em outros olhares. Investir na Educação é uma forma de voar fora da asa. Investir na Educação é uma forma de criar um horizonte de possibilidades. Investir na Educação é uma forma orientar de forma responsável, apartidária embora politicamente, mentalidades. Investir na Educação é uma forma de combater a pobreza física, moral e social. Investir na Educação é uma forma de criar condições para se ler mais e melhor. Investir na Educação é uma forma de fazer amigos.  Investir na Educação é uma forma de combater a corrupção. Investir na Educação é uma forma de ser patriota. Investir na Educação é uma forma de conter gastos futuros. Investir na Educação é uma forma de organizar o caos. Investir na Educação é uma forma de criar condições para um país ser mais do que é. Investir na Educação é uma forma barata de ganhar uma guerra, ou de pelo menos combatê-la com mais armas (mas não as que matam ou machucam). Investir na Educação é uma forma de se plantar o futuro. Investir na Educação é uma forma de combater a intolerância. Investir na Educação é uma forma de perpetuar melhor a espécie. Investir na Educação é uma forma de fazer melhores planos. Investir na Educação é uma forma de resolver imbróglios. Investir na Educação é uma forma de legar cultura. Investir na Educação é uma forma de desenvolver a empatia. Investir na Educação é uma forma de disseminar a literatura. Investir na Educação é um modo de favorecer a realização de sonhos. Investir na Educação é uma forma de prevenir incêndios. Investir na Educação é uma forma de educar os investimentos. Investir na Educação é uma forma de contribuir para a formação dos seres. Investir na Educação é uma forma promover justiça. Investir na Educação é uma forma de promover a resistência em tempos de adversidade. Investir na Educação é uma forma de trazer conforto. Investir na Educação é um jeito de ajeitar as coisas. Investir na Educação é uma forma de combater a pobreza de experiência. Investir na Educação é uma forma de deixar nome. Investir na Educação é uma forma de desenvolver a ciência. Investir na Educação é uma forma de não repetir Auschwitz. Investir na Educação é um modo de mudar o mundo... para melhor.  

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 18 de maio de 2019

terça-feira, 7 de maio de 2019

Por que se lê? O livro que lemos, o livro que nos olha







(Camus, Drummond, Garcia Marquez e Mário de Andrade lendo)


Uma pessoa pode ler um livro porque alguém indicou (o que leva uma pessoa a indicar uma obra para alguém poderia ser tema de outro texto), uma pessoa pode ler um livro porque a capa é bonita (ela, por sinal, pode ser até melhor do que um livro, alguns dos melhores que li, no entanto, tinham capas horríveis), uma pessoa pode ler um livro porque está buscando conhecer a cidade retratada por um autor (o que pode ser muito bom tanto quanto surpreendente, apesar de que a cidade de fato às vezes tem pouco a ver com a cidade da foto), uma pessoa pode ler um livro porque está querendo fazer hora (essas leituras são deliciosas, já que a literatura é uma das melhores maneiras de se perder tempo), uma pessoa pode ler um livro porque está querendo aprender algo sobre alguma coisa (leitura quase sempre frustrante, lendo se aprende objetivamente pouquíssimas coisas, a não ser aquelas que vão nos tornando aos poucos e silenciosamente em quem somos), uma pessoa pode ler um livro porque está precisando fazer um resumo (talvez as piores leituras sejam essas, resumir é uma espécie de egoísmo, uma forma de dar sempre menos do que recebemos), uma pessoa pode ler um livro porque está precisando impressionar alguém (já leu tal obra? Esta é uma pergunta geralmente feita apenas depois que se lê quando se quer passar de gabola, pois os verdadeiros leitores são uns desavergonhados ou o contrário), uma pessoa pode ler um livro porque está precisando reduzir a pena (quando a leitura pode ser verdadeiramente útil, é uma ótima maneira de recuperar o tempo que se gasta lendo: um dia de liberdade por livro lido), uma pessoa pode ler um livro porque está querendo ver se ele é melhor do que o filme (ótima forma de ler duas obras diferentes mesmo que falando sobre a mesma coisa; ler o livro antes ainda me parece mais interessante, apesar de que Macunaíma, para mim, não tem outro rosto além daquele de Grande Otelo, às vezes o filme é melhor, mas é raro), uma pessoa pode ler um livro porque está precisando preparar uma aula (professores-leitores são os piores, trocam todos os seus projetos e desejos por umas milhares de páginas lidas e geralmente só gostam de falar sobre os livros que amam), uma pessoa pode ler um livro porque está precisando divertir-se (definitivamente, a melhor leitura: Leio porque é bom! Porque me dá prazer!), uma pessoa pode ler um livro porque está precisando buscar uma citação para a sua fundamentação teórica (2019, p. 01), uma pessoa pode ler um livro porque está querendo passar um tempo em Passárgada (ler é uma das únicas formas, para além do uso das drogas, de viver um outro mundo – por pior ou melhor que ele seja na ficção -, de imaginar outras realidades, ou tentar de alguma forma concebê-las, sem com isso morrer de tédio ou de overdose), uma pessoa pode ler um livro porque gostou do seu cheiro (uma variedade de papeis e tintas geram odores sutis e convidativos aos apreciadores mais sensíveis, ainda não inventaram uma ciência para estudar isso; Ruben Darío perfumava alguns de seus livros de poesia antes de vendê-los), uma pessoa pode ler um livro porque está precisando sobreviver (há casos emblemáticos de livros que salvam uma vida em tempos de adversidade, como nas guerras que acontecem dentro da gente, ou mesmo em conflitos sociais, tempos de homens partidos em ambos os casos), uma pessoa pode ler um livro porque se sentiu misteriosamente atraída por ele (a literatura pode ser uma forma de bruxaria, fazendo suas mandingas de amarração, há livros que nos enfeitiçam pela primeira frase: “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne”, assim começa o clássico de Nabokov), uma pessoa pode ler um livro porque gostou do título, (“A Insustentável Leveza do Ser”, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, “5 Bonecas de Olhos Vazados”, “O amante”, “O Amor nos Tempos de Cólera” etc), uma pessoa pode ler um livro porque sente uma necessidade orgânica de lê-lo (a musculatura ocular poderia se viciar no movimento de ir e vir que toda leitura pressupõe?). Vemos nossos livros, mas certamente eles também nos veem. Lemos nossos livros, mas certamente eles também nos leem. O escritor português Valter Hugo Mãe escreveu no texto Bibliotecas: “Os livros têm olhos para todos os lados e bisbilhotam o cima e o baixo, a esquerda e a direita de cada coisa ou coisa nenhuma. Nem pestanejam de tanta curiosidade. Podemos pensar que abrir e fechar um livro é obrigá-lo a pestanejar, mas dentro de um livro nunca se faz escuro. Os livros querem sempre ver e estão sempre a contar”. Pode-se ler por muitos outros motivos, todos eles dignos e merecedores de atenção.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 05 de maio de 2019

sexta-feira, 3 de maio de 2019

4 músicas


Baden e Vinícius



O encontro de Baden e Vinícius, do violão e da voz, da potência de Powell e da pena do poeta. Aquele encontro religioso e musical de dois bruxos na encruza do afrosamba. Pra quem faz de seu instrumento um berimbau, não há mandinga que não possa ser dedilhada e cifrada nos acordes de um violão. E assim o som vai quebrando todos os quebrantos. "Tempo de amor" é tempo de dor, ensina a canção de um dos discos mais emblemáticos da MPB. Sofrer e amar, para Vinícius, são sinônimos inalienáveis. São coisas do coração. Na versão dessa música, registrada por Pierre Barouh, no Filme Saravah, Baden fuma e toca alucinadamente ao mesmo tempo. Quem canta é Marcia Sousa. Em Afrosambas, o encontro do Brasil com a África por meio de um oceano chamado música. Saravá, Baden e Vinícius!




Gardel


Uma volta por Chacarita, seguindo os rastros do cantor, ou na Boca, bairro boêmio de compadritos, ou mirar um velho casal milonogueiro na feira de San Telmo, ou ouvir o bandoneón convidando a cantar Por una Cabeza, na confeitaria Tortoni, talvez nos bailes domingueiros de La Ideal, depois uma pizza en el Cuartito, ao som de Gardel e seus bons ares em todos os cantos da cidade. Chorar todos os mortos ilustres na Recoleta ou espairecer en la Plaza San Martin, depois no Parque Lezama, depois mirar Lola Mora na Fuente de las Nereidas. Quem sabe trocar uma canção por essa cidade, ou uma cidade por essa canção. Salve a malandragem porteña! E a música segue tocando.



Sinhá


Sinhá, de Chico Buarque e João Bosco, é uma canção que conta a história do Brasil. O primeiro narrador é um negro da senzala que é acusado de ter espiado a sua dona branca que estava se banhando no açude. Ele se defende inutilmente e é torturado pelo senhor no pelourinho. Depois de uma alteração tonal (signo de uma mudança temporal), entra na canção um segundo narrador que se diz herdeiro tanto do escravo quanto do senhor de engenho, ou seja, estamos diante de um narrador mestiço, que é o próprio brasileiro. Ressignifica-se a primeira parte da canção. Se o segundo narrador é herdeiro da casa grande e da senzala, isso significa que provavelmente o escravo tenha enfeitiçado a sinhá. Somos, no Brasil, todos filhos desse idílio, isso sem contar o recorrente estupro das negras africanas que gerou o que chamamos de Brasil. Como em um poema de Drummond, o leite ao misturar-se com o sangue, formou o terceiro tom a que chamamos aurora.

Janis



A voz de Janis Joplin vem do Éden (que fica próximo ao rio Mississippi), dá pra perceber ao ouvirmos Kosmic Blues. Perfumada de patchouli, abraça o espaço, depois o rasga e encanta. É alada e azul como o blues, mas ferve avermelhando o vazio da imensidão. Faz os seus feitiços para não ficar sozinha, mas, como sua dona, sofre astuta e angustiada sempre com a solidão. Anda de mãos dadas com o céu e nele tenta se agarrar para não cair. Nem Jimi nem Hendrix sabem de seu sal a queimar a pele em meio a algumas lágrimas que chovem ácidas e com atropelo pelo branco de seu lindo rosto.

c.moreira

sábado, 20 de abril de 2019

Para ler na noite profunda: apontamentos sobre a biografia de Wilson Bueno, escrita por Luiz Manfredini



Em 2019, Wilson Bueno completaria setenta anos. Como o escritor não morre mais, entabulo com ele essa conversa no escuro.

“Lembra, caro Bueno, que em maio de 2010, dois dias antes de ser brutalmente assassinado em tua casa, você enviou por e-mail para Mariana Camargo, da revista “Ideias”, tua última crônica, intitulada “Para Sempre”, que vinha com uma indicação: “Para ler na noite profunda”. Nela, você dançava tuas palavras, como de costume, mas talvez mais profético ao quem sabe pressentir naquela madrugada a queda mortal: “Pela primeira vez, em muitos anos, eu me disse que a felicidade podia ser mais que uma esperança – essa ilusão sempre renovada para não morrermos de nós mesmos – precocemente”. Neste mundo, você encerrava precoce e docemente tua carreira de literato com as últimas palavras que fechavam um ciclo de vida e arte, vividos intensamente: “Agora que estou morto e vigora em mim o seu cadáver simples, agora posso dizer – também pela primeira vez sem mentir – que não sonho. Você vive em mim e eu em você, eternamente”. Com quem você falava? Alguém ou algo? Com a própria poesia? Com a arte que moveu e com a qual foi movido desde tenra idade? E se abro essa conversa com as palavras que fecharam tua porta é para dizer que todo fim talvez seja só começo, como nas Memórias Póstumas que Machado imortalizara há mais de um século. Curvo-me à tua sepultura como quem se dobra a um texto. Dancemos um bolero ou um tango. Talvez você não saiba, mas teu amigo de infância Luiz Manfredini escreveu tua biografia, “A pulsão pela escrita” (Ipê Amarelo, 2018). O título dela é perfeito para ilustrar a história de alguém que certa vez confessou que não se concebia sem a escrita, que não concebia o mundo sem a expressão literária: “Literatura, para mim, é isso: uma pulsão vital, absoluta”. Se você pudesse lê-la, relembraria – talvez com uma boa dose de saudade - tua vida de sangue, suor e sêmen, tristezas rubras e alegrias marafas, canto nas manhãs de passarinho, vida nas madrugadas ácidas de boteco. Ali, em tua biografia, relembraria a infância no interior do Paraná, a mudança para Curitiba, e depois os anos loucos no Rio de Janeiro, em tempos de chumbo grosso. Reencontraria Madame Satã, que frequentou tua quitinete em Ipanema. Relembraria o Solar da Fossa, pensão e reduto carioca dos artistas nos anos 60 e 70. Passearia novamente com a amiga Clarice Lispector pela orla do Leme a fantasiar imensidões. Clarice te chamava de Quixote, lembra? Quem seria teu Sancho? Leria mais uma vez a correspondência que trocou avidamente com João Antonio em meio a Malaguetas, Perus e Bacanaço. Daria de cara com Carlos Drummond de Andrade mais uma vez no apartamento de tua amiga e com ele trocaria impressões sobre uma nova obra. Aliás, lembra que ele elogiou com candura teu livro de estreia, “Bolero´s Bar”? Saiba que Luiz Manfredini, na biografia, abordou temas privados de tua vida sem se esquivar da polêmica ao abordar os anos de alcoolismo e a tua sexualidade vivida com urgência. E isso em nada macula teu ser. Quem ler esse panorama, o da biografia, entenderá o motivo de você ser chamado de Rimbaud Brasileiro ou de personagem de Jean Genet. Como poucos da tua geração, você fez de tua vida a própria obra de arte. Por isso Curitiba foi pequena para você e outros grandes da cidade, curitibanos ou não, Leminski, Marcos Prado, Jamil Snege, Manoel Carlos Karam, Valêncio Xavier e tutti quanti. O crítico   Manuel da Costa Pinto, na seção “Ilustrada”, da Folha de São Paulo, escreveu sobre “Bolero´s Bar” que tanto você como Dalton Trevisan farejam perversões na calada da noite, mas enquanto o vampiro desvia para o escárnio e para a tara, você acaba “criando uma atmosfera tardo-simbolista, povoada por gigolôs, michês, travestis e outras personagens da fauna underground”. Essa atmosfera tardo-simbolista parece perviver em toda a tua obra. Ao ler a observação do crítico, começo a entender o motivo de tanto encanto exercido pelo teu texto em mim. É a paixão pela linguagem – dança erótica e delicada de sons e sentidos - que me liga a você, caro Bueno. É uma pena que tenha sofrido como tantas Marias – a mais famosa no Paraná também Bueno – com a violência masculina que ceifou tua vida. Mas falemos de projetos. Está aí a compor aqueles que não cumpriu aqui? Aquele misto de memória (existencial) e de reflexão sobre teu processo criativo que pretendia escrever: “uma espécie de laboratório do escritor”? Ou mesmo aquele livro de memórias ensandecidas sobre os ensandecidos anos 60 e 70 no Rio de Janeiro? E qual será a próxima viagem? Qual a próxima revista, depois da grande Nicolau, que fez um barulho enorme por aqui? Qual a próxima estação? Enfim, tanta coisa pra perguntar, pra lembrar, que me falta tempo e espaço. Contento-me em encerrar com as palavras de Chico Buarque, na famosa carta que enviou em música a um amigo: “Aqui na terra tão jogando futebol / tem muito samba, muito choro e rock´n´roll / uns dias chove, noutros dias bate sol, mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta”. No Brasil, a coisa tá feia, mas melhor não entrar em detalhes e torcer por dias melhores”. 

Com admiração e saudade, de teu fiel e vagau leitor, Caio Moreira

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 20 de abril de 2019. 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

domingo, 7 de abril de 2019

Escombros de uma história silenciada: Para uma leitura de “Zilda, o assassinato da Santinha”, de Mariana Honesko Bortolini




O livro-reportagem “Zilda, o assassinato da Santinha”, da jornalista Mariana Honesko Bortolini, lançado há alguns dias, vem para preencher uma lacuna na memória das cidades de Porto União da Vitória. Corajosa ao abordar um sinistro e misterioso episódio da história local, a obra é um dos poucos registros dispostos a pensar o caso trágico que vitimou a jovem Zilda Santos, de apenas 13 anos, e que abalou a região do Vale do Iguaçu no final dos anos 40, e que segue indignando todos aqueles que tomam conhecimento do ocorrido.
Vítima de um crime extremamente cruel, Zilda Santos, dos Santos ou Izildinha - como alguns preferem chamá-la – hoje é a popular Santinha, venerada por muitos fiéis no Cemitério Municipal de União da Vitória. A ela são atribuídos milagres e graças. Seu túmulo, adornado sempre com flores, é local de novenas e ampla visitação.
O crime que ceifou a vida da jovem ficou conhecido como o “Crime da Rua Cruzeiro” ou “Crime do Iguaçu”, já que seu corpo foi encontrado boiando no rio alguns dias depois de ter desaparecido. O que aconteceu entre o sumiço de Zilda e o encontro de seu cadáver é ainda objeto de muitas especulações. A menina teria sofrido abuso sexual durante alguns dias por homens da “alta sociedade” de União da Vitória e Porto União, sendo mantida em cárcere privado num lupanar que funcionava no bairro Santa Rosa, fato que implicou em uma série de silenciamentos sobre o caso, a saber, o desaparecimento de documentos importantes, morte de supostos envolvidos, fuga de outros, bem como perseguição àqueles que tentaram denunciar o crime publicamente, contribuindo para solucioná-lo. É o caso da jornalista Lulu Augusto, que chegou a fundar o Jornal Caiçara com a finalidade de noticiar o andamento das investigações e contribuir para a elucidação do crime. Ela chegou a escrever uma novela radiofônica sobre o assassinato de Zilda levada ao ar pela Rádio União. Os acontecimentos que circundam a participação de Lulu no caso são dignos de um filme, sendo relembrados por Delbrai Augusto Sá no prefácio do livro que agora é publicado.
É a partir desses silenciamentos da história que, corajosamente e com um senso investigativo muito caro aos bons jornalistas, Mariana escreveu esse livro que cumpre um papel muito importante não apenas pelo registro do sinistro, e por toda a informação que conseguiu reunir, mas também porque investe em um tema que infelizmente permanece atual, o caso de toda e qualquer violência contra a mulher. A autora, inclusive, traz muitos dados que alarmam pelos crimes sofridos por mulheres não só em nossa região, mas em todos os lugares. Entre os altos índices de espancamentos, feminicídio, e abusos de toda ordem, a violência sexual na infância é um dos mais abjetos e assustadores. O livro sinaliza, assim, contra “incêndios futuros”, o que quase toda boa obra de cunho historiográfico deve fazer.
Destaco no livro-reportagem de Mariana a farta presença de documentos fotográficos e de arquivo que fundamentam a sua pesquisa. Chamo a atenção também para a participação de uma série de colaboradores que deram seu importante depoimento. É o caso de Odilon Muncinelli, filho de Cícero Muncinelli, capitão da lancha Santa Terezinha, cujos tripulantes encontraram o corpo da jovem assassinada, avisando as autoridades na época. Tudo foi relatado no diário de bordo da embarcação: “O livro foi recolhido como material de prova, mas jamais devolvido e, até hoje, seu paradeiro é um grande mistério”. Mais um capítulo do silenciamento que vimos apontando ao longo do texto. Como e por que esse documento teria desaparecido do processo? Para Odilon, esse não foi um crime perfeito, porque “a população da época sempre soube quem foram os responsáveis”.
Creio que Mariana Honesko Bortolini só não foi mais longe em sua pesquisa justamente devido ao silenciamento que moveu o caso e porque muitas pistas foram ao longo dos anos apagadas. O caso Zilda era para a “limpa e reluzente” sociedade local uma nódoa que maculava uma parcela daqueles que supostamente zelavam por ela. Mas como o recalcado está fadado a ressurgir como fantasma, o episódio não é página virada e Mariana contribui para nos lembrar que nem sempre o que reluz é ouro. Só o fato de não permitir que essa triste memória se apague já ajuda a descansar esse fantasma. É uma forma também de tentar salvar outras Zildas. Que Deus dê descanso a todas elas, mas não deixe de fazer justiça. O livro da Santinha é muito bem-vindo por isso tudo!

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 06 de abril de 2019


Leminski e seu lance de ensaio: textualidades ninjas




(Arguição à Dissertação de Mestrado de Gabrielli Margarida Zanella defendida no dia 29 de março de 2019 no Programa de Pós-Graduação em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina)

Caio Ricardo Bona Moreira

Em uma recente antologia, A Hora da Lâmina, que recupera os últimos textos que Leminski publicou em jornal, numa coluna semanal na Folha de Londrina, entre abril e junho de 1989 (o texto que encerra a colaboração é veiculado cinco dias antes da morte do poeta), podemos encontrar uma série de textos que nos ajudam a compreender o motivo de Leminski tratar os textos que veiculava na imprensa como “textos-ninja”: “textos curtos, ligeiros, ácidos, ágeis, mas também ferinos ácidos, arrebatadores”, nas palavras de Felipe Melhado, organizador da antologia. Para ele, em seus textos derradeiros, “Leminski esboçava um verdadeiro elogio do conflito, lançando bases para um entendimento bélico da vida cotidiana” (2017, p. 10). Dos oito textos, os últimos quatro tratam da questão da luta e da guerra como experiência de vida[1]. No primeiro deles, Leminski observa que sua vida se rege por princípios estritamente militares, inspirado em Napoleão e na leitura do general von Clausewitz, general prussiano que para o autor é clássico máximo e “estudo obrigatório em todo Estado-Maior do mundo inteiro” (2017, p. 49). Com von Clausewitz, o escritor aprendeu: como atacar, como se defender se os víveres escasseiam, como conduzir com sucesso uma boa retirada. Leminski não tarda em alertar que não se trata de defender uma visão agressiva e feroz da vida, como desavisados poderiam pressupor. Trata-se de pensar na guerra não apenas como dor e destruição, perda e desgraça, crueldade e fim da inocência. Para o poeta-ensaísta, guerrear é “uma das coisas mais divertidas da vida”: “A guerra só é dolorosa quando você perde”, escreve ele. No texto de 12 de maio, o assunto é a Guerra do Contestado, sangrento episódio que aconteceu tão próximo de onde vivia. Uma semana depois, comenta o livro zen Discurso sobre a Arte dos Demônios da Montanha, do japonês Shissai Chozan, escrito no início do século XIX, e que trata da esgrima, o Ken-dô. Leminski escreve que o Ron de Chozan (ron, em japonês, quer dizer “argumento”, “tratado”, “ensaio”) tem um suporte ficcional:

O espadachim vai se isolar nas montanhas, consultar os tengu, os espíritos do céu, duendes de nariz comprido (no imaginário nipônico, os tengu são modelos de orgulho, força e sabedoria (...). Longo tempo, aos brados, o espadachim invoca a presença dos tengu. Até que eles aparecem, no alto de uma árvore. E começam a responder às perguntas do aprendiz. (2017, p. 62).

Nessa experiência do kendô, é fundamental o conceito de “naturalidade do coração”, ou seja, a prática da esgrima é uma libertação da intenção. Nesse sentido, os golpes devem acontecer sem a “interferência da vontade de um Ego”. Independente disso, na arte das espadas exige-se “a fusão da segurança técnica com entendimento espiritual”.
Leminski compreende então o gênero Ron de Chozan como uma espécie de ensaio. E por que não pensarmos aqui no ensaio na obra desse autor como uma espécie de prática cotidiana de luta, exercício marcial do confronto. Penso se não vai por aí um caminho que nos ajuda a pensar no ensaísmo leminskiano, como arena de combate, ringue de disputas, bem como lugar de entendimento, de experimentação da técnica, espaço de problematização da cisão palavra que na cultura ocidental, como observou Agamben, colocou a filosofia de um lado e a poesia de outro, impossibilitando ao mesmo tempo o conhecimento e o gozo. São questões que estão discreta ou explicitamente movendo ou sendo movidas pelo pensamento de Gabrielli Zanella em sua dissertação “A potência poética nos ensaios de Paulo Leminski”.
O ensaio, tal como praticado por Leminski, no interstício entre a crítica e a arte, entre a poesia e a filosofia, entre o jornalismo e a literatura, parece caminhar para aquela mitologia crítica que segundo Agamben (2005) já existe e que conclama os poetas a serem também filósofos (críticos) e os filósofos (críticos) a serem também poetas. Do caso de amor ou namoro entre essas instâncias parece brotar do ventre do poeta um rebento destinado ao saber e o sabor, simultâneos, um rebento que se depreende do ensaio, do texto-ninja, lugar em que poética e política parecem ser praticadas com entusiasmo.
Ensaio, texto jornalístico, anseio, crônica, crítica? Talvez não importe tanto a definição. O próprio poeta chegou a adotar os termos “reflexão”, “instruções” e “textos-ninja”, num ensaio destinado a pensar a Ruína. Diz ele: “Assim, o nome desta reflexão (odeio a palavra crônica, com que alguns costumam designar meus textos-ninja) era para ser instruções para a construção de uma ruína” (LEMINSKI, 2012, p. 174). Em uma carta a Haroldo de Campos, de 1976, usou a expressão “quase-ensaios”, ao se referir ao Catatau. Gosto de ensaio, porque sua liberdade entra em consonância com o que se percebe nessa textualidade jornalística selvagem do escritor de Catatau, que como bem analisou Gabrielli Zanela, em sua dissertação de Mestrado, soube trabalhar inventivamente seu pensamento no ensaio, inventariando a própria expansão de seu limite enquanto gênero.
Antonio Candido observava sobre Oswald de Andrade que ele renovou a prosa e a poesia rompendo a linha divisória entre a prosa e a poesia. Essa renovação pode ser entendida também no que se refere à mistura de gêneros, já sinalizada por Haroldo de Campos, como uma “técnica de descoberta criativa”. Fato semelhante se deu com o Leminski em relação principalmente a sua prosa poética de Catatau, suas cartas e seu ensaísmo explosivo. O tema foi bem abordado pela pesquisadora cuja dissertação é apresentada hoje.
Creio que as reflexões sobre a poetização da prosa ensaística de Leminski que Zanella apresenta a partir de uma sólida reflexão de Agamben e Alberto Pucheu são elucidativas e potencializam uma leitura talvez ainda pouco realizada na obra de Leminski. Rodrigo Garcia Lopes, por exemplo, que há alguns meses publicou um “Roteiro Literário” interessado em apresentar a obra de Leminski quase nem toca no assunto. Boa parte da fortuna crítica de Leminski também. Garcia Lopes em uma das poucas reflexões sobre esse lado ensaísta do poeta escreve: “Era no espírito da polêmica e em seus “ensaios-ninja”, como ele os chamava, que ele exercia seu pensamento selvagem, assistemático, sempre bem-informado e humorado. Num ambiente onde vinga o “bom-mocismo”, Leminski provocou e incomodou” (2018, p. 17).
Creio que Waly Salomão é um dos poucos poetas da geração de Leminski que desenvolveram uma escrita profundamente poética no âmbito da escrita ensaística, como podemos perceber ao lermos seu Armarinho de Miudezas (2005), cujos textos concentram uma força poética profundamente polissêmica e singular. Cacaso e Ana Cristina Cesar também são ótimos ensaístas a meu ver, mas com uma linguagem bem mais comportada, delimitando bem uma certa distância, com um direito a cerca ou muro, os domínios da ciência e da arte, do jornalismo e da literatura, da filosofia e da poesia. No caso de Leminski, em sua pororoca amorosa, o poeta parece pensar através dessa estrutura pautada pela cesura. Seu pensamento ágil, veloz, talvez não encontraria sentido na justa medida de uma escrita científica, acadêmica, de tratado, ou pretensamente objetiva e jornalística.  Essa pororoca que aparece com força também nas biografias-poético-ensaísticas que escreveu sob encomenda da editora Brasiliense, nos anos 80.
Para finalizar, destaco o ponto exato onde Zanella concluiu sua pesquisa, abordando as cartas como elementos textuais que fazem parte dessa potência poética. Por uma questão de acaso ou destino, guardo uma carta que Leminski enviou ao amigo Álvaro (talvez Álvaro Marins que organizou uma de suas antologias). Nela, Leminski pede para seu interlocutor relevar o fato dele “usar ainda esse código obsoleto que é o verbal”, dizendo que ele ainda é fundamental no processo de comunicação e construção de ideias, poéticas ou não, questionando, assim, um livro no qual Álvaro defende a poesia icônica num contexto de poema-processo. Depois de comentar sobre as revistas Polo e Raposa, que estava editando em Curitiba, o poeta aborda implicitamente o mesmo problema que já havia há alguns meses confessado para Regis Bonvicino em carta, ao informar que seu fígado havia dado um stop. Para Álvaro, Leminski é mais discreto:

O tempo já está triando inexoravelmente
E ficarão no final para a finalíssima
os produtos
Tomara que os nossos
Os teus
Os meus
E os dos nossos

Do seu Leminski
27/07/78

Na carta as mesmas cesuras que conferem ao texto seu ritmo poético. Com uma bela pesquisa já realizada por Solange Rebuzzi (2003) e publicada em livro: “Leminski, guerreiro da linguagem – uma leitura das cartas-poema de Paulo Leminski”, o assunto continua convidando a novas pesquisas, porque uma obra de referência, creio eu, sempre nos convida a lermos de formas diferentes os mesmos objetos.
Da UNESPAR para a UFSC, do Memórias Poéticas do Vale do Iguaçu ao Programa de Pós-Graduação em Literatura, do Caio a Susana (que salto e melhora significativa), cumprimento o trabalho da pesquisadora Gabrielli Zanella, alegrando-me com o resultado final, e desejando futuro auspicioso em outros mergulhos numa pororoca ensaística, namoros entre a crítica e arte, seus saberes e sabores, suas mitologias críticas, espaço também de luta e resistência em tempos tão sombrios: “A guerra só é dolorosa quando você perde”.

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Infância e História: Destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte: UFMG, 2005.
GARCIA LOPES, Rodrigo. Roteiro Literário Paulo Leminski. Curitiba: Biblioteca Pública do Paraná, 2018.
LEMINSKI, Paulo. A hora da lâmina. Londrina: Grafatório Edições, 2017.
LEMINSKI, Paulo. Ensaios e Anseios Crípticos. 2 ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2012.
REBUZZI, Solange. Leminski: Guerreiro da linguagem: uma leitura das cartas-poemas de Paulo Leminski. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.
SALOMÃO, Waly. Armarinho de Miudezas. Ed. revista e ampliada. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
ZANELLA, Gabrielli Margarida. A potência poética nos ensaios de Paulo Leminski. Florianópolis: UFSC, 2019. (Dissertação)  

Membros da Banca:

Jorge Hoffmann Wolff
Jair Tadeu da Fonseca
Rita Lenira de Freitas Bittencourt
Caio Ricardo Bona Moreira



[1] Lembremos que o assunto já aparece em Guerra dentro da Gente, livro infanto-juvenil que Leminski escreveu nos anos 80.