quinta-feira, 26 de março de 2020

A identidade de Sofonias Thabor: o relato de uma aventura e o fim de um mistério



(Foto: cortesia Fahena Porto Horbatiuk)


Hino ao Paraná

“Bendizei a nossa Terra
Onde Deus conosco está!
Verde é o mar, azul a serra
Auri-róseo é o chão de lá

Sacra Terra do pinheiro
Lindo e rico Paraná!
Não há igual, no mundo inteiro
Terra assim, não há, não há!

Quanta vez descendo a serra,
Mais encantos descobri.
Quanto amor tenho eu à Terra,
Onde a luz primeira vi!

Beija o Rio, do teu vestido
Toda a fímbria festonada.
O viver só tem sentido,
Em função da Terra amada.

Se, depois da morte, há vida
De minha alma e coração,
Lá estarei, Terra querida,
Bem pertinho do sertão!
(Sofonias Thabor)


Há alguns anos, a professora e amiga Fahena Porto Horbatiuk, publicou um artigo no jornal Caiçara (edição de 29/06/2012), apresentando o livro de poesia "Lira dos Pinheirais", cujo autor assinava com o pseudônimo Sofonias Thabor. A edição viera à lume pela extinta Gráfica Iguaçu, de Porto União. A obra não trazia qualquer outra indicação de autoria e fora publicada sem data. Depois de elogiar os poemas, encontrando neles um ethos bem-humorado, a dicção modernista, e por vezes a forma sertaneja numa louvação ao Paraná, a articulista encerra a sua crônica com as seguintes frases: “Quem souber qual é o nome do autor, possuir alguma dica, peço que nos indique, para que seja mais bem estudado. É um grande escritor”.
Movido pela curiosidade inerente a todo pesquisador, iniciei na época uma investigação para tentar descobrir o ortônimo do ilustre autor desconhecido. Naquele período, coordenava na Unespar um projeto de literatura regional que trabalhava no resgate de autores locais. Qualquer descoberta seria bem-vinda.
O dileto amigo Odilon Muncinelli, em sua coluna “Milho no Monjolo”, no jornal O Comércio, em 2012, comentou o artigo da professora Fahena, aumentando o rol de interessados na identidade de Sofonias Thabor. Passei com Odilon algumas tardes agradáveis conversando sobre o livro e criando hipóteses sobre a autoria. A partir daí iniciou-se a jornada de uma busca intensa. Relatarei aqui brevemente a aventura.
Comecei perguntando para os amigos interessados em literatura na região do Vale do Iguaçu se alguém possuía alguma informação sobre o livro. Nada consegui. Pesquisei na internet para ver se achava alguma ocorrência com o nome Sofonias Thabor. Nada. Folheei antologias de literatura paranaense e catarinense. De igual maneira, nenhum progresso. Procurei sem êxito familiares dos proprietários da Gráfica Iguaçu. E já estava desistindo da busca quando, por acaso, em uma visita à Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, ainda em 2012, encontrei lá uma edição do livro. Decidi perguntar por ele. Descobri no arquivo da biblioteca que a publicação fora ali depositada com um registro em nome de José Antônio Telles, nascido em 1911 e falecido em 1976. Supus que o livro fora doado ao acervo por alguém que tinha conhecimento do nome do poeta, ou quem sabe até pelo próprio autor. Fantasiei que talvez o escritor resolvera deixar uma pista para um possível pesquisador do futuro, alguém interessado em seguir seus rastros. Sendo ou não o autor do livro, o nome de José Antônio Telles já era uma pista.
Chegando à União da Vitória, comecei a procurar pela família Telles. Para minha surpresa, existiam várias. Fui, então, entrando em contato com cada uma delas, perguntando por José Antônio. Nada. Ninguém o conhecia. Até que um dia fiquei sabendo que o pai de um comerciante local se chamava José Antônio Telles. Dirigi-me inquieto ao estabelecimento julgando ter encontrado a identidade de Sofonias Thabor. Para o meu desencanto, o filho de José Antônio me informou que o livro não fora escrito por seu pai. O patriarca da família nem escrevia poemas. Uma pena. Cheguei naqueles dias a enfrentar uma fila no atendimento da Previdência Social para ver se encontrava mais alguma pista. Nenhuma. Quantos Josés Antônios Telles nesse país?
Alguém me assoprou, então, para ir ao cemitério. Lá, talvez encontrasse alguma pista. Com o coveiro do Cemitério Municipal de União da Vitória, procurei nos livros de registro de corpos enterrados até encontrar uma ocorrência com o nome em questão, mas era justamente o pai do dono do estabelecimento comercial, opção já descartada. No Cemitério de Porto União, o coveiro com ótima memória não precisou do livro de registros e me levou até o túmulo de um outro José Antônio Telles. Encontrei um mausoléu simples, mas bem cuidado. A foto mostrava a aparência de um senhor humilde, com jeito de agricultor, ao lado de uma senhora magra, de nome Olga, que tinha o olhar triste e talvez fosse a musa do poeta. Quase certo de que encontrara o escritor, minha euforia só durou o tempo de comparar as datas de nascimento e morte dos dois Josés. Não coincidiam. Eu nem imaginava que o José enterrado ali - que na verdade nunca fora poeta -, seria o bisavô de minhas filhas, alguns anos depois. Elas, aliás, têm também o sobrenome Telles na certidão de nascimento. Só uma curiosidade: certa vez, minha esposa, que não sabia onde o avô estava enterrado - e muito menos de minha pesquisa -, foi levada por mim ao túmulo do vô José. Ficou surpresa que eu e não ela soubesse o lugar exato do sepultamento.
Naqueles dias de pesquisa, procurei muito em jornais locais antigos alguma pista sem sucesso algum. Cheguei a enviar mensagens em rede social a pessoas de União da Vitória e Porto União que possuíam o sobrenome. Ninguém conhecia nenhum José Antônio. Foi nessa época que conheci minha esposa, neta de um deles. O vô dela não escrevia poemas, mas plantava verduras, o que não deixa de ser poético.  
Admiti o fracasso e desisti de outras buscas. Pensei que era uma artimanha do destino esse mistério. A literatura para mim, aliás, tem muito dessas coisas que não se explicam, pistas que levam a lugar nenhum. Aceitei a aporia e deixei o poeta pra lá. Talvez Sofonias Thabor desejasse permanecer no anonimato, ou o momento da revelação ainda não havia chegado. Isso tudo foi há quase dez anos. O José Antônio passou a ser apenas o avô da Géssica, o bisavô da Catarina e da Aurora.
Há alguns dias, lendo o prólogo do livro “Atlas”, de Jorge Luis Borges, encontrei a seguinte frase: "Não há um único homem que não seja um descobridor". Um faísca se acendeu em mim. Não sei o motivo, mas relembrei da "Lira dos Pinheirais", de Sofonias Thabor, e da minha busca perdida por uma identidade velada.
Em tempos de clausura, de quarentena, devido à pandemia de coronavírus, e obrigado a permanecer em casa, resolvi lançar um pedido ao astral, como aqueles escritos em papeis que depois de queimados têm suas cinzas e fumaça levados ao céu. Se Sofonias permitisse o fim do mistério, que me ajudasse a solucioná-lo. Procurando na internet por algumas ocorrências com os vocábulos José Antônio Telles, descobri que na cidade de Castro há uma escola com esse nome, acrescido de mais um vocábulo: Flygare. “José Antônio Flygare Telles”. Descobri também que a data de nascimento e morte do patrono do Colégio eram as mesmas do José registrado no arquivo da Biblioteca Pública do Paraná, a saber 1911-1976. A busca incansável recomeçou. Um trabalho de pesquisa por vezes tem uma boa dose de obsessão. Borges esqueceu de dizer na frase que o descobridor é quase sempre um obcecado. Uma pista leva a outra e vamos tentando decifrar o mundo, como quem navega num hipertexto.
Tentei entrar em contato com a Escola apadrinhada por José Antônio. Sem sucesso. Recesso escolar e ausência de resposta por parte do diretor. Mapeei uma busca virtual pela família Telles, de Castro. E fui entrando em contato com nomes que encontrava. A maioria nada sabia da existência de José Antônio. O senhor Álvaro Telles, por exemplo, sugeriu que eu procurasse uma historiadora da cidade, a Amelia Podolan. Muito solícita e simpática, ela me informou que não conhecia o livro. Tentando me ajudar, descobriu que o José Antônio teria sido casado com uma mulher de sobrenome Gomes, uma família muito antiga que viveu numa região também antiga de Castro. A Amelia me lembrou também que Sofonias é o nome de um profeta bíblico cuja tradução significa “Javé esconde”. Comecei a desconfiar que o José Antônio Flygare Telles poderia ser Sofonias Thabor. E além de tudo, ele estaria pregando uma peça em nós: “Javé esconde”. Eu já estava me sentido o personagem de uma narrativa de Sherlock Holmes ou Dan Brown.  
Paralelamente à conversa com a historiadora Amelia Podolan, conheci, por meio do Facebook, o senhor Antenor Quintiliano Telles, que era sobrinho-neto de José Antônio. Ele se comprometeu a me ajudar e depois de consultar seu pai, me informou que o tio-avô fora de fato poeta. Ele tentaria descobrir se o livro “Lira dos Pinheirais” teria sido escrito por José. Estávamos, talvez, chegando lá. Hoje, acordei com uma mensagem de Antenor contando que recebera de um primo a confirmação da autoria do livro. O ciclo se fechara. José Antônio Flygare Telles era o Sofonias Thabor. Antenor me passou o telefone de dona Yedda, filha do autor. Numa longa e agradável conversa, no início da tarde de hoje, dona Yedda Elvina Telles Bueno me contou que o pai usara o pseudônimo por ser um homem simples, num ato de pura timidez (Mais tarde, Antenor Telles me enviou uma informação importante: Tabor é uma comunidade de Castro, no Distrito de Socavão, onde se encontrava a Fazenda Esperança, que pertencia ao pai do poeta. Até hoje a comunidade leva esse nome). O escritor era natural de Castro, sendo um dos filhos mais jovens de Francisco Telles e Josephina Flygare. O nome José Antônio fora dado a ele em homenagem ao avô, que era um índio guarani. Pelo telefone, fiquei sabendo que o poeta, com aproximadamente onze anos, foi morar na Alemanha, onde estudou música, vindo a se transformar num exímio compositor paranaense. A dona Yedda chegou a publicar uma obra com composições musicais para piano e violino compostas pelo pai. José Antônio além de compositor e poeta foi professor de Língua Portuguesa, de Química e de Música. Era um apaixonado por Literatura. A filha me informou ainda que sua tia Maria Emilia Telles Bauer morou um tempo em União da Vitória, e que teria sido ela a responsável pela publicação do livro. Imaginei que por ser de origem alemã, e tendo morado na Alemanha, Maria Emilia teria ficado amiga do proprietário da extinta gráfica Iguaçu, de Porto União, que era alemão. Questões de interesse étnico-cultural bem poderiam ter aproximado ambos.


Foto: Acervo Família Telles (cortesia Sr. Pedro Telles, sobrinho do poeta)
José Antônio está assinalado


José Antonio Telles com 62 anos
(Foto: Cortesia Yedda Elvina Telles Bueno)


Depois de desligar o telefone pensei na forma curiosa como o universo, por meio de muitas causas, vai atuando sobre nossa vida. O artigo da professora Fahena e as conversas com o seu Odilon me levaram até Sofonias Thabor. Sofonias, por sua vez, me levou até José Antônio. José Antônio me levou a muitos Josés, um deles o avô de minha esposa. Sem essa busca talvez meu destino de família fosse outro. Um outro José Antônio é o poeta e músico Flygare Telles. Esse que hoje se reconhece publicamente aqui. O Sofonias Thabor. Thabor, aliás, é o nome de uma alta colina da Galileia, onde teria ocorrido a transfiguração de Jesus Cristo, sendo por isso considerado um lugar santo e místico, “Har Tavor”, o Monte da Transfiguração. Transfigurar-se, figurar-se em outro, apresentar-se por meio de um pseudônimo, para um dia elevar-se - quem sabe no fim de um suposto mistério -, no dia da revelação. No livro de Sofonias, na Bíblia, aparecem com força as imagens de uma canção da alegria, ou seja de uma música. Sofonias, aliás, parece-me agora obviamente um nome muito musical. O maestro escolheu bem seu pseudônimo. Estava na cara e eu não percebi. Do livro pulam alguns versos de “Saudades do Paraná” (Toada Sertaneja) e Sofonias/José volta a cantar: “Então, adeus, ó minha gente! / Vou pro mato me mudá: / Meu coração só está contente, / No sertão do Paraná”.

Caio Ricardo Bona Moreira,
Professor de Literatura Brasileira na Unespar, campus de União da Vitória



domingo, 15 de março de 2020

A carta-dança-música-poesia de Mariana Mello: apontamentos sobre Anamnese Erótica






Uma carta deseja sempre encontrar seu destinatário. Quem escreve a missiva geralmente está à procura de um outro para conversar. As palavras precisam cumprir um destino, por isso desejam chegar a algum lugar, mesmo que seja dentro daqueles que as escreveram. Ao mesmo tempo, toda carta é monólogo, conversa com o vazio, embora a resposta talvez um dia chegue. Aliás, como escreveu Roland Barthes, em um de seus “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, “como desejo, a carta de amor espera uma resposta”. Nesse sentido, sugeriu o francês, a carta é “ao mesmo tempo vazia (codificada) e expressiva (carregada de vontade de significar o desejo)”. Só quem ama escreve, mesmo que seja para não falar de amor. Só quem deseja pode escrever uma carta de amor.
Mesmo não se caracterizando como uma série de correspondências – o livro quase nada tem a ver com o gênero epistolar -, é como carta, ou melhor, como um conjunto delas, que leio a escrita dançante de Mariana Mello. São textos que viajam até o leitor, entregando-se ao olhar curioso de quem abre o envelope para espiar intimidades. A artista curitibana, que se apresenta como um híbrido de bailarina, diretora cênica, performer, dramaturga e escritora, recentemente lançou o livro “Anamnese Erótica” (2019), pela editora Medusa (a capa da Eliana Borges é linda). Não à toa, seus fragmentos se apresentam como um prelúdio, ou seja, como algo que vem antes de algo, como uma introdução a uma obra que se desenvolverá depois. Toda a performance do livro se dá nesse prólogo. Aliás, o prelúdio é um gênero musical bastante comum em balés, o que parece justificar a rica e plural arte de Mariana Mello, a escrita de seu bailado, a dança de suas palavras em um constante e bem ensaiado movimento poético. Faz sentido que Barthes, em “O Prazer do Texto”, tenha escrito que um livro erótico representa menos a cena do que sua expectativa, sua preparação. Um prelúdio é perfeito sob esse aspecto.


A escritura de Mariana – evocando em mim, por vezes, a literatura da portuguesa Matilde Campilho e da brasileira Ana Cristina Cesar - faz lembrar que, na arte da palavra, antes de qualquer coisa é a própria língua que deseja. Essa parte de nós cuja sensibilidade se inscreve com mais intensidade no ser. Não esquecer que a língua da boca, rica em terminações nervosas, é lugar de prazer, de onde saem as palavras e beijos, ambos objetos de excitação. Tal qual o lóbulo da orelha, mamilos, nuca, coxas, dedos e sexo, a língua é coisa para ser sentida. Na literatura, é ela o mais sincero e primevo objeto do desejo amoroso. Não seria fortuito observar que na narrativa de Mariana Mello a língua e suas palavras aparecem sempre relacionadas ao erotismo, dobrando-se numa perpétua coreografia que afirma o desejo em cada um de seus gestos: “Inventava uma língua ainda mais estranha, afirmava sutilmente, insinuava palavras secretas, provocava sins e concordâncias. Estruturava frases infinitas para que ele não pudesse deixar de olhá-los, como se meus lábios fossem a única coisa existente nessa galáxia, como se todo o universo dependesse daquilo que meus lábios diziam e de como meus lábios se moviam para fazer o mundo dizer”. A língua, assim, é a nossa própria existência. Por ela, alimentamo-nos também. Na prosa poética de Mariana, ao insistir no uso de “titânicas e precárias palavras”, aquela que escreve descobre uma forma de existir, resistir e inventar o amor.




Uma anamnese, na acepção médica, alude à consulta inicial que um profissional da saúde faz com o paciente para diagnosticar uma doença, sendo dessa maneira uma conversa em busca da cura. No mundo de vertigem da narradora de Mariana Mello, o corpo parece por vezes padecer de uma doença alimentada pelo desejo, seu phármakon. Não olvidar que essa expressão grega alude, ao mesmo tempo, a remédio e veneno, como todo medicamento em algum sentido o é. O desejo que oprime e angustia é o mesmo que dá vida, alimenta e faz um corpo se mover em seu existir. Numa espécie de doença a narradora anota que as células mortas de seu corpo são frutos de “milhares de amores abortados”.
No âmbito filosófico, o termo anamnese alude ao processo de rememoração por meio do qual o ser redescobre dentro de si as verdades de um mundo das ideias guardadas no ente para além da experiência sensível. É por isso que a anamnese erótica de Mariana é um “tatear a memória”, um rememorar o que passou, um reelaborar o vivido por meio da escrita, um reencenar a peça de seu teatro amoroso, tentando promover a partir da experiência da perda, da falta, da ausência um encontro com ela mesma. Registre-se que a escritora, em 2018, publicou a peça teatral “Noche de navidad o la familia”, pela Punto Aparte, da Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá, onde Mariana vive ensaiando possibilidades de hibridismo entre artes e linguagens. 


Naturalmente, falar sobre o desejo se dá inevitavelmente de forma insatisfatória, nada mais lhe restando além de ser o lugar de uma afirmação, como sugeriu Roland Barthes sobre o discurso amoroso. Eu desejo. Eu desejo o que não possuo. Por isso escrevo. Uma carta à procura de seu destinatário. Eu me movo nessa busca. Eu desejo nesse vazio. Eu me perco. Eu me encontro. Eu me perco de novo. Eu danço. A escrita de Marina assim observa: “Perpetuávamos um jogo que não agia apenas para concretizar o desejo senão porque encontrava na impossibilidade e no postergar do desejo uma chama vibrante e inesgotável. Uma chama capaz de sobreviver mesmo sem oxigênio por muitos dias seguidos, alimentada apenas pela promessa de concretização do desejo, ainda que num futuro improvável”.   
A narradora de Mariana Mello tem sempre a cidade como palco de seu teatro, de sua “sede sem fim”, de suas caminhadas ébrias. A cidade é também o lugar do outro: “Queria contar-te que sigo pensando nas ruas de teu bairro”. O desejo é também o de tocar a cidade, “a sensação do sol às 14h17 da tarde ao sair do cinema em frente ao cais”. O desejo pela cidade é também o desejo pelo outro, aquele que lhe falta. Um corpo à procura de outro. Entre eles, uma peça de roupa, um janela de vidro, um texto. São elementos que separam os corpos, no entanto se abrem para um contato em seu limiar, o cheiro do corpo do outro na roupa como um vestígio, o ser do outro no texto como um rastro, o botão da roupa como uma janela ou um envelope da carta que se abre em desejo para o corpo do outro. Lembremos que, para Barthes, em “O Prazer do Texto”, é a intermitência que é erótica: a pele que cintila, por exemplo, entre duas peças de roupa, ou ainda, a “encenação de um aparecimento-desaparecimento”. Ler sempre as páginas do livro para lembrar – em anamnese - que numa carta amorosa ou erótica o leitor é sempre o outro desejado. Chama que se acende pela palavra, esse corpo que deseja. E o outro, mesmo em falta, estando sempre ali. O outro mora sempre um pouco no nosso desejo. Inelutável vestígio. O livro foi escrito para cada um de nós.

Publicado originalmente no dia 14 de março de 2020, no Jornal Caiçara, de União da Vitória (PR).

link: http://www.jornalcaicara.com.br/colunas/a-carta-danca-musica-poesia-de-mariana-mello-apontamentos-sobre-anamnese-erotica/

quinta-feira, 12 de março de 2020

poema em dolly zoom sobre o filme de petra costa






vertigo
um corpo que cai
como num filme
da Paramount
dirigido por Hitchcock
em que estrelou
James Stewart
vertigem
em que pese
o medo de altura
a nos seguir
por toda parte
dando a falsa
(ou não)
sensação
de um movimento
de queda
ou rotação
desordem
(Josef K, eu sou o próprio)
em tempos de homens partidos
porvir
o saber,
quem é o povo
quem a democracia?
dos dois
quem o detetive
(que sofre um terrível
medo de altura)
quem a mulher louca
com tendências suicidas
quem é quem?
quem é?

c.moreira

Poema para Augusto de Campos (90 anos)




c.moreira

Descoberta




O meu Brasil
é o de Cabral
Não o de Pedro,
O luso Álvares,
Nem o de Vasco,
Em épico verso,
O nauta das Índias.
O meu Brasil
É o de Cabral,
Aquele de João,
Vulgo Severino,
Não o do velho do Restelo,
Mas o do torero sevillano
Com o mal de Homero
em seu destino.
Um Brasil de João
Tecido em tantas manhãs
Com seus fios e rios em discurso
Coisas de engenho ou engenheiro
Com alma de pedra,
Cérebro de poeta,
E coração nordestino

c.moreira

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

“Rua Professor Cleto, 381”, de Rafael Ginane Bezerra, reencontrando o tempo perdido




O passado é uma casa de sempre morar. A infância é lar que infatigavelmente nos habita. A memória é abrigo de muitas janelas. Algumas de frente para o mar, outras para o rio. Todas abertas para o que há de mais íntimo em nós. Nossa vida é casa de três infâncias, aprendi com Manoel de Barros. É por isso que eu habito nela e ela mora perene em mim. A infância é também um jeito de ver. Um jeito de tocar as coisas de novo pela primeira vez. E por isso, para a nossa alegria, é estância da poesia. Pois a poesia é um caminho de nos levar sempre e inevitavelmente de volta para o nosso próprio lar.
A casa do escritor Rafael Ginane Bezerra fica na rua Professor Cleto, 381. Ela é porta de entrada não apenas para o seu passado, mas também para a sua literatura, no âmago do presente e futuro, de uma escrita por vir: “Posso contar sobre a nossa casa amarela, que eu adorava. E ao mesmo tempo estranhava. Mas desfavorável pela disposição das peças. Quando escurecia, a sala grudada à cozinha virava o nosso ponto de convergência. Ali, a mãe preparava o jantar, o pai chegava do trabalho e a gente se sentava à mesa com a televisão ligada. A televisão estava sempre ligada. Por isso, éramos sempre cinco: o pai, a mãe, o irmão, eu e a televisão ligada”. A nossa vida, o livro ensina, é aquilo que acontece entre um jornal e outro, entre uma novela e um filme, entre uma partida de futebol e o Fantástico. E a memória é fantástica porque tem sempre uma boa dose de invenção. Nesse sentido, a literatura permite nos forjarmos como aquilo que somos sem a vergonha de nos lançarmos no jogo da vida como personagens de nós mesmos.


Rafael nasceu em Porto União, morou em União da Vitória e vive em Curitiba desde 1989, onde trabalha como professor na Universidade Federal do Paraná. Em 2019, lançou o livro “Rua Professor Cleto, 381”, pela editora Medusa. A obra apresenta um olhar sobre a infância e a adolescência de um narrador que, assim como o autor, cresceu nas cidades gêmeas do Iguaçu. O ditado popular diz que quem bebeu a água do Iguaçu está fadado a sempre voltar. Voltar para Porto União da Vitória é uma forma do autor voltar para dentro de si mesmo, reencontrando no passado um conjunto de experiências que ajudaram a fazer dele o que ele de fato é. Naturalmente, há nesse retorno o jogo da ficção, no qual o limite entre o vivido e o imaginado se rarefaz para dar lugar àquilo que poderíamos arriscar chamar de autoficção. A própria epígrafe do livro, colhida em Enrique Vila-Matas, aponta para esse caminho: “O meu pai, que outrora acreditou em tantas coisas para terminar desconfiando de todas elas, me deixou uma única e definitiva fé: acreditar em uma ficção, saber que nada existe e que a fabulosa verdade consiste em ser consciente de que se trata de uma ficção. E, sabendo disso, acreditar nela”. Portanto, é inútil circunscrever os limites entre o vivido e o imaginado, entre o real e a ficção, no entanto, as referências à realidade que podem ser encontradas no livro de Rafael me fazem lembrar da minha própria infância e adolescência, vividas nas margens do Iguaçu entre os anos 80 e 90. Nos seus relatos podemos reencontrar o jardim de infância situado atrás da igreja luterana, a “escadaria íngreme com centenas de degraus acompanhados pelas estação da via sacra”, na subida do topo do Morro do Cristo. Os passeios de bicicleta. A grande enchente de 83, que o autor retrata como uma espécie de dilúvio. A casa de dona Ondina, que ficava no pé do Morro da Cruz, o borracheiro Zito e seu amor pelas mulheres sensuais que, exibidas em folhinhas de calendário, estavam destinadas a serem trocadas todos os meses. A banquinha de revistas do Valdemar. O lendário show do Camisa de Vênus em um clube local. O Calçadão. A cabeleireira dona Gerda. O salão do França. A trágica história de Risadinha. Aliás, o conto “Assunção”, no qual é evocada a célebre e bem humorada personagem das ruas de Porto União da Vitória, é um dos mais comoventes do livro, ao retratar a transformação do narrador. O conto “Mullets” também investe no relato de um rito de passagem ao apresentar o momento em que o menino decide ir sozinho até o salão para cortar o cabelo. Destaco também a beleza de relatos como o de “Acabou Chorare”, “O Jogo” e “Despedida”. A leitura de contos como “O Virtuoso” evocou em mim o romance “História do Pranto”, de Alan Pauls, na forma como a infância é tratada.




“Rua Professor Cleto, 381” é obra de alguém que foi embora, mas que está fadado a sempre voltar, até porque assim como a cidade em que moramos nos habita, a nossa história vive para sempre e com força em cada um de nós. Rafael reencontra o tempo perdido por meio de um livro-carta. Quando está indo embora da cidade, para estudar na capital, sua mãe e seu pai pedem, “com os olhos encharcados de passado”, que ele escrevesse quando fosse possível. É o que ele faz no livro quase trinta anos depois.

                         Ilustração do livro História do Pranto, de Alan Pauls

O reencontro com o tempo perdido, no livro de Rafael, é o reencontro com dias felizes: “Houve uma época em que os dias eram felizes por serem predominantemente iguais e na conformidade o tempo passava lento”. Alguém já deve ter escrito em algum lugar que a vida talvez seja aquilo que acontece quando parece não estar acontecendo nada. Mesmo tomando a água do Iguaçu é impossível entrar de novo nesse rio, posto que suas águas são sempre outras, mas em sonho o rio está sempre lá e nos convida a entrar para um mergulho. Se a memória é uma ilha de edição, como sugeriu certa vez um poeta baiano, isso significa que é impossível processá-la fora do viés da ficção. Por outro lado a ficção parece ser não só uma forma de preservá-la em nós, mas também de fazer lembrar o que fomos e o que ainda somos. A literatura de Rafael Ginane Bezerra é esse rio de memória. Encontro ali um pouco do meu próprio rosto refletido em suas águas.


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, na edição de 22 de fevereiro de 2020.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

“Merda!” para dar boa sorte: Sobre Fernanda Montenegro e o espetáculo da vida





As cortinas se abriram! Lentilha, promessas, pedidos, roupas brancas, ondinhas, uvas, champanha e tudo (re)começa sempre igual, mas diferente. O que desejo para todos nós em 2020? “Merda!”. No teatro, é muito comum – antes da estreia de uma peça – que os atores, desejando boa sorte uns para os outros, pronunciem a expressão “Merda!”. Vem do francês “merde”. É um costume antigo. Conta-se que, em Paris, quando um espetáculo artístico lotava, o tráfego intenso de muitas carruagens era responsável por uma grande quantidade de excremento animal em frente aos teatros. Portanto, quanto mais veículos e cavalos, maior o sucesso de uma peça. As fezes eram praticamente o sinônimo da prosperidade. Que isso não falte em 2020. Que não esqueçamos o texto, que as bilheterias se esgotem, que possamos brincar, emocionando-nos em cada cena, em cada ato. Que vivamos enfim o show de cada uma de nossas vidas. Que saibamos encenar acima de tudo. Isso é fundamental.
Falando em teatro, informo que comecei o ano lendo a autobiografia de Fernanda Montenegro, a grande dama da nossa dramaturgia. O livro foi escrito com a colaboração da jornalista Marta Góes. As memórias intituladas “Prólogo, ato, epílogo” saíram pela Companhia das Letras, em setembro de 2019. Nelas, os leitores poderão encontrar uma mulher forte e vocacionada, mas principalmente o retrato de uma vida bela e bem vivida. Entre julho de 2016 e novembro de 2017, Marta Góes realizou dezoito entrevistas com a atriz que deram origem ao livro.



O título das memórias é perfeito porque aproxima a vida de Fernanda a uma peça de teatro. Acredito que toda vida intensamente vivida em meio à arte é algo que se funde a ela. A linha divisória entre vida e arte é rompida apenas por grandes artistas. A obra de arte se transforma em um ato de vida, assim como a vida passa a ser a própria obra de arte. Onde uma começa e a outra termina é mistério que não se explica. Aliás, toda vida bem vivida, penso, é uma obra de arte. Cada um dos leitores, se procurar entre aqueles que os rodeiam, encontrará alguns que, mesmo não sendo artistas, vivem a sua vida como uma obra de arte. Talvez todos sejamos um pouco artistas. O título do livro é perfeito também porque, além de amalgamar vida e teatro, relaciona com eficácia a estrutura dramatúrgica de uma peça às fases de uma vida. Prólogo, ato, epílogo. Começo, meio e fim.




Prólogo: As luzes se acendem. Da saga dos antepassados, oriundos da Sardenha, na Itália, à vida difícil de imigrantes em um país desconhecido. Do outro lado da família, a origem portuguesa e suas tradições, moldando um temperamento forte na pequena Fernanda, nascida Arlette Pinheiro da Silva. Criada pelos avós no subúrbio do Rio de Janeiro, Arlette assiste pela Rádio Nacional e pela Rádio MEC às grandes transformações do Brasil e do mundo no século XX, como a Revolução de 30 e a Segunda Grande Guerra. Aliás, na Rádio MEC a jovem inicia a sua carreira artística como locutora. Dali para os palcos não demorou muito. Ela foi professora de inglês também.
Ato: Fim dos anos 40, início dos anos 50. A Arlette vira Fernanda. Casa-se com o ator Fernando Torres e mergulha no teatro. Em um dos momentos mais intensos de suas memórias a atriz, ao recordar o momento em que percebeu que tinha futuro no teatro, escreve: “Os anos vividos foram de coragem e medo. Entreguei meu corpo, daquele momento em diante, a toda e qualquer estética ou jogo cênico que o personagem exigisse de mim. Vejo, hoje, que troquei de pele pela vida afora durante setenta anos. Nunca tive realmente e definitivamente o meu próprio rosto, o meu cabelo, e nem a minha postura. No fundo me pergunto, como faz Cecília Meireles, no seu poema ‘Retrato’: ‘em que espelho ficou perdida a minha face?’”. A passagem é de uma beleza confessional absoluta. Penso que o verdadeiro rosto do ator nunca está atrás da máscara, mas disseminado em todas elas. E é nessa mistura que ele encontra sua essência. No Ato, Fernanda vive com grandeza sua arte, trabalhando em uma grande quantidade de peças, novelas e filmes. Das “Alegres canções na montanha”, de Julien Luchaire, em 1950, até o filme “Vida Invisível”, de Karim Ainouz, de 2019. Como não lembrar de sua participação em obras televisivas e cinematográficas como “Incidente em Antares”, “O auto da Compadecida”, “O Tempo e o Vento”, “Central do Brasil”, “O Amor nos Tempos de Cólera”, “O outro lado da rua”, entre tantas outras. O Ato do livro se encerra com a comovente partida de seu companheiro Fernando Torres. Mas o Ato da vida continua. Fernanda Montenegro está viva e atuante em seus 92 anos.






Na carta que Fernanda enviou a José Aparecido de Oliveira, nos anos 80, recusando o convite para assumir o recém-criado Ministério da Cultura, no governo Sarney, há um trecho em que diz: “Pobre do país cujo governo despreza, hostiliza e fere seus artistas”. No texto, apesar de declinar do convite, ela comemorava o fato de um artista ter sido escolhido, vendo neste fato um amadurecimento político de nosso país: “Não é fácil dizer não. Não vejo que seja mais fácil decidir pelo teatro. O Teatro nunca foi fácil ou seguro. Mas é esse o meu lugar. (…) Pode parecer um frase bombástica e teatral, mas não devemos temer nem o Teatro, nem as palavras: não estou preparada para partir”. A carta completa está no livro. É uma pena que a atriz, uma lenda vida e luz perpétua da dramaturgia nacional, tenha sido recentemente tão desrespeitada por Roberto Alvim, quando ele dirigia a Funarte, devido ao fato de Fernanda ter criticado o presidente Bolsonaro.



Epílogo: As memórias de Fernanda se encerram com uma comovente declaração de amor à vida e ao teatro. Quem ler o livro verá. A atriz inscreve em seu gesto a procura de uma descoberta constante, porque “quando temos muitas certezas sobre o nosso modo de agir, em cena ou na vida, corremos o risco de ficarmos circunscritos a uma técnica que nos imobiliza naquele processo domado, dominado, que nos congela. É a ponte com o imprevisto, o improvável, o absurdo que, muitas vezes, nos leva a renascer. No palco, atingir o impensável é fundamental. Essa é a batalha”. E festejando o dia de seus anos, junto com Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escreve a artista, de forma trágica e por isso bela, consciente do fim da peça de sua vida, em seus quase 100 anos de idade: “Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inenarrável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto”. Fernanda vive e permanecerá vivendo, pois sua centelha está plantada em cada talentoso artista brasileiro. Celebro essa presença!

domingo, 22 de dezembro de 2019

Ciúme da Morte, de Ladislau Romanowski: apontamentos de leitura



Texto de Caio Ricardo Bona Moreira (UNESPAR) apresentado no I Encontro Internacional de Estudos Poloneses, na Universidade Federal do Paraná, em 02 de dezembro de 2019



Resumo:
O presente trabalho propõe uma leitura do romance “Ciúme da Morte”, do escritor Ladislau Romanowski, nascido no interior do Paraná (Mallet) e filho de imigrantes poloneses. Publicado em 1943, no mesmo ano em que veio a lume “O Ser e o Nada”, de Jean Paul Sartre, o livro de Romanowski foi contemplado em 1945 com o Prêmio Raul Pompeia, da Academia Brasileira de Letras. Segundo o parecer da Comissão Julgadora, a tessitura de “Ciúme da Morte” lembra os romances de Dostoiévski, e sua técnica seria semelhante a dos livros de Aldous Huxley. A partir de uma perspectiva comparatista, intentamos desenvolver uma análise que estabeleça possíveis relações entre o romance de Ladislau Romanowski e a obra desses autores. Ao inserir o escritor paranaense em uma rede que vai de Dostoiévski a Huxley, entre outros que exploraram o universo da loucura e da angústia em suas narrativas, como Graciliano Ramos ou mesmo Érico Veríssimo - que traduziu Huxley e a quem Romanowski dedicou “Ciúme da morte” -, teremos a possibilidade de retirá-lo da província, promovendo, assim, uma contra-leitura à crítica que Dalton Trevisan dirigiu ao autor na revista modernista Joaquim, nos anos 40.
Palavras-chave: Ladislau Romanowski – Literatura Paranaense – Romance Psicológico. 

“- Eu não matei! Juro que sou inocente!” (ROMANOWSKI, 1977, p. 17). Com essa frase, proferida em desespero pelo médico Armando, internado como louco e assassino em um manicômio, inicia-se o romance Ciúme da Morte, de Ladislau Romanowski, publicado pela Coeditora Brasílica, em 1943. O livro alterna duas narrativas, a de Dr. Armando, e a de seu amigo José de Vasconcelos, o Juca, com quem o protagonista trabalhara em um jornal chamado Gazeta. Depois de visitar o possível criminoso e de receber dele um manuscrito no qual o médico narrava a própria vida - da infância até o fatídico dia em que acabou no hospício -, Juca inicia uma viagem de Porto Alegre a Águas da Guarda, onde se hospeda em um hotel de águas termais. Durante a viagem e hospedagem, o segundo narrador, Juca, intercala a leitura do manuscrito de Dr. Armando com a descrição de suas experiências amorosas, bem como com a narração de uma jornada mental de reflexões sobre a vida e sobre o amigo. Estamos diante de dois narradores com personalidades diferentes, mas que igualmente tencionam os limites entre a razão e a loucura. Mais de uma vez, Juca se questiona em seu texto se o louco na verdade não seria ele próprio. Dr. Armando, por sua vez, integra uma linhagem de personagens loucos que na literatura brasileira vai de Simão Bacamarte, de Machado de Assis, até os mais contemporâneos, passando, por exemplo, por Fileto, de No Hospício, de Rocha Pombo, e Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Um dos aspectos mais curiosos do livro parece ser a apresentação de um enredo construído sobre o discurso de um homem cuja sanidade é posta em questão. Se Dr. Armando é louco, que garantia de verdade ou razão há em sua narrativa, como justificativa para os atos cometidos? O livro é narrado sempre em primeira pessoa. Até que ponto podemos acreditar nela? Como em Shakespeare, razão e loucura parecem se amalgamar produzindo a tragédia que é o próprio livro. Seria a opção pela loucura uma forma do autor abordar verdades insuportáveis pelo senso comum, ou melhor, pulsões psicanaliticamente profundas? Seria a condição de loucura uma possibilidade para o narrador conquistar o que deseja por cima de toda e qualquer moral? Aprendemos com Foucault sobre as relações entre a loucura e o poder, bem como seus desdobramentos sociais. Muitas perguntas poderiam se somar a estas, mas como nosso tempo é curto contento-me em ensaiar um olhar sobre a obra, confrontando-a com outras, e analisando mesmo que superficialmente suas potencialidades estéticas, promovendo, assim, um resgate do romance deste ilustre paranaense, nascido no município de Mallet, no interior do Estado e infelizmente um tanto quanto esquecido.



Toda a narrativa do livro pode ser lida como o fruto de fantasias patológicas ou como o relato de uma vida movida pela paixão que levou Armando à perdição. O que vem antes, o crime ou a loucura? Vejamos um pouco mais a sinopse. Ao saber da doença terminal de sua noiva, o médico, tomado de furores irracionais, comete dois crimes. No primeiro, realiza uma experiência que acaba levando um doente à morte, na tentativa de testar um tratamento para a noiva. No outro, possui sexualmente a amada com tamanha violência que acaba matando-a. À medida que Dr. Armando descreve sua vida, aproximando-se do assassinato da amada, a narrativa vai ganhando ares surreais – como um intenso diálogo com a morte materializada como uma personagem – e ares trágicos que fazem lembrar por vezes uma peça teatral de Nelson Rodrigues. Aliás, Vestido de Noiva, do dramaturgo carioca, foi encenada pela primeira vez justamente em 1943.
No dia 24 de outubro daquele ano, o jornal paulista Correio da Manhã anunciava em uma resenha anônima a publicação de Ciúme da Morte, observando que há um drama gigantesco nas páginas deste livro, em que um sujeito incompreendido e possivelmente louco narra no hospício “o drama cruciante de sua existência atormentada e o desfecho doloroso de um grande amor”. Segundo a resenha, estamos diante de uma narrativa produzida por um homem genial “a quem os homens talvez por falta de compreensão encerraram entre quatro paredes de um manicômio” (Correio da Manhã, 1943, p. 37).


Ainda em 1943, foram publicados O Ser e o Nada, de Jean Paul Sartre, O jogo das contas de vidro, de Herman Hesse, e O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry. O livro de Romanowski, que no período de lançamento ganhou o elogio de Afrânio Peixoto, é hoje um romance pouco conhecido entre as obras da literatura brasileira que vieram à lume na chamada segunda geração modernista, aquela que, segundo os manuais literários, vigorou com força entre 1930 e 1945. Pouco comparável a qualquer um dos livros que integraram o chamado Regionalismo de 30, Ciúme da Morte parece se ligar a uma linhagem romanesca menos reconhecida da literatura brasileira dos anos 30 e 40 que é a linhagem intimista, uma espécie de corpo estranho na produção cultural do período.
Acostumados a pensar nos romances de 30 apenas pelo viés social e regionalista, boa parte dos leitores acaba por desconsiderar uma série de obras que, explorando um viés psicológico, prefiguram temporalmente e esteticamente a literatura, por exemplo, de Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Com isso não quero sugerir uma suposta parecença entre as obras de uns e outros, mas apenas sinalizar para o fato de que Rosa e Lispector não são os primeiros a romper no romance com uma longa tradição especificamente social, regional ou naturalista, que sempre fez tradição na literatura brasileira. Luis Bueno, aliás, já aprofundou essa discussão no ensaio “Guimarães, Clarice e antes”:

(...) os anos 30 são a época do romance social, de cunho neonaturalista, preocupado em representar, quase sem intermediação, aspectos da sociedade brasileira na forma de narrativas que beiram a reportagem ou o estudo sociológico. É claro que, nesse tempo, houve também uma outra tendência na qual pouco se fala, uma “segunda via” do romance brasileiro, para usar a significativa expressão de Luciana Stegagno Picchio, o chamado romance intimista ou psicológico, mas tão secundário que não teve forças para estabelecer-se como via possível no desenvolvimento do romance no Brasil (2001, 251).

Numa linhagem intimista e psicológica, alternativa ao sistema naturalista na nossa literatura, Bueno inclui, por exemplo, romances como Sob o olhar malicioso dos trópicos, de Barreto Filho, A mulher que fugiu de Sodoma, de José Geraldo Vieira, entre outros livros de escritores como Lúcia Miguel Pereira, Mário Peixoto, Cyro dos Anjos, Octávio de Faria, Lúcio Cardoso, Cornélio Pena e porque não dizer Dyonélio Machado, em Os Ratos, e Graciliano Ramos, em Angústia. Aliás, boa parte da obra do autor de Vidas Secas - bem como alguns outros romances de 30 -, poderiam escapar facilmente da nomenclatura “regionalista” que consolidou o cânone na segunda geração modernista. Difícil categorizar certas obras como meramente regionalistas ou intimistas. Romanowski poderia muito bem figurar entre esses autores cuja obra pode ser colocada como alternativa ao modelo predominantemente social e regional. Interessante perceber a influência de Dostoiévski em muitos desses autores do romance regionalista e ou intimista, o que demonstra a força de sua obra na produção literária brasileira do século XX.

Altino Flores e Ladislau Romanowski

Alfredo Bosi chamou a atenção para o fato de que ao lado da ficção regionalista, do ensaísmo social e do aprofundamento da lírica moderna, o romance introspectivo, vinha se afirmando lentamente entre os anos 30 e 50, “raro em nossas letras desde Machado de Assis e Raul Pompeia” (1994, p. 386). Certamente, um dos fatores que propiciaram a intensa produção do romance psicológico está ligado ao advento Revolução de 30: “caíram as máscaras mundanas que empetecavam as histórias medíocres do pequeno realismo belle époque (...)” (1994, p. 389). Segundo Bosi, o renovado convite à introspecção far-se-ia com “o esteio da Psicanálise afetada muitas vezes pelas angústias religiosas dos novos criadores” (1994, p. 389).
Ciúme da Morte exercita um aprofundamento psicológico que se direciona para o crescimento gradativo de uma tensão que gera no leitor um mal-estar que pode ser encontrado com facilidade no autor de Irmãos Karamazov. Aliás, em dois momentos específicos o autor russo é evocado nas páginas de Romanowski. No primeiro momento, Dostoievski aparece entre um conjunto de autores lidos com voracidade pelo Dr. Armando no tempo em que frequentou a Faculdade. Entre Nietzsche, Schopenhauer, Voltaire, Edgar Alan Poe, Freud e Hoffmann aparece o autor de Crime e Castigo. Em um segundo momento, quando depois da personagem realizar uma experiência em um doente levando-o à morte, surge o sentimento de culpa pelo suposto crime a assolar sua consciência:

A maleta que eu levava na mão pesava-me, como se dentro dela estivesse levando o peso de meu crime. Sim, eu levava nela o cadáver do homem que acabara de matar, em consequência de minha ambição! Precisava ver-me livre dela... Mas jogá-la fora seria deixar sinal por onde passei miserável, covarde, fraco... Isso não era prudente. Tive a impressão de que se havia encarnado em mim o Raskolnikolf, a personagem impressionante do “Crime e Castigo”, de Dostoievski (1977, p. 328).

Essa é apenas uma das possíveis aproximações entre as personagens de um romance e outro. As paisagens de noturna tensão psicológica em Ciúme da Morte caminham para um nonsense que me faz recordar por exemplo certas cenas de Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky, bem como de alguns filmes de Lars Von Trier, ou dos filmes brasileiros Nina, de Heitor Dhalia e Durval Discos, de Anna Muylaert. 
Vale lembrar que em 1943 José Lins do Rego publica Fogo Morto, e Jorge Amado Terras do Sem Fim. Em uma outra linhagem vemos encenada pela primeira vez o já citado Vestido de Noiva, uma peça com nítidas intenções psicológicas. Também em 1943 vemos publicado o romance Dias Perdidos, de Lúcio Cardoso, cujo protagonista rememora com profunda angústia uma vida carregada de secretas culpas. Sete anos antes de Ciúme da Morte, Graciliano Ramos edita o romance Angústia, que faz do monólogo interior uma experiência narrativa intensamente voltada para os dramas psicológicos. Aliás, este romance de Graciliano e Ciúme da Morte, por si só, já renderiam uma leitura bastante pertinente. Ambos, diga-se de passagem, leitores de Dostoiévski.
Dalton Trevisan, no segundo número da revista modernista Joaquim, publicou o artigo “Emiliano, poeta medíocre”, um dos mais fervorosos ataques ao Paranismo, tendo como alvo principal o poeta simbolista. Depois de considerar este movimento como uma escola sem importância para a poesia paranaense e brasileira, bem como de rebaixar a obra de Perneta, o artigo alude a Ladislau Romanowski com o intuito não apenas de criticá-lo, mas também de situar a literatura paranaense anterior à produção da revista em um contexto provinciano. Cito a passagem:

Me entendam bem os chauvinistas. Porque em arte, não há prata de casa, é-se
Dostoiewski ou L. Romanowski, é-se Rimbaud ou … e pobre de quem lê “Ciúme da Morte”, em vez de Dostoiewski, por causa que um é comunista russo e, o outro, nasceu em Mal. Mallet… E, pois, hélas! Não se perca tempo, vamos aos valores supremos, a essas experiências decisivas de Rilke, Aragon, Drummond de Andrade (1946, p. 17).

Naturalmente, Trevisan intentava inserir-se em uma concepção literária mais cosmopolita, e como sua proposta literária demarcava um projeto nitidamente modernista, vanguardista, o escritor negava uma certa tradição, fundada principalmente pelo simbolismo, mas também aquela produção literária que estava de fora do paideuma joaquiniano. Romanowski integrava um conjunto de escritores que não estava à altura do que buscavam os jovens escritores modernistas do Paraná. Trevisan percebia uma certa presença de Dostoiévski na literatura de Romanowski, em especial em Ciúme da Morte, mas por outro lado apontava a distância entre elas. Ler Ciúme da Morte e não Dostoiévski  - por Romanowski ter nascido em Mallet - para o editor de Joaquim era lamentável. Curiosamente, é por meio de uma contra-leitura a Dalton Trevisan que situamos o horizonte do presente trabalho.
Descobrir, redescobrir, aprofundar, resgatar a produção de Romanowski são gestos que, por uma quase ironia dos acasos ou do destino, brotam justamente no Simpósio de um encontro internacional destinado a pensar a cultura polonesa – com ênfase no Estado do Paraná – e acredito que os motivos que movem nosso interesse pelo autor de origem eslava não está de todo desvinculado de seu espaço social de nascimento, no interior do Paraná, bem como sua ancestralidade polonesa. Mas não se trata, penso eu, apenas em lê-lo a partir dessa ligação identitária com o espaço de origem ou com o aspecto cultural que se materializa a partir de uma ligação genética. Trata-se também de partir dessa possibilidade de aproximação quase conterrânea com o autor apenas para de certa forma tirá-lo da província, situando sua literatura fora do espaço reservado ao regional, ao local – como se o autor fosse uma espécie de patrício – para ensaiar uma dimensão crítica capaz justamente de resgatar seus objetos artísticos. Ciúme da Morte, por sinal, não aponta para nenhuma ligação palpável com a cultura polonesa e ou paranaense, ao contrário de outros livros seus.  
Ler a obra de Romanowski a partir de uma perspectiva comparada, trazendo para o debate sua relação por exemplo com Dostoiévski e Aldous Huxley não para colocá-lo ao lado de clássicos internacionais numa intenção de acender uma vela ao paranaense, exaltando-o, mas para cotejá-lo com outras experiências na expectativa de lê-lo mais e melhor, reitero fora da província. Aliás, o livro, ao ser premiado pela Academia Brasileira de Letras, nos convida à sua leitura independente de ser escrito por um paranaense.      






Imagens raras de Ladislau Romanowski

Na sessão de 28 junho de 1945, a ABL outorgou ao livro Ciúme da Morte o prêmio Raul Pompéia de melhor romance. O volume 69 dos Anais da Academia traz o parecer da Comissão. Segundo os relatores A. Austregésilo, Múncio Leão e J. C. de Macedo Soares, a técnica usada pelo romance de Romanowski é a mesma dos livros de Aldous Huxley e a tessitura lembra os romances de Dostoiévski, “cuja pena muito impressionou o escritor”: “A não ser alguns descuidos de linguagem, alguns exageros descritivos, e certos transbordamentos de subjetivos postos nas meditações do Dr. Armando, poderíamos dizer que o livro é bom e merece a outorga por parte da Academia do Prêmio Raul Pompeia” (1945, p. 17).   
Os imortais da Academia observaram alguns elementos que revelavam boas qualidades do autor, a saber, as descrições paisagísticas, as considerações filosóficas e mórbidas do Dr. Armando, a análise do caráter de Lorena, bem como as posturas intriguistas de Dona Finoca. Nota-se, portanto, que um dos elementos que mais chamaram a atenção dos avaliadores foi a construção das personagens, bem como seus aprofundamentos psicológicos, o que de certa forma lhe chegara via Dostoiévski.  
  Se por um lado as aproximações a Dostoiévski são óbvias, as relações com Aldous Huxley são mais sutis, no entanto, não menos importantes. Lembremos que o parecer da Academia aponta para a influência da técnica de Huxley no livro de Romanowski. Vale observar que Ciúme da Morte é dedicado também para Érico Veríssimo que havia traduzido para o português o romance Contraponto, de Huxley, de 1932. É justamente esse livro no qual o autor norte-americano adaptou a técnica do contraponto musical para a literatura, o que nos leva a inferir que o parecer da Academia tinha em vista principalmente essa obra quando comparou Huxley e Romanowski. Sabemos que o contraponto nada mais é que a sobreposição de duas ou mais vozes melódicas em uma composição musical. Estamos aqui diante da polifonia, um dos conceitos chaves da obra de Bakhtin ao abordar a obra de Dostoiévski. Até que ponto a polifonia na obra dos quatro autores, Dostoiévski, Romanowski, Érico Veríssimo e Aldous Huxley, poderia ser pensada de forma comparativa. Eis uma proposta interessante que ultrapassada nosso espaço e tempo neste momento.
Em Contraponto, também chamado de romance-sinfonia, Huxley intercala várias narrativas, com diversos personagens, analisando suas relações conjugais bem como a vida intelectual no período entre guerras. As histórias de várias personagens vão se cruzando, gerando uma impressão polifônica. Romanowski ao intercalar as duas narrativas de Ciúme da Morte, acaba que fazendo o mesmo. Observemos também que cada um dos narradores modula uma linha melódica particular. Armando é esquizofrênico, impulsivo, louco, Juca é racional, meditativo, ponderado, no entanto, ambos são movidos por paixões.
Essa experiência do contraponto teria chegado a Romanowski possivelmente via Érico Veríssimo. Segundo Gérson Werlang, ao travar contato com Contraponto, de Huxley, “Erico ficou profundamente entusiasmado com a possibilidade de dar uma estruturação musical a uma obra sua”. O que o levou a escrever Caminhos Cruzados, provavelmente lido por Romanowski. Como o escritor paranaense morou em Porto Alegre é possível que os autores tenham travado contato na capital gaúcha, rendendo uma possível amizade. São perspectivas que se traduzem em possibilidades para futuras leituras, passíveis de promoverem ao mesmo tempo o resgate da obra de Romanowski, e a sua retirada do lugar provinciano que Dalton Trevisan o colocou, ensaiando, assim, uma contra-leitura modernista capaz de ampliar nosso olhar sobre ele.

Referências:

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 40 ed. São Paulo: Cultrix, 2002.
BUENO, Luis. Guimarães, Clarice e antes. In: Teresa (Revista de Literatura Brasileira n. 2). Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas: Universidade de São Paulo. São Paulo: Ed. 34, 2001.
CORREIO DA MANHÃ. Livros novos: resenha sobre Ciúme da Morte. In: Jornal Correio da Manhã. 24 de outubro de 1943. São Paulo. (p. 37)
ROMANOWSKI, Ladislau. Ciúme da Morte. 2 ed. Curitiba: Parga Editora e Dist. De Livros Ltda, 1977.
TREVISAN, Dalton. Emiliano, poeta medíocre. In: Revista Joaquim (número 2). Curitiba, 1946. (p.17).
WERLANG, Gérson. A música em Caminhos Cruzados e O Prisioneiro. In: Revista Literatura e Autoritarismo (n.7). Universidade Federal de Santa Maria. Disponível em: <  http://w3.ufsm.br/literaturaeautoritarismo/revista/num07/art_02.php> Acesso em 01 de dezembro de 2019.