segunda-feira, 17 de abril de 2017

A vinda da Família Real e a Formação do Romance no Brasil (apontamentos)




Para compreendermos como se deu a formação do romance no Brasil é importante traçarmos um rápido panorama sócio-histórico, tendo em vista que o surgimento deste gênero entre nós não está desvinculado das transformações ocorridas no século XIX, seja no Brasil ou na Europa.

Em 1808, com a vinda da Família Real, redesenha-se o mapa social e político do nosso país. A literatura não ficou imune a essas transformações. O Brasil, ao ser elevado à sede provisória da coroa portuguesa, transforma-se rapidamente. A causa da viagem, como sabemos, se encontra na figura de Napoleão que, naquele período era senhor absoluto da Europa. Seus exércitos haviam dominado grande parte do continente europeu, numa sucessão de vitórias surpreendentes. Só não haviam conseguido subjugar a Inglaterra. Protegidos pelo Canal da Mancha, os ingleses tinham evitado o confronto direto em terra com as forças de Napoleão. Ao mesmo tempo, haviam se afirmado como senhores dos mares na batalha de Trafalgar, em 1805, quando sua Marinha de guerra, sob o comando de Lord Nelson, destruiu, no Mediterrâneo, as esquadras combinadas da França e da Espanha. Napoleão reagiu decretando o bloqueio continental, medida que previa fechamento dos portos europeus ao comércio do produtos britânicos. Suas ordens foram imediatamente obedecidas por todos os países, com uma única exceção: o pequeno e desprotegido Portugal. 


Família Real Portuguesa

Pressionado pela Inglaterra, sua tradicional aliada, D. João ainda relutava em ceder às exigências do Imperador. Por essa razão, em novembro de 1807, tropas francesas marchavam em direção a Portugal, prontas para invadir o país e destronar seu príncipe regente. Dom João tinha três alternativas: Ceder às pressões de Napoleão e aderir ao bloqueio continental; Aceitar a oferta dos ingleses e embarcar para o Brasil; ficar em Portugal e enfrentar Napoleão ao lado dos ingleses. A decisão de D. João foi no mínimo curiosa. Enquanto negociava com os ingleses, enviou uma correspondência a Napoleão concordando com as prerrogativas. Era tudo um faz-de-conta planejado para fazer o Imperador francês pensar que estava conquistando o apoio dos portugueses. Portugal era um país relativamente pobre. Dependia quase que exclusivamente do extrativismo, não era um país industrialmente desenvolvido. Em 29 de Novembro de 1807, a família real partiu para o Brasil em três navios, ao todo 16 navios participaram da operação. Entre 10 000 e 15 000 pessoas acompanharam o príncipe. O grupo incluía pessoas da nobreza, conselheiros reais e militares, juízes, advogados, comerciantes e suas famílias. Também camareiros, pajens, cozinheiros e cavalariços.

Debret

Quando chegou ao Brasil, o príncipe regente abriu os portos para a Inglaterra, para corresponder ao acordo feito para que trouxessem a família real para o Brasil. O Brasil se integrava ao sistema internacional de produção e comércio como uma nação autônoma. Pode construir indústrias, abertura de novas estradas, regiões foram mapeadas; introdução do ensilo leigo e superior; criada a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional, o Jardim Botânico e o Real Teatro de São João, Gazeta do Rio de Janeiro (primeiro jornal publicado em território nacional), empreendimentos civilizatórios. O maior desses empreendimentos foi a contratação, em Paris, da famosa Missão Artística Francesa. Chefiada por Joaquim Lebreton, a missão chegou ao Brasil 1816 e era composta por alguns dos mais renomados artistas da época: Jean Baptiste Debret; Nicolas Taunay, entre outros. Esses artistas foram responsáveis por criar um imaginário de nação, ao retratarem não só a família real, mas principalmente a fauna, a flora e os costumes brasileiros. Suas representações, fundamentadas principalmente no retrato de paisagens marcaram uma singularidade da arte produzida no Brasil, incentivando, mais tarde, a produção de uma literatura voltada para questões da nação e da natureza, como fundamentos para o surgimento do Romantismo, que segundo Antonio Candido, na Formação da Literatura Brasileira, consolidou a autonomia de nossa literatura, que vinha se delineando como sistema desde meados do século XIX, com árcades como Claudio Manuel da Costa e com agremiações culturais como a Academia dos Seletos e dos Renascidos.  

Em 1820, Dom João VI isentou de taxas alfandegárias a importação de literatura estrangeira. A liberação cultural, que vinha ocorrendo desde 1808, aconteceu muito em decorrência da chegada das primeiras máquinas tipográficas, trazidas na frota que fugia de Portugal. As tipografias passaram a publicar não só jornais, mas também traduções de obras estrangeiras. Todos os nossos autores românticos serviram-se do jornal, seja para escrever crônicas e discursos políticos, seja para publicar seus folhetins alguns anos mais tarde.

Nesse período, o Brasil despertava o interesse de intelectuais europeus, como Ferdinand Denis, que publica, em 1926, Resumo da História Literária do Brasil, incitando os brasileiros a produzirem uma literatura com temática nacional. No mesmo ano, Almeida Garret inclui autores brasileiros no Parnaso Lusitano.

Parnaso Lusitano

Depois do retorno de Dom João VI para Portugal e da Independência dois anos depois, o país vivia um clima de entusiasmo, pelo menos até 1831, quando o Brasil mergulha numa crise política que levará Dom Pedro I a abdicar. Em 1834, o encontro de três brasileiros na Europa, Magalhães, Porto Alegre e Torres Homem, dará origem ao movimento romântico brasileiro. Em 1836, no mesmo ano que Gonçalves de Magalhães publica Suspiros Poéticos e Saudades, o jornalista francês Girardin, funda o jornal La Presse e inventa o romance-folhetim, dando-lhe o acesso do grande público, especialmente o grande público feminino da burguesia. Girardin, que era editor, barateou o preço das assinaturas de jornais, baseando o negócio, em vez da venda da tiragem, nos anúncios. Para garantir sucesso aos anunciadores, ele criou um público permamente e estável de leitores, publicando folhetins nos jornais. A tradução desses folhetins franceses nos jornais brasileiros teve imensa aceitação. José de Alencar, conta em sua pequena biografia Como e Porque Sou Romancista que, junto a outros colegas de colégio, iam de madrugada esperar o trem que trazia os jornais, e, lá mesmo na estação, liam o folhetim da semana debaixo da luz de um lampião. Segundo Bezerra de Freitas, em Forma e Expressão no Romance Brasileiro, os romances do período refletem naturalmente as transformações sociais e individuais da época

Émile de Girardin

O introdutor do folhetim entre nós foi João Manuel Pereira da Silva, autor também de romances históricos. Estudantes e mulheres, no quadro urbano da sociedade imperial, constituem, pois, o público literário na sua maior parte. A classe social retratada será a da burguesia e a alta classe média. Pereira da Silva está entre os mais importantes precursores do romance-folhetim do começo do romantismo brasileiro. Vindo de Paris, onde havia se formado em Direito, já a partir de 1838 começa a colaborar em diversas folhas e jornais. Nesse ano, publica O aniversário de Dom Miguel, em 1828, um romance de influência totalmente européia. Pereira da Silva o classificou como um romance histórico, mas é difícil dizer se o texto é um conto, uma novela ou um romance, pela estrutura formal. Totalmente ambientado em Portugal, o romance tem nítidas conotações políticas, já que foi escrito durante o conturbado momento da Regência, quando se questionava a manutenção da Monarquia.

João Manuel Pereira da Silva

Da mesma época, destacam-se Justiniano José da Rocha, que em 1839 publica Os assassinos misteriosos ou a paixão dos diamantes, que apesar de ser uma novela, é o primeiro dos textos brasileiros que têm as características específicas do romance folhetim, como o mistério, as peripécias e a vingança.

Justiniano José da Rocha

Em 1843, aparece O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa, considerado geralmente o primeiro romance brasileiro, já que os outros, como os já citados, apesar de trazerem por vezes essa designação, têm dimensões de conto ou novela. De maneira que podemos considerar Pereira da Silva e Justiniano José da Rocha, precursores do romance no Brasil. Ou mesmo Gonçalves de Magalhães com Amância. Seus consolidadores seriam Teixeira e Sousa e Joaquim Manuel de Macedo.

Teixeira e Sousa

Para Candido, embora a qualidade literária de Teixeira e Sousa seja realmente de terceira plana, é considerável a sua importância histórica, menos por lhe caber até nova ordem a prioridade na cronologia do nosso romance, do que por representar, maciçamente, o aspecto que se convencionou chamar folhetinesco do Romantismo. Não há dúvida que O Filho do Pecador é romance, e romance-folhetim, devido ao número de peripécias, assassinatos misteriosos, filhos que reaparecem após anos sem notícias, a volta triunfante de um herói que se supunha morto e que consegue vingar-se. No entanto, embora ambientado no Rio de Janeiro, mais precisamente em Copacabana, seu clima gótico lembra mais a ficção européia do que a brasileira. O filho do pescador conta a história de um casamento malogrado, em que a mulher é adúltera e assassina.


Na década de 40, do século XIX, o Brasil era uma sociedade que se firmava no escravo. Nós havíamos saído do primeiro reinado, das lutas da regência e tínhamos um menino imperador no trono. Nossa literatura era bastante influenciada pela cultura européia, mais especificamente a de Portugal e da França.

Joaquim Manuel de Macedo

Em 1844, Joaquim Manuel de Macedo publica A Moreninha, até hoje considerado pelos manuais didáticos como o primeiro romance da literatura brasileira. Como vimos, antes disso, romances foram publicados. No entanto, o primeiro grande romance, assim considerado por consolidar o gênero entre nós, sem dúvidas é o livro de Macedo, uma obra hoje pouco lida, mas com linguagem ágil e agradável como vemos também em outras obras do mesmo autor, como A Luneta Mágica, livro que considero um dos melhores do século XIX.

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