sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Quadro para Moa do Catendê




A pena é a única arma que tenho
Eis meu lema, eis minha questão...
E se ela fere é porque ferida ensina
que bala, faca ou palavra ruim
Não serve pra combater nosso irmão

Que a mãe África nos perdoe tanto desatino
A manchar com sangue eleitoral
O nome e o corpo santo de seu menino

Na dor somos todos um pouco
Moa do Catendê
E com ele morremos um pouco também
No entanto, lutamos ainda, porém

Que este obituário seja bem mais
Que mero registro necrológico
Posto que como dizia o poeta:
“Toda morte é equívoco”

(É equívoco também
toda briga partidária
quando esta fere um irmão,
ainda mais quando o irmão
só deseja votar em quem deseja,
ou só deseja ainda poder desejar)
Uma vida vale mais do que um voto,
esse pedaço tão sagrado da vida,
que é a carne que chamamos de corpo
um pedaço tão nosso quando do santo
(Mas quão caro vale agora um voto, meu povo)

Moa do Catendê,
Senhor do Afoxé Badauê,
Discípulo de Mestre Bobó,
Na linha direta de Mestre Pastinha,
Ogã de Santo,
Capoeirista,
Compositor,
Bailarino,
Artesão,
Educador.
Foi assassinado por um sujeito
que não concordou com seu voto.
Votar em quem quis,
No dia 07 de outubro,
Foi um direito que lhe tirou a vida.
Agô, meu pai, Agô,
Opanixé ô Kaô,
Agô, por tanto horror.

Como clamou um poeta baiano
Com a atualidade de tempos atrás:
“Senhor Deus dos desgraçados,
Dizei-me, vós, senhor Deus!
Se é loucura ou se é verdade
Tanto horror perante os céus!”
É o mesmo poeta que continua
A dizer em solo baiano
Terra por onde escorreu o sangue de Catendê:
“Ó mar porque não apagas
Co´a esponja de tuas vagas
De teu mando este borrão?
Astros! Homens! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!”

Está em luto todo o ilê
Está em luta todo o ilê!
No axexê de Mestre Catendê
Velam por ele Zumbi,
“Comandante guerreiro,
Ogunhê, ferreiro-mor capitão!”
Velam por ele também seus orixás,
Quanto mais há de vir,
Facada ou tiro de bala

(Ou atropelamento, espancamento,
Ameaça, suástica gravada à canivete,
Entre tanto mais)
Quanto mais?
Quanto mais?


sábado, 6 de outubro de 2018

Bernardo Carvalho e o horror da guerra e do amor





A violência é o eixo em torno do qual giram as duas grandes questões abordadas por Bernardo Carvalho em seu mais novo romance. Tanto a relação amorosa entre dois homens (ou três, já que estamos diante de um triângulo amoroso), quanto conflitos envolvendo o terrorismo contemporâneo estão atravessados pela perversidade em “Simpatia pelo Demônio”, lançado pela Companhia das Letras, em 2016.
Considero Bernardo Carvalho um dos escritores mais importantes de sua geração. Particularmente, um dos cinco prosadores brasileiros da atualidade que mais têm chamado a minha atenção nos últimos anos. Entre um curioso livro de contos intitulado “Aberração” (1993) e os mais recentes “O Filho da Mãe” (2009) e “Reprodução” (2013), o autor produziu uma série de romances que o consolidaram entre os melhores da literatura brasileira contemporânea. Refiro-me a pérolas como “Nove Noites” (2002) e “Mongólia” (2003) - fundamentais para quem deseja conhecer sua obra -, bem como outros títulos: “Onze” (1995), “Os Bêbados e os Sonâmbulos” (1996), “Teatro” (1998), “As iniciais” (1999) “Medo de Sade” (2000) e “O sol se põe em São Paulo” (2007) ("Onze", "As iniciais" e "O sol se põe em São Paulo" ainda não tive a oportunidade de ler, estão na fila). Bernardo Carvalho é também jornalista da Folha de São Paulo, onde escreve sobre arte em geral. Parte de sua produção jornalística está reunida no livro “O mundo fora dos eixos” (2005), composto por crônicas, resenhas e demais ficções.  


 “Simpatia pelo Demônio” possui um enredo complexo e cheio de nuances, como é comum na obra do autor. O livro apresenta a história de Rato, funcionário de uma agência humanitária nos Estados Unidos, que é convocado para viajar até uma zona de guerra para entregar o resgate para um grupo terrorista com a finalidade de libertar um refém. A primeira parte da trama é escrita com o ritmo tenso e veloz que faz lembrar os filmes de guerra passados em alguma zona do oriente como a Síria ou o Iraque. No hotel em que se hospedara, Rato vivencia um ataque terrorista que fará contraponto a um outro tipo de violência, refiro-me à perversidade de uma relação amorosa que será o foco do romance. O protagonista, que escrevera uma tese sobre a violência em zonas de conflito, acaba sofrendo bem mais com as adversidades do amor. Vivendo uma crise no relacionamento com a esposa, Rato se apaixona por um neurocientista mexicano, o Chihuahua, também chamado no livro de raposinha. Esta personagem, profundamente narcisista, seduzirá o protagonista e com ele viverá um caso doentio que, aos poucos, revelará ao protagonista a perversidade que pode morar no amor, com seus jogos cruéis e repletos de mentiras. Chihuahua vive com um ator, chamado no romance de Palhaço, uma personagem que contribuirá para fazer do livro o palco de uma zona de conflito não apenas social, mas também amoroso.
Após a leitura do livro, uma espécie de parábola sem moral (os personagens com nomes de bichos sinalizam para essa perspectiva), fica clara a proposta de Bernardo Carvalho que é a de, em tempos de guerra, relacionar a violência social - centrada na questão do terrorismo contemporâneo - a uma violência muito mais sutil, mas não menos agressiva que é a violência do amor. Tal violência não está ligada apenas à agressão física – que por sinal aparece nas últimas páginas do livro, constituindo-se, também como um ato de barbárie -, mas principalmente à relação cruel entre o desejo e a perversão que – inspirada, por exemplo, no pensamento de Georges Bataille, aprofunda uma reflexão sobre a dimensão monstruosa do amor. Uma questão que poderia ser traduzida pela seguinte pergunta: O que fazer depois da catástrofe de um amor que nos destrói?

São Cristóvão Carregando o Menino Jesus, Hieronymus Bosch, 1490, óleo sobre tela, 113 x 72 cm. Museum Boijmans van Beuningen.
A capa do livro é um detalhe do quadro. Em um dos capítulos do livro o narrador analisa o quadro relacionando-o com o enredo do livro

Rato vive um paradoxo no livro, pois ao chegar aos cinquenta anos, com a falência de seu casamento, descobre que o novo amor lhe dá vida à medida que lhe tira o equilíbrio, a ordem, a razão. A personagem precisa do amor de Chihuahua para continuar viva, mas é esse mesmo amor que, com seus jogos mortais, lhe destrói o ego e o coração. Aliás, o autor, em uma entrevista, observou que a personagem Chihuahua tem para ele muito a ver com o mundo de hoje, com o jeito como nos relacionamos com o próximo. Ou seja, com a incapacidade de nos relacionarmos com o outro. Chihuahua alimenta o ego de Rato para logo depois diminui-lo, numa espécie de jogo animal no qual o rato é brinquedo de uma raposa. Segundo Bernardo Carvalho, o Chihuahua tem uma relação narcisista com o mundo, uma relação na qual o outro não existe de fato. Brotam daí todas as manipulações possível que podem alimentar uma relação doentia.
Assim como o livro de Bernardo Carvalho aborda as desrazões do amor, como palco de uma espécie de conflito bélico, acaba fazendo também o inverso ao abordar as desrazões da guerra, como palco de uma fé ou de um amor completamente irracional. O autor permanece, assim, profundamente contemporâneo. Como em outros livros seus, as identidades são postas em suspensão, e as estabilidades caem por terra, em um jogo no qual os narradores ou sujeitos da narrativa não são senhores de si, sendo apresentados com seres desterritorializados ou títeres de um teatro criado por eles mesmos.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 06 de outubro de 2018.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Vinícius de Moraes e a Rosa Desfolhada

Reza a lenda que, certa vez, estando Vinícius de Moraes, Gessy Gesse (sua esposa de então), e Toquinho, em Roma, na casa de Sérgio Bardotti, nasceu a canção "Rosa Desfolhada". Em certo momento, Gessy entrou na sala onde estavam Vinícius e seus amigos a conversarem e começou a imitar uma dança espanhola, com direito a castanholas. Toquinho empunhou o violão e improvisou uns acordes. E Vinícius já foi inventando o primeiro verso: "tento compor / o nosso amor (...)".

Catarina
Olhos de candura
Flor de formosura
Nuvem de neném
Pele de pelúcia
Linda que me lua
E sol e céu e mar também
c.moreira

Brasil

Meu Brasil é o Brasil de Leci Brandão, de José Datrino, vulgo Gentileza, de A.B. do Rosário, de Pixinguinha e Noel, Milton Santos, tia Ciata. Meu Brasil é o Brasil dos pobres e miseráveis, de Santa Cruz do Piauí, onde conheci o forró e a cajuína, do pinhão do Paraná, de Riobaldo e Diadorim. Meu Brasil é o Brasil de Pedro Archanjo, do fandango, do pandeiro, da embolada, do catimbó, saravá! Dos novos baianos e dos velhos marinheiros. Meu Brasil é das mandingas e encruzas, Saci e padre Ciço, Sururu ou Vatapá, dos encantados, de Jamelão ou Carcará. Na minha reza de amém-jesus-maria-e-josé, contra quebrantos e inveja, sou mangueira e portela, menino da porteira, a Deus dará... não me venham, generais, com a história de indolência negra ou indígena, que, como Vinícius, sou o branco mais preto dessas cercanias... quem é homem de bem não trai o amor que lhe quer!

sábado, 22 de setembro de 2018

Contradições de uma democracia nova, ou Bloco de notas para uma política que vem






(Em 1967, o cineasta Joaquim Pedro de Andrade realizou o filme “Contradições de uma Cidade Nova”, para atender a uma encomenda da Olivetti. O documentário começa com uma apresentação da bela cidade de Brasília, com suas superquadras e edificações suntuosas e modernistas, para logo depois retratar as contradições desse progresso projetado, enfocando operários e imigrantes vivendo na periferia da Capital Nacional em condições de grande penúria. O filme foi rejeitado pela empresa para não constranger o governo militar. Salvou-se uma cópia da obra e, assim, ela sobreviveu. Dessa película, inspiro-me para o título do texto: “Contradições de uma democracia nova”).
Em tempos sombrios do presente, cabe-nos perguntar se a democracia é um bem que ainda estamos lutando para conquistar ou se é uma conquista que corremos o risco de perder antes mesmo de sua solidificação. Em lembranças remotas da minha infância, vejo-me deitado no chão da sala assistindo às exéquias do senhor Tancredo Neves. Pela TV, a multidão, com lágrimas fúnebres, parecia dividida entre o entusiasmo da redemocratização e o luto pela perda de um de seus baluartes. A democracia renascia a partir do luto e da luta, do sentimento de perda e da esperança de novos tempos, tempos de Henfil, Ulysses Guimarães, Fafá de Belém, pomba branca e tantos mais. Tempos das Diretas Já. Hoje, depois de apenas 30 anos de redemocratização, surpreende-me a quantidade de cidadãos defendendo um Estado de Exceção, aquela realidade obscura que só no século XX gerou no Brasil duas grandes ditaduras, a de Getúlio Vargas e a Militar de 64. Estamos vivendo em um estado de excepcionalidades que, além de enfraquecer a democracia, estimula uma desorientação coletiva que, por sua vez, desencadeia uma despolitização assustadora. Condena-se nas mídias antes de se condenar no tribunal, usa-se da liberdade democrática do direito de livre expressão para condenar o direito de expressão do outro. Agride-se dentro e fora da Rede Social. Legitima-se a violência com mais violência. Fecham-se os olhos para os índios, como se fossem eles os invasores da terra. Diminui-se toda e qualquer minoria. Elogia-se a falta de cultura como instrumento para uma boa governabilidade. Olvida-se dos Direitos Humanos. Diminui-se a figura da mulher e exalta-se a guerra, como fez Marinetti no “Manifesto Futurista” (fascista por excelência), em 1909: “Nós queremos glorificar a guerra – única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutor das anarquias, as belas ideias que matam, e o menosprezo à mulher”. Que atual!





Em um texto destinado a pensar a política, o filósofo italiano Giorgio Agamben observa que o termo “democracia” é falseado por uma ambiguidade que condena ao mal-entendido os que o empregam. O autor pergunta sobre o que falamos quando falamos de democracia? De uma forma de constituição do corpo político ou de uma técnica de governo? O termo, segundo ele, remete tanto à conceitualidade do direito público quanto à prática administrativa. Para Agamben, no discurso político contemporâneo, o termo se refere quase sempre a uma técnica de governo. As raízes dessa dualidade jurídico-política e econômico-administrativa se encontram na própria história de nossa cultura ocidental. O filósofo pergunta ainda se não seria essa ambiguidade uma ficção, “destinada a dissimular o fato de que o centro de uma máquina é vazio, de que não há, entre os dois elementos e as duas racionalidades, nenhuma articulação possível, e de que é dessa desarticulação, justamente, que se trata de fazer emergir esse ingovernável, que é ao mesmo tempo a fonte e o ponto de fuga de toda política”. Agamben encerra o texto dizendo que enquanto o pensamento não resolver esse nó, “qualquer discussão a respeito de democracia – como forma de constituição e como técnica de governo – corre o risco de cair no palavrório”. Uma não pode existir sem a outra, assim como qualquer ideia de liberdade e conquistas (para não falar em progresso, essa palavra tão famigerada) só pode existir de fato dentro de um Estado de Direito, de uma Democracia, e não em um Estado de Exceção, este que vem sendo elogiado, sem qualquer constrangimento, por alguns candidatos.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 22 de setembro de 2018.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A arquitetura literária de Gonçalo M. Tavares: por uma poética do movimento




Poderíamos pensar a obra de Gonçalo M. Tavares como uma espécie de estrutura desmontável que convida o leitor, em cada lance de leitura, a armar novas disposições do olhar, imaginando múltiplas possibilidades de sentido para seus textos, como um puzzle imaginário que outra vez montado oferece àquele que o mira um novo desenho. Diante desse quebra-cabeça, o leitor poderá facilmente concluir que sua literatura se constrói a partir de uma arquitetura do movimento. Essa obra pensada como projeto para uma poética do movimento aparece com força na publicação “Breves Notas”, lançada em 2010 pela Editora da UFSC e pela Editora da Casa. Trata-se de uma bela caixa composta por três livros: “Breves Notas Sobre Ciência”, “Breves Notas Sobre o Medo”, e “Breves Notas Sobre as Ligações”.


A ideia do escritor angolano-português Gonçalo M. Tavares nessas “Breves Notas”, segundo Júlia Studart, é tomar a literatura como um “corpo que dança livre”, ou seja, como um “corpo-bailarino, aquilo que sai do comum para provocar desequilíbrio”. Trata-se, como o título sugere, de breves notas que vão se acumulando pelos livros e cujo conjunto vai desenhando, na sua vocação para a poesia e para o ensaio, uma espécie de enciclopédia poética e filosófica. Aliás, a ideia de enciclopédia parece percorrer a obra do autor, cujo procedimento, quase sempre, é o de agrupar suas publicações em séries oriundas dos diálogos entre seus livros. É o caso não só da coleção “Breves Notas”, mas também de outras séries como a de “O Bairro”, esta composta por aproximadamente dez obras, cada uma interessada em dialogar com um autor específico, como Eliot, Brecht, Calvino, entre outros. 


A coleção das “Breves Notas” faz lembrar do “Livro do desassossego”, de Fernando Pessoa, publicado com o seu semi-heterônimo Bernardo Soares. Ambas as obras parecem ter brotado do devaneio e de um filosofar inquieto capaz de traduzir a experiência da vida moderna em um trabalho intelectual que se apropria do ensaio como forma literária e da montagem como procedimento. 
Gonçalo M. Tavares abre suas “Breves Notas sobre a Ciência” com o seguinte fragmento: “Claro que o Perigo é a origem dos métodos científicos mais eficazes. Se o Homem fosse imortal ainda não teria inventado a roda (poderias dizer)”. Em outro momento ele escreve: “Debruçai-vos sobre o futuro: no limite só os pés permanecem sobre o solo, a cabeça foge para a frente. Investigar sem desequilíbrio é avançar em cima de lama: alguém se afunda”. O elogio do perigo e do desequilíbrio revela uma assimilação da liberdade que pode ser encontrada, por exemplo, na filosofia de Nietzsche, traduzida pelo desejo de um espírito livre que dança na corda bamba à beira do abismo.


Para Gonçalo M. Tavares, escrever parece ser uma atividade que exige uma coragem do pensamento em burlar paradigmas, pensando, tal qual Walter Benjamin, no método como desvio: “Método como aquilo que se faz depois de se ter tropeçado; ou: o movimento não planeado, espontâneo; para não cair depois de um desequilíbrio. (...) O escritor está a fazer o que ainda não foi feito. O leitor pode pousar o livro, a frase não foge; o escritor odeia o acto de pousar, porque pousar é não fazer, e não fazer o que ainda não foi feito é um erro. Não fazer é o maior pecado”. É talvez por isso que em outra nota ele observa que nada é tão perigoso como “teres cumprido todos os teus afazeres do dia e ainda ser manhã, teres cumprido todos os teus deveres na vida e ainda não estares morto”. Nesse sentido, o olhar do autor, voltado para uma poética do movimento, não para no ponto de chegada, pelo contrário, se delicia com o passeio, com o caminho, como todo bom ensaísta faz. No fragmento em que anota sobre seu aniversário de trinta e cinco anos, o autor conclui que depois da infância, ao invés de esgotar seus desejos caçando todos os gêneros de felicidade – o que inevitavelmente deixará uma grande sensação de vazio -, prefere permanecer perdido na floresta. É uma forma de não esgotar seu desejo, afinal de contas, é sempre o desejo que nos move para a vida. A permanente existência dele prova que continuamos vivos.


Em sua teoria poética sobre a ciência, Gonçalo Tavares parece apontar para o fato de que onde a ciência falha a poesia encanta, ou mesmo para a ideia de que a ciência é o nome de uma daquelas ficções que inventamos para tornar a nossa vida mais feliz. Nesse jogo, o olhar distraído, ou seja poético, é o olhar que capta o mais importante: “Só quem não se encontra apaixonado por A pode ver que, ao lado de A, se encontra B. E B pode ser mais belo, mais verdadeiro; pode fazer-te mais feliz”. Nesse sentido, a poesia é entendida como uma forma de ciência, ou melhor, de uma ciência individual. E pensar pode ser uma forma de felicidade: “Só quem é alegre arrisca. A tristeza é anticientífica”. Poderíamos arriscar dizer que, em suas Notas, Tavares traça uma ciência poética ou mesmo uma poesia científica, embaralhando os sentidos tradicionais dessa mistura.


Se pensamos no conjunto das Notas como uma espécie de enciclopédia é também porque sua leitura ideal se dará apenas na releitura, ou melhor, na consulta permanente de seus verbetes. No folhear de suas páginas poderemos nos deparar com uma pérola como esta: “As coisas estão repletas de nossos sentimentos. Olhar para uma coisa é tirar desta as sensações que nos pertencem e que ela havia guardado (raptado?) durante anos ou minutos. Olhar para as coisas é recuperar nelas o que era nosso”.

Publicado originalmente em 01 de setembro de 2018, no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR).

domingo, 9 de setembro de 2018

Poema em chamas para o Museu Nacional



Uma reforma no museu não recuperará o afresco de Pompéia, 
O trono de Adandozan, rei do Daomé, ou seu par de sandálias talhado em madeira, 
Nunca mais os cachimbos, conchas, corais, besouros, borboletas, bengalas, múmias 
ancestrais, artefatos etruscos, objetos em desuso que nem sonhava Cabral, 
todos os cacos de um mundo que ainda existia e que agora, contudo, são memórias de um
Brasil do futuro que vai ficando cada vez mais para trás, 
A cabeça de Luzia, outra vez extinta (agora e para sempre), 
o megatério ou preguiça, gigante a encantar as crianças nessa casa imperial, o esquife de
Sha-amun-en-su, e outros sarcófagos há milhares luzindo ouro e seus egitos faraônicos, 
ou o meteorito, todos os tipos de esqueletos, libélulas fossilizadas, cujo voo se misturou às
labaredas da Quinta da Boa Vista, 
variados fragmentos de um mundo de outrora, coisas de dona Teresa Cristina ou de dona
Leopoldina, plumária dos povos indígenas, pedaços de outros impérios, ecos incas ou
tikunas, seus milagres de pervivência, sua teimosia em restar, 
são milênios misturados em cinzas, sábio signo agora incinerado e destinado tragicamente
a se apagar. 
Por quanto tempo a natureza guardou o Maxakalisaurus topai?
O presidente dinossáurico em jornal declarou: "Foram perdidos duzentos anos de trabalho,
pesquisa e conhecimento". Digo: perdidos foram milênios. Eras foram queimadas. Uma
reforma no museu nada disso salvará. Uma reforma no país o Brasil salvará? 
Onde a verba para pesquisa? Onde o pataco do patrimônio, onde a cota da CAPES, onde a
água pra tanto fogo apagar? 
Trágico esse sinistro final! quantos milênios serão necessários para reconstruir o Museu
Nacional?
c.moreira

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O romance-música de Verginia Grando: apontamentos sobre “Se nada mais der certo eu não tenho plano B”




O livro “Se nada mais der certo eu não tenho plano B” (Arte & Letra, 2016) marca a estreia literária da escritora curitibana Verginia Grando, que já possui experiência no cinema e na publicidade. Em literatura, nem sempre as estreias são bem sucedidas, pois geralmente o “primeiro filho” é criado com os erros que decorrem da inexperiência daqueles que o geraram. Não é o caso da autora, pois sua obra primogênita já sugere uma maturidade peculiar daqueles que desde o começo demonstram que estão no caminho certo. O fato não é comum, mas acontece. Talvez essa maturidade venha de sua experiência na produção de roteiros publicitários e cinematográficos.
O romance narra uma semana na vida da escritora G., desde que ela recebe o telefonema de uma editora até o dia da reunião que definiria a publicação ou não de seu livro. Encantam-me essas obras cujos personagens são artistas em busca da própria obra. É o que vemos, por exemplo, em “A louca da casa”, da escritora espanhola Rosa Montero, ou no filme “Oito e Meio”, do italiano Federico Fellini. A protagonista do romance de Verginia Grando tem apenas trinta e cinco anos, mas uma profundidade psicológica impressionante e a impressão que se tem dela, ao lermos o livro, é que estamos mesmo diante de uma pessoa, o que não acontece com todos os personagens que nos são apresentados por contos, novelas ou romances. Ao longo da obra, paralelamente à questão do livro escrito por G. - sobre o qual a única coisa que sabemos é que ela o enviara a uma editora -, muitos fatos vão sendo intercalados: o término mal resolvido de um relacionamento; reencontros com pessoas que passaram pela vida de G. – como casos amorosos que vão reacendendo antigas paixões -; a revisão de questões familiares, como a relação difícil com a mãe e com a irmã; o interesse e o mergulho na própria autodescoberta e transformação da personagem; as incertezas em relação ao futuro da escritora etc.


“Se nada mais der certo eu não tenho plano B” possui uma bela trilha sonora - apontada nos episódios da trama - que vai de um disco clássico de Elton John até um álbum de Nick Cave and the Bad Seeds, passando por Chet Baker e Clube da Esquina. O que faz do romance uma espécie de obra musical, não apenas pelas músicas citadas em meio às cenas, mas também por uma musicalidade inerente ao ritmo na própria narrativa. Tudo isso pontuado por uma série de pequenos e belos detalhes que marcam a observação minuciosa da escritora-protagonista. Refiro-me, por exemplo, ao encontro de G. com uma cadeirante no ônibus. Nesta cena, o olhar trocado entre duas personagens estabelece uma ponte entre dois seres humanos, mostrando a vocação para a comunhão que há em nós. Outros detalhes: uma joaninha prestes a morrer queimada em uma lamparina até ser salva pela jovem, as gotas de chuva escorrendo na janela de um restaurante, uma garça que passa voando baixo “rente ao vidro que ainda está salpicado de gotas de chuva” etc. Penso, como Roland Barthes, que um romance se faz sempre a partir de um conjunto de fragmentos, atos mínimos da enunciação, que vão preenchendo as páginas e alimentando a história que se conta. Trata-se, como sugeriu George Simmel, de “ver no individual o universal”. Há no livro de Verginia Grando uma dimensão profundamente poética na disposição de seu olhar, traduzida na sensibilidade de G., sua protagonista, aberta para esses pequenos detalhes.
Sobre a quantidade de reflexões filosóficas que povoam o livro, bem como as frases poéticas que brotam da boca de seus personagens, isso não prejudica o andamento de sua narrativa. Pelo contrário, amplificam a dimensão poética e reflexiva da obra. Uma frase como: “- Eu estava desenhando teus detalhes dentro de mim e desejando que o teu ar nunca acabe”, proferida por um dos personagens, poderia ser equivocadamente interpretada como inverossímil, exagerada, pretensiosa. No entanto, não esqueçamos que a literatura goza de licenças poéticas. Caso contrário, um romance como “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, não poderia conter os diálogos que apresenta. E no entanto, são justamente eles que fazem a beleza da composição de seus personagens.  


Logo no início da obra, deparamo-nos com as lembranças de infância evocadas por G., na descrição de uma atividade das aulas de inglês. Trata-se daquele exercício escolar em que as pessoas devem completar as lacunas usando palavras que definam o sujeito: “I am..., My name is... I like...”. Essa reminiscência serve para a protagonista pensar na sua relação com a própria literatura, entendida como um exercício no qual cabe ao escritor preencher com palavras o vazio da página: “Ainda hoje ela não conseguia colocar palavras no lugar daqueles espaços vazios”. A frase sugere não apenas a dificuldade de encarar o fantasma da escrita literária, mas também e principalmente a dificuldade de manifestar no texto sua intimidade, pois independentemente do fenômeno literário se caracterizar como uma arquitetura textual, a matéria-prima que lhe dá base e sustentação será sempre o sentimento, a sensibilidade, a pulsão, as paixões, elementos que fazem parte daquele lado misterioso que nunca conseguimos domar completamente sem que corramos o risco de nos transformarmos naquilo que não somos. Isso porque no fundo no fundo da vida, para além dos erros e acertos, quase nunca temos um plano B.      

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 18 de agosto de 2018.

sábado, 4 de agosto de 2018

Entre a palavra e a fotografia: Conversando na Sicília com Elio Vittorini




Diante do livro “Conversa na Sicília”, de Elio Vittorini, talvez fosse mais pertinente perguntarmos como a obra foi montada e não como ela foi escrita. Naturalmente, um romance se faz com palavras, mas nesse caso o conjunto de fotografias que o acompanham contribuem significativamente para fazer dele o que ele é. Isso porque é somente no momento em que as imagens são dispostas na mesa de montagem, em diálogo permanente com o texto, que o romance alcança sua potência poética e política.
Elio Vittorini, que viveu entre 1908 e 1966, escreveu boa parte de sua obra no pós-guerra e, como um bom militante antifascista, fez da literatura um instrumento de denúncia e reflexão social. Isso sem perder a qualidade estética que fez dele um renovador do romance italiano no contexto do neo-realismo.

Elio Vittorini

Lançado inicialmente em capítulos, no final dos anos 30, na revista “Letteratura”, e depois na íntegra em livro, em 1941, “Conversa na Sicília” ganhou a versão ilustrada apenas em 1953, organizada pelo autor com fotos de Luigi Crocenzi e Giacomo Pozzi Bellini. A versão brasileira, publicada pela Cosac Naify (2002), foi traduzida por Valêncio Xavier e Maria Helena Arrigucci. Aliás, Valêncio, em uma entrevista concedida a Joca Reiners Terron, ao avaliar sua obra, lembrou do fascínio nele exercido pelo romance de Vittorini, cujas fotografias lhe ensinaram o papel que a imagem tem que ter no texto: “ser ao mesmo tempo uma coisa alheia, mas inteirada”. Creio que a expressão “alheia, mas inteirada” esteja ligada ao fato da fotografia estar e não estar relacionada ao enredo do livro, ou seja, não é apenas ilustrativa, mas se lança em permanente diálogo – inclusive enigmático – com a obra escrita. Só encontrei essa experiência, além de Elio Vittorini e Valêncio Xavier, em livros do alemão W.G. Sebald, como “Os emigrantes” ou “Austerlitz” e do italiano Umberto Eco, como “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”. A única maneira do leitor compreender essa dimensão “alheia, mas inteirada” das imagens na obra de Elio Vittorini é lendo seu livro.

Luigi Crocenzi

 O romance narra a história de um italiano que, depois de receber uma carta de seu pai, volta para sua cidade de origem para visitar a mãe. Para isso empreende uma viagem que lhe permite captar cenas cotidianas de um povo humilde e oprimido pela vida. O narrador, durante a viagem, ouve histórias de pessoas comuns. Quando chega na vila montanhosa de sua infância, no sul da Itália, é levado por sua mãe solitária a um passeio pela comunidade. Nós, leitores, entramos com eles nas casas de proletários que povoam o livro com suas histórias aparentemente banais. Mas por trás da aparente banalidade o livro vai construindo uma poesia muito singular e típica do neo-realismo italiano, uma poesia que podemos encontrar, por exemplo, no cinema de Roberto Rosselini, Victorio de Sicca e Luchino Visconti.    



O livro possui uma linguagem precisa, seca e agreste – como sugeriu Bernardo Carvalho – o que faz lembrar de um escritor como Graciliano Ramos que, na mesma época estava escrevendo “Vidas Secas”, no Brasil. Aliás, observe-se que Vittorini publica os primeiros capítulos do livro justamente em 1938, ano em que Graciliano lança seu clássico romance. Bernardo Carvalho, em uma crítica, observa que em “Conversa na Sicília” estamos diante não do retrato sociológico de uma realidade, mas da ideia de que “a riqueza desta realidade para a literatura depende da subjetividade do olhar lançado sobre ela”. O narrador, à medida que passeia por sua vila de origem, revisita principalmente a sua infância, em um tempo redescoberto.  



O procedimento de montagem do livro, no jogo de uma relação dialética entre texto e imagem, entre palavras e fotografias - que é um jogo cinematográfico por excelência -, certamente mereceria uma análise mais ampla. Cito apenas alguns exemplos aqui. Em uma passagem, depois de assistir a sua mãe aplicar injeções em algumas mulheres, o narrador reflete sobre o corpo feminino e a descoberta da sexualidade, na infância. O texto é acompanhado da fotografia de uma de Vênus de Giorgione (da pinacoteca de Dresden), da imagem de uma mulher desconhecida, e de um postal no qual se vê a escultura de uma mulher nua. Em meio à narrativa do livro, vão aparecendo fotos alheias, mas inteiradas, que vão construindo anacronicamente um inusitado diálogo com o que é contado: a foto de um menino da Sicília, do vulcão Etna visto do trem Messina-Catânia, de um homem nas montanhas Madonie, de um monumento, de uma mãe, de um doente, de uma vila, de crianças na cidade de Siracusa, etc.


Segundo o próprio autor, assim como o protagonista do livro não é autobiográfico, a Sicília da obra não é a Sicília: “somente porque o nome Sicília me soa melhor do que o nome Pércia ou Venezuela”. Naturalmente, a frase com sabor de ironia mostra a dimensão simultaneamente local e universal do livro. É sim uma obra sobre a Itália, em uma época bélica de pobreza e desesperança, mas é principalmente um livro sobre o triste e porque não dizer belo reencontro com a infância em uma época de não-esperança, questão permanentemente atual. As fotografias do livro mostram bem a marca de seu tempo gravada na aridez de seu cenário e no semblante seus personagens.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 04 de agosto de 2018

sábado, 21 de julho de 2018

Enrique Vila-Matas, explorador de abismos




Enrique Vila-Matas inicia “Exploradores do Abismo” (Cosac Naify, 2013) com uma reflexão que pode nos ajudar a compreender melhor não apenas o grande tema do livro, mas principalmente um projeto literário embutido na trajetória do escritor catalão que fez da literatura o grande assunto de sua obra: “Vou pensando que um livro nasce de uma insatisfação, nasce de um vazio, cujos perímetros vão se revelando no decorrer e no final do trabalho. Escrever, certamente, é preencher esse vazio”. A reflexão integra o texto “Café Cubista”, uma espécie de prefácio para a coletânea de contos, ou melhor, de relatos, ou mesmo tijolos, como sugeriu Daniel Pellizari, ao tratar de “Exploradores do Abismo”. Isso porque, segundo ele, os textos deste volume “compartilham personagens, ideias, linhas narrativas”. Todos eles, direta ou indiretamente, trazem à baila o vazio, o abismo, ou o desaparecimento que move os seres na vida cotidiana, bem como a atividade do escritor na seara da arte contemporânea.


A questão do desaparecimento do autor, bem como o mergulho no vazio ou abismo como essência da atividade literária, que aparecem com recorrência em Vila-Matas, encontram ressonância em outros autores que são evocados em seus livros, como Robert Walser (principalmente em “Doutor Pasavento”), Bob Dylan (em “Ar de Dylan”), James Joyce (em “Dublinesca”), Michel Foucault, Giorgio Agamben, Sergio Pitol, Franz Kafka, Maurice Blanchot, Fernando Pessoa, entre tantos outros - alguns às vezes inventados, como boa parte daqueles que figuram em “Bartleby e companhia” e “Mal de Montano”, duas de suas publicações mais interessantes. Todos eles poderiam ser considerados como exploradores do abismo. Aliás, no livro que leva este nome, os exploradores, segundo o escritor, são otimistas e suas histórias são, em geral, a de pessoas comuns que, ao se ver à beira de um precipício fatal, “adotam a postura do expedicionário e sondam o horizonte plausível, perguntando-se o que pode haver fora daqui, ou além de nossos limites”. São pessoas que “desdenham o tédio existencial tão em voga, parecendo gente antiquada e muito ativa, que mantém uma relação desinibida e direta com o vazio”. Aliás, como observei, é com o vazio que Vila-Matas preenche seu livro “Exploradores do Abismo”.
No conto “A modesta”, por exemplo, o narrador mergulha na procura vazia de uma passante que, à maneira daquela personagem do poema de Charles Baudelaire, lhe escapa e desaparece. Em “Os autistas são assim”, o protagonista tem amor por plateias vazias. Em outro conto, um sujeito escuta a conversa de um casal de vizinhos a falar sobre a matéria escura, esse mistério da astronomia cuja natureza ainda não é bem conhecida e que está centrada no vazio. Em “O dia assinalado”, uma jornalista recebe de uma cigana a previsão de sua morte, passando a viver a vida com o abismo da morte colado em seus passos. É comum, aliás, os seres humanos preencherem o vazio de suas vidas com o medo de outro vazio, o da morte. Em “Amei Bo”, um homem do futuro pousa em um outro planeta para assistir ao fim do mundo”. Em “Vazio do poder”, Vila-Matas aponta politicamente para a ideia de que todo estado é “pura aparência e ficção que responde a uma estrutura falsa, armada em torno de um centro abissalmente vazio”. No conto “Vida de poeta”, uma frase ouvida transforma a vida do narrador: “As obras de arte, escassas, dão conteúdo intelectual ao vazio”. A frase poderia figurar como epígrafe para os contos do livro, já que em todos eles, deparamo-nos com a vaziez da vida a ser preenchida com a própria literatura. Trata-se de um procedimento natural para um escritor que certa vez escreveu: “Tudo o que não for literatura não existe”. 


O relato mais interessante do livro se encontra no texto “Porque ela não pediu isso”, no qual o escritor catalão produz um jogo muito bem arquitetado que arma múltiplas perspectivas narrativas para refletir sobre a capacidade da literatura de criar artifícios e mundos. Nesse caso, trata-se de pensar no abismo e no vazio da própria literatura capaz de ser preenchida com imaginação e talento literário. O mote do texto é a vontade de transportar a literatura para a vida, fazendo da escrita um recurso para se preencher o “tenebroso buraco que chamamos de vida”. Só a leitura desse conto já vale a aquisição da obra.          


A tradução de “Exploradores do Abismo”, que ficou a cargo de Josely Vianna Baptista, foi uma das últimas publicações de Vila-Matas pela Cosac Naify (a última foi “Não há lugar para a lógica em Kassel”, em 2015), antes do desaparecimento da editora, no abismo econômico do mercado editorial contemporâneo. Agora os direitos da obra do autor estão com a Companhia das Letras, que está lançando nesta semana “Mac e seu Contratempo” que, como os livros anteriores, explora os limites entre o romance cômico, a autoficção, a crítica literária e o gênero ensaio. A obra que se publica agora dá continuidade ao projeto vila-matiano de fazer da literatura o grande tema e personagem de sua obra, lançando mão de uma série de citações e referências que direcionam suas histórias para uma reflexão sobre as condições de produção, de existência e de circulação da literatura na contemporaneidade, bem como sobre o lugar do escritor e do leitor nesse processo. Em outras palavras, com sua literatura, Vila-Matas está sempre perguntando: O que pode um escritor? O que estamos fazendo quando fazemos literatura? O que significa escrever hoje? Quais os limites entre a vida e a literatura? Como viver na vida o texto que escrevemos na arte? Como conviver com o vazio da vida na escrita?   

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 21 de julho de 2018.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cristovão Tezza e a tirania do amor



Cristovão Tezza, certamente, figura entre os melhores prosadores da literatura brasileira contemporânea. Tenho acompanhado com interesse seu trabalho desde há alguns anos quando o escritor ainda não era muito conhecido do grande público. Embarquei com ele nas aventuras teatrais com toques fantásticos que povoam seu romance “Ensaio da Paixão”, encantei-me com o poeta marginal “Trapo” e suas incursões literárias pela cidade de Curitiba, aventurei-me pelo universo da arte em seu “Breve espaço entre cor e sombra”, emocionei-me com o premiado “O filho eterno” - no qual Tezza ofereceu aos leitores uma comovente autoficção inspirada no seu contato por meio do filho com o universo da síndrome de down -, passeei pelos registros de “O fotógrafo”, conheci um pouco de sua jornada como escritor na autobiografia literária “O espírito da prosa”, li alguns de seus contos e crônicas, e na semana passada escrevi aqui sobre a publicação de suas conferências literárias, reunidas no livro “Literatura à Margem”, publicado em junho de 2018, no mesmo ano em que o escritor lançou seu novo romance, “A tirania do amor”. Ambos saindo do forno.


Tezza vinha nos últimos anos trabalhando com protagonistas oriundos do universo das letras ou do magistério. Tomem-se como exemplo personagens emblemáticos como a tradutora que dá nome a um de seus mais recentes livros, ou o professor Heliseu, sobre o qual o também professor aposentado Tezza se debruça em um romance publicado em 2014. Aliás, a figura do professor já havia aparecido em “O filho eterno”, e também em “Uma noite em Curitiba”.
Agora, no seu mais recente romance, “A tirania do amor”, o protagonista Otávio Espinhosa é um renomado economista que se relaciona com o mundo por meio de números. Ele é capaz de extrair raízes quadradas complexas em segundos e de solucionar cálculos variados sem qualquer esforço aparente. A todo momento, o protagonista opera suas contas, mas é incapaz de resolver problemas pessoais básicos que envolvem um casamento falido, a relação difícil com o filho revoltado, o abandono da vida acadêmica, bem como o emprego no escritório (prestes a ser incluído em uma operação investigativa pela denúncia de desvio de dinheiro). Some-se a isso uma relação difícil com seu passado, a saber uma convivência complexa com o pai e uma breve carreira como escritor de literatura de autoajuda, em uma obra cujo título sugestivo de “A matemática do amor” foi publicada com o pseudônimo Kelvin Oliva. Depois de descobrir que está sendo traído pela mulher, Otávio toma uma decisão radical: abdicar do sexo. Este é um dia difícil, porque é nele que o protagonista será também despedido do seu emprego.


A ruína profissional e a falência do amor são retratadas em meio às crises políticas do Brasil contemporâneo. À medida que Otávio Espinhosa vai mergulhando no caos afetivo e profissional, o leitor assiste no livro à decadência social e econômica do país. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Isso porque Tezza capta com absoluta eficiência os dramas políticos do presente, refletindo sobre os dilemas enfrentados por uma sociedade que vem a cada dia se sentindo deslocada e abandonada por seus dirigentes.
Em vários momentos da narrativa, Otávio Espinhosa alude à “Ética”, de Spinoza, produzindo conexões com a filosofia para tentar entender a sua vida. Aliás, o filósofo renascentista escreveu sobre a origem e natureza dos afetos, considerando o amor uma alegria acompanhada da ideia de sua causa. A escolha paronomástica do nome da personagem e do filósofo que o acompanha não é fortuita em um livro sobre o amor e sobre a matemática. À medida que o enredo avança, a personagem vai percebendo que sua lógica matemática e racionalista não dá conta de resolver os problemas de seu coração. A beleza do livro, nesse sentido, parece estar ligada a um processo de gradativa transformação da personagem. No entanto, o que mais chama a atenção em “A tirania do amor” é a qualidade na arte de narrar. Influenciado pela teoria da polifonia desenvolvida pelo teórico russo Bakhtin, sobre o qual o escritor/professor desenvolveu sua tese de doutorado, Tezza mescla com eficiência um realismo plástico com o fluxo da consciência das personagens, misturando vozes e discursos em um vai e vem de ideias capaz de tornar sua narrativa mais complexa, mas ao mesmo tempo mais rica, pela pluralidade de impressões e pontos de vista que, inevitavelmente, enriquecem a leitura de uma obra literária.


O tema do romance pode parecer um pouco banal – apesar de que escrever um bom livro sobre o amor parece continuar sendo o desejo de quase todos os grandes prosadores – no entanto, o que torna o romance agradável é a forma como a história é contada. No fim das contas, não importa de que trata o amor, importa o que fazemos com ele. E sua tirania, querendo ou não, nos empurra com força para a vida e, como uma boa ficção, ele sempre pode acabar ou começar em uma boa história.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 07 de julho de 2018