







Lembremos que a capa da revista Pallium, lançada em Curitiba em 1898, apresentava também uma caveira, funcionando como um pingo do i. Se de um lado a caveira representa a natureza petrificada da morte, a decadência, por outro, representa o surgimento de algo novo, uma nova realidade. Walter Benjamin dizia que a decadência não implica necessariamente numa desaparição, mas sim no surgimento de alguma coisa que ainda não conseguimos definir. Esse “algo”, aqui, é Lama, uma lama neobarroca, barrocodélica, para usar uma expressão de Haroldo de Campos. Saúdo sua aparição e aproveito para parabenizar a iniciativa da Fundação Municipal de Cultura de União da Vitória, em promover acontecimentos literários como esse.
Caetano Veloso, que há muito tempo vem se interessando em debater questões relativas à nação, apresentou Lévi-Strauss como personagem na música “O Estrangeiro”. Chamou a sua atenção o fato de o antropólogo não ter simpatizado com a Baía de Guanabara. O francês reaparece, mesmo que implicitamente, na música “Um índio”. O verso “num claro instante” foi extraído ipsis litteris da edição brasileira de Tristes Trópicos. Mas o fato é que a figura de Lévi-Strauss, ou melhor, de sua obra, no bojo do pensamento estrangeiro sobre o Brasil é uma constante na obra não só do tropicalista, mas de vários intelectuais. Em novembro de 1993, Caetano proferiu uma conferência no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro intitulada “Diferentemente dos americanos do norte” (No mesmo ano, a revista Veja - 16 de junho de 1993 - realizou uma matéria sobre o pai do estruturalismo. Nela, publicou fragmentos de uma entrevista em que ele observava de maneira pessimista as transformações sociais lembrando que chegaria o dia, e ele estaria próximo, em que os antropólogos serviriam de “tema de estudo para os índios que andam de carro e avião”. A matéria observa que a moda estruturalista passara. Sua vertente marxista não ressoava mais, e seu arauto, Louis Althusser, morrera louco. Seu veio psicanalista “esfacelara-se em mil igrejinhas já antes da morte de seu xamã, Jacques Lacan”. Restara Lévi-Strauss, pelo menos até essa semana). A conferência de Caetano foi publicada integralmente no livro O mundo não é chato, e também em uma versão reduzida, sob o título “Utopia Z”, na Folha de São Paulo, no suplemento Caderno Livros, em 1994. Em uma das passagens da conferência, Caetano levanta uma breve reflexão acerca da visão pessimista dos estrangeiros sobre o Brasil. Lembra de Contardo Calligaris, que, tendo se apaixonado pelo país, escreveu um “livro devastador das nossas possíveis esperanças”, em que vê nas projeções dos poetas populares da Bahia o nosso possível único esboço de um projeto de identidade e nacionalidade. Nesse contexto, Caetano enxerga no tropicalismo a regeneração do mercado de música popular no Brasil e a elevação do nível intelectual de sua produção e sua crítica, a outro tipo de diálogo com os estrangeiros. Lévi-Strauss reaparece na conferência. Caetano lembra que o antropólogo fez um retrato desalentador da vida intelectual brasileira. Em uma das passagens de Tristes Trópicos, sobre São Paulo, afirmou que no contato com seus alunos da então inaugurada USP, aprendeu, vendo-os “Transpor em poucos anos uma diferença intelectual que se poderia supor da ordem de muitas décadas, como morrem e como nascem as sociedades”. Aliás, nessa época, falo dos anos 30, depois de aceitar o convite de Célestin Bouglê para lecionar sociologia na USP e antes de voltar para a Europa em 1939, Lévi-Strauss vem para o Brasil e faz amizades importantes. Basta citar Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A sua comunicação com os modernistas foi profícua. Segundo Fernanda Peixoto, “é Mário quem atrai o casal Claude e Dina Lévi-Strauss para os projetos culturais e científicos implementados em sua gestão (Mário dirigia entre 1935 e 1938 o Departamento de Cultura de São Paulo). Aliás, é a municipalidade de São Paulo, por meio do poeta, uma das financiadoras da expedição de Lévi-Strauss ao Brasil central, realizada em 1937 e 1938” (Folha de São Paulo, 22 de maio de 2005). Durante a expedição, Mário e o antropólogo trocam correspondência. Numa delas, Lévi-Strauss confessa que as condições materiais da expedição eram duras. Em outra, agradece ao material enviado por Mário – livro e ensaio, afirmando que o autor de Macunaíma permitiu que ele se aproximasse de mais um aspecto do Brasil, a música: “Sou-lhe mil vezes grato”. Na carta de 17 de janeiro de 1938, observa que os nambiquara exibiam uma nudez agressiva, o que era uma pena, pois “seus corpos não são bonitos”. E por aí vai.
Em Verdade Tropical, o fantasma do francês também aparece algumas vezes para confirmar o interesse de Caetano por seu pensamento. Mas se no primeiro momento Lévi-Strauss se decepciona com o que encontra nos trópicos, querendo talvez voltar logo para a sua terra natal, por outro, o país o faz repensar toda a sua postura como etnólogo europeu. Relembremos uma das cartas que trocou com Mário em 38: “Quanto à viagem, foi longa e difícil. Mas jamais esquecerei esses oito meses, repletos de experiências apaixonantes. Em termos científicos, creio que recolhemos um belo material, e muita coisa nova. O suficiente para alterar profundamente os conhecimentos atuais. Sinceramente, penso que a expedição marcará época”. Daí um otimismo até aparece para marcar presença. Em uma das passagens finais de Tristes Trópicos, afirma que o indivíduo não está sozinho no grupo e cada sociedade não está sozinha entre outras, o homem não está sozinho no universo: “Quando o arco-íris das culturas humanas tiver terminado de se abismar no vazio aberto por nossa fúria; enquanto estivermos aqui e existir um mundo, esse arco tênue que nos liga ao inacessível permanecerá, mostrando o caminho contrário ao de nossa escravidão, e cuja contemplação proporciona ao homem, ainda que este não o percorra, o único favor que ele possa merecer: suspender a marcha, conter o impulso que o obriga a tapar, uma após outra, as rachaduras abertas no muro da necessidade e a concluir a sua obra ao mesmo tempo em que fecha a sua prisão”. O estilo literário do livro só confirma o que o etnólogo defendeu algumas vezes: a idéia de que Tristes Trópicos surgiu em parte em um estado de raiva. Raiva de si mesmo. Sem perceber, ele cedia ao desejo de fazer uma obra literária.
A morte de um dos últimos grandes intelectuais do século XX (Ser tratado como um clássico e ser classificado entre os maiores pensadores do nosso tempo o comovia, mas ao mesmo tempo o incomodava e o irritava) não apaga o seu pensamento, que deixou rastros fortes nas ciências humanas em geral. Tristes Trópicos, publicado pela primeira vez em Paris, pela editora Plon, em 1955, continua sendo um dos principais livros de antropologia do século XX.
Jacques Derrida, que era um exímio leitor de Lévi-Strauss, soube “jogar” com seu o pensamento estruturalista, desconstruindo-o. O filósofo da différance, em um dos textos que integram A escritura e a diferença, lembra que em La Pensée sauvage, Lévi-Strauss apresenta com o nome de bricoleur aquele que utiliza “os meios à mão”, isto é, “os instrumentos que encontra à sua disposição em torno de si, que já estão ali, que não foram especialmente concebidos para a operação na qual vão servir e à qual procuramos, por tentativas várias, adaptá-los, não hesitando em trocá-los cada vez que isso parece necessário, em experimentar vários ao mesmo tempo, mesmo se a sua origem e a sua forma são heterogêneas”. Derrida lembra que o termo bricolagem foi associado ao princípio de escritura da crítica literária. No entanto, vai mais longe. Para ele, toda a operação de texto é uma operação de bricolagem, pois nenhum sujeito é a origem absoluta do seu próprio discurso. A bricolagem estaria para a noção de procedimento, tal como Aira desenvolve em seus romances e “teoriza” em Pequeno Manual de Procedimentos. Ready-made como procedimento e bricolagem. Nesse sentido, o próprio Tristes Trópicos vai mais longe. Não se trata apenas de um relato, mas de procedimentos de leitura, desenvolvidos a partir do contato com o outro – que é ele próprio. Somos estranhos para nós mesmos. Acender uma vela para o estruturalismo, rezar para Saussure, por mais estranho que pareça, foi uma forma de desmontar o discurso tradicional das ciências humanas. As reflexões de Lévi-Strauss sobre o poder da escrita em comunidades selvagens foram mote para Derrida desenvolver seus argumentos de Gramatologia, obra fundamental do teórico franco-argelino. Derrida faz um elogio a Lévi-Strauss no texto “A estrutura, o signo e o jogo no discurso das ciências humanas”. Observa que La Pensée sauvage é o momento em que o seu discurso sobre o mito se reflete e se critica a si próprio. Mas qual seria, assim, a virtude mitopoética da bricolagem? O desconstrutor responde: “Efetivamente, o que parece mais sedutor nesta pesquisa crítica de um novo estatuto é o abandono declarado e toda referência a um centro, a um sujeito, a uma referência privilegiada, a uma origem ou a uma arquia absoluta. Em Gramatologia, Derrida lembra das páginas que o antropólogo escreveu sobre a escritura: “Poucas páginas, sem dúvida, mas notáveis sob vários aspectos: belíssimas e feitas para espantar, enunciando na forma do paradoxo e da modernidade o anátema que o Ocidente obstinadamente retomou, a exclusão pela qual ele se constituiu e se reconheceu, desde Fedro até o Curso de Lingüística Geral.

Lévi-Strauss, que fez sobreviver o pensamento primordial de Rousseau, de certa forma, perpetuou certas concepções de linguagem que remontam a Platão, no que se refere à violência da escritura. Os Nambiquara que não escrevem são considerados bons, puros. Possuem um poder fantástico de mnemotécnica. O antropólogo, numa das passagens dos seus estudos, lembra de um índio que para exercer poder sobre os outros, fingia que sabia ler. Daí poderíamos supor a crítica endereçada aos jesuítas, que através da escrita, teriam violentado esses bons selvagens. Derrida percebera que o campo da fala não-escrita também deveria ser tratado como escritura, o que colocaria em xeque certas noções platônicas: “Isso quer dizer que, se é preciso ligar a violência à escritura, a escritura aparece bem antes da escritura no sentido estrito: já na diferência ou na arquiescritura que abre a própria fala”. Neutraliza-se assim a fronteira entre os povos dotados de escritura e os povos desprovidos de escritura. Derrida não destrói Lévi-Strauss. Pelo contrário, desconstrói o seu sistema, ou seja, percorre suas linhas até chegar a um ponto nevrálgico. Lá, inverte-o, reinventa-o. As oposições são questionadas pelo filósofo, portanto é comum encontrar abraços e socos aos longo das referências a Lévi-Strauss. Minha hipótese (a de um humilde e reles leitor que se considera um simples aprendiz) é a de que se Lévi-Strauss é o pai do estruturalismo (Saussure seria o seu avô e Hjelmlev seu padrasto), Derrida é o pai do pós-estruturalismo (estranho chamar Derrida de pai, tendo em vista toda a sua crítica em relação ao PAI FUNDADOR (Ver a Farmácia de Platão). No entanto, não podemos desconsiderar que o pós-estruturalismo não destrói o estruturalismo. Desconstruir, para usar uma explicação de Derrida, “significa” pensar a genealogia estrutural de seus conceitos “de maneira mais fiel, mais interior, mas, ao mesmo tempo, a partir de um certo exterior, por ela inqualificável, inominável, determinar aquilo que essa história foi capaz – ao se fazer história por meio dessa repressão, de algum modo, interessada – de dissimular ou interditar”. Em outras palavras, RELER. Ora, reler não é uma das mais bonitas formas de render homenagem? Então, digam o que disserem, que o estruturalismo já morreu, e Lévi-Strauss continuará suscitando uma série de questões fundamentais não só no âmbito da antropologia, mas da lingüística, da literatura, da filosofia, entre outras áreas. E para não perder a poesia: Imagino que os pais do etnólogo, vendo o filho embarcar para o Brasil em 1934, desejaram-lhe boa viagem. Agora, alguns dias depois de sua morte, resta-me dizer: Boa Viagem! A essa hora, ele deve estar em alguma tribo do vasto universo, sentado ao lado de Foucault, Lacan e Barthes, tal como aparece no desenho de Maurice Henry. Todos vestindo uma bela tanga e discutindo as estruturas elementares de parentesco. Lacan, é claro, com gravata borboleta.







Miguel Sanches Neto já se aventurou em diversos gêneros literários: escreveu poesias, contos, crônicas e romances. No entanto, como bom escritor que é, sabe que os gêneros são sempre movediços. Os gêneros existem para serem experimentados. Prova disso é o seu mais recente romance, A primeira mulher, lançado em 2008, e considerado por ele como um romance “quase” policial. Segundo Vilma Costa, em artigo publicado no jornal Rascunho, o suspense é um dos fios desse tecido textual, mas não tem um fim em si mesmo, não pretende o grande desfecho de soluções acabadas. Nesse sentido é “quase”: “Não porque fique devendo, mas porque é mais que isso, outros fios sustentam a trama e ganham importância, tanto na constituição da temática amorosa, quanto na discussão da linguagem que experimenta dizer o indizível”. Esse universo do “quase” poderia passar despercebido por um leitor desatento.
Se falei que o assunto do livro é apenas mote, isso não significa que o enredo não seja interessante. Pelo contrário. Sanches Neto consegue explorar com destreza aquelas duas dimensões da narrativa abordadas por Michel Foucault no ensaio “Por trás da fábula” (que tratei em um texto anterior sobre Chico Buarque), de 1966. Trabalha com a dimensão da fábula (episódios, personagens, acontecimentos) e com a dimensão da ficção (regime da narrativa, os modos de contar, de “cortar e repetir”, usando aqui uma terminologia do filósofo Gilles Deleuze a respeito do cinema). Nesse sentido, o escritor paranaense desenvolve uma literatura que pensa a própria literatura, “possibilitando uma discussão do processo de produção, sua fisionomia de ensaio, experimento, arte, artifício”, segundo as palavras de Vilma Costa. O que faz com que o romance “A primeira mulher” participe de um contexto muito especial da literatura do presente, produzida por escritores como Bernardo Carvalho, Wilson Bueno, Rubens Figueiredo e João Gilberto Noll, produtores de uma literatura que, a despeito de suas particularidades, aponta com força para a desterritorialização do sujeito, para as armadilhas da memória, para as aporias, para os impasses com os quais convive a narrativa, para as experiências com a palavra, procurando caminhos para a sobrevivência do literário. E isso não é pouca coisa.
Até que enfim foram reunidos em livro os contos de Milton Hatoum. A antologia, que leva o nome de um dos textos do livro A cidade ilhada, traz o sabor dos romances já publicados por esse excelente escritor manauara. Alguns contos já eram conhecidos desde a década de 90, como “A ninfa do teatro Amazonas” e “A natureza ri da cultura”, publicados inicialmente no Caderno Especial, do jornal O Estado de São Paulo, em 1996. Outros são inéditos, como “Dançarinos na última noite” e “O adeus do comandante”. Outros tinham sido publicados apenas na Europa, como “Dois poetas da província”. Gostei especialmente de “Varandas da Eva”, a rememoração da primeira aventura sexual de um jovem e de seus amigos. Talvez seja um episódio das memórias do próprio Hatoum. No entanto, não podemos esquecer, o escritor tem consciência da literatura como um jogo com o tempo e com os fatos. Quando Milton Hatoum lançou Dois Irmãos, romance que considero um dos mais importantes da literatura produzida no Brasil nos últimos anos, foi entrevistado pela professora Susana Scramim, na antiga Cult. Perguntado sobre a questão da memória como elemento fundante da sua narrativa,o escritor respondeu que as memórias se desentendem, lembrando um personagem de Guimarães Rosa: “Quando um narrador ou personagem se lembra de tudo, então o passado vira um inferno, ele vive o tempo todo em vigília, vive o pesadelo da insônia, como aquele Funes, o memorioso, do conto de Borges. Talvez para um ficcionista a memória seja sinônimo de imaginação”.
Um detalhe que chama a atenção na obra de Hatoum, e que pode ser percebido com força em A cidade ilhada é a questão do território, que a professora Susana Scramim já tinha apontado em Dois Irmãos e Relato de um certo Oriente – a geografia de uma narrativa que “revela um território constituído por uma malha cultural variada”. No livro de contos esse aspecto pode ser percebido na constante troca de experiências entre personagens de culturas diferentes: o poeta Albano que viaja para a França para tentar a carreira literária, enquanto Zéfiro, um poeta mais sábio e mais velho, nunca saiu do país, no conto “Dois poetas da província”. A jovem estrangeira que seduz o narrador, no conto “Uma estrangeira em nossa rua”. O japonês que se apaixona por Manaus, em “Um oriental na vastidão”. O jovem subversivo que é exilado com a mulher na França, em “Bárbara no inverno”. Entre outros exemplos igualmente importantes. Os personagens de Hatoum, em “A cidade ilhada” estão sempre indo e vindo, formando a sua identidade a partir do contato com o outro. É o caso de “Dois tempos”, em que o narrador, reencontra a infância, o tio e a professora de piano, depois de voltar para a sua terra natal. Mais do que formar a identidade a partir do outro, os textos de Hatoum sugerem a transformação a partir do contato, da experiência com o outro. Nesse sentido, o título do livro é sintomático. Diante dos seus contos estamos diante de cidades e pessoas. Em ambos os casos, ilhas. Não à toa, Luiz Costa Lima, em um texto sobre Dois Irmãos, intitulado “A ilha flutuante” (Folha de São Paulo, 12 de Agosto de 2000), tenha percebido o mito criado e fecundado por uma obra que pressupõe uma matéria social bem diferente da ficção do Primeiro Mundo: “A casa que se destrói conta de uma sociedade absolutamente sem amarras, em que repontam poucas ilhas, que se fazem e desfazem”. Hatoum fala da ilha próxima ao igarapé, mas essa ilha é pretexto para falar de outra, aquela que transforma a vida do cientista Lavedan, que perde a esposa para um dançarino, no conto que dá nome ao livro. Nesse caso, a natureza ri da cultura (título de um outro conto do livro), pois a despeito de “dissertar sobre pássaros, símios e mariposas, ou orquídeas raras e a arquitetura móvel dos cupins”, o cientista aprende que o Bosque da Ciência nem resume toda a felicidade: “Dois dias depois, Lavedan voltou sozinho para a Europa”. Numa carta, ele escreveu que deixou Manaus e a esposa por causa de um dançarino: “Estavam numa festa do Shangri-Lá com a turma de notívagos intrépidos, e dançavam mambo e bolero numa atmosfera impregnada de álcool, suor e lança-perfume. O salão azulado do Shangri-Lá – uma maravilha, sublinhou Lavedan na carta – os envolvia, e eles trocavam de parceiro a cada música, bebiam no gargalo o melhor uísque e se enrolavam de tanto rir e falar alto, embalados pelo brilho extático dos metais. No clímax dessa euforia, um homem altivo e sério demais atravessou o salão com passos meticulosos, aproximou-se da mesa e, com um gesto reverente, pediu para dançar com Harriet”. O resto não preciso dizer.
Anderson Luis Nunes da Mata, no texto “À deriva: espaço e movimento em Bernardo Carvalho”, observa que os personagens do escritor estão sempre em trânsito: “migrando, viajando, ou, simplesmente, passando, esses sujeitos não têm uma territorialidade definida”. Em Nove Noites, o narrador empenha-se numa viagem ao Xingu à procura dos passos de Buell Quain, um antropólogo americano que se matou quando tentava voltar para a civilização. Em Mongólia, um diplomata brasileiro recém-chegado da China é enviado à Mongólia para procurar um fotógrafo desaparecido. Em Teatro, romance dividido em duas partes, o narrador paranóico, metido à terrorista, foge para o país de seus pais. Nas palavras de José Geraldo Couto, este não é um romance sobre a paranóia; “é um texto cuja própria construção reproduz o mecanismo da paranóia, entendida como tentativa de dar sentido ao mundo a partir da leitura parcial e distorcida de seus fragmentos”. Diga-se de passagem, um significado que nunca é consumado. Em todos os casos, a impossibilidade de atingir o real é sintoma de uma narrativa que conduz o leitor a jogos narrativos cada vez mais intrincados.
Acabo de ler O Filho da Mãe, seu mais recente romance. Em 2007, o escritor passou um mês em São Petesburgo para escrever uma história de amor para a coleção “Amores Expressos”, idealizada pela Companhia das Letras. Eduardo Simões, na Folha de São Paulo, lembrou que Carvalho, quando estava em São Petesburgo, foi influenciado pelo livro “Vida e Destino", de Vassili Grossman: “O enredo de Grossman - que fala, entre outras coisas, de uma mãe forçada a despedir-se do filho e do amor de uma jovem, em meio à Segunda Guerra - guardava coincidências com a trama que Carvalho tinha em mente: uma história de amor (aqui, entre dois homens) e uma reflexão sobre o amor maternal e sua relação com a guerra, inspiração que o autor teve quando, em suas pesquisas, soube do Comitê das Mães dos Soldados, que ajuda jovens enviados à Tchetchênia”. Comitê que, por sinal, vai aparecer ao longo de toda a narrativa de O Filho da Mãe.
Charles Feitosa, em um artigo publicado na revista Cult, em novembro de 2005, observou que “filosofia não se faz apenas com conceitos, mas também com imagens”. O filósofo escreveu a frase pensando no filme Freaks, do cineasta norte-americano Tod Browning, realizado em 1932, e baseado no conto “Spurs (1923), de um escritor chamado Tom Robins. Na época, o filme foi considerado pela crítica como um dos mais macabros já realizados. Foi proibido na Inglaterra durante cerca de trinca anos até ser considerado um “cult” na década de 60, no Festival de Cinema de Cannes. Diz Feitosa sobre o filme: “À primeira vista, o que causa tanta estranheza é o fato de o diretor não ter usado atores que simulassem desabilidades corporais por meio de máscaras, maquiagem ou fantasias, mas ter escolhido pessoas efetivamente portadoras dessas desabilidades”. Feitosa pergunta: “Trata-se, afinal, de uma mera exploração comercial do grotesco ou podemos aprender com esse filme a desenvolver um olhar diferente sobre o que é considerado feio?”. O crítico, no final do artigo, chega à seguinte conclusão: Freaks permanece altamente recomendável: “O filme expõe o sentimento de comunidade daqueles seres, que paradoxalmente não construíam suas identidades por meio de suas desabilidades, ou seja, pela doença ou pela falta, mas sim, afirmativamente, pela convivência diária do circo”. Assim, não pretende curar nem esconder o feio, mas o assume enquanto tal: “De que tipo de nós você quer se tornar um?”. Cito este texto apenas para chegar a um outro lugar.
Em 2007, uma das boas revelações da literatura brasileira, Veronica Stigger lançou o seu Gran Cabaré Demenzial. Além de escritora, a jovem Veronica é também professora universitária e excelente crítica da literatura. Quando fazia suas pesquisas Em Roma, na Itália, a autora gaúcha se deparou com um cartaz, em que estava escrito: “Gran Cabaré Demenzial”. Na hora, sacou o título do livro: “Percebi que esse título era perfeito para agrupar (e até mesmo definir) o conjunto de textos que eu estava escrevendo (...). Comecei a pensar no livro como uma espécie de teatro-revista em que há uma sucessão de diferentes tipos de apresentações. Por isso ele não tem índice, tem programa” (Estado de São Paulo – 25 de junho de 2007 – Caderno 2 – D3). Na Itália, a expressão Cabaré serve principalmente para uma festa em que há uma série de espetáculos numa mesma noite. Espetáculos de dança, música e circo. E assim Veronica organizou o livro.
Se os suicídios são fadados ao fracasso, isso não significa que a literatura também o seja. É preciso que os suicídios não aconteçam – caso contrário a literatura não nasceria, e mesmo que nascesse seria apenas uma marcha para o ponto final, saberíamos de antemão que o livro seria tão somente um desfile monótono para a morte (Se Ulisses não se perdesse e voltasse logo para casa, não haveria a Odisséia). E por mais que a literatura louve a morte, é para a vida que ela se dirige. É por isso também que o livro surpreende. Os dois últimos contos, em um momento que já estamos quase acostumados com a (sobre)vivência das personagens, conseguem fugir do lugar comum. É que neles a morte “realmente” acontece. No penúltimo, com o homem que planejou minuciosamente o seu suicídio, mas foi pego de surpresa pela morte antes de praticar o ato – o suicídio não acontece, mas a morte chega, como a punir o homem por querer abandonar a vida. O último não carece de comentários. É um fragmento de uma carta (imaginária ou não?) de Mário de Sá-Carneiro, dirigida a Fernando Pessoa em 1916, antes de o escritor português cometer suicídio. Diz Mário numa das passagens da carta: “Mas não façamos literatura”. Torquato Neto disse o mesmo, de outra forma. Antes de morrer, escreveu o seguinte bilhete para a mulher: “AMOR, pra mim chega!”. Cometer o suicídio é apagar todas as possibilidades de uma futura escritura e ao mesmo tempo torná-la viva a partir da morte. Não cometê-lo, como fazem a maior parte das personagens de Vila-Mata só pode ser um elogio à vida, à sobrevivência do homem e da literatura. Talvez seja ainda a forma mais adequada de se fazer uma obra. 
Miguel Sanches Neto, em seu último livro, A primeira mulher, também se dedica às memórias de um professor universitário (que ele é) que reencontra a primeira namorada e se envolve numa série de aventuras, que transformam o livro numa interessante reflexão não só sobre a narrativa de memórias, mas principalmente sobre a sobrevivência do gênero policial.
Depois de assistir à adaptação de O menino do pijama listrado, de John Boyne, levado para as telas do cinema por Mark Harman, e tendo como um dos roteiristas o próprio Boyne, lembrei imediatamente de um dos Poemas em Prosa, de Charles Baudelaire. Explico. Mas antes devo confessar que não li o livro, por isso não posso julgar a adaptação. Aliás, por que deveríamos pensar que a única coisa que devemos fazer em blogs, artigos, resenhas e outras mumunhas mais, é “julgar”? Não sou juiz, nem padre, nem diretor do tribunal de contas. E esse “espaço virtual” tem vocação para desmesuras medidas e desleixos disléxicos. Quero mesmo é mergulhar no cinema sem sair ileso dele, quero me lambuzar de encantos. Seguindo as trilhas abertas por Benjamin, talvez fosse possível mudar o nome do blog para Caleidoscópio, ao invés de Baú de Fragmentos. Não que não sejam fragmentos, são sim! E é sempre um bla bla blá que por mais (des)periódico que seja, me dá um grande prazer. No entanto, um baú guarda segredos e este blog não. Não guarda nada. Pelo contrário, pretende fazer voar todas as letras. O que está aqui não pode ser contido. Mas enfim, voltando ao “Menino do pijama listrado”. A única coisa que eu gostaria de falar é que quando assisti ao filme, lembrei de um dos poemas em prosa que Charles Baudelaire publicou em 1868, alguns anos depois de lançar "As Flores do Mal" .
O poema em prosa é “O brinquedo do pobre”. No filme, o menino rico é Bruno. No poema em prosa, ele não é nomeado, mas parece guardar as mesmas características da personagem do filme: “Numa estrada, por trás das grades de um enorme jardim, no fundo do qual aparecia a brancura de um lindo castelo batido pelo sol, havia uma criança terna e bela, vestida com essas roupas do campo tão cheias de coqueteria”. Mas há um outro menino, sem o qual filme e poema não poderiam existir: “Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos e urtigas, estava uma outra criança, suja, mirrada, fuliginosa, um desses párias de fedelhos em que o olho imparcial, se o desbastasse da repugnante pátina da miséria, como o olho do conhecedor adivinha uma pintura ideal por debaixo do verniz de sejeiro, descobriria a beleza”. Essas são palavras de Baudelaire. Já li comentários sobre esse poema que defendiam a idéia de que o menino rico poderia ser lido como a prosa e o menino pobre como a poesia...e o rato que o menino guardava dentro da caixa (como um precioso brinquedo que ganhara dos pais) poderia ser entendido como o poema em prosa, um gênero que suplanta todos os gêneros, que não cabe em si mesmo, portanto alguma coisa informe, traço fundamental de uma poética da modernidade, que não se enquadra em um determinado gênero, pois sobra, não cabe, não pode ser contido em um baú, em uma concha, em uma gaveta. O detalhe mais interessante do poema de Baudelaire vem no último parágrafo: “Através dessas grades simbólicas entre dois mundos, a estrada e o castelo, a criança pobre mostrava à rica o seu brinquedo, que a segunda examinava avidamente, como um objeto raro e desconhecido. Ora, esse brinquedo agastado pelo sujinho, que o sacudia e balançava numa caixa gradeada era um rato vivo! Os pais, certamente por economia, haviam extraído o brinquedo da própria vida”. As grades simbólicas que aparecem no poema aparecem também no filme, mas nele não são apenas grades simbólicas, que dividem o judeu do menino alemão. São as grades de um campo de concentração. Algo que chama a atenção no filme é que, em tempos em que virou moda a obsessão pelo resgate do passado, a mesma obsessão de que nos fala Beatriz Sarlo em “Tempo Passado”, o filme parece tratar do assunto (2° Guerra Mundial) de uma maneira bastante diferente. A guerra aparece tão somente através dos olhos do menino alemão que fitam a cerca (tal como no filme O ano em que meus pais saíram de férias), os habitantes da fazenda que, estranhamente, usam “pijamas o dia todo”, e os cartazes anti-semitas que a irmã colou na parede do quarto. As bombas, os homens sem pernas, a morte, tudo isso não aparece, e por isso, justamente, ela é tão pungente e assustadora no filme. É a morte horrenda que aparece com a fumaça sutil, densa e fedorenta, que sai dos fornos crematórios do campo. Mas forte do que as imagens de guerra que aparecem geralmente em quase todos os filmes de guerra são os olhos do menino judeu, que oscilam entre a saudade do pai, a inocência, o medo e a incompreensão dos fatos. Tão profundo quando o menino filmado por Benigni em A vida é bela. Para finalizar – muitas coisas poderiam ser ditas, tudo deveria ser dito, no entanto, ando com pressa, fazendo tudo pela metade – vale lembrar que o narrador do poema em prosa de Baudelaire é aquele que sai passear pela rua e se depara com os dois meninos que suplantam diferenças raciais, econômicas, sociais graças ao rato que o menino pobre possui: “As duas crianças riam fraternalmente uma para a outra, com dentes de brancura igual”. É o campo de concentração que separou - uniu - as duas crianças do livro de John Boyne. O menino rico, filho de um oficial da SS sai do centro de Berlim para morar no campo – ao lado do Campo – antes de acabar também no Campo, administrado por seu pai. O menino judeu sai não se sabe de onde e vai também para o Campo, e depois disso não se sabe para onde – o inferno provavelmente era ali. “Dentes de brancura igual”. Lembrem disso! No cinema, somos nós que passeamos, tal qual Baudelaire em algum canto de Paris. E que rato precioso é esse que o menino no cinema guarda com carinho e afeto, e que seduz também o menino rico? A infância, que, tal como o rato de Baudelaire, era a única coisa que o menino ainda possuía. A infância dentro de uma caixa de sapatos. A infância condedada ao campo, como rato à ratoeira
Yehuda Amichai:
No dia em que minha filha nasceu não morreu ninguém
"No dia em que minha filha nasceu não morreu ninguém.
No hospital, e no portão de entrada
o aviso disse: "Hoje kohanim têm permissão para entrar."
E foi o dia mais longo do ano na minha grande alegria.
Eu me dirigi com meu amigo para as colinas de Sha'ar Ha-Gai.
Vimos um pinheiro doente, não havia nada sobre ele, mas estava carregado de pinhas.
Zvi disse que as árvores prestes a morrer produzem mais pinhas que as árvores saudáveis.
E eu lhe disse: Isso que você fez, mesmo sem sabê-lo, foi um poema.