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quinta-feira, 26 de março de 2020

A identidade de Sofonias Thabor: o relato de uma aventura e o fim de um mistério



(Foto: cortesia Fahena Porto Horbatiuk)


Hino ao Paraná

“Bendizei a nossa Terra
Onde Deus conosco está!
Verde é o mar, azul a serra
Auri-róseo é o chão de lá

Sacra Terra do pinheiro
Lindo e rico Paraná!
Não há igual, no mundo inteiro
Terra assim, não há, não há!

Quanta vez descendo a serra,
Mais encantos descobri.
Quanto amor tenho eu à Terra,
Onde a luz primeira vi!

Beija o Rio, do teu vestido
Toda a fímbria festonada.
O viver só tem sentido,
Em função da Terra amada.

Se, depois da morte, há vida
De minha alma e coração,
Lá estarei, Terra querida,
Bem pertinho do sertão!
(Sofonias Thabor)


Há alguns anos, a professora e amiga Fahena Porto Horbatiuk, publicou um artigo no jornal Caiçara (edição de 29/06/2012), apresentando o livro de poesia "Lira dos Pinheirais", cujo autor assinava com o pseudônimo Sofonias Thabor. A edição viera à lume pela extinta Gráfica Iguaçu, de Porto União. A obra não trazia qualquer outra indicação de autoria e fora publicada sem data. Depois de elogiar os poemas, encontrando neles um ethos bem-humorado, a dicção modernista, e por vezes a forma sertaneja numa louvação ao Paraná, a articulista encerra a sua crônica com as seguintes frases: “Quem souber qual é o nome do autor, possuir alguma dica, peço que nos indique, para que seja mais bem estudado. É um grande escritor”.
Movido pela curiosidade inerente a todo pesquisador, iniciei na época uma investigação para tentar descobrir o ortônimo do ilustre autor desconhecido. Naquele período, coordenava na Unespar um projeto de literatura regional que trabalhava no resgate de autores locais. Qualquer descoberta seria bem-vinda.
O dileto amigo Odilon Muncinelli, em sua coluna “Milho no Monjolo”, no jornal O Comércio, em 2012, comentou o artigo da professora Fahena, aumentando o rol de interessados na identidade de Sofonias Thabor. Passei com Odilon algumas tardes agradáveis conversando sobre o livro e criando hipóteses sobre a autoria. A partir daí iniciou-se a jornada de uma busca intensa. Relatarei aqui brevemente a aventura.
Comecei perguntando para os amigos interessados em literatura na região do Vale do Iguaçu se alguém possuía alguma informação sobre o livro. Nada consegui. Pesquisei na internet para ver se achava alguma ocorrência com o nome Sofonias Thabor. Nada. Folheei antologias de literatura paranaense e catarinense. De igual maneira, nenhum progresso. Procurei sem êxito familiares dos proprietários da Gráfica Iguaçu. E já estava desistindo da busca quando, por acaso, em uma visita à Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, ainda em 2012, encontrei lá uma edição do livro. Decidi perguntar por ele. Descobri no arquivo da biblioteca que a publicação fora ali depositada com um registro em nome de José Antônio Telles, nascido em 1911 e falecido em 1976. Supus que o livro fora doado ao acervo por alguém que tinha conhecimento do nome do poeta, ou quem sabe até pelo próprio autor. Fantasiei que talvez o escritor resolvera deixar uma pista para um possível pesquisador do futuro, alguém interessado em seguir seus rastros. Sendo ou não o autor do livro, o nome de José Antônio Telles já era uma pista.
Chegando à União da Vitória, comecei a procurar pela família Telles. Para minha surpresa, existiam várias. Fui, então, entrando em contato com cada uma delas, perguntando por José Antônio. Nada. Ninguém o conhecia. Até que um dia fiquei sabendo que o pai de um comerciante local se chamava José Antônio Telles. Dirigi-me inquieto ao estabelecimento julgando ter encontrado a identidade de Sofonias Thabor. Para o meu desencanto, o filho de José Antônio me informou que o livro não fora escrito por seu pai. O patriarca da família nem escrevia poemas. Uma pena. Cheguei naqueles dias a enfrentar uma fila no atendimento da Previdência Social para ver se encontrava mais alguma pista. Nenhuma. Quantos Josés Antônios Telles nesse país?
Alguém me assoprou, então, para ir ao cemitério. Lá, talvez encontrasse alguma pista. Com o coveiro do Cemitério Municipal de União da Vitória, procurei nos livros de registro de corpos enterrados até encontrar uma ocorrência com o nome em questão, mas era justamente o pai do dono do estabelecimento comercial, opção já descartada. No Cemitério de Porto União, o coveiro com ótima memória não precisou do livro de registros e me levou até o túmulo de um outro José Antônio Telles. Encontrei um mausoléu simples, mas bem cuidado. A foto mostrava a aparência de um senhor humilde, com jeito de agricultor, ao lado de uma senhora magra, de nome Olga, que tinha o olhar triste e talvez fosse a musa do poeta. Quase certo de que encontrara o escritor, minha euforia só durou o tempo de comparar as datas de nascimento e morte dos dois Josés. Não coincidiam. Eu nem imaginava que o José enterrado ali - que na verdade nunca fora poeta -, seria o bisavô de minhas filhas, alguns anos depois. Elas, aliás, têm também o sobrenome Telles na certidão de nascimento. Só uma curiosidade: certa vez, minha esposa, que não sabia onde o avô estava enterrado - e muito menos de minha pesquisa -, foi levada por mim ao túmulo do vô José. Ficou surpresa que eu e não ela soubesse o lugar exato do sepultamento.
Naqueles dias de pesquisa, procurei muito em jornais locais antigos alguma pista sem sucesso algum. Cheguei a enviar mensagens em rede social a pessoas de União da Vitória e Porto União que possuíam o sobrenome. Ninguém conhecia nenhum José Antônio. Foi nessa época que conheci minha esposa, neta de um deles. O vô dela não escrevia poemas, mas plantava verduras, o que não deixa de ser poético.  
Admiti o fracasso e desisti de outras buscas. Pensei que era uma artimanha do destino esse mistério. A literatura para mim, aliás, tem muito dessas coisas que não se explicam, pistas que levam a lugar nenhum. Aceitei a aporia e deixei o poeta pra lá. Talvez Sofonias Thabor desejasse permanecer no anonimato, ou o momento da revelação ainda não havia chegado. Isso tudo foi há quase dez anos. O José Antônio passou a ser apenas o avô da Géssica, o bisavô da Catarina e da Aurora.
Há alguns dias, lendo o prólogo do livro “Atlas”, de Jorge Luis Borges, encontrei a seguinte frase: "Não há um único homem que não seja um descobridor". Um faísca se acendeu em mim. Não sei o motivo, mas relembrei da "Lira dos Pinheirais", de Sofonias Thabor, e da minha busca perdida por uma identidade velada.
Em tempos de clausura, de quarentena, devido à pandemia de coronavírus, e obrigado a permanecer em casa, resolvi lançar um pedido ao astral, como aqueles escritos em papeis que depois de queimados têm suas cinzas e fumaça levados ao céu. Se Sofonias permitisse o fim do mistério, que me ajudasse a solucioná-lo. Procurando na internet por algumas ocorrências com os vocábulos José Antônio Telles, descobri que na cidade de Castro há uma escola com esse nome, acrescido de mais um vocábulo: Flygare. “José Antônio Flygare Telles”. Descobri também que a data de nascimento e morte do patrono do Colégio eram as mesmas do José registrado no arquivo da Biblioteca Pública do Paraná, a saber 1911-1976. A busca incansável recomeçou. Um trabalho de pesquisa por vezes tem uma boa dose de obsessão. Borges esqueceu de dizer na frase que o descobridor é quase sempre um obcecado. Uma pista leva a outra e vamos tentando decifrar o mundo, como quem navega num hipertexto.
Tentei entrar em contato com a Escola apadrinhada por José Antônio. Sem sucesso. Recesso escolar e ausência de resposta por parte do diretor. Mapeei uma busca virtual pela família Telles, de Castro. E fui entrando em contato com nomes que encontrava. A maioria nada sabia da existência de José Antônio. O senhor Álvaro Telles, por exemplo, sugeriu que eu procurasse uma historiadora da cidade, a Amelia Podolan. Muito solícita e simpática, ela me informou que não conhecia o livro. Tentando me ajudar, descobriu que o José Antônio teria sido casado com uma mulher de sobrenome Gomes, uma família muito antiga que viveu numa região também antiga de Castro. A Amelia me lembrou também que Sofonias é o nome de um profeta bíblico cuja tradução significa “Javé esconde”. Comecei a desconfiar que o José Antônio Flygare Telles poderia ser Sofonias Thabor. E além de tudo, ele estaria pregando uma peça em nós: “Javé esconde”. Eu já estava me sentido o personagem de uma narrativa de Sherlock Holmes ou Dan Brown.  
Paralelamente à conversa com a historiadora Amelia Podolan, conheci, por meio do Facebook, o senhor Antenor Quintiliano Telles, que era sobrinho-neto de José Antônio. Ele se comprometeu a me ajudar e depois de consultar seu pai, me informou que o tio-avô fora de fato poeta. Ele tentaria descobrir se o livro “Lira dos Pinheirais” teria sido escrito por José. Estávamos, talvez, chegando lá. Hoje, acordei com uma mensagem de Antenor contando que recebera de um primo a confirmação da autoria do livro. O ciclo se fechara. José Antônio Flygare Telles era o Sofonias Thabor. Antenor me passou o telefone de dona Yedda, filha do autor. Numa longa e agradável conversa, no início da tarde de hoje, dona Yedda Elvina Telles Bueno me contou que o pai usara o pseudônimo por ser um homem simples, num ato de pura timidez (Mais tarde, Antenor Telles me enviou uma informação importante: Tabor é uma comunidade de Castro, no Distrito de Socavão, onde se encontrava a Fazenda Esperança, que pertencia ao pai do poeta. Até hoje a comunidade leva esse nome). O escritor era natural de Castro, sendo um dos filhos mais jovens de Francisco Telles e Josephina Flygare. O nome José Antônio fora dado a ele em homenagem ao avô, que era um índio guarani. Pelo telefone, fiquei sabendo que o poeta, com aproximadamente onze anos, foi morar na Alemanha, onde estudou música, vindo a se transformar num exímio compositor paranaense. A dona Yedda chegou a publicar uma obra com composições musicais para piano e violino compostas pelo pai. José Antônio além de compositor e poeta foi professor de Língua Portuguesa, de Química e de Música. Era um apaixonado por Literatura. A filha me informou ainda que sua tia Maria Emilia Telles Bauer morou um tempo em União da Vitória, e que teria sido ela a responsável pela publicação do livro. Imaginei que por ser de origem alemã, e tendo morado na Alemanha, Maria Emilia teria ficado amiga do proprietário da extinta gráfica Iguaçu, de Porto União, que era alemão. Questões de interesse étnico-cultural bem poderiam ter aproximado ambos.


Foto: Acervo Família Telles (cortesia Sr. Pedro Telles, sobrinho do poeta)
José Antônio está assinalado


José Antonio Telles com 62 anos
(Foto: Cortesia Yedda Elvina Telles Bueno)


Depois de desligar o telefone pensei na forma curiosa como o universo, por meio de muitas causas, vai atuando sobre nossa vida. O artigo da professora Fahena e as conversas com o seu Odilon me levaram até Sofonias Thabor. Sofonias, por sua vez, me levou até José Antônio. José Antônio me levou a muitos Josés, um deles o avô de minha esposa. Sem essa busca talvez meu destino de família fosse outro. Um outro José Antônio é o poeta e músico Flygare Telles. Esse que hoje se reconhece publicamente aqui. O Sofonias Thabor. Thabor, aliás, é o nome de uma alta colina da Galileia, onde teria ocorrido a transfiguração de Jesus Cristo, sendo por isso considerado um lugar santo e místico, “Har Tavor”, o Monte da Transfiguração. Transfigurar-se, figurar-se em outro, apresentar-se por meio de um pseudônimo, para um dia elevar-se - quem sabe no fim de um suposto mistério -, no dia da revelação. No livro de Sofonias, na Bíblia, aparecem com força as imagens de uma canção da alegria, ou seja de uma música. Sofonias, aliás, parece-me agora obviamente um nome muito musical. O maestro escolheu bem seu pseudônimo. Estava na cara e eu não percebi. Do livro pulam alguns versos de “Saudades do Paraná” (Toada Sertaneja) e Sofonias/José volta a cantar: “Então, adeus, ó minha gente! / Vou pro mato me mudá: / Meu coração só está contente, / No sertão do Paraná”.

Caio Ricardo Bona Moreira,
Professor de Literatura Brasileira na Unespar, campus de União da Vitória



quarta-feira, 27 de abril de 2016

O velho Guaráu ou o poeta sapateiro (da série: Origens da poesia em Porto União da Vitória)


Porto União da Vitória - 1912 - Foto: Claro Janson

Curiosamente, ao ler os Apontamentos Históricos de União da Vitória (1768-1933), de Cleto da Silva, em um pequeno parágrafo, aparentemente fortuito, cuja leitura distraída poderia obliterar o fato descrito, encontramos uma informação que pode iluminar uma reflexão sobre os pioneiros da poesia em Porto União da Vitória. Em meados do século XIX, quando a cidade era uma pequena vila, um dos primeiros moradores, chamado Antonio Joaquim Castilho, mais conhecido como o velho Guaráu, era um exímio tocador e ponteador de viola. Segundo o historiador dos Apontamentos, o sujeito sabia fazer uma “porfia em regra”, bem como “não se descuidava de fazer sapatos 'grosseiros' e chinelas, pois tinha o ofício de sapateiro”. Ora, fazer porfia com a viola significa duelar em forma de versos, à moda do repente, que é uma das manifestações mais expressivas da literatura oral popular. Se estivéssemos buscando o nosso primeiro poeta, o que de fato não é nossa preocupação, talvez o encontrássemos nas porfias do velho Guaráu. Dos poemas escritos um de nossos primeiros registros pode ser encontrado também nos Apontamentos de Cleto da Silva. Trata-se de uma passagem assinada por F. de Castro em um documento referente à demarcação de limites entre o Brasil e a República Argentina datado de 8 de Novembro de 1889, momento em que o Império agonizava enquanto a República se preparava para nascer. Uma semana depois da assinatura do documento pelos componentes da comissão, proclamava-se a República no Brasil. Os versos de F. de Castro parecem prefigurar os acontecimentos iminentes: “O progresso é uma força que não para / Está no alto mar, está no Sahara / Em toda parte está / Gravitando co´os os céos / vôa co´os ventos / E dilatando a esfera dos pensamentos / A luz também lhes dá” (apud SILVA, 2006, p. 55). 

terça-feira, 26 de abril de 2016

Joaquim Serapião do Nascimento (da série: Origens da poesia em Porto União da Vitória)


Em 2016, comemora-se 100 anos da intervenção poética de Serapião do Nascimento na cidade de União da Vitória, quando no dia da inauguração da Ponte Machado da Costa, em novembro de 1906


Em União da Vitória, o nome do professor Serapião é associado à escola que leva seu nome. Sabe-se que o poeta nasceu em Iguapé, no Estado de São Paulo, em 1847 e que, ainda jovem, veio para o Paraná, onde abraçou o magistério. Dirigiu o Colégio Nossa Senhora da Luz, em Curitiba, e fundou o Colégio Santana do Iapó, no município de Castro, em 1882. Veio para União da Vitória em 1901, onde lecionou durante vários anos, vindo a falecer em Curitiba , em 11 de junho de 1911. Serapião foi também dramaturgo, deixando as seguintes peças de teatro: "13 de Maio", "O Cocheiro", "Arte na Roça", "José do Egito", "O Nascimento de Jesus", "O Filho Pródigo", "O Sr. Aprígio em Apuros", "A Carta que Dá Dinheiro", a "Vítima do Jogo" e "Honrarás teu Lar". Aliás, estas duas últimas, montadas na década de 50 pelo Teatro Experimental do Guaíra e dirigida por nada mais nada menos que Dalton Trevisan.

Fora isso, pouco se sabe sobre sua vida e sua obra. Quem visitar as dependências da escola Serapião do Nascimento não encontrará fotos de seu patrono. E se procurar sua imagem em arquivos públicos, tampouco. Até o momento não há fotografias conhecidas do eminente professor. Sua imagem sobrevive no legado da obra e em um desenho de Dirceu Marés de Souza, provavelmente produzido a partir de descrições, pois quando Dirceu nasceu o poeta já havia morrido. É possível que a imagem tenha sido inspirada nas mesmas descrições apontadas por Alvir Riesemberg, em um texto lido no Clube Apolo, em comemoração ao centenário do Grupo Escolar Professor Serapião, que descreve o mestre: Estatura alta e compleição robusta. O cabelo branco atirado para trás, o bigode torcido em gui fina, o cavanhaque prolongando-se em ponta. Expressão franca, olhar inteligente, gesto largo. Indumentária sóbria e bem cuidada"um 'croisé' de alasticotina emoldurado com a gola de seda o peito engomado da camisa, sobre cuja alvura nitente enlaçava-se a gravata preta" (apud MELO JÚNIOR, 1990, p.110). 

A descrição reproduz o depoimento de seus contemporâneos. Dupla condição do fato: Alvir relembra Serapião, mas o que lembra é a lembrança de outros. Difícil saber onde termina a realidade e começa a ficção.      

Estamos diante de um mistério. Seria o seu cabelo tão avolumado quanto nos mostra o esboço? Seriam o seu bigode e cavanhaque tão discretos assim? Os traços de Dirceu fazem de seu modelo uma figura semelhante a Trotsky. Não apenas pelo cabelo e cavanhaque mas também pelo rosto anguloso e olhar profundo e revolucionário. Se o desenho não condiz com a realidade, não importa. A ilustração de Dirceu nos legou um Serapião. Temos uma imagem para o poeta. E ela nos basta. Talvez algum dia uma fotografia apareça. E se a imagem de Serapião for o seu avesso, não faz mal. Teremos a foto em que o poeta é e  o desenho onde ele é o que poderia ter sido. Por enquanto, fiquemos com a imagem de poeta e professor revolucionário que já atuava no magistério quando o líder bolchevique nasceu.



Lev Davidovich Bronshtein, "Lvov", "Pero", "Trotsky"


Uma outra observação pode nos ajudar a formar uma imagem do poeta-professor. Alvir Riesemberg escreve que um antigo aluno de Serapião o comparou aos Mosqueteiros de Dumas, "não só pela aparência física, mas também pela reação pronta e viva do espírito, sempre segundo a mais bela padronagem moral, em face das solicitações da vida"(apud MELO JÚNIOR, 1990, p. 111).


Douglas Fairbanks como D'Artagnan, em 1921, no cinema

Chama a atenção não apenas a esparsa obra do intelectual, cujos originais em sua maioria foram extraviados, mas principalmente a atitude poética presente na trajetória de Serapião, provavelmente nosso primeiro poeta performático. Há um episódio que ilustra bem esse fato. No dia 26 de novembro de 1906, em comemoração à inauguração da Ponte Ferroviária Machado da Costa, o poeta escreve um famoso poema dedicado à União da Vitória e o espalha pela cidade no grande dia. Aquele era um momento de grande otimismo não só na cidade mas em todo o mundo, tendo em vista que vivíamos uma época de intensas transformações técnicas e mecânicas. Nesse sentido, "progresso" era uma palavra de ordem que aparecia no poema de Serapião como sintoma de seu tempo.

Vale lembrar que no mesmo ano em que se deu a inauguração da ponte - que para o município simbolizava uma época desenvolvimentista -, Santos Dumont realiza seus voos em Paris com o 14BIS. Em 12 de novembro de 1906, em Bagatelle, duas semanas antes de Serapião escrever o poema, o pai da aviação aprimora sua máquina de voar, realizando com o Oiseau de Proie III o voo que lhe rendeu o Prêmio do Aeroclube da França e o reconhecimento internacional.

Segundo o registro de Alvir Riesemberg, o dia de inauguração da ponte foi magnífico. A cidade decorada com bandeiras e guirlandas comemorava ouvindo a banda de música de João Holmann, que viera de Ponta Grossa especialmente para o evento. Foguetes eram lançados ao céu e, à noite, em uma sessão solene no Clube União, uma "cabocla bonita do jararaca", a Luíza Amâncio, descalça e toucada de flores, representava União da Vitória: "Diante dela, o Professor Serapião declamou, fremido, o poema que compusera naquele dia" (apud MELO JÚNIOR, 1990, p. 113):    

Selvagem qual bugre nu:
Banhada pelo Iguaçu,
À beira dele nasceste,
Linda cabocla indolente!
A dormir em mata ingente,
Entre colinas cresceste! 

Como criança da roça,
Foi teu berço uma palhoça
Erguida em férteis zonas,
Foi teu primeiro luzeiro
O vaporzinho CRUZEIRO
Do Coronel Amazonas! 

Qual cordilheira dos Andes,
Vazada em cadinhos grandes,
Cogitavas inativa! 
Então ribombou por tudo,
Assim como um grito agudo,
A voz da locomotiva. 

Do ventre a saltar fumaça,
Ei-la ligeira que passa
Do Estado a maior ponte:
É o progresso nos trilhos
Em procura de outros brilhos
De cintilantes horizontes! 


Eis a cabocla bendita
De pé, no banco da glória!
Cercada de lindas flores,
Ao som de cantos de amores,
Eis a UNIÃO DA VITÓRIA! 

O poema composto predominantemente por sextilhas, em um conjunto de versos heptassílabos com rimas emparelhadas - esquema muito comum na tradição da poesia popular de língua portuguesa -  faz lembrar a estrutura rítmica romântica de Castro Alves e Casimiro de Abreu, cuja lírica é exaltante e grandiloquente, ou seja, entendida como linguagem em estado de ânimo. Como era comum no final do século XIX e início do século XX a leitura dos poetas do romantismo, é provável que Serapião tenha deles sofrido forte influência. Não seria fortuito comparar o sentimento de amor por União da Vitória em seus versos com o ufanismo da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, cujo poema é também formado por sextilhas emparelhadas - como em Castro Alves e Casimiro de Abreu, no entanto, agora de versos heptassílabos. A diferença é que nos versos de Serapião não estamos diante de um exilado e sim de alguém que adotou a terra estrangeira como seu legítimo chão. Dificilmente, um estrangeiro conseguiria traduzir com eficiência um sentimento tão forte pela terra que lhe deu guarida se não considerasse seu espírito como parte dessa realidade.      

O fato de o poema na sua última estrofe contar com apenas cinco versos, e não seis como nas estâncias anteriores, cria um efeito inusitado - semelhante ao do soneto que nas duas últimas estrofes possuem um verso a menos do que nos quartetos iniciais -, pois à medida que deixa a impressão de estar faltando o último verso, como que deixando o leitor a espera de um final, desloca a atenção para o nome da cidade. Independente desse efeito ter sido ou não planejado pelo poeta, o seu resultado é eficiente.

Outro aspecto que chama a atenção no poema é a forte carga imagética que ele materializa, como a pintar um quadro vivo da cidade em pleno processo de transformação, do estado natural - em que a cidade é percebida e personificada como um bugre nu, uma cabocla indolente, uma criança da roça -,  passando pelo processo da colonização, figurada na referência ao Vapor Cruzeiro do Coronel Amazonas, ao momento de desenvolvimento técnico e econômico, cujo caminho é a glória. Da predominância de vocábulos com pouca sonoridade (bugre nu / Iguaçu / dormir), que sugerem uma espécie de estado selvagem da própria língua, o poema passa à recorrência de palavras sonoras: (glória, linda, Vitória, locomotiva), como que a constatar a metamorfose da cidade em prol do progresso e da civilização.

É uma pena que o tempo tenha tratado de apagar a obra poética de Serapião. Não encontrei mais do que seis poemas de sua verve: o poema sobre União da Vitória, o poema escrito em 1910, em homenagem a João Gualberto e aos militares do Tiro Rio Branco, depois de serem recebidos como heróis em Curitiba, dois poemas para Amélia, sua esposa, e o outro escrito quando completou sessenta e dois anos de idade que tem como tema uma reflexão sobre a sua vida.  Há também um poema sobre a cidade de Morretes: 



Caio Ricardo Bona Moreira

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Mimoso Ruiz (da série Origens da poesia em Porto União da Vitória)



Alexandre Nogueira Mimoso Ruiz (1887-1951) é certamente uma das figuras mais curiosas e menos conhecidas da história de Porto União da Vitória. O poeta e jornalista era um português nascido em Lisboa, onde foi vice-presidente da Associação dos Trabalhadores da Imprensa de Lisboa. Em 1912, quando era redator do jornal A Nação, em Portugal, foi preso provavelmente por criticar a República recém implantada. Julgado em 1913, e condenado a dois anos de prisão, foi restituído à liberdade em 1914. Em 1922, transferiu-se para o Brasil com a finalidade de chefiar a delegação portuguesa nas comemorações do centenário da Independência do Brasil.
O poeta se instalou em Santa Catarina e interessando-se pela vida pública foi correspondente de guerra, cobrindo campanhas militares e incorporando-se como 2° Tenente voluntário à Força Pública, atingindo o posto de capitão. Em Florianópolis, dirigiu o jornal Folha Nova, lecionou na Escola Regimental Marechal Guilherme e nos cursos de Preparação Militar e de Aperfeiçoamento de Oficiais.



Pouco se sabe sobre a atuação de Mimoso Ruiz em Porto União. O que pode ser apurado é que ainda na década de 20, o poeta residiu na cidade, onde criou o jornal A Voz do Sertão, lançado em 13 de Abril de 1926. No periódico, que parece ter tido tendências políticas voltadas para o apoio a Victor Konder e a Washington Luiz, podem ser encontrados vários poemas do jornalista, que versam sobre temas variados. Em um deles, numa das dez quadras decassílabas, defende Anita Garibaldi: "Correr p'ra Garibaldi como um astro, / casar mais tarde, é ter perdido a linha? / Porventura se perdeu Ignez de Castro / a qual depois de morta foi rainha?".  Em outro, intitulado "Cantores Caboclos", de forma métrica relativamente livre, canta a sua paixão por uma cabocla. Trata-se de um poema que assimila, em um processo de obnubilação das origens portuguesas, o universo regional e popular do sul do Brasil, tanto no tema, na forma, como no vocabulário: "Ch'ucro na tropa / desta vida no rodeio / na mangueira dos teus braços / ando em busca de custeio // na herva-mate dos lábios seus / eu quisera morrer viciado / perdoe-me Deus // Oh quem pudera / ir tomar cheio de desejos / na cuia da sua boca / chimarrão feito de beijos". 
Na edição de número 12, veiculada em 4 de julho de 1926, Mimoso apresenta dois sonetos com temática polêmica. Em ambos, a igreja é o cenário de um encontro voluptuoso entre Cristo e uma fiel. No primeiro, intitulado "Jesus Crucificado", o poeta imagina ter visto uma troca de olhares entre Jesus e a moça, criticando tanto um como o outro pelo ato. O poeta se encerra com uma imagem no mínimo curiosa, A Virgem Maria sai de seu altar e se dirige ao filho para cobrar-lhe a falta. O segundo soneto, intitulado "Coração de Jesus", está diretamente ligado ao primeiro, funcionando como sua continuidade, depois da saída da jovem da igreja, o poeta volta à igreja e percebe que Jesus, com saudades da jovem, abandona o altar, deixando em seu lugar o Coração Sagrado. Trata-se de uma publicação bastante profanadora, principalmente em um jornal da pequena cidade de Porto União. Podemos imaginar a impressão de estranhamento ou revolta que pode ter causado entre os religiosos e fiéis que, por ventura ou desventura, leram A Voz do Sertão, naquele 4 de julho. Tanto um quanto o outro soneto fazem lembrar de alguns poemas de Cruz e Sousa como "Cristo de Bronze", que rebaixa a figura de Jesus, ao apresentá-lo como uma figura luxuriosa.





É provável que tenha residido também em Valões, tendo em vista que uma nota publicada na edição de número 8 do Jornal, de 06 de junho do mesmo ano, informou que Mimoso Ruiz, por ser forçado a residir em Porto União devido à publicação do jornal, solicitou ao chefe de polícia do Estado a sua exoneração do cargo de Delegado Especial de Valões. O pedido foi aceito.  

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Cícero França (da série Origens da poesia em Porto União da Vitória)


Cícero França (1884-1908), figura quase esquecida das nossas letras, foi incluído por Andrade Muricy no Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro. Dos primeiros poetas da região, foi o que mais se projetou no cenário literário brasileiro. Filho de Napoleão Marcondes de França e de Francisca Olímpia Silveira de França, e sobrinho do Coronel Amazonas, o local de seu nascimento é incerto. Alguns biógrafos apontam a Fazendinha (Rosal do Cruzeiro), em Palmas, como sendo o local de seu nascimento. Outros indicam União da Vitória.

Como os arquivos do Cartório de União da Vitória anteriores a 1938 foram perdidos, o mistério provavelmente perdurará. Independente de sua origem, é certo que a família do poeta viveu em União da Vitória, projetando-se no cenário político e econômico da região. Com base nos poucos relatos biográficos, podemos afirmar que Cícero França possuía um espírito viajante e aventureiro, pois além de morar em União da Vitória, viveu em Curitiba, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.

 

Cícero França 

Raul de Almeida Faria, em seus diários, compilados por Paulo Roberto Karam, relembra sua grande amizade com o poeta de Necrotério D'Alma, nascida no Colégio Paranaense, quando eram ainda estudantes, e onde Cícero publicou seus primeiros poemas no jornal O Estudo, periódico cultural do Colégio. Raul lembra que Cícero "sempre que podia deliciava-se em estudar a metrificação do verso". Por volta de 1900,  o jovem foi à Bahia se preparar para a Faculdade de Medicina. Lá, hospedado no Hotel Sul Americano, trocou correspondência com o amigo Raul de Almeida Faria e aproximou-se do grupo simbolista Nova Cruzada. No fascículo VII da revista simbolista Nova Cruzada, de Salvador, publicada em novembro de 1901, há uma nota que informa a admissão de Cícero França como novo membro do grupo: "Em sessão extraordinária, de 21 do corrente, receberam a investidura de cavaleiros da Nova Cruzada os ilustres moços Barros Leal e Cícero França sendo respectivamente saudados por seus paraninfos Rafael Leal e Galdino de Castro". 

A pesquisadora Cecilia de Lara, que estudou a atuação do grupo simbolista baiano e a revista por ele fomentada, observou que essa sociedade literária tinha reuniões ordinárias e extraordinárias, feitas para admissão de novos sócios ou por outros motivos, e sessões comemorativas. Ela informa também que as sessões de ingresso eram memoráveis e fascinadoras pelo conjunto artístico que "apresentavam nos melhores matizes do pensamento aprimorado, perduravam nos motivos de palestras em todos os meios da velha Salvador. A revista Nova Cruzada foi uma das mais importantes do simbolismo. Não nos foi possível apurar se Cícero França chegou a conhecer e travar amizade com Pedro Kilkerry, um dos grandes poetas brasileiros do início do século que também integrou o grupo. No entanto, é bem possível que tenham se conhecido.  


 

Foto rara (sem data) de Cícero França ao lado do Dr. Helvidio Silva, publicada na revista ilustrada A Bomba, em Curitiba, 1913. O poeta está de chapéu e livro na mão:o dandismo característico dos poetas da belle époque 

Em fins de 1901, Cícero se reencontra com Raul de Almeida Faria e ambos vão para São Paulo, com a finalidade de se matricularem na Faculdade de Direito. Foram morar em um apartamento na rua José Bonifácio. Tratava-se de um quarto "nada consolador", localizado no andar superior de uma casa importadora de azeite, querosene e bacalhau que davam ao ambiente um cheiro peculiar que desagradava os seus moradores. Nesse momento se intensifica a produção de Cícero. Raul lembra do ritual segundo o qual se submetia o poeta, fumante e bebedor inveterado de café, quando escrevia: "Tinha o meu companheiro de quarto uma graciosa esquisitice: Não escrevia a não ser com as pernas estiradas numa cadeira que, cuidadosamente, punha a certa distância daquela em que se sentava". Depois de desistirem da Faculdade de Direito, os dois amigos foram para o Rio de Janeiro, em uma pensão. Cícero se aproximou do poeta Emilio de Meneses, participando, assim, do ambiente cultural da belle époque carioca. 

O diário de Raul de Almeida Faria apresenta um episódio que demonstra o gênio bondoso de Cícero França: "Espírito de uma sensibilidade excessiva, dotado de um caráter forte e de um grande coração, praticou o Bem , a Caridade com grande devotamento. Um dia chegava a pensão um moço maltrapilho que fez entrega à dona da casa de um bilhete que meu amigo lhe endereçava dando ordem para ser entregue ao portador um terno de roupa já seu usado. Por engano foi-lhe entregue roupa nova, chegada de véspera do alfaiate a quem tinha sido paga com algum sacrifício. Cícero, chegando em casa, ciente do engano, não censurou a precipitação do nosso senhorio: riu-se rematando o fato com essa expressão de bondade:...'e o manata meteu-se na minha roupa nova'". Foi nessa época que Cícero, depois de cuidar de um "serenatista" que havia contraído tuberculose, começou a piorar da doença que lhe tiraria a vida.Em Curitiba, muito doente, Cícero organiza o livro de poemas Necrotério D'alma, lançado em 1905, no mesmo ano em que fundou o jornal O Rebate, em União da Vitória. 

A obra Necrotério D'Alma, uma das mais decadentistas da moderna poesia brasileira, é comentada em jornais paranaenses, como A Notícia que, durante todo o mês de novembro daquele ano, informa que o livro estava sendo vendido na Livraria Econômica, em Curitiba, Paranaguá e Ponta Grossa. Ainda no final de 1905, entra em circulação mais uma edição da revista simbolista Stellario, de Curitiba, que conta com a colaboração de Cícero. O que demonstra que o poeta consegue se projetar na literatura paranaense que, por sua vez, era o cenário mais fecundo do simbolismo brasileiro.  


 
Propaganda do livro, veiculada em 1905 pelo jornal paranaense A Notícia 

Os primeiros poemas que integram o Necrotério D'alma são datados de 1901 e 1902 e indicam que foram escritos na Bahia, o que demonstra que a participação do poeta do grupo da Nova Cruzada foi bastante motivador para o seu trabalho. No entanto, ao folhear as páginas da revista, não encontramos nenhum trabalho seu publicado. Esse fato talvez se dê pelo pouco tempo que Cícero França passou em Salvador, pois logo voltou ao Paraná. Independente do fato de ter colaborado ou não na revista, as impressões deixadas pelo grupo no poeta foram fortes, a ponto da capa de seu livro indicar que o autor do livro pertencia ao grupo baiano. 



Poema que integra Necrotério D'Alma 

Necrotério D'Alma é composto por 26 sonetos. Em todos, o tom é cinzento e lúgubre, fazendo lembrar o tipo de melancolia presente em vários poetas simbolistas, principalmente naqueles em cujo trabalho transparece o sentimento de decadência fin du siècle. Seus versos, de métrica predominantemente alexandrina, estão atravessados pelo sentimento de spleen baudelaireano que motivou boa parte da produção poética do final do século XIX. É provável que Cícero França seja um dos poetas mais decadentistas do seu tempo. Temas como a morte, a dor e o tédio formam um eixo sob o qual se move uma poesia interessada em imagens como a da sepultura, a da caveira, a da tuberculose, a do cadáver, a das trevas, entre outras. Ao longo das páginas, à medida que lemos, assistimos a um desfile de horrores: fantasmas rindo, esqueletos nus gargalhando, corvos e mochos grasnando, sinos de igreja tocando. O sentimento de decadência é eximiamente materializado no poema "Porque", no qual observa que a rosa murcha que levava na lapela simbolizava o padecer de um torturado. A flor murcha, sintoma de uma natureza decaída, parece uma imagem bastante adequada para traduzir o spleen de um eu-lírico imerso em um sentimento de decadência.


O primeiro poema do livro, "Entrae", uma espécie de preâmbulo, é importante para situar o universo da obra. Nele, ela é apresentada como um necrotério. O poeta convida o leitor a entrar sem nojo para mirar e "autopsiar" o cadáver de sua alma. Não há podridão ou pus, já que um "cadáver de alma essas coisas resiste". Todavia, o sentimento de decomposição - decadência - percorre todas as páginas. O convite é reforçado no poema "Finis", quando o poeta constata a sua própria morte, descreve a chegada do cadáver ao necrotério e instiga o leitor a pegar o bisturi para abri-lo. A impressão é a de que estamos caminhando pelo necrotério de Paris, estabelecimento que, na segunda metade do século XX, foi aberto para visitação. Tratava-se de um espetáculo mórbido, em que a morte era transformada em show.


Capa de Necrotério da Alma (1905) 

No poema intitulado "Tédio", Cícero França explora o topos do já citado spleen baudelaireano, recorrente em vários poetas simbolistas: "Um tédio monacal - tédio feroz, maldito - / Mortifica meu peito! a gargalhar, me invade, / Sarcástico, fatal o coração precito / E deixa-m'o ferido e cheio de ansiedade." Como não aproximá-lo aqui do poema "Tédio", de Júlio Pernetta: "Vês que trago o coração sangrando / Pela perfídia de um amor enorme? / Alma de Jó, sou bem desventurado / Dentro da treva a soluçar-te o nome" (in MURICY, 1987, p. 419). Enquanto o tédio de Júlio Pernetta é alimentado pela impossibilidade de possuir a amada, em Cícero França é a própria vida, acompanhada da doença, o motivo do tédio. No entanto, o sentimento de decadência vem acompanhado de uma esperança: "E quando a extrema-uncção d'um Pôr de Sol de Agosto / No meu corpo cair bem de mansinho e brando / E a luz de outro viver banhar-me todo o rosto...". Esse é o momento em que o tédio do poeta acabará. Portanto, a morte para o poeta não tem o sentido negativo de finitude, mas sim de transcendência, uma filosofia comum no simbolismo, aproximando-se assim do poema "Tédio", de Saturnino de Meireles, publicado em 1903, e que via nesse triste desalento o sentimento de um céu que fazia fluir neblinas.


Nos versos de "Phtisica", expressão comum na época para designar a tuberculose, o poeta prevê o seu de seus dias movidos pela doença. À meia-noite, o poeta ouve o som tenebroso dos sinos de uma igreja, e tem uma visão: "É a Phtisica maldita... Essa visão fatal / Murmura ao meu ouvido um prenúncio de morte / E diz-me porque tusso e a causa do meu mal...". O poeta luta, mas sente que a tuberculose lhe rói o corpo e a alma. Em "Augural", Cícero escreve: "Segreda-me uma voz que cedo morrerei". Como o prenúncio se fez como previsto, o poema acaba por ganhar uma força bastante trágica. Não seria fortuito lembrar que o crítico simbolista Gonzaga Duque, no ensaio "Imagistas e nefelibatas", publicado na revista Kosmos, em maio de 1906, sublinha o gosto decadista pelo tema da tuberculose, vendo nela um dos traços espirituais da poesia de B. Lopes. O último poema do livro, "D'alem Túmulo" é uma espécie de texto post-mortem, pois é escrito como se o poeta já se encontrasse no além fazendo uma espécie de balanço de seus feitos na terra. Impressionou-nos o fato de termos encontrado um poema psicografado pelo médium Chico Xavier atribuído a Cícero França. O confronto da linguagem desse texto com os poemas de Necrotério D'Alma demonstra uma semelhança significativa.  

         
Fotografia do poeta publicada na revista Olho da Rua,em 7 de setembro de 1907 

Em 1908, bastante debilitado, o poeta decide visitar a família em Porto União, mas morre no Hotel Palermo, na Praça da Matriz, em Ponta Grossa, na noite de 10 de julho, sendo assistido pelo irmão mais novo Vespertino França, responsável pelo seu espólio. O corpo foi transportado para União da Vitória, onde foi cuidado pelos membros da loja maçônica Amor e Caridade. O corpo está sepultado no Cemitério Municipal. No texto que integra a segunda edição do livro, Vespertino escreveu: "(...) poucas horas antes de expirar recordou comigo passagens de nossa vida em família, fez algumas recomendações e já alta madrugada, mandou que me deitasse para repousar. Pela manhã, quando acordei, encontrei-o morto. Assim, fui eu, que contava apenas meus 12 anos de idade a única pessoa presente nas suas derradeiras horas de vida".

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Romeu Balster (da série: Origens da Poesia em Porto União da Vitória)

Poema de Romeu Balster publicado no jornal União, em 08 de agosto de 1920. O periódico circulava em Porto União. Quem teria sido Iêdda? Teria existido? O poema é dedicado a um tal Ranulpho. Seria o pai do anjinho? A influência da "art nouveau" do início do século passado aparece nos detalhes decorativos que acompanham o poema. A poesia aparecia com frequência nos jornais de nossas cidades já naquele tempo.



Romeu Balster nasceu em Paranáguá em 1884 e faleceu em União da Vitória em 1932. Fez o curso de Humanidades em Itu, São Paulo, dedicando-se mais tarde à carreira jornalística. Em Porto União, na década de 20 fundou o jornal União. É autor do famoso "Brasilíadas", longo poema satírico que parodia os Lusíadas de Camões. são 54 composições em forma de oitavas com decassílabos. O livro foi publicado em 1926 com o pseudônimo Mephisto.  





Capa do livro Brasilíadas, desenhada por Alceu Chichorro. 


Poema que abre o livro Brasilíadas, num franco e parodístico diálogo com os Lusíadas

Em 1926, Filippo Tommazo Marinetti vem ao Brasil divulgar o futurismo italiano e proferir algumas conferências. Enquanto muitos intelectuais saúdam e ciceroneiam o vanguardista, outros veem no gesto de louvor um ato condenável pela relação de proximidade do escritor com o fascismo.  Romeu Balter, com o pseudônimo Mephisto, publica no jornal O Dia, em 14 de maio, o poema "Ao grande embrulhador". Ao se apropriar ironicamente de uma linguagem próxima às inovações futuristas, o poeta desqualifica Marinetti: "Não vejo razão de festas, / Ao Marinetti, o Brasil, / Conta escritores bastas / aos mil... // Quanto aos poetas, / patetas / Que não sabem o ABC / Ora esta é boa / À toa / por toda parte se vê... // Quanto aos pintores, / Senhores, / Marinettissimamente / No claro escuro / de um muro / quanta gente? // Nos ramos todos da Arte / Nós brasileiros podemos / Mandá-lo ir àquela parte / Pois melhor que ele já temos". O poeta forja o neologismo "marinettissimamente" para caracterizar o modo os artistas procuravam produzir a sua obra, pautados por um estilo que visava ao invés da politização da arte a estetização da política. Considerando, lucidamente, o italiano como um embuste, Romeu Balster encerra o poema concluindo que no Brasil existiam poetas melhores, aproximando-se assim de uma linhagem de escritores que viu com desconfiança a presença de Marinetti entre nós, como é o caso de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, em São Paulo. O ativismo poético e político de Balster demonstram que o escritor estava informado sobre os acontecimentos literários que transcendiam o âmbito provinciano paranaense, o que, aliado ao seu virtuosismo poético, rendeu-lhe um poema que, "marinettissimamente" irônico, rechaçava Marinetti.