domingo, 1 de abril de 2018

Chile, 1973, entre a cultura e a barbárie




Nos anos 70, o padre e crítico literário chileno Sebastián Urrutia Lacroix foi contratado para - no estopim do Golpe Militar que tirou do poder Salvador Allende -, dar aulas de marxismo para o ditador Augusto Pinochet e para membros de sua Junta Militar. Ainda jovem, Sebastián trava amizade com o renomado Farewell, proprietário rural que é também um crítico renomado, e que será responsável pela inserção do amigo no mundo das letras. Depois de passar um tempo na Europa, distanciado da realidade política latino-americana, o padre volta para o Chile e encontra o país mergulhado no abismo de uma ditadura atroz. É nesse momento que ele é convidado a lecionar para o General Pinochet. Eis o pano de fundo sobre o qual se descortina o livro “Noturno do Chile” (Companhia das Letras) - publicado originalmente no ano 2000, no Brasil em 2004 -, de Roberto Bolaño, um dos mais representativos escritores da literatura latino-americana contemporânea.


Há sete anos, adquiri um exemplar da obra e, desde então, ela estava esquecida em minha estante. Como um bom vinho chileno, guardado em uma adega, o livro de Bolaño permaneceu para mim ilustremente desconhecido, envelhecendo dignamente. Os motivos que nos levam a ler um livro e não outro são tão misteriosos quanto os verdadeiros motivos que levam um autor a escrevê-lo. No entanto, em meio a tantas barbáries, a tanto descrédito dos direitos humanos, a tanta brutalidade que nos envergonha o país, abri suas páginas esta semana e o li. Talvez o livro tenha me procurado justamente agora por algum motivo especial. E como os vinhos maturados, com os quais convivemos afetuosamente antes da degustação, a obra, oriunda da terra de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, ganhou assim um sabor especial.  
“Noturno do Chile” é a confissão de um Sebastián velho e angustiado em relação a sua participação, mesmo que anônima, nos bastidores da história de seu país. Assim ele abre suas memórias: “Agora estou morrendo, mas ainda tenho muita coisa para dizer. Estava em paz comigo mesmo. Mudo e em paz. Mas de repente surgiram as coisas. Agora não estou em paz”. Então, o padre desfia suas lembranças desde a amizade com o crítico Farewell na juventude, quando conheceu e conviveu com boa parte da intelectualidade chilena, a viagem que fez para a Europa com o objetivo de estudar técnicas de conservação de catedrais, até o seu retorno à terral natal, nos anos 70, quando encontra o país mergulhado em uma crise social depois da morte de Allende e da tomada de poder dos militares, situação que perduraria até os anos 90. Dar aulas de marxismo para Pinochet seria cômico se não fosse trágico. Soa como uma ironia ao passo que parece refletir sobre as relações entre a cultura e a barbárie.    

Pinochet e membros de sua junta militar

Notemos que é graças à projeção intelectual que Sebastián é levado a participar do terror. Em uma das passagens do livro, o narrador relembra os encontros literários na casa de María Canales, lugar que sediava não apenas noites artísticas, mas também sessões de tortura em seu porão. Os visitantes não sabiam e nem sonhavam. Muitas pessoas teriam sido assassinadas naquele lugar. O mesmo casal que promovia a vida cultural em Santiago levava a cabo as políticas do horror naquele estado de exceção. Nesse sentido, uma reflexão sobre a relação entre barbárie e cultura parece ser um dos aspectos mais interessantes do livro. No entanto, a obra transcende a questão política ou social para promover um mergulho nos dilemas humanos. Isso tudo por meio de uma linguagem e de uma construção narrativa que fez de Bolaño um dos maiores prosadores de língua espanhola dos últimos anos.
O autor chileno não está preocupado apenas com a história que conta, seja aquela da ficção ou mesmo a dos episódios sinistros que macularam a América Latina. Está preocupado em primeiro lugar em praticar uma literatura consciente do seu papel e de seu destino no que se refere à qualidade de linguagem, a um ritmo fluido e vertiginoso, bem como a uma grande capacidade de construir imagens.  


Nas páginas finais, o narrador relembra que, em uma das noitadas literárias na casa de María Canales, um dos visitantes - não se sabe se homem ou mulher -, à procura de um banheiro, entra sem querer no porão onde se davam as torturas. María era casada com James Thompson, um empresário americano que prestava serviços para a ditadura chilena. O visitante abriu a porta, acendeu a luz e viu que sobre uma cama havia um homem nu, amarrado pelos pulsos e tornozelos: “O extraviado ou a extraviada, sumida instantaneamente a bebedeira, fechou a porta e tornou em silêncio sobre seus passos. Quando chegou à sala, pediu um uísque, depois outro, e não disse nada”. O elemento assustador não está apenas na tortura, mas também no silêncio daquele que testemunhou e não denunciou. Nem ao menos demonstrou pavor. Eis o silêncio do intelectual. Em tempos de horror podem ser encontrados na cultura ecos também de barbárie. Em outras palavras, o que fazer na arte e na vida com a morte de Marielle e de tantos outros? Inquietamo-nos ou calamos? Afinal de contas, quem matou Marielle?

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória (PR), em 24 de março de 2018. 

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