sábado, 28 de setembro de 2019

João Anzanello Carrascoza e arte da perda


Foto: Luana Luíse

Nesta quarta-feira (25-09), tive o prazer de participar da 38ª Semana Literária do SESC, de União da Vitória, em suas dependências. O evento é promovido todos os anos por essa instituição e acontece simultaneamente em várias cidades do Paraná. Na ocasião, participei de um bate-papo com o escritor João Anzanello Carrascoza, um dos grandes nomes da literatura brasileira contemporânea, tanto no gênero conto como no romance. Com os acadêmicos de Letras (Português-Espanhol), da Unespar, e de Comunicação Social, da UNIUV, pudemos ouvi-lo discorrer sobre seus livros, sua linguagem e concepções literárias.
Carrascoza é um dos autores atuais mais comprometidos com um trabalho sofisticado no âmbito da linguagem, o que engloba um domínio impressionante da palavra, do ritmo do texto, bem como da construção de narradores complexos, de personagens profundos e da elaboração de belas histórias. Reconhecido já pela crítica e amplamente premiado, o autor lançou recentemente o romance “Elegia do Irmão” (2019), pela editora Alfaguara. O livro narra a história de uma despedida. A irmã do narrador é diagnosticada com uma doença terminal, não nomeada. A partir daí, ele passa a refletir sobre a morte e a vida dela com uma pungência que dá ao livro uma dimensão profundamente poética. O romance é sobre o luto previamente anunciado, sendo portanto uma reflexão fúnebre sobre a partida de Mara, mas é acima de tudo uma reflexão sobre a vida da irmã, ou melhor, de sua sobrevida por meio do livro como fato de memória. O tema da perda, aliás, é recorrente na obra de Carrascoza.


Em “Catálogo de Perdas” (SESI-SP Editora, 2017), por exemplo, o autor elabora uma série de pequenos contos a partir da ideia da perda, seja de um objeto, de um ente amado, de uma situação, de algo que se move a partir de uma ruptura e que com ela nos transforma. O livro - inspirado no Museu das Relações Partidas, sediado na Croácia – é composto a partir de um diálogo entre os contos de João e as fotografias de Juliana Carrascoza, sua esposa. Como não lembrar aqui da relação que o escritor Julio Cortázar estabelece entre o gênero conto e a fotografia, experiências que visam a capturar o leitor por meio de uma espécie de nocaute, e não de pontos corridos como faz o romance. Seu Catálogo atinge essa meta por meio de textos velozes e furiosamente delicados.


A já citada presença da perda pode ser percebida também na sua “Trilogia do Adeus” (Alfaguara, 2017), que reúne três livros: “Caderno de Um Ausente”, “Menina escrevendo com o Pai”, e “A Pele da Terra”. São três cadernos cujas histórias se entrelaçam. A primeira apresenta uma espécie de diário que um pai escreve para uma filha, na possibilidade de não vê-la crescer. O livro, de uma beleza singular, lembra por vezes a linguagem literária de Raduan Nassar, em “Lavoura Arcaica”. O pai conta a história da família, o nascimento da filha, apresentando a ela alegrias e tristezas da vida. “Menina escrevendo com o Pai” inverte a narração, já que quem narra agora é a filha para o pai. A jovem Bia revela sua visão de mundo e da relação familiar diante daquele que a gerou. O terceiro livro, por sua vez, apresenta o filho mais velho relatando uma viagem ao lado de seu filho, ou seja, o neto do primeiro pai, do primeiro narrador. Tanto em um caderno como no outro, a questão da perda do tempo, a sua passagem, bem como a perda de entes queridos é tematizada com recorrência. Essa trilogia é uma das grandes referências literárias de nossa prosa contemporânea. Nota-se o quanto as questões familiares movem a escrita de Carrascoza, nunca se transformando ali em um assunto piegas e sem graça.



Toda a escrita de Carrascoza está carregada de uma profunda dimensão poética, como podemos perceber em uma passagem de “Caderno de Um Ausente”, quando o pai revela à filha sobre a dor da vida: “(...) embora viver seja coisa grande, é também a força que lhe contraria, e não há como vencê-la, senão aceitando que a dor desenha em nossa pele, com esmero, um itinerário de pequenos cortes, ora arde um, ora sangra outro, e, às vezes, todos, juntos, nos queimam, em uníssono”. Essa dimensão poética, penso, insere Carrascoza em uma linhagem de grandes escritores da literatura brasileira que integra, por exemplo, o já citado Raduan Nassar, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Gilberto Noll, Wilson Bueno, Caio Fernando Abreu, entre outros. Lendo a obra de Carrascoza penso em como a boa literatura se projeta sempre como um lugar de encontro. Poderíamos imaginá-la também como um espaço de pervivência do perdido, do ausente, já que o sujeito está e não está no texto, como alguém que partiu está e não está conosco na memória. Nesse sentido, a literatura propicia um (re)encontro com aquilo que perdemos, ou a possibilidade de lutarmos contra a perda daquilo que amamos, já que escrever é (re)elaborar simbolicamente o vivido, possibilitando um encontro não apenas com o outro, mas também e principalmente consigo próprio.

(Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 28 de Setembro de 2019)

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Micronotas: uma editora apaixonada e apaixonante









Imagino poeticamente a evolução da espécie consoante a quantidade de escritores, livrarias, sebos, bibliotecas e editoras existentes neste planeta que chamamos Terra. O nível cultural de um país poderia ser medido também por esses fatores. Livrarias, infelizmente, vão sendo fechadas dia após dia, numa crise que foi instaurada por motivos variados e que vem aumentando a cada ano. O que não significa que bons livros não estejam sendo escritos, editados e vendidos. Tome-se como exemplo a sobrevivência da Estante Virtual, bem como o surgimento de pequenas editoras, que têm apostado em autores desconhecidos ou quase, publicando pérolas literárias que dificilmente viriam a lume de outra forma. Aliás, o curioso e corajoso investimento em um mercado editorial mais artesanal e independente tem motivado a proliferação dessas pequenas (grandes) empresas para a alegria de amantes do livro. Uma delas é a Micronotas, de Joinville, que descobri recentemente.

Voltada predominantemente para a literatura, com ênfase na poesia (a menos culpada de todas as ocupações, como nos diria Waly Salomão), ensaios e artes visuais, a Micronotas é coordenada pela escritora Katherine Funke. Os livros dessa editora são produzidos a partir de uma confecção carinhosa, desde o trato visual, a diagramação, passando pelas capas artesanais, não esquecendo da qualidade literária de cada trabalho, minuciosamente escolhido e cuidado pela editora. 



A Micronotas acaba de lançar o belo “Pedra, poro, pele”, da poeta Maria Cecília Takayama Koerich, uma daquelas publicações que dá gosto de pegar além do prazer de ler. O livro é um corpo feminino cujos poemas são suas partes feitas de carne e palavras com toques de desejo e paixão. Esse livro é um escândalo de bom, a começar pelas lindas ilustrações de Isadora Weber, com destaque para a capa, um conjunto de flores derretendo. Suas pétalas pingam o prazer do corpo que é também a paixão da linguagem. E mora aí – na superfície da pele/papel - a política mais profunda que é a do corpo que pensa e deseja: “Desejo desejos / como trilhar no mundo / sem ser feita deles? / só é possível existir / na Via Láctea / por ele, apesar dele, com ele e para ele: início e fim”. O erotismo com toques de luxúria é a medida do corpo(poema) cultivado por Maria Cecília: “Pequena e voraz / flor sem espinho / úmida e quente / doce e cítrica /vermelha e rosada / macia / sutil / esconderijo / para um segredo íntimo /que nesse mundo / é só teu”. “Pedra, poro, pele” é um livro que deseja. Por isso talvez venha a ser sempre e profundamente desejado por seus leitores.     


A editora acaba de publicar também o estranho, bem escrito/montado e tragicômico “Tamanduá/Bandeiras”, de Eduardo Silveira. Esse livro de poemas é profundamente atual e difícil de ser abordado em um simples comentário, dois motivos que por si só já bastariam como um convite à leitura. Nem tudo o que se faz agora – no presente - é atual e naturalmente há uma necessidade de distanciamento fundamental para uma possível assimilação daquilo que foi feito. Mas não precisamos esperar o tempo passar e as formigas desaparecerem para lermos esse Tamanduá. Pelo contrário, há uma urgência de leitura em sua atualidade que penso contribuir para os sentidos e para a importância desse livro. A dimensão trágica e cômica da obra aparece, por exemplo, no poema “O amor possível”: “no instante mesmo em que / doidos doentes drogados / mendigos migrantes marielles / velhos violados violetas / dormem morrem vazam // dois jovens, um homem e uma mulher, / se amam num beliche / - e bem que eles fazem”. No livro de Eduardo Silveira podemos encontrar um banco, “desses para onde brasileiros enviam dinheiro ilegal”, uma tribo sem nome em uma floresta prestes a desaparecer (tanto a floresta quanto a tribo), um bombeiro velho e cansado de apagar o fogo, a canção do Roberto nos levando para Além do Horizonte, “Boldonaro” (personagem de nome simbólico – assim mesmo grafado-, amargo e fonicamente presidencial): “militarmente cansado / como se não descansasse mais do que duas horas / desde 1964”. Há uma opção claramente política no livro que faz o poeta defender uma história com “menos adornos e mais Adornos”. A obra, nesse sentido é um gesto potencialmente forte e, segundo o autor, o gesto ainda é “nossa única e verdadeira arma / muito antes de tacapes e bombas / os gestos”. O poema “Antes II” se encerra com um gesto que é também um convite: “dia e noite / até que a estrela exploda / haveremos de militar // militar / sem limites // abaixo a ditadura limitar”. A estrela do verso, o vermelho da capa, a palavra Bandeiras (no título), são signos que estão consciente ou inconscientemente atravessados por uma vontade política, mas não se trata de sua mera estetização. Tamanduá politiza a arte. E faz disso sua paixão. Assim como Maria Cecília, Eduardo Silveira é movido por desejo e paixão. São paixões diferentes, mas mesmo assim paixões: “acredito sobretudo nos que se movem por paixão”, diz um verso do livro.  


É também com paixão que se move a escrita de Katherine Funke em “Sem pressa”, que saiu no ano passado pela mesma editora. Trata-se de uma série de textos escritos entre 2010 e 2011, quando a autora/editora morava em Salvador. O título combina perfeitamente com o ritmo do livro, a lembrar um jazz deliciosamente tocado por alguém que sabe executar bem um instrumento e compor a música à medida que toca. Combina também com o tema de cada um dos seus textos com sabor de poesia e reportagem jornalística, desde um ensaio que divaga sobre um trabalho arqueológico deveras paciencioso no Museu Náutico do Forte de Santo Antônio da Barra até uma cósmica e curiosa narrativa sobre um chocolate artesanal, produzido sem pressa como a boa literatura. Outros textos lentamente saborosos se somam a esses, como aquele que aborda o trabalho do fotógrafo Christian Cravo, um dedicado ao cineasta Bernard Attal, outro à Stella Caymmi - neta de Dorival -, e um ensaio baianamente sonoro sobre Tamima, percursionista e luthier de pandeiros, confeccionados com muita paciência e amor, tal qual a escrita de Katherine, que trata tudo com muita atenção, concentrando-se em detalhes, mirando em minúcias, o que só enriquece seu texto. Sem pressa se vai longe! 
Eis aí três livros que honram o trabalho da editora. Penso que só é possível ser uma editora apaixonante se a mesma estiver permanentemente apaixonada pelos seus próprios livros. É o caso da Micronotas. 

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR,  no dia 14 de setembro de 2019.

sábado, 24 de agosto de 2019

Carlos de Assumpção, poeta vivo



Cena do filme que Alberto Pucheu prepara sobre Carlos de Assumpção

Tenho em minhas mãos um exemplar de “Protesto e outros poemas”, de Carlos de Assumpção, poeta que descobri recentemente graças ao professor, amigo e também poeta Alberto Pucheu, que me enviou o livro no mesmo período em que produz um filme sobre o autor. Carlos de Assumpção é um desses bardos raros e difíceis de serem encontrados nas livrarias. Seus poemas são urgentes e necessários em tempos tão obscuros. Aprecio seus versos não apenas por essa urgência, imantada por uma intenção claramente política, mas também pela beleza que essa poesia na amplidão de nosso tempo move ao montar tantas peças de um quebra-cabeça histórico e social que revela o quanto existe ainda de escravidão na vida de um povo.
Encontrei alguns vídeos no youtube em que Carlos de Assumpção aparece declamando poemas como “Protesto”, de uma beleza pujante que vem talvez de uma estranha aliança entre uma suposta simplicidade do verso e uma imponência poética, uma grandeza que se encontra não apenas nas palavras do escritor, mas também no seu jeito de dizer, no seu modo estar diante dos versos, da vida e da câmera. Destaco também a leitura do poema “Batuque”, lindamente musical quando declamado pelo autor, tudo fruto de um batuque trazido um dia lá doutro lado do mar.


                                                               Foto de: Wilker Maia

O poeta, feito um griô, cultua o sangue sagrado dos ancestrais, ao mesmo tempo em que protesta com suas “palavras de fogo” em busca de um mundo menos injusto, menos arrogante, menos preconceituoso, mais alegre, mais sábio, mais musical, mais justo. O grito de “Protesto” é o grito do negro que não se cala e que não aceita mais viver “no porão da sociedade”: “Mesmo que voltem as costas / às minhas palavras de fogo / não pararei de gritar / não pararei / não pararei de gritar // Senhores / eu fui enviado ao mundo / para protestar / mentiras ouropéis nada / nada me fará calar / (...) Senhores / o sangue dos meus avós / que corre em minhas veias / são gritos de rebeldia”.  Convido o leitor a ver e ouvir poema e poeta no registro para constatar o que digo.



Em muitos dos textos que integram o livro, Carlos de Assumpção revisita temas e cenas cotidianas nas quais reconhecemos situações sociais de desigualdade e injustiça. Em “Destituição”, por exemplo, o poeta relembra o quanto o branco usurpou o negro ao longo da história: “Cadê o samba / que era meu / o branco tomou e deturpou / cadê o branco / tá por aí / ganhando dinheiro / com o samba que roubou”. No mesmo poema, a dimensão religiosa também é evocada: “Cadê Iemanjá que eu trouxe da África / Cadê Iemanjá que era negra como eu sou / Tá dependurada na parede / onde o branco a dependurou / pintada de branco como o branco a pintou”. Em “Eclipse”, encontramos um dos poemas mais profundos do livro. É quando o poeta negro se olha no espelho e não se vê: “Olho no espelho / e não me vejo / não sou eu quem está lá // senhores / onde estão os meus tambores / onde estão meus orixás?”. Para o poeta, ser negro não é apenas uma questão cor: “Ser negro não é ser preto / ser preto não é ser negro / cor de pele não é tudo / negro é quem se sente negro”. E nesse processo de identidade, Zumbi é um dos heróis evocados em vários poemas: “Eu sou descendente de Zumbi / Zumbi é meu pai e meu guia / me envia mensagens do Orum / meus dentes brilham na noite escura / afiados como o agadá de Ogum”. Em outro poema: “Zum Zum Zum / Guerreiro da Serra / Sob as estrelas acesas / na madrugada / nó do ebó na encruzilhada”. Em meio a dores e tristes constatações, brotam versos esperançosos e profundamente poéticos como esses: “Nós somos Dons Quixotes não importa / de sonhadores o mundo tem precisão / a vida será céu quando todos os homens / trouxerem as estrelas aqui pro chão”. Em suas raízes o poeta reencontra o axé que jorra onde a vida faz sentido. Em “Lei Áurea”, o poeta desconstrói o mito para contar a “história que a história não conta”, lembrando aqui dos versos do épico samba enredo da Mangueira, em 2019. No poema o mito dá lugar à realidade: “Viva a princesa Isabel / viva a senhora redentora / agradecimento profundo / à bondosa princesa que em maio / nos deu de bandeja a Lei Áurea / Lei Áurea verdadeiro cheque sem fundo”.  

                                        Foto: http://unegroriodejaneiro.blogspot.com.br/

Alberto Pucheu escreveu sobre o contato que teve com Carlos de Assumpção, enquanto realizava um filme sobre ele: “Ter ficado 3 dias com o poeta Carlos de Assumpção, entrevistando-o em sua cidade, em sua casa, ter ficado 3 dias inteiros com ele, é um antídoto para o que hoje vivemos no país. Poderia dizer que seu Carlos é um outro país, um país à parte, que deveria ser um país de fato majoritário, o nosso país. Um poeta negro, de 92 anos, com uma capacidade de gerar amor em torno dele imensa. Tudo nele é generosidade, carinho, afeto, inteligência, alegria, intensidade e muita vitalidade”. Aguardemos o filme. Aguardemos felizes por ele.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 24 de agosto de 2019

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Claudia Andujar e a Luta Yanomami



Está aberta até novembro deste ano, no Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro, a exposição “Claudia Andujar: A luta Yanomami”, que apresenta uma retrospectiva do trabalho desta fotógrafa e ativista que nasceu na Suíça, se naturalizou brasileira e, a partir dos anos setenta, começou a se interessar pelo povo Yanomami, retratando seus costumes e, ao mesmo tempo, lutando por suas causas. A exposição já passou por São Paulo e rendeu um belo livro-catálogo, organizado por Thyago Nogueira e editado em 2018 pelo IMS, que reúne reproduções de imagens que compõe o acervo disponível na mostra, bem como uma série de textos que apresentam e comentam a vida e obra dessa artista de oitenta e oito anos que teve um papel fundamental no registro dos Yanomami.


Folhear as páginas da magnífica publicação é uma forma de passear pela exposição, conhecendo além das imagens que compõe sua obra poético/fotográfica, uma luta política que já rendeu a elaboração não só da Comissão Pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), mas também a idealização de programas de saúde que contribuíram para a sobrevivência de muitos índios. Tudo isso gerou uma sólida amizade entre a artista e os povos tradicionais amazônicos.

Andujar e índia

A convivência com a floresta ao longo dos anos transformou a vida de Andujar, uma judia que perdeu boa parte da família em campos de concentração e que depois de fugir com a mãe, chegando aos Estados Unidos e depois ao Brasil, continuou lutando pela sobrevivência, agora dos índios e sua cultura: “Esse pequeno mundo na imensidão do mato amazônico era meu lugar e sempre será. Estou ligada ao índio, à terra, à luta primária. Tudo isso me comove profundamente. Tudo parece essencial. E talvez nem entenda tudo, e não pretendo entender. Nem preciso, basta amar. Talvez sempre procurei a resposta à razão da vida nessa essencialidade. E fui levada para lá, na mata amazônica, por isso. Foi instintivo. À procura de me encontrar”, escreveu a fotógrafa em um depoimento publicado em 1975, no jornal Ex-. Esse encontro com o mundo indígena é um encontro consigo mesma, via fotografia: “Fotografar é processo de descobrir o outro, e através do outro, si mesmo”. Essa imersão na vida Yanomami produz uma ligação na qual a realidade do outro deixa de ser uma outra realidade, passando a ser uma espécie de prolongamento de seu próprio mundo e vice-versa. É por isso que ela não sente saudades quando volta para casa, porque a casa de todos é uma só, o mundo é a casa que temos (Lembre-se: os índios quando lutam pela floresta estão lutando pela nossa sobrevivência também). Em suas anotações de 1974, pode-se ler: “Não me sinto mais uma estranha. Este mundo ajuda a me compreender e a aceitar o outro mundo em que me criei. Os dois mundos estão se juntando, num grande abraço. É, para mim, um mundo só! Não sinto saudades!”. Viajar parece ser a melhor forma de se voltar para casa.


O trabalho de Andujar, apesar de ter sido divulgado principalmente por meios jornalísticos, revistas de reportagens nos anos 70, suplanta a linguagem jornalística, aproximando-se de uma dimensão poética, já que ela está mais preocupada em narrar uma experiência do que em contar uma história ou representar a realidade. Lembremos com Susan Sontag que a fotografia apresenta uma interpretação da realidade tanto quanto uma pintura. Uma das marcas disso em sua obra ameríndia pode ser percebida não apenas no seu olhar poético que pervive nas cenas que registrou, mas também nos aspectos técnicos que envolvem uma superação de linguagens tradicionais ou a inserção de técnicas inusitadas, como nos apontou Thyago Nogueira, em um dos textos que integram o livro: “Fotografar na mata fechada também é difícil, e a pouca luz que atravessa as copas a obrigava a usar filmes de alta sensibilidade e velocidades de 1/8s e 1/15s, com abertura de f.3.5 no diafragma, que borrava os movimentos rápidos. Nas imagens feitas à época, Andujar espalhou vaselina nas bordas da lente da câmera, criando um desfoque radical que confere encantamento onírico às imagens, como no banho de jovens num riacho”. O uso por vezes de infravermelho ou de desfoques propositais criam efeitos oníricos também nos registros de rituais xamânicos, o que mostra que o trabalho da fotógrafa é bastante subjetivo e propõe uma outra relação com o real, em seu trabalho simultaneamente artístico, etnográfico e jornalístico.




O encontro com o outro ao qual a fotografia de Andujar nos convida é potencializado por essa propensão poética, o que sugere que a arte suscita uma dimensão política mais profunda se nela prestarmos mais atenção. E o encontro com o outro – índio - que somos nós mesmos, índios que somos (em termos empáticos, genéticos e culturais), via poesia/fotografia/cinema é capaz não só de promover o prazer estético, mas principalmente de ampliar nossa empatia pelo próximo, alargando nossa percepção e oferecendo ao nosso olhar um perspectivismo fundante. A saber, nunca mais olhar de forma neutra as atrocidades que vimos presenciando todos os dias, a destruição de nossos povos tradicionais, o genocídio de tantos em prol de uma política neoliberal devastadora. Vejamos as fotos de Claudia Andujar e nos aprofundemos em sua luta, para olharmos os Yanomami com outros olhos. Prestemos atenção em Davi Kopenawa e suas palavras de salvação contra a Queda do Céu. Ouçamos Ailton Krenak e suas ideias para adiar o fim do mundo. Leiamos Kaká Werá Jecupé, sua voz de trovão e vento, a pensar num novo tempo. Ao invés de imaginarmos uma nova democracia, que possamos ir mais longe, imaginando um novo mundo. Para finalizar, lembremos que enquanto era inaugurada a exposição de Andujar em São Paulo, o deputado Jair Bolsonaro era eleito presidente do Brasil e ameaçava rever a demarcação de terras indígenas. A profecia vai se cumprindo. Tem muita coisa absurda acontecendo sob os nossos olhos. Basta ter olhos de ver.




Este texto é dedicado à memória do líder indígena Emyra Waiãpi, assassinado há alguns dias em meio a uma invasão de garimpeiros, no interior do Amapá. É dedicado também a muitos outros, que vão desaparecendo sem chamar a atenção, virando cacos da história embora estrelas no céu.


Publicado no jornal Caiçara, em 03 de Agosto de 2019

terça-feira, 30 de julho de 2019

Salve o índio que nos salva!




Acaba de sair o dossiê sobre Textualidades Indígenas, da revista Chuy, de Buenos Aires, na qual publico o ensaio "Poéticas Ameríndias: Perspectivismo e Transcriação Canibal", pensando o trabalho de Josely Vianna Baptista, entre outros. O link abaixo:

domingo, 28 de julho de 2019

Sobre livros, poesia e paternidade




Poderia falar de greve, mas hoje falarei de algo menos grave. Há algum tempo, venho adiando a leitura e escrita de textos (ou pelo menos diminuindo consideravelmente o ritmo). Os motivos são variados, no entanto, não estando disposto a importunar o leitor com lengalengas, prefiro nem elencá-los. Cito apenas dois deles. O primeiro diz respeito aos compromissos do magistério, profissão que abraço todos os dias com um misto de amor e temor. Os leitores bem sabem o quanto exige a docência de um professor disposto a ensinar a seus alunos e aprender com eles também. Mas, pensando bem, essa questão não vale como desculpa. Há sempre um tempo entre uma aula e outra, entre reuniões pedagógicas, orientações, correções de trabalhos e elaboração de planos de ensino. Que essa tarefa não seja nunca motivo para adiarmos a escrita. Pelo contrário, que seja um convite a permanente construção de ideias, mola propulsora de todo exercício de pensamento e ação. Há anos, leciono literatura e para mim pensar e escrever sobre ela será sempre um prazer, apesar de que toda escrita traz em seu bojo um fantasma com o qual é difícil conviver. 
O segundo motivo de tal adiamento vale como justifica, pois é o mais belo de todos os outros que poderiam nos roubar o tempo e as condições necessárias à escrita de um texto ou a consecução de toda e qualquer atividade. Falo da paternidade. O texto que não paro e não me canso de ler e escrever há três anos se chama Catarina. Ela chegou para alegrar a nossa vida. Tem um sorriso encantador, menos de um metro, e uma energia capaz de movimentar uma usina hidroelétrica (Perdoem-me a hipérbole, coisa de pai exagerado). Para somar-se à Catarina, multiplicando-nos em afeto, acaba de chegar a Aurora, que tem, ao lado de sua irmã, nos dado alegrias imensas. Aurora, de olhar terno e doce, veio para nos amanhecer lá em casa, que agora anda de novo com cheirinho de bebê.
Minhas filhas têm sido os únicos motivos a dificultar consideravelmente as condições da prática de leitura e escrita, o que me deixa muito feliz porque se ler é bom, ser pai é muito melhor. Qualquer outro motivo - que não elas - a me impedir ou dificultar o exercício do pensamento, deixaria em mim um sentimento de falta que não conseguiria mensurar. E, no entanto, ter lido ou escrito nos últimos três anos muito menos do que costumava fazer até então tem me deixado imensamente feliz. É que Catarina e Aurora são para mim pura literatura.
Nos olhos de minhas filhas encontro a força de William Shakespeare, a doçura e o amor dos versos de Vinícius de Moraes, o mar de Homero ou Camões, o céu de Saint-Exupéry, a terra de fadas ou do nunca, o fogo que a literatura tenta traduzir em palavras, os mistérios de uma civilização perdida escondida em um livro esquecido em alguma biblioteca. Escrevo isso para dizer o quanto de poesia existe naquilo que amamos, para além de palavras e textos. O leitor me questionará e eu responderei com um piparote. Sim, um poema é feito de palavras, mas a alma que nele se guarda ou voa se chama poesia. E o prazer gratuito que nela encontramos pode se traduzir na alegria de um abraço, no calor de um beijo, no trabalho de um povo, nas cores de um quadro, no sorriso de uma criança, nas cenas de um filme, nas notas de uma música, no sal de uma emoção, no último capítulo de uma novela, na alegria da amizade, entre outras coisas boas que a vida nos dá ou que damos a ela enquanto ainda estamos aqui. Que essa poesia nos convide sempre à leitura e escrita de novos poemas. Que possamos ler e escrever a nossa própria vida. Isso dá um belo livro. Sem falar na maternidade, cujo dispêndio de forças e tempo supera em muito todo e qualquer exercício de paternidade. É sim o amor mais belo. Daria muito mais do que um livro. Daria todos. Daria tudo. Amor de mãe é uma imensa biblioteca.  


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 27 de julho de 2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

João Gilberto, um roteiro que nunca será filmado porque o filme já existe





Dedicado ao professor e amigo Antonio Carlos dos Santos, o Caco,
que um dia, no Campeche, tocou Estate de forma primorosa


(Em 2008, quando comecei a prestar mais atenção em João Gilberto, entre audições de música e a leitura de “Balanço da Bossa e Outras Bossas”, de Augusto de Campos, escrevi o texto abaixo, que releio agora depois de tantos anos, ao saber da partida do mestre da Bossa Nova. Caetano Veloso, na bela canção “Pra Ninguém”, citou muitos intérpretes da MPB, como Gilberto Gil, Nana Caymmi, Tim Maia, Gal Costa, Cauby Peixoto, Dalva de Oliveira, Carmem Miranda, Djavan, Paulinho da Viola, etc, para finalizar dizendo: “Melhor do que isso só mesmo o silêncio, melhor do que o silêncio só João”)

Talvez fosse possível escrever um roteiro poético sobre uma cena de cinema. Lembro-me de algumas cenas que são antológicas, como a dança ingênua de Fred Astaire e Cyd Charisse, em “A Roda da Fortuna”, ou mesmo o nascimento de Macunaíma, protagonizado pelo grande Grande Otelo, na belíssima adaptação (ou melhor transcriação) de Joaquim Pedro de Andrade. Outras são menos conhecidas, mas não menos interessantes: o momento em que um anjo ganha cor, quando resolve se tornar um humano por causa de uma paixão pela bailarina do circo, em “Asas do Desejo”, de Wim Wenders. A serenata que Vadinho faz para Dona Flor, cantando Noite Cheia de Estrelas, de Vicente Celestino: “Noite Alta, céu risonho...”.


Há uma linda e comovente interpretação de João Gilberto, cantando “Estate”, na Itália. Geralmente um roteiro deve ser escrito antes da filmagem. Neste caso, tomei a liberdade de inventar um depois de assistir ao filme “Bahia de Todos os Sambas”, de Leon Hirzman e Paulo César Saraceni, gravado em Roma, em 1983. O filme registra um dos maiores shows de MPB que já aconteceu na Europa. Eu, com apenas dois anos na época, nem sonhava com aquilo: “O que é que a Bahia tem?”. E o show não era apenas musical. A Bahia baixou em Roma – com seus atabaques e pais de santo, suas rezas, acarajés, danças e candomblés. Um encontro para gringo nenhum botar defeito. O encontro foi organizado por Gianni Amico, um italiano que juntou figuras como Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Gal Costa, Moraes Moreira, Naná Vasconcelos e o grande João. O roteiro poético que segue não tem pretensão alguma de aproximar-se do formato oficial – até porque nunca será filmado, como o roteiro esquecido de Mário Peixoto, “Outono – jardim petrificado”. Por isso poético. Instruções: Para ser lido ao som de “Estate”.

CENA 1 (Plano de conjunto)

Noite. Um palco, pouca luz, um banquinho, um violão e João Gilberto. O suficiente. Terno azul-cinza, paletó aberto. João olha para o violão. Atrás dele, uma orquestra. Começa: “Estate sei calda come i baci che ho perduto / sei piena di un amore che è passato / che il cuore mio vorrebbe cancellare”.

CENA 2 (Corte para Plano médio)

João balança a cabeça. Toda a história da Bossa Nova se resume nesse breve movimento de João, como que hesitando entre uma voz e um olhar, ou mesmo expressando a letra por meio do gesto. João frisa a testa, talvez para alcançar a precisão. Não, seria a perfeição: “Estate il sole che ogni giorno ci scaldava / che splendidi tramonti dipingeva / adesso brucia solo con furore”.

João olha para o céu. Não, olha para cima. Não, olha para cima, mas para coisa nenhuma. Um lugar, sim. Só ele pode saber. Torna a olhar para o violão. Quase fecha os olhos. J.Joyce, em Ulysses, diria: “Fecha os olhos e vê”: “Tornerà un altro inverno / cadranno mille petali di rose / la neve coprirà tutte le cose / e forse un po' di pace tornerà”

Os pitagóricos acreditavam (e acreditam) que o segredo do universo estaria explicado na matemática. A precisão dos números revelaria a ordem de todas as coisas. A música, por incrível que pareça, está mais próxima da matemática do que se pode supor. Se a música pode ser registrada numa partitura é porque sua matemática de tempos e de tons a permite. João volta a olhar para o céu. É, agora é para o céu. Talvez sua partitura esteja registrada na ordem das estrelas: “Estate che hai dato il tuo profumo ad ogni fiore / l'estate che ha creato il nostro amore / per farmi poi morire di dolore”

CENA 3 (Zoom-in no rosto de João. Plano de detalhe)


A cena é comovente. Agora, o que se vê é uma sequência de alguns minutos no rosto de João. Sua testa sua. Seu olhar é suave e contínuo, feito fio de água antes de explodir em rio. O pai da Bossa Nova olha para o violão como quem a ninar o primeiro filho. Como quem olha apaixonado a amada ainda sem saber se tem também o seu amor. Como quem abraça um triste amigo, feliz por sabê-lo um dos seus. Levemente, sorri. E esse sorriso é para o violão, como a agradecê-lo por não estar sozinho. Todo o mistério de João se revela nessa sequência. E toda a potência de seu comedimento também. João repete a letra. No entanto, sabe que toda repetição traz em seu bojo a força de uma diferença. João nunca repete. Bossa-cancione sempre outra a mesma.

CENA 4 (Zoom-out do rosto de João. Volta para Plano médio)


A música termina. O menino levemente sorri. As luzes se apagam...

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 13 de julho de 2019

sábado, 29 de junho de 2019

Sobre Kafka, Hitchcock, Orson Welles e a recente política brasileira: um olhar sobre o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa




Próximo do nascimento de minha segunda filha, assisti ao documentário “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa, que acaba de ser disponibilizado na plataforma Netflix. Ao longo da narrativa, fui sendo tomado por uma triste emoção que me levou a perguntar: Que Brasil será o país de minhas filhas? Que país será o Brasil dos filhos de todos os outros brasileiros? Esse sentimento de apreensão não brotou só agora com o filme. Ele já vem se delineando há alguns anos, no entanto, “Democracia em Vertigem” me fez lembrar com vigor dos acontecimentos políticos que têm transformado o Brasil em palco de um drama que, como nas antigas tragédias gregas, apresentava a transição de um estado de felicidade à infelicidade nos caminhos de um herói cujo destino era sofrer. Lembrando do filme “Um corpo que cai”, de Alfred Hitchcock, cujo título original é “Vertigo”, constato que nossa democracia está atravessando um momento de grande desequilíbrio. Se a vertigem nos dá uma falsa sensação de movimento de rotação, isso significa que enquanto alguns pensam que estamos caminhando para frente, talvez estejamos apenas nos desequilibrando numa trágica e inevitável lei do eterno retorno. Talvez estejamos caminhando para trás.



Sou um admirador do cinema de Petra Costa desde que vi o belo documentário “Elena”, que reflete poética e autobiograficamente sobre o suicídio de sua irmã. Percebi ali uma sensibilidade cinematográfica que faz jus ao trabalho de documentaristas como Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. A influência é visível. Petra articula com propriedade a linguagem artística de suas narrativas com questões íntimas, usando em seus filmes inclusive imagens de arquivo pessoal. No caso do novo filme, podemos vislumbrar um olhar pessoal sobre a decadência de nossa jovem democracia que cresceu junto com a diretora. Nesse sentido, a história é especial também para mim, porque minhas mais remotas lembranças estão ligadas às manifestações em prol da democracia no início dos anos 80, bem como a morte de Tancredo Neves e o processo de redemocratização, a que eu assistia pela TV entre desenhos infantis. Envelhecemos agora tão jovens.     


“Democracia em Vertigem” começa com a prisão de Lula, mesclando cenas de protestos a favor e contra a condenação, bem como tomadas do interior do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, onde podem ser vistos os bastidores da prisão. Logo depois, a voz de Petra Costa começa a narrar de forma melancólica, tendo como fundo visual uma panorâmica do interior do Palácio do Alvorada, em Brasília. A diretora fala sobre a dura construção de uma estabilidade política que parece ter durado pouco. A narradora teme que a nossa democracia tenha sido um sonho efêmero. Imagens de sua infância vão sendo intercaladas com registros do movimento das Diretas Já. É aí que entra Lula e sua importância histórica no processo de redemocratização. Comenta-se, in media res, a criação do Partido dos Trabalhadores, sua ascensão, bem como uma série de derrotas presidenciais até a eleição de Lula, em 2002, com posse em 2003. A diretora apresenta as contradições de seu governo, que foram desde o mensalão até a subida do Brasil no ranking das maiores economias mundiais, em tempos de crise internacional, evocando com nostalgia a saída de milhões de brasileiros da zona de pobreza. Petra celebra as conquistas, mas não perde o senso crítico ao apontar falhas do governo, inclusive aquelas ligadas a uma perigosa aliança com o PMDB, que seria peça-chave para a derrocada do governo alguns anos depois. Na sequência, assistimos à eleição de Dilma e ao início de uma grande crise nacional no final de seu primeiro mandato, em 2013, tensão que foi sendo agravada por uma série de motivos até o processo que motivou seu impeachment.


A tônica do documentário está nos acontecimentos que precipitaram a saída de Dilma, como as manifestações que tomaram as ruas do país, muitas vezes influenciadas pela grande mídia, que foi profundamente parcial, passando pelo advento da Lava Jato, que ganhou infelizmente um ar partidarista ao longo de seu processo, até a ópera simultaneamente bufa e grotesca da votação no Congresso para a aprovação da instauração do impeachment. Dali, sairiam nossos próximos líderes, com seus votos sensacionalistas, seus discursos altamente questionáveis e sua esquizofrenia em relação a uma suposta invasão comunista em nosso país, dignas de um roteiro de Orson Welles, em “A Guerra dos Mundos”, inspirado em H.G. Wells. Tudo isso tendo como pano de fundo uma movimentação clandestina movida pelo PMDB disposto a comprar o silêncio de Cunha para manter Michel Temer no poder, o que veio à tona por meio da escuta telefônica de uma conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado. Petra Costa apresenta também o parecer de juristas internacionais apontando problemas no julgamento de Lula, que não teria sido imparcial, o que os adventos das últimas semanas envolvendo o atual Ministro Sérgio Moro têm consignado.



Há uma complexidade que está por trás de todos os acontecimentos políticos que desencadearam não só o impeachment de Dilma, a prisão de Lula e a emergência de uma ultradireita em nosso país, cujo espaço aqui é insuficiente para ser esmiuçada. O documentário de Petra Costa, em suas quase duas horas de duração, consegue resumir com nitidez os fatos. O momento mais trágico talvez seja aquele em que Dilma confessa ser o próprio Josef K, personagem do romance “O Processo”, de Franz Kafka.

  

Em certo momento do filme, a narradora observa que na construção de Brasília o povo foi esquecido, e a cidade acabou se solidificando em cima da corrupção. Petra observa que é a história de um país rachado que estamos herdando. A história da família da própria diretora está repleta de contradições já que, ao lado dos ideais de direita de seus avós, filhos de uma elite mineira tradicional, estão os ideias de seus pais, que sonharam com uma democracia nos anos 60 e 70, tornando-se militantes contra a ditadura que chegaram a viver na clandestinidade. As próximas cenas desse filme estão ainda para ser escritas. Que nossos filhos não cresçam se sentindo envergonhados por nós. Que a vertigem seja passageira.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 29 de junho de 2019.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Coisas da Argentina



Dentre as literaturas latino-americanas, aprecio consideravelmente a da Argentina, em especial aquela produzida pelos contemporâneos. Para além de Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar - autores que dispensam comentários -, gosto muito de Alan Pauls e Cesar Aira (já escrevi sobre eles neste Caiçara). São escritores muito diferentes, no entanto bastante comprometidos com uma linguagem sofisticada e enredos bem elaborados, bem como fieis a um projeto literário muito criativo e singular. Gosto também de Martin Kohan, mas não tanto. Seus temas são bons, porém suas narrativas e o trato com a linguagem (pelo menos dos livros que li) em geral ficam devendo. Gosto é gosto, não se discute. Encantam-me as obras de Leónidas Lamborghini, de seu irmão Osvaldo Lamborghini e de Rodolfo Fogwill, autores ainda pouco conhecidos no Brasil. Aprecio o neobarroco Néstor Perlongher, que chegou a morar no nosso país durante alguns anos. Tenho lido com muito interesse os livros de Daniel Link, escritor que tive o prazer de conhecer e reencontrar em alguns eventos literários no Brasil e na Argentina. Recentemente, descobri a poesia de Ricardo Daniel Piña, poeta que tive também o prazer de conhecer de uma maneira bem inusitada. Vou contar.
Certa vez, passeando pela Calle Corrientes, no centro de Buenos Aires, parei para observar jornais em um dos tradicionais “kioscos”, aquelas bancas de revista que estão situadas no meio das calçadas em qualquer grande cidade. Em muitos “kioscos” de Buenos Aires, podem ser encontrados exemplares das famosas cartoneras, livros confeccionados de forma artesanal e com baixo custo por uma editora chamada Eloísa Cartonera. Os livros possuem capa de papelão e este é comprado de uma cooperativa de catadores (cartoneros), daí o nome da publicação. Curiosamente, a aparente simplicidade da cartonera contrasta com a qualidade dos autores editados por ela. A Eloísa seleciona muito bem os livros que edita, geralmente escritos por grandes nomes da literatura argentina (alguns brasileiros já foram editados por ela). Há um outro elemento curioso na confecção das cartoneras: a reprodutibilidade mecânica dos textos (geralmente fotocopiados), de forma bastante comum, contrasta com o caráter irreprodutível das capas, pintadas uma a uma de forma artesanal e diferentes umas das outras, o que lhe dá um caráter verdadeiramente artístico. Cada exemplar é único e irrepetível. O fenômeno das cartoneras nasceu com a Eloísa num período de grave crise econômica da Argentina, e se espalhou por toda a América Latina. No Brasil, já existem muitas dessas editoras: a Dulcinéia Catadora, em São Paulo, a Katarina Cartonera, em Florianópolis, a Severina Catadora, em Pernambuco, só para citar algumas. Em 2013, aqui em União da Vitória, tive o prazer de criar, com acadêmicos do curso de Letras da UNESPAR, a Therezinha Cartonera, cujo nome é inspirado na querida amiga e poeta local, Therezinha Thiel Moreira. De lá para cá, pudemos lançar algumas edições inéditas sempre promovendo a obra de autores locais. Os livros eram distribuídos gratuitamente na cidade, em uma tentativa de promoção do ato de ler. Quem sabe no futuro possam nascer outras edições. Mas voltemos ao “kiosco” e a Ricardo Daniel Piña.



Depois de escolher algumas cartoneras (cada uma custando um valor quase irrisório) em um “kiosco” da Calle Corrientes - esquina com a Paraná -, dirigi-me ao dono da banca para pagar. Qual a minha surpresa ao descobrir que o proprietário do “kiosco” era poeta e, ainda mais, um dos autores editados pela Eloísa Cartonera. Um dos livros artesanais que eu escolhera, “La Bicicleta”, tinha sido escrito justamente por ele. Demos boas risadas e Piña ainda autografou o livro para mim. Ele me falou de sua amizade com poetas brasileiros, alguns dos quais sou fiel leitor. Perguntou-me de Douglas Diegues, Joselly Vianna Baptista e Haroldo de Campos. Saí da banca imaginando qual seria a chance de encontrar no caixa de uma livraria ou de uma banca de jornais e revistas o autor do livro comprado. Coisas da Argentina. Se o leitor passar pela esquina da Corrientes com Paraná, em Buenos Aires, leve a Ricardo o meu abraço.




Ricardo Daniel Piña

Outro fato que me chamou a atenção em Buenos Aires foi a quantidade de livrarias na cidade, bem como o interesse que os livreiros têm de falar sobre os livros que vendem com um conhecimento particular de quem lê. Aí concluí que não se pode vender um livro como se vende um sapato ou um guarda-chuva. É preciso amar minimamente aquilo que se vende. O que se ama se vende melhor, o que se ama se dá para além do vender. Vislumbrei com alegria muitas pessoas na rua com livros na mão e fiquei surpreso ao ouvir, no congresso de literatura, vários jovens pesquisadores falarem com entusiasmo e propriedade sobre a obra de Clarice Lispector. Aí fiquei preocupado pensando se Clarice não estaria hoje sendo mais lida por jovens argentinos do que brasileiros. Tomara que não. Tudo bem que uma escritura como a de Clarice seja pós-nacionalista, para muito além da pátria - Clarice é cósmica -, mas seria um desperdício perder para “los hermanos” neste campo tão poético quanto o futebol.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 08 de junho de 2019

sábado, 18 de maio de 2019

51 motivos para se investir na Educação




Investir na Educação é uma forma de criar caminhos para se resolver problemas. Investir na Educação é uma forma de imaginar mundos possíveis, outras formas de vida, mais felizes e eficazes. Investir na Educação é uma forma de conceber outros modos de comunidade. Investir na Educação é uma forma de recuperar o tempo perdido. Investir na Educação é uma forma criar alternativas para os problemas ambientais. Investir na Educação é uma forma de combater preconceitos. Investir na Educação é uma forma de criar beleza. Investir na Educação é uma forma de criar condições para se responder perguntas. Investir na Educação é uma forma de criar condições para se fazer outras perguntas (são elas que movem o mundo). Investir na Educação é uma forma de combater a violência. Investir na Educação é uma forma de se criar condições para viajar. Investir na Educação é uma forma de não ser um idiota útil. Investir na Educação é uma forma de não ser massa de manobra. Investir na Educação é uma forma de melhorar a economia. Investir na Educação é uma forma de fazer valer os direitos humanos. Investir na Educação é uma forma de povoar o mundo com esperança. Investir na Educação é uma forma de investir em outros olhares. Investir na Educação é uma forma de voar fora da asa. Investir na Educação é uma forma de criar um horizonte de possibilidades. Investir na Educação é uma forma orientar de forma responsável, apartidária embora politicamente, mentalidades. Investir na Educação é uma forma de combater a pobreza física, moral e social. Investir na Educação é uma forma de criar condições para se ler mais e melhor. Investir na Educação é uma forma de fazer amigos.  Investir na Educação é uma forma de combater a corrupção. Investir na Educação é uma forma de ser patriota. Investir na Educação é uma forma de conter gastos futuros. Investir na Educação é uma forma de organizar o caos. Investir na Educação é uma forma de criar condições para um país ser mais do que é. Investir na Educação é uma forma barata de ganhar uma guerra, ou de pelo menos combatê-la com mais armas (mas não as que matam ou machucam). Investir na Educação é uma forma de se plantar o futuro. Investir na Educação é uma forma de combater a intolerância. Investir na Educação é uma forma de perpetuar melhor a espécie. Investir na Educação é uma forma de fazer melhores planos. Investir na Educação é uma forma de resolver imbróglios. Investir na Educação é uma forma de legar cultura. Investir na Educação é uma forma de desenvolver a empatia. Investir na Educação é uma forma de disseminar a literatura. Investir na Educação é um modo de favorecer a realização de sonhos. Investir na Educação é uma forma de prevenir incêndios. Investir na Educação é uma forma de educar os investimentos. Investir na Educação é uma forma de contribuir para a formação dos seres. Investir na Educação é uma forma promover justiça. Investir na Educação é uma forma de promover a resistência em tempos de adversidade. Investir na Educação é uma forma de trazer conforto. Investir na Educação é um jeito de ajeitar as coisas. Investir na Educação é uma forma de combater a pobreza de experiência. Investir na Educação é uma forma de deixar nome. Investir na Educação é uma forma de desenvolver a ciência. Investir na Educação é uma forma de não repetir Auschwitz. Investir na Educação é um modo de mudar o mundo... para melhor.  

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 18 de maio de 2019