sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas




Entrando nos dias de folia carnavalesca, há quem troque a bagunça por um retiro no campo ou aproveite para ler aquele velho livro desejado com direito a pausas para assistir na TV ao desfile da Escola de Samba preferida: Mangueira, Portela, ou Salgueiro (esta, apreciada incondicionalmente pelo meu amigo Jessé), só para citar as mais tradicionais. Eu, evocando aqui os meus tempos de piá, trocaria a Sapucaí por um desfile da “Vai quem quer” ou da “Zé Totó” (extintas e saudosas Escolas de Samba de nossas cidades, cuja lembrança reforça em mim o sentido dessas singelas e autênticas manifestações de nossa cultura popular), que faziam a festa na Avenida Manoel Ribas, com direito a Rei Momo, passistas e carros alegóricos. Onde andam seus ritmistas? Essas reminiscências evocam outras. A memória é uma teia infinita tecida pela aranha do tempo.
Lembro de uma crônica sobre o carnaval escrita por Lima Barreto e publicada em fevereiro de 1920 (mais tarde reunida no livro “Feiras e Mafuás”), na qual o autor lamenta pelas transformações da festa já em seu tempo. O seu aborrecimento era em específico pela falta de inteligência das músicas que circulavam na época durante o evento. Menos preocupado com a “imoralidade” e a “chulice” que apresentavam e mais com o aspecto intelectual e artístico, Lima apontava para cantigas sem nexo algum, nas quais predominava uma “pobreza de pensamento”. Ele se referia a canções como “Fala meu loro”, um partido alto de Sinhô, tradicional compositor carioca. Sabe-se da qualidade musical não só desse baluarte do samba, mas de tantos outros músicos populares da época, possivelmente ainda incompreendidos por Lima Barreto e certamente depreciados por boa parte da cultura oficial.

Sinhô

O autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” valorizou amplamente a cultura popular, mas não conseguiu aprovar com unanimidade a produção musical carnavalesca da época. Isso se deu possivelmente pelo baixo nível de complexidade das letras desse cancioneiro, menos preocupado com a sofisticação estética e mais com o desejo de “cair na boca do povo”, sendo assim facilmente conhecido, memorizado e apreciado. Fico imaginando o que Lima Barreto pensaria do carnaval atual no qual impera o gênero sertanejo universitário e o funk. Os carnavais agora são bem outros e de longe se parecem com os bailes do Clube Aliança ou do Concórdia de vinte ou trinta anos atrás.

Carnaval antigo em Porto União da Vitória

Para quem prefere nesses dias de folia se exilar do “proibidão” (termo que segundo Liliam, minha colega de trabalho, refere-se ao funk carioca) e do sertanejo universitário (nada contra os dois estilos – sou eclético -, mas carnaval é tempo de samba e marchinha), sugiro a leitura do romance “Desde que o samba é samba” (Planeta, 2012), de Paulo Lins.
Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 20, e tendo como pano de fundo o surgimento do samba em casas de macumba como a da Tia Ciata, bem como a Praça Onze, o livro retrata a história de um triângulo amoroso entre uma prostituta, Valdirene, um malandro cafetão, Brancura, e um português, Sodré. Misturando realidade e ficção, a obra de Paulo Lins conta com uma narrativa ágil (que beira o cinematográfico), com uma linguagem popular – com direito a expressões típicas da época -, bem como com uma exímia reconstituição geográfica, a do belo Rio antigo.

Foliões no Rio de Janeiro dos anos 20

Silvio Fernandes, vulgo Brancura, por exemplo, existiu e fez parte da Turma do Estácio, grupo de sambistas que foram responsáveis pela criação de uma tradicional escola de samba e pela consolidação de seu gênero musical. Baiaco, Bide, Ismael, entre outros, integraram o grupo, sendo agora transformados em personagens. Modernistas como Mário de Andrade e Manuel Bandeira também. Carmem Miranda, por exemplo, aparece visitando um terreiro de Umbanda, religião que estava se disseminando pela cidade junto com o samba. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda, “Desde que o samba é samba” é uma incrível cartografia do mundo da malandragem (e mesmo da violência) nos bairros e morros onde a cultura carioca foi gestada”. 

Deixa Falar (Escola de Samba criada pelo Grupo do Estácio

O livro não se furta de apresentar de forma realista cenas de sexo e violência. Uma das curiosidades do romance é o fato de ter abordado de forma aberta e sem preconceito a homossexualidade de figuras como Ismael Silva e Mário de Andrade, cuja intimidade ainda hoje é tratada com ressalvas por pesquisadores e biógrafos. Lembremos que Paulo Lins escreveu também o romance “Cidade de Deus”, adaptado para o cinema.  

Paulo Lins

Obs: O título deste texto, “Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas” é inspirado no livro de crônicas “Coisas Nossas”, de Luiz Antonio Simas – mestre-sala da literatura contemporânea no que se refere à cultura popular carioca, lembrando cronistas como João do Rio e Lima Barreto -, e inspirado também no livro “Carnavais, malandros e heróis”, de Roberto DaMatta, que reflete sobre a essência ou especificidade da sociedade brasileira, tomando a figura do carnaval, dos malandros e dos heróis como criações sociais capazes de explicar ou de pelo menos fornecer um modelo de interpretação para a vida do brasileiro.

Brancura (Silvio Fernandes), personagem do livro

A leitura do livro de crônicas do Simas também é uma boa pedida para o período do carnaval. Cenas carnavalescas do passado, blocos de rua, desfiles, fantasias tropicais, brincadeiras de antigamente, rodas de macumba, quitandas e bares, formam uma “espécie de roteiro sentimental de uma cidade que talvez nunca tenha existido”, como escreveu o autor, mas que certamente vive nele. Bom carnaval a todos!   

Publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 16 de fevereiro de 2018  

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A visita de Che Guevara a Curitiba nos anos 60



Em 1966, antes de viajar para a Bolívia onde foi assassinado em seu projeto revolucionário, Che Guevara passou alguns dias em Curitiba e no norte do Paraná. Durante suas andanças pelo Estado, o guerrilheiro, que já estava se transformando em mito, carregou consigo uma Bíblia na qual teceu anotações cujo conteúdo nos é desconhecido. A revelação é no mínimo curiosa, já que o líder era um socialista convicto. Décadas depois, o livro se transformaria em objeto de procura e de culto entre ex-militantes da esquerda e colecionadores de obras raras.
A visita de Guevara, que nunca foi confirmada oficialmente, é mote para o enredo do romance “A Bíblia do Che” (Companhia das Letras, 2016), de Miguel Sanches Neto, autor de uma produção literária que nos últimos anos tem caminhado para um alargamento das fronteiras entre a história e a ficção.

Che disfarçado


"1966, sete horas e meia de viagem de São Paulo à Curitiba. O ônibus de Guevara chega atrasado na Rodoviária velha, na João Negrão. Seu contato não o esperava na plataforma conforme combinado. Nos ônibus só se podia fumar cigarros, pensando no que fazer Guevara acende um charuto cubano, com o anel trocado para não denunciar sua origem. Em pé, a maleta entre as pernas, esperou para ver se o contato aparecia. De terno e gravata, óculos, sem barba, e com os cabelos tingidos esbranquiçados mais parecia um pacato burguês de meia idade do que o jovem e temido guerrilheiro"

(Valêncio Xavier, Gazeta do Povo, 09 de março de 1997)

Em “Um amor anarquista”, por exemplo, o autor recria um triângulo amoroso entre moradores da Colônia Cecília (Palmeira-PR), que foi uma primeira tentativa de comunidade anarquista no Brasil do final do século XIX. Em “Chá das 5 com o vampiro”, são reveladas as intimidades do escritor Geraldo Trentini, uma alusão ao escritor Dalton Trevisan, que fora amigo de Miguel. O livro rendeu uma série de polêmicas, e inclusive uma possível resposta do “vampiro”, em um texto ácido que integra uma de suas publicações. O romance trata, em certo sentido, das vaidades que acompanham os literatos no mundo das letras. Em “A máquina de madeira”, narra-se a trajetória do Padre Francisco João de Azevedo, precursor na invenção da máquina de escrever. A narrativa é pretexto para o autor refletir sobre a formação da identidade de nosso país e sobre os processos de modernização no final do século XIX. Em “A segunda pátria”, reconstitui-se a cidade de Blumenau durante o advento da Segunda Grande Guerra. O protagonista, Adolpho Ventura, é um negro que sofre com o racismo e a ascensão do nazismo em Santa Catarina. Em uma das passagens mais curiosas do livro, Hitler visita o Brasil, episódio que permite a Sanches Neto, na liberdade da ficção, inscrever novos sentidos para uma história tal qual poderia ter sido, como faz Tarantino em “Bastardos Inglórios”.

Miguel Sanches Neto

Em todos esses romances percebe-se uma tendência à metaficção historiográfica, um conceito criado e discutido por Linda Hutcheon que pode ser encontrado em obras que tencionam os limites entre a literatura e a história, misturando assim realidade e ficção, o que vemos com recorrência na obra, por exemplo, de Jô Soares. É o que acontece também em “A bíblia do Che”.
O episódio que dá origem ao livro pode não ser verídico, mas é verossímil (documentos oficiais chegaram a abordar a viagem de Che ao Paraná em plena ditadura militar), e tem alimentado o nosso imaginário. Miguel Sanches Neto não foi o primeiro a escrever literariamente sobre o assunto. Em 2003, Valêncio Xavier publicou na “Folha de São Paulo” um conto (aliás, apresentado anteriormente na Gazeta do Povo nos anos 90) que tem como tema a mesma visita secreta. Valêncio, que também era cineasta, sonhava em filmar o argumento. 
“A bíblia do Che” tem como narrador um personagem já conhecido de Miguel, que já aparece no romance “A primeira mulher” (Record, 2008), o professor Carlos Eduardo Pessoa. Alguns anos depois de sua primeira aparição, Pessoa, agora ex-professor, vive recluso em uma sala comercial do edifício Asa, no centro de Curitiba e é convidado a uma nova aventura, envolvendo a procura da Bíblia do Che em meio a uma trama policialesca que conta com empresários corruptos e várias perseguições.
O protagonista envolve-se com Celina, a jovem e sonhadora viúva de um lobista envolvido em um esquema de desvio de verbas de empresas estatais em uma rede de corrupção que integra uma série de partidos. Antes de sua morte misteriosa, o lobista passa a ser investigado em uma megaoperação. Qualquer relação com a Lava Jato não é mera coincidência. À medida que Carlos Eduardo Pessoa procura a Bíblia, uma relíquia, investiga a morte de Jacinto Paes, o lobista que o contratou para encontrá-la.
Celina passa a ser perseguida pelos possíveis assassinos de seu marido e a narrativa acaba migrando para a Bolívia, na localidade onde Che viveu seus últimos dias. Mais do que isso é bom não adiantar. Celina é peça-chave.




Che morto na Bolívia (1967) e "O Cristo morto", de Andre Mantegna (séc. XV)
O mito se consolida


Miguel Sanches Neto se inspira na política contemporânea, bem como na crise da esquerda, para refletir também sobre as ruínas de uma série de ideais revolucionários que não morreram, mas que religiosamente parecem agonizar, enquanto procuram sobreviver em tempos de crise.

Texto publicado originalmente no jornal Caiçara (União da Vitória PR) em 03 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Coisas de outras vidas







(para a minha Géssica)
Poema para ser lido ao som de Ondatropica,
Cumbia Espacial

Quando eu era cumpadrito
Em los arredores porteños
Ou quando me banhava de lua
Ou de água salgada nas ressacas del malecón
Ou quando descia o morro
Com meu baralho no bolso
Você, morena, sorria e piscava pra mim

Quando o piano tocava
E a plateia do cassino dançava
As estrelas todas brilhavam e
Você, morena, lisa e latina, sorria e dançava para mim

Eu era, como você dizia,
A sua estrela do mar
E todo o cais 
em frente à praça
Enquanto o samba rolava
Beijava a Pedra do Sal e seus sais

Aqui, ou en la Boca ou em Havana
Ontem, hoje ou amanhã
Sempre e até o fim
Seja a minha morena,
latina ou cabrocha,

Sorria e pisque pra mim!

c.moreira

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Livro do Quase ou o adeus a Carlos Heitor Cony




Em janeiro de 2018, perdemos o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Ele tinha 91 anos e na bagagem intelectual uma larga experiência no jornalismo e uma vasta produção literária. Perder talvez não seja uma palavra apropriada, porque literatos nunca morrem. A arte, assim como a paternidade, é uma das formas que o homem encontrou para não morrer, pervivendo neste mundo por meio de suas pegadas. Mas sempre que um escritor do calibre de Cony se despede, fica-se a impressão de que perdemos algo muito especial, restando em sua obra algo que ficou a ser dito e que, no entanto, não mais será. Fica a memória e talvez seja ela a verdadeira pegada nossa nesse mundo. Aliás, a memória é o tema do romance mais conhecido e premiado de Cony.


“Quase Memória”, publicado em 1995, é um dos romances mais bonitos da literatura brasileira contemporânea. Eu estava relendo-o, coincidentemente, quando seu autor faleceu. O livro é uma homenagem para seu pai Ernesto Cony. Mas poderia ser lido também como uma espécie de autobiografia, ou melhor uma autoficção, já que o autor, nas páginas iniciais do livro, numa espécie de preâmbulo, problematiza a relação entre ficção e realidade, misturando no romance esses dois universos. Trata-se de uma Teoria Geral do Quase na qual o escritor confessa considerar seu livro um “quase romance” por achar que lhe falta entre outras coisas a linguagem. Para ele, o livro oscilaria, desgovernado, entre a crônica, a reportagem e a ficção. Personagens e situações reais se misturam com elementos fictícios. Com ares que fazem lembrar o filme “Amarcord”, de Fellini, “Quase Memória” é uma dessas obras em que a qualidade de escrita, o real valor do amor e da amizade, a permanência do passado (transformado numa ilha de edição) e o sentido misterioso da vida produzem afetos que justificam uma leitura, o tempo que gastamos com ela e o entusiasmo que ela pode produzir em um leitor.

Ernesto Cony

“Amanhã farei grandes coisas”. O autor da frase, personagem do romance, e pai do narrador do livro, é mote para Cony desfiar uma série de lembranças de sua infância e juventude, tendo seu progenitor como eixo em torno do qual gira toda a narrativa. O enredo tem como estopim uma situação específica. O narrador recebe um misterioso embrulho, sem remetente, no qual identifica as marcas do pai: o laço do barbante sobre o qual está envolvido o pacote, a sua letra inconfundível, bem como o cheiro de fumo e alfazema que gostava de usar, “metade por vaidade, metade por acreditar que a alfazema cortava o mau-olhado, do qual tinha hereditário horror”. O fato curioso é que o pai havia morrido dez anos antes do recebimento da correspondência. A partir de então, desfia-se uma rede de memórias que terá o pai como personagem principal: a capacidade que ele tinha de pôr solenidade nas coisas pequenas, a habilidade para contar histórias e confeccionar balões em datas especiais, a disposição para aventuras inusitadas, a facilidade para envolver-se em confusões homéricas, um jeito de viver e olhar a vida de forma bastante diferente: “sempre vivera satisfeito, era do tipo que recebia um bom-dia como uma homenagem, de tudo em que se metia dava um jeito de extrair prazer pessoal”. Era o sujeito que todo dia, ao dormir, pensava consigo mesmo: “Amanhã farei grandes coisas!”. Desconfio que toda família tem um sujeito como esse personagem. Na minha, era o Valdir, um primo que tinha habilidades incríveis para contar histórias e um jeito muito seu de viver e ver a vida.




O mistério do “quase romance” gira em torno do embrulho recebido. Teria sido mesmo o pai a enviá-lo? O narrador hesita a todo momento em abri-lo. E é em torno dessa expectativa que o livro vai sendo tecido e as memórias evocadas. Não revelo aqui o desfecho da trama para não colocar a carroça na frente dos bois aos leitores que ainda não se aventuraram pelas páginas de Cony. Cumpre dizer que o livro é também um passeio pelo Rio de Janeiro da primeira metade do século XX. Com ele, Carlos Heitor Cony recebeu dois Jabuti, nas categorias Livro do Ano e Melhor Romance, em 1996. No ano 2000, em sua posse na Academia Brasileira de Letras, o escritor, depois de confessar-se agnóstico e afirmando não ter a “disciplina mental para ser de esquerda”, nem a “firmeza monolítica para ser de direita”, tampouco se sentindo confortável na “imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro”, evocou as páginas de “Quase Memória”: “(...) sou filho de um jornalista obscuro que transformei num personagem que todas as noites prometia a si mesmo: 'Amanhã farei grandes coisas!' Nunca fez grandes coisas, mas acreditava que viver era uma grande coisa”. Antes de morrer, Cony desejou uma despedida sem enterro ou homenagens. Partiu humilde.             

Publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 
no dia 27 de janeiro de 2018.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Carta-sapato para o Natal de 2017 e ano de 2018




Em 26 de dezembro de 1979, Henfil escreveu para a sua mãe uma daquelas famosas cartas que viriam a ser publicadas em jornais e revistas da época e depois reunidas em livro. Nela, ainda em plena ditadura militar, o cartunista e jornalista realizava um comovente balanço do ano que passara ao passo que fazia da carta um canto de esperança para o tempo que estava por vir: “Mãe, aqui estou eu, em mais um Natal, fazendo desta carta meu sapato colocado na janela”. Na sequência, ele conclui ter sido um bom moço naquele ano: “Eu acho que fui muito bom. Eu fui solidário com todos os meus irmãos Betinhos (...). Voltei pro país que me expulsou como todos os Juliões. Dei murro em ponta de faca como todos os Marighellas. Cantei as prostitutas, as mulheres de Atenas e joguei pedra na Geni como todos os Chicos Buarques. Aspirei cola como todos os pixotes. Fui negro, homossexual, fui mulher. Fui Herzog, Santo Dias e Lyda Monteiro”. A carta é encerrada de forma comovente: “Vou fechar os olhos, vou dormir depressa. Esperando que meia-noite todos entrem pela minha janela. Me façam chorar de alegria, que eu quero viver! A bênção, Henfil”. O artista faleceria alguns anos depois.
Não sei o motivo de ter lembrado desta carta quando esboçava o último texto que escrevo para este jornal no ano de 2017. Talvez pela comoção que geralmente me invade nesse período do ano, a mirar com uma certa e triste alegria desde os trenzinhos de papai Noel a trafegarem pela cidade até o perfume da árvore chamada Dama da Noite (cestrum nocturnum), que floresce nessa época, perfumando as noites de dezembro e janeiro. Talvez a carta-sapato de Henfil nos traga ainda um ar de luta e esperança tão necessários em tempos politicamente obscuros. Paradoxalmente, olho para esse tempo e nele encontro um dos mais bonitos de minha vida, iluminado pelo sorriso de uma filha, que chegou há quase dois anos para alegrar nossa casa e transformar nossas vidas.
2017 foi intenso, tão parecido e diferente dos anos anteriores que só nos resta fazer um balanço e pendurar aqui nossa carta-sapato para o ano vindouro. Pensemos no tema que nos move neste espaço (o jornal me solicita reflexões sobre arte e literatura e tento, então, humildemente fazê-las). 
Na literatura, em 2017, encantei-me com o jovem escritor norte-americano Patrick de Witt, no livro “Os Irmãos Sisters”, que retoma o gênero faroeste, atualizando-o e transformando-o. Degustei o livro “Limonov”, de Emmanuel Carrere, pensando com Dostoiévski que “a verdadeira verdade é sempre inverossímil”. Diverti-me com o livro de crônicas “Coisas Nossas”, do grande Luiz Antonio Simas. Apreciei os mais recentes e esperados romances de Milton Hatoum (“A noite da Espera”) e Daniel Galera (“Meia-noite e vinte”). Conheci um pouco da cultura dos índios Arawetés lendo o famoso estudo de Eduardo Viveiros de Castro, “Araweté, um povo tupi na Amazônia”. Surpreendi-me com o romance-policial “Macumba”, de Rodrigo Santos, que discute a intolerância religiosa em nosso país. Lamentei com o escritor alemão W.G.Sebald os horrores da guerra, lendo “Os imigrantes”. Acertei as contas com minha consciência ao ler uma obra obrigatória pela qual não havia ainda me aventurado, “O coração das trevas”, de Joseph Conrad. Impressionei-me com o inquietante “Conto da Aia”, de Margareth Atwood, que me foi emprestado por uma aluna. Viajei pelas páginas de autores que aprecio como o argentino César Aira, o russo/ucraniano Gógol, Jorge Amado, etc. Poderia citar outros companheiros de viagem, mas o tempo é curto.
Espero que 2018 seja um ano feliz, repleto de realizações e boas leituras, afinal de contas os bons livros nos ajudam a viver melhor. Que em 2018 impere a paz e o amor na vida de todas as pessoas e também nos noticiários. Que as más notícias não cheguem tanto. Que possamos sorrir e dançar mais e que essa dança seja tão bela quanto aquela que assisti com minha esposa há alguns dias no espetáculo “Elementos”, do Grupo Corpo & Dança. Quanta beleza estava posta em movimento no Cine Ópera naquela noite. Que venha 2018 e que ele possa dançar em nós. E que na noite de Natal, como Henfil, possamos fechar os olhos esperando que à meia-noite todos entrem pela nossa janela e nos façam chorar de alegria, posto que todos queremos viver. 


Texto publicado originalmente no jornal Caiçara, 
em União da Vitória-PR, em 23 de dezembro de 2017. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Concerto n.1 para Faca e Oboé





observações sobre o livro "5 bonecas de olhos vazados", de Rubens Francisco Lucchetti, após a leitura.

Um narrador que passeia, feito drone, pelas cenas de um livro, perscrutando as personagens e suas ações, insinuando-se por entre os parágrafos, dirigindo-se ora ao protagonista, ora aos leitores. Esse intenso personagem, que é o próprio narrador, revela ao longo das páginas seus medos, angústias de escrita, gostos de arte e sua história como leitor. Personagens importantes de outras obras do mesmo autor criam um caso exemplar do que poderíamos chamar de auto-intertextualidade (poucos escritores conseguem fazer isso com destreza). A incrível capacidade de transformar em ficção a realidade e a realidade em ficção. Terror/suspense/policial em pura fricção. Personagem/narrador/voyeur/leitor, Rubens se autonomeia pelo menos uma vez ao longo do livro “5 bonecas de olhos vazados” - (trata-se de uma referência à realidade ou de mais um elemento ficcional falando de um outro personagem que é o próprio Lucchetti? Tudo parece se fazer imagem e ficção). Passagens de sua vida são reveladas no livro, mas onde começa e onde termina a realidade? O romance/jogo acontece em meio a uma série de referências à cultura literária e cinematográfica, clássica e popular, e entre ilustrações que fazem lembrar a criativa relação texto/imagem que encontramos em livros como “A misteriosa chama da rainha Loana”, de Umberto Eco, uma homenagem à própria literatura. Um livro para ser lido ao som eletrônico de Daniel Piquê, aliás personagem do livro. Outras referências musicais são apontadas ao longo da trama, basta seguir as sugestões do próprio autor. Curiosamente o tempo do livro parece acompanhar o tempo das músicas. Procedimento criado de forma consciente ou inconsciente? Não importa. Se há ou não uma planta-baixa para a obra, o que importa é que Rubens Francisco Lucchetti se revela um mestre na arquitetura literária. Provavelmente o livro mais bem escrito de sua vida. Rizomático, o narrador divide com os leitores os múltiplos caminhos a serem seguidos durante a própria escrita. Capítulos como o do Sonho – um dos últimos do livro - são dignos de uma obra prima. Segundo Lucchetti, “5 bonecas de olhos vazados” é uma homenagem à Mary Shelley e sua obra Frankenstein. "5 bonecas de olhos vazados" (que nome maravilhoso) é um dos livros mais curiosos que li nos últimos anos. Ele ainda vai dar muito o que falar!
obrigado, mestre!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

R.F. Lucchetti: O Lobisomem de Jardinópolis



Se Curitiba tem o seu vampiro, Dalton Trevisan, bem como o seu Frankenstein, Valêncio Xavier, Jardinópolis, em São Paulo, tem o seu Lobisomem, Rubens Francisco Lucchetti, considerado por Valêncio um dos escritores mais importantes do mundo. Acreditem se quiser, Lucchetti, no auge dos seus 87 anos, é autor de mais de mil e quinhentos livros (a maior parte deles publicada com pseudônimos ou heterônimos), sem contar umas trezentas HQs, vinte e cinco roteiros de cinema, entre outras produções. A cifra extraordinária já é suficiente para nos lançar a busca de seus livros que, curiosamente, são difíceis de serem encontrados. O jeito mais fácil talvez seja entrando em contato com o próprio pelo facebook. A maior parte dos títulos disponíveis são vendidos diretamente por Lucchetti, que os envia aos compradores com um carinhoso autógrafo. A sua obra foi para mim uma grande descoberta em 2017. Como é que eu não havia lido esse gênio antes?



Lucchetti é um mestre na literatura de Horror. Leitor de Bram Stoker, Edgar Alan Poe, entre outros, é considerado o papa da “pulp ficcion” no Brasil. O termo faz referência às revistas publicadas com papel barato que se popularizaram no século XX, geralmente vendidas em bancas de jornal. Gêneros como o de terror, suspense e policial foram bastante explorados por essas revistas. Com o tempo, a expressão passou a designar um gênero menor, uma espécie de subliteratura. Não gosto de pensá-la assim. Prefiro mirá-la a partir da potência imaginativa que levou Quentin Tarantino e Charles Bukowski a inspirarem-se no universo pulp.


A obra “As máscaras do pavor”, por exemplo, se passa em meados da década de 70, em Los Angeles, onde começam a ocorrer uma série de assassinatos que parecem ter sido cometidos por personagens clássicos, como o Drácula, o Fantasma da Ópera, Jack, o Estripador e o Lobisomem. Nesse sentido, o livro é uma homenagem ao cinema e à própria literatura. “Os amantes da Sra. Powers”, inspirado na literatura Noir, inicia-se com um misterioso atropelamento que será presenciado pelo detetive Bernard Calhoum, que se envolverá ao longo da trama em uma série de peripécias. A literatura Noir, com suas belas e sensuais personagens femininas, bem como com seus detetives de chapéu e cigarro na mão, geralmente mistura terror, suspense e policial e se passa em ambientes noturnos e ruas desertas. Em “O abominável Dr. Zola”, narra-se a apavorante história de um louco cientista que usava em suas macabras experiências seres humanos. Dr. Zola, cujo nome é possivelmente inspirado no escritor naturalista Émile Zola, criou um lobisomem a partir de uma inseminação artificial. Outros títulos poderiam ser citados como “O museu de horrores” e “5 bonecas de olhos vazados”, este lançado há alguns dias. No prelo, está o livro “Poemas de Vampiros”, a sair pela editora Clepsidra. Boa parte da obra tem sido publicada pela Editorial Corvo.



Quando assisti ao “O segredo da Múmia” (1982), de Ivan Cardoso, nem imaginava que o roteiro era de R.F.Lucchetti. Clássico brasileiro do gênero “terrir” (por misturar a comédia e o terror), o filme conta também a história de um cientista louco que, neste caso, descobre uma poção capaz de dar vida eterna aos seres humanos, usando uma múmia que, voltando à vida, ameaça os vivos. Outro filme conhecido do mesmo diretor, com roteiro de Lucchetti, é o “Escorpião Escarlate” (1990), que homenageia filmes de aventura e suspense, inspirando-se em antigos programas de rádio. Parceiro criativo de ilustradores como Nico Rosso, Lucchetti criou diversas revistas de histórias em quadrinhos e roteiros para José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, seu amigo e companheiro na arte do Horror.


Como escritor, Lucchetti permanece fiel a si mesmo. Na folclórica história do lobisomem, um sujeito aparentemente comum, em uma noite de lua cheia, transforma-se em uma horrenda figura monstruosa, meio homem meio bicho, para assustar as pessoas e/ou cometer suas aberrações. Imagino Lucchetti, quando anoitece, trancando-se em seu escritório e deixando escapar de sua imaginação, em todas as noites, suas assustadoras histórias. Quando amanhece, ele adormece seus monstros e retorna à vida comum. É o lobisomem de Jardinópolis.    


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR, em 16 de novembro de 2017.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Palavra de Índio: uma reflexão sobre as Poéticas Ameríndias





A poesia é também coisa de índio e, no entanto, muito pouco se fala das manifestações poéticas praticadas pelas mais variadas tribos indígenas que povoam o Brasil. Aprende-se na escola que o português, logo aqui chegado, em 1500, registrou na “Carta do Achamento” suas primeiras impressões sobre o nativo brasileiro, estranho aos olhos do europeu pelo seu modo de vida e, principalmente, por não sentir vergonha alguma de suas vergonhas. Aprende-se também que, desde então, o índio tornou-se personagem dos mais variados e fantasiosos textos literários, elevando-se no século XVIII a símbolo de luta da elite mineira contra o colonialismo europeu e à herói nacional no contexto de Independência no século XIX. Em muitas obras poéticas deu-se voz ao índio, no entanto, essa voz, trazendo na maior parte das vezes um sotaque europeu, pouco traduziu a imensa riqueza e complexidade de sua cultura. Ao invés de darmos voz ao índio – algo que ele inevitavelmente possui – penso que deveríamos ouvi-lo.



Tenho me interessado pelas Poéticas Ameríndias, que se caracterizam como um conjunto de textos artísticos que brotam da oralidade indígena. Geralmente, são produções culturais relacionadas a cosmogonias, ritos sagrados e festividades das tribos. Nesse contexto, a arte não está desvinculada do universo religioso, pois para os índios não há uma separação entre arte e vida, ou entre arte, religião e vida. Antonio Risério, no livro “Textos e Tribos”, problematizará a noção de Poética indígena, pois para ele os conceitos de poesia e literatura são ocidentais e não traduzem a experiência cultural da palavra operada pelos índios. Ele opta pelo conceito de “textualidades extra-ocidentais”. Para Risério, a marginalização dos textos indígenas e negroafricanos, no Brasil, é um reflexo do “estatuto subordinado dessas culturas no espaço mental brasileiro – reflexo, por sua vez, do lugar ocupado por essa gente, e pela maioria dos seus descendentes mestiços, na estrutura da sociedade nacional”.



Prefiro pensar que os índios, desde muito antes da invasão branca, já eram também poetas. Isso porque em muitas culturas ameríndias o trabalho artístico com a palavra assemelha-se de forma impressionante à atividade que caracterizamos como poesia. Os mbyá-guaranis, situados entre o Paraguai, Uruguai, Argentina e sul do Brasil, por exemplo, chamam de “ñe´eporã” o conjunto de belas palavras - ou palavras adornadas - usadas em seus cantos religiosos. Em tais cantos podemos encontrar expressões metafóricas, polifônicas, léxicos diferenciados, ou seja, elementos encontrados com frequência em textos poéticos da nossa cultura. Usam, por exemplo, a expressão “pequena flor do arco” para falar de uma flecha, ou “esqueleto da bruma” para falar de um cachimbo (os exemplos são dados por Pierre Clastres, em seu livro “A Fala Sagrada”, que compila mitos e cantos sagrados dos índios guaranis). As “ñe´eporã” teriam como objetivo, antes de comunicar algo ou descrever, voltar o seu olhar para a beleza da própria linguagem, intenção maior da poesia também para nós. E essa experiência para os mbyá-guaranis é profundamente sagrada. Exatamente por isso, na maior parte das vezes, o acesso a tais textualidades é vedado ao homem branco.  


Nos anos 50, o antropólogo León Cadogan, depois de salvar um índio de uma condenação injusta, recebeu a permissão dos mbyá-guaranis para ouvir e registrar os cantos chamados “Ayvu rapyta”, que descrevem a origem de todas as coisas depois do surgimento do deus supremo e das palavras. No mito, Ñamandu desdobra-se de si mesmo como uma flor e é alimentado por um beija-flor com alimentos sagrados. Brota, então, a fonte da fala, que para os guaranis é a origem de tudo. E o poder que esse grupo dá à palavra é simplesmente comovente. Alma e palavra são elementos indissociáveis, traduzidos na expressão “ñe´eng” (Palavra-alma). Por meio da palavra, a divindade faz fecundar o ser, portanto a procriação para eles, como sugeriu Bartolomeu Melià, é um ato poético-religioso e não erótico-sexual. O nome de uma pessoa, por exemplo, é a própria pessoa e muitas vezes um xamã usará isso a favor de um doente, trocando um nome por outro para espantar a morte. Aliás, os xamãs, transmissores de vozes divinas, pontes para o além, são verdadeiros poetas que usam as palavras e as músicas para curar. Para os mbyá a cultura branca não sabe usar de forma adequada a linguagem. Para eles, não levamos a sério as palavras e seus poderes. É por isso que quando um índio nos dá sua palavra está nos dando a sua alma. Quantas coisas temos a aprender com eles.



Alguns poetas e tradutores contemporâneos têm se interessado pelas Poéticas Ameríndias, traduzindo cantos indígenas e resgatando, assim, parte de uma sabedoria que ainda está para ser explorada. Falo do trabalho de Josely Vianna Baptista, que traduziu criativamente os cantos do “Ayvu rapyta” no livro “Roça Barroca”. Falo de Alberto Mussa que recriou mitos fundacionais da cultura Tupinambá, em “Meu destino é ser onça”. Falo do poeta português Herberto Helder, que traduziu cantos caxinauás. Falo do portunhol selvagem de Douglas Diegues. Falo de Eduardo Viveiros de Castro, seu perspectivismo, e seu estudo dos cantos xamânicos arawetés. Escritores indígenas têm também se destacado na literatura brasileira como Kaká Werá Jecupé e Daniel Munduruku. Outros têm lutado bravamente por direitos e causas socioambientais, como Davi Kopenawa. São promotores de sabedorias milenares. Que possamos ouvir suas palavras adornadas a nos ensinar que a poesia não pertence apenas a nossa cultura, mas que tem em outras sua morada. Conhecer as palavras sagradas e poéticas dos índios talvez seja um passo importante na luta contra o seu extermínio. O nome deste jornal nunca soou tão poético e profundo para mim quanto hoje.



 Publicado no jornal Caiçara, em União da Vitória,
03/11/2017. As imagens são de Eduardo 
Viveiros de Castro. retratam os Arawetés. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Chimamanda Ngozi Adichie: É coisa de preto!





Na segunda-feira (20), em todo o território nacional, comemorou-se o Dia da Consciência Negra, que acontece concomitante ao Dia Nacional de Zumbi dos Palmares, devido à possível data de sua morte. Aproveito o momento para perguntar aqui quais são os verdadeiros motivos que temos para comemorá-lo. À força do afrodescendente e à alta qualidade da cultura negra em nosso país – fundamentais para a nossa história, para nossa sensibilidade nacional, para nosso presente e futuro – contrapõe-se o racismo velado ou explícito ainda ativo na mediocridade daqueles a quem falta o bom senso. Há alguns dias, por exemplo, redes sociais divulgaram um vídeo no qual um famoso apresentador da Rede Globo, em uma gravação realizada durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos - ao irritar-se com o som de buzinas que atrapalhavam a matéria -, cochicha a seu companheiro de trabalho: “É coisa de preto!”. O vídeo viralizou e a emissora acabou afastando o jornalista. As expressões racistas são tão recorrentes ainda no nosso dia a dia que é bem possível que os leitores deste texto já tenham ouvido muitas vezes durante sua vida a frase “É coisa de preto!”. E enquanto ela for proferida, estando consciente ou inconscientemente atravessada por intenções racistas, uma margem da escravidão não terá terminado. Prefiro inverter o seu sentido para celebrar a vida e a força dos negros e de sua cultura entre nós.



É coisa de preto a obra de Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto. Os três maiores escritores do final do século XIX e início do século XX, no Brasil, eram negros, o que ironicamente desmonta as teorias racistas vigentes naquele período. É coisa de preto a Geografia de Milton Santos, bem como a arte de Emanoel Araújo. É coisa de preto a literatura de Carolina Maria de Jesus e o inventivo talento musical de Pixinguinha, Donga, João da Baiana, entre tantos outros. O samba na casa da Tia Ciata era coisa de preto. A escultura barroca de Aleijadinho também. O Quilombo de Zumbi era coisa de preto. Todos os outros Quilombos também. A prosa de Joel Rufino dos Santos é coisa de preto, assim como a poesia de Elisa Lucinda, ou os textos de Conceição Evaristo. A música de Caymmi, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Luiz Melodia, Djavan, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, é coisa de preto. O futebol de Leônidas da Silva, Amarildo, Canhoteiro era coisa de preto também. A capoeira do Mestre Pastinha. O cinema de Milton Gonçalves e Grande Otelo. É coisa de preto a voz de Jamelão, as músicas de Lupicínio Rodrigues, e de Nelson Cavaquinho. O sagrado de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Senhora e Mãe Stella. É coisa de preto a poesia de Vinícius de Moraes, que se considerava o branco mais negro do Brasil. O trabalho de Abdias Nascimento, Beatriz Nascimento, Jurema Werneck é coisa de preto. A performance musical de Paulo Moura e Johnny Alf também. Poderia preencher páginas e páginas aqui. Faltaria espaço, então, celebramos todos com um salve à negritude brasileira! Principalmente, àquela negritude anônima que desde as senzalas até os trabalhos contemporâneos menos reconhecidos atua bravamente no cotidiano desse imenso Brasil.




Recentemente, descobri uma jovem escritora africana que muito me encantou. Falo de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela ficou conhecida também por alguns vídeos que circulam na internet, nos quais fala sobre questões políticas de grande importância. Em um deles, discorre sobre os perigos de contarmos apenas uma versão da história. Nele lamenta, por exemplo, a ausência de personagens negras em contos de fadas e de heróis em geral.




Gostaria de usar o espaço que me resta para fazer uma referência ao livro de contos “No seu pescoço”, de Adichie, traduzido e publicado recentemente pela Companhia das Letras. No conto que dá nome à coletânea, a escritora relata a vida de uma jovem nigeriana de Lagos que vai tentar a vida universitária nos Estados Unidos. Um aspecto curioso do conto é o fato dele ser narrado em segunda pessoa, mas retratando experiências da primeira pessoa, como se o narrador escrevesse sobre si como sendo um outro, o que demonstra possivelmente um determinada crise de identidade enfrentada pelo ser estrangeiro. Em meio ao choque cultural, social e econômico que Akunna – esse é o nome da personagem – encontra na América, a jovem sente na pele o poder que a pele tem para torná-la vítima de um racismo atroz. A começar pelo desconforto que vivencia em uma faculdade comunitária quando suas colegas olham boquiabertas para o seu cabelo, perguntando se ele ficava de pé quando ela soltava as tranças. Ao invés de responder, Akunna sorria de um jeito forçado. Depois de sofrer tentativas de abuso sexual na casa onde estava hospedada, muda-se para uma cidade que não possuía universidade comunitária. Lá, a jovem trabalha muito por uma remuneração baixíssima e se aproxima de um jovem americano que não a olha como um ser exótico, ao contrário da maioria das pessoas. Com ele se relaciona, mas cedo percebe a distância que marcava fortemente o encontro entre uma negra e um branco: “Pela reação das pessoas, você sabia que vocês dois eram anormais – o jeito como os grosseiros eram grosseiros demais e os simpáticos, simpáticos demais (...)”. Os homens e mulheres brancos diziam “Que casal bonito”, “num tom alegre demais, alto demais, como se quisessem provar para si próprios que tinham a mente aberta”.




Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora feminista que tem levado para seus livros uma intensa reflexão sobre o racismo. Tem, nesse sentido, feito um barulho na literatura contemporânea. Ao invés de lamentar esse barulho, dizendo que é “coisa de preto!”, prefiro saudá-la como uma das grandes revelações da atual ficção nigeriana. A sua arte é também e com muito orgulho “coisa de preto”!       

publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 
em 25 de novembro de 2017 

sábado, 18 de novembro de 2017

Matilde Campilho: Salvando momentos





Lembro de ter chorado, copiosamente – e a expressão não é hiperbólica –, quando assisti, há uns quinze anos, à sequência final de Cinema Paradiso (1988), filme do italiano Giuseppe Tornatore. Recentemente, emocionei-me profundamente lendo o último capítulo do romance “Vida e Proezas de Aléxis Zorbás”, do grego Nikos Kazantzakis. Em ambos, a emoção suscitada parece brotar de uma certa beleza que não sei explicar. Não costumo me derramar em lágrimas diante de qualquer dor ou estímulo artístico, mas, às vezes, acontece. Nem sempre as emoções que a arte nos proporciona são sublimes. O susto, o horror, o medo e a raiva, por exemplo, fazem parte do universo artístico que também nos aprimora e que nos move para dentro e fora de nós mesmos.  A literatura que mais me encanta é aquela que deixa em meu ser cicatrizes. Diante da boa arte, transformo-me, nunca mais restando em mim o mesmo que sou. E a marca que trago comigo é o resultado desse contato. São coisas que nos constroem. Ando repleto, assim, de cicatrizes. O crítico e escritor José Castello escreveu que a literatura é uma “máquina de perfuração do espírito. Nele deixa marcas contundentes e feridas que nunca cicatrizam por completo (...) Dor interminável, que se transforma em uma iluminação”. E a iluminação nos salva.
A jovem poeta Matilde Campilho - nascida em Cascais, em 1982 -, uma das grandes revelações da poesia portuguesa, acredita que a arte pode não salvar o mundo ou uma vida, mas salva momentos. Nos últimos cinco minutos de Cinema Paradiso, ou nas últimas dez páginas de Zorbás, a arte salvou um momento meu e por causa disso minha vida ficou mais bela e plena.  Em uma entrevista concedida ao jornalista Eric Nepomuceno, Matilde defendeu que a arte fraqueja os joelhos quando é preciso, tira a atenção da dor em alguns momentos e, em outros, leva a nossa atenção para a dor, porque, às vezes, estamos distraídos para perceber seu real valor. Por isso escrevi que as emoções propiciadas pela arte nem sempre são sublimes. Kafka, por exemplo, não me trouxe conforto algum e, no entanto, saí de sua leitura positivamente transformado.  


Tenho me emocionado lendo os poemas do livro “Jóquei”, de Matilde Campilho, lançado no Brasil em 2015, um ano depois de vir a lume em Portugal. Principalmente quando os leio em voz alta, tentando imitar seu lindo sotaque, tal como ele pode ser ouvido em vídeo-poemas disponibilizados pela escritora no Youtube. Poemas portugueses lidos em voz alta pedem uma leitura espirituosa. Chego a pensar, às vezes, que o sotaque que simulo não chega a ficar tão falso quanto aquele de Caio Castro, na novela das 18h, a imitar D. Pedro I.



Admiradora de poetas estrangeiros como Antonio Cisneros, Octavio Paz, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, e dos conterrâneos Antonio Franco Alexandre e Fernando Dias Pacheco, Matilde se apaixonou pelo Brasil e aqui morou durante alguns anos. Depois de sua participação na Flip (Feira Literária de Parati), em 2015, a poeta se tornou mais conhecida no Brasil. Ler seus poemas é como passear pelo Rio de Janeiro de seu coração, porque ali toda a cidade é poesia: “Hoje se eu pudesse / eu voltava à cidade / só pra beijar / a cidade na boca”, diz Campilho no poema “Eu já escuto teus sinais”, no qual faz referências à famosa canção de Alceu Valença. O amor pela cidade parece ser suplantado apenas pelo amor por uma pessoa, que paira como interlocutor e como fantasma durante boa parte do livro. E essa comunhão com o outro é também uma comunhão com a vida. E para a poeta ela é sempre mais importante que razão, a ciência, a política ou a matemática. No poema “Dia de São Tomé”, ela escreve: “Com partido político / dá sempre zero a zero / e vantagem do serviço / com partido alto / dá sempre dez a dez / e vantagem do amor / você levou meu samba”. Em outro poema, um sentimento semelhante: “Aprenderei a amar as casas / quando entender que as casas / são feitas de gente / que foi feita por gente / e que contém em si a possibilidade / de fazer gente”. Trata-se de perceber a natureza da vida como algo acima do cálculo. O tema reaparece no poema “A primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos”: “A matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de um cardume”. 



No poema “Veleiro”: “A filosofia é uma matemática muito esclarecedora e qualquer dia ainda vai salvar o mundo (...) No que depender do amor, para além da paixão e para além do desejo: ninguém mais se afogará”. A poeta vai passeando pela vida e guardando momentos: as mãos do ser amado desenhando uma dança, o cheiro da maresia, o rosto doce de Antonio por ela fotografado (talvez o poeta Antonio Cicero), os lábios de Dadá pintados de vermelho, as folhas crescendo no vaso, o “brilho natural que diariamente resplandece no peito da terra”, enfim, a vida acontecendo. A poesia, assim, salva o instante da vida e a vida de nossos instantes.
Em uma das passagens do poema “Notícias escrevinhadas na beira de estrada” a poeta escreve que não é de choro fácil a não ser quando pensa em determinados milagres que ainda não aconteceram. Ela olha com atenção para a vida e conclui que “a raça humana é toda brilho”. Ao salvar esse momento talvez chore, como eu, ao assistir ao final de Cinema Paradiso. E assim a arte vai salvando momentos.


 Publicado originalmente no jornal O Caiçara, 
em 18 de novembro de 2017,
União da Vitória

domingo, 12 de novembro de 2017

O Rei da Vela em três tempos



Edição de O Rei da Vela com capa de Oswald de Andrade Filho

ATO 1: 1933, Oswald de Andrade, alguns anos depois de publicar o romance experimental “Memórias Sentimentais de João Miramar” (1924), o livro de poemas “Pau-Brasil” (1925), bem como o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” (1924) e o “Manifesto Antropófago” (1928), escreve a primeira peça de teatro modernista de nosso país, “O Rei da Vela”. Censurado pelo Governo de Getúlio Vargas, o texto só seria encenado pela primeira vez mais de trinta anos depois. A peça tem como tema a história de Abelardo I, um burguês em ascensão que, no contexto da crise de 29, enriquece explorando por meio de agiotagem seus devedores. O personagem também fabrica e vende velas, pois com a crise financeira as empresas elétricas faliram. Em uma cena que retrata uma conversa de Abelardo I com a esposa Heloísa, o protagonista revela seu perfil de explorador ao observar que “num país medieval como o nosso”, ninguém se atreve a passar pelos umbrais da eternidade sem uma vela na mão. Assim, ele herda de cada finado nacional um tostão, pela tradição de se colocar uma vela na mão de cada morto. Os devedores aparecem já no primeiro ato enjaulados no escritório do usurário, sendo torturados e gradativamente executados (nos dois sentidos da palavra). “O Rei da Vela” tem como pano de fundo a presença de ingleses e norte-americanos, representantes do capital estrangeiro, que são os verdadeiros donos do poder. A peça termina com o assassinato do protagonista pelas mãos de seu funcionário ambicioso, Abelardo II. O novo agiota casa com Heloísa de Lesbos, viúva do primeiro Abelardo, que descendia de uma família aristocrata rural e falida. A peça, escrita na fase mais socialista da obra de Oswald, evoca a decadência da burguesia e a revolução social com base na ascensão do proletariado. No entanto, até que isso aconteça, ambos continuarão “domados” pelo capital estrangeiro. O americano é o último que aparece e fala na peça, dizendo: “Oh good business!” 

Abelardo I, por Renato Borghi em 1967

ATO 2: Em 1967, durante a Ditadura Militar, estreava no Teatro Oficina a peça de Oswald, montada pelo dionisíaco e inventivo Zé Celso Martinez Corrêa. Curiosamente, a princípio, o espetáculo não foi censurado. “O Rei da Vela” promoveu naquele período de intensa repressão uma revolução cultural, pois a atualidade da linguagem teatral bem como o olhar crítico do modernista convidavam o espectador a olhar de forma mais atenta para a sua complexa realidade. Visualmente rica - lembrando por vezes uma chanchada com ares expressionistas -, e tendo o ator Renato Borghi no papel principal, a peça surpreendeu artistas como Caetano Veloso que nela se inspirou para a criação do movimento tropicalista. A encenação teve para ele um impacto semelhante ao cinema de Glauber Rocha – em especial do filme “Terra em Transe” -, bem como ao romance experimental “Panamérica”, de José Agrippino de Paula. Caetano escreveu em seu livro “Verdade Tropical” que tinha escrito a canção “Tropicália” quando “O Rei da Vela” estreou e que assistir a essa peça representou para ele “a revelação de que havia de fato um movimento acontecendo no Brasil. Um movimento que transcendia o âmbito da música popular”.

Abelardo I, por Renato Borghi em 2017

ATO 3: outubro de 2017. Em comemoração aos cinquenta anos da primeira montagem, o Teatro Oficina estreou uma remontagem do mesmo espetáculo. Vivemos novamente em um tempo social e político complexos, o que faz da peça uma obra atual, cuja potência é capaz de iluminar nosso olhar sobre a realidade ou de pelo menos nos convidar a “enxergar” o escuro em que estamos. A peça conta com a participação de alguns atores que integraram o primeiro grupo, como Renato Borghi, que vive ainda o papel de Abelardo I. Zé Celso, além de dirigir, atua como a virgem octogenária Dona Poloca, senhora de boa moral e bons costumes, que na versão atual se apresenta como transexual. A nova montagem faz referências aos dias de hoje, aludindo, por exemplo, ao senador Aécio Neves (chamado na peça de Aécio Never) e ao presidente Donald Trump.

Zé Celso e Renato Borghi, no Teatro Oficina

A remontagem acontece no mesmo período em que o Teatro Oficina trava uma batalha com o Grupo Silvio Santos, por causa de um terreno ao lado de sua sede. O Oficina defende que no terreno baldio em seu entorno não sejam construídos prédios para especulação imobiliária, mas um parque cultural que conservaria uma área verde na cidade de São Paulo e ainda promoveria apresentações artísticas para a comunidade. No dia 23 de outubro, o Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) tomou decisão favorável ao Grupo Silvio Santos. Abelardo I venceu o artista.

publicado originalmente no dia 11 de novembro de 2017, 
no jornal O Caiçara, de União da Vitória