terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Oriki daqui (Orikis-Oriquis)

Berço de riquezas , a África



Ecoam em milhares de terreiros de todo o Brasil o tam-tam africano de tambores e atabaques, cujo som, além de alegrar o espetáculo da resistência negra nesta terra, celebra uma cerimônia de louvor, cujo rito atualiza o mito, festejando as riquezas culturais e religiosas de um povo que ajudou significativamente a construir o nosso país. A magia dessa música seduz e sua repetição rítmica, ao invocar deuses e santos, convidando-os a dançar novamente, recria um tempo arquetípico, fazendo também poesia.

Os negros não trouxeram apenas a mão de obra escrava, mas um universo simbólico que exerceu um papel decisivo na formação de nosso país. Da música à dança, da culinária ao idioma, da religião à literatura, entre tantas outras manifestações culturais a alma africana e mesmo seus genes moram em nós. No processo de miscigenação, o mestiço produziu aquilo que José Lezama Lima chamou - ao se referir ao homem barroco latino americano - de a arte da contra-conquista, respondendo politicamente na arte ao colonizador. Aleijadinho é um de seus avatares. Segundo Paulo Leminski, no ensaio "Alegria da Senzala, Tristeza Das Missões", os negros que vieram para o Brasil eram, muitas vezes superiores em cultura aos Joaquins e Manuéis analfabetos que os adquiriam. Donos de uma rica cultura milenar, não é de admirar que os negros trazidos como escravos até o porto de Salvador "carregassem consigo vasta bagagem cultural, em mitos, ritos e técnicas, de que seus senhores nem suspeitavam" (2012, p. 30).
  
 Na cultura iorubana, fortemente assimilada no Brasil por meio da forte presença do negro, a religião está completamente interligada com a vida social, a ponto de ser difícil definir o próprio conceito de religião para ela. Suas crenças, seus ritos, suas mitologias são modos de vida, formas de ver o mundo. Nesse sentido, aquilo que chamamos de religião iorubana - na falta de um termo mais apropriado -, e que no Brasil se transformou no candomblé, não está desvinculada da culinária, da literatura, da organização familiar, política e social, da agricultura, etc.

Oriki Daqui:

Vários orikis iorubanos já foram traduzidos para a nossa língua por Silvio Lamenha, Pierre Fatumbi Verger, Sikírù Sálàmi entre outros. Lamenha, o primeiro entre nós a traduzi-los, não partiu do texto original. Verger e Sálàmi, por sua vez, verteram diretamente do iorubá, no entanto, preocupados com uma tradução mais "direta" ou "literal", acabaram por desconsiderar a poeticidade dos textos, fundamental para seus efeitos de sentido. Se partirmos do pressuposto de que um oriki não é um poema qualquer - que apenas versa sobre um determinado Orixá - mas uma "estância" onde se guarda o axé, a questão da sua tradução passa a ser um problema. Antonio Riserio observa que recitar ou cantar um oriki não é o mesmo que recitar um poema de Blake ou cantar um blues do repertório de Billie Holiday: "As palavras têm, no oriki, uma carga especial. Uma certa densidade energética. E coisas podem acontecer a partir de sua simples emissão".
O oriki teria o poder mesmo de evocar um deus. Daí a importância de saber pronunciá-lo, não apenas com a voz, mas com o corpo todo, com a respiração, com o olhar, com as entonações que ele pede e com a carga emocional que ele necessita. A relação do leitor com o texto, dessa forma, seria de pura reverência. E para que um oriki não perca seu axé no processo de uma tradução fortuita - que não considera a sua inerente "aura poética" - talvez a melhor solução seria a de recorrermos à transcriação, pois esta teria o objetivo de plasmar sua aura, reinventando-a ou reinscrevendo-a em outro idioma. Nesse sentido, a transcriação estaria mais preocupada com a poesia que mora no poema e não com o poema que guarda a poesia. No oriki transcriado sobrevive o axé do poema, transmigra-se a poesia que pervive no objeto traduzido.

Em "Oriki daqui" não estamos diante de orikis tradicionais, ou de suas traduções ou transcriações. São poemas inspirados nos orikis iorubanos, mas agora imaginados à luz de nossa cultura mestiça, já bastante miscigenada. Impossível imaginar o universo dos Orixás no Brasil sem considerar o sincretismo religioso que nos move. Daí, por exemplo, em um dos poemas que integram a série, a aproximação de Ogum a São Jorge, formando um ser que ao mesmo tempo se apresenta como general, tal como é retratada na cultura cristã,  e ferreiro, tal como aparece na mitologia africana. Oxóssi, em seu oriki, é saudado como São Sebastião, caboclo flecheiro, destinado a iluminar toda a mata, todo o povo brasileiro. No poema dedicado a Oxalá, sincretizado no nosso país como Jesus Cristo, há uma estrofe que faz alusão a um versículo bíblico de Samuel, bem como a uma passagem do evangelho de São Mateus, transformado em oração: "(...) porque teu é o reino, e o poder, e a glória, para sempre" . No poema, encontra-se: "Oxalá / pai de toda gente / seja a arte / e a glória / o teu reino / para sempre". Dessas hibridizações culturais e religiosas, já louvadas por escritores como Jorge Amado - adepto do sincretismo contra o purismo -, surge o título da série de poemas que ora se apresenta: "Oriki daqui". Ou seja, orikis não africanos, mas bem brasileiros. Portanto, são orikis daqui e de agora, neo-orikis talvez, para usar uma expressão de Antonio Risério ao tratar de um poema de Paulo Leminski sobre Ogum.
Nos textos de "Oriki Daqui" ecoam, assim, as palavras do baiano Jorge - aliás filho de Oxóssi, mas Obá de Xangô, no terreiro de Mãe Stella, Ilê Axé Opô Afonjá -, ao escrever que nosso pai Oxalá habita na Colina Sagrada do Bonfim e após a festa no terreiro "vem repousar no altar-mor de Nosso Senhor Jesus Cristo na Basílica católica em cujo adro se celebra na terceira quinta-feira de janeiro a festa mais bela que se possa conceber, a maior do sincretismo religioso em todo o mundo, a procissão das águas de Oxalá" (1992, p. 406). O argumento de Jorge Amado é o de que não faz sentido em nosso país condenar o sincretismo cultural e religioso.  O purismo inexiste dentro do próprio candomblé que - a despeito de algumas tentativas de reconstituição exata de cultos africanos -, já é a materialização de uma mistura, desde quando negros originários de tribos diferentes misturaram-se nas senzalas. Uma mistura que mais tarde se intensificou no contato da cultura afro com a cultura dos índios e dos brancos. A umbanda parece ser o resultado religioso desse hibridismo, figurando como o espaço onde o candomblé, por meio do culto à energia de seus Orixás, o espiritismo kardecista e o catolicismo, conciliam a força dos deuses do Orum com a caridade cristã. Caboclos indígenas, boiadeiros, baianos, ciganos, pretos velhos, pomba giras, exus, encontram-se chefiados pelos Orixás trabalhando para o bem do próximo.


Esses poemas brotaram do meu interesse pela cultura africana e mais ainda pelo encantamento que ela me proporciona. Seus mistérios e magias não estão desvinculados daquilo que a poesia significa, um reencontro com o sagrado potencializado pelas relações curiosas entre as coisas da natureza. Como não lembrar aqui do soneto Correspondências, de Charles Baudelaire que funda uma poética pautada pela harmonização dos sentidos e por uma síntese misteriosa entre todas as coisas.


Poemas da série Oriki Daqui

Dedicado à Mãe Menininha do Gantois, Stella de Oxóssi, 
Pai Balbino, Caboclo Tupinambá, e a todos os negros e negras 
que sofreram no porão de um Navio Negreiro a caminho do Brasil 


Exu

Se ouso de Exu falar em soneto
Cometo pecado ou santa heresia
Porque se Exu é deus do movimento
Não cabe aqui a sua poesia

Em forma fixa não se diz seu dom
Pois água não se guarda na peneira
Prenda Exu no binômio mal ou bom
E o sábio escapa de qualquer maneira

Mas se Exu é mestre da contradição
Misturem-se as cartas nesse terceto
Façam-se as vontades desse glutão

Do verso livre e branco para o preto
Rime rico e pobre com louco e são
Cante e balance Exu nesse soneto

c.moreira


Nanã


quem sabe amassar o barro
amassa como quem faz o pão
brota da terra e da lagoa
a mãe que embala a vida e a morte
no Ibiri em sua mão

senhora das águas paradas
Yabá da criação

toda dor nunca é vã
quando os filhos escolhidos
são ninados nos braços de Nanã

c.moreira

Oxum


nas águas doces
próximas da cachoeira
onde a beleza mora
onde a rainha reina

com seu vestido dourado
e sua coroa de luz
Yalodê, mãe do riacho,
chega, dança e, então, seduz!

vela no ventre
todos os filhos seus
e os que não forem entrega
aos cuidados de outro deus

ora iê iê ô, mamãe Oxum!

tua é toda a cidade
e o rio que ronda aqui
salve, senhora da fertilidade,
Olotoju Anon Omi!

desce mansa a correnteza
mel molhando o seu colar
e o sol de tua nobreza
n'água é ouro a rutilar

c.moreira


Iemanjá 


Dia dois de fevereiro
Vou sair pra navegar
Nas ondas brancas serenas
Nas águas grandes do mar

Vou chamar minha senhora
Janaína odoyá
Vou saudar minha sereia
Yéyé omo ejá

Cantando doces cantigas
Nos braços de Iemanjá
Cantando doces cantigas
Nos colo de Iemanjá

c.moreira


Ogum

Jorge sabe que é santo
E que a espada lança
sobre o céu a fera
Ou fere ou mata ou
Quem sabe até dança

E em seu cavalo branco
Ou negro ou mestiço
(bom cavalo brasileiro)
Vai vencendo todo o mal

Ogunhê! patacori ogum!
Na paz mestre ferreiro
Na guerra do guerreiro
Tu és o general

c.moreira
  

Oxossi


Da mata um raio verde já chegou
quem manda na mata é Oxossi caçador

Eu vi um clarão na mata ecoar
é a força de pai Oxossi a brilhar

Caboclo, caboclo lá vem
trazendo a força de Oxossi
e de Oxalá também

Oxossi, rei das matas
caçador lá de Aruanda
com seu arco e sua flecha
vence todas as demandas

Odé, Oxossi
Saravá, Okê caboclo

Salve, São Sebastião!
salve caboclo flecheiro!
alumia toda mata,
todo o povo brasileiro

c.moreira


Oxalá

Oxalá,
sexta-feira,
roupas brancas,
trabalho no terreiro,
cachoeira ou praia
e maresia

sexta-feira
santa poesia

Oxalá
pai de toda gente
seja a arte
e a glória
o teu reino
para sempre

c.moreira


Xangô


Seja no Orum
seja no Aiê
o dono do axé da palavra
afia a palavra justiça
no fino fio de seu oxê

falo de um grande rei
falo alto e grande de um rei Nagô
Senhor dos trovões e das pedreiras
seja Airá, Aganjú, Obakossô

Salve, o rei de Oió!
dance e brade no terreiro o seu caô!
lá velam por ele várias
                                     (Oxum, Iansã e Obá)
Kaô Kabiesile, Saravá, meu pai Xangô!

c.moreira



Iansã


Por ser o que és,
senhora do axexê,
ganha o reino dos mortos
do senhor Obaluaê

Logo assim o fole de Oiá
faz festa pra Egungum
Por isso Egungum se curva
diante de Oiá
aqui ou acolá no Orum

Rainha de todo espírito
Condutora de todo Egum
Búfalo bravo disputado
por Xangô e Ogum

Santa Bárbara ou Iansã,
deusa do Ibalé,
inventa o vento
fabrica acarajé

Vento veloz
tempestade a voar
sábio és
o ser que sabe
(in)ventar

c.moreira