sexta-feira, 14 de junho de 2019

Coisas da Argentina



Dentre as literaturas latino-americanas, aprecio consideravelmente a da Argentina, em especial aquela produzida pelos contemporâneos. Para além de Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar - autores que dispensam comentários -, gosto muito de Alan Pauls e Cesar Aira (já escrevi sobre eles neste Caiçara). São escritores muito diferentes, no entanto bastante comprometidos com uma linguagem sofisticada e enredos bem elaborados, bem como fieis a um projeto literário muito criativo e singular. Gosto também de Martin Kohan, mas não tanto. Seus temas são bons, porém suas narrativas e o trato com a linguagem (pelo menos dos livros que li) em geral ficam devendo. Gosto é gosto, não se discute. Encantam-me as obras de Leónidas Lamborghini, de seu irmão Osvaldo Lamborghini e de Rodolfo Fogwill, autores ainda pouco conhecidos no Brasil. Aprecio o neobarroco Néstor Perlongher, que chegou a morar no nosso país durante alguns anos. Tenho lido com muito interesse os livros de Daniel Link, escritor que tive o prazer de conhecer e reencontrar em alguns eventos literários no Brasil e na Argentina. Recentemente, descobri a poesia de Ricardo Daniel Piña, poeta que tive também o prazer de conhecer de uma maneira bem inusitada. Vou contar.
Certa vez, passeando pela Calle Corrientes, no centro de Buenos Aires, parei para observar jornais em um dos tradicionais “kioscos”, aquelas bancas de revista que estão situadas no meio das calçadas em qualquer grande cidade. Em muitos “kioscos” de Buenos Aires, podem ser encontrados exemplares das famosas cartoneras, livros confeccionados de forma artesanal e com baixo custo por uma editora chamada Eloísa Cartonera. Os livros possuem capa de papelão e este é comprado de uma cooperativa de catadores (cartoneros), daí o nome da publicação. Curiosamente, a aparente simplicidade da cartonera contrasta com a qualidade dos autores editados por ela. A Eloísa seleciona muito bem os livros que edita, geralmente escritos por grandes nomes da literatura argentina (alguns brasileiros já foram editados por ela). Há um outro elemento curioso na confecção das cartoneras: a reprodutibilidade mecânica dos textos (geralmente fotocopiados), de forma bastante comum, contrasta com o caráter irreprodutível das capas, pintadas uma a uma de forma artesanal e diferentes umas das outras, o que lhe dá um caráter verdadeiramente artístico. Cada exemplar é único e irrepetível. O fenômeno das cartoneras nasceu com a Eloísa num período de grave crise econômica da Argentina, e se espalhou por toda a América Latina. No Brasil, já existem muitas dessas editoras: a Dulcinéia Catadora, em São Paulo, a Katarina Cartonera, em Florianópolis, a Severina Catadora, em Pernambuco, só para citar algumas. Em 2013, aqui em União da Vitória, tive o prazer de criar, com acadêmicos do curso de Letras da UNESPAR, a Therezinha Cartonera, cujo nome é inspirado na querida amiga e poeta local, Therezinha Thiel Moreira. De lá para cá, pudemos lançar algumas edições inéditas sempre promovendo a obra de autores locais. Os livros eram distribuídos gratuitamente na cidade, em uma tentativa de promoção do ato de ler. Quem sabe no futuro possam nascer outras edições. Mas voltemos ao “kiosco” e a Ricardo Daniel Piña.



Depois de escolher algumas cartoneras (cada uma custando um valor quase irrisório) em um “kiosco” da Calle Corrientes - esquina com a Paraná -, dirigi-me ao dono da banca para pagar. Qual a minha surpresa ao descobrir que o proprietário do “kiosco” era poeta e, ainda mais, um dos autores editados pela Eloísa Cartonera. Um dos livros artesanais que eu escolhera, “La Bicicleta”, tinha sido escrito justamente por ele. Demos boas risadas e Piña ainda autografou o livro para mim. Ele me falou de sua amizade com poetas brasileiros, alguns dos quais sou fiel leitor. Perguntou-me de Douglas Diegues, Joselly Vianna Baptista e Haroldo de Campos. Saí da banca imaginando qual seria a chance de encontrar no caixa de uma livraria ou de uma banca de jornais e revistas o autor do livro comprado. Coisas da Argentina. Se o leitor passar pela esquina da Corrientes com Paraná, em Buenos Aires, leve a Ricardo o meu abraço.




Ricardo Daniel Piña

Outro fato que me chamou a atenção em Buenos Aires foi a quantidade de livrarias na cidade, bem como o interesse que os livreiros têm de falar sobre os livros que vendem com um conhecimento particular de quem lê. Aí concluí que não se pode vender um livro como se vende um sapato ou um guarda-chuva. É preciso amar minimamente aquilo que se vende. O que se ama se vende melhor, o que se ama se dá para além do vender. Vislumbrei com alegria muitas pessoas na rua com livros na mão e fiquei surpreso ao ouvir, no congresso de literatura, vários jovens pesquisadores falarem com entusiasmo e propriedade sobre a obra de Clarice Lispector. Aí fiquei preocupado pensando se Clarice não estaria hoje sendo mais lida por jovens argentinos do que brasileiros. Tomara que não. Tudo bem que uma escritura como a de Clarice seja pós-nacionalista, para muito além da pátria - Clarice é cósmica -, mas seria um desperdício perder para “los hermanos” neste campo tão poético quanto o futebol.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 08 de junho de 2019

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