domingo, 14 de dezembro de 2008

FILHA DE PEIXE PEIXINHA É

Só essa imagem já vale o filme!


Um amigo me falou com atenção sobre Sofia Coppola, a herdeira de um poderoso chefão. Tal pai, tal filha, ou filha de peixe, peixinha é! Esse amigo falou muito bem de Virgens Suicidas. Assisti e gostei. Não só do roteiro, mas de outras coisas que, direta ou indiretamente, estão ligadas a ele. Depois, curioso, aluguei Maria Antonieta, que achei uma jóia tão rara como os diamantes que a digníssima de Luis XVI usava com prazer. Não sei se Maria Antonieta era tão bonita quanto Kirsten Dunst. Acho muito pouco provável, tendo em vista as imagens da rainha que sobreviveram até os dias atuais. E olha que muitas vezes os pintores reais faziam um esforço sobre-humano para melhorar seus modelos. Mas nem Debret conseguiu deixar Carlota Joaquina mais bonita. Aliás, assistindo ao filme, lembrei que tanto Luis XVI, quanto D. João VI são figuras que, segundo os biógrafos, eram medrosos e muitas vezes incapazes de satisfazer sexualmente suas mulheres. O que levava Maria Antonieta e Carlota Joaquina a alimentarem relações extra-conjugais com cavaleiros, amos, conselheiros do rei. Coppola criou uma leitura bastante subjetiva – ora, todas são! – da vida da rainha. Tal fato permite que a cineasta, ao mesmo tempo que instiga uma leitura anacrônica da história (as músicas contemporâneas são mescladas às peças clássicas da época), proponha uma des-leitura da história. Tome nota da cena em que os pés de Maria aparecem em close-up. Ela está experimentando um sapato. Ao fundo, aparece, sutil, porém retumbante, um belo all-star azul. O filme toca com "precisão" os fatos “reais”, pois qualquer tentativa de reconstrução histórica seria fracassada se não se partisse da premissa de que tudo isso é uma grande “leitura”, a história como própria ficção. O que estou querendo dizer é que não vejo com maus olhos as transgressões de Coppola. Pelo contrário, é essa provocação uma das coisas que mais me chamou a atenção no filme, ao lado de um preciosismo visual colorido e sedutor, muito diferente da maioria dos “filmes de época” que pululam no cinema americano, geralmente repletos de um cinza e de uma sisudez que quase todos imaginam ser o traço principal das “pessoas de antigamente”. Outro detalhe que chamou minha atenção é que o filme “pinta” uma Maria Antonieta muito diferente de como foi retratada pelos historiadores. Na película, que parece tocar mais de perto a realidade, - mesmo sendo ficção, ou justamente por sê-lo -, a rainha não é uma vilã que se aproveita do povo carente de pão. É apenas uma jovem sedutora que descobre os prazeres da realeza e por ela está disposta a morrer, perdendo a cabeça ou curtindo a vida adoidada.
Agora, acabo de assistir ao Encontros e Despedidas. Poderia se chamar também Delicadeza, como o filme de Jean Pierre Jeunet. Como diz um amigo, só a seqüência inicial já vale o filme. Mas é muito mais do que isso. O que os três filmes que assisti da Sofia têm em comum? O olhar feminino sobre a realidade. Não me enquadro naquele grupo que defende uma literatura ou um cinema de gêneros; Literatura gay, literatura feminina, etc. Posso estar errado, mas tudo isso me parece pura babaquice. Que sentido tem dizer que a literatura de João Gilberto Noll é gay? E daí? O que isso significa? A literatura dele é literatura e isso basta. E é fabulosa, por sinal (mas deixemos Noll pra outro dia ou para outra noite). Falo que o que há de comum entre os três filmes de Sofia é um profundo olhar feminino sobre a realidade porque as mulheres, bem mais que os homens, têm esse poder. Poderão questionar-me: “Mas e o Almodóvar, também faz isso e não é mulher!”. E quem disse que só mulheres podem lançar um olhar feminino sobre a realidade? Em Virgens Suicidas, percebemos que o universo feminino é bem mais complexo do que parece. E tal complexidade vem de berço. Em Maria Antonieta, descobrimos um personagem que pode não ser a REAL, mas que é demasiado humano. Em Encontros e Despedidas, só um homem maduro e delicado para entender uma jovem carente e delicada. Em ambos os filmes, as mulheres aparecem como sedutoras e carentes. É claro que dizer isso sobre os filmes ainda é muito pouco. Talvez fosse melhor revê-los.

c.moreira

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

TABLEAU PARA VALÊNCIO


Hoje à tarde, quando decidi escrever sobre o Valêncio Xavier, que partiu na semana passada, perguntei para mim mesmo: “Por que sinto tanta necessidade de escrever sobre as pessoas que amo justamente quando elas vão embora?”. Mas, pensando bem, não é a primeira vez que escrevo sobre ele. Imagino que de tudo o que escrevemos sempre fica algo a ser dito, algo que nos escapa, ou mesmo algo a repetir, pois tudo aquilo que se repete, ao mesmo tempo que traz de volta algo que já parecia perdido, traz um pouco daquilo que ficou a ser dito. Preciso contar uma rápida história. No primeiro semestre, que passei em Florianópolis, perdi – ou ganhei, não sei dizer – várias tardes em torno de Valêncio. Não, ele não estava em Florianópolis. Mas a sua presença se impunha dentro de uma biblioteca. Descobri no acervo da UFSC a estranha biografia que Valêncio escreveu sobre Poty. Descobri também uma pesquisa que trazia todas, ou quase todas, as matérias que ele escreveu para a Gazeta do Povo. Que delícia essa descoberta. Passei muitos dias lendo seus textos enquanto deveria estar imerso nos simbolistas. No entanto, curiosamente, estabeleci muitas relações entre as duas coisas. Mas não falarei disso agora, pois estou tomado de um luto feroz. Poucas vezes lamentei tanto a morte de um artista – falo artista porque Valêncio não era apenas um escritor. Não cheguei a chorar como chorei com um amigo e com duas dúzias de cerveja a morte de George Harrisson (TAMBÉM PERDEMOS JAMELÃO). Mister Xavier acharia extremamente careta da minha parte. Mas lamento profundamente, pois Valêncio era um artista notável, que ainda produzia muito, apesar de doente, além de ser uma pessoa muito querida pelos amigos e familiares. Tentei algumas vezes, todas em vão, entrar em contato com o escritor com o pretexto de adquirir uma cópia de uma crítica que escreveu sobre o Agora é que são elas, do Leminski, num pequeno jornal paranaense, na década de 80. Mas acho que no fundo era apenas para conhecê-lo. Ouvi-lo falar apaixonadamente sobre cinema e literatura. Guardo um raro exemplar de A propósito de figurinhas, autografado por ele e por Poty. Nunca liguei para edições autografadas, são fetiches que para mim não fazem sentido. Mas guardo com carinho, como um neto que guarda o canivete do avô, para sempre lembrar que teve um avô. Há alguns meses, escrevi um artigo em que lia os ready-mades do livro das figurinhas como construções da memória, um arquivo de assombros: Valêncio, feito Baudelaire, sempre foi um bom trapeiro. Em seu último livro, o escritor se apropria de uma reportagem do programa Aqui Agora para escrever um conto sobre uma menina morta nua. Mas seus textos que mais me fascinam são aqueles que reconstroem, ou melhor, reinventam um tempo há muito perdido, como Maciste no inferno, em que conta ao mesmo tempo, magistralmente, duas histórias, a do filme que é projetado na tela do cinema e a de um telespectador. O livro me faz lembrar de Pathé-Baby, do Alcântara Machado, que é contado também a partir de fotogramas de um filme de cinema mudo. Aliás, Valêncio escreveu na antiga Cult um artigo sobre esse livro de 1926, uma proposta bastante inusitada e diferente de outras propostas modernistas. Eu queria homenageá-lo nesse texto, mas me faltam palavras e imagens. Talvez bastasse uma colagem de suas fotos, como faz aquele projetor de cinema, em Cine Paradiso. Eu, pequeno como Totó, correria para o cinema para assistir Valêncio e suas histórias. Ele sairia da tela e trocaria figurinhas das balas Zequinha comigo. Espiaríamos a mãe no banheiro, choraríamos a mãe morrendo, tal como Flávio de Carvalho desenhou, contrataríamos uma prostituta japonesa, nos perderíamos bêbados no labirinto do Minotauro, fugiríamos do fantasma de Curitiba, aquele estranho monstro da madrugada, ficaríamos seduzidos pelas musas do cinema pornô paranaense, e abriríamos a porta e apagaríamos aquela vela que se esconde por trás dela e, afoitos, revelaríamos os mistérios do mágico. E tudo seria cinema. A morte apenas uma ficção. Eu encontraria o Valêncio dois dias depois e ele desabafaria: “Estou com as costas doloridas, pois caí de mal jeito depois de ser metralhado e morto por James Lilibrown, o gângster”. “Preciso tirar umas férias e terminar o meu novo livro”. Valêncio sonhava filmar a visita de Che Guevara a Curitiba. O filme começaria com um close-up no pênis de Che, mijando no banheiro da rodoviária. Só Valêncio mesmo!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

DIGA-ME O QUE VÊS E TE DIREI QUEM ÉS



Escrevo este texto tocado pela leitura do post do Luisandro M. De Sousa - http://beatbossa.blogspot.com/2008/11/blindness.html - sobre o filme Ensaio sobre a Cegueira, do Fernando Meirelles, inspirado no livro do Saramago. Diz o Luisandro: “Senti que faltou um pouco da densidade que os diálogos têm no livro, minha impressão é que se fala muito pouco no filme, é um filme que valoriza o visual, é um filme pra ver, não para ouvir”. É o que pensei. Quase um paradoxo o fato de um livro como esse migrar para um cinema que prioriza o visual, já que ver não é tão importante quanto DAR A VER, como diria João Cabral de Melo Neto, que aliás, sofreu com a cegueira. J. L. Borges soube muito bem disso, tanto é que louvou a própria cegueira. Outro escritor que no fim da vida parou de ver, mas não de enxergar foi o Padre Antonio Vieira, que por sinal, alimentou uma obsessão pela metáfora do VER em vários de seus sermões. O tema da cegueira é uma constante na literatura portuguesa. Basta lembrar que reaparece quatro séculos depois do nascimento do imperador da língua portuguesa, como Fernando Pessoa chamaria Vieira. Falo do livro A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa, que recria Vieira, nos olhos de uma professora cega apaixonada por sua obra, a partir da leitura do Sermão de Nossa Senhora do Ó, um dos meus prediletos.
Faz uns 5 anos que li o livro do Saramago. Provocou em mim um choque semelhante ao que causou Kafka, em Metamorfose. Lembro que uma vez emprestei o livro a uma aluna, que se apaixonou pela literatura, e confessou que depois de ler o livro, começou a temer apagar a luz do quarto antes de dormir. Tenho certeza que se tivesse assistido ao filme antes não teria tido a mesma impressão. Lembro que uma das coisas que pensei na época foi na impossibilidade de uma adaptação de qualquer livro desse escritor português, sem que se perca um pouco ou muito, isso depende da VISÃO de cada um. Por isso achei perfeito o nome escolhido por Meirelles: BLINDNESS. O filme é outra coisa. Não é Saramago. Talvez por isso o único Nobel português tenha gostado tanto, já que qualquer tentativa de copiá-lo seria fada de imediato ao fracasso. E profanar o livro deve ser também um dos objetivos de uma adaptação (profanação). Pior cego é aquele que só quer ver o filme. Por isso gostei tanto.
O leitor que não vá ao cinema pensando em comparar as coisas, pois são bem distintas, com exceção da história ser a mesma, o que não quer dizer quase nada.
De todas as passagens do livro, para mim, a mais impressionante é aquela em que a mulher do médico se depara com uma igreja onde os santos estão com os olhos vendados. Impossível VER isso no filme (apesar de que a cena aparece), senão DANDO-A a VER, como no livro:
.
“(...) não podia ser verdade o que os olhos lhe mostravam, aquele homem
pregado na cruz com uma venda branca a tapar-lhe os olhos, e ao lado uma
mulher com o coração trespassado por sete espadas e os olhos também tapados
por uma venda branca, e não eram só este homem e esta mulher que assim
estavam, todas as imagens da igreja tinham os olhos vendados (...) Não me
acreditarás se eu te disser o que tenho diante de mim, todas as imagens da igreja
estão com os olhos vendados (...) pode ter sido o próprio sacerdote daqui, talvez
tenha pensado justamente que uma vez que os cegos não poderiam ver as
imagens, também as imagens deveriam deixar de ver os cegos, As imagens não
vêem, Engano teu, as imagens vêem com os olhos que as vêem”.
.
Mas o que quero dizer para finalizar é que o filme, para mim, é ótimo. No que é possível ver e fazer, com a lente da câmera como uma prótese do nosso próprio olhar, Meirelles tocou com presteza os olhos do livro de Saramago. O que vemos no livro e não vemos no filme pode ser um sintoma de uma profanação, ou mesmo de uma inquietação do VER, que, às vezes, só um livro traz.
SOBRE “THE DREAMERS”, DO BERTOLUCCI


Você tem dois minutos para fazer um poema antes que a revolução exploda e tudo vá pelos ares. Há duas maneiras de fazer uma revolução:

* Trancafiar-se com dois loucos numa casa cheia de portas, vinhos de um pai poeta, discos e livros: um corredor fantasiado de biblioteca – fazer amor com a menina na cozinha enquanto o irmão dela frita um ovo e espia indiferente seu gemido de gata no cio.

* Sair para a rua e enfrentar a polícia francesa.
Na certa, a segunda opção parecerá mais válida para os camaradas. Além dos infortúnios, causará a impressão de que tua vida não foi em vão. Os pobres homens acreditam que a primeira opção não é revolucionária. Che e Fidel nunca quiseram ficar em casa ouvindo Buena Vista Social Club ou mirando el malecón. Os sonhadores acreditaram que estavam transformando o mundo em maio de 68. Mas não transformaram? Mas e o bom cinema, mesmo aquele que o mais engajado não consideraria de longe revolucionário, também não transformou o mundo? Todo bom filme é uma bomba prestes a explodir. Aí pergunto: “Que revolucionário é esse que pega em armas para transformar o mundo antes mesmo de transformar a si próprio?” Lamento dizer, mas toda ARTE, com letras maiúsculas, mesmo sem ser engajada numa causa particular (as causas são todas tão estranhas a ela) é REVOLUCIONÁRIA.
Já paraste para pensar que em “Os sonhadores”, do Bertolucci, os protestos de 68 aparecem somente no início e no fim do filme? Que revolução é essa que se opera entre sexo, drogas e livros no apartamento do casal de gêmeos siameses que abriga o jovem americano enquanto o mundo pega fogo lá fora?
Muitas coisas a falar sobre esse filme, que ainda está fazendo um eco aqui na minha cabeça (faz uma semana já que assisti ao filme):

* A câmera dança como Josephine Baker pela casa. Não, pensando bem, é a casa que dança, não desenfreada como a exótica Josephine. Dança sutil, como uma bailarina numa passagem do Lago dos Cisnes. O apartamento, um labirinto que dança, assim como a própria História. Vamos e venhamos: 1968, como disse Zuenir Ventura, foi o ano que não terminou.

* Pequenas coisas, detalhes que fazem a diferença: um cinzeiro da década de 60, o bico do seio grande e rosado de Isabelle, seu choro convulsivo depois de uma transa casual, os três corpos na banheira, a luva preta que usa quando finge ser Vênus de Milo. O contraste que se explicita em Isabelle entre o despudor da época e a pureza virginal de uma menina quase santa. A história é bem mais que um protesto.
Por que digo tudo isso? É simples: porque insistem em ler uma obra de arte como essa (The Dreamers é uma obra de arte) a partir apenas de uma perspectiva sócio-política. PORRA! Não será possível ler o mundo de outra maneira?

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

PROFANAÇÕES

(Ilustração: Rene Portocarrero)


Para Dante
Tinha um poeta nel mezzo del camin,
Nel mezzo del camin tinha um poeta

Para Pessoa
O que em mim escreve está mentindo.

Para Maiakóvski
Depois de duas doses de tua poesia
já me sinto embriagado.

Para Leminski
Com quantas palavras se faz um louco?
Rimar com classe a classe gosta,
Mas ser assim ainda é muito pouco

Para Mallarmé
Lanças os dados
E esperar as rimas

Para C.D.de Andrade
E agora, Drummond?

c.moreira

sábado, 29 de novembro de 2008

Manual de instrução para entender – ou não – um filme de David Linch


1 – Acorde de preferência depois das 11h ou meio-dia, é preciso estar descansado;
2 – Almoce algo leve, umas folhinhas de alface, uma colher de arroz, um pedacinho de frango, no máximo um filezinho de coelho;
3 – Passe o dia fazendo qualquer coisa, de preferência pensando pouco e andando muito (para oxigenar o cérebro);
4 – Recuse a todos os convites para baladas, missas, e outros "balagandãs";
5 – Prepare o ambiente, um puf bem confortável, mas sem pipoca, please;
6 – Espere a cidade dormir;
7 – Tranque todas as portas (é possível que elas se abram no meio do filme e te levem para algum outro lugar);
7.1 - Não dê ouvidos aos ruídos, olvide-os;
8 – Acomode-se, ligue o DVD, e esqueça que faz parte desse mundo;
9 – Não fique procurando pistas no filme, elas no máximo te levarão a outras pistas, que te levarão a outras pistas, que te levarão a...
9.1 – Se começar a entender o filme, tome cuidado, isso pode ser perigoso, e as conseqüências desastrosas;
9.2 - Ainda não esqueça os tremas ¨ de conseqüências; pois eles ainda não foram abolidos, nem elas;
10 – Não espere que a mulher com a cabeça de coelho te diga alguma coisa ou apareça subitamente ao seu lado, ela é uma estrela norte-americana;
11 – Se o telefone tocar no meio da projeção, não atenda, pode ser alguém do filme pedindo para você diminuir o volume, ou olhar para tela para que veja você mesmo com cara de personagem assustado; Talvez seja só um amigo pedindo dinheiro emprestado; de qualquer forma não vale a pena atendê-lo: ele emprestaria para você?
11.1 – Se você recebeu o vídeo pelo correio é melhor nem ligar, pode surpreender-se com algo pavoroso, você;
12 – FIM DO FILME: repita 5 vezes para você mesmo: “Eu não estou louco”.
13 – Não esqueça de desligar a televisão, mas não tenha medo, se o filme for de Linch e não de Tobe Hooper, do Poltergeist.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

FILOSOFIA DO SOLUÇO



Uma pessoa que soluça nunca sabe se vem de dentro ou de fora. Tem mais motivos para pensar na angústia que um filósofo durante uma conversa com outro filósofo, pelo menos até o momento em que um deles tenha começado a soluçar. Enquanto o “soluçante” ou “soluçador” tenta todas as simpatias, comer chocolate, tomar vinte goles de água (o que poderia fazer passar até uma terrível dor de cabeça – é claro, ela desceria para a barriga! Diria até o mais ignorante), trancar a respiração, enquanto faz tudo isso, nem sabe que momento grandioso é esse que experimenta, mais curioso que o espirro e a perna amortecida. Sempre achei mais interessante a hipótese do susto. Mais interessante e mais absurda também (as coisas absurdas geralmente me soam muito interessantes), já que o susto é quase impossível quando premeditado, salvo o grito inesperado de um experimente algoz. Mas o que se esconde por traz do soluço? Uma filosofia, quem diria. Penso: o que leva alguém a filosofar sobre o susto? Só alguém que é apaixonado por cacos, cacoetes e outros mafuás. Poderiam deduzir: é apaixonado por soluços. Ledo engano. Quem poderia gostar? O soluço é uma das coisas mais inúteis que conheço. No entanto, talvez por sê-lo, seja tão curioso. Quem perderia tempo pensando nele? Talvez Manoel de Barros já tenha poemado sobre o soluço, ou coisa parecida, o que cobriria de encantos até o soluço mais monstruoso ou aquele mais demorado, que vai e volta várias vezes ao longo do dia. Mas não percamos tempo, vamos direto ao soluço. Conheci um vizinho que gravava o próprio soluço e ficava ouvindo várias vezes depois . Outro, não menos doido, contava os segundos entre um e outro, como a criança que conta o intervalo entre o raio e o trovão para tentar perceber o final da chuva. O primeiro vizinho, aquele que gravava os soluços, começou a contá-los, fazendo uma tabela, e catalogá-los quanto à intensidade e duração. Talvez sejam uns malucos. Não sei como não se envergonharam do fato ainda. Pensando bem, devo admirá-los, pois vejo tanta insensatez naquelas atividades quanto num texto como esse que escrevo. Ainda nem sei por que resolvi escrever isso. Talvez para esperar que o meu soluço passe.

sábado, 15 de novembro de 2008

meu porquinho da índia

O primeiro poema que eu fiz eu copiei de uma antologia da Cecília Meireles. Era para impressionar uma namorada. Não é bem isso, ela ainda não era minha namorada, mas eu imaginava que, ao escrevê-lo e mostrá-lo, teria chance maior de ganhar um beijo. E se ela gostasse do beijo, talvez me desse outro, e se ela gostasse do beijo e do poema, talvez me namorasse. Sim, foi o primeiro poema que escrevi. Eu copiei de uma antologia da Cecília Meireles. Nunca tinha contado isso para ninguém, talvez por medo de desmistificar o acontecimento, transformando minha estreia num imperdoável plágio. A Cecília não me perdoaria nunca. Talvez o fato de já me imaginar poeta naquele tempo, mesmo sem nunca ter escrito um poema, com exceção daquele que copiei de uma antologia de Cecília Meireles, me ajudou a buscar a poesia. Talvez para continuar mantendo a ideia de que de aquilo que eu fiz, a cópia, era meu primeiro poema. Talvez, ao ler essas linhas, ela agora lembre o primeiro poema que escrevi para ela e para mim. Talvez ria. Talvez lembre quem era, quem éramos. Não são poucas as vezes que pensei nesse poema, não menos declamei, aos berros quando estava atônito, em silêncio, quando queria lembrar de meu primeiro poema, de minha primeira namorada, e em afago quando queria lembrar quem fui.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O carrasco e a vítima
baudelaireando no séc. XXI

Somos todos Carrascos na cena de Fou Tchou Li E também a vítima. A mirar o linchamento Daquele ser que teatraliza Sua própria morte Sem, no entanto, Urrar de angústia Gritar de dor. Somos todos Carrascos na cena de Fou Tchou Li E o próprio ser que se abre aos cortes Como um cravo desabrocha Fou Tchou Li inventou um outro Bunraku Boneco cheio de sangre Sem nada de lágrima Fou Tchou Li lambe suas próprias chagas E tomado pelo ópio De leve sorri Ao ser esquartejado Fou Tchou Li está em todos os lados O personagem desse kabuki Festeja o suplício dos “cem pedaços”
c.moreira
O ELEFANTE



Eis-me levado em dorso elefantino... Feito o poeta-cometa-semântico Vielimir Khlébnikov Eis-me aqui senhor Eis-me aqui fanfarrão Espero que a tua tromba Não seja senão a de um elefantinho . Tem que ser dos grandes tem que ser dos bons
ora direis elefantinho Ora direis elefantão. Enquanto a virgem se deleita Numa augusta e harolda senda branca e barroca De um agora outro elefante, o traduzido Só me resta subir no seu dorso e seguir adiante

c.moreira
ISTO AQUI NÃO É UM GATO
SEGUINDO OS PASSOS DE MAGRITTE


descrever o olho-objeto cheio de nuances querendo cheio de minúcias extraindo o azul compacto querendo do objeto apenas o ultra super trajeto fazer como se fosse de verdade a ilusão do substrato o azul que mora no olho apenas se diz como se quisesse dar graça no poema a mais presente verdade verdadeira e para que tudo se resumisse e se deixasse em realidade como se as coisas descritas sempre pudessem sempre ser elas de verdade inteiras

c.moreira
WALY AQUI ALI

EU. eu sigo "dos" passos - não "os" passos - do piloto-caixeiro-pirata da Stultífera Navis como quem quer tudo difícil, nada fácil como quem tem "olho míssil, não fóssil"eu apenas sigo, pressinto sinto e me examino na margem de um fonema dissonante na espreita de um tiro sem destino A BALA que me segue pensa que não balança pensa que um dia chega, mas nunca chega, apenas dança É que PRESSINTO olhar para o lado desviar o meu rosto assim meu contínuo ritual, palavra que apago à borracha, DESVIOÂNGULO AMBULANTE assim talvez não me dê nenhum troço, assim talvez eu adie meu súbito final

c.moreira

(foto: parangolé: h. oiticica)
CORPO ANTIGAMENTE



Enquanto minha cabeça pensa Meu corpo pesa. Minha cabeça organiza meu tempo Mas meu corpo nunca espera. Meu corpo tem vida própria E pensa mais nele do que nos outros. No entanto, já sou um outro e mais outro Pensa o meu lado de fora No meu lado de dentro. Sou um mais um igual a um. Minha matemática é morte épica. Enquanto isso, tento comandar Meus anti-parcos instintos, meus lábios famintos, meus desejos fesceninos, Uma coisa estranha que eu mesmo nunca inventei Mas sempre existiu no próprio pensamento Nas ondas e ondas de um bico seio No meio fabuloso de seus pêlos negros Que num simples segundo Desconstroem toda a minha Grade conceitual Essas glândulas-constelações não são astronômicas mas sempre mudam meu astral.

sábado, 13 de setembro de 2008

POEMA PARA CALAR A BOCA

"QUEM ME DERA SE DEUS PERMITISSE
E A TAREFA NÃO SERIA POUCA
DESVENDAR TODOS OS MISTÉRIOS
ESCONDIDOS NAS ESTRELAS
DO CÉU DE SUA BOCA"
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C. MOREIRA

quarta-feira, 3 de setembro de 2008



LEMINSKIANDO

QUEM DE TI NÃO PRECISA,
PRECISA PROEZA,
A PACIÊNCIA ALQUÍMICA
DE TRANSFORMAR FERRO EM OURO
ENQUANTO A BRASA LENTA
ESQUENTA

A PACIÊNCIA DE FAZER
ALGO ALÉM DE ALGO
O MUNDO VELOZ
EM FILME DE CÂMERA LENTA

POETA SEM SETA E SENTIDO
ALVO INVENTA

c.moreira