segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Crítica como invenção


Há alguns anos, José Castello (2007), crítico-romancista-ensaísta-contista-jornalista, publicou na extinta revista EntreLivros - que circulava nas bancas de jornais -, uma leitura da novela Um Copo de Cólera, de Raduan Nassar. A ideia era, a partir dela, analisar os motivos que levaram o autor de Lavoura Arcaica a desistir de escrever. Não nos interessa aqui esmiuçarmos a leitura do ensaio, que pode ser lido na integra na internet (texto aqui), mas apenas apontar para um curioso procedimento de leitura explorado pelo escritor/crítico. Ao invés de analisar meticulosamente o livro de Nassar, ou dos motivos que o levaram a deixar de escrever, Castello dissemina uma espécie de crítica criativa, logo ensaística, ao garantir as condições de inacessibilidade da obra. Vejamos.



Depois de considerar Raduan Nassar um "escritor do não", inspirado na galeria de Bartlebys de Enrique Vila-Matas -  em diálogo com Herman Melville -, e de se perguntar sobre os motivos que levaram o escritor a parar de escrever, o crítico nos informa, explorando a primeira pessoa do singular (incomum no universo da crítica, mas bastante presente no âmbito do ensaísmo) que, numa terça-feira escura, em São Paulo, dedicou-se a reler Um copo de cólera, convencendo-se de que o livro guarda uma resposta para os motivos que levaram o autor ao abandono da literatura. Inicia-se aí uma breve narrativa. Com uma pergunta na cabeça, o crítico visita a Pinacoteca Paulista e confessa se deter no conjunto dedicado ao século XIX, concentrando-se em três telas de Almeida Júnior, a saber Leitura (1892), O Importuno (1898) e Saudade (1899). 

Saudade

O Importuno

Leitura


Castello escreve que, enquanto observava os quadros, a novela de Raduan não lhe saía da cabeça. Inicia-se, então, um processo crítico bastante curioso, pois, ao invés de criticar, julgar ou interpretar o romance e/ou as telas, o ensaísta contenta-se (e contentar-se implica sempre numa espécie de emoção e alegria) em estabelecer relações curiosas entre as obras de Almeida Júnior e Raduan Nassar, em imaginar associações inusitadas. Interessante perceber que essas relações não estão dadas a priori. Em princípio, não há nada em comum entre as pinturas do realista e a novela de Raduan. É o crítico que inventa essas relações, que só passam a existir depois de imaginadas. A obra se mantém para nós como enigma, ou seja, o crítico garante as condições de inacessibilidade do objeto. Castello encerra o texto apontando justamente para o aspecto inventivo necessário à leitura, ou seja à crítica:

Saio da Pinacoteca certo de que as telas de Almeida Júnior me ajudaram a ler Raduan. Leitores precisam, sempre, experimentar novos caminhos (como picadas na mata, feitas a golpes de facão) para, enfim, chegar a ler. Não, Almeida Júnior não me ajudou a entender Um copo de cólera. Livros não existem para o entendimento, mas para a invenção. Inventamos novas maneiras de ler os mesmos livros. Sobre livros, abrimos outros livros, e nada mais. Mas, como o importuno que se esconde atrás da cortina, como o retrato que não se deixa ver, como o livro que não podemos ler, os livros continuam inacessíveis. Vem-me a sentença de Borges: “A literatura é um eixo de infinitas relações”. Quando nega nosso desejo de sentido, e faz desse Não um enérgico Sim, a literatura afirma sua grandeza (2007, s/p).

Inventar novas maneiras de ler talvez seja a função mais importante da crítica hoje, um tempo no qual promover o mero julgamento da obra parece não fazer mais sentido algum. Pensar nas infinitas - ou pelo menos indefinidas -, relações que podem se estabelecer por meio de um procedimento de (des)leitura criativa é uma forma de devolver potência não apenas para a crítica, mas principalmente para o texto literário. Nunca mais leremos Raduan com os mesmos olhos depois de mirar os quadros de Almeida Júnior depois de mirados por José Castello. É nesse sentido que me encanta o trabalho de críticos-criativos como José Castello, Alberto Pucheu, Raúl Antelo, Alexandre Eulálio, Eduardo Portela, Sebastião Uchoa Leite, Affonso Ávila etc. Cada um com uma perspectiva teórico-crítica bastante diferente, com seu estilo, em seu tempo, mas todos exímios inventores de procedimentos. Certamente, cada um mereceria um estudo aprofundado à parte. Poderíamos citar também, a título de curiosidade, um teórico como Georges Didi-Huberman, que não é um crítico avan la lettre, mas que produz a todo momento hibridismos entre a teoria/crítica/filosofia e a arte/literatura/poesia/dança. Tome-se como exemplo a relação entre a o flamenco de Israel Galván, as Soledades barrocas e o conceito de trágico nietzschiano, em El Bailaor de Soledades (2008). A relação entre o cinema/pensamento de Pasolini com o gesto de resistência que se depreende do voo (vaga)iluminado dos vaga-lumes numa noite de escuridão, em Sobrevivência dos Vaga-lumes (2011). O jogo de cores que se prolifera entre os vitrais religiosos e o trabalho pictórico-fotográfico de James Turrel, em El Hombre que Andaba en el Color (2014). O voo das borboletas com o saber posto em movimento pelo cinema e pelas artes plásticas, em Falenas (2015); A sobrevivência do horror de Auschwitz nas lascas de um tronco de bétula, no ensaio poético/fotográfico intitulado Cascas (2013); entre outros textos-ficção desse historiador da arte que poderiam ser compreendidos como poético/ensaísticos.
Lembremos que no texto de Castello a crítica se dá justamente a partir de um passeio pela Pinacoteca Paulista. Narrar, ensaiar e criticar são elementos, aqui, indiscerníveis. Como não lembrar nesse falar-flanar crítico do passeio de Gonzaga Duque evocado no texto "Salão de 1905" - inserido posteriormente no livro Contemporâneos (1929) - onde já se prefigura o conceito de crítica de arte tomada como busca inquieta do objeto ausente. Não seria descabido considerar a crítica de Castello como ensaística. Lembremos que, curiosamente, ela se apresenta no universo da crítica cultural jornalística, ou seja, fora do âmbito acadêmico. É esse tipo de experiência ao mesmo tempo crítica e poética que parece hoje não ser mais exercitada no ambiente universitário. Os motivos disso não conseguimos mapear com precisão: predomínio de uma concepção ainda cientificista/positivista no exercício crítico? Heranças do Formalismo, da Nova Crítica, do Estruturalismo? Falta de leitura ou de gosto pela poesia?
Cumpre observar que nessa concepção crítico/poética, o leitor/crítico precisa alcançar em seus procedimentos uma criatividade semelhante a do próprio poeta. Não que o crítico necessite ser de fato um poeta, mas sem tino poético ficaria difícil ler a literatura de forma literária. Resquícios conservadores poderiam considerar essa experiência como um devaneio egotista, logo frágil e pouco eficaz como fundamento crítico.


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