segunda-feira, 14 de setembro de 2020

9 poemas para rezar

***

Cristo
tua cruz
É o nosso
mundo

Antes fosse
Que a treva
Esse peso
Um facho de luz

De tudo o que o Pai
Criaste
Somos
Mesmo e de fato
O calvário e a cruz

Perdoa os desatinos,
Não sabemos o que dizemos,
Não sabemos o que fazemos,
Livra-nos de nós mesmos,
Mas deixa um cadinho
Pra esperança,
Pra ver se o sopro
chamusca de novo a chama,
Amem, Jesus!

***

Santo Antonio

 

Antes do mundo
Do que de Pádua
ou Lisboa


Devoto sou
Desse ser
que tirou
As sandálias
Para virar
O senhor
dos caminhos

Quem me dera
Seguir os seus passos
Ou ficar em seus braços
Feito fosse de gesso ou barro
No altar Jesus menino


***


Oratório

Fadado na imagem
A carregar ad aeternum
Como Atlas o mundo
Jesus criança nas costas

Vai e cruza o rio
Pagão convertido
Reprobus ou Offerus
Em Cristóvão cristão

basta ao mártir
um bastão ou cajado
E a fé, essa carga pesada,
Que transforma
Em divina graça
O karma do peregrino

E assim
Benfazejo
Vai Cristóvão
Vai benzendo
Com água santa
O viajante,
O motorista
O caminhão

E então o milagre
No nascer da palmeira,
Me empolgo com a história
E como num filme de Pasolini
Me transformo no santo:
Vem o rei e me corta a cabeça
Agora só vejo
Por Deus,
Nosso senhor,
Com o coração:
Corta!

***

Ano novo

 

Que você
Receba

(No ano que chega)

Tudo o que quiser!
Sagrado seja
O teu viver e
Tudo o que vier!

!Hay que hacer da vida
Un eterno
Milagro!
Como o ar
que se respira
O sal do mar,
Do pão, o vinho,
E o sangue vivo de
San Gennaro


***

Um tau para Francisco,
Solo para árvores e passarinhos

Uma vida desapegada
De tudo o que o tempo rói
Espero um dia alcançar
Um centímetro das relíquias
morais de Francisco
Um fio de cabelo que seja
Um fiozinho só
Um pouco de seu destino de índio
(avesso a todo e qualquer latifúndio)
Um pouco de sua poesia em reza
Regar com ela a semente
e regá-la
Para além da hagiografia
Só pra ver brotar a virtude
Em púrpura, índigo
ou vermelho carmim
Para que desabrochado em flor
Tudo o que é bom
Nasça naturalmente
Em meu jardim

***

São Chico

São como São Chico
Das coisas do céu e da terra
Os índios respeitando seus rios
Os bichos e toda floresta

São como São Chico
O homem um dia será
Se ler em seu breviário
No tempo que ainda lhe resta
O canto de um sabiá

São como São Chico
O tal rio que leva seu nome
E a água como a fé o tau
E a palavra a todo mortal
Que dela tem sede e tem fome

***

Santa Maria
Madre Aparecida 
Teu ventre
em Ó
todo sol irradia
O mundo
Fecunda 
Em teu nome
Toda mãe
Engravida
Em teus braços
Sou eterno menino
Senhora do sagrado feminino
Em meu ser o teu
Tudo o que sei
Santíssima
Mater nossa
Mater dei

***

Em toda mãe preta
O semblante da padroeira
Que abraça seu filho Brasil

Regando com seu leite
O solo auriverde
E a boca faminta
Do menino que traz
Gravado no peito
E ao mesmo tempo
Seu destino de pária
Neste vale de lágrimas
E a esperança
De uma pátria
mais mátria
mais justa e gentil
 
***

Ó

o ventre
entre
o dentro
e o fora

o ventre 
dando a Deus
circunferência
no Ó da barriga
de Nossa Senhora

no ventre
a chama vive
vibra e sopra
e entre
o dentro 
e o fora
como labareda
ou meteoro 
arde divina
e imensíssima
agora

O poema "Ó" foi publicado com o pseudônimo Maria de Fátima Marcondes, 
na antologia Poesia, da Therezinha Cartonera, de União da Vitória (2013).
***


Caio Ricardo Bona Moreira


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

“Poema para a catástrofe do nosso tempo”, de Alberto Pucheu: As ondas e o levante

 


O livro “Poema para a catástrofe do nosso tempo”, de Alberto Pucheu, acaba de ser publicado pela Editora Bregantini e disponibilizado em formato e-Book na Amazon, tendo sua verba de arrecadação destinada ao Observatório de Favelas, do conjunto das comunidades da Maré.  

 

Há um tempo de luto e um tempo de luta. Tanto em um como no outro, encontramos uma situação favorável à poesia, essa experiência que faz da linguagem escrita um instrumento de interrogação da vida, de criação de novas possibilidades de entendimento do ser individual e coletivo, sendo por isso um convite permanente à transformação. Há ainda um momento mais pungente, aquele que abarca um tempo de luto e luta simultaneamente. A luta, aliás, é quase sempre consequência de um luto. A humanidade atravessou inúmeras vezes esse período específico em que o choro pelos mortos e o pesar por uma condição adversa deu lugar à revolta, ao grito e ao levante. Esse acontecimento é mais recorrente do que imaginamos. Hoje, por exemplo, temos experimentado com uma força imensa a coexistência entre luta e luto. “Poema para a catástrofe do nosso tempo”, de Alberto Pucheu, é uma síntese de nosso triste presente que capta como um sismógrafo duas ondas sinistras que ameaçam o nosso país, lendo nossa particular tragédia à luz da catastrófica pandemia que já matou quase um milhão de pessoas no mundo.

O poema-livro dá continuidade à produção de alguns textos que tratam da história recente da política brasileira. O primeiro, “Poema para ser lido na posse do Presidente”, publicado em 2010, no dia anterior ao segundo turno da eleição que levou Dilma Rousseff ao poder. O segundo, “Para quê poetas em tempos de terrorismo?”, escrito enquanto ocorria o processo de impeachment que começou a desenhar o absurdo e triste cenário político atual de nosso país. O “Poema para a catástrofe do nosso tempo” começou a ser escrito um pouco antes do segundo turno da eleição de 2018 e foi finalizado há algumas semanas, no momento em que assistíamos (e ainda assistimos) à assustadora situação da pandemia no Brasil e no mundo, paralelamente a uma série de abusos, descasos, arbitrariedades e escândalos envolvendo o Governo que, por sinal, desde o início do surto da Covid-19, tem agido de forma irresponsável na condução de políticas que poderiam minimizar a contaminação e consequentemente as mortes em território nacional.


(Fonte: www.albertopucheu.com.br)

Daqui a alguns anos, as pessoas interessadas em compreender o que está acontecendo hoje no Brasil encontrarão no poema-livro de Alberto Pucheu uma lúcida, emocionada e apaixonante análise (o poema é bem mais que isso, no entanto), três qualidades que não são em nada contraditórias. O poeta, aliás, tem consciência disso e escreve quase no final de seu texto: “Que se tenha aqui em registro para que se possa, um dia, quem sabe, pelos sintomas narrados, investigar a doença maior de nosso tempo, ganhando antídotos sociais, vacinas políticas, curas históricas de modo que ela, em hipótese alguma, retorne”. As duas ondas, a da Covid-19 e a da insensatez política, no Brasil, são avassaladoras, tendo sua catástrofe dimensionada pelo atual Governo. No entanto, cumpre observar, as ondas com o tempo se dissipam ou pelo menos perdem potência, enquanto outras ondas se formam, muitas delas conscientes de nosso estado e capazes de interpretar, bem como de combater nossas misérias. O poema de Pucheu é uma dessas ondas que integrando um conjunto de outras, vai produzindo movimentos e choques capazes não apenas de sintetizar o nosso tenso tempo, mas de abrir brechas nos caminhos fechados por meio da poesia, afinal de contas, como escreveu Lindolf Bell, “o lugar do poeta é onde possa inquietar”. E mesmo confessando um estado de puro desencanto, não há um bom poema que não ilumine, mesmo que timidamente, a escuridão do nosso presente, ou de que pelo menos assinale essa treva, o que pode por sua vez estimular a abertura de uma fresta de luz. Se a onda das excepcionalidades políticas do nosso atual Governo, gestadas desde o impeachment, e a onda da Covid-19, amplificada pela irresponsabilidade do Estado, trouxeram desgraça ao nosso país, há uma onda contrária, então, que demarca um gesto de força no contexto de um luto pelas perdas – pouco sentidas, aliás, pelo alto escalão governamental, como podemos observar avaliando suas ações e discursos – e de uma luta contra nossa catástrofe política. 

A grande onda de Kanagawa, de Hokusai

Insisto na imagem das ondas. Ela encontra ressonância no ensaio “Ondas, torrentes e barricadas”, de Georges Didi-Huberman, publicado no Brasil recentemente pela Revista Serrote (nov. de 2019 – n. 33). No texto, o ensaísta francês compara os levantes às ondas do oceano. Para ele, a potência da onda passa despercebida até o momento de sua explosão: “É exatamente isso que os poemas, os romances, os livros de história ou de filosofia, as obras de arte sabem registrar, amplificando as coisas, dramatizando sob a forma de ficções, imagens de todos os gêneros”. Didi-Huberman analisa como a história e a arte ensinam que a revolta nasce do luto e se propaga em um turbilhão pessoal e, então, coletivo. O texto aponta como as grandes revoluções francesas do século XVIII e principalmente do XIX são representadas a partir de imagens que conjugam, na metáfora da catástrofe meteorológica, a onda, o ciclone, as tormentas, as tempestades, as efervescências climáticas, etc. São “imagens-sintomas” que traduzem um mal (mau) tempo. O céu fecha, o mar se agita e as ondas se levantam para se chocarem umas com as outras. Assim como Pucheu, Didi-Huberman nos fala em catástrofe. Assim como Didi-Huberman, Pucheu nos fala em ondas: “Estamos tristes, poeta, o mar da história é, de fato, agitado, atravessamos ameaças e guerras”. Isso sem contar a onda (nuvem) de gafanhotos e os vendavais no Sul do Brasil, surgidos depois do lançamento do livro. O poema e o ensaio, lidos em conjunto, convidam a uma minuciosa análise comparativa, que, infelizmente, não fazemos aqui por falta de espaço.


Ondas, de Robert Longo

("É preciso aprender a ficar submerso" é o nome de um sugestivo poema em que Pucheu explora a imagem da onda para falar de resistência. Aparece no livro "[Mais cotidiano que o cotidiano]", 2013, Azougue Editorial) 

O espectro que ronda o poema de Pucheu é o do mal tempo, em versos que enfatizam o tom de seu lamento: “Amanhã não será um dia melhor / do que hoje, que não é um dia / melhor do que ontem. Há um / sentimento fúnebre no ar (...)”. Um conjunto de palavras que se repetirá ao longo do livro. O poema aponta para o fato de não assustar mais ninguém com o seu berro: “São, eles, antes, os inassustáveis que diariamente nos assustam”. E esse é um grito de desesperança. Está logo no início do texto e revela a consciência trágica de sua contemporaneidade. Estamos dentro da onda. Há poucas semanas eram 10.000 mortos no Brasil, o poeta nos informa jornalisticamente. Agora, poucas semanas depois da publicação do livro, já são mais de 120.000. Enquanto a informação já envelhecida nos impressiona, colocando o livro no rol das obras do passado, tudo o mais que está ali é profundamente atual e ainda em movimento.

Para Pucheu, o poema não é uma arma contra o autoritarismo, mas o desejo de desarmar o autoritarismo. A viagem ao nosso passado recente, da ditadura de 64 ao processo de impeachment, bem como uma lúcida análise do Governo de Bolsonaro e o acontecimento da pandemia, traçam o pano de fundo da catástrofe de nosso tempo. A inserção de depoimentos de mulheres torturadas pelo Regime Militar e a reunião de frases proferidas nos últimos meses pelo presidente, ganham sentido e força ao serem inseridas no poema-testemunho, recuperando uma potência perdida no dia a dia pelo desenfreado e gasto vai e vem midiático. O poema de Pucheu parece produzir um “lirismo jornalístico”, sobre o qual nos fala Didi-Huberman, um lirismo que insere com propriedade o político na lógica do poético. Um dos pontos fortes que diz respeito a isso aparece na importante e bem elaborada resposta que Alberto Pucheu dá ao filósofo Giorgio Agamben, que recentemente causou polêmica ao questionar a imposição do confinamento por parte do Estado. Só esta passagem já vale a leitura do livro.

Nossa tragédia não é grega, sugere o poeta, mas o poema que aponta para o abismo é uma espécie de Tirésias, talvez o mais lúcido personagem de Sófocles. O poeta não é cego, e assim como Tirésias – que o era – vê: “Sou feito de nervos, carne, assombros / e muito do que olho me intoxica. / Nunca foi tão difícil olhar à minha / volta, mas muito mais difícil é ver / o que olho. Hospitais a cada dia / mais lotados, mortes, pânicos nos olhos / das pessoas, ameaças reais de mortes / por contágio familiar em muitos lares, / cemitérios cavando covas sem parar, / preços disparados do que se tornou / o mais necessário, decretos autorizando / demissões em massa, decretos autorizando / reduções da jornada de trabalho, decretos / autorizando cortes salariais de 30 a 50% / do funcionalismo público, decretos / para reduzir o isolamento, decretos / obrigando as pessoas a trabalharem (...)”. A lista segue adiante e vai longe. Tudo sob controle, só não sabemos de quem, como afirmou o vice-presidente. O poema nos ajuda a entender mais do que a nossa triste realidade. Ajuda-nos a constatar que mais importante do que enxergar, é preciso saber ver, algo fundamental quando diante de uma catástrofe e sem fé na luta, não nos resta muito mais do que levantar a luta. Continuar vivo e não perder a capacidade de ver, aliás, são os primeiros passos. Ao contrário do Governo, que tem revelado como nunca sua maquinaria biopolítica, ou melhor necropolítica, o poema em foco defende a vida e nos convida com presteza a ver. Apesar do desencanto que o move é um alento essa onda que se levanta.             


Caio Ricardo Bona Moreira

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR).


Fragmento de "Poema para a catástrofe do nosso tempo", de Alberto Pucheu:

XVII

Como quem busca um mínimo
vestígio dos mortos, uma linha
que nos possibilite algum modo
de convívio, ainda que mínimo
e desigual, um horizonte qualquer
de memória, uma contemporaneidade,
um caminho que nos leve até eles
ou os traga até nós, de todo modo,
que não os permita ir completamente
embora, que não nos permita ficar
para sempre sem suas histórias,
sem seus afetos, sem o que
pensaram, sem o que sonharam,
sem o em nome de que e contra
o que lutaram, sem seus testemunhos,
procuro, sem as encontrar, listas
com seus nomes, levando-me a crer
que eles são a cada vez anonimizados,
desprezados, relegados imediatamente
ao esquecimento. Há milhares de nomes
que deveriam estar disponíveis
em algum lugar para sabermos
quem são os mortos diretos e indiretos
pelo vírus e, sobretudo, pelo presidente
que se aproveita do vírus para matar,
mas, além de não sabermos seus nomes,
não sabemos, tampouco, e menos ainda,
os nomes dos subnotificados, daqueles
que passam por fora dos dados
oficiais, daqueles que o governo
não testa e que, mesmo se os testasse,
esconderia os resultados de todos nós.


(Video-poema "É preciso aprender a ficar submerso"

https://www.youtube.com/watch?v=jGwY2daOJGs )

quinta-feira, 9 de julho de 2020

A poesia de Cristiano Moreira: carpintaria, tipografia e dentes de cachorro



Foto: Acervo Cristiano Moreira


Apreciador da produção literária paranaense - dos simbolistas aos contemporâneos -, confesso que, ao longo de minha vida, dediquei pouco tempo à leitura de autores catarinenses. A arte da palavra é uma coisa que não tem fronteiras, mas acabamos sempre associando autores a seus espaços sociais. E, de certa forma, aqueles que escrevem são influenciados por esse fator, sendo ao mesmo tempo elementos capazes de transcender a tal espaço. Para escritores, não existem limites, mas apenas limiares.  Tudo isso para dizer que um escritor está dentro e fora de sua própria casa. De longa data, sou um admirador de Cruz e Sousa, Ernani Rosas, Lindolf Bell e Péricles Prade. Já li com prazer livros da Urda Alice Kluger, Enéas Athanázio, Salim Miguel entre outros. Dos contemporâneos conheço quase nada. No entanto, há algumas semanas tenho descoberto e lido com muito encanto e interesse poetas do presente como Dennis Radünz e Cristiano Moreira.
Cristiano Moreira, além de poeta, é o idealizador de um belo refúgio integrado à Mata Atlântica, no interior do município de Rodeio, em Santa Catarina. Trata-se da Quinta da Gávea, uma propriedade rural que foi transformada num quintal criativo. Lá, o visitante pode, além de se integrar à bela natureza do Vale do Itajaí, vivenciar uma experiência poética, conhecendo a Biblioteca Rural, coordenada pelo Instituto Caracol, bem como a Oficina Tipográfica Papel do Mato, dirigida pela Papaterra Editora e Produções Culturais. Portanto, a Quinta da Gávea, trabalhando com o conceito de economia criativa, alia o serviço de hospedagem a um espaço de arte e educação. Com recorrência, Cristiano promove eventos culturais naquele curioso lugar, que é uma espécie ecológica de reserva poética.  

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira


Foto: Acervo Cristiano Moreira


Há alguns anos, li dele o belo “Dengo Dengo” (Papaterra, 2016), um livro infantil para todas as idades. Ilustrado pela artista argentina Yannet Briggiler, o poema, em seu costado e convés, é uma obra marítima com gosto de sal e cais. Trata de narrar a aventura de um barco durante uma tormenta em alto mar. Ele só poderia ter sido escrito por alguém que ama as águas profundas e a elas é fiel. Aliás, Cristiano, esse calafate de palavras, já morou em Navegantes, onde foi ajudante de carpinteiro naval. A história do barco e de seu sonho é um livro sobre o amor e a esperança, evocando em minha memória afetiva o clássico “O velho e o mar”, de Ernest Hemingway, com o sabor sonoro de um João Cabral de Melo Neto. 
O trabalho de carpintaria é uma atividade que nos ajuda a dimensionar a arte de Cristiano Moreira. Recentemente, o poeta escreveu e confeccionou em sua Oficina Tipográfica o precioso “Imagens da Madeira” (Papel do Mato, 2019), que reúne um conjunto de poemas inspirados no trabalho dos mestres carpinteiros e calafates, artesãos da ribeira do Itajaí-Açu. Um deles: “O carpinteiro sob sol / segura cunha contra o barco / como farpa / dentro de um olho vê / o barco, esta palavra / crescer em seu corpo”. O livro foi impresso pelo próprio Cristiano e contou com o projeto gráfico de Jakson Chiappa. A tiragem foi de 25 exemplares. Carpintaria e Tipografia são artes que combinam e inspiram o trabalho literário do escritor.

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira

Foto: Acervo Cristiano Moreira

A tipografia, que alia um tipo de artesania a um tipo de técnica, no sentido da maquinaria que permite a reprodução (o assunto convida a muitas reflexões no âmbito da literatura), inspira um dos mais recentes livros de Cristiano Moreira. Refiro-me ao “Dente de Cachorro” (Nave Editora, 2018), que me surpreendeu pela beleza poética, aliando com força o minucioso trabalho verbal a uma atualidade política que traz a poesia para o debate de nosso tempo. O livro merece certamente uma leitura muito mais minuciosa do que aquela presente nas vagas e imprecisas impressões que apresentamos aqui. Esse dente merece um longo texto só para ele, um artigo ou um ensaio que esmiuçasse os sentidos do poema que dá nome ao livro, que lesse de maneira mais aprofundada a beleza dos espaços entre suas palavras, espaços que fazem jus ao seu título, já que “dente de cachorro” significa aqui “erro tipográfico caracterizado pela inserção exagerada de espaços entre letras e palavras”. Esse vácuo, essa lacuna, esse hiato, esse dente de cachorro aqui se transforma em recurso, em imagem espacial que dá potência à poesia. Seria necessário atentar para a fotografia da capa trazendo um tipo gráfico dentro da boca de um cão, o Sumério. Entre seus dentes, a palavra afiada e potente como um latido. O poeta não morde, late, mas o latido morde o mundo. Parafraseando o poeta Pádua Fernandes, que figura em uma das epígrafes do livro, o que temos aqui não são poemas e sim latidos. Não há um autor, mas uma fera. É uma imagem bonita. No entanto, é claro, existe o poeta e suas armas são as palavras: “(...) no estado de exceção / importa resistir à investida / com poemas / e outras formas de vida”. Os versos aqui não conseguem reproduzir o aspecto visual do poema que é fundamental para a sua apreciação. Há que se ler no livro.


“Anti-tipografia”, o primeiro poema da obra (na verdade o segundo, porque o primeiro está na capa), nos mostra em que terreno pisamos. A arte da tipografia dá lugar a primeira (má) impressão, infelizmente aquela que fica. Trata-se do que temos visto reinar atualmente no Brasil: “[bois sem canga no planalto] / puseram o país na prensa / com imprensa um tanto torpe / lavraram leis, livraram réus / chutaram alto / e passaram a imprimir o golpe”. “Anti-tipografia” é uma arte que aponta para a ausência de arte na política de nossa governança, que nem chega a estetizá-la.            
O clima de intranquilidade e a consciência da desgraça vai imprimindo ao longo das páginas o tom do livro. O poema “Sinuca”, que imagina uma conversa do poeta com o pai, inspira-se no jogo aclamado pelo escritor João Antônio para falar de tempos difíceis. Estamos numa sinuca, diz o ditado popular. O boteco é um microcosmo do país. Lá o taco ataca a bola como “lá fora o pau come / bala de borracha / acerta o estudante / feito bola 8”. “Sinuca” aponta para a vida como uma política de jogo. O que de certa forma vemos também no poema “Infância do pife”, que a partir de um jogo de cartas elabora um rico jogo de imagens. A escritura como jogo. Em “Desmoradas”, o poeta aponta para a despolitização dos corpos e de suas moradas desmoronadas. Em “Novena contra chumbo”, os versos nos convidam a seguir adiante, já que “o poema ainda é à prova de balas”. Cristiano Moreira faz o levante com a voz. O enigma de textos como “Deserto, de resto” e “Zezuíííno”, este um dos mais bonitos do livro, já alimentou muitas releituras de minha parte. Outro dos mais complexos, pela sua riqueza, é o poema “A palha alegra o homem”, que insere no mesmo mosaico figuras como o Mágico de Oz, Osman Lins, Oliverio Girondo, Walter Benjamin, Katharina Detzel, entre outras, que devolvem potência à imagem do espantalho. Há ali, a meu ver, o verso mais belo do livro, polifônico com seu sotaque catarinense, “lá há só eco seco sobre saco de supilho”.
Leio e releio o livro de Cristiano Moreira. Sinto-me transformado em um cão. O livro afina o meu faro para o presente da literatura do Estado em que nasci, e afia os meus dentes para o presente desse país exilado em que ainda vivo.  

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR)

quinta-feira, 25 de junho de 2020

“Ossama, último livro”, de Dennis Radünz, e a arqueologia poética e política do presente




Em uma passagem do ensaio “O que é o contemporâneo?”, Giorgio Agamben exuma o poema “O século”, de Osip Mandelstam, observando que as vértebras fraturadas do tempo, evocadas pelo texto, dizem respeito não apenas ao tempo que concerne à vida do indivíduo, mas principalmente ao tempo histórico e coletivo no qual o sujeito está imerso. O poeta, no dizer do filósofo italiano, é essa fratura, “aquilo que impede o tempo de compor-se e, ao mesmo tempo, o sangue que deve suturar a quebra”. O presente que a contemporaneidade experimenta tem, então, as “vértebras quebradas” e nós estaríamos exatamente no ponto dessa fratura. O poema foi escrito na Rússia, em 1923, mas salta aos nossos olhos quase um século depois ao lermos “Ossama, último livro”, de Dennis Radünz. A ossatura quebrada de nosso tempo dá a medida da contemporaneidade da obra desse poeta que nasceu em Blumenau e vive hoje em Florianópolis, tendo já publicado uma série de livros. O mais recente, sobre o qual nos debruçamos aqui, veio a público pela editora Letras Contemporâneas, em 2016, ganhando uma segunda edição em 2019.
Penso que “Ossama” pode ser lido como uma espécie de baú de ossos minuciosamente exumados pelo autor em sua lida poética. Aliás, “Exumação” é o nome do poema visual que acompanha a publicação, lançando luz à leitura de uma série de textos que formam um conjunto coeso e coerente. Nota-se que há um projeto muito bem arquitetado por trás de sua construção, seja nos temas evocados, nas relações de parentesco, na exímia sofisticação verbal, na composição de uma poética incomum e capaz de produzir constantemente nos leitores um profundo estranhamento.

      
Desenho de Jules Laforgue

Dennis Radünz, no livro, não parece analisar a decomposição ou a decadência de um corpo – posto que os ossos nus já estão desprovidos de carne. A vida póstuma aqui está posta a nu, cabendo ao poeta, arqueólogo do presente, inventariar os bens de nossas vértebras fraturadas. No entanto, para usar uma expressão de Walter Benjamin, o poeta, mais do que fazer um inventário dos achados, “assinala no terreno de hoje o lugar no qual é conservado o velho”. Mais do que agir de forma informativa, o arqueólogo de “Ossama” sabe indicar o lugar exato onde se apropriou de suas ossadas. Tocar em ossos é, nesse sentido, tocar o tempo. O livro, por sinal, está dividido em duas partes que apontam para essa perspectiva: Datação pelo Carbono e Datação por Luminescência. Pensar o presente na poesia de Radünz é pensar em formas fósseis, ruínas, múmias incas, moedas mortas, museu do mundo, cadáveres. A alegoria da caveira talvez nos ajude a pensar um pouco mais no conjunto desses destroços.
 A caveira, em um sentido benjaminiano, revela-nos a imagem da natureza petrificada que é a marca daquilo que a história chegou a ser. Susan Buck-Morss, leitora de Walter Benjamin, lembra que os poetas alegóricos liam um significado similar no emblema da caveira, “o resíduo esquelético de olhar vazio que alguma vez tinha sido o rosto humano”. Ossadas, esqueletos, ossaturas, carcaças, escombros, ossamas, são alegorias de nosso tempo e de nossas misérias. A mesma caveira e ossos cruzados que indicam a presença de substâncias tóxicas em placas de transporte ou embalagens de produtos químicos é aquela ostentada em emblemas costurados nos uniformes de algumas unidades policiais voltadas para operações especiais. Seus sentidos podem não ser os mesmos mas no fundo o que está em questão é o velho e conhecido sinal que aponta para a morte. Eis o nosso memento mori e sua fácies hipocrática.
Importante observar que para Walter Benjamin alegoria e mercadoria estão intimamente ligadas. A alegoria opera a morte do sujeito clássico. A consequente desintegração dos objetos permite o ressurgimento da alegoria no capitalismo moderno. Ao comentar o pensamento do filósofo alemão, Jeanne Marie Gagnebin conclui que “não há mais sujeito soberano num mundo onde as leis do mercado regem a vida de cada um, mesmo daquele que parecia poder-lhes escapar: do poeta”. No baú de Radünz os ossos/poemas são pensados também à luz da mercadoria. No poema “Cinquenta cruzados novos”, podemos imaginar que o que está em jogo é a perda do valor de troca da célula, bem como a perda do valor de uso da poesia, a partir de uma alusão a Carlos Drummond de Andrade e à cédula que estampou seu rosto nos anos oitenta: “os cruzados novos, custo caro de Carlos, / quando circularam uma soma de ocasos / consumida em cruza de papeis e moeda: / o gasto do rosto no inconsútil da cédula (...)”. Aliás, no último poema do livro, “Economia das formas breves”, especula-se sobre o valor monetário do livro e de cada poema em específico: “são somente trinta e um esses poemas / os objetos de um livro exposto / ao preço de trinta e um reais (apenas) / e a custo de despender os anos (...)”. A ideia de valor parece percorrer “Ossama” no sentido econômico e artístico, o que nos convida a lembrar das observações de Gagnebin sobre Benjamin e na forma como o filósofo leu Baudelaire. A grande questão era pensar como a poesia poderia continuar existindo numa sociedade comercializada e dominada pela técnica. Em Radünz, penso, sua “Ossama”, símbolo da morte, é também um convite a uma reflexão sobre a vida póstuma das coisas, bem como sobre a pervivência da poesia em tempos de pura mercancia.
Que os ossos de “Ossama” sejam o sinal da vida marcada também pela poesia cumpre-nos observar. Vem daí a beleza politicamente poética do trabalho de Dennis Radünz. Uma ossada não é apenas aquilo que nos resta depois da decomposição, de um bombardeio ou de um incêndio. Ossos servem para manterem um corpo em pé, enquanto pulsa ainda a vida em nós. São como poemas que sustentam um livro. E o livro de Dennis nos mostra o quão viva, poética e política pode ser a imagem de um osso.

Foto: Ayrton Cruz

Vida e morte parecem funcionar como os dois lados de uma mesma moeda. A ideia de pervivência está condicionada por essa simultaneidade. Georges Didi-Huberman, em “Ser Crânio”, evoca a palavra “Átrio” para pensar em seus vários sentidos, representando ao mesmo tempo uma ideia de lugar e uma ideia de ser. Átrio representa uma passagem, um pórtico exterior, bem como um terreno livre que serve de ossário ou de cemitério. Serve também para designar a intimidade de um ser, o abismo de seu pensamento. Portanto, esse lugar de morte é também o espaço de vida, da existência do ser. O ensaísta francês aponta para os “átrios da língua” de que nos fala Henri Maldiney, que são “moradas do pensamento”, indicando o estado nascente da língua, singularidade expressada, por exemplo, por um poema, por uma obra de arte. Maldiney certa vez escreveu que só os poetas habitam os átrios da língua. Curioso perceber que no átrio a mesma vocação do poema para os nasceres e brotares da língua é aquela que representa o espaço, o lugar, onde se guardam os ossos. No livro de Radünz, a morte é esse átrio, museu de ossos fraturados, que guarda também a vida pujante da poesia plena, explorando uma composição literária que pelo esmero e dicção faz lembrar por vezes os versos de João Cabral de Melo Neto. 
Contemplemos brevemente algumas peças desse ossário. O poema “Terrábile” relembra o rompimento da barragem de Minas Gerais que tanto terror trouxe à natureza e à população: “um rio irremovível erra / irrompendo nas terrinas / repletas de terror amaro / o barral ruim das minas (...)”. Em tempos de pandemia, a leitura do poema “Entressonho” ganha sentidos proféticos ao filmar uma peste. Nele, figuramos como o “Emparedado” de outro catarinense, o poeta Cruz e Sousa. Não há para onde fugir. E entre os corpos de vítimas, chama a atenção uma enfermeira “tomada por uma luminosidade que lateja sob a transparência da pele – eu sei, ela também foi contaminada”. Em “Olha-Podrida”, encontramos a alusão a uma iguaria culinária estranhamente associada a homens suicidados por ditaduras. São eles os “fulminados”, “os desterrados carcomidos”, os “sem matéria”, fadados a engrossar com sua carne – com seus “dedos decepados” e “revolvidos em retalhos” -, o caldo atroz da violência.  Seus restos estarão fadados a permanecerem desaparecidos até que alguém encontre seus ossos em algum cemitério clandestino. O subtítulo do poema “As Cidades Sedadas” inscreve o livro em uma certa visão de Brasil: Do genocídio indígena à destruição ambiental, uma “carta do achamento do desastre”. São apenas alguns exemplos de um livro profundamente sintonizado com o presente e com a nossa história. “Ossama” não abre mão de pensar poética e politicamente caminhos para seus versos. Que poesia ainda é possível escrever depois de tantos desastres?


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR)

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Condições ideais para o amor, a obra viva de um poeta morto: Dedicado à memória de Luiz Eurico Tejera Lisbôa



(Foto: Acervo família)

Quando descobri a poesia de Luiz Eurico Tejera Lisboa, fiquei impressionado com a força, visceralidade e urgência de uma revolução social inscritas em seus versos. O poeta chamou a minha atenção não apenas pelo teor político de suas palavras, mas também pelos gestos de uma corajosa e precoce luta cuja história é ainda pouco (re)conhecida.  
Nascido em Porto União mas criado no Rio Grande do Sul - primeiro em Caxias do Sul e depois em Porto Alegre -, o Luiz Eurico foi um dos jovens militantes mortos pela Ditadura Militar.
Ico, assim chamado pelos mais próximos, ingressou no Movimento Estudantil nos anos 60, sendo preso pela primeira vez em 68 por fomentar um abaixo-assinado a favor da reabertura do Grêmio Estudantil da escola que frequentava. Um pouco depois passou a integrar o quadro militante da ALN (Ação Libertadora Nacional). Em 1969, casou com Suzana Keniger Lisbôa, sua companheira de ideais e luta. Com ela, o jovem entrou na clandestinidade. Em 1972, foi encontrado morto no quarto de uma pensão em São Paulo. O episódio, repleto de mal-entendidos, culminou com o desaparecimento de seu corpo. A família só descobriria o destino de seus restos mortais em 1979. Aliás, Luiz Eurico foi a primeira vítima da ditadura a ter seu corpo localizado. Estava em uma vala clandestina do cemitério de Perus (SP). Em 2013, a Comissão da Verdade refutou a versão de que o jovem havia cometido suicídio. Uma série de estudos no laudo apontaram para um assassinato, consignando-se, assim, uma nova versão. Como na história de Vladimir Herzog, a construção de uma verdade mentirosa foi a forma que a repressão encontrou de proteger os verdadeiros assassinos e suas mãos manchadas de sangue.

(Foto: Acervo família)

Impossível resumir a vida de Luiz Eurico em tão poucas linhas. Seria preciso muito mais do que um punhado delas para acertar as contas com a sua história, que é parte de um passado ainda recalcado e que paira como fantasma na nossa política contemporânea.
Em um tempo no qual o país volta a flertar intensamente com excepcionalidades políticas, evocar a memória de Ico por meio de seus versos é uma forma não só de revisitar o passado, convocando o presente a não repeti-lo, mas também de chamar a atenção contra toda e qualquer violência de Estado, vista por muitos como uma condição para normalidade. Não, um estado de exceção não é um paraíso. Está mais para o inferno. Nesse inferno social, reinam a contradição, a falta de sentido e de dignidade. Difícil ali julgar os homens como mocinhos ou bandidos, mas certamente uma violência normatizada e normalizada por um Estado é sempre o signo soberano de uma barbárie. Vivemos em um tempo doente no qual alguns dos que nos representam na política defendem torturadores, elogiando a ditadura, a censura, a morte, entre tantas outras monstruosidades, tudo com uma naturalidade que aos olhos dos mais atentos soa como um absurdo atroz. Conhecer a vida e a obra de jovens como Luiz Eurico é hoje mais do que importante. É fundamental. Infelizmente, jovens – geralmente pobres e negros - continuam morrendo nas mãos no Estado todos os dias, por meio de seus aparelhos repressores e de sua omissão. Índios têm sido assassinados com a conivência de um sistema desigual e omisso em relação a uma promoção mais justa dos direitos humanos. Quem matou Marielle? O que fazer com seus corpos? O que fazer com suas memórias? O que fazer com o sangue que mancha a todos no nosso calejado dia a dia. 


(Fotos: Acervo família)

Certamente, o contexto da escrita da obra de Lisbôa contribui para a sua importância. Como o poeta Paulo Martins - protagonista de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e vivido no cinema pelo ator Jardel Filho -, o Luiz Eurico mesclou poesia e revolução de forma intensa: “Eu / Sou poeta da Revolução / A minha pena é minha espada / E o meu canto / se eu canto / é um canto de guerra”. Eis sua poética/política.  
Em outro texto, o poeta defende a palavra como uma arma, aproximando-se, assim, de uma farta linhagem dos poetas sociais. A diferença é que Luiz Eurico morreu por sustentar essa palavra: “A palavra deve ser uma arma / sem requintes inúteis / de funções evidentes / claramente parcial / e partidária / para ser contundente / e ser na História”. 

Foto que integrou a exposição Ausenc’as (lê-se “ausências”), produzida pelo fotógrafo argentino Gustavo Germano, no O Memorial da Resistência de São Paulo, em 2015.


O comovente poema “Balada de Ham-Li”, por sua vez, descreve a morte de um menino na Guerra do Vietnã, observando que o coração daquela criança “pulsa / inalterado / sobre todo o Vietnã”. Quantos corações de meninos mortos pulsam inalterados sobre o nosso país, de uma periferia a outra?
Poucos sabem, mas Luiz Eurico foi o irmão mais velho do grande compositor e intérprete gaúcho Nei Lisboa. Sobre ele, o músico escreveu a bela lembrança: “Estivemos juntos pela última vez, Ico, Suzana e Eu, em clandestina semana do inverno de 72 na praia do Pinhal. Condições ideais, aos meus púberes treze anos, para uma pós-graduação na arte de fazer pandorgas. Nela colávamos, em papel de seda, a lança de mira, símbolo da ALN. Algumas vezes atingiam o infinito azul do céu, noutras se despedaçavam entre os fios de luz atravessados no caminho. Não se pode acertar sempre. Mas ele, certamente, não morreu de medo”. Poucos sabem também que Luiz Eurico foi amigo de João Gilberto Noll, um dos maiores escritores da literatura brasileira contemporânea, falecido recentemente. Os dois foram amigos de escola e sobre Ico o prosador escreveu um belo texto intitulado “O Denso Silêncio de Lisbôa”, publicado na antologia “Condições Ideais para o Amor”, que reúne a poesia de Luiz Eurico, publicada pela Editora Tchê em parceria com o Instituto Estadual do Livro, do Rio Grande do Sul, em 1993, numa edição organizada por Antonio Hohlfeldt, que traz também algumas correspondências do poeta-guerrilheiro trocadas com Suzana. O livro é um relato do amor de Ico pela companheira, pela luta, pela vida e por um Brasil mais justo e fraterno. Um Brasil que seu sangue regou mas ainda não viu nascer.


(Foto: Acervo família)


O poeta tinha 24 anos quando foi assassinado. Fruto de uma juventude que via Che Guevara e Cuba como símbolos de sua utopia, Luiz Eurico foi um dos jovens que acreditava que essa luta deveria ser vivida intensamente. Se algumas décadas depois a História provou que nenhum lado da moeda é perfeito e completamente justo (ditaduras de esquerda ou de direita são sempre ditaduras, e não era a favor de uma ditadura que lutou Luiz Eurico), isso não diminui a truculência com a qual esses jovens sonhadores foram mortos em um estado de exceção que volta cada dia mais a nos assombrar. O poeta morto permanece um pouco vivo em seus versos, bem como o sistema repressor que o aniquilou. Sua poesia e memória nos convocam a ficarmos sempre alertas. Como escreveu a viúva de Luiz Eurico em um texto que integra o livro: “A verdadeira democracia jamais será construída sobre os cadáveres insepultos dos companheiros assassinados e sob as mãos impunes de seus assassinos”. Quando fizermos um verdadeiro e justo acerto de contas com a nossa própria história talvez venhamos a assistir com menos frequência à defesa do horror promovida contraditoriamente em nome da paz e da normalidade.      

Manuscritos do poeta:




   

Poema escrito em 24 de novembro de 68
Dedicado ao filho que o poeta não teve


Ao Suzico
 
Meu filho
Escrevo agora estes versos para que
saibas algum dia
que estas mãos que empunham a metralha
e semeiam a morte
este olhar resoluto de soldado
têm algo mais que o impulso
               mercenário
e o querer individual.

Para que saibas que estas mãos
               escreveram versos
estes olhos vislumbraram a beleza
               de um outro dia
e este peito coberto de cicatrizes
já abrigou a paixão e o amor.

Para que saibas
que desde o primeiro passo
fui presa até a última fibra
                 da poesia
E que a metralha e a luta
são em tempo certo
o meu maior poema
a grande mensagem de
                   um artista


Publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 23 de maio de 2020.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Oriqui Daqui







“Oriki daqui”, de Caio Moreira, propõe-se a um cruzamento entre as poéticas sagradas africanas e as religiosidades de matriz popular que no Brasil mestiçaram saberes negros, indígenas e brancos. Por meio desse diálogo, na encruzilhada que é (d)obra, firma-se um ponto de força em busca do axé da palavra, devolvendo, assim, potência à poesia.

Livro de Poemas: Oriqui Daqui
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

Fábrica de Flores




“Fábrica de Flores”, de Caio Moreira, apresenta um catálogo poético que faz do adereço um emblema da nobreza ou baixeza humana da flor. No limiar entre a natureza e a cultura, os poemas/plantas da série são artifícios – em tempos de barbárie – que levam adiante a proposta de Maurice Druon postulada em uma de suas obras, que é a de fabricar flores ao invés de canhões.

Livro de Poemas: Fábrica de Flores
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

Papele





“Papele”, de Caio Moreira, situa-se na intermitência entre o corpo e a escritura. A página é pele que o poeta tanto tateia quanto tatua. O livro ensaia ou insinua a escrita do corpo incorporada ao poema ou o ato e a arte do corpo se dobrar no movimento do poema. O poeta, como o fotógrafo, escreve com a luz. E tal grafia se dá no poema feito tatuagem, cuja natureza é sempre selvagem e performática.

Livro de Poemas: Papele
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

13 de maio: Preto Velho

                                     

                          

Zifio, nego véio não tem ar de dotô, mas sabe de saber também. Nego véio move o mundo num vento de viu só com sua franqueza e faz de varrer todo o mal com sua reza de cristo-amém-jesus, arre. Se não sabe que fique sabendo. Nego é cantador do bom e bom de escrever suas mirongas dançando no pé. Fala pro nego, fala, zifio, o que te aflige esse coração de sofrer tamanho mundo. Fio é mais escravo do mundo do que o véio foi do cativeiro. Onde é que dói, zifio? Tem que ficar de pé e se alevantar de novo num causo de cair, que a vida faz seu tropeço pra modo de ensinar e o mundo se ir girando pra frente. Nego não faz milagre, não, mas palavra que nego fala vem do Pai lá de cima e faz curar também. Não tem palavra boa que não cure um coração aflito. O generoso de Nazaré já fazia milagre falando, não fazia? Pequenino grão de areia ou cisco, tento seguir os passos do Nazareno. Basta de fechá o olho pra modo de ver. O fio enxerga? Tem que acreditá. Dizia um dotô aí de vocês, lá das banda do sertão, que viver é muito perigoso. Tava certo, viu, nego sabe e o homem já sabia. Mas é passando pela noite escura que fica dia de novo no amanhã, e mais brilhoso do solzinho que faz a vida raiar de nova aurora, dá de ver? Se ajudá o irmão, então, fica lindo, tudo em volta se alumia. Como diz os irmão dos kardéque, fora da caridade não há salvação. Se põe de joelho, fala pro nego, mas pede pra Deus, que nego chega nos pé do pai crucificado e chora por vosmecê, que as água do mar que rola sincera do corpo lava toda mazela-chaga-e-dor de nossa pobre alma. Se o nego chorá junto com vosmecê, doi menos? Então empresto meus zóio pra junto a gente chorá. Saravá!

Imagem: Preto Velho, de Amadeu Bona