sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Fortuna Crítica


O professor Everton Grein escreveu uma bela apreciação dos meus livros Fábrica de Flores, Papele e Oriki Daqui. Ele apresentou este texto na noite de lançamento das obras, no Espaço Cultural da Estação Ferroviária de União da Vitória, numa noite de dezembro de 2019. Transcrevo aqui o texto pela beleza e agudeza da leitura. 


Senhoras e Senhores,

Boa noite.

Sr. Caio Moreira.

 

Gostaria de endereçar essas breves considerações para um terreno mais pessoal, enfatizando os laços de amizade que nos unem. Importa destacar, em vossa biografia, os vigorosos princípios éticos que a norteiam, e a correlata manifestação de tais valores que transcendem não somente vossa produção literária, mas diria, sobretudo, seu completo e competente trabalho. 

Numa célebre definição sobre o espanto Ferreira Gullar disse “a súbita constatação de que o mundo não está explicado e, por isso, a cada momento nos põe diante de seu invencível mistério. Tentar expressá-lo é a pretensão do poeta”.

Assim não é sem espanto, também, e ao mesmo tempo, tomado por uma grande honra que aceitei seu convite e o desafio de apresentar brevemente os textos de sua lavra. De antemão, digo-vos, uma proposta inovadora abraçada pela Editora Medusa com todo cuidado e delicadeza aos textos que lhes são meritórios. Nomeadamente ORIKI-DAQUI, FÁBRICA DE FLORES E PAPELE.

Caio ORIKI, que em língua yorùbá pode ser traduzido de várias maneiras, sendo as mais recorrentes: texto ou literatura; mas também pode ser usada como nome e sobrenome: oruko-oriki (oruko = nome da pessoa / oriki = diz quem a pessoa é). Ainda os Oríkì (do yorùbá, orí = cabeça, kì = saudar) são versos, frases ou poemas que são formados para saudar o orixá referindo-se a sua origem, suas qualidades e sua ancestralidade. Os Oríkì são compostos para mostrar grandes feitos realizados pelo orixá. Por outras palavras são também formas de reverência aos Orixás.

Em ORIKI-DAQUI na medida em que me entregava ao deleite de sua leitura, a percepção da textualidade sagrada africana personificava cada vez mais os espíritos ancestrais. Como que num grito vindo do fundo da floresta, embalado pelo ritmo do afoxé, cuja sincronia só poderia ser quebrada pelo intermitente repicar do agogô. Em suas linhas mais profundas, Caio, nos conduzia não somente ao ato de ler, mas também a introspecção da oração, cujas formas variadas da expressividade poética impressa pelo seu texto mais que poesia deixavam entrever o poeta.

A justeza do espírito poético de Caio Moreira em Oriki-Daqui parece elevar-se de forma apoteótica na defesa das culturas de axé, desenhando de maneira sublime ao mesmo tempo uma profunda e contemplativa religiosidade, ladeada por uma fúria combativa na firmação das identidades negro-africanas. Seu discurso poético representado nessa dupla perspectiva pode parecer aos olhos mais desatentos, absolutamente contraditórios, mas é justamente aqui que reside seu argumento: a tessitura dos elementos religiosos marcadamente distintivos das identidades africanas não são de modo algum contraditórios, pelo contrário, são esses mesmos elementos que forjam nossa natural e indiscutível herança.

Caio lembra-nos de forma incisiva os pontos que cirzem nossos caminhos, que nos tornam ao mesmo tempo diferentes e iguais uns aos outros. Talvez aqui, salvo uma leitura equivocada, esteja a pedra fundamental de sua poética: Oriki fostes fiel ao título, demonstrando aquilo que és, respeitando a ancestralidade de seu passado e a vigorosidade de seu presente. Exu, Santo Antônio, Nanã, Preto Velho, Oxum, Iemanjá, Ogum, Oxóssi, Oxalá, Xangô, Iansã, Euá, Ibejis, Iroco, Ossain, a todos, SARAVÁ!

Já em FÁBRICA DE FLORES, de sua poética, Caio, tomo por empréstimo dois elementos: a percepção e a sensibilidade. Com as flores buscou a ruptura com a fria e indiferente resistência da técnica. O ato de escrever tornou-se, para além da técnica, um ato espontâneo, que encontrou na natureza nua e clara das formas alvas das flores o significado mais sublime. Da percepção, eu leitor, tornara-me uma gota de orvalho, correndo despreocupadamente de flor em flor, sentindo suas formas, seus gostos, seus cheiros.

A flor símbolo da natureza tornou-se também significado.

Eu-leitor percorri cada uma delas. Percebi suas cores, seus aromas. A sensibilidade Talvez fosse eu mesmo enquanto gota de orvalho. Ao final do meu caminho caí nas pequenas mãos do menino.

Vi o menino sentado com uma flor na mão, declamando seu poema. Esse menino dedica o poema às flores e a todos os meninos que tiveram que engolir o choro e se fazer fortes mesmo sendo frágeis. O menino Caio tem alma de flor.

Em PAPELE o manifesto ato da observação. Conhecer só no observar. Sentir sem precisar invadir. Reconhecer sem precisar olhar. Ouvir sem precisar falar.

Em seu texto Caio exige do leitor uma postura de observador. O leitor torna-se o poeta cego. Um aedo diriam os gregos. A lembrança é "poética" - é o artista que cria o exemplo e modelo das ações e personagens, sob a inspiração das musas. As musas contam ao poeta, o que foi, é e será. O poeta prefere não "ter visto", mas "ter ouvido" diretamente das musas, que tudo vêm.

Caio tens tua musa. Sois vós o poeta. Ela te fala com seus olhos, te inspira com seus gestos. Ela também é poema, sem sê-lo em poesia, mas em eterna inspiração. És musa como a que cantou Caetano: ah Bruta-flor! Onde queres o ato, seu poeta é o espírito.

Papele mais que um misto de sentimentos, é um misto de sentidos, aguçados pelo ato de observar.

Papele nos priva da visão, e ficamos a espera da musa que nos conte sobre os caminhos a serem percorridos com sua poesia.

Papele nos priva da audição. Não podendo ouvi-la obriga-nos a observar. O poeta observa a musa e traduz dela seus gestos mais poéticos.

Papele nos priva do olfato. Não podemos sentir seu cheiro como nas flores. Apenas observar suas formas, como disse Valéry, e imaginar o que esperamos ver.

Papele nos priva do paladar. Não sentimos seu gosto. Imaginamos sê-lo por suas formas.

Papele no priva do tato. Não podemos tocar. Não somos aqueles que tocam. Somos tocados.

Enfim, Papele, poema que mora no corpo.

Penso, por fim, que de maneira bastante modesta cumpri o destino que me colocou. Caio, não tenho a autoridade de um poeta. Para encerrar dirijo-me a você com as palavras de outro poeta que sei, gostas muito: Manoel de Barros. Celebrando sua inventividade disse Manoel:

“Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc. etc. etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios”.

De um poeta a outro poeta.

Obrigado pelo privilégio.

Ass: Everton Grein



































quarta-feira, 24 de novembro de 2021

“Área de Broca”, de Luciana Tiscoski: Um Gabinete de Curiosidades

 


Há quase vinte anos, quando lecionei no curso de publicidade, costumava com os alunos, nas aulas de redação, ler o livro de um tal Roy H. Williams, sobre marketing. Aprendi coisas interessantes com a obra, o que prova que até os textos mais inusitados podem nos oferecer conhecimentos curiosos. Lembro que o autor dizia que a área de Broca é uma espécie de palco no qual uma peça será representada na mente do ouvinte. Broca seria como um crítico de teatro, o juiz que determinaria se deveríamos ou não abandonar a peça. Para obter a aprovação do juiz, o espetáculo deveria eletrificar Broca com a emoção do inesperado. Ele dizia que enquanto um falante usa essa área para organizar suas palavras em frases compreensíveis, o ouvinte usa essa região do cérebro para antecipar o que o outro vai dizer, quando o que se ouve é previsível. Quando não há novidade alguma na comunicação, a atenção é comprometida.

Penso, por exemplo, na música “Cálice”, de Chico Buarque e Milton Nascimento. Em uma determinada passagem, ouvimos: “Mesmo calada a boca resta o peito / Silêncio na cidade não se escuta // De que me vale ser filho da santa / melhor seria ser filho da ...”. Pensamos que a letra vai dizer uma coisa, um palavrão, um xingamento, e ela acaba por frustrar nossa expectativa pré-moldada, dizendo outra: “Melhor ser filho da outra / outra realidade menos morta / tanta mentira, tanta força bruta”. A surpresa ativaria uma área específica do cérebro, causando um certo prazer. Recordo que passávamos o ano com os aprendizes de publicidade imaginando soluções criativas que pudessem surpreender Broca, um exercício auspicioso para o universo da propaganda, já que essa situação traria eficácia para o texto publicitário.

Lembrei disso quando li o curioso livro “Área de Broca”, de Luciana Tiscoski, publicado recentemente pela Editora Nave. Aqui, estamos na seara da literatura, distantes da comunicação social, embora a autora do livro seja também uma jornalista. A publicação não tem nada a ver com a publicidade e eletrifica bem mais a minha atenção e curiosidade do que qualquer propaganda. A literatura, pouco afeita a questões comerciais, no entanto, sabe vender bem mais o seu peixe.

Fico pensando quais reações químicas no cérebro do leitor o livro de Luciana Tiscoski consegue produzir. Cada frase dos seus contos é seguida por outra completamente inusitada. A autora nos oferece, assim, sempre uma surpresa. Ela ativa de fato nossa área de Broca. Por exemplo, depois de dizer “O frio em mim vinha das suas palavras úmidas”, escreve “A carta ainda nas minhas mãos, tremulante folha que se desintegrará com o tempo, como tudo, como nós”. Qual relação entre uma frase e outra?

O leitor caminha em busca de um centro, de um território, de uma zona de conforto, de um sentido, mas uma crise da representação se impõe, porque o significado sempre escapa. Quando imaginamos que uma frase vai complementar a anterior, explicá-la, o texto mantém a tensão, e aquele que lê deve continuar na corda bamba, dançando no abismo. É um movimento perpétuo. É um jogo. Godot nunca chega.  

 Importante lembrar que a capacidade de produzir estranhamento é uma das qualidades mais caras da boa literatura. O inusitado é o curinga da arte. No livro, as frases são cenas estranhas e curiosas como os sonhos: “Saiu do metrô e a sensação de ser uma toupeira só aumentava”. Ou: "Olhares ursobranquefeitos invadem o trajeto dos meus olhos em direção à porta do bar”. Ou: “Há muitos sóis que se prometia chuva. Caudalosa, há muito escaldada no sal, querendo ser uma corrente d´água se esvaindo, derramando-se na terra”.

Luciana Tiscoski (Fonte: Revista Gulliver)

A todo instante algo inesperado nos contos acontece. Sua narrativa é sempre vertiginosa. Os cenários são variados, os narradores estão sempre em deslocamento. De um bar na Alemanha à cidade murada de Kowloon, em Hong Kong, de uma estação em Paris a uma Praça de Porto Alegre, seus lugares viajam e se confundem, bem como seus tempos e personagens. De uma boneca que deseja um humano a um palhaço-fotógrafo em Berlim, de uma praticante de kinbaku a uma apaixonada por Monet, as personagens do livro são desencantadas, mas nos encantam pela singularidade com que são construídas.

Passeamos pelas páginas de Tiscoski como nas Passagens parisienses, com suas múltiplas entradas e nenhuma saída. A misteriosa chama do livro está também na sofisticação literária com a qual seus textos são permanentemente revestidos. Luciana di Leone escreveu na orelha da obra que sua linguagem é “terrivelmente sofisticada”, mas que nos chega “de modo fácil”, permitindo construir imagens raras. As referências, quase sempre indiretas, vão de Hilda Hilst a Wilson Bueno, de Rilke a Caravaggio, de Maiakósvski a Baudelaire e Alfred Jarry.  Com uma boa dose de nonsense a lembrar alguns quadros ou escritos surrealistas, “Área de Broca” é esse palco no qual a autora-fotógrafa-pintora leva a escrita criativa à expansão do pensamento, às raias da poesia. 


Gabinete de Curiosidades - Triscele

O livro assume o risco de apostar no jogo como uma forma possível de fazer da literatura uma máquina de imagens inusitadas. Os contos, com ar retrô, são textos-passagens nos quais tudo é sonho. Ali, encontramos uma mulher com cabelos cor de fotografia, a saber “cinza tempo ido”. Ali, vislumbramos alguém dividido entre os ensaios sobre Rilke e uma mulher misteriosa que poderia se chamar Mirtza. Ali, espiamos o colecionador H e sua boneca Olímpia a mirar o flâneur, esse “homem flamante que flanava felino”. Ali, conhecemos a prostituta Maria Elvira e seu vestido amarelo que vai sendo manchado, como a vida, ao longo da trama. Tudo acontecendo no movimento entre um lugar e outro, por isso o livro é passeio, como no itinerário Nanterre – Saint Cloud. Entre um ponto de partida e outro de chegada, o que temos são digressões, puro monólogo interior, o deslimite da palavra.

Musei Wormiani

Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch


Viajando no livro, percebemos o quanto suas histórias são tocadas pelos limiares poéticos entre a literatura e outras artes, e como os contos são quadros ou fotografias que nascem, antes de tudo, das ideias. É como, por exemplo, fotograficamente, Tiscoski escreve o conto “Umbo”.

Há um desfile de certos horrores no livro, como nas Tentações de Santo Antão, de Flaubert, que vai lembrando uma visita a um gabinete de curiosidades. Um “ovo”, de Hilda Hilst - bem poderia ser de Clarice -, um “touro branco” de Málaga, um inseto numa cena de kinbaku, uma toupeira, uma cobra, um templo poético construído só por mulheres. O livro é esse museu, esse quarto das maravilhas, esse jardim das delícias, onde tudo pode acontecer. Que este texto meu sobre a “Área de Broca” seja mais que uma mera propaganda. Como nos sonhos, seus contos, no fundo, são falados pelo desejo. A publicidade, em busca da sedução, bem soube tirar proveito disso. Manejar palavras é uma forma de encantar as ideias. O livro despedagogicamente ensina.  


Caio Ricardo Bona Moreira

Publicado no jornal Caiçara (União da Vitória - 2021)


Informações da Editora:


“Área de broca”, de Luciana Tiscoski, reúne 13 contos e um texto dramatúrgico breve, escritos com uma potente voz narrativa atravessada pela polifonia e por tempos e espaços tão díspares quanto as ruas de Paris e Berlim, a favela de Hong Kong ou o Mercado Público de Porto Alegre. Livro de estreia da Doutora em Literatura e integrante do coletivo de poetas “Abrasabarca” (Florianópolis), “Área de broca” apresenta, nas palavras de Luciana di Leone, “uma linguagem terrivelmente sofisticada que chega, no entanto, de modo fácil, permite construir imagens raras e avançando na exploração de vozes (des)marcadas pelo gênero”.    

   

Título: Área de broca

Contos de Luciana Tiscoski

Ilustrações: Cathy Burghi

Apresentação: Luciana di Leone

Prefácio: Paulino Júnior

 

104 páginas

Ano: 2021

Formato: 14 x 21 cm.

Peso: 150 g.


quarta-feira, 27 de outubro de 2021

“Viseira” de Duda Las Casas: A poesia na vida, nas cartas do Tarot e na borra de café



“O hierofante avisa que o final pode estar no início”. Abro ao léu o livro “Viseira” (7Letras, 2021), de Duda Las Casas. Faz sol depois do almoço. Toca na vitrola a “Nuvem Cigana”, do Milton. A capa é vermelha e na quarta-feira isso me diz muito sobre o que estou prestes a ler. Poderia ser um I Ching, por ser composto de várias camadas sobrepostas. Todo bom livro é mesmo um livro das mutações. Nunca se entra duas vezes no mesmo Heráclito. Nunca se escreve ou se lê o mesmo poema duas vezes. Ou algo ou alguém me assopra que nunca serei o mesmo depois de ler essa obra. “Se você quiser eu danço com você no pó da estrada”, canta o Milton. “Pó, poeira e ventania”. E já vou pensando que é um aviso. Mas o que isso tem a ver com os poemas da Duda?

Volto ao que estava dizendo, que abro ao léu o livro dela. Para ver qual é a mensagem. Faço isso como quem abre um I Ching. Tem gente que lê assim a bíblia também, ou um livro espírita, ou aquela edição de bolso chamada “Minutos de Sabedoria”. Abro “Viseira” ao léu. Encontro o poema: “Desmarquei o casamento / as bebidas estão na sala / os bem-casados / são devorados toda manhã”. O que isso quer me dizer? Insisto no acaso. Fecho o volume. Abro novamente e me cai o “dura na queda”: “Olhar para o alto / no grito do falcão / o / aviso / para antecipar o voo / em pleno ar / ao / invés de cair / eu / poderia apenas / ter feito um poema”. Tem a minha cara, diz a poeta, porque a arte nos ajuda a colocar as feridas para fora. Aí penso em adotar a poesia como uma espécie de curandeira, ou uma orientadora espiritual, a pitonisa de meu Delfos particular. 

Como cartas de tarô, os textos de Las Casas são coelhos que vou tirando da cartola. Mas a mágica é só dela, embora na borra do café (“Caraca / É um / Caracol” ou “você consegue ver esse cavalo marinho?”), nas nuvens do céu, nos poemas, nas vísceras ou no canto dos pássaros, cada áugure ou arúspice enxerga apenas o que deseja ver. Como boa colecionadora de imagens, a poeta carioca, que é também diretora de TV e cinema, encontrou na literatura uma forma de disseminar os enigmas de seu oráculo. Aliás, há um certo misticismo que invade o livro de Duda expandido do jogo de seus Arcanos (ou de seus Acasos). No poema de abertura, a Imperatriz recomenda: “Mulher / se quiser parar de vomitar / seja uma poeta discreta”. Em outro momento, aquela que escreve inventa um mapa, para terminar dizendo: “Carlos / o que seria amor de verdade / para quem tem uma vênus em Peixes?”. Adiante, na Libânia, por sopro, um curandeiro viu o risco de sua mão lhe garantindo um filho e sucesso tardio. Assim como a previsão da cigana de Brasília é clara: “homens de barba têm mais bactérias que cachorros”. Em outro momento, a poeta confessa: “A minha sorte / é que Júpiter voltou a andar para frente / desde segunda”. Em “o universo está do seu lado”: “Faz silêncio no Rio / a cartomante diz / quando você se tocar / já estarei em outra”. Seus gestos são também de superstição, por isso, como prometido, ela deixou os sapatos desvirados para que alguém não partisse.

Desconfio que por trás de cada poema de Duda há um pedaço de sua vida para além do jogo. Quem já aprendeu a andar novamente percebe mais fácil o que ela está a dizer. Decifrar isso nunca é desvendar de todo o mistério, mas mergulhar em outros, porque cada carteado está sempre a nos dizer novas coisas. Um pedaço cifrado da vida como as cartas de um baralho ou o jogo de búzios é o que resta em cada poema. Um Hierofante mandando uma mensagem, ou um Orixá. Lá na página 47, o jogo está aberto como mostra a fotografia, mas como lê-la? E lá embaixo ou atrás da viseira - esse pedaço de elmo ou capacete -, está escondido o rosto de Maria Eduarda. E o livro vai fazendo o raio-X da poeta, de seu corpo, seus ossos e parafusos, que a uns não dizem nada e a outros muito, como aqueles exames de ressonância magnética, tomografia computadorizada ou ultrassonografia. Aí, Duda me lembra a Ana, em “A teus pés”, com suas luvas de pelica. Quem é essa que estou a ler?, pergunto-me a cada instante.   


 Duda Las Casas. Foto: Deborah Viegas/Divulgação


E, depois de escrever este texto, fico pensando se uma crítica, ou melhor, uma leitura – essa ou qualquer outra - pode ser tão sugestiva quanto um jogo de tarot? Eu me daria por satisfeito se ela fosse tão bonita quanto o poema “Podia te amar como amei as mulheres”, lá na página 49. Milton segue cantando ainda, “Ventania, flor de Vento / eu danço com você o que você dançar / se você deixar o coração bater sem medo”. Além de Carlos, outros interlocutores vão surgindo nas páginas de “Viseira”, o Julio, o Raul, este por sinal que é convidado a comer com ela “os sonhos / com kombucha”. No português de Duda, aliás, o sonho é uma bomba. E a escritora já imagina a cena: “Explodiremos / e subitamente / estaremos todos / cobertos de creme”. O livro mostra - como o poema “Vermelho Vivo” atesta -, com sua colagem de frases, não como a poesia é cheia de cenas do dia a dia, mas como o dia a dia é cheio de cenas poéticas. O livro vermelho de Duda tem uma gota de sangue em cada poema. Ele mostra que a vida pode ser menos séria, embora sangre como o país. Las Casas, bruxa, touro, cavalo de Iansã, cartomante e poeta. A Oyá na cabeça de Duda (in)venta o tempo todo. Levanta o pó e faz a ventania. E um Touro sai de dentro dela, ou ela que sai da pele de um Touro, como naquela história africana sobre uma deusa guerreira. A música do Milton era mesmo um aviso. “Viseira” é o primeiro livro de Duda. Comemoro a beleza de sua chegada! E seguimos lendo mais um poema, tirando mais uma carta, também enigmática, só para ver o que o destino (esse acaso indomável) tem a nos dizer : “O hierofante avisa que o final pode estar no início”.

Caio Ricardo Bona Moreira

 Publicado no jornal Caiçara (30 de outubro de 2021), de União da Vitória (PR)


 

sábado, 23 de outubro de 2021

O Silêncio Somos Nós, de Fábio Cezar



O escritor carioca Fábio Cezar está lançando o tão esperado romance "O Silêncio Somos Nós", pela editora Mundo Contemporâneo. Tive o prazer de escrever a orelha:

Como decifrar um mistério sem as pistas necessárias? Como chegar a algum lugar desconhecido quando a bússola não tem agulha? Há muitos mistérios que rondam a narrativa de “O silêncio somos nós”, todos mais ou menos difíceis de resolver. A literatura pode ser um instrumento para desvendar o indecifrável, mas também uma forma de potencializar os enigmas. O narrador do livro de Fabio Cezar é um acumulador de memórias que tenta montar um quebra-cabeça de sua própria vida. Deslocado, mergulha em sua infância, revelando aos leitores a dura tarefa de crescer, tendo como pano de fundo o Brasil dos anos 80, em pleno processo de redemocratização. No livro, a esperança se mistura ao desencanto, dimensionando a atualidade do romance. Um enigma envolvendo a origem do narrador se intercala com um capítulo trágico da história do país, do qual seu avô é também personagem. Dois grandes mistérios movem o narrador a buscar um entendimento de quem ele próprio é. Mas nesse puzzle, ele mesmo confessa, está atrasado há algumas décadas. O silêncio é o protagonista, trazendo com ele a ausência de respostas e a proliferação de perguntas. É uma história sobre a vida real, porque no fundo todos somos estrangeiros em nossa própria casa. Filiado a uma rica tradição da literatura de memória, no Brasil, a obra de Fabio Cezar, proustianamente, mostra que a infância é uma casa que mais nos habita do que por nós é habitada. Bebendo na fonte de autores como Graciliano Ramos, Pedro Nava, Marcelo Rubens Paiva e Milton Hatoum, “O silêncio somos nós” é um acerto de contas com o próprio passado e com a história do Brasil. Insisto, é um livro profundamente atual. Tudo isso tendo como pano de fundo canções de Lennon e McCartney, bem como um samba de Heitor dos Prazeres, tocando ali, em Bento Ribeiro, subúrbio do Rio de Janeiro.


O mez da grippe, de Valêncio Xavier: 40 anos





O Mez da Grippe, de Valêncio Xavier, está completando 40 anos! Em plena pandemia! Triste coincidência. A professora Nena Borba organizou sobre a obra uma série com a participação de vários professores, pesquisadores e artistas. Participo da série. O link da minha participação está abaixo.


Literatura e Imagem em Valêncio Xavier:

https://www.youtube.com/watch?v=y43KEfrHkQ4&t=1283s



O Mez da Grippe tal qual Atlas:

https://www.youtube.com/watch?v=Bg0gkyNHIHs&t=291s




quinta-feira, 26 de agosto de 2021

“O Jardim dos Poetas”, de Leónidas Lamborghini: Os prazeres da imaginação poética



Em 1999, Leónidas Lamborghini, um dos mais curiosos poetas argentinos contemporâneos, lançou o livro "El jardín de los poetas" (Editora Adriana Hidalgo), inspirado no tríptico de Bosch, "O Jardim das Delícias", pintado no início do século XVI.  Vinte anos depois do livro e mais de quinhentos depois da pintura, os dois jardins continuam vivos.

No quadro, o pintor retratou o jardim das delícias terrenas ao lado do paraíso e do inferno. A cena é bem conhecida. Personagens interagem de forma luxuriosa, divididas entre o bem e o mal numa vida de pecados, embora aparentemente desinibidas e sem sentimento de culpa. Mas há uma cena que me chama a atenção. Ela é menos conhecida, mas não menos importante. É a imagem do tríptico fechado, que representa o mundo no terceiro dia da criação. Roland Barthes chegou a enxergar nessa imagem uma figuração do neutro, (in)definindo-o com as expressões "rebento", "ovo ainda não eclodido", ou seja, antes do sentido.

Três cenas: A imagem daquilo que ainda está se fazendo, o mundo rebento, tal como se nos apresenta no terceiro dia da criação, e o ovo ainda não eclodido. Três configurações semelhantes em sua dissemelhança. 

No prefácio, Lamborghini observou que o livro foi escrito durante um exílio no México, entre 1977 e 1990. Ele nos informa que o que está em jogo neste jardim é a Humanidade de poetas. Poetas que são como heróis, ou melhor, anti-heróis, da épica de um só terrível e cômico desejo: “escrever o poema”.

Trocando muitas vezes a vida pelo êxtase, ou antes, buscando na vida uma experiência de êxtase por meio da palavra, os poetas são esses arúspices que veem nas vísceras do texto o sangue da vida, ou que veem nas vísceras da vida o sêmen do texto. A poesia é este jardim de delícias margeado pelo inferno ou pelo paraíso: “loucura, absurdo, perda de tempo ou, simplesmente, vaidade. E a busca da beleza?”

Anárquica por natureza, a política da poesia é sua despolítica. E antes mesmo do poeta ser contra o Estado, o Estado foi contra o poeta. Platão chegou e foi logo banindo o tal: “Se algum homem assim”, diz ele”, “vier até nós para nos mostrar sua arte, nós nos ajoelharemos diante dele como um ser raro, santo, maravilhoso: mas não permitiremos que fique. Nós devemos ungi-lo com mirra, colocar uma guirlanda de lã sobre sua cabeça, e mandá-lo embora para outra cidade”.

O Jardim das Delícias, 1500-05, óleo sobre madeira, painel central 220 x 195 cm, painéis laterais 220 x 97 cm, Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madri.

O trítico fechado: A Criação do mundo, óleo sobre tábua, 220 x 195 cm.

Quem escreve ou se entrega profundamente aos prazeres da poesia sabe a dor e a delícia de fazer o que faz. Lamborghini afirmou também no prefácio que ao longo do processo de criação - e é justamente o processo de criação do livro que me chamou a atenção - buscou para a obra um "padrão de escritura" que teve como horizonte inconfessável o que de inconfessável tem a própria arte: o desejo de fazer tudo com nada. O processo que o moveu, parece-me, foi o de buscar a Forma. E se o livro é a materialização dessa busca, isso significa que seu resultado não nos apresenta mais do que um rebento, um ovo ainda não eclodido, o mundo no terceiro dia da criação, ou seja, um tríptico, ou um neutro - note-se na capa do livro a reprodução da pintura de Bosch. Para escrever, o poeta teve que visitar o fogo do purgatório: "Experimentei, nesse momento – paradoxalmente – uma inesperada felicidade: a de ter encontrado nesse mundo, um lugar, este Jardim, esse local para ficar e permanecer: em suma, no meu tempo, uma casa do meu jeito onde o riso e o horror intercambiam e confundem, reciprocamente suas máscaras”.



Dividido em três partes, como o tríptico de Bosch, "El Jardín de los poetas" apresenta um "Poetario de la espera" (como aquela do mundo no terceiro dia de criação), um "Poetario de los sueños" (como aquele que subjaz no universo do próprio Bosch) e um "Poetario de las metamorfosis" (como aquelas metamorfoses operadas entre plantas e animais no Jardim das Delícias). Muitas outras relações entre a pintura de Bosch e o poema de Lamborghini poderiam ser imaginadas. Contento-me apenas em apontar para o fato de que o poeta produz um jogo de escritura como quem estabelece conexões inusitadas e combinações curiosas entre um determinado conjunto de versos, repetindo com diferença imagens poéticas, ou melhor dispondo versos em recorrência em outras sequências, propiciando efeitos de sentido e de sons no mínimo curiosos.

No livro, Lamborghini passa o tempo apresentando inúmeras ações realizadas pelos poetas, ações que dizem respeito à espera e ao sonho na maior parte das vezes, como: “Poetas soñando su poema / antes de revelar una foto” ou “Poetas soñando su poema después de secarse la cara”, ou “Poetas soñando su poema / mientras arreglan un lavarropas”.

Essa experiência gerada entre som e sentido talvez possa ser chamada de hesitação - ou excitação, sensorialidade, ou sensualidade que nos leva novamente ao Jardim de Bosch. Esse procedimento, tão caro a Lamborghini me fez lembrar outros livros dele como "El riseñor", que gosto bastante, e "Siguiendo el Conejo" (uma releitura curiosíssima de Lewis Carroll). Repetir com diferença faz parte do jogo paródico de Leónidas Lamborghini. 

Neste Jardim, podemos descobrir o que esperam os poetas inspirados pela musa, ou o que fazem os poetas enquanto esperam a inspiração da musa, ou o que sonham os poetas inspirados pela musa, ou o que fazem os poetas enquanto estão inspirados pela musa, ou no que se transformam os poetas enquanto esperam a inspiração da musa, ou o que fazem os poetas enquanto se transformam em poetas inspirados pela musa, ou o que esperam os poetas enquanto sonham, ou em que sonham os poetas enquanto esperam a inspiração da musa, e por aí vai...      

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O jornal Rascunho recomenda o livro Esquinas, de Caio Ricardo Bona Moreira



O jornal Rascunho (edição nº 255) recomendou o livro Esquinas, de Caio Ricardo Bona Moreira.

Nota do jornal:

01/07/2021

O cruzamento entre uma rua e outra, dentro de uma cidade, pode guardar cenas tão banais quanto significativas — depende do olhar de quem capta o momento. Entre as esquinas de Porto União, em Santa Catarina, e União da Vitória, no Paraná, o autor elabora breves ensaios poéticos e filosóficos sobre todas as possibilidades concentradas em um momento de transição. “A esquina”, afinal, explica um trecho da obra, “é o ponto de repouso que ao mesmo tempo é um ponto de tensão”.


O livro pode ser adquirido com o autor pelo email caiorbmoreira@hotmail.com

O livro Esquinas na revista Francisca




 

A edição número 15, da revista Francisca traz um dos textos que integram o livro Esquinas, de Caio Ricardo Bona Moreira, editado pela Micronotas (2020). 

Segue o link:

https://www.revistafrancisca.com.br/edicoes/

 

sexta-feira, 23 de julho de 2021

“Que assim os dias”, de Roberto Corrêa dos Santos: A escrita dos espectros ou um livro azul para ressuscitar os vivos



O que escrever sobre um livro que é pura força? Um livro que me inquieta e que me arrasta com ele e para além dele nesses dias tão febris. Um livro sobre a clausura que é também um chamado à abertura, um encontro ainda possível com os outros e com o mundo. Um livro que desenha no vazio uma fresta, um círculo invisível por onde passar alguma luz, mesmo que tênue, de uma alvissareira manhã. Um livro que é o próprio manifestar de uma escrita potente e reveladora. Um livro necessário. Um livro ainda. Um livro a mais em dias que desejam dias mais amenos. Um livro azul sobre o que em nós ainda está vivo. Um livro azul sobre a experiência de nos sabermos mortos ou quase. Um livro vivo sobre esses dias tão mortais. Um livro delicado a nos lembrar que ainda não morremos. Um livro bravo para lutar pela vida. Um livro para lamentar um certo estado das coisas, mas um livro aguerrido, pois que o lamento pode ser o grão vivo de uma próspera transformação, apesar de toda ou qualquer falta de esperança. Um livro que é a prova de sua força. Um livro para abraçar e chorar os mortos. Um livro também para ressuscitar os vivos. Um livro para não deixar morrer o que em nós ainda vive. Um livro para o nosso tempo. Um livro para o próximo. Um livro que é um sopro, um ar, um respiro. Um livro sobre o confinamento de nossos corpos e pensamentos que é também uma flor brotando no chão da sala. Um livro salutar com poemas pulsantes, objetos vivos, que vem de encontro a nós em nossos tão nodosos dias. Sim, um livro vivo, com todas as dores, sangue e suor, pura seiva com que são feitas a vida e a arte. Um livro forte sobre a vida frágil que insiste em seu pulsar. Dias assim como esses em que a moléstia, surda, invisível e voraz, caminha pelas ruas, dias assim pedem poemas como aqueles que integram o novo livro de Roberto Corrêa dos Santos.


Imagem: acervo autor


"Que assim os dias", que acaba de ser lançado pela Cult Editora, reúne textos atravessados pela presença de um tempo singular para todos aqueles que experimentam vivê-lo com perplexidade. Não é como na foto em que o cenário fabricado com tintas coloridas contrasta com o fundo de uma cidade cinza em ruínas. Não, definitivamente não. É um mergulho no estar sendo, no que é agora, como uma flor que brota do chão partido - sua tela embaixo - só que essa se erguendo ao céu e com sua perspectiva ao lado. O poeta sabe o mundo, seu tempo árido e o horror de cada grande onda. Por isso escreve, mergulhado em dias assim (assim os dias!), sem ter para onde ir, sem ter para onde fugir. No entanto, para o poeta elíptico, o livro é essa casa de encontros, um lar onde é impossível estar sozinho, embora a solidão a tudo atravesse. A escrita é também uma morada, assim como a casa é um poema que em dias de confinamento pede para ser escrito e amado. 

Imagem: Instituto Moreira Salles

Penso que o que move o livro de Roberto é também uma escrita dos espectros. Há dois sentidos nessa frase. Poderia ser uma escrita “sobre” os espectros, os fantasmas que nos rondam, ou uma escrita produzida “por” espectros, ou que pertence “aos” espectros. Ambos se correspondem. No poema “Pensamento”, o poeta, depois de desconfiar da própria morte, responde: “Não. Não estou morto, não estou sonhando / não estou nada. Estou escrevendo. / Escrevendo sobre espectros / de coisas que existiram na glória de existirem (...)”. O escritor conjuga a morte em primeira pessoa porque é um ser empático que, mesmo confinado em si mesmo, está em perpétua comunhão com o mundo. Esta é uma entre outras belezas do livro. No poema “O coro pergunta”, ele afirma: “Morrer e saber de alguém morrendo / e saber que a morte cresce em curva alteante / tudo isso mata-nos”. Ou em outro momento: “são assim os sinais de que eu era morto”. No lindo “Desenho e linha”, uma pungente elegia sobre o triste cotidiano na pandemia, o poeta lembra que a morte está livre como “se houvesse apenas viva a terceira moira”, aquela que “corta o elo do passar das histórias”.       

Imagem: Twitter da Cult

Vamos virando as páginas do livro e encontrando a culpa do oxigênio que tudo enferruja, os mendigos que somos desde antes de vermos o mundo, o medo da criança recém-nascida nos dizendo que agora é tarde, a poeira que não morre e reduz a calamidade de luz dos trópicos, o menino morto a tiros que impede o nascimento de um poema, uma criança morta, as sirenes ao longe comunicando que alguém está a morrer, a língua áspera como certas plantas, as xícaras e pétalas de rosa na quente água do real, o homem desorientado que, sem ideias e entorpecido, invade o Oriente, o corpo que nada sabe da criatura asfixiante e desesperada que o habita, o homem que aceita envelhecer, o homem que aceita ser a mulher, o homem que aceita ser o homem, ou as duas coisas ao mesmo tempo, o poema que vem de alguém entubado, de alguém tentando o severo ar possível, o poema entubado, a consciência a nos matar porque alguém está morrendo, a consciência de que a arte não mata a angústia, mas sem ela, sem a arte, a língua morre estrangulada, e todos nós morremos com ela, o pensamento que não venta na catástrofe, a solidão no meio da moléstia e da ruína, uma cantora que abre a varanda e faz voar seu canto operístico, “como se atirasse a fatal beleza no peito da morte”, a arte do concentrar-se que está rota (como escrever ou ler ou ver filmes em dias assim?), a triste feiura das mortes produzidas. E ao perguntar quem fará o poema do terceiro mundo, o poeta vai escrevendo o poema do terceiro mundo.

Em tempos de tanta morte e grande angústia, o livro de Roberto, um livro como esse, sem maquiar a tristeza, nos dá sobrevida, porque sentimos isso tudo com ele. E essa sobrevida é também, querendo ou não, uma forma de esperança. Seu poema é como um ar. Ele entra e sai de nós a cada instante, trazendo mais vida. Com o poema existimos mais, com a poesia respiramos melhor... e resistimos.


Publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em julho de 2021.


Um poema do livro "Que assim os dias", da Cult Editora, que pode ser encontrado no link:

https://www.cultloja.com.br/produto/que-assim-os-dias/



"Tão bela quanto bondosa"

Há umas coisas a serem feitas
enquanto nada se anuncia
como os tais dias melhores.

Ninguém diz ei-los os dias melhores vindo.

A casa não mais há quem dela cuide.
Damos um jeito preservando algum
disfarce tosco de beleza – sequer flores
podem ser compradas.

Se houvesse flor à venda
seria ela a flor mais perigosa das flores.
Isso dói impede amedronta.

Que nome se daria a tal flor de que devemos
nos afastar apesar de ela em segredo já se ter instalado
no melhor vaso da casa?

Flor-do-medo?
Flor-da-dor?
Flor-do-que-se-foi?
Flor-sem-ânimo?
Flor-com-dente-garra-focinho?
(Tu respondes flor-do-mal)

Queria dizer-te uma coisa doce no ouvido.
Mordiscar-te com ternuras a orelha.

Dizer-te
um algo assim: era pesadelo:
hora de viver, a rua clama.

Mas esta flor, esta flor torna-nos mudos.
Com nublagens, nem avistar teu perfil!

O sangue deste poema congela-se
pouco a pouco.

Este poema amanhã,
quando se anunciar outra vez a vida,

explodirá em ramos de outra flor: tão bela
quanto bondosa.