sexta-feira, 22 de maio de 2020

Condições ideais para o amor, a obra viva de um poeta morto: Dedicado à memória de Luiz Eurico Tejera Lisbôa



(Foto: Acervo família)

Quando descobri a poesia de Luiz Eurico Tejera Lisboa, fiquei impressionado com a força, visceralidade e urgência de uma revolução social inscritas em seus versos. O poeta chamou a minha atenção não apenas pelo teor político de suas palavras, mas também pelos gestos de uma corajosa e precoce luta cuja história é ainda pouco (re)conhecida.  
Nascido em Porto União mas criado no Rio Grande do Sul - primeiro em Caxias do Sul e depois em Porto Alegre -, o Luiz Eurico foi um dos jovens militantes mortos pela Ditadura Militar.
Ico, assim chamado pelos mais próximos, ingressou no Movimento Estudantil nos anos 60, sendo preso pela primeira vez em 68 por fomentar um abaixo-assinado a favor da reabertura do Grêmio Estudantil da escola que frequentava. Um pouco depois passou a integrar o quadro militante da ALN (Ação Libertadora Nacional). Em 1969, casou com Suzana Keniger Lisbôa, sua companheira de ideais e luta. Com ela, o jovem entrou na clandestinidade. Em 1972, foi encontrado morto no quarto de uma pensão em São Paulo. O episódio, repleto de mal-entendidos, culminou com o desaparecimento de seu corpo. A família só descobriria o destino de seus restos mortais em 1979. Aliás, Luiz Eurico foi a primeira vítima da ditadura a ter seu corpo localizado. Estava em uma vala clandestina do cemitério de Perus (SP). Em 2013, a Comissão da Verdade refutou a versão de que o jovem havia cometido suicídio. Uma série de estudos no laudo apontaram para um assassinato, consignando-se, assim, uma nova versão. Como na história de Vladimir Herzog, a construção de uma verdade mentirosa foi a forma que a repressão encontrou de proteger os verdadeiros assassinos e suas mãos manchadas de sangue.

(Foto: Acervo família)

Impossível resumir a vida de Luiz Eurico em tão poucas linhas. Seria preciso muito mais do que um punhado delas para acertar as contas com a sua história, que é parte de um passado ainda recalcado e que paira como fantasma na nossa política contemporânea.
Em um tempo no qual o país volta a flertar intensamente com excepcionalidades políticas, evocar a memória de Ico por meio de seus versos é uma forma não só de revisitar o passado, convocando o presente a não repeti-lo, mas também de chamar a atenção contra toda e qualquer violência de Estado, vista por muitos como uma condição para normalidade. Não, um estado de exceção não é um paraíso. Está mais para o inferno. Nesse inferno social, reinam a contradição, a falta de sentido e de dignidade. Difícil ali julgar os homens como mocinhos ou bandidos, mas certamente uma violência normatizada e normalizada por um Estado é sempre o signo soberano de uma barbárie. Vivemos em um tempo doente no qual alguns dos que nos representam na política defendem torturadores, elogiando a ditadura, a censura, a morte, entre tantas outras monstruosidades, tudo com uma naturalidade que aos olhos dos mais atentos soa como um absurdo atroz. Conhecer a vida e a obra de jovens como Luiz Eurico é hoje mais do que importante. É fundamental. Infelizmente, jovens – geralmente pobres e negros - continuam morrendo nas mãos no Estado todos os dias, por meio de seus aparelhos repressores e de sua omissão. Índios têm sido assassinados com a conivência de um sistema desigual e omisso em relação a uma promoção mais justa dos direitos humanos. Quem matou Marielle? O que fazer com seus corpos? O que fazer com suas memórias? O que fazer com o sangue que mancha a todos no nosso calejado dia a dia. 


(Fotos: Acervo família)

Certamente, o contexto da escrita da obra de Lisbôa contribui para a sua importância. Como o poeta Paulo Martins - protagonista de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e vivido no cinema pelo ator Jardel Filho -, o Luiz Eurico mesclou poesia e revolução de forma intensa: “Eu / Sou poeta da Revolução / A minha pena é minha espada / E o meu canto / se eu canto / é um canto de guerra”. Eis sua poética/política.  
Em outro texto, o poeta defende a palavra como uma arma, aproximando-se, assim, de uma farta linhagem dos poetas sociais. A diferença é que Luiz Eurico morreu por sustentar essa palavra: “A palavra deve ser uma arma / sem requintes inúteis / de funções evidentes / claramente parcial / e partidária / para ser contundente / e ser na História”. 

Foto que integrou a exposição Ausenc’as (lê-se “ausências”), produzida pelo fotógrafo argentino Gustavo Germano, no O Memorial da Resistência de São Paulo, em 2015.


O comovente poema “Balada de Ham-Li”, por sua vez, descreve a morte de um menino na Guerra do Vietnã, observando que o coração daquela criança “pulsa / inalterado / sobre todo o Vietnã”. Quantos corações de meninos mortos pulsam inalterados sobre o nosso país, de uma periferia a outra?
Poucos sabem, mas Luiz Eurico foi o irmão mais velho do grande compositor e intérprete gaúcho Nei Lisboa. Sobre ele, o músico escreveu a bela lembrança: “Estivemos juntos pela última vez, Ico, Suzana e Eu, em clandestina semana do inverno de 72 na praia do Pinhal. Condições ideais, aos meus púberes treze anos, para uma pós-graduação na arte de fazer pandorgas. Nela colávamos, em papel de seda, a lança de mira, símbolo da ALN. Algumas vezes atingiam o infinito azul do céu, noutras se despedaçavam entre os fios de luz atravessados no caminho. Não se pode acertar sempre. Mas ele, certamente, não morreu de medo”. Poucos sabem também que Luiz Eurico foi amigo de João Gilberto Noll, um dos maiores escritores da literatura brasileira contemporânea, falecido recentemente. Os dois foram amigos de escola e sobre Ico o prosador escreveu um belo texto intitulado “O Denso Silêncio de Lisbôa”, publicado na antologia “Condições Ideais para o Amor”, que reúne a poesia de Luiz Eurico, publicada pela Editora Tchê em parceria com o Instituto Estadual do Livro, do Rio Grande do Sul, em 1993, numa edição organizada por Antonio Hohlfeldt, que traz também algumas correspondências do poeta-guerrilheiro trocadas com Suzana. O livro é um relato do amor de Ico pela companheira, pela luta, pela vida e por um Brasil mais justo e fraterno. Um Brasil que seu sangue regou mas ainda não viu nascer.


(Foto: Acervo família)


O poeta tinha 24 anos quando foi assassinado. Fruto de uma juventude que via Che Guevara e Cuba como símbolos de sua utopia, Luiz Eurico foi um dos jovens que acreditava que essa luta deveria ser vivida intensamente. Se algumas décadas depois a História provou que nenhum lado da moeda é perfeito e completamente justo (ditaduras de esquerda ou de direita são sempre ditaduras, e não era a favor de uma ditadura que lutou Luiz Eurico), isso não diminui a truculência com a qual esses jovens sonhadores foram mortos em um estado de exceção que volta cada dia mais a nos assombrar. O poeta morto permanece um pouco vivo em seus versos, bem como o sistema repressor que o aniquilou. Sua poesia e memória nos convocam a ficarmos sempre alertas. Como escreveu a viúva de Luiz Eurico em um texto que integra o livro: “A verdadeira democracia jamais será construída sobre os cadáveres insepultos dos companheiros assassinados e sob as mãos impunes de seus assassinos”. Quando fizermos um verdadeiro e justo acerto de contas com a nossa própria história talvez venhamos a assistir com menos frequência à defesa do horror promovida contraditoriamente em nome da paz e da normalidade.      

Manuscritos do poeta:




   

Poema escrito em 24 de novembro de 68
Dedicado ao filho que o poeta não teve


Ao Suzico
 
Meu filho
Escrevo agora estes versos para que
saibas algum dia
que estas mãos que empunham a metralha
e semeiam a morte
este olhar resoluto de soldado
têm algo mais que o impulso
               mercenário
e o querer individual.

Para que saibas que estas mãos
               escreveram versos
estes olhos vislumbraram a beleza
               de um outro dia
e este peito coberto de cicatrizes
já abrigou a paixão e o amor.

Para que saibas
que desde o primeiro passo
fui presa até a última fibra
                 da poesia
E que a metralha e a luta
são em tempo certo
o meu maior poema
a grande mensagem de
                   um artista


Publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 23 de maio de 2020.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Oriqui Daqui







“Oriki daqui”, de Caio Moreira, propõe-se a um cruzamento entre as poéticas sagradas africanas e as religiosidades de matriz popular que no Brasil mestiçaram saberes negros, indígenas e brancos. Por meio desse diálogo, na encruzilhada que é (d)obra, firma-se um ponto de força em busca do axé da palavra, devolvendo, assim, potência à poesia.

Livro de Poemas: Oriqui Daqui
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

Fábrica de Flores




“Fábrica de Flores”, de Caio Moreira, apresenta um catálogo poético que faz do adereço um emblema da nobreza ou baixeza humana da flor. No limiar entre a natureza e a cultura, os poemas/plantas da série são artifícios – em tempos de barbárie – que levam adiante a proposta de Maurice Druon postulada em uma de suas obras, que é a de fabricar flores ao invés de canhões.

Livro de Poemas: Fábrica de Flores
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

Papele





“Papele”, de Caio Moreira, situa-se na intermitência entre o corpo e a escritura. A página é pele que o poeta tanto tateia quanto tatua. O livro ensaia ou insinua a escrita do corpo incorporada ao poema ou o ato e a arte do corpo se dobrar no movimento do poema. O poeta, como o fotógrafo, escreve com a luz. E tal grafia se dá no poema feito tatuagem, cuja natureza é sempre selvagem e performática.

Livro de Poemas: Papele
(Editora Medusa, 2019)

Para adquirir: caiorbmoreira@hotmail.com

13 de maio: Preto Velho

                                     

                          

Zifio, nego véio não tem ar de dotô, mas sabe de saber também. Nego véio move o mundo num vento de viu só com sua franqueza e faz de varrer todo o mal com sua reza de cristo-amém-jesus, arre. Se não sabe que fique sabendo. Nego é cantador do bom e bom de escrever suas mirongas dançando no pé. Fala pro nego, fala, zifio, o que te aflige esse coração de sofrer tamanho mundo. Fio é mais escravo do mundo do que o véio foi do cativeiro. Onde é que dói, zifio? Tem que ficar de pé e se alevantar de novo num causo de cair, que a vida faz seu tropeço pra modo de ensinar e o mundo se ir girando pra frente. Nego não faz milagre, não, mas palavra que nego fala vem do Pai lá de cima e faz curar também. Não tem palavra boa que não cure um coração aflito. O generoso de Nazaré já fazia milagre falando, não fazia? Pequenino grão de areia ou cisco, tento seguir os passos do Nazareno. Basta de fechá o olho pra modo de ver. O fio enxerga? Tem que acreditá. Dizia um dotô aí de vocês, lá das banda do sertão, que viver é muito perigoso. Tava certo, viu, nego sabe e o homem já sabia. Mas é passando pela noite escura que fica dia de novo no amanhã, e mais brilhoso do solzinho que faz a vida raiar de nova aurora, dá de ver? Se ajudá o irmão, então, fica lindo, tudo em volta se alumia. Como diz os irmão dos kardéque, fora da caridade não há salvação. Se põe de joelho, fala pro nego, mas pede pra Deus, que nego chega nos pé do pai crucificado e chora por vosmecê, que as água do mar que rola sincera do corpo lava toda mazela-chaga-e-dor de nossa pobre alma. Se o nego chorá junto com vosmecê, doi menos? Então empresto meus zóio pra junto a gente chorá. Saravá!

Imagem: Preto Velho, de Amadeu Bona

quinta-feira, 26 de março de 2020

A identidade de Sofonias Thabor: o relato de uma aventura e o fim de um mistério



(Foto: cortesia Fahena Porto Horbatiuk)


Hino ao Paraná

“Bendizei a nossa Terra
Onde Deus conosco está!
Verde é o mar, azul a serra
Auri-róseo é o chão de lá

Sacra Terra do pinheiro
Lindo e rico Paraná!
Não há igual, no mundo inteiro
Terra assim, não há, não há!

Quanta vez descendo a serra,
Mais encantos descobri.
Quanto amor tenho eu à Terra,
Onde a luz primeira vi!

Beija o Rio, do teu vestido
Toda a fímbria festonada.
O viver só tem sentido,
Em função da Terra amada.

Se, depois da morte, há vida
De minha alma e coração,
Lá estarei, Terra querida,
Bem pertinho do sertão!
(Sofonias Thabor)


Há alguns anos, a professora e amiga Fahena Porto Horbatiuk, publicou um artigo no jornal Caiçara (edição de 29/06/2012), apresentando o livro de poesia "Lira dos Pinheirais", cujo autor assinava com o pseudônimo Sofonias Thabor. A edição viera à lume pela extinta Gráfica Iguaçu, de Porto União. A obra não trazia qualquer outra indicação de autoria e fora publicada sem data. Depois de elogiar os poemas, encontrando neles um ethos bem-humorado, a dicção modernista, e por vezes a forma sertaneja numa louvação ao Paraná, a articulista encerra a sua crônica com as seguintes frases: “Quem souber qual é o nome do autor, possuir alguma dica, peço que nos indique, para que seja mais bem estudado. É um grande escritor”.
Movido pela curiosidade inerente a todo pesquisador, iniciei na época uma investigação para tentar descobrir o ortônimo do ilustre autor desconhecido. Naquele período, coordenava na Unespar um projeto de literatura regional que trabalhava no resgate de autores locais. Qualquer descoberta seria bem-vinda.
O dileto amigo Odilon Muncinelli, em sua coluna “Milho no Monjolo”, no jornal O Comércio, em 2012, comentou o artigo da professora Fahena, aumentando o rol de interessados na identidade de Sofonias Thabor. Passei com Odilon algumas tardes agradáveis conversando sobre o livro e criando hipóteses sobre a autoria. A partir daí iniciou-se a jornada de uma busca intensa. Relatarei aqui brevemente a aventura.
Comecei perguntando para os amigos interessados em literatura na região do Vale do Iguaçu se alguém possuía alguma informação sobre o livro. Nada consegui. Pesquisei na internet para ver se achava alguma ocorrência com o nome Sofonias Thabor. Nada. Folheei antologias de literatura paranaense e catarinense. De igual maneira, nenhum progresso. Procurei sem êxito familiares dos proprietários da Gráfica Iguaçu. E já estava desistindo da busca quando, por acaso, em uma visita à Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, ainda em 2012, encontrei lá uma edição do livro. Decidi perguntar por ele. Descobri no arquivo da biblioteca que a publicação fora ali depositada com um registro em nome de José Antônio Telles, nascido em 1911 e falecido em 1976. Supus que o livro fora doado ao acervo por alguém que tinha conhecimento do nome do poeta, ou quem sabe até pelo próprio autor. Fantasiei que talvez o escritor resolvera deixar uma pista para um possível pesquisador do futuro, alguém interessado em seguir seus rastros. Sendo ou não o autor do livro, o nome de José Antônio Telles já era uma pista.
Chegando à União da Vitória, comecei a procurar pela família Telles. Para minha surpresa, existiam várias. Fui, então, entrando em contato com cada uma delas, perguntando por José Antônio. Nada. Ninguém o conhecia. Até que um dia fiquei sabendo que o pai de um comerciante local se chamava José Antônio Telles. Dirigi-me inquieto ao estabelecimento julgando ter encontrado a identidade de Sofonias Thabor. Para o meu desencanto, o filho de José Antônio me informou que o livro não fora escrito por seu pai. O patriarca da família nem escrevia poemas. Uma pena. Cheguei naqueles dias a enfrentar uma fila no atendimento da Previdência Social para ver se encontrava mais alguma pista. Nenhuma. Quantos Josés Antônios Telles nesse país?
Alguém me assoprou, então, para ir ao cemitério. Lá, talvez encontrasse alguma pista. Com o coveiro do Cemitério Municipal de União da Vitória, procurei nos livros de registro de corpos enterrados até encontrar uma ocorrência com o nome em questão, mas era justamente o pai do dono do estabelecimento comercial, opção já descartada. No Cemitério de Porto União, o coveiro com ótima memória não precisou do livro de registros e me levou até o túmulo de um outro José Antônio Telles. Encontrei um mausoléu simples, mas bem cuidado. A foto mostrava a aparência de um senhor humilde, com jeito de agricultor, ao lado de uma senhora magra, de nome Olga, que tinha o olhar triste e talvez fosse a musa do poeta. Quase certo de que encontrara o escritor, minha euforia só durou o tempo de comparar as datas de nascimento e morte dos dois Josés. Não coincidiam. Eu nem imaginava que o José enterrado ali - que na verdade nunca fora poeta -, seria o bisavô de minhas filhas, alguns anos depois. Elas, aliás, têm também o sobrenome Telles na certidão de nascimento. Só uma curiosidade: certa vez, minha esposa, que não sabia onde o avô estava enterrado - e muito menos de minha pesquisa -, foi levada por mim ao túmulo do vô José. Ficou surpresa que eu e não ela soubesse o lugar exato do sepultamento.
Naqueles dias de pesquisa, procurei muito em jornais locais antigos alguma pista sem sucesso algum. Cheguei a enviar mensagens em rede social a pessoas de União da Vitória e Porto União que possuíam o sobrenome. Ninguém conhecia nenhum José Antônio. Foi nessa época que conheci minha esposa, neta de um deles. O vô dela não escrevia poemas, mas plantava verduras, o que não deixa de ser poético.  
Admiti o fracasso e desisti de outras buscas. Pensei que era uma artimanha do destino esse mistério. A literatura para mim, aliás, tem muito dessas coisas que não se explicam, pistas que levam a lugar nenhum. Aceitei a aporia e deixei o poeta pra lá. Talvez Sofonias Thabor desejasse permanecer no anonimato, ou o momento da revelação ainda não havia chegado. Isso tudo foi há quase dez anos. O José Antônio passou a ser apenas o avô da Géssica, o bisavô da Catarina e da Aurora.
Há alguns dias, lendo o prólogo do livro “Atlas”, de Jorge Luis Borges, encontrei a seguinte frase: "Não há um único homem que não seja um descobridor". Um faísca se acendeu em mim. Não sei o motivo, mas relembrei da "Lira dos Pinheirais", de Sofonias Thabor, e da minha busca perdida por uma identidade velada.
Em tempos de clausura, de quarentena, devido à pandemia de coronavírus, e obrigado a permanecer em casa, resolvi lançar um pedido ao astral, como aqueles escritos em papeis que depois de queimados têm suas cinzas e fumaça levados ao céu. Se Sofonias permitisse o fim do mistério, que me ajudasse a solucioná-lo. Procurando na internet por algumas ocorrências com os vocábulos José Antônio Telles, descobri que na cidade de Castro há uma escola com esse nome, acrescido de mais um vocábulo: Flygare. “José Antônio Flygare Telles”. Descobri também que a data de nascimento e morte do patrono do Colégio eram as mesmas do José registrado no arquivo da Biblioteca Pública do Paraná, a saber 1911-1976. A busca incansável recomeçou. Um trabalho de pesquisa por vezes tem uma boa dose de obsessão. Borges esqueceu de dizer na frase que o descobridor é quase sempre um obcecado. Uma pista leva a outra e vamos tentando decifrar o mundo, como quem navega num hipertexto.
Tentei entrar em contato com a Escola apadrinhada por José Antônio. Sem sucesso. Recesso escolar e ausência de resposta por parte do diretor. Mapeei uma busca virtual pela família Telles, de Castro. E fui entrando em contato com nomes que encontrava. A maioria nada sabia da existência de José Antônio. O senhor Álvaro Telles, por exemplo, sugeriu que eu procurasse uma historiadora da cidade, a Amelia Podolan. Muito solícita e simpática, ela me informou que não conhecia o livro. Tentando me ajudar, descobriu que o José Antônio teria sido casado com uma mulher de sobrenome Gomes, uma família muito antiga que viveu numa região também antiga de Castro. A Amelia me lembrou também que Sofonias é o nome de um profeta bíblico cuja tradução significa “Javé esconde”. Comecei a desconfiar que o José Antônio Flygare Telles poderia ser Sofonias Thabor. E além de tudo, ele estaria pregando uma peça em nós: “Javé esconde”. Eu já estava me sentido o personagem de uma narrativa de Sherlock Holmes ou Dan Brown.  
Paralelamente à conversa com a historiadora Amelia Podolan, conheci, por meio do Facebook, o senhor Antenor Quintiliano Telles, que era sobrinho-neto de José Antônio. Ele se comprometeu a me ajudar e depois de consultar seu pai, me informou que o tio-avô fora de fato poeta. Ele tentaria descobrir se o livro “Lira dos Pinheirais” teria sido escrito por José. Estávamos, talvez, chegando lá. Hoje, acordei com uma mensagem de Antenor contando que recebera de um primo a confirmação da autoria do livro. O ciclo se fechara. José Antônio Flygare Telles era o Sofonias Thabor. Antenor me passou o telefone de dona Yedda, filha do autor. Numa longa e agradável conversa, no início da tarde de hoje, dona Yedda Elvina Telles Bueno me contou que o pai usara o pseudônimo por ser um homem simples, num ato de pura timidez (Mais tarde, Antenor Telles me enviou uma informação importante: Tabor é uma comunidade de Castro, no Distrito de Socavão, onde se encontrava a Fazenda Esperança, que pertencia ao pai do poeta. Até hoje a comunidade leva esse nome). O escritor era natural de Castro, sendo um dos filhos mais jovens de Francisco Telles e Josephina Flygare. O nome José Antônio fora dado a ele em homenagem ao avô, que era um índio guarani. Pelo telefone, fiquei sabendo que o poeta, com aproximadamente onze anos, foi morar na Alemanha, onde estudou música, vindo a se transformar num exímio compositor paranaense. A dona Yedda chegou a publicar uma obra com composições musicais para piano e violino compostas pelo pai. José Antônio além de compositor e poeta foi professor de Língua Portuguesa, de Química e de Música. Era um apaixonado por Literatura. A filha me informou ainda que sua tia Maria Emilia Telles Bauer morou um tempo em União da Vitória, e que teria sido ela a responsável pela publicação do livro. Imaginei que por ser de origem alemã, e tendo morado na Alemanha, Maria Emilia teria ficado amiga do proprietário da extinta gráfica Iguaçu, de Porto União, que era alemão. Questões de interesse étnico-cultural bem poderiam ter aproximado ambos.


Foto: Acervo Família Telles (cortesia Sr. Pedro Telles, sobrinho do poeta)
José Antônio está assinalado


José Antonio Telles com 62 anos
(Foto: Cortesia Yedda Elvina Telles Bueno)


Depois de desligar o telefone pensei na forma curiosa como o universo, por meio de muitas causas, vai atuando sobre nossa vida. O artigo da professora Fahena e as conversas com o seu Odilon me levaram até Sofonias Thabor. Sofonias, por sua vez, me levou até José Antônio. José Antônio me levou a muitos Josés, um deles o avô de minha esposa. Sem essa busca talvez meu destino de família fosse outro. Um outro José Antônio é o poeta e músico Flygare Telles. Esse que hoje se reconhece publicamente aqui. O Sofonias Thabor. Thabor, aliás, é o nome de uma alta colina da Galileia, onde teria ocorrido a transfiguração de Jesus Cristo, sendo por isso considerado um lugar santo e místico, “Har Tavor”, o Monte da Transfiguração. Transfigurar-se, figurar-se em outro, apresentar-se por meio de um pseudônimo, para um dia elevar-se - quem sabe no fim de um suposto mistério -, no dia da revelação. No livro de Sofonias, na Bíblia, aparecem com força as imagens de uma canção da alegria, ou seja de uma música. Sofonias, aliás, parece-me agora obviamente um nome muito musical. O maestro escolheu bem seu pseudônimo. Estava na cara e eu não percebi. Do livro pulam alguns versos de “Saudades do Paraná” (Toada Sertaneja) e Sofonias/José volta a cantar: “Então, adeus, ó minha gente! / Vou pro mato me mudá: / Meu coração só está contente, / No sertão do Paraná”.

Caio Ricardo Bona Moreira,
Professor de Literatura Brasileira na Unespar, campus de União da Vitória



domingo, 15 de março de 2020

A carta-dança-música-poesia de Mariana Mello: apontamentos sobre Anamnese Erótica






Uma carta deseja sempre encontrar seu destinatário. Quem escreve a missiva geralmente está à procura de um outro para conversar. As palavras precisam cumprir um destino, por isso desejam chegar a algum lugar, mesmo que seja dentro daqueles que as escreveram. Ao mesmo tempo, toda carta é monólogo, conversa com o vazio, embora a resposta talvez um dia chegue. Aliás, como escreveu Roland Barthes, em um de seus “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, “como desejo, a carta de amor espera uma resposta”. Nesse sentido, sugeriu o francês, a carta é “ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (carregada de vontade de significar o desejo)”. Só quem ama escreve, mesmo que seja para não falar de amor. Só quem deseja pode escrever uma carta de amor.
Mesmo não se caracterizando como uma série de correspondências – o livro quase nada tem a ver com o gênero epistolar -, é como carta, ou melhor, como um conjunto delas, que leio a escrita dançante de Mariana Mello. São textos que viajam até o leitor, entregando-se ao olhar curioso de quem abre o envelope para espiar intimidades. A artista curitibana, que se apresenta como um híbrido de bailarina, diretora cênica, performer, dramaturga e escritora, recentemente lançou o livro “Anamnese Erótica” (2019), pela editora Medusa (a capa da Eliana Borges é linda). Não à toa, seus fragmentos se apresentam como um prelúdio, ou seja, como algo que vem antes de algo, como uma introdução a uma obra que se desenvolverá depois. Toda a performance do livro se dá nesse prólogo. Aliás, o prelúdio é um gênero musical bastante comum em balés, o que parece justificar a rica e plural arte de Mariana Mello, a escrita de seu bailado, a dança de suas palavras em um constante e bem ensaiado movimento poético. Faz sentido que Barthes, em “O Prazer do Texto”, tenha escrito que um livro erótico representa menos a cena do que sua expectativa, sua preparação. Um prelúdio é perfeito sob esse aspecto.


A escritura de Mariana – evocando em mim, por vezes, a literatura da portuguesa Matilde Campilho e da brasileira Ana Cristina Cesar - faz lembrar que, na arte da palavra, antes de qualquer coisa é a própria língua que deseja. Essa parte de nós cuja sensibilidade se inscreve com mais intensidade no ser. Não esquecer que a língua da boca, rica em terminações nervosas, é lugar de prazer, de onde saem as palavras e beijos, ambos objetos de excitação. Tal qual o lóbulo da orelha, mamilos, nuca, coxas, dedos e sexo, a língua é coisa para ser sentida. Na literatura, é ela o mais sincero e primevo objeto do desejo amoroso. Não seria fortuito observar que na narrativa de Mariana Mello a língua e suas palavras aparecem sempre relacionadas ao erotismo, dobrando-se numa perpétua coreografia que afirma o desejo em cada um de seus gestos: “Inventava uma língua ainda mais estranha, afirmava sutilmente, insinuava palavras secretas, provocava sins e concordâncias. Estruturava frases infinitas para que ele não pudesse deixar de olhá-los, como se meus lábios fossem a única coisa existente nessa galáxia, como se todo o universo dependesse daquilo que meus lábios diziam e de como meus lábios se moviam para fazer o mundo dizer”. A língua, assim, é a nossa própria existência. Por ela, alimentamo-nos também. Na prosa poética de Mariana, ao insistir no uso de “titânicas e precárias palavras”, aquela que escreve descobre uma forma de existir, resistir e inventar o amor.




Uma anamnese, na acepção médica, alude à consulta inicial que um profissional da saúde faz com o paciente para diagnosticar uma doença, sendo dessa maneira uma conversa em busca da cura. No mundo de vertigem da narradora de Mariana Mello, o corpo parece por vezes padecer de uma doença alimentada pelo desejo, seu phármakon. Não olvidar que essa expressão grega alude, ao mesmo tempo, a remédio e veneno, como todo medicamento em algum sentido o é. O desejo que oprime e angustia é o mesmo que dá vida, alimenta e faz um corpo se mover em seu existir. Numa espécie de doença a narradora anota que as células mortas de seu corpo são frutos de “milhares de amores abortados”.
No âmbito filosófico, o termo anamnese alude ao processo de rememoração por meio do qual o ser redescobre dentro de si as verdades de um mundo das ideias guardadas no ente para além da experiência sensível. É por isso que a anamnese erótica de Mariana é um “tatear a memória”, um rememorar o que passou, um reelaborar o vivido por meio da escrita, um reencenar a peça de seu teatro amoroso, tentando promover a partir da experiência da perda, da falta, da ausência um encontro com ela mesma. Registre-se que a escritora, em 2018, publicou a peça teatral “Noche de navidad o la familia”, pela Punto Aparte, da Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá, onde Mariana vive ensaiando possibilidades de hibridismo entre artes e linguagens. 


Naturalmente, falar sobre o desejo se dá inevitavelmente de forma insatisfatória, nada mais lhe restando além de ser o lugar de uma afirmação, como sugeriu Roland Barthes sobre o discurso amoroso. Eu desejo. Eu desejo o que não possuo. Por isso escrevo. Uma carta à procura de seu destinatário. Eu me movo nessa busca. Eu desejo nesse vazio. Eu me perco. Eu me encontro. Eu me perco de novo. Eu danço. A escrita de Marina assim observa: “Perpetuávamos um jogo que não agia apenas para concretizar o desejo senão porque encontrava na impossibilidade e no postergar do desejo uma chama vibrante e inesgotável. Uma chama capaz de sobreviver mesmo sem oxigênio por muitos dias seguidos, alimentada apenas pela promessa de concretização do desejo, ainda que num futuro improvável”.   
A narradora de Mariana Mello tem sempre a cidade como palco de seu teatro, de sua “sede sem fim”, de suas caminhadas ébrias. A cidade é também o lugar do outro: “Queria contar-te que sigo pensando nas ruas de teu bairro”. O desejo é também o de tocar a cidade, “a sensação do sol às 14h17 da tarde ao sair do cinema em frente ao cais”. O desejo pela cidade é também o desejo pelo outro, aquele que lhe falta. Um corpo à procura de outro. Entre eles, uma peça de roupa, um janela de vidro, um texto. São elementos que separam os corpos, no entanto se abrem para um contato em seu limiar, o cheiro do corpo do outro na roupa como um vestígio, o ser do outro no texto como um rastro, o botão da roupa como uma janela ou um envelope da carta que se abre em desejo para o corpo do outro. Lembremos que, para Barthes, em “O Prazer do Texto”, é a intermitência que é erótica: a pele que cintila, por exemplo, entre duas peças de roupa, ou ainda, a “encenação de um aparecimento-desaparecimento”. Ler sempre as páginas do livro para lembrar – em anamnese - que numa carta amorosa ou erótica o leitor é sempre o outro desejado. Chama que se acende pela palavra, esse corpo que deseja. E o outro, mesmo em falta, estando sempre ali. O outro mora sempre um pouco no nosso desejo. Inelutável vestígio. O livro foi escrito para cada um de nós.

Publicado originalmente no dia 14 de março de 2020, no Jornal Caiçara, de União da Vitória (PR).

link: http://www.jornalcaicara.com.br/colunas/a-carta-danca-musica-poesia-de-mariana-mello-apontamentos-sobre-anamnese-erotica/

quinta-feira, 12 de março de 2020

poema em dolly zoom sobre o filme de petra costa






vertigo
um corpo que cai
como num filme
da Paramount
dirigido por Hitchcock
em que estrelou
James Stewart
vertigem
em que pese
o medo de altura
a nos seguir
por toda parte
dando a falsa
(ou não)
sensação
de um movimento
de queda
ou rotação
desordem
(Josef K, eu sou o próprio)
em tempos de homens partidos
porvir
o saber,
quem é o povo
quem a democracia?
dos dois
quem o detetive
(que sofre um terrível
medo de altura)
quem a mulher louca
com tendências suicidas
quem é quem?
quem é?

c.moreira

Poema para Augusto de Campos (90 anos)




c.moreira

Descoberta




O meu Brasil
é o de Cabral
Não o de Pedro,
O luso Álvares,
Nem o de Vasco,
Em épico verso,
O nauta das Índias.
O meu Brasil
É o de Cabral,
Aquele de João,
Vulgo Severino,
Não o do velho do Restelo,
Mas o do torero sevillano
Com o mal de Homero
em seu destino.
Um Brasil de João
Tecido em tantas manhãs
Com seus fios e rios em discurso
Coisas de engenho ou engenheiro
Com alma de pedra,
Cérebro de poeta,
E coração nordestino

c.moreira

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

“Rua Professor Cleto, 381”, de Rafael Ginane Bezerra, reencontrando o tempo perdido




O passado é uma casa de sempre morar. A infância é lar que infatigavelmente nos habita. A memória é abrigo de muitas janelas. Algumas de frente para o mar, outras para o rio. Todas abertas para o que há de mais íntimo em nós. Nossa vida é casa de três infâncias, aprendi com Manoel de Barros. É por isso que eu habito nela e ela mora perene em mim. A infância é também um jeito de ver. Um jeito de tocar as coisas de novo pela primeira vez. E por isso, para a nossa alegria, é estância da poesia. Pois a poesia é um caminho de nos levar sempre e inevitavelmente de volta para o nosso próprio lar.
A casa do escritor Rafael Ginane Bezerra fica na rua Professor Cleto, 381. Ela é porta de entrada não apenas para o seu passado, mas também para a sua literatura, no âmago do presente e futuro, de uma escrita por vir: “Posso contar sobre a nossa casa amarela, que eu adorava. E ao mesmo tempo estranhava. Mas desfavorável pela disposição das peças. Quando escurecia, a sala grudada à cozinha virava o nosso ponto de convergência. Ali, a mãe preparava o jantar, o pai chegava do trabalho e a gente se sentava à mesa com a televisão ligada. A televisão estava sempre ligada. Por isso, éramos sempre cinco: o pai, a mãe, o irmão, eu e a televisão ligada”. A nossa vida, o livro ensina, é aquilo que acontece entre um jornal e outro, entre uma novela e um filme, entre uma partida de futebol e o Fantástico. E a memória é fantástica porque tem sempre uma boa dose de invenção. Nesse sentido, a literatura permite nos forjarmos como aquilo que somos sem a vergonha de nos lançarmos no jogo da vida como personagens de nós mesmos.


Rafael nasceu em Porto União, morou em União da Vitória e vive em Curitiba desde 1989, onde trabalha como professor na Universidade Federal do Paraná. Em 2019, lançou o livro “Rua Professor Cleto, 381”, pela editora Medusa. A obra apresenta um olhar sobre a infância e a adolescência de um narrador que, assim como o autor, cresceu nas cidades gêmeas do Iguaçu. O ditado popular diz que quem bebeu a água do Iguaçu está fadado a sempre voltar. Voltar para Porto União da Vitória é uma forma do autor voltar para dentro de si mesmo, reencontrando no passado um conjunto de experiências que ajudaram a fazer dele o que ele de fato é. Naturalmente, há nesse retorno o jogo da ficção, no qual o limite entre o vivido e o imaginado se rarefaz para dar lugar àquilo que poderíamos arriscar chamar de autoficção. A própria epígrafe do livro, colhida em Enrique Vila-Matas, aponta para esse caminho: “O meu pai, que outrora acreditou em tantas coisas para terminar desconfiando de todas elas, me deixou uma única e definitiva fé: acreditar em uma ficção, saber que nada existe e que a fabulosa verdade consiste em ser consciente de que se trata de uma ficção. E, sabendo disso, acreditar nela”. Portanto, é inútil circunscrever os limites entre o vivido e o imaginado, entre o real e a ficção, no entanto, as referências à realidade que podem ser encontradas no livro de Rafael me fazem lembrar da minha própria infância e adolescência, vividas nas margens do Iguaçu entre os anos 80 e 90. Nos seus relatos podemos reencontrar o jardim de infância situado atrás da igreja luterana, a “escadaria íngreme com centenas de degraus acompanhados pelas estação da via sacra”, na subida do topo do Morro do Cristo. Os passeios de bicicleta. A grande enchente de 83, que o autor retrata como uma espécie de dilúvio. A casa de dona Ondina, que ficava no pé do Morro da Cruz, o borracheiro Zito e seu amor pelas mulheres sensuais que, exibidas em folhinhas de calendário, estavam destinadas a serem trocadas todos os meses. A banquinha de revistas do Valdemar. O lendário show do Camisa de Vênus em um clube local. O Calçadão. A cabeleireira dona Gerda. O salão do França. A trágica história de Risadinha. Aliás, o conto “Assunção”, no qual é evocada a célebre e bem humorada personagem das ruas de Porto União da Vitória, é um dos mais comoventes do livro, ao retratar a transformação do narrador. O conto “Mullets” também investe no relato de um rito de passagem ao apresentar o momento em que o menino decide ir sozinho até o salão para cortar o cabelo. Destaco também a beleza de relatos como o de “Acabou Chorare”, “O Jogo” e “Despedida”. A leitura de contos como “O Virtuoso” evocou em mim o romance “História do Pranto”, de Alan Pauls, na forma como a infância é tratada.




“Rua Professor Cleto, 381” é obra de alguém que foi embora, mas que está fadado a sempre voltar, até porque assim como a cidade em que moramos nos habita, a nossa história vive para sempre e com força em cada um de nós. Rafael reencontra o tempo perdido por meio de um livro-carta. Quando está indo embora da cidade, para estudar na capital, sua mãe e seu pai pedem, “com os olhos encharcados de passado”, que ele escrevesse quando fosse possível. É o que ele faz no livro quase trinta anos depois.

                         Ilustração do livro História do Pranto, de Alan Pauls

O reencontro com o tempo perdido, no livro de Rafael, é o reencontro com dias felizes: “Houve uma época em que os dias eram felizes por serem predominantemente iguais e na conformidade o tempo passava lento”. Alguém já deve ter escrito em algum lugar que a vida talvez seja aquilo que acontece quando parece não estar acontecendo nada. Mesmo tomando a água do Iguaçu é impossível entrar de novo nesse rio, posto que suas águas são sempre outras, mas em sonho o rio está sempre lá e nos convida a entrar para um mergulho. Se a memória é uma ilha de edição, como sugeriu certa vez um poeta baiano, isso significa que é impossível processá-la fora do viés da ficção. Por outro lado a ficção parece ser não só uma forma de preservá-la em nós, mas também de fazer lembrar o que fomos e o que ainda somos. A literatura de Rafael Ginane Bezerra é esse rio de memória. Encontro ali um pouco do meu próprio rosto refletido em suas águas.


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, na edição de 22 de fevereiro de 2020.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

“Merda!” para dar boa sorte: Sobre Fernanda Montenegro e o espetáculo da vida





As cortinas se abriram! Lentilha, promessas, pedidos, roupas brancas, ondinhas, uvas, champanha e tudo (re)começa sempre igual, mas diferente. O que desejo para todos nós em 2020? “Merda!”. No teatro, é muito comum – antes da estreia de uma peça – que os atores, desejando boa sorte uns para os outros, pronunciem a expressão “Merda!”. Vem do francês “merde”. É um costume antigo. Conta-se que, em Paris, quando um espetáculo artístico lotava, o tráfego intenso de muitas carruagens era responsável por uma grande quantidade de excremento animal em frente aos teatros. Portanto, quanto mais veículos e cavalos, maior o sucesso de uma peça. As fezes eram praticamente o sinônimo da prosperidade. Que isso não falte em 2020. Que não esqueçamos o texto, que as bilheterias se esgotem, que possamos brincar, emocionando-nos em cada cena, em cada ato. Que vivamos enfim o show de cada uma de nossas vidas. Que saibamos encenar acima de tudo. Isso é fundamental.
Falando em teatro, informo que comecei o ano lendo a autobiografia de Fernanda Montenegro, a grande dama da nossa dramaturgia. O livro foi escrito com a colaboração da jornalista Marta Góes. As memórias intituladas “Prólogo, ato, epílogo” saíram pela Companhia das Letras, em setembro de 2019. Nelas, os leitores poderão encontrar uma mulher forte e vocacionada, mas principalmente o retrato de uma vida bela e bem vivida. Entre julho de 2016 e novembro de 2017, Marta Góes realizou dezoito entrevistas com a atriz que deram origem ao livro.



O título das memórias é perfeito porque aproxima a vida de Fernanda a uma peça de teatro. Acredito que toda vida intensamente vivida em meio à arte é algo que se funde a ela. A linha divisória entre vida e arte é rompida apenas por grandes artistas. A obra de arte se transforma em um ato de vida, assim como a vida passa a ser a própria obra de arte. Onde uma começa e a outra termina é mistério que não se explica. Aliás, toda vida bem vivida, penso, é uma obra de arte. Cada um dos leitores, se procurar entre aqueles que os rodeiam, encontrará alguns que, mesmo não sendo artistas, vivem a sua vida como uma obra de arte. Talvez todos sejamos um pouco artistas. O título do livro é perfeito também porque, além de amalgamar vida e teatro, relaciona com eficácia a estrutura dramatúrgica de uma peça às fases de uma vida. Prólogo, ato, epílogo. Começo, meio e fim.




Prólogo: As luzes se acendem. Da saga dos antepassados, oriundos da Sardenha, na Itália, à vida difícil de imigrantes em um país desconhecido. Do outro lado da família, a origem portuguesa e suas tradições, moldando um temperamento forte na pequena Fernanda, nascida Arlette Pinheiro da Silva. Criada pelos avós no subúrbio do Rio de Janeiro, Arlette assiste pela Rádio Nacional e pela Rádio MEC às grandes transformações do Brasil e do mundo no século XX, como a Revolução de 30 e a Segunda Grande Guerra. Aliás, na Rádio MEC a jovem inicia a sua carreira artística como locutora. Dali para os palcos não demorou muito. Ela foi professora de inglês também.
Ato: Fim dos anos 40, início dos anos 50. A Arlette vira Fernanda. Casa-se com o ator Fernando Torres e mergulha no teatro. Em um dos momentos mais intensos de suas memórias a atriz, ao recordar o momento em que percebeu que tinha futuro no teatro, escreve: “Os anos vividos foram de coragem e medo. Entreguei meu corpo, daquele momento em diante, a toda e qualquer estética ou jogo cênico que o personagem exigisse de mim. Vejo, hoje, que troquei de pele pela vida afora durante setenta anos. Nunca tive realmente e definitivamente o meu próprio rosto, o meu cabelo, e nem a minha postura. No fundo me pergunto, como faz Cecília Meireles, no seu poema ‘Retrato’: ‘em que espelho ficou perdida a minha face?’”. A passagem é de uma beleza confessional absoluta. Penso que o verdadeiro rosto do ator nunca está atrás da máscara, mas disseminado em todas elas. E é nessa mistura que ele encontra sua essência. No Ato, Fernanda vive com grandeza sua arte, trabalhando em uma grande quantidade de peças, novelas e filmes. Das “Alegres canções na montanha”, de Julien Luchaire, em 1950, até o filme “Vida Invisível”, de Karim Ainouz, de 2019. Como não lembrar de sua participação em obras televisivas e cinematográficas como “Incidente em Antares”, “O auto da Compadecida”, “O Tempo e o Vento”, “Central do Brasil”, “O Amor nos Tempos de Cólera”, “O outro lado da rua”, entre tantas outras. O Ato do livro se encerra com a comovente partida de seu companheiro Fernando Torres. Mas o Ato da vida continua. Fernanda Montenegro está viva e atuante em seus 92 anos.






Na carta que Fernanda enviou a José Aparecido de Oliveira, nos anos 80, recusando o convite para assumir o recém-criado Ministério da Cultura, no governo Sarney, há um trecho em que diz: “Pobre do país cujo governo despreza, hostiliza e fere seus artistas”. No texto, apesar de declinar do convite, ela comemorava o fato de um artista ter sido escolhido, vendo neste fato um amadurecimento político de nosso país: “Não é fácil dizer não. Não vejo que seja mais fácil decidir pelo teatro. O Teatro nunca foi fácil ou seguro. Mas é esse o meu lugar. (…) Pode parecer um frase bombástica e teatral, mas não devemos temer nem o Teatro, nem as palavras: não estou preparada para partir”. A carta completa está no livro. É uma pena que a atriz, uma lenda vida e luz perpétua da dramaturgia nacional, tenha sido recentemente tão desrespeitada por Roberto Alvim, quando ele dirigia a Funarte, devido ao fato de Fernanda ter criticado o presidente Bolsonaro.



Epílogo: As memórias de Fernanda se encerram com uma comovente declaração de amor à vida e ao teatro. Quem ler o livro verá. A atriz inscreve em seu gesto a procura de uma descoberta constante, porque “quando temos muitas certezas sobre o nosso modo de agir, em cena ou na vida, corremos o risco de ficarmos circunscritos a uma técnica que nos imobiliza naquele processo domado, dominado, que nos congela. É a ponte com o imprevisto, o improvável, o absurdo que, muitas vezes, nos leva a renascer. No palco, atingir o impensável é fundamental. Essa é a batalha”. E festejando o dia de seus anos, junto com Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escreve a artista, de forma trágica e por isso bela, consciente do fim da peça de sua vida, em seus quase 100 anos de idade: “Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inenarrável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto”. Fernanda vive e permanecerá vivendo, pois sua centelha está plantada em cada talentoso artista brasileiro. Celebro essa presença!