terça-feira, 1 de março de 2011
ATLAS: como carregar o mundo nas costas?
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Antologia do Vale do Iguaçu II
Segue o convite:
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Aline Sonálio
Amasília Maciel Tentardini Benghi
Amós Ribeiro
Arlete Therezinha Bordin
Bernadete Chojnacki
Caio Moreira
Célio Reginaldo Calikoski
Celso Godoi
Cláudio Dutra
Claudionor Pereira de Azevedo
Dom Walter Michael Ebejer
Elisiane Gabrielle Domainski
Emerson Rogério de Oliveira
Emili de Albuquerque
Enéas Athanázio
Fernando Tokarski
Francisco Filipak (in memoriam)
Francisco José Rodrigues
Gilian Matzembacher Carraro (in memoriam)
Helena Klotz (in memoriam)
Irene Rucinski
Isaac Nilton Nogueira Neto
Ivahy Detlev Will
Ivan Vidal Portela
João Darcy Ruggeri
Jocely Lona Cleto
Júlia Pacholok Veiga e Souza
Juliana Cornehl
Juliane Aparecida Vladcovski
Kiara Domit
Leda Barcellos
Manoel Claro Alves Neto
Maria Catarina Schmitt Heiss
Natálio Zamo Vargas
Neide Barth Rosenscheg
Neli de Oliveira Melo Sicuro (in memoriam)
Odilon Muncinelli
Raíssa Moretto
Ribamar Bernardes
Sérgio Waldomiro Kuns
Sigismundo Gaias (Zico)
Siomara de Cássia Reis Teixeira
Sonia Luíza de Oliveira Cabral
Sueli de Souza Pinto
Sylvestre Marcon
Therezinha Thiel Moreira
Therezinha Leony Wolff
Ulisses Teixeira
Verônica Huryn (in memoriam)
Yeda Cordeiro Ramirez (in memoriam)
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Semana Literária - SESC 2010
Público: Comerciários, Professores, Estudantes.
Ministrante: Ana Lúcia de Mattos Santa Isabel
domingo, 8 de agosto de 2010
Escravidão, Mestiçagens, Populações e Identidades Culturais
Caio Ricardo B. Moreira, Carlos Alberto M. de Lima, Douglas C. Libby, Eduardo F. Paiva, Ilton C. Martins, Isnara P. Ivo, José Newton Meneses, Maciel H. Silva, Marca Amantino, Paulo Roberto Staudt Moreira, Rafael C. Scheffer, Rangel Cerceau, Vinícius M. Cardoso.
As abordagens teórico-metodológicas são variadas, assim como é diverso o universo das fontes e dos temas enfocados pelos autores. No geral, entretanto, são textos nos quais se estudam a escravidão negra e a indígena; o trânsito de culturas africanas nas Américas; as dinâmicas históricas das mestiçagens biológicas e culturais; o mundo dos alforriados e os aspectos econômicos da sociedade brasileira durante o período colonial e o Império. O Brasil é, naturalmente, o foco principal dos textos, mas as comparações e as conexões estabelecidas o colocam, em vários momentos, relacionado a outras sociedades, marcadamente as da América espanhola, da Europa e da África, assim como se procedeu a comparações entre as distintas áreas internas brasileiras. (Da Apresentação).
O livro organizado por Eduardo França Paiva, Isnara Pereira Ivo e Ilton Cesar Martins
(Annablume/PPGH-UFMG, Coleção Olhares) será lançado:
Dia 11 de agosto de 2010, quarta-feira, das 19h às 22h.
Dossiê Simpósio de Fotografia e Cultura Visual – Arquivo e Imagem
http://www3.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/critica/0402/00.htm
Edição Especial
Dossiê Simpósio de Fotografia e Cultura Visual – Arquivo e Imagem
8. ¿Verdad o belleza? Pintura, fotografía, memoria, historia
Truth or beauty? Painting, photography, memory, history
Laura Malosetti Costa (UNSAM-CONICET)
9. A repetição diferente: Aspectos da arte no Brasil, entre os séculos XX e XIX
Different repetition: Aspects of art in Brazil of the XXth and XIXth centuries
Tadeu Chiarelli (USP)
10. Diante da perda do arquivo: reinvenções e narrativas da memória
Facing the loss of archive
Maria Ivone dos Santos (UFRGS)
11. Mal de Arquivo: a dinâmica do arquivo na Arte Contemporânea
Archive fever: the archive dynamics in contemporary art
Silvana Macêdo (UDESC)
12. No Campo das semelhanças deslocadas e das proximidades empáticas
In the field of dislocated similarities and empathic proximitie
Rosângela Cherem (UDESC)
13. Como a fotografia contemporânea pensa a memória?
How does contemporary photography think memory?
Ana Emília Jung (Universidade Tuiuti)
14. Instantâneos móveis
Mobile stills
Luiz Felipe Soares (UFSC)
15. Poesia modernista. Gestos de ar e de pedra
Modernist poetry. Gestures of air and of stone
Susana Scramim (UFSC-CNPq)
16. Joaquim Cardozo e Pancetti, àguas sem dono
Joaquim Cardozo and Pancetti, waters without owner
Manoel Ricardo de Lima (CNPq-UFSC)
17. Belmiro de Almeida e o realismo: da glosa ao encanto da proximidade
Belmiro de Almeida and realism. From the gloss to the enchantment of proximity
Antonio Carlos Santos (UNISUL)
18. A fotografia como poesia e a poesia como fotografia. Sobre Arthur Omar e Arturo Carrera
Photography as poetry and poetry as photography. On Arthur Omar and Arturo Carrera
Jorge Wolff (UNISUL)
19. A memória dos gestos na poesia simbolista de Dario Vellozo
The Memory of Gestures in the Symbolist Poetry of Dario Velozzo
Caio Ricardo Bona Moreira (UFSC)
20. Espantalho ou a linguagem vertical
Scarecrow or the vertical language
Cristiano Moreira (UFSC)
21. Refabular a história a partir de restos
Re-fable history from ruins
Alexandra Espíndola (UNISUL)
22. A fotografia e o livro como lugares para a ação: projeto espaços
Photography and book as places for action: spaces project
Márcia Regina Pereira de Sousa (UDESC)
23. Recordatórios: Notas sobre memória e fotografia
Reminders – notes on memory and photography
Daniela Martorano Vieira (Universidad de Granada)
24. Um território improvável para um improvável grupo – Ações em torno de um espaço
An improbable territory for an improbable group. Actions around a space
Juliana Crispe (UDESC)
25. Cartografia do meio
Cartography of the middle
Cláudia Zimmer (UDESC)
quarta-feira, 28 de julho de 2010
FOFOCAS DA NOVELA DALTON TREVISAN
Claro, já disse e repito. No fundo, no fundo, comprei o livro porque gosto também de fofoca. Há verdades? Sim. Mas nenhuma que mereça ser levada tão a sério, pois literatura é literatura. A consciência do crítico deve estar tranqüila. O livro é consistente? Minha resposta não importa, mas tenho certeza que sim. Miguel é um escritor que me agrada. Creio que seja um dos principais na prosa do presente. Mas não esqueçamos. Se o livro é sobre a vaidade, tal vaidade é também a de Miguel (ele imaginava a polêmica que causaria) e não apenas dos escritores "inventados" por ele. As provocações no livro são óbvias, mas menos importantes do que a ficção. Se o livro é "moderno", ou responde às questões que legitimam uma obra como pertencente à literatura contemporânea, a despeito do fato de ser escrita nos dias de hoje, é muito mais por produzir uma narrativa que enfoca a sensação de "falta de lugar", de "não pertencimento" do narrador no ambiente em que vive - o que segundo a orelha do livro pode "significar a ruína de um homem mas também a sua redenção" - do que necessariamente o interesse pela vaidade, o que escritores de várias épocas fizeram muito bem.
C.MOREIRA
terça-feira, 20 de abril de 2010
Margarida (da série Flores)

terça-feira, 6 de abril de 2010
Tulipa (da série Flores)

Pensei que fosse fácil namorá-la no verão. Ledo engano. Aprendeu a guardar seu charme, uma espécie de chama, fogo e paixão, só para dias de frio, casaco e cobertor. Por baixo da coberta é que a flor desabrocha fazendo o pássaro cantar, enquanto venta lá fora. E se sugere por trás de um suposto turbante a ausência de qualquer perfume, mais um engano. Tua discrição esconde todos os cheiros que há neste mundo. Mas as palavras também não têm cheiro. Melhor abandonar as frases e ficar só com as tulipas.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Dália (da série Flores)

terça-feira, 16 de março de 2010
Nunca mais seremos os mesmos
Um tango para ler ouvindo o livro... ou melhor, um livro para ler ouvindo um tango. Daniel Galera passou uma temporada em Buenos Aires, a convite do projeto Amores Expressos, desenvolvido pela Companhia das Letras. O resultado pode ser conferido no livro Cordilheira. A narradora, Anita von der Goltz Vianna, é uma jovem escritora brasileira que é convidada para uma feira literária, na capital argentina. A viagem caiu como uma luva. Anita vivia um momento conturbado em sua relação com Danilo. A moça queria engravidar, para a infelicidade do namorado. A autora promissora põe fim a sua relação e parte pra Buenos Aires. É aí que a história começa.
Daniel Galera foi finalista do Jabuti com esse romance. Ganhou o prêmio de melhor romance de 2008, pela Fundação Nacional do Livro. Prêmio, aliás, merecido. Isso porque o romance se sustenta, não apenas pela história, regada a vinho e muito tango, na Confiteria Ideal, e passeios na Reserva Ecológica de Buenos Aires, mas também pela sua estrutura.
Anita anda, anda, anda em Buenos Aires, mas volta pra casa, para o mesmo lugar, que agora é outro, ou terá sido ela que mudou? Podemos voltar de uma viagem de Buenos Aires, ou da leitura de um livro (que também é uma viagem), mas nunca seremos os mesmos.
(Algum tempo depois de ler o livro de Galera, li o Golpe de Ar, do Fabrício Corsaletti, cuja história também se passa em Buenos Aires. Seria interessante confrontar os dois livros. Fica para outro momento)
O Dia Mastroianni

O fato é que o livro foi saudado como uma das coisas mais incríveis da literatura brasileira dos últimos tempos. Basta ler um fragmento da crítica escrita por Márcio Renato dos Santos, publicada no jornal Rascunho: “O dia Mastroianni é um livro absurda e absolutamente indispensável. Para pensar o presente. E chorar pelo futuro. E ter vontade de viver no passado. Romance com brilho, irônico, escrito com fúria e força raras - momento raro de força nestes tempos insossos em que qualquer Pose se quer um gênio inédito da raça. O dia Mastroianni é prosa para ler - e reler, rindo, para gargalhar. E, então, se dar conta de que João Paulo Cuenca é um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea”.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Sob o signo da queda

O narrador anônimo de Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll, inicia suas errâncias em um pequeno hotel do Rio de Janeiro. Lá, ele se depara com o primeiro cadáver da narrativa: “De repente apareceram no topo da escada muitas pessoas, sobretudo homens com pinta de policiais, alguns PMs, e começaram a descer trazendo um banheirão de carregar cadáver”. Ao longo do livro, outras mortes se sucedem como a da americana que o narrador conhece em uma viagem de ônibus para Florianópolis e a de Diva, uma mulher cuja extrema-unção fora dada pelo protagonista travestido de padre. Mas a morte parece não ser o elemento principal deste livro publicado inicialmente em 1987, e que relata a viagem de um homem solitário pelo sul do país.
Considerado o livro mais cinematográfico do escritor gaúcho, Hotel Atlântico foi adaptado recentemente para o cinema por Suzana Amaral, a mesma que filmou A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Como ainda não assisti ao filme, vou me ater a algumas impressões que o livro suscitou.

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Li alguns comentários sobre a obra. A maioria concorda em alguns pontos, como a viagem como eixo em torno do qual gira toda a narrativa. Comecei o texto lembrando que o narrador inicia suas errâncias em um hotel. Vale lembrar que a palavra errância significa também vagar, andar sem destino. Há um paradoxo que é inerente à figura do personagem. A ausência de destino é o seu destino. Fadado a vagar sem ter porquê, até descobrir que o sentido é o próprio vagar. Viajar pode ser também uma errância. Assim poderia ser lida a obra de Noll, muito mais preocupada com o caminhar da narrativa, o fluir das palavras, da sintaxe, com o passeio da linguagem, do que com a história propriamente dita. O primeiro livro dele que li foi Berkeley em Belágio e a primeira coisa que me impressionou naquele texto foi justamente o prazer de ler para percorrer as linhas, e talvez escutar uma música. No caso de Hotel Atlântico, penso que a narrativa é mais cinematográfica que musical, talvez por isso o interesse da adaptação. Uma adaptação mais possível do que Berkeley em Belágio. Aqui, as cenas pedem uma visualização. Vemos muito mais do que ouvimos. Uma narrativa óptica e não sonora, nos termos que Gilles Deleuze discute a distinção entre o realismo e o neo-realismo italiano. Ver não significa aqui pura realidade, nos moldes tradicionais em que ela é pensada. Trata-se de um realismo que pode se referir tanto a uma pretensa realidade como a um possível sonho, ou melhor, pesadelo. Um pesadelo porque o narrador nos é interdito. Sabemos tanto dele quanto do protagonista de Estorvo, de Chico Buarque, que também teima em “errare”. E quase sempre tememos aquilo que não podemos conhecer. Mas há outros detalhes que nos apavoram mais nessa narrativa de Noll. É o caso da recorrência de determinadas imagens, tecidos. A todo momento aparece uma toalha dobrada, uma cortina, um papel, um lençol. Deleuze, em A dobra, Leibniz e o barroco, insistia na idéia de que o barroco é a dobra que vai ao infinito. Dentro do banheirão de carregar cadáver havia um corpo “coberto por um lençol”. A americana, antes de morrer se cobre com um cobertor que estava dobrado no encosto da poltrona dianteira do ônibus. O narrador, em um determinado momento, retira o cobertor e descobre um cadáver. Um lanterninha fecha uma cortina vermelha na porta da sala de projeção de um cinema em Florianópolis. No hotel, o homem retira a toalha em que estava enrolado. No prostíbulo que visita a caminho do Rio Grande do Sul, jaz uma cortina branca rendada. Lá, uma prostituta japonesa, tal qual aquela do conto de Valêncio Xavier, lhe oferece um pijama dobrado, que cheirava bem.
Em Viçoso, o narrador é acolhido em uma paróquia. A mulher que fazia os serviços da casa estendia um lençol branco no varal. Ele recebe uma toalha branca para se lavar, depois de ouvir as palavras de Antonio: “Aqui há sempre uma toalha de banho limpa para quem chega”. Mas assim como chega, o narrador sempre se vai. Na mesma paróquia ele vê uma cama coberta por um lençol branco que caía pelas beiras. E a todo momento alguma coisa está a cair no livro de Noll: “Dei alguns passos tão inebriado de sono, que quase à beira da cama as minhas pernas fraquejaram e eu caí de joelhos no chão”. Em outro momento: “(...) um desequilíbrio e caí sobre um canteiro de crisântemos”. No ônibus: “notei uma bolsa caída aos pés de Susan” ou “A cabeça de Susan caiu para a frente. Eu a endireitei contra o encosto. Me perguntei de novo se nós dois continuaríamos juntos em Florianópolis”. Não fossem os acidentes, os incidentes, que caem sobre algo, apontando para aquilo que não pode ser mudado, talvez ficassem mesmo juntos. Alguém até poderia chamar essa viagem de destino.
Há algum tempo, sobre uma entrevista com o escritor Manoel Ricardo de Lima, escrevi para o jornal urtiga! um comentário sobre o seu livro de poemas Quando todos os acidentes acontecem que poderia nos ajudar a pensar um livro como Hotel Atlântico: “O dicionário nos diz que um acidente é um acontecimento casual, fortuito, imprevisto; um acontecimento infeliz, e de que resulta ferimento, dano, estrago, prejuízo, ruína, desastre; o que se acresce ao principal, o acessório. Um acidente seria o pormenor, o detalhe, a particularidade, o que resulta de contingência, do acaso, dependente das circunstâncias e não da natureza de um ser. Roland Barthes, por exemplo, se dedicou à escrita de incidentes, aquilo que, tal como um acidente, cai sobre alguma coisa. Nesse caso, a coleta de coisas vistas ou ouvidas no Marrocos, em 1968 e 1969. Alguns anos depois, chegou a dizer que a futilidade do incidente, privada de todo comentário, se põe a nu, e assumir a futilidade é quase heróico”.
Assim como os incidentes se traduzem aqui como sintoma de um cair, manchas aparecem como índice de que algo “realmente” caiu e manchou a própria natureza do homem. Em um bar na cidade de Viçoso, sobre a mesa havia uma toalha de pano, manchada de ovo numa beirada. Em Arraiol, no hospital, depois de ter a perna amputada, recebe um pijama cinza que estava com algumas manchas quase imperceptíveis. Ao entrar no Hotel do Rio de Janeiro, notou uma mancha de sangue quase invisível no carpete. Ou na fazenda em que foi levado de carona antes de fugir para Viçoso: “Eu não tinha andado dez minutos quando vi sangue na areia”.
Assim, é sob o signo da queda, do acidente, da mancha, do rastro, da marca, que João Gilberto Noll vai dobrando e desdobrando Hotel Atlântico. Resta saber se essas pequenas sutilezas, que para mim fazem a diferença da narrativa, aparecem, ou melhor, também caem no cinema.
c.moreira
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Catarse cinematográfica: Didi-Huberman e Godard (Imagens apesar de tudo)
É em torno de quatro imagens que gira o livro de Didi-Huberman. Quatro fotografias tiradas clandestinamente em agosto de 1944 por membros do Sonderkommando de Auschwitz-Birkenau.




O livro é composto por duas partes. A primeira desenvolve uma leitura das quatro fotografias supostamente tiradas por um judeu grego chamado Alex, que era membro do Sonderkommando. Foi escrita entre janeiro e junho de 2000 para ser publicada no catálogo da exposição Mémoire des Camps, dedicada a fotografias de campos de concentração e de extermínio nazistas. A segunda parte, inédita até a publicação do livro, foi escrita em 2003, para rebater as críticas que o autor recebeu depois da exposição. Apesar de se deter demoradamente na segunda parte, tentando rebater com veemência as duras críticas recebidas, a segunda parte tem o seu valor. É nela que o autor se debruça sobre História do Cinema, de Godard, e sobre o conceito de “redenção da imagem”, de Walter Benjamin, para mostrar que, contrariamente ao que afirmava Lanzmann, “um simples retângulo de trinta e cinco milímetros salva o horror do real” (a frase é de Godard): “A imagem, não mais que a história, não ressuscita nada em absoluto. Porém, redime, salva um saber, re-cita apesar de tudo, apesar do pouco que pode, a memória dos tempos”.
Recorrendo a Hannah Arent, Didi-Huberman defende que se Auschwitz ultrapassa toda noção de justiça e humanidade, é preciso repensar o direito e as ciências humanas, pois ali onde “fracassa o pensamento” e surge a tentação do impensável “é onde devemos preservar o pensamento”. “Para saber é preciso imaginar”. Ou ainda, saber que devemos aprender a “dominar o dispositivo das imagens para saber o que fazer com nosso saber e com nossa memória”.

Mas o que tudo isso tem a ver com Bastardos Inglórios, do Tarantino?
Óscar Brox, numa interessante resenha sobre o filme de Tarantino, lembra que a institucionalização e repetição de determinados códigos cinematográficos para representar a Segunda Guerra Mundial transformou todas essas ficções em uma rua de mão única. Suas imagens perderam a perspectiva do tempo. Brox afirma que, em Bastardos Inglórios, Quentin Tarantino remonta a História à maneira de Godard. Vale lembrar que em História do Cinema, Godard utiliza a montagem como princípio constitutivo da obra. O cineasta toma imagens das mais diversas e as sobrepõe, re-significando-as, fazendo vibrar o sentido das imagens do passado com “a possibilidade de um novo significado”. Exatamente o que faz Tarantino, ao “destruir o caráter orgânico e totalizador de sua ficção”, para construir outra com tantas ramificações a nossa imaginação exigir. Assim, seguindo ainda os argumentos de Brox, “o filme exorciza a dor das vítimas através de sua vingança, devolvendo-as o golpe com as mesmas armas com que o Terceiro Reich estendeu sua hegemonia: a linguagem, as imagens”. Em outras palavras, Tarantino potencializa uma catarse cinematográfica ao reescrever não só a história, mas também a história do próprio cinema, o que faz Godard, apesar da distância que os separa. O cineasta reabilita as imagens desgastadas pelo fascismo e “a representação temerosa de romper com o seu signo trágico. E, para isso, cabe remontar o material prévio, reescrever o mundo cinematográfico e tratá-lo como uma contingência sobre a que podemos construir um novo mundo. (...) Por isso reabilitar as imagens liquidando-as com a força dessas mesmas imagens implica necessariamente em reinventar a história, ou seja, matar Hitler”.
Didi-Huberman escreveu Imágenes pese a todo alguns anos antes do surgimento de Bastardos Inglórios, mas a frase bem poderia servir à obra de Tarantino: “Ao desconstruir os relatos, as crônicas historicistas, esta (a imagem) se volta capaz de um realismo crítico, ou seja, de julgar a história, de eliminar o tempo oculto dos vestígios”. O teórico francês se refere aí ao cinema, especificamente, onde a imagem pode alcançar o tempo. Um processo que Godard desenvolve através da montagem e que pode ser percebido também nas quatro fotografias analisadas por Didi-Huberman. Imagens que, de uma maneira ou outra, constroem uma determinada narrativa que remonta a própria história.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
A ESTÓRIA MATOU A HISTÓRIA
Muitas coisas rolando na cabeça depois de assistir ao filme. A maioria dos expectadores vai ao cinema para ver Tarantino e não Bastardos Inglórios. É quando o autor fica mais importante que a sua obra. Nesse caso, não foi diferente. Quase todas as críticas que li sobre sua película mais recente apela para as obras anteriores como parâmetro de análise, o que pode ser um problema. De um lado, espera-se uma superação do que foi produzido antes, o que cada vez fica mais difícil de acontecer – todo mundo sempre quer um filme melhor. O crítico, assim, acaba forjando uma olhar “modelado” - repetir é entendido como sintoma de esgotamento. De outro, ao contrário, espera-se sempre o mesmo Tarantino. Se a obra não estiver à altura das anteriores, então deve ser jogada no lixo. Penso ao contrário, que essas questões devem ser pensadas de modo dialético. REPETIR e DIFERIR pode ser a grande estratégia de um cineasta.
Quase todos são unânimes em afirmar que a filmografia de Tarantino é marcada por um estilo que une elementos da cultura pop, boa trilha sonora, roteiro exemplar, diálogos bem construídos, muito sangue. E principalmente as constantes referências ao próprio cinema, a cineastas de sua predileção, a filmes dos mais variados gêneros, a cenas memoráveis (por mais toscas-KIT que sejam), e a atores que povoam seu imaginário. Pois bem, repetir esse repertório cinematográfico é claro, só pode ser uma bela forma de homenagem. A cada vez que alguma referência aparece no cinema de Tarantino, desde os faroestes de Sergio Leone, em Kill Bill, ou John Wayne e Aldo Ray, materializados na personagem de Aldo Rayne, ou mesmo ao universo da nouvelle vague, em Bastardos Inglórios, sem falar no interesse pelo mundo Pulp, em Pulp Fiction, pois bem, a cada vez que uma referência desse tipo aparece – às vezes apenas como um traço, uma dicção - o cineasta o re-significa, atualizando seus gestos. Repito, um procedimento que se constitui como repetição e diferença. E quando esse mesmo procedimento se torna comum no trabalho do diretor, novamente é a diferença e a repetição que marcam sua presença, agora transformadas numa auto-referência. É Tarantino falando do próprio Tarantino. Acredito que esse é o momento mais impressionante que todo artista está fadado a alcançar. Como diria Manoel de Barros, “repetir, repetir - até ficar diferente”. REPETIR É UM DOM DO ESTILO. Portanto, não me venham com esse papo de que Tarantino se tornou repetitivo, que isso é o que todo bom leitor espera de um bom escritor. Por que as pessoas vão ao cinema assistir ao Bastardos Inglórios? Para ver Tarantino, ora! Por outro lado, isso pode gerar uma expectativa que nem sempre se converte em satisfação. Justamente porque desencadeia aquele olhar “modelado”, que falei anteriormente. O expectador só consegue assistir se tiver disposto a comparar a todo momento as obras de um mesmo diretor. Uma crítica escrava da tradição. Bom seria ver Tarantino como se fosse sempre pela primeira vez.
Então, vou falar apenas de Bastardos Inglórios. Aí vai uma sinopse. Shosanna Dreyfus vê a família ser assassinada no interior da França pelos capangas do coronel nazista Hans Landa, em um esconderijo. A jovem sobrevive e consegue se estabelecer em Paris. Muda de nome e se torna proprietária de um cinema. Concomitantemente, o tenente Aldo Raiyne chefia os bastardos inglórios, um grupo de soldados judeus americanos que pretendem se vingar dos nazistas. Diga-se de passagem, um grupo extremamente violento - não seria diferente vindo de Tarantino. Rayne e seus parceiros contam com a colaboração de Bridget Von Hammersmark em uma missão idealizada para destruir o cinema de Shosanna com os nazistas dentro. A jovem sobrevivente, sem saber da existência de Rayne, imagina um plano semelhante. O que acontece a partir disso, melhor não contar.
Uma das melhores coisas do filme: Mélaine Laurent, que faz Shosanna. Conheço muito pouco essa atriz. Ué, precisaria? Mélaine Laurent está linda no filme, principalmente no capítulo 3, meio nouvelle vague. Gostei especificamente de cenas como aquela em que ela entra no cinema decidida a queimar nazistas – a mulher frágil que conversara com o coronel Hans Landa no restaurante algumas cenas depois de escapar por pouco de suas mãos, transformara-se em uma mulher fatal (fatal como aparece ao som de David Bowie aguardando a cena do incêncio, fatal como aparece na tela do cinema antes do gran finale: “Eu tenho uma mensagem para a Alemanha, que vocês todos vão morrer, e quero que olhem fundo no rosto do judeu que vai fazer isso”). .
É graças ao cinema de Shosanna que a estória vai matar a história. Guimarães Rosa dizia, no prefácio “Aletria e Hermenêutica”, de Tutaméia, que a história quer ser estória. É justamente o que acontece no filme de Tarantino. Passei o filme esperando para ver se o incêndio se concretizaria. Mas Hitler não morreu em um cinema, pensei eu. Logo, o filme deveria ter um outro desfecho. Provavelmente, Hitler escaparia pelos tubos de ventilação, ou desapareceria tal como gênio da lâmpada. É que estamos acostumados a assistir meta-ficções historiográficas como essa tendo como pano de fundo nossos conhecimentos anteriores. E olha só a maravilha que é o cinema: Nossos conhecimentos anteriores quase não nos servem para nada diante de um bom filme. Basta dizer que, em Bastardos Inglórios, a estória matou a história. Tarantino subverteu nosso mundo, tal como conhecemos - o que nos leva a perguntar: "E se fosse verdade, como teria sido?" Assim, contar uma estória pode ser uma forma de imaginar outras possibilidades de história. Uma história menos fascista, mesmo que seja "tarantinesca". Matou Hitler antes e depois do tempo com uma grande chuva de balas. Só o cinema conseguiu.
c.moreira
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
A morte é uma linda mulher

- Hora de se mandar, companheiro.
- Hora de se mandar, hein? Eu só vou quando me der na telha, porra!
Os drinques o tinham deixado ousado. Isso acontece.
Meti o punho na barriga dele. Estava com a soqueira. Quase atravesso a cara, porra.
Ele caiu.
Eu peguei alguns cacos de vidro do chão. Voltei, abri a boca dele e joguei os cacos lá dentro. Depois, esfreguei-lhe as bochechas e dei-lhe uns tapas. Os lábios ficaram mais vermelhos.

Mais pulp impossível. O livro bem poderia ter sido filmado por Tarantino: A personagem espanca, a vítima cai, o agressor vai embora, o agressor volta, a vítima engole cacos de vidro, seus lábios ficam mais vermelhos. Mais isso não é tudo. O que mais me chama a atenção no gênero é essa capacidade louca e deliciosa de abrir mão da própria literatura. Ou melhor, de uma determinada literatura. E Bukowski, feito São João Batista que entrega a cabeça aos caprichos de Salomé, ainda faz caretas. Goza da própria arte. Assim, ao arremessar sua cabeça pela janela ao precipício rende também uma homenagem aos escritores que o influenciaram. Um dos homenageados é John Fante, que se transforma em personagem de Pulp. Numa das tardes em que estava no escritório, Belane recebe a visita de dois estranhos. Um deles é Fante. A todo momento personagens estranhas entram e saem de seu escritório. Todo bom detetive deve ter um escritório. Mas o melhor do livro ainda são as frases. Algumas bem sacanas, que nada mais são do que “notas de um velho safado”, e que fazem lembrar as “frases filosóficas” de Dalton Trevisan, como essa: “A velocidade da língua de um leproso no peitinho de uma virgem”, ou naquela em que ironiza o sujeito que casou e virou escravo de uma extraterrestre: “- Grovers, você apenas levou uma surra de boceta. Tem muito homem assim”.
Belane não poupa as frases ácidas. Numa das passagens, dentro da livraria onde procura Celine, a mando de Dona Morte, lança a Red, o dono, frases antológicas, como: “É melhor mandar aspirar essa banha. Vai ter um ataque cardíaco. Eles sugam a gordura por um tubo. Você pode botar num pote e olhar, pra lembrar de jogar fora o recheio dos sonhos”. Mas ao longo dessas provocações virtuosas, vai se desenhando um livro sobre a própria literatura. Ainda na livraria, Belane encontra um visitante misterioso que se volta para ele e diz: “Nos velhos tempos a vida dos escritores era mais interessante do que os livros deles. Hoje, nem a vida nem a literatura são interessantes”. O universo pulp pode ser uma resposta a esse desencanto, que não é só com a vida ou com a literatura. É com tudo aquilo que o rodeia, inclusive e principalmente a sociedade do espetáculo: “(...) eu estava deprimido e me sentei numa cadeira com a garrafa ao lado. Não liguei a televisão , descobri que quando a gente está mal essa filha-da-puta só faz a gente se sentir pior. Uma cara chata após a outra, parece não ter fim. Uma procissão interminável de idiotas, alguns famosos. Os cômicos não tinham graça, e os dramas eram de quarta classe. Não havia muita alternativa para mim, exceto o escocês”. É assim também com os serviços de tele-sexo. Belane até tenta estabelecer um vínculo comunicativo com a atendente, mas fracassa. Dá as costas para o mundo. Com isso não quero sugerir que o livro é melancólico. Essa seria a última coisa que esperaria de Bukowski. Os gestos do narrador são de amor ao destino, são gestos de uma atitude afirmativa em relação à vida – e se ela é saudável ou não, isso é uma outra história. Não se importa com os outros e muito pouco consigo próprio. Está à mercê dos acontecimentos e raramente rema contra a maré. O detetive aproveita o momento, quase não teme a morte, busca aquilo que lhe dá prazer, mais a bebida do que as mulheres. Aprecia, é claro, o sexo oposto, mas protela indefinidamente a consumação do prazer. Seu orgasmo é de palavras.
c.moreira









