Na revista Diadorim, da UFRJ, o meu texto sobre o romance O Som do rugido da onça, da Micheliny Verunschk
Imaginando e traduzindo O som do rugido da onça: reflexões sobre um romance de Micheliny Verunschk
Na revista Diadorim, da UFRJ, o meu texto sobre o romance O Som do rugido da onça, da Micheliny Verunschk
Imaginando e traduzindo O som do rugido da onça: reflexões sobre um romance de Micheliny Verunschk
https://africaeafricanidades.com.br/documentos/ARTLIV10_ed.47-48.pdf
"Esses hóspedes sem peso" (Editora Nave, 2023), de Dennis Radünz,
é um livro que devolve sentido e graça a uma ideia literária muito recorrente -
para não dizer quase gasta - traduzida na expressão "ler é uma
viagem", ou na equivalente "escrever é uma forma singular de
viajar". A obra é uma espécie inusitada de álbum de viagens, ao passo que
poderia ser pensada como a viagem propriamente dita. Difícil imaginá-la sem as
fotografias - quase todas elas tiradas pelo próprio autor - que acompanham a
coletânea de textos. Aliás, tais imagens se constituem como
crônicas-poético-visuais, cumprindo o papel de serem ao mesmo tempo "uma
coisa alheia, mas inteirada", recorrendo aqui a uma expressão usada por
Valêncio Xavier, quando falou do seu fascínio pelas fotografias de Luigi
Crocenzi no romance Conversa na
Sicília, de Elio Vittorini.
Penso que a expressão esteja ligada ao fato da fotografia estar e não estar diretamente relacionada com o sentido dos textos. Essa dimensão, do que é alheio e ao mesmo tempo inteirado, é responsável pela potência enigmática das imagens dialéticas que se disseminam a partir da relação entre fotografia e texto. O alemão W.G. Sebald desenvolveu procedimentos semelhantes em seus livros. Neles, as fotografias aparecem como estrangeiras e simultaneamente muito mais do que meramente ilustrativas.
A obra de Radünz reúne, além dessas
imagens, uma série de prosas que são reviagens do autor a lugares de sua
infância ou àqueles por onde ele passou um pouco antes da pandemia. As fotos
que o cronista-poeta-fotógrafo catarinense fez desses 'locus" dão um toque
especial ao volume.
Poderíamos pensar que autor e leitores são
hóspedes do livro enquanto as crônicas são suas anfitriãs hospitaleiras. Flâneur
andradino, perambulo feito um turista aprendiz em uma série de lembranças evocadas
pelas memórias do escritor. Da minha e sua infância
com os Beatles, com os blocos de madeira de montar (aqueles que vinham com
torres de relógio e telhados), e nossa vocação para a construção de cidades em
miniaturas, sinônimo da própria literatura - essa máquina de guardar o mundo
nos livros ou de carregá-lo, feito um Atlas, nas costas -, vamos percebendo que
ler e escrever são formas não só de buscar o perdido, mas também de remontar o
passado e o presente criativamente.
A experiência do confinamento pandêmico
parece ter motivado sua escrita, ou pelo menos amplificado a potência de seus
sentidos, afinal de contas viajar (pelo tempo e pelo espaço) é uma forma de
reencontrar o mundo e as pessoas em um momento de clausura e luto. Na reviagem,
a imaginação ressignifica as descobertas do turista que tem olhos e ouvidos
dispostos a captar aquele "rés-do-chão" que um dia Antonio Candido
observou como um elemento importante para fazer da crônica, como gênero, “uma
inesperada embora discreta candidata à perfeição”.
Na segunda parte do livro predominam o que
poderíamos chamar de viagens via leitura. Estão ali os textos que abordam a
morte da mãe do narrador. É quando o conjunto vai ficando mais comovedor. Mas
agora o pesar, embora sendo também pela genitora, é principalmente por todos os
mortos da Covid. Nesse sentido, penso que a publicação é mais sobre a vida e a
morte, do que sobre a viagem, ou melhor, talvez seja sobre a viagem pela vida
através de tantas outras viagens, inclusive a da morte.
Em "Esses hóspedes sem peso", a
viagem é antes de tudo pela própria língua. É quando a geografia se faz mágica
como em Guimarães Rosa. Constitui-se aí uma escrita a nos lembrar que o
livro, assim como um rio, se “translocaliza”. Fica aquela impressão de que não
há nele nada fora do lugar, ou seja, de que a direção do seu autor está onde
deveria estar, seja no Acre, no Pará, Mato Grosso, Paraná ou Santa Catarina,
bem como em outros lugares visitados. No horizonte do vírus, se dá um encontro
com o Brasil, ou ainda com a necessidade de reencontrá-lo na iminência de tanta
morte.
Insisto na ideia de que estamos diante de
um livro de viagem que é a própria viagem, ou seja, uma obra tornada viagem (um
jeito de Dennis ser Galáctico, como Haroldo de Campos, com as devidas e óbvias
distâncias, é claro). Uma viagem em torno de si, acima de tudo, como em Xavier
de Maistre. A ideia de uma viagem via linguagem, tal como se constitui na
escritura de Radünz, parece encontrar ressonância em experiências como a do
cubo-poema Linguaviagem, de Augusto
de Campos (1967-1970). A palavra, que virou título de um livro do poeta
concreto, é o resultado do desdobramento das partículas LIN / GUA / VIA / GEM,
em variadas direções de um cubo. Tais elementos morfológicos, postos em
movimento, dão a dimensão polissêmica dos neologismos LINGUAVIAGEM / VIALINGUAGEM.
Se por um lado do cubo o livro promove a viagem para sanar a clausura via
língua, por outro, nos leva até a língua e nela faz a sua viagem.
Caio Ricardo Bona Moreira
Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 02 de dezembro de 2023.
Caio Ricardo Bona Moreira
A literatura é mesmo uma máquina de costurar. Um
livro, consequentemente, o objeto de sua tessitura. Na colcha de seus retalhos
imperam sempre os restos de outras peças, ou pedaços de variados tecidos não
cerzidos até então. O cinema também guarda na sua essência essa vocação para o
corte e para a costura. Foi justamente nesse quesito que o filósofo Giorgio
Agamben demarcou a relação entre a poesia e a arte cinematográfica. Aprendemos
com o filósofo italiano, em seu ensaio sobre Guy Debord, que o homem é um
animal que vai ao cinema - e por que não dizer à literatura? - porque como
nenhum outro ele se interessa pelas imagens mesmo depois de reconhecê-las como
tal.
Pensando não apenas em Guy Debord, mas também em
História(s) do Cinema, de Godard, Agamben observa que o princípio constitutivo
do cinema é a montagem, pautada pelos procedimentos de repetição e paragem,
fundamentais para a construção de sentidos de suas cenas. Como na poesia, a sua
força dependerá principalmente da capacidade do artista em manejar cesuras e
encadeamentos, como um alfaiate cerze o linho, a seda ou o algodão. A mesa de
trabalho, tanto para cineastas quanto para escritores, nesse sentido, se
caracteriza de fato como uma ilha de edição ou um ateliê de confecção. Essas
são ideias que me chegaram durante a leitura da reunião de contos "Quem
costura quando Mirna costura", de Fabiano Vianna. Trata-se de seu primeiro
livro, lançado em 2021, pela Arte & Letra. O escritor, no entanto, há uns
bons anos já vem publicando em jornais e revistas os seus contos.
Penso que o primogênito livro de Fabiano (recentemente, ele lançou a coletânea de contos "A inesperada gravidez da casa de lambrequim", também pela Arte e Letra) deveria ser incluído em uma série imaginária que poderíamos chamar de "Obras de sobrevivência", a saber, aquelas que parecem ser tocadas direta ou indiretamente pela experiência da pandemia. As publicações que integram esse conjunto, além de serem fruto de um contexto histórico bem específico, formam uma textualidade que imagino ter ajudado seus agentes, escritores e leitores, a atravessar os dias e as noites da peste com menos tristeza e um pouco mais de prazer e alegria. Sem tais elementos, inclusive, a leitura não passaria de exercício monótono. O livro de Fabiano é um desses trabalhos emblemáticos que consegue fazer experiência em um mundo destroçado pela crise pandêmica. Escrever ou ler suas páginas é uma forma de lidar com a crise, bem como um jeito de matar a saudade da rua, da cidade e das pessoas. Sob essa perspectiva, a literatura pode ser encarada como uma máquina capaz também de transformar a solidão em felicidade, ou de manter a tristeza à distância, ou ainda de adiar a morte. Não tem sido assim desde tempos imemoriais? Sherazade tecia histórias para não morrer, assim como Penélope tricotava produzindo um adiamento perpétuo de seu próprio luto. Em boa parte dos contos de Fabiano, assistimos ao encontro inusitado entre vivos e mortos.
Poderia falar aqui da potência pictórica da sua literatura, atravessada por sua atividade como ilustrador, aspecto já apontado por Jonatan Silva, que por sinal caracterizou o autor como um "cronista do invisível", do irreal, "daquilo que está nas ruas, nos terreiros e nas lembranças de várias gerações". A dimensão espiritualista embutida aí parece aguçar os sentidos do artista, numa vocação quase rimbaudiana para a vidência, assim como a dimensão de cronista da cidade, à la João do Rio, parece estar presente tanto em seus sketches urbanos quanto em seus contos, assim como a presença da memória de uma Curitiba retrô tende a alimentar também a sua mesa de edição. Aliás, para Waly Salomão, a memória é por si só uma ilha de edição.
No livro de Fabiano, o saudosista encontra o autor inventivo, assim como numa mesa de montagem o cineasta encontra o poeta. O livro é sobre tudo isso misturado e também sobre gestos que só podem ser capturados com eficiência no ato de leitura. É quando sua escritura escapa do comentário se instalando em um espaço que transcende a própria razão, e a tudo aquilo que se liga a ela, diga-se de passagem, a interpretação, a crítica, a caracterização de seus gêneros etc. É quando também o escritor faz suas mandingas para seduzir o leitor afinal de contas, como no universo popular, costurar é uma forma mágica de curar uma rasgadura por meio de benzimento.
Estamos diante de um livro que
correlaciona as dimensões do visível e do invisível em seu sentido sobrenatural
- muitas personagens que figuram nos contos são tanto emblemáticas como fantasmáticas
-, bem como em seu sentido rememorativo, já que sua narrativa, em especial a do
texto "Ana e o Espelho" (um dos mais bonitos do volume), produz
imagens dialéticas nas quais passado e presente se interpenetram sem cessar.
Nesse conto, uma jovem, enfadada pelo isolamento, volta no tempo depois de
entrar em um espelho da família, indo parar em uma Curitiba de décadas atrás.
Há uma série de imagens recorrentes no livro que
apontam para a literatura entendida como uma máquina não apenas de produzir
imagens, tal como em Bioy Casares, mas também de salvar o mundo - entenda-se
aqui o mundo dos narradores. Uma máquina capaz de costurar os retalhos de um
presente dominado pelo medo da morte e da destruição. Certos signos vão
apontando para essa perspectiva ao longo de sua escrita, como, por exemplo, na
aparição de um crânio, que "segura a porta para não bater com o
vento" ou de um assoalho carcomido, ou de algum mofo numa roupa ou numa
determinada parede.
A pandemia inclusive chega a aparecer de forma praticamente
explícita em alguns textos que compõe a obra. O sentimento dessa decadência tem
valor sintomático (basta lembrar das revistas Lama e Lodo, editadas por
Fabiano, com uma pegada pulp).
O escritor tece a si mesmo como uma espécie de colecionador (sem saber o porquê sinto aqui a presença de Arthur Bispo do Rosário e seus mantos costurados). Isso porque o livro é um lugar capaz de ficticiamente armazenar o que está aqui do lado de fora. Ali, no texto, quem escreve guarda pedaços do mundo, em várias caixas que vão aparecendo ao longo dos contos. A máquina de costura encontra correspondência em outra imagem recorrente no livro, a do taxidermista, que pode ser lida como símbolo do autor compreendido como ente capaz de embalsamar e consequentemente preservar na obra os restos do mundo. Ao lado de signos da decomposição, figura o formol. O espelho, outra imagem recorrente nas histórias, sinaliza não apenas para a presença do duplo, facilmente encontrada na literatura latino-americana, mas também de uma máquina do tempo. Entrar no espelho é aqui uma forma de proliferar não apenas imagens, mas também lembranças, tudo margeado pelo filtro do enigma.
Na Curitiba de Vianna, desfilam as balas Zequinha, a figura do
lambe-lambe, o dirigível a lembrar uma baleia ou vice-versa, os antigos
estabelecimentos e suas paisagens, o Rio Juvevê, o Cine Avenida, a Casa Roskamp
etc.
A escrita de certos autores familiares a Fabiano ecoa
nas narrativas curitibanas do livro. Valêncio Xavier, Manoel Carlos Karam e
Dalton Trevisan parecem conversar com Cortázar, García Márquez e Italo Calvino
nos jardins do Passeio Público ou nos bancos da Praça Osório e suas calçadas
petit-pavé. No livro, a tradição visual de um Poty pervive não apenas nas
ilustrações realizadas pelo próprio Vianna, mas também nos curiosos Potypos,
esses estranhos gigantes que outrora habitaram a cidade. Tais personagens,
assim como certos autômatos, bonecas e fantasmas dão a dimensão criativa de seu
nonsense.
A prosa de Fabiano, abolindo os limites entre a vida e a morte (invertendo as polaridades da existência, o que nos leva a concluir, por vezes, que os mortos somos nós, como no pequeno conto "Os intrusos"), ressignifica a ideia da literatura como uma forma não apenas de enganar a morte, mas também de congelar (conservar) a vida, sem privá-la necessariamente de seu inerente movimento. Nesse sentido, sua costura devolve vida a uma imagem bastante presente no imaginário da literatura curitibana, a do Frankenstein, como um dia Valêncio Xavier já foi tratado. Tal monstro costurado há de estar passeando, feito um vampiro, pelas ruas noturnas dessa cidade, até porque, todos sabemos, os mortos não morrem mais. Nos tempos recentes de uma crise sanitária, o livro parece dar vida àquilo que julgávamos há muito extinto, assim como problematizar o nosso tempo como um lugar também de morte, creditando à literatura o poder de driblar os fantasmas de nosso presente.
Em
"Quem costura quando Mirna costura", quem cura é o pajé que chega de
helicóptero no hospital para ministrar suas ervas ao convalescente. Nessa cena,
para além do absurdo, a literatura de Fabiano parece se revestir dos sentidos
mais profundos de cura. E sobrevivemos graças também às suas histórias.
Texto publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, no dia 30 de outubro de 2023.
link:
As datas
cabalísticas me convidam a pensar na vida
E agora fico sabendo dos 70 anos do Caiçara. No
breve instante do apagar de suas velas, o tempo para e me vejo nos tempos de
piá mirando aquelas páginas num ritual que coincidia com a expectativa do
início do fim de semana.
Vem-me à lembrança essa cena: Na casa de meu avô, às sextas-feiras, eu via descansando sobre uma poltrona ou o criado-mudo, onde jazia um velho telefone vermelho - daqueles que precisávamos de fato discar -, a edição semanal do então hebdomadário. Religiosamente, aquele pequeno indígena da primeira página vivia sorrindo pra mim (quem, aliás, o desenhara?). É quando a memória da infância se confunde com a imagem que fazemos dela e dos objetos que costumávamos vislumbrar.
Folhear hoje o jornal, essa
espécie de Rosebud, é uma forma de tocar proustianamente aquele tempo de meninice.
Mordo essa madeleine! Por isso a
versão impressa me parece mais romântica e bela que a digital. Achava um barato
nas edições especiais de Natal aquela proliferação de propagandas de lojas ou
políticos desejando boas festas aos leitores. Os cartões natalinos preenchendo
praticamente todas as páginas do jornal.
Um dia, já professor, fui até
a redação, que ficava no Executive Center.
Lá, encontrei a dona Lulu concentrada a ler alguma coisa diante de uma mesa
repleta de papeis. A fundadora do Caiçara me pareceu séria e solícita. Apresentei
um texto e ela gentilmente o publicou. Era um artigo que eu escrevera depois de
visitar uma exposição de quadros do Carlos Kussik, cujo trabalho muito me
impressionara. Pouco depois, o jornal trouxe a lume mais um ou dois textos
meus. Quase dez anos depois, atendendo a um convite do Delbrai, que depois de
Lulu ficara de chefe da tribo, comecei a colaborar mais assiduamente. De 2017
até o presente momento, caiçara de carteirinha há sete anos, embora nem sempre
tão assíduo, publiquei aqui quase uma centena de textos. Guardo todos em uma
pasta do computador intitulada “Textos Caiçara”. Quase todos sobre literatura.
A maior parte sobre livros e autores que me encantam (costumo dizer que só
escrevo sobre o que amo, nem que seja para falar mal).
No espaço da Coluna, que me
foi gentilmente cedido, pude viajar de César Aira a Raduan Nassar, de Bernardo
Carvalho a Enrique Vila-Matas, de Roberto Bolaño a Silviano Santiago, de
Clarice Lispector a Ailton Krenak, de Gonçalo Tavares a Mariana Ianelli e
tantos outros. Metido, arrisquei palpitar sobre alguns filmes, e arranhei uns
pitacos musicais do samba ao jazz (como todo bom brasileiro se sente preparado
para dirigir a Seleção mesmo não sabendo jogar quase nada). O amável jornal
inclusive teve a petulância de publicar uns dois ou três poemas e contos que
rabisquei. Ali, recuperei uns episódios curiosos ocorridos em Porto União da
Vitória, e li textos bons de muita gente boa, do Craque Kiko, do Cadinho, do
Carlos Senkiv, do Renê, da Marga, do Delbrai, dos professores Luisandro,
Fahena, Marli, Lorena, Vitor e tutti quanti.
No tempo que estive aqui, vi
o cerco político se fechar no Brasil dos últimos anos e junto de outros colegas
tivemos a liberdade de escrever o que pensávamos. Essa propensão ao espírito
crítico, que é uma força do jornal, parece estar no cerne da sua criação,
motivada por uma crueldade local que Lulu Augusto e seu irmão Dante de Jesus
julgaram fundamental denunciar e combater. O seu espírito libertário parece
combinar com a jovialidade e alegria de seus atuais diretores e colunistas
também. Desejo que o mascote do Jornal, aquele índio alegre estampado na capa,
continue periodicamente descendo de uma estrela colorida e brilhante, impávido
que nem Muhammad Ali. Talvez seja ele um pouco o "eu" menino, o índio
que sempre quis ser, a me olhar nos olhos como quem imagina o futuro do passado
naquelas tardes de sexta ou sábado de minha infância, sem nem imaginar que um
dia o meu avô poderia ter lido os textos do neto ali. Acredito que escrever é
sempre uma forma de organizar o pensar, ou seja, de “desbagunçar” o caos. Uma
alegria também. É mesmo uma possibilidade de encontrar o mundo e as pessoas, e
- por quê não dizer? - de fazer amigos. Quem me lê agora, por exemplo?
Estaremos juntos de mãos dadas nessa hora? Congracemo-nos antes de você virar a
página. Dou-lhe um piparote tal qual Machado de Assis. Que possamos continuar
nos reencontrando aqui. Evoé!
Caio Ricardo Bona Moreira
(Edição 2594, 12/08/2023 - Jornal Caiçara, União da Vitória PR)
Eis que versa o seu lamento
Morrer é assim
"Dario Vellozo: Em busca do templo perdido", da Editora Humana, no acervo da Biblioteca Pública do Paraná
Ainda dá tempo de ler mais um livro em 2022. 📚 Estas são algumas obras que fazem parte do acervo da BPP. #bibliotecapr #literatura #recebidosbpp
Participei no dia 28 de novembro de 2022 da Semana de Extensão e Ensino, de História e Cultura afro-brasileira da Unespar, campus de União da Vitória, com uma conferência de abertura sobre a obra de Eliana Alves Cruz. Uma atividade voltada à Semana de Consciência Negra.
Título da Conferência: "Os figurantes: esses protagonistas, ou os escombros da experiência diaspórica em O crime do cais do Valongo, de Eliana Alves Cruz"
Fragmento:
O
romance O crime do cais do Valongo,
investindo seu olhar no que poderíamos chamar de “estética da encruzilhada”, ou
“arte do encruzamento”, ou ainda “poética do cruzo”, promove um encontro entre
diferentes elementos narrativos. Aliás, o conceito de encruzilhada é amplamente
discutido por pensadores como Luiz Rufino (2019), inserindo-o no universo da
filosofia e da educação, como uma espécie de sabedoria de fresta, uma espécie
de jogo contra o carrego ocidental e a violência do colonialismo. Eliana faz do
limiar, ou melhor, da encruza, o lugar de contato entre dois países, Moçambique
e Brasil, entre dois continentes, a África e a América, entre dois tempos, o
início do século XIX e o início do XXI, entre duas dimensões, o Orum e o Aiyê
(céu e terra na língua do colonizador), entre dois narradores, Muana Lomuè e
Nuno Alcântara Coutinho. Tais encruzamentos dão sentido à experiência diaspórica
que é pano de fundo da obra. Maria Farias Rebelo, no recente artigo “Sobre
cruzos, soterramentos e redescobertas” (2022), em que analisa a literatura de
Eliana Alves Cruz, centrada na figura do cais do Valongo, já apontou para o conceito
de encruzilhada, tal como desenvolvido por Leda Maria Martins, com o objetivo
de “deslindar o caráter rizomático da cultura africana que, na diáspora
brasileira, se conforma em especificidades plurais de performances e movências
(...)”. Além dos cruzos do espaço físico, da pluralidade de
narradores, dos mundos variados postos em questão, Marina Rebelo chama a
atenção para a relação entre letrados e não-letrados no livro, entre deslocados
e realocados na diáspora, entre mortos e vivos.
Para ela, o Valongo acionado como operador teórico no livro, “(...) é
centro deslocado de um mundo em que vida e morte coexistem”.
Seria
o momento de perguntarmos o que fazer para que as vítimas do crime do cais do
Valongo ganhem voz, nome e rosto, e não desapareçam soterrados no limbo da
história? E qual é o papel do romance nessa tarefa?
Se
há uma desproporção entre a experiência vivida pelos homens escravizados e seus
relatos sobre essa experiência - tendo em vista o processo de silenciamento a
que foram submetidos milhões de negros na diáspora (quase não há testemunhos)
-, não seria o caso de recorrermos à literatura, e mais precisamente à
imaginação, para além da pesquisa arqueológica e historiográfica, pois que
imaginar é também uma forma de saber. Lá onde falham os arquivos, se alevanta a
imaginação.
Na noite de 27 de outubro, conversei com Fernanda Meireles - neta de Cecília Meireles - em seu canal no Instagram, sobre a vida e obra dessa autora que tanto admiro. Cecília é uma voz incomum, um caso singular na literatura de nosso país. Cecília, aliás, é de todo o mundo e de outros mundos também. Ler seus poemas é uma ótima forma de descobrir quem somos, ou o que deveríamos ser. Acho o "Romanceiro da Inconfidência" um dos livros mais bonitos da literatura brasileira, uma obra atual e necessária. Fernanda tem disseminado com muita força e júbilo a obra de sua avó. Uma alegria mesmo! (Fernanda, que é também desenhista, me retratou em uma ilustração. Agradeço o presente)
A conversa pode ser assistida aqui (parte 1)João Moreira Salles, em “No Intenso Agora”, documentário lançado em 2017, parte de vídeos caseiros e anotações realizados por sua mãe durante uma viagem à China, em 1966, confrontando este episódio com uma reflexão sobre as manifestações de Maio de 68, na França, sobre a Primavera de Praga, e sobre a Ditadura Brasileira. O que todos esses acontecimentos têm em comum, além de atravessarem ou serem atravessados pelo mesmo tempo, é uma questão que vai se delineando ao longo do filme, a saber, a forma como a história é filmada, ou seja, a maneira como os levantes são registrados. O título do filme aponta para uma das chaves de sua leitura, que é a questão do tempo, a forma como lidamos com ele, ou melhor, a forma como somos transformados por suas imagens. O documentário é nesse sentido profundamente contemporâneo, assim como o nosso tempo é profundamente político, assim como é político todo o tempo para todos aqueles que em sua época o experimentam em profundidade.
Os episódios que percorrem “No Intenso Agora” estão a sinalizar os espectadores para incêndios futuros. Se esses acontecimentos estão no filme é porque alguém os registrou. Eles estão na história. Em um momento o cineasta observa que essas imagens existem porque a liberdade de expressão não acabou de um dia para a noite. À medida que isso acontecia, aumentava a sensação de urgência, enquanto ainda era possível o registro, o testemunho. O filme, nesse sentido, acaba refletindo também sobre os usos políticos das imagens. O que fazer com elas? Ou ainda, como fazer o levante, ou melhor, como filmar a história no Intenso Agora? A nossa proposta é promover com a conversa a proliferação dessas perguntas. Sobre o ciclo O ciclo “Imagens para sobreviver ao contemporâneo” reúne palestrantes de diferentes campos dos estudos literários para debater questões contemporâneas marcadas pelo signo da urgência. A ideia é que cada palestra parta de uma imagem ou de um grupo de imagens para tecer suas formulações. Esta proposta está baseada em uma esperança – possivelmente infundada ou infundável – aberta pelo conceito de Nachleben cunhado por Aby Warburg: se as imagens sobrevivem ao tempo, são inerentemente anacrônicas, então talvez refletir sobre elas nos possibilite sobreviver e mesmo reverter o fluxo de tempos sombrios.
Estarei na Semana Literária do Sesc. No dia 15 de setembro, às 19h30, no auditório da Unespar, campus de União da Vitória, participarei com a professora Karim Siebeneicher Brito de um bate-papo com o tema "Territórios Imaginários: vozes em trânsito". O foco da conversa será o meu livro "Esquinas", lançado pela Micronotas, em 2020.
Yehuda Amichai:
No dia em que minha filha nasceu não morreu ninguém
"No dia em que minha filha nasceu não morreu ninguém.
No hospital, e no portão de entrada
o aviso disse: "Hoje kohanim têm permissão para entrar."
E foi o dia mais longo do ano na minha grande alegria.
Eu me dirigi com meu amigo para as colinas de Sha'ar Ha-Gai.
Vimos um pinheiro doente, não havia nada sobre ele, mas estava carregado de pinhas.
Zvi disse que as árvores prestes a morrer produzem mais pinhas que as árvores saudáveis.
E eu lhe disse: Isso que você fez, mesmo sem sabê-lo, foi um poema.