quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Sobre a essência e a forma do ensaio: carta a Leo Popper, de György Lukács (fragmentos para reflexão)




"Quando falo do ensaio como obra de arte, o faço em nome da ordem (portanto de um modo quase simbólico e impróprio) e apenas a partir do sentimento de que o ensaio possui uma forma e se distingue de todas as outras formas de arte com definitiva força de lei. E se tento isolar o ensaio com o máximo de radicalismo, é justamente porque o considero uma forma artística".

"Na ciência, são os conteúdos que atuam em nós; na arte, as formas; a ciência nos oferece fatos e suas conexões; a arte, almas e destinos".
"Existe, pois, uma ciência da arte; mas existe ainda um tipo completamente distinto de exteriorização dos temperamentos humanos cujo meio de expressão na maioria das vezes é a escrita sobre a arte. Digo na maioria das vezes porque existem muitos escritos que, embora emanem de tais sentimentos, não têm nenhum contato com a literatura e arte; neles, encontramos as mesmas questões vitais dos escritos denominados de crítica, só que essas questões são dirigidas diretamente à vida, dispensando a mediação da literatura e da arte".

"É certo que há e tem de haver uma ciência da arte. E os maiores defensores do ensaio são justamente os que menos podem renunciar a ela: o que eles criam também precisa ser ciência, mesmo que sua visão da vida haja transcendido o círculo da ciência. Se por um lado, seu livre voo geralmente é tolhido pelos fatos imutáveis da seca matéria, por outro, o ensaio costuma perder todo o seu valor científico, na medida em que, sendo uma visão de mundo, se antecipa aos fatos e os manipula livre e arbitrariamente. Até hoje, a forma do ensaio, segue sem concluir o caminho que sua irmã, a poesia, já percorreu há tempos: o do desenvolvimento rumo à autonomia a partir de uma unidade primitiva, indiferenciada com a ciência, a moral e a arte".
"O ensaísta fala de um quadro ou de um livro, mas o abandona em seguida. Por quê? A meu vero, porque as ideias desse quadro e desse livro se tornaram preponderantes nele, porque ele esqueceu completamente todo o detalhe concreto, utilizando-o apenas como ponto de partida, como trampolim. A poesia é anterior e maior, é mais ampla e mais importante que todas as obras poéticas: é o mais antigo sentimento vital do crítico literário, mas ele só pôde tomar consciência disso em nossa época"

"O ensaio é uma forma de arte, uma configuração própria e cabal de uma vida própria e completa. Somente agora não soaria contraditório, ambíguo e equívoco referi-lo como obra de arte e, ao mesmo tempo, ressaltar enfaticamente suas diferenças em relação à obra de arte; o ensaio se posiciona diante da vida com o mesmo gesto de uma obra de arte, mas apenas o gesto, a soberania de sua tomada de posição, pode ser o mesmo; fora isso não resta nenhum contato entre eles" 

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