sábado, 21 de abril de 2018

Os últimos ensaios/anseios de Leminski




Recentemente, a editora Grafatório reuniu em uma bela edição artesanal, intitulada “A hora da lâmina” (2017), os últimos ensaios do poeta Paulo Leminski, publicados na Folha de Londrina entre abril e junho de 1989, algumas semanas antes de sua trágica e precoce partida. Inéditos até agora em livro, os artigos – caracterizados pelo autor como textos-ninja – mostram a vitalidade, a inteligência e a versatilidade que artista curitibano carregou até o final da vida.
Poeta, prosador, tradutor, compositor e roteirista, tendo atuado também no jornalismo, na publicidade e na televisão, Leminski foi uma das mentalidades mais criativas da segunda metade do século XX no Brasil. Herdeiro do concretismo e de outros movimentos vanguardistas - mas também leitor de uma tradição clássica que vai da literatura grega e latina até à poesia oriental -, o paranaense foi autor de alguns dos livros mais interessantes da literatura brasileira contemporânea. Nos últimos anos, sua obra literária e musical tem sido reavaliada e consagrada pelo público, e o samurai malandro - como Leyla Perrone Moisés o caracterizou - vai passando de poeta de província à celebridade nacional.

Leminski foi também professor de cursinho e lutador de judô

A veia ensaística de Leminski – ainda desconhecida ou não muito lida por boa parte dos leitores - é muito fértil e de certa forma põe em relação a criatividade poética do escritor bem como seu olhar crítico não apenas sobre a literatura, mas sobre a cultura em geral, atingindo, assim, outros domínios, como os da música, da filosofia, da política etc. Ele escreveu no prefácio de “Anseios Crípticos” - sua primeira antologia de artigos -, que seus anseios/ensaios eram “incursões conceptuais em busca do sentido”. Para Leminski, só buscar sentido fazia realmente sentido na vida. Dessa forma, os ensaios publicados em jornais e revistas o ajudavam a entender a literatura, a arte, a vida em geral, bem como permitiam a ele comunicar com os leitores seu olhar sobre o mundo. Registre-se que o poeta não gostava que seus textos-ninja fossem chamados de crônicas, talvez por perceber neles uma potencialidade poética e reflexiva que suplantava o gênero tradicionalmente explorado por escritores em jornais brasileiros.
Leminski teve tempo de publicar oito pequenos textos na Folha de Londrina antes de sua morte (o primeiro ensaio foi publicado no dia 07 de abril de 1989, exatamente dois meses antes do suspiro derradeiro). Mesmo bastante fragilizado pela cirrose hepática, e sem conseguir se livrar do vício pelo álcool, o escritor não abriu mão daquela qualidade que caracterizou toda a sua produção.


Felipe Machado, editor de “A hora da lâmina”, observou no prefácio do livro que, em seus textos derradeiros, Leminski esboçou um “verdadeiro elogio do conflito”, lançando bases para um “entendimento bélico da vida cotidiana”. Isso porque em tais ensaios o autor escreveu sem trégua e feito um franco-atirador sobre alguns temas que caracterizaram sua produção crítica e poética, como o rock and roll, a publicidade, a cultura zen e a arte da guerra.
Nos textos iniciais, “Como era boa nossa banda” e “Subversive rock”, Leminski parece ironizar e ao mesmo tempo lamentar a decadência dos grandes gestos, radicais e revolucionários, do rock em roll, estilo que “fez a cabeça” de muitos nos anos 70, 80 e 90. O poeta-ensaísta cita Titãs, Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Ira!, RPM, Paralamas do Sucesso, Lobão, Cazuza, sem talvez imaginar que eles sobreviveriam a ele (alguns na ativa até hoje).
No texto sobre a publicidade, o autor esboça uma reflexão bastante ácida sobre seu universo a moldar, com sua força irresistível, os padrões de gosto social. Como os apelos da publicidade se voltam, segundo Leminski, para o hedonismo mais pueril, não estranha vermos nesse mundo um equivalente do “colo materno”. O consumo equivale à grande mãe a fornecer a seus filhos, conforto, segurança e o prazer do aconchego. O poeta, que era também publicitário, sabia muito bem o que isso significava.



Nos textos sobre a filosofia zen, Leminski discute, por exemplo, a separação do corpo e da mente operada por nossa cultura, em contraposição à filosofia zen, que postula uma relação de unidade entre esses dois elementos. Leminski observa que ela pode ser encontrada na prática do lúdico, na arte, no esporte, no amor e no sexo. São áreas do inutensílio – conceito amplamente discutido em sua obra – em que vivemos para além da tirania do lucro e da objetividade.
Nos últimos textos, a guerra é o tema sobre o qual volteia o pensamento ninja do poeta. Neles, o autor discute - da Guerra do Contestado à obra de Sun Tzu, Clausewitz e Myamoto Musashi - a arte da guerra como inerente aos “modos de ser cotidianos de cada pessoa”. Isso não significa que o autor faz apologia à guerra, mas apenas que ela não é analisada apenas como algo que traz dor e destruição, mas também que permite ao homem aprimorar seus limites, conhecendo-se mais plenamente. Há, então, no último Leminski, a “assunção plena do caráter bélico do ato de viver”, para usar sua frase no ensaio “Plano Dois”. Nesse sentido, Leminski aprendeu com a arte da guerra a lutar na guerra da vida. E fez disso também uma arte. O último ensaio saiu no jornal cinco dias antes de dizer adeus. Lutou e escreveu até o final.      

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória (PR), em 21 de abril de 2018

terça-feira, 17 de abril de 2018



Em memória de Jofre Mansur 
(1930-2018)


Lá na Síria
Alá ouve a prece
De tantos patrícios
E uma mãe grita e chora
Enquanto Cristo abraça
o menino morto 
Por bombas e tiros

Onde estarão agora
Os Chaerk, os Mansur,
Os que têm sangue de Elias?
Em Damasco, Alepo,
Al Hasakah, ou em Palmira?
E se tivessem vindo também
Para estes lados
Imigrantes árabes
Primos refugiados
Fazendo daqui outra Síria,
Como seria?

Tanto horror
Pela honra do Ocidente
Tanto ódio a troco de nada
Quem lavará o sangue
Dos sírios
Que escorre a rodo
Pela calçada?


c.moreira,
(Bisneto de Elias Mansur,
Que emigrou de Damasco ao Brasil
Em 1912)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pequeno ensaio sobre os vaga-lumes e a prisão de Lula




Eu estava preparando para este jornal um texto sobre o poeta japonês Matsuo Bashô quando, no meio do caminho, um acontecimento político desviou a minha rota. E para meus filhos e netos não dizerem no futuro que me calei sobre esse episódio e para a minha consciência continuar como está e para os leitores não pensarem que a política brasileira está agora mais limpa resolvi, então, escrever sobre vaga-lumes.
Sejamos contemporâneos, enxerguemos na escuridão. Giorgio Agamben escreveu em seu belo ensaio “O que é o contemporâneo?” que “todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros”. E ser contemporâneo, para ele, é justamente ser capaz de ver essa obscuridade, ser capaz de escrever “mergulhando a pena nas trevas do presente”. Para o filósofo italiano, contemporâneo é aquele que “mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”. Eu acrescentaria a este argumento a ideia de que contemporâneo é também aquele capaz de iluminar, mesmo que com uma discreta luz de vaga-lume, as trevas de seu tempo. Para esta conclusão, inspiro-me no livro “Sobrevivência dos Vaga-lumes”, de Georges Didi-Huberman. Lanço aqui alguns lampejos do quebra-cabeça, na expectativa de que o leitor junte suas peças.
No livro, Didi-Huberman - depois de evocar uma imagem do “Inferno”, de Dante, que diz respeito à aparição de uma pequena luz de vaga-lumes a revelar com seu fulgor os “conselheiros pérfidos” -, relembra de uma carta de Pier Paolo Pasolini encaminhada a seu amigo Franco Farolfi no auge da 2ª Guerra, na qual celebra a amizade e descreve uma noite em que vislumbrou, em Pieve del Pino, uma revoada de vaga-lumes. Em pleno conflito, esses pequenos insetos preencheram a escuridão com seu voo amoroso e luzidio. A irradiação de sua luz, mesmo que frágil e fugaz, seria uma alternativa aos “tempos muito sombrios ou iluminados do fascismo triunfante”. E a arte com sua luz de vaga-lume nos ajuda a pensar e entender melhor a vida quando o mundo escurece.


Algumas décadas depois, Pasolini - associando o momento trágico do pós-guerra, bem como a sobrevivência do fascismo, ao desaparecimento dos vaga-lumes - publicou um artigo no qual refletiu sobre o vazio do poder na Itália, bem como o comportamento imposto pelo poder do consumo a remodelar e deformar a consciência do povo italiano. O cineasta denunciou não apenas a violência policial do período, mas também um genocídio cultural e o desprezo pela Constituição.



Hoje, mais de quarenta anos depois do trágico e brutal assassinato de Pasolini, vivemos ainda um tempo em que “os conselheiros pérfidos estão em plena glória luminosa”. E ao invés de protestar contra a prisão de Lula – questão complexa que tomaria muitas páginas -, prefiro perguntar: “Por que a parcela de brasileiros que teve uma catarse com a prisão de Lula não reivindica com o mesmo afinco o julgamento e a condenação de tantos outros - os quais sabemos – que livres, blindados e tranquilos estão?” Não sou a favor de corrupção, nem de impunidade, muito menos engajado em querelas partidárias e é justamente por isso que me sinto à vontade para escrever sobre isso, não com imparcialidade (sabemos que ela não existe no âmbito das ideias), mas com parcimônia. Como escreveu meu amigo Luisandro Mendes de Souza, “se a sociedade acha que depois da segunda instância o réu deve ser preso, que se mude a Constituição. Mas enquanto isso, o réu pode recorrer em liberdade enquanto tiver chance de recurso. Se assassino pode recorrer em liberdade, porque alguém acusado de corrupção não poderia?”. Por que é o Lula? Não se trata de partidarismo, mas de uma questão legal.


Denunciando uma assimilação (total) ao “modo e à qualidade de vida da burguesia”, Pasolini nos convida a tomar consciência da tragédia. E qual seria ela? A de que “não existem mais seres humanos; só se veem singulares engenhocas que se lançam umas contra as outras”. Não é a isso que temos assistido dia após dia nas redes sociais? O povo, em meio a mil e uma manipulações midiáticas, vai perdendo a capacidade de ler e refletir sobre as coisas. Isso de todos os lados, da esquerda à direita, do popular ao erudito, do rico ao pobre. Não precisamos abrir mão de nossas paixões para avaliar com mais clareza uma determinada situação. No entanto, a catarse a que estamos assistindo – com direito a fogos de artifício pelas cidades, performances bizarras no hotel mal-afamado de Oscar Maroni e slogans como “leva e não traz nunca mais” - escancara a velha e já conhecida história: somos apresentados a um vilão, a um antagonista e torcemos para que ele sofra, morra ou apodreça na cadeia no último capítulo da novela, enquanto os outros personagens, na igreja, assistem ao casamento da mocinha e do mocinho e todos ficam, assim, felizes para sempre. E outra novela começa. Essa é a forma mais fácil e automática de ler, enxergando a vida como quem assiste a uma novela, geralmente global. E se alguém é associado a um dos lados, já vem milhares do outro com pedras na mão. Só que a vida não é uma novela. O jeito é virar vaga-lume.  


Vaga-lumes são aqueles que não se deixam cegar pela luz total dos projetores de shows políticos ou dos palcos de televisão, bem como aqueles que, em meio às trevas do tempo, não deixam de emitir sua luz, seus sinais, seus lúcidos pensamentos. Aliás, a expressão “lucidus”, do latim, deriva de luminoso, ou seja, aquele que é provido de luz. Vaga-lumes são aqueles seres desassossegados que leem com atenção e que, desconfiando das verdades absolutas ou impostas, enxergam melhor no escuro, ou seja, resistem. Aos poucos, pequenas luzes de vaga-lumes vão se unindo, formando uma constelação capaz de iluminar toda uma noite.
Certa vez, Roland Barthes escreveu que o Poder, seja qual for, por ser violência, nunca olha: “se olhasse um minuto a mais (um minuto demais), perderia sua essência de poder”. Para ele, o artista, ao contrário, para e olha demoradamente. E isso é perigoso, pois “olhar mais tempo do que o solicitado (...) desarranja todas as ordens estabelecidas, sejam elas quais forem”. Até porque o próprio tempo do olhar é controlado pela sociedade. Os vaga-lumes, param, olham e, dessa forma, iluminam. Precisamos deles para entender melhor o que está acontecendo. Que a arte e a política nos convidem também a este voo. Aprendamos a ler melhor.

Publicado originalmente no jornal Caiçara,
em União da Vitória, PR, 
em 14 de abril de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Três da tarde




Oh, Senhores, não quero que me destilem o veneno ou que me descortinem o véu de seus saberes, hoje quero só os sabores.
Cientistas, não quero classificar as borboletas no museu dos insetos, quero assistir ao voo de suas coloridas asas.
O menino que sonhava em ser poeta acordou um dia pensando que o traçado do desenho era apenas uma fronteira na qual as cores encontravam seu limite de ser e que não fazia mais sentido  saber se o volume de dentro é que definia o objeto, permitindo-lhe ser o que era, ou se era o espaço por fora que o contornava, dando-lhe forma e exatidão.
Às três da tarde de um onze de abril qualquer, sento em um banco qualquer de uma praça qualquer e descubro o sentido da vida.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

caio


deus nos livre de tantos caios
que aqui assim caíram
fazendo do mundo
um imenso palco meu

seja o caio prado jr.
ou aquele que é castro
ou ainda o petrônio
ou o caio fernando abreu
feliz de quem tem um caio
feliz de quem o caio escolheu

c.moreira

terça-feira, 10 de abril de 2018

Os bons ares de César Aira




César Aira é um dos mais interessantes e produtivos escritores da literatura argentina contemporânea, tendo publicado até agora quase uma centena de livros. Ele escreve pelo menos uma página por dia, o que lhe rende a criação de duas ou três novelas (até quatro) em média por ano – somando-se a essa cifra, às vezes, um livro de ensaios. Ele é assim uma espécie de máquina alucinada de produzir ficção.
Certa vez, o autor defendeu a ideia de que um artista contemporâneo não é aquele que produz obras, mas aquele que inventa procedimentos para que as obras se façam sozinhas. É dessa forma que Aira se constituiu como escritor, inventando um procedimento que se repete com diferença a cada livro, geralmente tencionando os limites do realismo, e acrescentando a esse realismo uma boa dose de “nonsense” que lhe vem de uma certa inventividade vanguardista mais preocupada com a invenção e com a quantidade do que com as tradicionais categorias literárias de qualidade e genialidade. E é talvez por estar despreocupado com a qualidade que o argentino produza uma das obras mais significativas da atual literatura de língua espanhola. Escreve sem medo, distraído vence, arriscando acerta. Talvez essa despretensão seja apenas um jogo também.
Cada livro de Aira é um universo esperado e comemorado pelos leitores. Seus enredos começam geralmente de uma forma bastante banal e vão aos poucos investindo na loucura e no inusitado, encaminhando a história, não raro, para algum cataclismo ou para o apocalipse. O fim do mundo aparece, então, com recorrência em sua obra. Seus personagens, inicialmente banais, vão se revelando muito diferentes do que os leitores esperavam. Seres comuns vão se transformando em robôs, travestis, monstros, ou títeres medonhos. O verossímil e o inverossímil para o argentino não são elementos opostos, e a sua escrita vai, dessa forma, passando de um a outro com desenvoltura.  


Pouco traduzido ainda no Brasil, César Aira tem sido o escritor argentino mais cotado para o Nobel de Literatura. Mas ele não está preocupado com isso. Aira parece não levar a sério a literatura, mas isso pode ser apenas uma ilusão. Seus ensaios assemelham-se, geralmente, a fábulas ou são construídos criativamente como sua ficção. Suas novelas, por sua vez, produzem teorias (tome-se como exemplo seu livro “Nouvelles Impressions du Petit Maroc” editado pela Cultura e Barbárie, em 2011) ou assemelham-se, por vezes, a ensaios que nos convidam ao filosofar. Tudo isso a partir de hábeis jogos de ideias que divertem e fazem pensar. E se esse texto sobre Aira não explica nada é porque a obra desse autor parece produzir não apenas a suspensão do sentido, mas também uma crise no comentário. O melhor jeito de (des)conhecer um escritor é lendo-o.
Sergio Pitol escreveu certa vez que Aira é um dos poucos autores que fazem da escritura uma celebração. Sinto que sua obra me reconcilia com a literatura, porque ler é uma forma de se divertir e mergulho em seus livrinhos justamente em busca de diversão. Abro suas páginas também para passar o tempo. Aliás, o próprio escritor anotou em seu livro “Continuación de ideas diversas” (Universidad Diego Portales, 2014) que ler é um modo de ocupar o tempo assim como as práticas artísticas – todas elas – têm como finalidade principal ocupar o nosso tempo.
Relembremos brevemente, a título de curiosidade, o enredo de algumas novelas aireanas. Em “Um acontecimento na vida do pintor viajante” - publicado em 2000 e editado no Brasil pela Nova Fronteira em 2006 -, o autor recupera a viagem do pintor alemão Rugendas pela Argentina, no século XIX (o pintor veio também para o Brasil com a expedição chefiada pelo Barão de Langsdorff). O livro é pretexto para Aira falar sobre a relação entre arte, história e vida. Em “Congresso de Literatura” (Ula, 1997), somos apresentados a uma série de clones do escritor Carlos Fuentes dispostos a dominar o mundo. Em “Os mistérios de Rosário” (Emecé, 2012), deparamo-nos com o fim do mundo iniciado em uma cidade do interior da Argentina depois que um grupo de professores de uma universidade se vê envolvido em uma manobra de alteração climática.
Em “As noites de Flores” (Nova Fronteira, 2004), o autor imagina a rotina de um casal de aposentados, Aldo e Rosa, que se vê obrigado, depois da crise que assolou a Argentina, no início do século XXI, a trabalhar durante a noite, entregando pizzas a pé no bairro de Flores, nos arredores de Buenos Aires. Mas a história é apenas pretexto para Aira enlouquecer o enredo, produzindo seus volteios esquizofrênicos.  


Em “O Mago” (Mondadori, 2002), Aira retrata um mágico que não possui imaginação. Ou seja, tem o talento, mas não consegue tirar proveito dele. Ao longo do livro, depois de concluir que a magia é a sua realidade e de suspeitar de que, por isso, a sua realidade é uma invenção, o mágico encontra um grupo de editores que o motivam a escrever livros em série. Se ele era mágico, poderia tirar da cartola muitas e muitas obras. Seria um escritor reconhecido e produtivo. Mas, ao contrário do mago, Aira parece possuir não apenas o talento, mas também a imaginação. De que vale uma arte sem ela?   

Publicado originalmente no dia 07 de abril no jornal Caiçara, em União da Vitória (PR)

domingo, 1 de abril de 2018

Chile, 1973, entre a cultura e a barbárie




Nos anos 70, o padre e crítico literário chileno Sebastián Urrutia Lacroix foi contratado para - no estopim do Golpe Militar que tirou do poder Salvador Allende -, dar aulas de marxismo para o ditador Augusto Pinochet e para membros de sua Junta Militar. Ainda jovem, Sebastián trava amizade com o renomado Farewell, proprietário rural que é também um crítico renomado, e que será responsável pela inserção do amigo no mundo das letras. Depois de passar um tempo na Europa, distanciado da realidade política latino-americana, o padre volta para o Chile e encontra o país mergulhado no abismo de uma ditadura atroz. É nesse momento que ele é convidado a lecionar para o General Pinochet. Eis o pano de fundo sobre o qual se descortina o livro “Noturno do Chile” (Companhia das Letras) - publicado originalmente no ano 2000, no Brasil em 2004 -, de Roberto Bolaño, um dos mais representativos escritores da literatura latino-americana contemporânea.


Há sete anos, adquiri um exemplar da obra e, desde então, ela estava esquecida em minha estante. Como um bom vinho chileno, guardado em uma adega, o livro de Bolaño permaneceu para mim ilustremente desconhecido, envelhecendo dignamente. Os motivos que nos levam a ler um livro e não outro são tão misteriosos quanto os verdadeiros motivos que levam um autor a escrevê-lo. No entanto, em meio a tantas barbáries, a tanto descrédito dos direitos humanos, a tanta brutalidade que nos envergonha o país, abri suas páginas esta semana e o li. Talvez o livro tenha me procurado justamente agora por algum motivo especial. E como os vinhos maturados, com os quais convivemos afetuosamente antes da degustação, a obra, oriunda da terra de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, ganhou assim um sabor especial.  
“Noturno do Chile” é a confissão de um Sebastián velho e angustiado em relação a sua participação, mesmo que anônima, nos bastidores da história de seu país. Assim ele abre suas memórias: “Agora estou morrendo, mas ainda tenho muita coisa para dizer. Estava em paz comigo mesmo. Mudo e em paz. Mas de repente surgiram as coisas. Agora não estou em paz”. Então, o padre desfia suas lembranças desde a amizade com o crítico Farewell na juventude, quando conheceu e conviveu com boa parte da intelectualidade chilena, a viagem que fez para a Europa com o objetivo de estudar técnicas de conservação de catedrais, até o seu retorno à terral natal, nos anos 70, quando encontra o país mergulhado em uma crise social depois da morte de Allende e da tomada de poder dos militares, situação que perduraria até os anos 90. Dar aulas de marxismo para Pinochet seria cômico se não fosse trágico. Soa como uma ironia ao passo que parece refletir sobre as relações entre a cultura e a barbárie.    

Pinochet e membros de sua junta militar

Notemos que é graças à projeção intelectual que Sebastián é levado a participar do terror. Em uma das passagens do livro, o narrador relembra os encontros literários na casa de María Canales, lugar que sediava não apenas noites artísticas, mas também sessões de tortura em seu porão. Os visitantes não sabiam e nem sonhavam. Muitas pessoas teriam sido assassinadas naquele lugar. O mesmo casal que promovia a vida cultural em Santiago levava a cabo as políticas do horror naquele estado de exceção. Nesse sentido, uma reflexão sobre a relação entre barbárie e cultura parece ser um dos aspectos mais interessantes do livro. No entanto, a obra transcende a questão política ou social para promover um mergulho nos dilemas humanos. Isso tudo por meio de uma linguagem e de uma construção narrativa que fez de Bolaño um dos maiores prosadores de língua espanhola dos últimos anos.
O autor chileno não está preocupado apenas com a história que conta, seja aquela da ficção ou mesmo a dos episódios sinistros que macularam a América Latina. Está preocupado em primeiro lugar em praticar uma literatura consciente do seu papel e de seu destino no que se refere à qualidade de linguagem, a um ritmo fluido e vertiginoso, bem como a uma grande capacidade de construir imagens.  


Nas páginas finais, o narrador relembra que, em uma das noitadas literárias na casa de María Canales, um dos visitantes - não se sabe se homem ou mulher -, à procura de um banheiro, entra sem querer no porão onde se davam as torturas. María era casada com James Thompson, um empresário americano que prestava serviços para a ditadura chilena. O visitante abriu a porta, acendeu a luz e viu que sobre uma cama havia um homem nu, amarrado pelos pulsos e tornozelos: “O extraviado ou a extraviada, sumida instantaneamente a bebedeira, fechou a porta e tornou em silêncio sobre seus passos. Quando chegou à sala, pediu um uísque, depois outro, e não disse nada”. O elemento assustador não está apenas na tortura, mas também no silêncio daquele que testemunhou e não denunciou. Nem ao menos demonstrou pavor. Eis o silêncio do intelectual. Em tempos de horror podem ser encontrados na cultura ecos também de barbárie. Em outras palavras, o que fazer na arte e na vida com a morte de Marielle e de tantos outros? Inquietamo-nos ou calamos? Afinal de contas, quem matou Marielle?

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória (PR), em 24 de março de 2018. 

sábado, 17 de março de 2018

Literatura: substantivo feminino





Na semana passada, no dia 08 de março, comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Tive o prazer de participar, com as professoras Lorena Lima e Gisele Schnorr, no IFPR (Instituto Federal do Paraná), campus de União da Vitória, de uma mesa-redonda, que teve como foco a presença da mulher na literatura. O debate integrou uma semana de atividades relacionadas ao tema. Senti-me lisonjeado e ao mesmo tempo apreensivo por ser o único sujeito masculino a participar dos debates. As mulheres, com todo o merecimento, têm conquistado espaços significativos em todos os setores da sociedade, superando uma condição social que, ao longo da história, não foi generosa e justa com elas. No entanto, falta ainda um reconhecimento maior no que se refere, por exemplo, à remunerações mais honestas e ao pleno respeito a seus direitos, superando formas de assédio e outros tipos de violência que ferem a sua dignidade.
A mesa-redonda tratou das representações da mulher na literatura ao longo dos tempos, da participação de escritoras na produção literária, bem como das polêmicas envolvendo a existência ou não de uma poética propriamente feminina. Poderíamos considerar como literatura feminina apenas aquela produzida por mulheres? Ou também aquela cujos temas estão relacionados ao seu universo? Ou ainda, seria feminina uma poética na qual o narrador ou o eu-lírico são predominantemente femininos independente do sexo do autor?
Arrisco dizer que toda a literatura é feminina, mesmo aquela produzida por homens. Isso porque a intuição e a sensibilidade necessárias à prática da arte literária, em especial à da poesia, são elementos, por excelência, femininos (talvez devêssemos estudar melhor a relação entre o hemisfério direito do cérebro, as mulheres e o texto poético). Sempre acreditei que a arte nos ensina a ver a vida de forma feminina. E o interesse pelo universo feminino certamente me aproximou da arte. A poesia, aliás, é o grande útero da linguagem e ao mesmo tempo o leite que nutre e fortifica um idioma. Se o mundo fosse comandado por mulheres dificilmente assistiríamos a tantas guerras e outras barbáries. As mulheres são mesmo as engenheiras e arquitetas do mundo.
Oswald de Andrade defendeu em seus ensaios a importância da mulher na vida social. Para ele, o mundo se divide na sua longa história em Patriarcado e Matriarcado. Sua tese “Crise da Filosofia Messiânica” argumenta que um novo Matriarcado se anuncia com tudo aquilo que vem junto dele: o filho de direito materno, a propriedade comum do solo e o Estado sem Classes, ou mesmo a ausência de Estado. Sob essa ótica, só quando o mundo voltasse a ser dominado pelas mulheres alcançaríamos o verdadeiro estágio de liberdade, igualdade e fraternidade (ou melhor “sororidade”, para usar uma expressão que me foi apresentada pela professora Giselle Schnorr). A visão anarco-socialista de Oswald é muito bonita e transcende seu pensamento literário.

Oswald de Andrade e Pagu

Até o século XX a participação das mulheres na literatura foi praticamente nula. A maior parte das escritoras produzia uma obra que sequer era divulgada. Em muitos casos, elas adotavam pseudônimos masculinos como condição para a publicação, circulação e valorização de suas obras. É o caso por exemplo de Emily Brontë, que escreveu “O Morro dos Ventos Uivantes”, publicado com o pseudônimo Ellis Bell. No Brasil, nos últimos 50 anos, as mulheres começaram a conquistar espaços mais significativos no cânone literário. Se na primeira metade do século encontramos poucos nomes, como Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Pagu (Patrícia Galvão) e Gilka Machado, na segunda metade proliferam-se os nomes: Clarice Lispector, Hilda Hilst, Adélia Prado, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Cora Coralina, Helena Kolody, Carolina Maria de Jesus, Marina Colasanti, Zélia Gattai, Ana Cristina Cesar, entre outras. A lista das contemporâneas é grande e vai de Josely Vianna Baptista à Carol Bensimon. 



Veronica Stigger, por exemplo, em “Gran Cabaret Demenzial”, discute questões que aludem, não apenas ao universo feminino, mas também aos dilemas da vida, abordando de forma poética - mas ao mesmo tempo filosófica e política -, o grotesco de um mundo que cada vez mais tem se tornado insuportável. Angélica de Freitas, por sua vez, no livro de poemas “Um útero é do tamanho de um punho”, reflete criticamente sobre preconceitos e estigmas vivenciados pelas mulheres. Em um dos poemas, “Mulher de vermelho”, a poeta assume um eu-lírico masculino para problematizar a voz social que vê na sensualidade da mulher um elemento de promiscuidade: “O que será que ela quer / essa mulher de vermelho / alguma coisa ela quer / pra ter posto esse vestido / não pode ser apenas / uma escolha casual / (...) / o que ela quer sou euzinho / sou euzinho o que ela quer / só pode ser euzinho / o que mais podia ser”. Observe-se que o que se problematiza aqui é discurso que, por vezes, se materializa a partir de casos de estupro: “Que roupa ela estava usando?”. Como se a vestimenta justificasse o crime. As mulheres têm produzido uma arte poética muito rica e significativa na contemporaneidade. Desejo que elas possam cada vez mais ocupar na literatura - e em todos os outros lugares - um espaço que sempre foi seu de direito.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória PR, 17 de março de 2018.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Crimes à moda antiga: os contos verdade de Valêncio Xavier




Em março de 2018, o escritor Valêncio Xavier estaria fazendo 85 anos. Ao invés de lamentarmos os exatos dez anos de sua morte, celebremos a vida de uma das mentes mais criativas da literatura brasileira contemporânea, que escreveu, por exemplo, “Curitiba, de Nós” (1975), “O Mez da Grippe” (1981), Maciste no Inferno (1983), “O Minotauro” (1985), “A Propósito de Figurinhas” (1986), “Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentindo” (2001), “Remembranças da Menina Morta de Rua e Outros Livros”, etc.
Valêncio Xavier, paulistano radicado na capital paranaense, explorou com maestria um diálogo entre a literatura, o cinema, o jornalismo e a fotografia. Seus livros se constituem quase sempre como montagens criativas nas quais a relação entre textos e imagens (compostas por fotogramas cinematográficos, fotografias, rótulos, manchetes, colagens em geral) é o princípio constitutivo de uma experiência artística bastante singular. As imagens em sua obra não apenas ilustram os textos, mas são também por eles iluminadas. E a “fricção” entre ambos faz surgir um novo signo literário. Sua literatura é, nesse sentido, intersemiótica.

Valêncio Xavier

Com suas montagens o escritor contou histórias que tiveram como pano de fundo o universo da memória, do erotismo, da tragédia, da morte e do mal. Em boa parte de seus livros, a abjeção aparece como sintoma de uma literatura interessada em retratar a degradação humana, a baixeza do mundo. Tomemos como exemplo seu penúltimo livro, “Crimes à moda antiga” (2004), no qual podemos perceber a violência como eixo temático a nortear os enredos apresentados. A publicação é composta por uma série de “contos verdade”, que partiram de assassinatos praticados no Brasil no início do século XX. A obra, editada pela Publifolha, contou com ilustrações do próprio autor, bem como de Sérgio Niculitcheff. Valêncio pesquisou amplamente cada um dos crimes e os transformou em matéria literária, sem alterar, no entanto, a veracidade dos fatos.

No conto “Os Estranguladores da Fé em Deus”, o autor relembra o caso dos irmãos Paulino e Carlo Fuoco. Os jovens, que trabalhavam na joalheria do tio, foram barbaramente assassinados em outubro de 1906, no Rio de Janeiro, por Eugênio Rocca e Carletto. Em outro conto, “A noiva não manchada de sangue”, Valêncio reconstitui o assassinato de Arthur Malheiros no quarto de um hotel situado na Galeria Cristal, no centro de São Paulo, pelas mãos de sua ex-namorada Albertina Barbosa Bonilha, em conluio com seu marido Elisário Bonilha, nos idos de 1909. As motivações do crime nunca foram completamente esclarecidas. “A Morte do Tenente Galinha” apresenta o fim inglório de um famoso caçador de bandidos na cidade de São Paulo, em 1913, que teve como estopim um adultério. O famoso crime de Cravinhos, no qual uma rica fazendeira - a rainha do café - encomenda a morte de seu genro, também é registrado no livro. São apresentados também dois contos sobre os chocantes crimes da mala - em que os corpos das vítimas são brutalmente esquartejados -, como é o caso da morte de Maria Féa pelo italiano José Pistone, e de Elias Farhat por seu empregado Miguel Trad, um imigrante sírio. O último texto da obra revisita o assassinato, nos anos 30, de dois curitibanos e de dois gaúchos cometido por uma mesma dupla de assaltantes facínoras.

Febrônio

O conto baseado em um crime mais clássico talvez seja aquele que reconstitui a vida do bandido Febrônio e as crueldades por ele praticadas no Rio de Janeiro nos anos 20. Este é um dois bandidos mais famosos do século XX, tendo morrido em um manicômio em 1984. A sua história envolve crimes sexuais, homicídios e misticismo religioso. O personagem é tema de um ensaio de Raúl Antelo (Suplemento Literário, 2009, n.1321), que analisa a monstruosidade de Febrônio à luz de reflexões sobre o mal na obra, por exemplo, de Georges Bataille.

Giuseppe Pistone e Maria Féa a bordo do navio Conte Biacamano

O baú de madeira com o corpo de Maria Féa chegou a embarcar no navio Massilia, mas chamou a atenção pelo cheiro fétido

Para Bataille, o mal e a literatura são inseparáveis. A literatura não nos permite “viver sem ver a natureza separada dos aspectos existenciais mais violentos”. Ela nos possibilita “perceber o pior e aprender como confrontá-lo, como superá-lo”. Talvez se justifique aí a importância da arte ao materializar ou representar o mal, fazendo dele tema de tantos textos cruéis. Não é fortuito que Valêncio Xavier tenha escrito um conto como “No meio do mato matou a mulher índia e depois comeu”, publicado no jornal Nicolau (ano 1, n. 3). No conto, o assassino depois de esfaquear a vítima, corta seu corpo e retira dele os órgãos para comê-los: “Mordeu e enfiou pela boca adentro úmidos pedaços de algum órgão, fígado ou rins, não sei”. Os detalhes da cena são cruéis e minuciosamente descritos. O conto traz a fotografia de uma índia semelhante à vítima, o desenho de um corpo dissecado, algumas inscrições verbais e a representação de uma onça, que aparece no conto se alimentando também da jovem. Há uma dimensão erótica em todo o conto, e a questão sexual motiva o crime. Em todos os elementos que constituem o seu enredo percebe-se a presença do Mal, descrito por Bataille e tematizado tantas vezes por Valêncio. É a monstruosidade do mundo gritando na literatura. Ela nos perturba ao passo que nos convida a confrontá-la.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR, em 10 de março de 2018.             

sábado, 3 de março de 2018

A ficção literária e as cicatrizes do leitor e do mundo: apontamentos sobre “O senhor das moscas”, de William Golding




O escritor, jornalista e crítico literário José Castello escreveu certa vez que a literatura é uma “máquina de perfuração do espírito”. Ela deixa no leitor marcas que nunca cicatrizam completamente: “A melhor forma de tratá-las é transformá-las em novos textos, que geram novas leituras, em um desdobramento infinito de escritores e de leitores que dialogam e se misturam”. Depois de travar contato com um bom livro, nunca saímos ilesos, nem os mesmos. Impossível não ficarmos marcados e feridos ao lermos, por exemplo, “A metamorfose”, de Kafka, “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, ou “Angústia”, de Graciliano Ramos. São obras que nos perturbam, que nos tiram da zona de conforto. Não nos trazem segurança e nos lançam no abismo da vida e das incertezas, causando-nos um certo mal-estar e até mesmo o horror. Como aqueles filmes que depois de serem vistos perturbam o sono. Se toco nesse assunto é para dividir com os leitores a inquietação provocada em mim pelo romance “O Senhor das Moscas” (Alfaguara, 2014), de William Golding, autor que ganhou o prêmio Nobel em 1983.  

William Golding

O romance em questão, lançado em 1954, conta a história de um grupo de meninos que sobrevive a uma queda de avião em uma ilha deserta durante a Segunda Guerra. As crianças ficam isoladas e são obrigadas a se organizarem para sobreviver no inóspito lugar, que lembra por vezes o cenário de “Robson Crusoé”. O ambiente aparentemente paradisíaco (as descrições da paisagem são lindas) vai, no entanto, dando lugar a uma transformação radical em seus personagens. A disputa pelo poder faz com que as crianças se dividam em dois grupos, cuja liderança fica a cargo de Ralph, o protagonista, e Jack, uma espécie de antagonista que será responsável pelo início da barbárie entre os jovens. Ralph, com ares civilizados, valoriza o diálogo e o bom senso, defendendo constantemente a manutenção de uma fogueira que poderá sinalizar aos navios a presença dos jovens na ilha. Jack, responsável pela caça, quebra o contrato social com Ralph, criando e liderando um grupo paralelo que cometerá uma série de atrocidades, que vão desde o roubo dos óculos de Porquinho, fundamentais para que a fogueira seja acesa, até a abolição total da ordem que incluirá mortes e torturas.

Cena do filme Senhor das Moscas, de 1990
personagens em primeiro plano: Ralph e Porquinho

O livro vai ganhando ares de terror. Porquinho, inteligente e organizado, é um personagem que sofrerá “bullying” ao longo de quase toda a narrativa, por ser gordo e desajeitado. O apelido é típico e os jovens quando querem são cruéis. Não é à toa que o escritor paranaense Wilson Bueno, em seu “Manual de Zoofilia” (UEPG, 1997), tenha incluído, ao lado de uma série de bichos, as crianças: “Terríveis pelos domingos, não as queiram, não nunca, riscando a caco de vidro a lataria dos automóveis, exímias caçadoras impiedosas no rastro de gatos e lagartixas”.   
Ao contrário da premissa rousseauniana de que o ser humano nasce puro e a sociedade o corrompe, o livro de Golding parece apontar para o extremo oposto já que à medida que os meninos se afastam da sociedade, ao invés de encontrarem um estágio mais elevado para uma vida plena em meio à natureza, tornam-se carrascos uns para os outros.
Segundo Fabio Silvestre Cardoso, em um ensaio sobre o livro, publicado no jornal Rascunho (edição n°162), “a marca da maldade ganha força exatamente quando as crianças, que no imaginário coletivo representam a bondade por natureza, cometem as maiores atrocidades na medida em que tentam estabelecer as próprias regras de convivência”. O romance, nesse sentido, é um “tipo de manual de sobrevivência porque mostra que, mesmo nas situações mais improváveis, a dominação dos mais frágeis pelos mais fortes pode, e vai, acontecer”.

Cena da adaptação cinematográfica do romance de Golding

O livro poderia ser lido como uma alegoria do mundo pós-guerra dividido em dois grandes blocos. Lembremos que a publicação é de 1954. Ao lado de George Orwell, em clássicos como “A Revolução dos Bichos” e “1984”, a obra de Golding parece funcionar como uma metáfora política do mundo contemporâneo. Mas não se esgota nisso. Caso contrário, perderia potência ao longo dos anos. Não é o que parece acontecer com a obra, que continua atual, apontando para uma política mais profunda que diz respeito às relações humanas e aos jogos de interesse e poder ao longo dos tempos. Não é à toa que o escritor Cristóvão Tezza, em um recente artigo publicado na “Folha de São Paulo” (22/10/2017), tenha sustentado que “O Senhor das Moscas”, em muitos aspectos parece uma “fábula sobre o Brasil contemporâneo”. Ele faz uma breve análise do livro, mas não esmiúça a comparação. Mas a relação é bem possível. Poderíamos pensar no Brasil como uma grande ilha dominada por seres imaturos que brincam de comandar. E da civilidade democrática vamos passando ao despotismo bárbaro e nada esclarecido. São feridas da realidade que a ficção nos mostra. E que ficam marcadas como cicatriz no corpo e no espírito do leitor. Resta saber como essa história termina.  

 Publicado originalmente no dia 03 de março de 2018, no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR

domingo, 25 de fevereiro de 2018

A praia como um convite ao devaneio poético



Em tempos de verão, calor e praia, nada como colocar entre nossos (in)utensílios de viagem um bom livro para companhia nas horas de pura vadiagem ou momentos íntimos de solidão. Uma boa literatura nos convida ao contato com o outro quando estamos sozinhos, ao passo que nos permite um mergulho nesse mar que somos cada um de nós, proporcionando uma forma de deixar-nos a sós em meio à algaravia do mundo. Nessa temporada, para quem vai ou já voltou da praia, ou não foi nem irá, vale a pena pisar nas areias do livro de ensaios “A vida descalço” (Cosac Naify, 2013), de Alan Pauls, traduzido por Josely Vianna Baptista. O autor é uma das referências da atual literatura argentina, já tendo publicado no Brasil romances como “O Passado”, que foi adaptado para o cinema por Hector Babenco, bem como a bela trilogia sobre os anos 70, “História do pranto”, “História do Cabelo” e “História do dinheiro”, que foge do lugar comum do revisionismo dos anos de chumbo, promovendo uma singular experiência literária e afetiva.


“A vida descalço” apresenta ensaios que têm a praia como tema e referência. Até aí nada de muito interessante. No entanto, as imagens do livro, postas em movimento, produzem uma constelação que faz de sua escrita um bem armado quebra-cabeça cultural. Alan Pauls, em seus longos parágrafos, estabelece relações curiosas entre objetos variados. Praia, corpo, erotismo, pele, beleza grupal, desejo, literatura e cinema geram signos que inusitadamente se expandem à medida que são postos em contato. A geografia da praia é a geografia do branco, da virgindade, da nudez e é justamente devido a essa pureza que ela nos convida a “reescrituras variadas”. Cada um enxerga no mar o que deseja. Essa parece ser a lógica do ensaio também, gênero que se oferece sempre como uma escrita livre e imaginativa. E explorar poeticamente um tema é uma forma, não só de expandi-lo, mas também de colocá-lo em rede. Tal escrita faz lembrar por vezes o ensaísmo de Roland Barthes.

Alan Pauls na praia de Copacabana

As referências do livro vão desde o “Tubarão” (Steven Spielberg) até “À praia” (Danny Boyle), passando pelo cinema de Fellini, Antonioni, Rodolfo Kuhn e Zinnemann. A cena clássica do beijo entre Burt Lancaster e Deborah Kerr na praia de “A um passo da eternidade” é evocada, bem como os protetores solares da Nívea e da Copertone. Pauls lembra da Roma de Justiniano, o primeiro imperador que regulamentou o “espetáculo do mar e da areia e que proibiu as edificações a menos de trinta metros da costa para proteger as vistas”. Com a queda do Império Romano, a cultura judaico cristã passará a questionar severamente o hedonismo, promovendo uma repressão contra o corpo. A praia passa a ser vista como sintoma de monstruosidade. Essa censura parece sobreviver até os anos 60 e 70 do século vinte quando as roupas de banho deixam de ser tão pudicas e o corpo volta a ser assumido em sua plenitude, a ponto de hoje ficar escondido apenas por poucos centímetros do biquíni. 


Em um dos textos, Pauls relaciona a praia com o reino do sonho e do cinema. O autor observa que sonha-se muito na praia. Isso porque ela é um território livre de imagens: “os sonhos, com suas imagens virtuais, são para a praia o que as miragens são para o deserto: a outra cena de um espaço. (As imagens não podem coexistir com o espaço: só aparecem quando o espaço real se dissipou no sono ou na alucinação)”. Nesse sentido, como sugere em um texto seguinte, se a praia fosse um tela de projeção seria uma tela em branco, “cinema virgem”, que não fascina pelo que irradia, e sim “por todas as imagens que era capaz de suscitar”. Essa liberdade é a mesma que faz com que a praia seja o único espaço público onde, segundo Pauls, “a nudez quase completa não é uma exceção nem uma infração provocadora, e sim um princípio de existência, uma forma de vida, a lei – tácita e unânime, mas não coercitiva – que rege a convivência humana”.


Alan Pauls na infância, na praia

Segundo Pola Oloixarac, Alan Pauls, desafiando os lugares-comuns tanto do pensamento como do prazer, “apresenta a praia como o ambiente de imaginação”. O livro nos conduz “à praia da infância do narrador, às ficções estivais de François Ozon e Eric Rohmer, às areias do Rio de Janeiro dos anos 70, às fantasias ascéticas da antipraia invernal”. Em todos os casos a praia parece produzir um “outro lugar” à margem da vida que costumamos viver.    
Alan Pauls encerra seus ensaios relembrando uma passagem vivida em sua infância quando, doente e impossibilitado de ir à praia, ficara em casa lendo um livro. Para ele, esse livro é o verdadeiro “outro lugar” que tem a forma da felicidade. Segundo o autor, talvez não tenha havido dias em nossa infância “mais plenamente vividos do que aqueles que passamos com o livro pelo qual mais tarde, uma vez que o tenhamos esquecido, estaremos dispostos a sacrificar tudo”. Uma boa praia e um bom livro parecem ser assim o sinônimo da própria felicidade perfeita. Em ambos, a liberdade plena é condição para a própria existência.


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 23 de fevereiro de 2018

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas




Entrando nos dias de folia carnavalesca, há quem troque a bagunça por um retiro no campo ou aproveite para ler aquele velho livro desejado com direito a pausas para assistir na TV ao desfile da Escola de Samba preferida: Mangueira, Portela, ou Salgueiro (esta, apreciada incondicionalmente pelo meu amigo Jessé), só para citar as mais tradicionais. Eu, evocando aqui os meus tempos de piá, trocaria a Sapucaí por um desfile da “Vai quem quer” ou da “Zé Totó” (extintas e saudosas Escolas de Samba de nossas cidades, cuja lembrança reforça em mim o sentido dessas singelas e autênticas manifestações de nossa cultura popular), que faziam a festa na Avenida Manoel Ribas, com direito a Rei Momo, passistas e carros alegóricos. Onde andam seus ritmistas? Essas reminiscências evocam outras. A memória é uma teia infinita tecida pela aranha do tempo.
Lembro de uma crônica sobre o carnaval escrita por Lima Barreto e publicada em fevereiro de 1920 (mais tarde reunida no livro “Feiras e Mafuás”), na qual o autor lamenta pelas transformações da festa já em seu tempo. O seu aborrecimento era em específico pela falta de inteligência das músicas que circulavam na época durante o evento. Menos preocupado com a “imoralidade” e a “chulice” que apresentavam e mais com o aspecto intelectual e artístico, Lima apontava para cantigas sem nexo algum, nas quais predominava uma “pobreza de pensamento”. Ele se referia a canções como “Fala meu loro”, um partido alto de Sinhô, tradicional compositor carioca. Sabe-se da qualidade musical não só desse baluarte do samba, mas de tantos outros músicos populares da época, possivelmente ainda incompreendidos por Lima Barreto e certamente depreciados por boa parte da cultura oficial.

Sinhô

O autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” valorizou amplamente a cultura popular, mas não conseguiu aprovar com unanimidade a produção musical carnavalesca da época. Isso se deu possivelmente pelo baixo nível de complexidade das letras desse cancioneiro, menos preocupado com a sofisticação estética e mais com o desejo de “cair na boca do povo”, sendo assim facilmente conhecido, memorizado e apreciado. Fico imaginando o que Lima Barreto pensaria do carnaval atual no qual impera o gênero sertanejo universitário e o funk. Os carnavais agora são bem outros e de longe se parecem com os bailes do Clube Aliança ou do Concórdia de vinte ou trinta anos atrás.

Carnaval antigo em Porto União da Vitória

Para quem prefere nesses dias de folia se exilar do “proibidão” (termo que segundo Liliam, minha colega de trabalho, refere-se ao funk carioca) e do sertanejo universitário (nada contra os dois estilos – sou eclético -, mas carnaval é tempo de samba e marchinha), sugiro a leitura do romance “Desde que o samba é samba” (Planeta, 2012), de Paulo Lins.
Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 20, e tendo como pano de fundo o surgimento do samba em casas de macumba como a da Tia Ciata, bem como a Praça Onze, o livro retrata a história de um triângulo amoroso entre uma prostituta, Valdirene, um malandro cafetão, Brancura, e um português, Sodré. Misturando realidade e ficção, a obra de Paulo Lins conta com uma narrativa ágil (que beira o cinematográfico), com uma linguagem popular – com direito a expressões típicas da época -, bem como com uma exímia reconstituição geográfica, a do belo Rio antigo.

Foliões no Rio de Janeiro dos anos 20

Silvio Fernandes, vulgo Brancura, por exemplo, existiu e fez parte da Turma do Estácio, grupo de sambistas que foram responsáveis pela criação de uma tradicional escola de samba e pela consolidação de seu gênero musical. Baiaco, Bide, Ismael, entre outros, integraram o grupo, sendo agora transformados em personagens. Modernistas como Mário de Andrade e Manuel Bandeira também. Carmem Miranda, por exemplo, aparece visitando um terreiro de Umbanda, religião que estava se disseminando pela cidade junto com o samba. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda, “Desde que o samba é samba” é uma incrível cartografia do mundo da malandragem (e mesmo da violência) nos bairros e morros onde a cultura carioca foi gestada”. 

Deixa Falar (Escola de Samba criada pelo Grupo do Estácio

O livro não se furta de apresentar de forma realista cenas de sexo e violência. Uma das curiosidades do romance é o fato de ter abordado de forma aberta e sem preconceito a homossexualidade de figuras como Ismael Silva e Mário de Andrade, cuja intimidade ainda hoje é tratada com ressalvas por pesquisadores e biógrafos. Lembremos que Paulo Lins escreveu também o romance “Cidade de Deus”, adaptado para o cinema.  

Paulo Lins

Obs: O título deste texto, “Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas” é inspirado no livro de crônicas “Coisas Nossas”, de Luiz Antonio Simas – mestre-sala da literatura contemporânea no que se refere à cultura popular carioca, lembrando cronistas como João do Rio e Lima Barreto -, e inspirado também no livro “Carnavais, malandros e heróis”, de Roberto DaMatta, que reflete sobre a essência ou especificidade da sociedade brasileira, tomando a figura do carnaval, dos malandros e dos heróis como criações sociais capazes de explicar ou de pelo menos fornecer um modelo de interpretação para a vida do brasileiro.

Brancura (Silvio Fernandes), personagem do livro

A leitura do livro de crônicas do Simas também é uma boa pedida para o período do carnaval. Cenas carnavalescas do passado, blocos de rua, desfiles, fantasias tropicais, brincadeiras de antigamente, rodas de macumba, quitandas e bares, formam uma “espécie de roteiro sentimental de uma cidade que talvez nunca tenha existido”, como escreveu o autor, mas que certamente vive nele. Bom carnaval a todos!   

Publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 16 de fevereiro de 2018