quinta-feira, 9 de julho de 2020

A poesia de Cristiano Moreira: carpintaria, tipografia e dentes de cachorro



Foto: Acervo Cristiano Moreira


Apreciador da produção literária paranaense - dos simbolistas aos contemporâneos -, confesso que, ao longo de minha vida, dediquei pouco tempo à leitura de autores catarinenses. A arte da palavra é uma coisa que não tem fronteiras, mas acabamos sempre associando autores a seus espaços sociais. E, de certa forma, aqueles que escrevem são influenciados por esse fator, sendo ao mesmo tempo elementos capazes de transcender a tal espaço. Para escritores, não existem limites, mas apenas limiares.  Tudo isso para dizer que um escritor está dentro e fora de sua própria casa. De longa data, sou um admirador de Cruz e Sousa, Ernani Rosas, Lindolf Bell e Péricles Prade. Já li com prazer livros da Urda Alice Kluger, Enéas Athanázio, Salim Miguel entre outros. Dos contemporâneos conheço quase nada. No entanto, há algumas semanas tenho descoberto e lido com muito encanto e interesse poetas do presente como Dennis Radünz e Cristiano Moreira.
Cristiano Moreira, além de poeta, é o idealizador de um belo refúgio integrado à Mata Atlântica, no interior do município de Rodeio, em Santa Catarina. Trata-se da Quinta da Gávea, uma propriedade rural que foi transformada num quintal criativo. Lá, o visitante pode, além de se integrar à bela natureza do Vale do Itajaí, vivenciar uma experiência poética, conhecendo a Biblioteca Rural, coordenada pelo Instituto Caracol, bem como a Oficina Tipográfica Papel do Mato, dirigida pela Papaterra Editora e Produções Culturais. Portanto, a Quinta da Gávea, trabalhando com o conceito de economia criativa, alia o serviço de hospedagem a um espaço de arte e educação. Com recorrência, Cristiano promove eventos culturais naquele curioso lugar, que é uma espécie ecológica de reserva poética.  

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira


Foto: Acervo Cristiano Moreira


Há alguns anos, li dele o belo “Dengo Dengo” (Papaterra, 2016), um livro infantil para todas as idades. Ilustrado pela artista argentina Yannet Briggiler, o poema, em seu costado e convés, é uma obra marítima com gosto de sal e cais. Trata de narrar a aventura de um barco durante uma tormenta em alto mar. Ele só poderia ter sido escrito por alguém que ama as águas profundas e a elas é fiel. Aliás, Cristiano, esse calafate de palavras, já morou em Navegantes, onde foi ajudante de carpinteiro naval. A história do barco e de seu sonho é um livro sobre o amor e a esperança, evocando em minha memória afetiva o clássico “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway, com o sabor sonoro de um João Cabral de Melo Neto. 
O trabalho de carpintaria é uma atividade que nos ajuda a dimensionar a arte de Cristiano Moreira. Recentemente, o poeta escreveu e confeccionou em sua Oficina Tipográfica o precioso “Imagens da Madeira” (Papel do Mato, 2019), que reúne um conjunto de poemas inspirados no trabalho dos mestres carpinteiros e calafates, artesãos da ribeira do Itajaí-Açu. Um deles: “O carpinteiro sob sol / segura cunha contra o barco / como farpa / dentro de um olho vê / o barco, esta palavra / crescer em seu corpo”. O livro foi impresso pelo próprio Cristiano e contou com o projeto gráfico de Jakson Chiappa. A tiragem foi de 25 exemplares. Carpintaria e Tipografia são artes que combinam e inspiram o trabalho literário do escritor.

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira

A tipografia, que alia um tipo de artesania a um tipo de técnica, no sentido da maquinaria que permite a reprodução (o assunto convida a muitas reflexões no âmbito da literatura), inspira um dos mais recentes livros de Cristiano Moreira. Refiro-me ao “Dente de Cachorro” (Nave Editora, 2018), que me surpreendeu pela beleza poética, aliando com força o minucioso trabalho verbal a uma atualidade política que traz a poesia para o debate de nosso tempo. O livro merece certamente uma leitura muito mais minuciosa do que aquela presente nas vagas e imprecisas impressões que apresentamos aqui. Esse dente merece um longo texto só para ele, um artigo ou um ensaio que esmiuçasse os sentidos do poema que dá nome ao livro, que lesse de maneira mais aprofundada a beleza dos espaços entre suas palavras, espaços que fazem jus ao seu título, já que “dente de cachorro” significa aqui “erro tipográfico caracterizado pela inserção exagerada de espaços entre letras e palavras”. Esse vácuo, essa lacuna, esse hiato, esse dente de cachorro aqui se transforma em recurso, em imagem espacial que dá potência à poesia. Seria necessário atentar para a fotografia da capa trazendo um tipo gráfico dentro da boca de um cão, o Sumério. Entre seus dentes, a palavra afiada e potente como um latido. O poeta não morde, late, mas o latido morde o mundo. Parafraseando o poeta Pádua Fernandes, que figura em uma das epígrafes do livro, o que temos aqui não são poemas e sim latidos. Não há um autor, mas uma fera. É uma imagem bonita. No entanto, é claro, existe o poeta e suas armas são as palavras: “(...) no estado de exceção / importa resistir à investida / com poemas / e outras formas de vida”. Os versos aqui não conseguem reproduzir o aspecto visual do poema que é fundamental para a sua apreciação. Há que se ler no livro.


“Anti-tipografia”, o primeiro poema da obra (na verdade o segundo, porque o primeiro está na capa), nos mostra em que terreno pisamos. A arte da tipografia dá lugar a primeira (má) impressão, infelizmente aquela que fica. Trata-se do que temos visto reinar atualmente no Brasil: “[bois sem canga no planalto] / puseram o país na prensa / com imprensa um tanto torpe / lavraram leis, livraram réus / chutaram alto / e passaram a imprimir o golpe”. “Anti-tipografia” é uma arte que aponta para a ausência de arte na política de nossa governança, que nem chega a estetizá-la.            
O clima de intranquilidade e a consciência da desgraça vai imprimindo ao longo das páginas o tom do livro. O poema “Sinuca”, que imagina uma conversa do poeta com o pai, inspira-se no jogo aclamado pelo escritor João Antônio para falar de tempos difíceis. Estamos numa sinuca, diz o ditado popular. O boteco é um microcosmo do país. Lá o taco ataca a bola como “lá fora o pau come / bala de borracha / acerta o estudante / feito bola 8”. “Sinuca” aponta para a vida como uma política de jogo. O que de certa forma vemos também no poema “Infância do pife”, que a partir de um jogo de cartas elabora um rico jogo de imagens. A escritura como jogo. Em “Desmoradas”, o poeta aponta para a despolitização dos corpos e de suas moradas desmoronadas. Em “Novena contra chumbo”, os versos nos convidam a seguir adiante, já que “o poema ainda é à prova de balas”. Cristiano Moreira faz o levante com a voz. O enigma de textos como “Deserto, de resto” e “Zezuíííno”, este um dos mais bonitos do livro, já alimentou muitas releituras de minha parte. Outro dos mais complexos, pela sua riqueza, é o poema “A palha alegra o homem”, que insere no mesmo mosaico figuras como o Mágico de Oz, Osman Lins, Oliverio Girondo, Walter Benjamin, Katharina Detzel, entre outras, que devolvem potência à imagem do espantalho. Há ali, a meu ver, o verso mais belo do livro, polifônico com seu sotaque catarinense, “lá há só eco seco sobre saco de supilho”.
Leio e releio o livro de Cristiano Moreira. Sinto-me transformado em um cão. O livro afina o meu faro para o presente da literatura do Estado em que nasci, e afia os meus dentes para o presente desse país exilado em que ainda vivo.  

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR)

quinta-feira, 25 de junho de 2020

“Ossama, último livro”, de Dennis Radünz, e a arqueologia poética e política do presente




Em uma passagem do ensaio “O que é o contemporâneo?”, Giorgio Agamben exuma o poema “O século”, de Osip Mandelstam, observando que as vértebras fraturadas do tempo, evocadas pelo texto, dizem respeito não apenas ao tempo que concerne à vida do indivíduo, mas principalmente ao tempo histórico e coletivo no qual o sujeito está imerso. O poeta, no dizer do filósofo italiano, é essa fratura, “aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a quebra”. O presente que a contemporaneidade experimenta tem, então, as “vértebras quebradas” e nós estaríamos exatamente no ponto dessa fratura. O poema foi escrito na Rússia, em 1923, mas salta aos nossos olhos quase um século depois ao lermos “Ossama, último livro”, de Dennis Radünz. A ossatura quebrada de nosso tempo dá a medida da contemporaneidade da obra desse poeta que nasceu em Blumenau e vive hoje em Florianópolis, tendo já publicado uma série de livros. O mais recente, sobre o qual nos debruçamos aqui, veio a público pela editora Letras Contemporâneas, em 2016, ganhando uma segunda edição em 2019.
Penso que “Ossama” pode ser lido como uma espécie de baú de ossos minuciosamente exumados pelo autor em sua lida poética. Aliás, “Exumação” é o nome do poema visual que acompanha a publicação, lançando luz à leitura de uma série de textos que formam um conjunto coeso e coerente. Nota-se que há um projeto muito bem arquitetado por trás de sua construção, seja nos temas evocados, nas relações de parentesco, na exímia sofisticação verbal, na composição de uma poética incomum e capaz de produzir constantemente nos leitores um profundo estranhamento.

      
Desenho de Jules Laforgue

Dennis Radünz, no livro, não parece analisar a decomposição ou a decadência de um corpo – posto que os ossos nus já estão desprovidos de carne. A vida póstuma aqui está posta a nu, cabendo ao poeta, arqueólogo do presente, inventariar os bens de nossas vértebras fraturadas. No entanto, para usar uma expressão de Walter Benjamin, o poeta, mais do que fazer um inventário dos achados, “assinala no terreno de hoje o lugar no qual é conservado o velho”. Mais do que agir de forma informativa, o arqueólogo de “Ossama” sabe indicar o lugar exato onde se apropriou de suas ossadas. Tocar em ossos é, nesse sentido, tocar o tempo. O livro, por sinal, está dividido em duas partes que apontam para essa perspectiva: Datação pelo Carbono e Datação por Luminescência. Pensar o presente na poesia de Radünz é pensar em formas fósseis, ruínas, múmias incas, moedas mortas, museu do mundo, cadáveres. A alegoria da caveira talvez nos ajude a pensar um pouco mais no conjunto desses destroços.
 A caveira, em um sentido benjaminiano, revela-nos a imagem da natureza petrificada que é a marca daquilo que a história chegou a ser. Susan Buck-Morss, leitora de Walter Benjamin, lembra que os poetas alegóricos liam um significado similar no emblema da caveira, “o resíduo esquelético de olhar vazio que alguma vez tinha sido o rosto humano”. Ossadas, esqueletos, ossaturas, carcaças, escombros, ossamas, são alegorias de nosso tempo e de nossas misérias. A mesma caveira e ossos cruzados que indicam a presença de substâncias tóxicas em placas de transporte ou embalagens de produtos químicos é aquela ostentada em emblemas costurados nos uniformes de algumas unidades policiais voltadas para operações especiais. Seus sentidos podem não ser os mesmos mas no fundo o que está em questão é o velho e conhecido sinal que aponta para a morte. Eis o nosso memento mori e sua fácies hipocrática.
Importante observar que para Walter Benjamin alegoria e mercadoria estão intimamente ligadas. A alegoria opera a morte do sujeito clássico. A consequente desintegração dos objetos permite o ressurgimento da alegoria no capitalismo moderno. Ao comentar o pensamento do filósofo alemão, Jeanne Marie Gagnebin conclui que “não há mais sujeito soberano num mundo onde as leis do mercado regem a vida de cada um, mesmo daquele que parecia poder-lhes escapar: do poeta”. No baú de Radünz os ossos/poemas são pensados também à luz da mercadoria. No poema “Cinquenta cruzados novos”, podemos imaginar que o que está em jogo é a perda do valor de troca da célula, bem como a perda do valor de uso da poesia, a partir de uma alusão a Carlos Drummond de Andrade e à cédula que estampou seu rosto nos anos oitenta: “os cruzados novos, custo caro de Carlos, / quando circularam uma soma de ocasos / consumida em cruza de papeis e moeda: / o gasto do rosto no inconsútil da cédula (...)”. Aliás, no último poema do livro, “Economia das formas breves”, especula-se sobre o valor monetário do livro e de cada poema em específico: “são somente trinta e um esses poemas / os objetos de um livro exposto / ao preço de trinta e um reais (apenas) / e a custo de despender os anos (...)”. A ideia de valor parece percorrer “Ossama” no sentido econômico e artístico, o que nos convida a lembrar das observações de Gagnebin sobre Benjamin e na forma como o filósofo leu Baudelaire. A grande questão era pensar como a poesia poderia continuar existindo numa sociedade comercializada e dominada pela técnica. Em Radünz, penso, sua “Ossama”, símbolo da morte, é também um convite a uma reflexão sobre a vida póstuma das coisas, bem como sobre a pervivência da poesia em tempos de pura mercancia.
Que os ossos de “Ossama” sejam o sinal da vida marcada também pela poesia cumpre-nos observar. Vem daí a beleza politicamente poética do trabalho de Dennis Radünz. Uma ossada não é apenas aquilo que nos resta depois da decomposição, de um bombardeio ou de um incêndio. Ossos servem para manterem um corpo em pé, enquanto pulsa ainda a vida em nós. São como poemas que sustentam um livro. E o livro de Dennis nos mostra o quão viva, poética e política pode ser a imagem de um osso.

Foto: Ayrton Cruz

Vida e morte parecem funcionar como os dois lados de uma mesma moeda. A ideia de pervivência está condicionada por essa simultaneidade. Georges Didi-Huberman, em “Ser Crânio”, evoca a palavra “Átrio” para pensar em seus vários sentidos, representando ao mesmo tempo uma ideia de lugar e uma ideia de ser. Átrio representa uma passagem, um pórtico exterior, bem como um terreno livre que serve de ossário ou de cemitério. Serve também para designar a intimidade de um ser, o abismo de seu pensamento. Portanto, esse lugar de morte é também o espaço de vida, da existência do ser. O ensaísta francês aponta para os “átrios da língua” de que nos fala Henri Maldiney, que são “moradas do pensamento”, indicando o estado nascente da língua, singularidade expressada, por exemplo, por um poema, por uma obra de arte. Maldiney certa vez escreveu que só os poetas habitam os átrios da língua. Curioso perceber que no átrio a mesma vocação do poema para os nasceres e brotares da língua é aquela que representa o espaço, o lugar, onde se guardam os ossos. No livro de Radünz, a morte é esse átrio, museu de ossos fraturados, que guarda também a vida pujante da poesia plena, explorando uma composição literária que pelo esmero e dicção faz lembrar por vezes os versos de João Cabral de Melo Neto. 
Contemplemos brevemente algumas peças desse ossário. O poema “Terrábile” relembra o rompimento da barragem de Minas Gerais que tanto terror trouxe à natureza e à população: “um rio irremovível erra / irrompendo nas terrinas / repletas de terror amaro / o barral ruim das minas (...)”. Em tempos de pandemia, a leitura do poema “Entressonho” ganha sentidos proféticos ao filmar uma peste. Nele, figuramos como o “Emparedado” de outro catarinense, o poeta Cruz e Sousa. Não há para onde fugir. E entre os corpos de vítimas, chama a atenção uma enfermeira “tomada por uma luminosidade que lateja sob a transparência da pele – eu sei, ela também foi contaminada”. Em “Olha-Podrida”, encontramos a alusão a uma iguaria culinária estranhamente associada a homens suicidados por ditaduras. São eles os “fulminados”, “os desterrados carcomidos”, os “sem matéria”, fadados a engrossar com sua carne – com seus “dedos decepados” e “revolvidos em retalhos” -, o caldo atroz da violência.  Seus restos estarão fadados a permanecerem desaparecidos até que alguém encontre seus ossos em algum cemitério clandestino. O subtítulo do poema “As Cidades Sedadas” inscreve o livro em uma certa visão de Brasil: Do genocídio indígena à destruição ambiental, uma “carta do achamento do desastre”. São apenas alguns exemplos de um livro profundamente sintonizado com o presente e com a nossa história. “Ossama” não abre mão de pensar poética e politicamente caminhos para seus versos. Que poesia ainda é possível escrever depois de tantos desastres?


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR)

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Condições ideais para o amor, a obra viva de um poeta morto: Dedicado à memória de Luiz Eurico Tejera Lisbôa



(Foto: Acervo família)

Quando descobri a poesia de Luiz Eurico Tejera Lisboa, fiquei impressionado com a força, visceralidade e urgência de uma revolução social inscritas em seus versos. O poeta chamou a minha atenção não apenas pelo teor político de suas palavras, mas também pelos gestos de uma corajosa e precoce luta cuja história é ainda pouco (re)conhecida.  
Nascido em Porto União mas criado no Rio Grande do Sul - primeiro em Caxias do Sul e depois em Porto Alegre -, o Luiz Eurico foi um dos jovens militantes mortos pela Ditadura Militar.
Ico, assim chamado pelos mais próximos, ingressou no Movimento Estudantil nos anos 60, sendo preso pela primeira vez em 68 por fomentar um abaixo-assinado a favor da reabertura do Grêmio Estudantil da escola que frequentava. Um pouco depois passou a integrar o quadro militante da ALN (Ação Libertadora Nacional). Em 1969, casou com Suzana Keniger Lisbôa, sua companheira de ideais e luta. Com ela, o jovem entrou na clandestinidade. Em 1972, foi encontrado morto no quarto de uma pensão em São Paulo. O episódio, repleto de mal-entendidos, culminou com o desaparecimento de seu corpo. A família só descobriria o destino de seus restos mortais em 1979. Aliás, Luiz Eurico foi a primeira vítima da ditadura a ter seu corpo localizado. Estava em uma vala clandestina do cemitério de Perus (SP). Em 2013, a Comissão da Verdade refutou a versão de que o jovem havia cometido suicídio. Uma série de estudos no laudo apontaram para um assassinato, consignando-se, assim, uma nova versão. Como na história de Vladimir Herzog, a construção de uma verdade mentirosa foi a forma que a repressão encontrou de proteger os verdadeiros assassinos e suas mãos manchadas de sangue.

(Foto: Acervo família)

Impossível resumir a vida de Luiz Eurico em tão poucas linhas. Seria preciso muito mais do que um punhado delas para acertar as contas com a sua história, que é parte de um passado ainda recalcado e que paira como fantasma na nossa política contemporânea.
Em um tempo no qual o país volta a flertar intensamente com excepcionalidades políticas, evocar a memória de Ico por meio de seus versos é uma forma não só de revisitar o passado, convocando o presente a não repeti-lo, mas também de chamar a atenção contra toda e qualquer violência de Estado, vista por muitos como uma condição para normalidade. Não, um estado de exceção não é um paraíso. Está mais para o inferno. Nesse inferno social, reinam a contradição, a falta de sentido e de dignidade. Difícil ali julgar os homens como mocinhos ou bandidos, mas certamente uma violência normatizada e normalizada por um Estado é sempre o signo soberano de uma barbárie. Vivemos em um tempo doente no qual alguns dos que nos representam na política defendem torturadores, elogiando a ditadura, a censura, a morte, entre tantas outras monstruosidades, tudo com uma naturalidade que aos olhos dos mais atentos soa como um absurdo atroz. Conhecer a vida e a obra de jovens como Luiz Eurico é hoje mais do que importante. É fundamental. Infelizmente, jovens – geralmente pobres e negros - continuam morrendo nas mãos no Estado todos os dias, por meio de seus aparelhos repressores e de sua omissão. Índios têm sido assassinados com a conivência de um sistema desigual e omisso em relação a uma promoção mais justa dos direitos humanos. Quem matou Marielle? O que fazer com seus corpos? O que fazer com suas memórias? O que fazer com o sangue que mancha a todos no nosso calejado dia a dia. 


(Fotos: Acervo família)

Certamente, o contexto da escrita da obra de Lisbôa contribui para a sua importância. Como o poeta Paulo Martins - protagonista de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e vivido no cinema pelo ator Jardel Filho -, o Luiz Eurico mesclou poesia e revolução de forma intensa: “Eu / Sou poeta da Revolução / A minha pena é minha espada / E o meu canto / se eu canto / é um canto de guerra”. Eis sua poética/política.  
Em outro texto, o poeta defende a palavra como uma arma, aproximando-se, assim, de uma farta linhagem dos poetas sociais. A diferença é que Luiz Eurico morreu por sustentar essa palavra: “A palavra deve ser uma arma / sem requintes inúteis / de funções evidentes / claramente parcial / e partidária / para ser contundente / e ser na História”. 

Foto que integrou a exposição Ausenc’as (lê-se “ausências”), produzida pelo fotógrafo argentino Gustavo Germano, no O Memorial da Resistência de São Paulo, em 2015.


O comovente poema “Balada de Ham-Li”, por sua vez, descreve a morte de um menino na Guerra do Vietnã, observando que o coração daquela criança “pulsa / inalterado / sobre todo o Vietnã”. Quantos corações de meninos mortos pulsam inalterados sobre o nosso país, de uma periferia a outra?
Poucos sabem, mas Luiz Eurico foi o irmão mais velho do grande compositor e intérprete gaúcho Nei Lisboa. Sobre ele, o músico escreveu a bela lembrança: “Estivemos juntos pela última vez, Ico, Suzana e Eu, em clandestina semana do inverno de 72 na praia do Pinhal. Condições ideais, aos meus púberes treze anos, para uma pós-graduação na arte de fazer pandorgas. Nela colávamos, em papel de seda, a lança de mira, símbolo da ALN. Algumas vezes atingiam o infinito azul do céu, noutras se despedaçavam entre os fios de luz atravessados no caminho. Não se pode acertar sempre. Mas ele, certamente, não morreu de medo”. Poucos sabem também que Luiz Eurico foi amigo de João Gilberto Noll, um dos maiores escritores da literatura brasileira contemporânea, falecido recentemente. Os dois foram amigos de escola e sobre Ico o prosador escreveu um belo texto intitulado “O Denso Silêncio de Lisbôa”, publicado na antologia “Condições Ideais para o Amor”, que reúne a poesia de Luiz Eurico, publicada pela Editora Tchê em parceria com o Instituto Estadual do Livro, do Rio Grande do Sul, em 1993, numa edição organizada por Antonio Hohlfeldt, que traz também algumas correspondências do poeta-guerrilheiro trocadas com Suzana. O livro é um relato do amor de Ico pela companheira, pela luta, pela vida e por um Brasil mais justo e fraterno. Um Brasil que seu sangue regou mas ainda não viu nascer.


(Foto: Acervo família)


O poeta tinha 24 anos quando foi assassinado. Fruto de uma juventude que via Che Guevara e Cuba como símbolos de sua utopia, Luiz Eurico foi um dos jovens que acreditava que essa luta deveria ser vivida intensamente. Se algumas décadas depois a História provou que nenhum lado da moeda é perfeito e completamente justo (ditaduras de esquerda ou de direita são sempre ditaduras, e não era a favor de uma ditadura que lutou Luiz Eurico), isso não diminui a truculência com a qual esses jovens sonhadores foram mortos em um estado de exceção que volta cada dia mais a nos assombrar. O poeta morto permanece um pouco vivo em seus versos, bem como o sistema repressor que o aniquilou. Sua poesia e memória nos convocam a ficarmos sempre alertas. Como escreveu a viúva de Luiz Eurico em um texto que integra o livro: “A verdadeira democracia jamais será construída sobre os cadáveres insepultos dos companheiros assassinados e sob as mãos impunes de seus assassinos”. Quando fizermos um verdadeiro e justo acerto de contas com a nossa própria história talvez venhamos a assistir com menos frequência à defesa do horror promovida contraditoriamente em nome da paz e da normalidade.      

Manuscritos do poeta:




   

Poema escrito em 24 de novembro de 68
Dedicado ao filho que o poeta não teve


Ao Suzico
 
Meu filho
Escrevo agora estes versos para que
saibas algum dia
que estas mãos que empunham a metralha
e semeiam a morte
este olhar resoluto de soldado
têm algo mais que o impulso
               mercenário
e o querer individual.

Para que saibas que estas mãos
               escreveram versos
estes olhos vislumbraram a beleza
               de um outro dia
e este peito coberto de cicatrizes
já abrigou a paixão e o amor.

Para que saibas
que desde o primeiro passo
fui presa até a última fibra
                 da poesia
E que a metralha e a luta
são em tempo certo
o meu maior poema
a grande mensagem de
                   um artista


Publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 23 de maio de 2020.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Oriqui Daqui







“Oriki daqui”, de Caio Moreira, propõe-se a um cruzamento entre as poéticas sagradas africanas e as religiosidades de matriz popular que no Brasil mestiçaram saberes negros, indígenas e brancos. Por meio desse diálogo, na encruzilhada que é (d)obra, firma-se um ponto de força em busca do axé da palavra, devolvendo, assim, potência à poesia.

Livro de Poemas: Oriqui Daqui
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

Fábrica de Flores




“Fábrica de Flores”, de Caio Moreira, apresenta um catálogo poético que faz do adereço um emblema da nobreza ou baixeza humana da flor. No limiar entre a natureza e a cultura, os poemas/plantas da série são artifícios – em tempos de barbárie – que levam adiante a proposta de Maurice Druon postulada em uma de suas obras, que é a de fabricar flores ao invés de canhões.

Livro de Poemas: Fábrica de Flores
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

Papele





“Papele”, de Caio Moreira, situa-se na intermitência entre o corpo e a escritura. A página é pele que o poeta tanto tateia quanto tatua. O livro ensaia ou insinua a escrita do corpo incorporada ao poema ou o ato e a arte do corpo se dobrar no movimento do poema. O poeta, como o fotógrafo, escreve com a luz. E tal grafia se dá no poema feito tatuagem, cuja natureza é sempre selvagem e performática.

Livro de Poemas: Papele
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

13 de maio: Preto Velho

                                     

                          

Zifio, nego véio não tem ar de dotô, mas sabe de saber também. Nego véio move o mundo num vento de viu só com sua franqueza e faz de varrer todo o mal com sua reza de cristo-amém-jesus, arre. Se não sabe que fique sabendo. Nego é cantador do bom e bom de escrever suas mirongas dançando no pé. Fala pro nego, fala, zifio, o que te aflige esse coração de sofrer tamanho mundo. Fio é mais escravo do mundo do que o véio foi do cativeiro. Onde é que dói, zifio? Tem que ficar de pé e se alevantar de novo num causo de cair, que a vida faz seu tropeço pra modo de ensinar e o mundo se ir girando pra frente. Nego não faz milagre, não, mas palavra que nego fala vem do Pai lá de cima e faz curar também. Não tem palavra boa que não cure um coração aflito. O generoso de Nazaré já fazia milagre falando, não fazia? Pequenino grão de areia ou cisco, tento seguir os passos do Nazareno. Basta de fechá o olho pra modo de ver. O fio enxerga? Tem que acreditá. Dizia um dotô aí de vocês, lá das banda do sertão, que viver é muito perigoso. Tava certo, viu, nego sabe e o homem já sabia. Mas é passando pela noite escura que fica dia de novo no amanhã, e mais brilhoso do solzinho que faz a vida raiar de nova aurora, dá de ver? Se ajudá o irmão, então, fica lindo, tudo em volta se alumia. Como diz os irmão dos kardéque, fora da caridade não há salvação. Se põe de joelho, fala pro nego, mas pede pra Deus, que nego chega nos pé do pai crucificado e chora por vosmecê, que as água do mar que rola sincera do corpo lava toda mazela-chaga-e-dor de nossa pobre alma. Se o nego chorá junto com vosmecê, doi menos? Então empresto meus zóio pra junto a gente chorá. Saravá!

Imagem: Preto Velho, de Amadeu Bona

quinta-feira, 26 de março de 2020

A identidade de Sofonias Thabor: o relato de uma aventura e o fim de um mistério



(Foto: cortesia Fahena Porto Horbatiuk)


Hino ao Paraná

“Bendizei a nossa Terra
Onde Deus conosco está!
Verde é o mar, azul a serra
Auri-róseo é o chão de lá

Sacra Terra do pinheiro
Lindo e rico Paraná!
Não há igual, no mundo inteiro
Terra assim, não há, não há!

Quanta vez descendo a serra,
Mais encantos descobri.
Quanto amor tenho eu à Terra,
Onde a luz primeira vi!

Beija o Rio, do teu vestido
Toda a fímbria festonada.
O viver só tem sentido,
Em função da Terra amada.

Se, depois da morte, há vida
De minha alma e coração,
Lá estarei, Terra querida,
Bem pertinho do sertão!
(Sofonias Thabor)


Há alguns anos, a professora e amiga Fahena Porto Horbatiuk, publicou um artigo no jornal Caiçara (edição de 29/06/2012), apresentando o livro de poesia "Lira dos Pinheirais", cujo autor assinava com o pseudônimo Sofonias Thabor. A edição viera à lume pela extinta Gráfica Iguaçu, de Porto União. A obra não trazia qualquer outra indicação de autoria e fora publicada sem data. Depois de elogiar os poemas, encontrando neles um ethos bem-humorado, a dicção modernista, e por vezes a forma sertaneja numa louvação ao Paraná, a articulista encerra a sua crônica com as seguintes frases: “Quem souber qual é o nome do autor, possuir alguma dica, peço que nos indique, para que seja mais bem estudado. É um grande escritor”.
Movido pela curiosidade inerente a todo pesquisador, iniciei na época uma investigação para tentar descobrir o ortônimo do ilustre autor desconhecido. Naquele período, coordenava na Unespar um projeto de literatura regional que trabalhava no resgate de autores locais. Qualquer descoberta seria bem-vinda.
O dileto amigo Odilon Muncinelli, em sua coluna “Milho no Monjolo”, no jornal O Comércio, em 2012, comentou o artigo da professora Fahena, aumentando o rol de interessados na identidade de Sofonias Thabor. Passei com Odilon algumas tardes agradáveis conversando sobre o livro e criando hipóteses sobre a autoria. A partir daí iniciou-se a jornada de uma busca intensa. Relatarei aqui brevemente a aventura.
Comecei perguntando para os amigos interessados em literatura na região do Vale do Iguaçu se alguém possuía alguma informação sobre o livro. Nada consegui. Pesquisei na internet para ver se achava alguma ocorrência com o nome Sofonias Thabor. Nada. Folheei antologias de literatura paranaense e catarinense. De igual maneira, nenhum progresso. Procurei sem êxito familiares dos proprietários da Gráfica Iguaçu. E já estava desistindo da busca quando, por acaso, em uma visita à Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, ainda em 2012, encontrei lá uma edição do livro. Decidi perguntar por ele. Descobri no arquivo da biblioteca que a publicação fora ali depositada com um registro em nome de José Antônio Telles, nascido em 1911 e falecido em 1976. Supus que o livro fora doado ao acervo por alguém que tinha conhecimento do nome do poeta, ou quem sabe até pelo próprio autor. Fantasiei que talvez o escritor resolvera deixar uma pista para um possível pesquisador do futuro, alguém interessado em seguir seus rastros. Sendo ou não o autor do livro, o nome de José Antônio Telles já era uma pista.
Chegando à União da Vitória, comecei a procurar pela família Telles. Para minha surpresa, existiam várias. Fui, então, entrando em contato com cada uma delas, perguntando por José Antônio. Nada. Ninguém o conhecia. Até que um dia fiquei sabendo que o pai de um comerciante local se chamava José Antônio Telles. Dirigi-me inquieto ao estabelecimento julgando ter encontrado a identidade de Sofonias Thabor. Para o meu desencanto, o filho de José Antônio me informou que o livro não fora escrito por seu pai. O patriarca da família nem escrevia poemas. Uma pena. Cheguei naqueles dias a enfrentar uma fila no atendimento da Previdência Social para ver se encontrava mais alguma pista. Nenhuma. Quantos Josés Antônios Telles nesse país?
Alguém me assoprou, então, para ir ao cemitério. Lá, talvez encontrasse alguma pista. Com o coveiro do Cemitério Municipal de União da Vitória, procurei nos livros de registro de corpos enterrados até encontrar uma ocorrência com o nome em questão, mas era justamente o pai do dono do estabelecimento comercial, opção já descartada. No Cemitério de Porto União, o coveiro com ótima memória não precisou do livro de registros e me levou até o túmulo de um outro José Antônio Telles. Encontrei um mausoléu simples, mas bem cuidado. A foto mostrava a aparência de um senhor humilde, com jeito de agricultor, ao lado de uma senhora magra, de nome Olga, que tinha o olhar triste e talvez fosse a musa do poeta. Quase certo de que encontrara o escritor, minha euforia só durou o tempo de comparar as datas de nascimento e morte dos dois Josés. Não coincidiam. Eu nem imaginava que o José enterrado ali - que na verdade nunca fora poeta -, seria o bisavô de minhas filhas, alguns anos depois. Elas, aliás, têm também o sobrenome Telles na certidão de nascimento. Só uma curiosidade: certa vez, minha esposa, que não sabia onde o avô estava enterrado - e muito menos de minha pesquisa -, foi levada por mim ao túmulo do vô José. Ficou surpresa que eu e não ela soubesse o lugar exato do sepultamento.
Naqueles dias de pesquisa, procurei muito em jornais locais antigos alguma pista sem sucesso algum. Cheguei a enviar mensagens em rede social a pessoas de União da Vitória e Porto União que possuíam o sobrenome. Ninguém conhecia nenhum José Antônio. Foi nessa época que conheci minha esposa, neta de um deles. O vô dela não escrevia poemas, mas plantava verduras, o que não deixa de ser poético.  
Admiti o fracasso e desisti de outras buscas. Pensei que era uma artimanha do destino esse mistério. A literatura para mim, aliás, tem muito dessas coisas que não se explicam, pistas que levam a lugar nenhum. Aceitei a aporia e deixei o poeta pra lá. Talvez Sofonias Thabor desejasse permanecer no anonimato, ou o momento da revelação ainda não havia chegado. Isso tudo foi há quase dez anos. O José Antônio passou a ser apenas o avô da Géssica, o bisavô da Catarina e da Aurora.
Há alguns dias, lendo o prólogo do livro “Atlas”, de Jorge Luis Borges, encontrei a seguinte frase: "Não há um único homem que não seja um descobridor". Um faísca se acendeu em mim. Não sei o motivo, mas relembrei da "Lira dos Pinheirais", de Sofonias Thabor, e da minha busca perdida por uma identidade velada.
Em tempos de clausura, de quarentena, devido à pandemia de coronavírus, e obrigado a permanecer em casa, resolvi lançar um pedido ao astral, como aqueles escritos em papeis que depois de queimados têm suas cinzas e fumaça levados ao céu. Se Sofonias permitisse o fim do mistério, que me ajudasse a solucioná-lo. Procurando na internet por algumas ocorrências com os vocábulos José Antônio Telles, descobri que na cidade de Castro há uma escola com esse nome, acrescido de mais um vocábulo: Flygare. “José Antônio Flygare Telles”. Descobri também que a data de nascimento e morte do patrono do Colégio eram as mesmas do José registrado no arquivo da Biblioteca Pública do Paraná, a saber 1911-1976. A busca incansável recomeçou. Um trabalho de pesquisa por vezes tem uma boa dose de obsessão. Borges esqueceu de dizer na frase que o descobridor é quase sempre um obcecado. Uma pista leva a outra e vamos tentando decifrar o mundo, como quem navega num hipertexto.
Tentei entrar em contato com a Escola apadrinhada por José Antônio. Sem sucesso. Recesso escolar e ausência de resposta por parte do diretor. Mapeei uma busca virtual pela família Telles, de Castro. E fui entrando em contato com nomes que encontrava. A maioria nada sabia da existência de José Antônio. O senhor Álvaro Telles, por exemplo, sugeriu que eu procurasse uma historiadora da cidade, a Amelia Podolan. Muito solícita e simpática, ela me informou que não conhecia o livro. Tentando me ajudar, descobriu que o José Antônio teria sido casado com uma mulher de sobrenome Gomes, uma família muito antiga que viveu numa região também antiga de Castro. A Amelia me lembrou também que Sofonias é o nome de um profeta bíblico cuja tradução significa “Javé esconde”. Comecei a desconfiar que o José Antônio Flygare Telles poderia ser Sofonias Thabor. E além de tudo, ele estaria pregando uma peça em nós: “Javé esconde”. Eu já estava me sentido o personagem de uma narrativa de Sherlock Holmes ou Dan Brown.  
Paralelamente à conversa com a historiadora Amelia Podolan, conheci, por meio do Facebook, o senhor Antenor Quintiliano Telles, que era sobrinho-neto de José Antônio. Ele se comprometeu a me ajudar e depois de consultar seu pai, me informou que o tio-avô fora de fato poeta. Ele tentaria descobrir se o livro “Lira dos Pinheirais” teria sido escrito por José. Estávamos, talvez, chegando lá. Hoje, acordei com uma mensagem de Antenor contando que recebera de um primo a confirmação da autoria do livro. O ciclo se fechara. José Antônio Flygare Telles era o Sofonias Thabor. Antenor me passou o telefone de dona Yedda, filha do autor. Numa longa e agradável conversa, no início da tarde de hoje, dona Yedda Elvina Telles Bueno me contou que o pai usara o pseudônimo por ser um homem simples, num ato de pura timidez (Mais tarde, Antenor Telles me enviou uma informação importante: Tabor é uma comunidade de Castro, no Distrito de Socavão, onde se encontrava a Fazenda Esperança, que pertencia ao pai do poeta. Até hoje a comunidade leva esse nome). O escritor era natural de Castro, sendo um dos filhos mais jovens de Francisco Telles e Josephina Flygare. O nome José Antônio fora dado a ele em homenagem ao avô, que era um índio guarani. Pelo telefone, fiquei sabendo que o poeta, com aproximadamente onze anos, foi morar na Alemanha, onde estudou música, vindo a se transformar num exímio compositor paranaense. A dona Yedda chegou a publicar uma obra com composições musicais para piano e violino compostas pelo pai. José Antônio além de compositor e poeta foi professor de Língua Portuguesa, de Química e de Música. Era um apaixonado por Literatura. A filha me informou ainda que sua tia Maria Emilia Telles Bauer morou um tempo em União da Vitória, e que teria sido ela a responsável pela publicação do livro. Imaginei que por ser de origem alemã, e tendo morado na Alemanha, Maria Emilia teria ficado amiga do proprietário da extinta gráfica Iguaçu, de Porto União, que era alemão. Questões de interesse étnico-cultural bem poderiam ter aproximado ambos.


Foto: Acervo Família Telles (cortesia Sr. Pedro Telles, sobrinho do poeta)
José Antônio está assinalado


José Antonio Telles com 62 anos
(Foto: Cortesia Yedda Elvina Telles Bueno)


Depois de desligar o telefone pensei na forma curiosa como o universo, por meio de muitas causas, vai atuando sobre nossa vida. O artigo da professora Fahena e as conversas com o seu Odilon me levaram até Sofonias Thabor. Sofonias, por sua vez, me levou até José Antônio. José Antônio me levou a muitos Josés, um deles o avô de minha esposa. Sem essa busca talvez meu destino de família fosse outro. Um outro José Antônio é o poeta e músico Flygare Telles. Esse que hoje se reconhece publicamente aqui. O Sofonias Thabor. Thabor, aliás, é o nome de uma alta colina da Galileia, onde teria ocorrido a transfiguração de Jesus Cristo, sendo por isso considerado um lugar santo e místico, “Har Tavor”, o Monte da Transfiguração. Transfigurar-se, figurar-se em outro, apresentar-se por meio de um pseudônimo, para um dia elevar-se - quem sabe no fim de um suposto mistério -, no dia da revelação. No livro de Sofonias, na Bíblia, aparecem com força as imagens de uma canção da alegria, ou seja de uma música. Sofonias, aliás, parece-me agora obviamente um nome muito musical. O maestro escolheu bem seu pseudônimo. Estava na cara e eu não percebi. Do livro pulam alguns versos de “Saudades do Paraná” (Toada Sertaneja) e Sofonias/José volta a cantar: “Então, adeus, ó minha gente! / Vou pro mato me mudá: / Meu coração só está contente, / No sertão do Paraná”.

Caio Ricardo Bona Moreira,
Professor de Literatura Brasileira na Unespar, campus de União da Vitória



domingo, 15 de março de 2020

A carta-dança-música-poesia de Mariana Mello: apontamentos sobre Anamnese Erótica






Uma carta deseja sempre encontrar seu destinatário. Quem escreve a missiva geralmente está à procura de um outro para conversar. As palavras precisam cumprir um destino, por isso desejam chegar a algum lugar, mesmo que seja dentro daqueles que as escreveram. Ao mesmo tempo, toda carta é monólogo, conversa com o vazio, embora a resposta talvez um dia chegue. Aliás, como escreveu Roland Barthes, em um de seus “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, “como desejo, a carta de amor espera uma resposta”. Nesse sentido, sugeriu o francês, a carta é “ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (carregada de vontade de significar o desejo)”. Só quem ama escreve, mesmo que seja para não falar de amor. Só quem deseja pode escrever uma carta de amor.
Mesmo não se caracterizando como uma série de correspondências – o livro quase nada tem a ver com o gênero epistolar -, é como carta, ou melhor, como um conjunto delas, que leio a escrita dançante de Mariana Mello. São textos que viajam até o leitor, entregando-se ao olhar curioso de quem abre o envelope para espiar intimidades. A artista curitibana, que se apresenta como um híbrido de bailarina, diretora cênica, performer, dramaturga e escritora, recentemente lançou o livro “Anamnese Erótica” (2019), pela editora Medusa (a capa da Eliana Borges é linda). Não à toa, seus fragmentos se apresentam como um prelúdio, ou seja, como algo que vem antes de algo, como uma introdução a uma obra que se desenvolverá depois. Toda a performance do livro se dá nesse prólogo. Aliás, o prelúdio é um gênero musical bastante comum em balés, o que parece justificar a rica e plural arte de Mariana Mello, a escrita de seu bailado, a dança de suas palavras em um constante e bem ensaiado movimento poético. Faz sentido que Barthes, em “O Prazer do Texto”, tenha escrito que um livro erótico representa menos a cena do que sua expectativa, sua preparação. Um prelúdio é perfeito sob esse aspecto.


A escritura de Mariana – evocando em mim, por vezes, a literatura da portuguesa Matilde Campilho e da brasileira Ana Cristina Cesar - faz lembrar que, na arte da palavra, antes de qualquer coisa é a própria língua que deseja. Essa parte de nós cuja sensibilidade se inscreve com mais intensidade no ser. Não esquecer que a língua da boca, rica em terminações nervosas, é lugar de prazer, de onde saem as palavras e beijos, ambos objetos de excitação. Tal qual o lóbulo da orelha, mamilos, nuca, coxas, dedos e sexo, a língua é coisa para ser sentida. Na literatura, é ela o mais sincero e primevo objeto do desejo amoroso. Não seria fortuito observar que na narrativa de Mariana Mello a língua e suas palavras aparecem sempre relacionadas ao erotismo, dobrando-se numa perpétua coreografia que afirma o desejo em cada um de seus gestos: “Inventava uma língua ainda mais estranha, afirmava sutilmente, insinuava palavras secretas, provocava sins e concordâncias. Estruturava frases infinitas para que ele não pudesse deixar de olhá-los, como se meus lábios fossem a única coisa existente nessa galáxia, como se todo o universo dependesse daquilo que meus lábios diziam e de como meus lábios se moviam para fazer o mundo dizer”. A língua, assim, é a nossa própria existência. Por ela, alimentamo-nos também. Na prosa poética de Mariana, ao insistir no uso de “titânicas e precárias palavras”, aquela que escreve descobre uma forma de existir, resistir e inventar o amor.




Uma anamnese, na acepção médica, alude à consulta inicial que um profissional da saúde faz com o paciente para diagnosticar uma doença, sendo dessa maneira uma conversa em busca da cura. No mundo de vertigem da narradora de Mariana Mello, o corpo parece por vezes padecer de uma doença alimentada pelo desejo, seu phármakon. Não olvidar que essa expressão grega alude, ao mesmo tempo, a remédio e veneno, como todo medicamento em algum sentido o é. O desejo que oprime e angustia é o mesmo que dá vida, alimenta e faz um corpo se mover em seu existir. Numa espécie de doença a narradora anota que as células mortas de seu corpo são frutos de “milhares de amores abortados”.
No âmbito filosófico, o termo anamnese alude ao processo de rememoração por meio do qual o ser redescobre dentro de si as verdades de um mundo das ideias guardadas no ente para além da experiência sensível. É por isso que a anamnese erótica de Mariana é um “tatear a memória”, um rememorar o que passou, um reelaborar o vivido por meio da escrita, um reencenar a peça de seu teatro amoroso, tentando promover a partir da experiência da perda, da falta, da ausência um encontro com ela mesma. Registre-se que a escritora, em 2018, publicou a peça teatral “Noche de navidad o la familia”, pela Punto Aparte, da Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá, onde Mariana vive ensaiando possibilidades de hibridismo entre artes e linguagens. 


Naturalmente, falar sobre o desejo se dá inevitavelmente de forma insatisfatória, nada mais lhe restando além de ser o lugar de uma afirmação, como sugeriu Roland Barthes sobre o discurso amoroso. Eu desejo. Eu desejo o que não possuo. Por isso escrevo. Uma carta à procura de seu destinatário. Eu me movo nessa busca. Eu desejo nesse vazio. Eu me perco. Eu me encontro. Eu me perco de novo. Eu danço. A escrita de Marina assim observa: “Perpetuávamos um jogo que não agia apenas para concretizar o desejo senão porque encontrava na impossibilidade e no postergar do desejo uma chama vibrante e inesgotável. Uma chama capaz de sobreviver mesmo sem oxigênio por muitos dias seguidos, alimentada apenas pela promessa de concretização do desejo, ainda que num futuro improvável”.   
A narradora de Mariana Mello tem sempre a cidade como palco de seu teatro, de sua “sede sem fim”, de suas caminhadas ébrias. A cidade é também o lugar do outro: “Queria contar-te que sigo pensando nas ruas de teu bairro”. O desejo é também o de tocar a cidade, “a sensação do sol às 14h17 da tarde ao sair do cinema em frente ao cais”. O desejo pela cidade é também o desejo pelo outro, aquele que lhe falta. Um corpo à procura de outro. Entre eles, uma peça de roupa, um janela de vidro, um texto. São elementos que separam os corpos, no entanto se abrem para um contato em seu limiar, o cheiro do corpo do outro na roupa como um vestígio, o ser do outro no texto como um rastro, o botão da roupa como uma janela ou um envelope da carta que se abre em desejo para o corpo do outro. Lembremos que, para Barthes, em “O Prazer do Texto”, é a intermitência que é erótica: a pele que cintila, por exemplo, entre duas peças de roupa, ou ainda, a “encenação de um aparecimento-desaparecimento”. Ler sempre as páginas do livro para lembrar – em anamnese - que numa carta amorosa ou erótica o leitor é sempre o outro desejado. Chama que se acende pela palavra, esse corpo que deseja. E o outro, mesmo em falta, estando sempre ali. O outro mora sempre um pouco no nosso desejo. Inelutável vestígio. O livro foi escrito para cada um de nós.

Publicado originalmente no dia 14 de março de 2020, no Jornal Caiçara, de União da Vitória (PR).

link: http://www.jornalcaicara.com.br/colunas/a-carta-danca-musica-poesia-de-mariana-mello-apontamentos-sobre-anamnese-erotica/

quinta-feira, 12 de março de 2020

poema em dolly zoom sobre o filme de petra costa






vertigo
um corpo que cai
como num filme
da Paramount
dirigido por Hitchcock
em que estrelou
James Stewart
vertigem
em que pese
o medo de altura
a nos seguir
por toda parte
dando a falsa
(ou não)
sensação
de um movimento
de queda
ou rotação
desordem
(Josef K, eu sou o próprio)
em tempos de homens partidos
porvir
o saber,
quem é o povo
quem a democracia?
dos dois
quem o detetive
(que sofre um terrível
medo de altura)
quem a mulher louca
com tendências suicidas
quem é quem?
quem é?

c.moreira

Poema para Augusto de Campos (90 anos)




c.moreira

Descoberta




O meu Brasil
é o de Cabral
Não o de Pedro,
O luso Álvares,
Nem o de Vasco,
Em épico verso,
O nauta das Índias.
O meu Brasil
É o de Cabral,
Aquele de João,
Vulgo Severino,
Não o do velho do Restelo,
Mas o do torero sevillano
Com o mal de Homero
em seu destino.
Um Brasil de João
Tecido em tantas manhãs
Com seus fios e rios em discurso
Coisas de engenho ou engenheiro
Com alma de pedra,
Cérebro de poeta,
E coração nordestino

c.moreira