segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Deus e suas artes! Um breve passeio pela exposição Religiosidade, de Salete Strobino




Na noite da última sexta-feira (22), foi inaugurada na Galeria de Arte Erich Herbert Will, em União da Vitória, a exposição “Religiosidade”, da artista plástica Salete Strobino, que reúne uma série de quadros cuja temática perpassa o universo sagrado das religiões. Em um mundo no qual impera cada vez mais a falta de amistosidade entre crenças diferentes, bem como a falta de disposição para aceitar a fé alheia com o decoro que lhe é necessário e devido, um evento como este não apenas nos oferece uma oportunidade de deleite – o que a boa arte sempre faz -, mas também nos convida a uma reflexão sobre o momento crítico que atravessamos, no que se refere ao preconceito contra variadas práticas religiosas e a consequente falta de liberdade de cultos. Digo que essa reflexão é cada vez mais fundamental num mundo cada vez mais fundamentalista.
No discurso de abertura da exposição, em meio a um clima místico e de profundo encantamento, a pintora falou com beleza sobre a importância da fé sem preconceito, da tolerância como motor do bem viver, da religião como forma de religação do homem com o divino, o que está sugerido na própria etimologia da palavra. Tais observações não apenas orientavam os presentes para uma compreensão mais apurada das obras - favorecendo assim a leitura de cada um dos quadros -, mas também criavam pelo axé que mora nas palavras de luz e pelo diálogo com as pinturas uma força capaz de iluminar não apenas a exposição, mas também a consciência dos espectadores.
De um lindo e inusitado Jesus Cristo, pintado com inspiração na linguagem de 8bits, a um retrato de Omulu, orixá africano que é o senhor das doenças e da cura (e que é bastante cultuado no Candomblé), as obras nos apresentam uma pluralidade de estilos, de temas e de perspectivas religiosas que dificilmente encontraríamos em outro lugar a não ser na exposição. Uma bela representação de Nossa Senhora Czestochowa pode ser apreciada na mesma sala que abriga uma exuberante e colorida cabocla da Umbanda. Anjos, Budas, Deuses egípcios, Yabás africanas, Ganesha, São Jorge, entre outros, fazem a festa de um Deus que ama a todos e que a todos abraça. Esse Deus é arquiteto de muitas artes. Nesse sentido, a exposição parece realizar um feito impossível (ou quase) no nosso mundo, que é o de reunir e fazer conviver, respeitadas em suas diferenças, culturas religiosas distintas. Não se trata de exigir que todas as religiões cultuem todos os santos ou deuses, mas de apontar para a necessidade do respeito à crença alheia, lançando-nos a sempre pertinente pergunta: “Como eu trato o meu irmão e a sua fé?”
A constituição garante a liberdade de culto, mas na prática assistimos ao apedrejamento de candomblecistas e umbandistas, à destruição de terreiros, ao desconhecimento que gera violência. É sempre bom conhecer antes de julgar, diz a máxima. Há alguns dias, foram colados em postes de uma cidade catarinense cartazes em que a imagem ameaçadora de um sujeito encapuzado da Ku Klux Klan era acompanhada das seguintes palavras: “Negro, comunista, antifa e macumbeiro, estamos de olho em você”. Algo está muito errado! Estamos de olho também em movimentos como este. Destruir, aniquilar, silenciar o que “não faz parte do meu mundo e da minha ideologia” não é fenômeno novo, mas parece ganhar nova força na contemporaneidade. A exposição de Salete Strobino reflete com presteza também sobre isso.
O evento, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de União da Vitória em parceria com a Associação de Artistas Plásticos do Vale do Iguaçu, ficará aberto para visitação até sábado (30) na Galeria de Arte Erich Herbert Will, na Estação.

Caio Ricardo Bona Moreira

publicado originalmente no dia 30 de setembro de 2017 
no jornal O Caiçara, de União da Vitória

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