sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

“Rua Professor Cleto, 381”, de Rafael Ginane Bezerra, reencontrando o tempo perdido




O passado é uma casa de sempre morar. A infância é lar que infatigavelmente nos habita. A memória é abrigo de muitas janelas. Algumas de frente para o mar, outras para o rio. Todas abertas para o que há de mais íntimo em nós. Nossa vida é casa de três infâncias, aprendi com Manoel de Barros. É por isso que eu habito nela e ela mora perene em mim. A infância é também um jeito de ver. Um jeito de tocar as coisas de novo pela primeira vez. E por isso, para a nossa alegria, é estância da poesia. Pois a poesia é um caminho de nos levar sempre e inevitavelmente de volta para o nosso próprio lar.
A casa do escritor Rafael Ginane Bezerra fica na rua Professor Cleto, 381. Ela é porta de entrada não apenas para o seu passado, mas também para a sua literatura, no âmago do presente e futuro, de uma escrita por vir: “Posso contar sobre a nossa casa amarela, que eu adorava. E ao mesmo tempo estranhava. Mas desfavorável pela disposição das peças. Quando escurecia, a sala grudada à cozinha virava o nosso ponto de convergência. Ali, a mãe preparava o jantar, o pai chegava do trabalho e a gente se sentava à mesa com a televisão ligada. A televisão estava sempre ligada. Por isso, éramos sempre cinco: o pai, a mãe, o irmão, eu e a televisão ligada”. A nossa vida, o livro ensina, é aquilo que acontece entre um jornal e outro, entre uma novela e um filme, entre uma partida de futebol e o Fantástico. E a memória é fantástica porque tem sempre uma boa dose de invenção. Nesse sentido, a literatura permite nos forjarmos como aquilo que somos sem a vergonha de nos lançarmos no jogo da vida como personagens de nós mesmos.


Rafael nasceu em Porto União, morou em União da Vitória e vive em Curitiba desde 1989, onde trabalha como professor na Universidade Federal do Paraná. Em 2019, lançou o livro “Rua Professor Cleto, 381”, pela editora Medusa. A obra apresenta um olhar sobre a infância e a adolescência de um narrador que, assim como o autor, cresceu nas cidades gêmeas do Iguaçu. O ditado popular diz que quem bebeu a água do Iguaçu está fadado a sempre voltar. Voltar para Porto União da Vitória é uma forma do autor voltar para dentro de si mesmo, reencontrando no passado um conjunto de experiências que ajudaram a fazer dele o que ele de fato é. Naturalmente, há nesse retorno o jogo da ficção, no qual o limite entre o vivido e o imaginado se rarefaz para dar lugar àquilo que poderíamos arriscar chamar de autoficção. A própria epígrafe do livro, colhida em Enrique Vila-Matas, aponta para esse caminho: “O meu pai, que outrora acreditou em tantas coisas para terminar desconfiando de todas elas, me deixou uma única e definitiva fé: acreditar em uma ficção, saber que nada existe e que a fabulosa verdade consiste em ser consciente de que se trata de uma ficção. E, sabendo disso, acreditar nela”. Portanto, é inútil circunscrever os limites entre o vivido e o imaginado, entre o real e a ficção, no entanto, as referências à realidade que podem ser encontradas no livro de Rafael me fazem lembrar da minha própria infância e adolescência, vividas nas margens do Iguaçu entre os anos 80 e 90. Nos seus relatos podemos reencontrar o jardim de infância situado atrás da igreja luterana, a “escadaria íngreme com centenas de degraus acompanhados pelas estação da via sacra”, na subida do topo do Morro do Cristo. Os passeios de bicicleta. A grande enchente de 83, que o autor retrata como uma espécie de dilúvio. A casa de dona Ondina, que ficava no pé do Morro da Cruz, o borracheiro Zito e seu amor pelas mulheres sensuais que, exibidas em folhinhas de calendário, estavam destinadas a serem trocadas todos os meses. A banquinha de revistas do Valdemar. O lendário show do Camisa de Vênus em um clube local. O Calçadão. A cabeleireira dona Gerda. O salão do França. A trágica história de Risadinha. Aliás, o conto “Assunção”, no qual é evocada a célebre e bem humorada personagem das ruas de Porto União da Vitória, é um dos mais comoventes do livro, ao retratar a transformação do narrador. O conto “Mullets” também investe no relato de um rito de passagem ao apresentar o momento em que o menino decide ir sozinho até o salão para cortar o cabelo. Destaco também a beleza de relatos como o de “Acabou Chorare”, “O Jogo” e “Despedida”. A leitura de contos como “O Virtuoso” evocou em mim o romance “História do Pranto”, de Alan Pauls, na forma como a infância é tratada.




“Rua Professor Cleto, 381” é obra de alguém que foi embora, mas que está fadado a sempre voltar, até porque assim como a cidade em que moramos nos habita, a nossa história vive para sempre e com força em cada um de nós. Rafael reencontra o tempo perdido por meio de um livro-carta. Quando está indo embora da cidade, para estudar na capital, sua mãe e seu pai pedem, “com os olhos encharcados de passado”, que ele escrevesse quando fosse possível. É o que ele faz no livro quase trinta anos depois.

                         Ilustração do livro História do Pranto, de Alan Pauls

O reencontro com o tempo perdido, no livro de Rafael, é o reencontro com dias felizes: “Houve uma época em que os dias eram felizes por serem predominantemente iguais e na conformidade o tempo passava lento”. Alguém já deve ter escrito em algum lugar que a vida talvez seja aquilo que acontece quando parece não estar acontecendo nada. Mesmo tomando a água do Iguaçu é impossível entrar de novo nesse rio, posto que suas águas são sempre outras, mas em sonho o rio está sempre lá e nos convida a entrar para um mergulho. Se a memória é uma ilha de edição, como sugeriu certa vez um poeta baiano, isso significa que é impossível processá-la fora do viés da ficção. Por outro lado a ficção parece ser não só uma forma de preservá-la em nós, mas também de fazer lembrar o que fomos e o que ainda somos. A literatura de Rafael Ginane Bezerra é esse rio de memória. Encontro ali um pouco do meu próprio rosto refletido em suas águas.


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, na edição de 22 de fevereiro de 2020.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

“Merda!” para dar boa sorte: Sobre Fernanda Montenegro e o espetáculo da vida





As cortinas se abriram! Lentilha, promessas, pedidos, roupas brancas, ondinhas, uvas, champanha e tudo (re)começa sempre igual, mas diferente. O que desejo para todos nós em 2020? “Merda!”. No teatro, é muito comum – antes da estreia de uma peça – que os atores, desejando boa sorte uns para os outros, pronunciem a expressão “Merda!”. Vem do francês “merde”. É um costume antigo. Conta-se que, em Paris, quando um espetáculo artístico lotava, o tráfego intenso de muitas carruagens era responsável por uma grande quantidade de excremento animal em frente aos teatros. Portanto, quanto mais veículos e cavalos, maior o sucesso de uma peça. As fezes eram praticamente o sinônimo da prosperidade. Que isso não falte em 2020. Que não esqueçamos o texto, que as bilheterias se esgotem, que possamos brincar, emocionando-nos em cada cena, em cada ato. Que vivamos enfim o show de cada uma de nossas vidas. Que saibamos encenar acima de tudo. Isso é fundamental.
Falando em teatro, informo que comecei o ano lendo a autobiografia de Fernanda Montenegro, a grande dama da nossa dramaturgia. O livro foi escrito com a colaboração da jornalista Marta Góes. As memórias intituladas “Prólogo, ato, epílogo” saíram pela Companhia das Letras, em setembro de 2019. Nelas, os leitores poderão encontrar uma mulher forte e vocacionada, mas principalmente o retrato de uma vida bela e bem vivida. Entre julho de 2016 e novembro de 2017, Marta Góes realizou dezoito entrevistas com a atriz que deram origem ao livro.



O título das memórias é perfeito porque aproxima a vida de Fernanda a uma peça de teatro. Acredito que toda vida intensamente vivida em meio à arte é algo que se funde a ela. A linha divisória entre vida e arte é rompida apenas por grandes artistas. A obra de arte se transforma em um ato de vida, assim como a vida passa a ser a própria obra de arte. Onde uma começa e a outra termina é mistério que não se explica. Aliás, toda vida bem vivida, penso, é uma obra de arte. Cada um dos leitores, se procurar entre aqueles que os rodeiam, encontrará alguns que, mesmo não sendo artistas, vivem a sua vida como uma obra de arte. Talvez todos sejamos um pouco artistas. O título do livro é perfeito também porque, além de amalgamar vida e teatro, relaciona com eficácia a estrutura dramatúrgica de uma peça às fases de uma vida. Prólogo, ato, epílogo. Começo, meio e fim.




Prólogo: As luzes se acendem. Da saga dos antepassados, oriundos da Sardenha, na Itália, à vida difícil de imigrantes em um país desconhecido. Do outro lado da família, a origem portuguesa e suas tradições, moldando um temperamento forte na pequena Fernanda, nascida Arlette Pinheiro da Silva. Criada pelos avós no subúrbio do Rio de Janeiro, Arlette assiste pela Rádio Nacional e pela Rádio MEC às grandes transformações do Brasil e do mundo no século XX, como a Revolução de 30 e a Segunda Grande Guerra. Aliás, na Rádio MEC a jovem inicia a sua carreira artística como locutora. Dali para os palcos não demorou muito. Ela foi professora de inglês também.
Ato: Fim dos anos 40, início dos anos 50. A Arlette vira Fernanda. Casa-se com o ator Fernando Torres e mergulha no teatro. Em um dos momentos mais intensos de suas memórias a atriz, ao recordar o momento em que percebeu que tinha futuro no teatro, escreve: “Os anos vividos foram de coragem e medo. Entreguei meu corpo, daquele momento em diante, a toda e qualquer estética ou jogo cênico que o personagem exigisse de mim. Vejo, hoje, que troquei de pele pela vida afora durante setenta anos. Nunca tive realmente e definitivamente o meu próprio rosto, o meu cabelo, e nem a minha postura. No fundo me pergunto, como faz Cecília Meireles, no seu poema ‘Retrato’: ‘em que espelho ficou perdida a minha face?’”. A passagem é de uma beleza confessional absoluta. Penso que o verdadeiro rosto do ator nunca está atrás da máscara, mas disseminado em todas elas. E é nessa mistura que ele encontra sua essência. No Ato, Fernanda vive com grandeza sua arte, trabalhando em uma grande quantidade de peças, novelas e filmes. Das “Alegres canções na montanha”, de Julien Luchaire, em 1950, até o filme “Vida Invisível”, de Karim Ainouz, de 2019. Como não lembrar de sua participação em obras televisivas e cinematográficas como “Incidente em Antares”, “O auto da Compadecida”, “O Tempo e o Vento”, “Central do Brasil”, “O Amor nos Tempos de Cólera”, “O outro lado da rua”, entre tantas outras. O Ato do livro se encerra com a comovente partida de seu companheiro Fernando Torres. Mas o Ato da vida continua. Fernanda Montenegro está viva e atuante em seus 92 anos.






Na carta que Fernanda enviou a José Aparecido de Oliveira, nos anos 80, recusando o convite para assumir o recém-criado Ministério da Cultura, no governo Sarney, há um trecho em que diz: “Pobre do país cujo governo despreza, hostiliza e fere seus artistas”. No texto, apesar de declinar do convite, ela comemorava o fato de um artista ter sido escolhido, vendo neste fato um amadurecimento político de nosso país: “Não é fácil dizer não. Não vejo que seja mais fácil decidir pelo teatro. O Teatro nunca foi fácil ou seguro. Mas é esse o meu lugar. (…) Pode parecer um frase bombástica e teatral, mas não devemos temer nem o Teatro, nem as palavras: não estou preparada para partir”. A carta completa está no livro. É uma pena que a atriz, uma lenda vida e luz perpétua da dramaturgia nacional, tenha sido recentemente tão desrespeitada por Roberto Alvim, quando ele dirigia a Funarte, devido ao fato de Fernanda ter criticado o presidente Bolsonaro.



Epílogo: As memórias de Fernanda se encerram com uma comovente declaração de amor à vida e ao teatro. Quem ler o livro verá. A atriz inscreve em seu gesto a procura de uma descoberta constante, porque “quando temos muitas certezas sobre o nosso modo de agir, em cena ou na vida, corremos o risco de ficarmos circunscritos a uma técnica que nos imobiliza naquele processo domado, dominado, que nos congela. É a ponte com o imprevisto, o improvável, o absurdo que, muitas vezes, nos leva a renascer. No palco, atingir o impensável é fundamental. Essa é a batalha”. E festejando o dia de seus anos, junto com Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escreve a artista, de forma trágica e por isso bela, consciente do fim da peça de sua vida, em seus quase 100 anos de idade: “Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inenarrável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas, acordo e canto”. Fernanda vive e permanecerá vivendo, pois sua centelha está plantada em cada talentoso artista brasileiro. Celebro essa presença!

domingo, 22 de dezembro de 2019

Ciúme da Morte, de Ladislau Romanowski: apontamentos de leitura



Texto de Caio Ricardo Bona Moreira (UNESPAR) apresentado no I Encontro Internacional de Estudos Poloneses, na Universidade Federal do Paraná, em 02 de dezembro de 2019



Resumo:
O presente trabalho propõe uma leitura do romance “Ciúme da Morte”, do escritor Ladislau Romanowski, nascido no interior do Paraná (Mallet) e filho de imigrantes poloneses. Publicado em 1943, no mesmo ano em que veio a lume “O Ser e o Nada”, de Jean Paul Sartre, o livro de Romanowski foi contemplado em 1945 com o Prêmio Raul Pompeia, da Academia Brasileira de Letras. Segundo o parecer da Comissão Julgadora, a tessitura de “Ciúme da Morte” lembra os romances de Dostoiévski, e sua técnica seria semelhante a dos livros de Aldous Huxley. A partir de uma perspectiva comparatista, intentamos desenvolver uma análise que estabeleça possíveis relações entre o romance de Ladislau Romanowski e a obra desses autores. Ao inserir o escritor paranaense em uma rede que vai de Dostoiévski a Huxley, entre outros que exploraram o universo da loucura e da angústia em suas narrativas, como Graciliano Ramos ou mesmo Érico Veríssimo - que traduziu Huxley e a quem Romanowski dedicou “Ciúme da morte” -, teremos a possibilidade de retirá-lo da província, promovendo, assim, uma contra-leitura à crítica que Dalton Trevisan dirigiu ao autor na revista modernista Joaquim, nos anos 40.
Palavras-chave: Ladislau Romanowski – Literatura Paranaense – Romance Psicológico. 

“- Eu não matei! Juro que sou inocente!” (ROMANOWSKI, 1977, p. 17). Com essa frase, proferida em desespero pelo médico Armando, internado como louco e assassino em um manicômio, inicia-se o romance Ciúme da Morte, de Ladislau Romanowski, publicado pela Coeditora Brasílica, em 1943. O livro alterna duas narrativas, a de Dr. Armando, e a de seu amigo José de Vasconcelos, o Juca, com quem o protagonista trabalhara em um jornal chamado Gazeta. Depois de visitar o possível criminoso e de receber dele um manuscrito no qual o médico narrava a própria vida - da infância até o fatídico dia em que acabou no hospício -, Juca inicia uma viagem de Porto Alegre a Águas da Guarda, onde se hospeda em um hotel de águas termais. Durante a viagem e hospedagem, o segundo narrador, Juca, intercala a leitura do manuscrito de Dr. Armando com a descrição de suas experiências amorosas, bem como com a narração de uma jornada mental de reflexões sobre a vida e sobre o amigo. Estamos diante de dois narradores com personalidades diferentes, mas que igualmente tencionam os limites entre a razão e a loucura. Mais de uma vez, Juca se questiona em seu texto se o louco na verdade não seria ele próprio. Dr. Armando, por sua vez, integra uma linhagem de personagens loucos que na literatura brasileira vai de Simão Bacamarte, de Machado de Assis, até os mais contemporâneos, passando, por exemplo, por Fileto, de No Hospício, de Rocha Pombo, e Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
Um dos aspectos mais curiosos do livro parece ser a apresentação de um enredo construído sobre o discurso de um homem cuja sanidade é posta em questão. Se Dr. Armando é louco, que garantia de verdade ou razão há em sua narrativa, como justificativa para os atos cometidos? O livro é narrado sempre em primeira pessoa. Até que ponto podemos acreditar nela? Como em Shakespeare, razão e loucura parecem se amalgamar produzindo a tragédia que é o próprio livro. Seria a opção pela loucura uma forma do autor abordar verdades insuportáveis pelo senso comum, ou melhor, pulsões psicanaliticamente profundas? Seria a condição de loucura uma possibilidade para o narrador conquistar o que deseja por cima de toda e qualquer moral? Aprendemos com Foucault sobre as relações entre a loucura e o poder, bem como seus desdobramentos sociais. Muitas perguntas poderiam se somar a estas, mas como nosso tempo é curto contento-me em ensaiar um olhar sobre a obra, confrontando-a com outras, e analisando mesmo que superficialmente suas potencialidades estéticas, promovendo, assim, um resgate do romance deste ilustre paranaense, nascido no município de Mallet, no interior do Estado e infelizmente um tanto quanto esquecido.



Toda a narrativa do livro pode ser lida como o fruto de fantasias patológicas ou como o relato de uma vida movida pela paixão que levou Armando à perdição. O que vem antes, o crime ou a loucura? Vejamos um pouco mais a sinopse. Ao saber da doença terminal de sua noiva, o médico, tomado de furores irracionais, comete dois crimes. No primeiro, realiza uma experiência que acaba levando um doente à morte, na tentativa de testar um tratamento para a noiva. No outro, possui sexualmente a amada com tamanha violência que acaba matando-a. À medida que Dr. Armando descreve sua vida, aproximando-se do assassinato da amada, a narrativa vai ganhando ares surreais – como um intenso diálogo com a morte materializada como uma personagem – e ares trágicos que fazem lembrar por vezes uma peça teatral de Nelson Rodrigues. Aliás, Vestido de Noiva, do dramaturgo carioca, foi encenada pela primeira vez justamente em 1943.
No dia 24 de outubro daquele ano, o jornal paulista Correio da Manhã anunciava em uma resenha anônima a publicação de Ciúme da Morte, observando que há um drama gigantesco nas páginas deste livro, em que um sujeito incompreendido e possivelmente louco narra no hospício “o drama cruciante de sua existência atormentada e o desfecho doloroso de um grande amor”. Segundo a resenha, estamos diante de uma narrativa produzida por um homem genial “a quem os homens talvez por falta de compreensão encerraram entre quatro paredes de um manicômio” (Correio da Manhã, 1943, p. 37).


Ainda em 1943, foram publicados O Ser e o Nada, de Jean Paul Sartre, O jogo das contas de vidro, de Herman Hesse, e O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry. O livro de Romanowski, que no período de lançamento ganhou o elogio de Afrânio Peixoto, é hoje um romance pouco conhecido entre as obras da literatura brasileira que vieram à lume na chamada segunda geração modernista, aquela que, segundo os manuais literários, vigorou com força entre 1930 e 1945. Pouco comparável a qualquer um dos livros que integraram o chamado Regionalismo de 30, Ciúme da Morte parece se ligar a uma linhagem romanesca menos reconhecida da literatura brasileira dos anos 30 e 40 que é a linhagem intimista, uma espécie de corpo estranho na produção cultural do período.
Acostumados a pensar nos romances de 30 apenas pelo viés social e regionalista, boa parte dos leitores acaba por desconsiderar uma série de obras que, explorando um viés psicológico, prefiguram temporalmente e esteticamente a literatura, por exemplo, de Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Com isso não quero sugerir uma suposta parecença entre as obras de uns e outros, mas apenas sinalizar para o fato de que Rosa e Lispector não são os primeiros a romper no romance com uma longa tradição especificamente social, regional ou naturalista, que sempre fez tradição na literatura brasileira. Luis Bueno, aliás, já aprofundou essa discussão no ensaio “Guimarães, Clarice e antes”:

(...) os anos 30 são a época do romance social, de cunho neonaturalista, preocupado em representar, quase sem intermediação, aspectos da sociedade brasileira na forma de narrativas que beiram a reportagem ou o estudo sociológico. É claro que, nesse tempo, houve também uma outra tendência na qual pouco se fala, uma “segunda via” do romance brasileiro, para usar a significativa expressão de Luciana Stegagno Picchio, o chamado romance intimista ou psicológico, mas tão secundário que não teve forças para estabelecer-se como via possível no desenvolvimento do romance no Brasil (2001, 251).

Numa linhagem intimista e psicológica, alternativa ao sistema naturalista na nossa literatura, Bueno inclui, por exemplo, romances como Sob o olhar malicioso dos trópicos, de Barreto Filho, A mulher que fugiu de Sodoma, de José Geraldo Vieira, entre outros livros de escritores como Lúcia Miguel Pereira, Mário Peixoto, Cyro dos Anjos, Octávio de Faria, Lúcio Cardoso, Cornélio Pena e porque não dizer Dyonélio Machado, em Os Ratos, e Graciliano Ramos, em Angústia. Aliás, boa parte da obra do autor de Vidas Secas - bem como alguns outros romances de 30 -, poderiam escapar facilmente da nomenclatura “regionalista” que consolidou o cânone na segunda geração modernista. Difícil categorizar certas obras como meramente regionalistas ou intimistas. Romanowski poderia muito bem figurar entre esses autores cuja obra pode ser colocada como alternativa ao modelo predominantemente social e regional. Interessante perceber a influência de Dostoiévski em muitos desses autores do romance regionalista e ou intimista, o que demonstra a força de sua obra na produção literária brasileira do século XX.

Altino Flores e Ladislau Romanowski

Alfredo Bosi chamou a atenção para o fato de que ao lado da ficção regionalista, do ensaísmo social e do aprofundamento da lírica moderna, o romance introspectivo, vinha se afirmando lentamente entre os anos 30 e 50, “raro em nossas letras desde Machado de Assis e Raul Pompeia” (1994, p. 386). Certamente, um dos fatores que propiciaram a intensa produção do romance psicológico está ligado ao advento Revolução de 30: “caíram as máscaras mundanas que empetecavam as histórias medíocres do pequeno realismo belle époque (...)” (1994, p. 389). Segundo Bosi, o renovado convite à introspecção far-se-ia com “o esteio da Psicanálise afetada muitas vezes pelas angústias religiosas dos novos criadores” (1994, p. 389).
Ciúme da Morte exercita um aprofundamento psicológico que se direciona para o crescimento gradativo de uma tensão que gera no leitor um mal-estar que pode ser encontrado com facilidade no autor de Irmãos Karamazov. Aliás, em dois momentos específicos o autor russo é evocado nas páginas de Romanowski. No primeiro momento, Dostoievski aparece entre um conjunto de autores lidos com voracidade pelo Dr. Armando no tempo em que frequentou a Faculdade. Entre Nietzsche, Schopenhauer, Voltaire, Edgar Alan Poe, Freud e Hoffmann aparece o autor de Crime e Castigo. Em um segundo momento, quando depois da personagem realizar uma experiência em um doente levando-o à morte, surge o sentimento de culpa pelo suposto crime a assolar sua consciência:

A maleta que eu levava na mão pesava-me, como se dentro dela estivesse levando o peso de meu crime. Sim, eu levava nela o cadáver do homem que acabara de matar, em consequência de minha ambição! Precisava ver-me livre dela... Mas jogá-la fora seria deixar sinal por onde passei miserável, covarde, fraco... Isso não era prudente. Tive a impressão de que se havia encarnado em mim o Raskolnikolf, a personagem impressionante do “Crime e Castigo”, de Dostoievski (1977, p. 328).

Essa é apenas uma das possíveis aproximações entre as personagens de um romance e outro. As paisagens de noturna tensão psicológica em Ciúme da Morte caminham para um nonsense que me faz recordar por exemplo certas cenas de Cisne Negro, dirigido por Darren Aronofsky, bem como de alguns filmes de Lars Von Trier, ou dos filmes brasileiros Nina, de Heitor Dhalia e Durval Discos, de Anna Muylaert. 
Vale lembrar que em 1943 José Lins do Rego publica Fogo Morto, e Jorge Amado Terras do Sem Fim. Em uma outra linhagem vemos encenada pela primeira vez o já citado Vestido de Noiva, uma peça com nítidas intenções psicológicas. Também em 1943 vemos publicado o romance Dias Perdidos, de Lúcio Cardoso, cujo protagonista rememora com profunda angústia uma vida carregada de secretas culpas. Sete anos antes de Ciúme da Morte, Graciliano Ramos edita o romance Angústia, que faz do monólogo interior uma experiência narrativa intensamente voltada para os dramas psicológicos. Aliás, este romance de Graciliano e Ciúme da Morte, por si só, já renderiam uma leitura bastante pertinente. Ambos, diga-se de passagem, leitores de Dostoiévski.
Dalton Trevisan, no segundo número da revista modernista Joaquim, publicou o artigo “Emiliano, poeta medíocre”, um dos mais fervorosos ataques ao Paranismo, tendo como alvo principal o poeta simbolista. Depois de considerar este movimento como uma escola sem importância para a poesia paranaense e brasileira, bem como de rebaixar a obra de Perneta, o artigo alude a Ladislau Romanowski com o intuito não apenas de criticá-lo, mas também de situar a literatura paranaense anterior à produção da revista em um contexto provinciano. Cito a passagem:

Me entendam bem os chauvinistas. Porque em arte, não há prata de casa, é-se
Dostoiewski ou L. Romanowski, é-se Rimbaud ou … e pobre de quem lê “Ciúme da Morte”, em vez de Dostoiewski, por causa que um é comunista russo e, o outro, nasceu em Mal. Mallet… E, pois, hélas! Não se perca tempo, vamos aos valores supremos, a essas experiências decisivas de Rilke, Aragon, Drummond de Andrade (1946, p. 17).

Naturalmente, Trevisan intentava inserir-se em uma concepção literária mais cosmopolita, e como sua proposta literária demarcava um projeto nitidamente modernista, vanguardista, o escritor negava uma certa tradição, fundada principalmente pelo simbolismo, mas também aquela produção literária que estava de fora do paideuma joaquiniano. Romanowski integrava um conjunto de escritores que não estava à altura do que buscavam os jovens escritores modernistas do Paraná. Trevisan percebia uma certa presença de Dostoiévski na literatura de Romanowski, em especial em Ciúme da Morte, mas por outro lado apontava a distância entre elas. Ler Ciúme da Morte e não Dostoiévski  - por Romanowski ter nascido em Mallet - para o editor de Joaquim era lamentável. Curiosamente, é por meio de uma contra-leitura a Dalton Trevisan que situamos o horizonte do presente trabalho.
Descobrir, redescobrir, aprofundar, resgatar a produção de Romanowski são gestos que, por uma quase ironia dos acasos ou do destino, brotam justamente no Simpósio de um encontro internacional destinado a pensar a cultura polonesa – com ênfase no Estado do Paraná – e acredito que os motivos que movem nosso interesse pelo autor de origem eslava não está de todo desvinculado de seu espaço social de nascimento, no interior do Paraná, bem como sua ancestralidade polonesa. Mas não se trata, penso eu, apenas em lê-lo a partir dessa ligação identitária com o espaço de origem ou com o aspecto cultural que se materializa a partir de uma ligação genética. Trata-se também de partir dessa possibilidade de aproximação quase conterrânea com o autor apenas para de certa forma tirá-lo da província, situando sua literatura fora do espaço reservado ao regional, ao local – como se o autor fosse uma espécie de patrício – para ensaiar uma dimensão crítica capaz justamente de resgatar seus objetos artísticos. Ciúme da Morte, por sinal, não aponta para nenhuma ligação palpável com a cultura polonesa e ou paranaense, ao contrário de outros livros seus.  
Ler a obra de Romanowski a partir de uma perspectiva comparada, trazendo para o debate sua relação por exemplo com Dostoiévski e Aldous Huxley não para colocá-lo ao lado de clássicos internacionais numa intenção de acender uma vela ao paranaense, exaltando-o, mas para cotejá-lo com outras experiências na expectativa de lê-lo mais e melhor, reitero fora da província. Aliás, o livro, ao ser premiado pela Academia Brasileira de Letras, nos convida à sua leitura independente de ser escrito por um paranaense.      






Imagens raras de Ladislau Romanowski

Na sessão de 28 junho de 1945, a ABL outorgou ao livro Ciúme da Morte o prêmio Raul Pompéia de melhor romance. O volume 69 dos Anais da Academia traz o parecer da Comissão. Segundo os relatores A. Austregésilo, Múncio Leão e J. C. de Macedo Soares, a técnica usada pelo romance de Romanowski é a mesma dos livros de Aldous Huxley e a tessitura lembra os romances de Dostoiévski, “cuja pena muito impressionou o escritor”: “A não ser alguns descuidos de linguagem, alguns exageros descritivos, e certos transbordamentos de subjetivos postos nas meditações do Dr. Armando, poderíamos dizer que o livro é bom e merece a outorga por parte da Academia do Prêmio Raul Pompeia” (1945, p. 17).   
Os imortais da Academia observaram alguns elementos que revelavam boas qualidades do autor, a saber, as descrições paisagísticas, as considerações filosóficas e mórbidas do Dr. Armando, a análise do caráter de Lorena, bem como as posturas intriguistas de Dona Finoca. Nota-se, portanto, que um dos elementos que mais chamaram a atenção dos avaliadores foi a construção das personagens, bem como seus aprofundamentos psicológicos, o que de certa forma lhe chegara via Dostoiévski.  
  Se por um lado as aproximações a Dostoiévski são óbvias, as relações com Aldous Huxley são mais sutis, no entanto, não menos importantes. Lembremos que o parecer da Academia aponta para a influência da técnica de Huxley no livro de Romanowski. Vale observar que Ciúme da Morte é dedicado também para Érico Veríssimo que havia traduzido para o português o romance Contraponto, de Huxley, de 1932. É justamente esse livro no qual o autor norte-americano adaptou a técnica do contraponto musical para a literatura, o que nos leva a inferir que o parecer da Academia tinha em vista principalmente essa obra quando comparou Huxley e Romanowski. Sabemos que o contraponto nada mais é que a sobreposição de duas ou mais vozes melódicas em uma composição musical. Estamos aqui diante da polifonia, um dos conceitos chaves da obra de Bakhtin ao abordar a obra de Dostoiévski. Até que ponto a polifonia na obra dos quatro autores, Dostoiévski, Romanowski, Érico Veríssimo e Aldous Huxley, poderia ser pensada de forma comparativa. Eis uma proposta interessante que ultrapassada nosso espaço e tempo neste momento.
Em Contraponto, também chamado de romance-sinfonia, Huxley intercala várias narrativas, com diversos personagens, analisando suas relações conjugais bem como a vida intelectual no período entre guerras. As histórias de várias personagens vão se cruzando, gerando uma impressão polifônica. Romanowski ao intercalar as duas narrativas de Ciúme da Morte, acaba que fazendo o mesmo. Observemos também que cada um dos narradores modula uma linha melódica particular. Armando é esquizofrênico, impulsivo, louco, Juca é racional, meditativo, ponderado, no entanto, ambos são movidos por paixões.
Essa experiência do contraponto teria chegado a Romanowski possivelmente via Érico Veríssimo. Segundo Gérson Werlang, ao travar contato com Contraponto, de Huxley, “Erico ficou profundamente entusiasmado com a possibilidade de dar uma estruturação musical a uma obra sua”. O que o levou a escrever Caminhos Cruzados, provavelmente lido por Romanowski. Como o escritor paranaense morou em Porto Alegre é possível que os autores tenham travado contato na capital gaúcha, rendendo uma possível amizade. São perspectivas que se traduzem em possibilidades para futuras leituras, passíveis de promoverem ao mesmo tempo o resgate da obra de Romanowski, e a sua retirada do lugar provinciano que Dalton Trevisan o colocou, ensaiando, assim, uma contra-leitura modernista capaz de ampliar nosso olhar sobre ele.

Referências:

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 40 ed. São Paulo: Cultrix, 2002.
BUENO, Luis. Guimarães, Clarice e antes. In: Teresa (Revista de Literatura Brasileira n. 2). Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas: Universidade de São Paulo. São Paulo: Ed. 34, 2001.
CORREIO DA MANHÃ. Livros novos: resenha sobre Ciúme da Morte. In: Jornal Correio da Manhã. 24 de outubro de 1943. São Paulo. (p. 37)
ROMANOWSKI, Ladislau. Ciúme da Morte. 2 ed. Curitiba: Parga Editora e Dist. De Livros Ltda, 1977.
TREVISAN, Dalton. Emiliano, poeta medíocre. In: Revista Joaquim (número 2). Curitiba, 1946. (p.17).
WERLANG, Gérson. A música em Caminhos Cruzados e O Prisioneiro. In: Revista Literatura e Autoritarismo (n.7). Universidade Federal de Santa Maria. Disponível em: <  http://w3.ufsm.br/literaturaeautoritarismo/revista/num07/art_02.php> Acesso em 01 de dezembro de 2019.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

2019 foi um ano fantástico





2019 foi um ano fantástico, como num romance de realismo mágico em que tudo pode acontecer



2019 foi um ano fantástico. Daqueles dignos de um romance em que tudo pode acontecer. O realismo mágico – também chamado de fantástico – popularizou-se na América Latina principalmente nos anos 60 e 70 do século XX, período obscuro de nossa história, e acabou se transformando em um movimento literário de grande força que abarcou escritores como Alejo Carpentier, Gabriel Garcia Márquez, Júlio Cortázar, entre tantos outros. No Brasil, autores como Murilo Rubião e José J. Veiga dialogaram fortemente com essa corrente. Não chegando a formar uma escola, o realismo fantástico teve conotações políticas em sua intenção de dar verossimilhança ao fantástico e ao irreal, denunciando muitas vezes ditaduras e sendo uma afirmação artística diante da arte europeia.

No realismo fantástico mortos ressuscitam, como em “Incidente em Antares”, de Érico Veríssimo, ou chove durante quatro anos em Macondo, como podemos ler em “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Márquez. Um grupo de invasores e seus ruminantes montam acampamento em uma cidade - que poderia ser nosso país - como vemos na obra de J.J.Veiga. Em um conto de Murilo Rubião os invasores são dragões. É o que temos visto na vida real. E aí já não sabemos dizer mais se encontramos a vida real no fantástico da literatura ou se estamos mesmo vivendo o impossível. Os jornais e telejornais assemelham-se a novelas intermináveis cujos mocinhos e bandidos mudam de lugar a todo momento. As teorias literárias da narrativa chamam essas personagens de complexas ou redondas. Geralmente, são as mais interessantes na literatura. Na vida real - pelo menos aquela que vivemos fora do texto - talvez não seja bem assim. Ingênuos ou pelo menos crentes em algum tipo de redenção, buscamos as páginas finais do livro ou os últimos capítulos da novela para ver se conseguiremos, depois de tanta encrenca, ser felizes para sempre. Os telespectadores – entre os quais me incluo - assistem à novela procurando descobrir, antes do “The End”, se o espetáculo bufo faz parte da trama ou é só uma estratégia para desviar a atenção do público; se vale a pena dar ibope a essa novela ou se não seria melhor pedir que a emissora termine a trama um pouco antes para que uma outra possa começar. O problema disso tudo é que o fantástico está na vida real. Tudo seria engraçado ou divertido – promovendo a catarse – não fosse o trágico da vida fatalmente agora. Mas assim como nem tudo são flores, nem tudo é assim escuridão, evocando aqui as palavras de Hilda Hilst.

2019 foi um ano de boas leituras. Emocionei-me lendo as “Ilhas” e “Cristal”, de Wilson Bueno, a “Trilogia do Adeus”, “Catálogo de Perdas” e “Elegia do Irmão”, de João Anzanello Carrascoza, bem como “Juan Darién”, de Horácio Quiroga. Protestei com Georges Didi-Huberman lendo “Levantes” e “Remontagens do Tempo Perdido”. Lutei ao lado de Carlos de Assumpção, lendo “Protesto e outros poemas”. Lamentei o destino das mulheres africanas em “As alegrias da Maternidade”, de Buchi Emecheta.  Vivi meu devir índio lendo “Traduções Canibais”, de Álvaro Faleiros, “Curare”, de Ricardo Corona, “Totem”, de André Vallias, e “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, de Ailton Krenak. Saravei o Brasil de Luiz Rufino e Luiz Antonio Simas, lendo “Flecha no Tempo”. Matei a saudade de Raúl Antelo lendo “Ruinologia”, “Paraná”, e “Por que o Nu masculino com bastão de Eliseu Visconti é uma tela moderna”. Surpreendi-me com a escrita experimental de Gramiro de Mattos ao ler “Conspiração de Búzios”. Matei a saudade de Vinícius de Moraes com “100 Vinícius 100”, de Alex Solnik. Reencontrei João Cabral de Melo Neto nas páginas de “O Homem sem Alma”, de José Castello. Adentrei “A casa do Rio Vermelho”, de Zélia Gattai, para visitar Jorge Amado. Em “Uma arquiduquesa imperial entre nós”, de Franklin Cunha, lamentei o destino de Maria Antonia, a princesa austríaca que morreu pobre e esquecida no Sul do Brasil. Surpreendi-me com a literatura de Katherine Funke, Eduardo Silveira e Maria Cecília T. Koerich, lendo seus livros editados pela Micronotas. Descobri a rica obra do paranaense Ladislau Romanowski apreciando “Ciúme da Morte”. Lamentei o destino do Brasil do presente lendo “Essa Gente”, de Chico Buarque. Celebrei mais uma vez a poesia de Nicolas Behr em seu livro de poemas eróticos “Meio Seio”. Para não perder o costume, li o “Prins”, de César Aira. Apreciei os pequenos filmes literários do Gonçalo Tavares, em “Short Movies”. Celebrei a obra de Alejandra Pizarnik devorando “A Condessa Sangrenta”. Apreciei com muita curiosidade as revistas “Documents”, reunidas em livro pela editora Cultura e Barbárie, em seus textos de Georges Bataille e Carl Einstein. Comemorei a vida e obra de Paulo Leminski, lendo o “Roteiro” escrito por Rodrigo Garcia Lopes, editado pela Biblioteca Pública do Paraná.
Está aí uma mostra do meu 2019. São livros fantásticos. E o fantástico do texto tem sido bem mais interessante do que o realismo mágico a que temos assistido nos telejornais, diga-se de passagem. Mas não percamos a ternura, muito menos a capacidade de enxergar. Que 2020 nos traga bons livros! Notícias melhores! Para que tudo seja mais feliz e menos fantástico.

  

sábado, 23 de novembro de 2019

O que os índios têm a dizer?


Apontamentos sobre “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, de Ailton Krenak





Muitos brancos adoram teorizar sobre os índios. Sobre suas necessidades e sobre aquilo de que, aos olhos ocidentais, não necessitam. A terra, por exemplo. Muitos brancos adoram dizer que os índios já têm o suficiente e que devem aprender a viver na cidade, que essa história de “tribo” é coisa de um passado incivilizado e selvagem. Que essa história de demarcação já deu o que tinha que dar. O assunto é mais bem complexo do que parece. Por que não nos permitirmos ouvir dos índios o que eles têm a nos dizer? Comecemos a prestar atenção em suas palavras lendo a obra de um deles.
Há alguns meses, a Companhia das Letras publicou o livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (2019), de Ailton Krenak, que reúne três textos desse reconhecido ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas. Desde os anos 70, Krenak tem se dedicado com afinco em um trabalho educativo e ambientalista, tendo se destacado na criação da União das Nações Indígenas (UNI), bem como tendo um papel determinante para a conquista do “Capítulo dos Índios”, na Constituição de 1988.
O texto que dá nome ao livro é uma conferência proferida no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, no dia 12 de março de 2019. Como a palestra é recente, Krenak consegue abordar questões bastante pertinentes – pela sua própria atualidade - que estão movimentando a política nacional em relação aos direitos indígenas.
O fato da palestra ser em Portugal é bastante sintomático, tendo em vista que as lutas indígenas remontam aos primeiros contatos entre brasileiros e portugueses no século XVI e de certa forma repercutem até hoje nos modos de vida das comunidades originárias.
Conceitos como os de Estados nacionais, humanidade, existência e liberdade são trazidos à tona por meio do pensamento do autor. O texto aponta para a triste realidade de uma humanidade que vai sendo “descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a terra”. Distantes do mito do monstro corporativo que ruma em direção ao “progresso” de uma comunidade entusiasmada com shoppings, prédios gigantescos, veículos espaciais, entre outros, alguns núcleos ainda se agarram nessa terra: são caiçaras, índios, quilombolas, aborígenes, a dita “sub-humanidade”. Para Krenak, a ideia de nós, humanos, “nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos”.
Educados desde sempre para sermos clientes, somos adulados pela sociedade até o ponto de nos tornarmos imbecis, lembra Krenak. Para que estarmos no mundo de uma maneira crítica e consciente se podemos ser consumidores? Para ele, essa ideia dispensa a experiência de viver numa terra “cheia de sentido, numa plataforma para diferentes cosmovisões”.
O pensador aprofunda a questão observando que nosso tempo é especialista em criar ausências. Ausências do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida: “Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover”. O tipo de humanidade à qual estamos sendo convocados, segundo o autor, não tolera tanto prazer e fruição de vida. Não tolera inclusive a poesia, poderíamos acrescentar. Pregam com recorrência o fim do mundo, nos convidando ao fracasso alarmante de um amanhã sem esperança e alegria. Sem sonhos. Daí a provocação que inspira o tema: “adiar o fim do mundo é exatamente poder contar sempre mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim”. Como não lembrar aqui das “Mil e uma Noites”, em que Sherazade adia sua morte contando sempre uma nova história para o Sultão. Aliás, ouvir as histórias dos índios é uma forma interessantíssima de conhecê-los. Como gostar do que não se conhece? Aos conhecê-los melhor, talvez nós, os brancos, aprendamos a amá-los na fímbria da amizade, transformando o limite que nos separa no limitar de um contato amoroso. Ao conhecê-los talvez possamos nos dar a imaginar outras possibilidades de vida em sociedade.
Em um dos momentos mais marcantes da conferência, Krenak relembra que há centenas de narrativas de povos que estão vivos, que contam histórias, cantam, viajam e nos ensinam mais do que aprendemos nessa humanidade. Vem daí um de seus ensinamentos mais bonitos e importantes: “Nós não somos as únicas pessoas interessantes no mundo, somos parte do todo. Isso talvez tire um pouco da vaidade dessa humanidade que nós pensamos ser, além de diminuir a falta de reverência que temos o tempo todo com as outras companhias que fazem essa viagem cósmica com a gente”.
Essa realidade nos convida a promover uma reserva ecológica desse bem que nos salva. Falo das palavras sábias que vêm do chão mais profundo da terra, respeito pelo semelhante, pelo meio ambiente, por outras formas de ver e pensar a vida. Naturalmente, isso tudo deve estar fora da lógica do mercado, dos interesses pelo minério, do extrativismo sem responsabilidade, tudo aquilo que não é coisa de índio.


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR),23 de novembro de 2019 - Caio R Bona Moreira

domingo, 3 de novembro de 2019

Ribamar Bernardes e a poesia incurável: Apontamentos sobre o livro 44 invernos (no prelo)








Humana, demasiadamente humana, a poesia de Ribamar Bernardes passeia entre girassóis e urubus com sua sanha e arma/palavra de franco-atirador. Remonta um mundo desmoronado e com suas vísceras nos apresenta uma imagem de seu eterno recomeçar. Ela, a poesia, nos faz vislumbrar aquilo que Warburg dizia sobre o artista como aquele que faz com que se compreendam mutuamente os astra e os monstra, a ordem celeste e a ordem visceral, o corpo celeste das estrelas e o corpo aberto em dissecação, o mundo da beleza e o mundo dos horrores, o mundo dos astros e o mundo dos desastres. Curiosamente, a flor do girassol está na terra olhando para o céu e o urubu no céu olhando para a terra: 

(...) tons de amarelo  
a se completar 
no inverno do girassol 
sem Sol 
sem carnaval 

pobre 
Van Gogh 

a miséria 
do girassol 
(...) 
corvos 
crepusculares 

até hoje tranquilos 
passeiam 

sobre os 
girassóis 
de 
Van Gogh. 

A poesia é esse mundo que nos cala para nos fazer gritar. Celebrando o que nos falta, ela é esse varal sem roupas, que nos move para muito além de nós. Trata-se de um vazio que não é o nada, mas o neutro, que nos permite ver mais longe, até onde o olhar permitir olhar, lá onde o mar faz a curva. Sua poesia, nesse sentido, é a rosa que, drummondianamente, nasce separada, mas não de todo apartada de nós. No meio dos urubus, um girassol nos seus cabelos. Da torre de marfim, seu palacete de papel, melhor se descortina aos leitores o inverno em que estamos mergulhados nas quatro estações do ano, nas quatro estações da vida. De janeiro a janeiro, da torre de marfim melhor se vê. Sua distância aprofunda o olhar e apartados olhamos mais e melhor. A poesia de Ribamar dessa forma é carne inquieta em sua abertura dissecada. Nela, versa-se sobre uma certa queda ou decadência que está na origem de um drama que mora dentro do poeta e que lhe dá a insígnia de estrangeiro (aquele que está fora), mas que o conduz paradoxalmente e de forma expressionista à sua lúgubre, porém delicada e doce interioridade. E do interior se abre feito flor para um espaço muito mais imenso. Sua obra, assim, é coisa mental. Mas – não esqueçamos - a mente está no corpo e só nele encontra a devida animalidade que, simultaneamente, o anima e atordoa. Poesia é coisa para ser amada ou deixada de lado. Celebro a chegada desses poemas como a vinda daquele anjo noturno que beira o caos das noites de insônia e de chuva numa xilogravura de Goeldi.  As sonoridades delirantes, dançando melopaicamente seu jazz em fúria, com sabor noir, tal qual Contrane em Blue Train, tocam delicadas mas não por isso menos rudes. Nunca olvidar o abismo. Nunca esquecer a barra pesando, o mundo pesado equilibrando-se nas costas de um deus/homem. E a poesia nos carregando nas costas na labuta diária da vida. Esse é o nosso único e verdadeiro mapa. Esse é o nosso Atlas. E a nossa mesa de (des)orientação. Nunca esquecer que o jazz é música se fazendo à medida que se toca, mas para atingir com presteza tal improviso é necessária muita criatividade, prática e disposição corajosa. Só assim é possível se equilibrar no abismo. Nesse quesito, Ribamar nada fica devendo. Tudo vibra em seus versos, tudo arde na arte de seu tom. O poema arde porque é palavra que vibra. A disposição peralta de seus versos evoca um Mallarmé lançando seus dados do alto do Cristo Rei, colina/bairro onde vive o poeta, em União da Vitória, interior do Paraná, sul do Brasil, pedaço do mundo. A aliteração, tão presente em seus versos, sugere o que chamo de dicção do desespero, uma certa figura que nos permite imaginar não só a visceralidade de sua poesia, mas uma certa intencionalidade vocal que reconstitui sua voz em uma virtual declamação, promovendo a apresentação do poeta a quem estiver disposto a ouvi-lo nesse palco que é o livro (poesia na voz é poesia no corpo). Som e sentido em suas linhas quebradas avizinham-se com presteza e clareza. Esses poemas são urgentes. Há que se ter pressa em lê-los, antes que o fogo apague e as cinzas voem para longe efetivando a transmutação de um estado da matéria em outro. Mas há quem diga ainda que é na iminência de seu desaparecer que a chama queima mais bela. Leia-se o poema “44 invernos”, dedicado a Jim Morrison: 

entre o aroma 
deixado pela tarde 
e a cor do céu na 
noite de julho 

é que existo 

após 
demasiado drama 
demasiada Brahma 
após  
aquele excessivo 
amarelo doença 
recobrindo meu obeso 
corpo 

existo 

após o Sol 
após o Som 

silêncio 
sombra 

após 
décadas de Dor 
de axila nova 
sem bolor 

existo 

novo
no 
mundo 

acordo 

da boca aberta 
escorre 
uma 
saliva 
cor de rosa 
cor de vida 

a gotejar na minha 
velha pança 
por isso sei 
agora 
existo 
tudo ao meu redor 
se quebra e dança. 

Há portanto uma beleza no sentimento de decadência que aponta não necessariamente para algo que está em extinção mas que revela antes de qualquer coisa a força simbólica de uma ruína, que em sua decadência nos apresenta a pervivência do que se extingue, revelando, assim seu eterno vir a ser, ou seja, seu originar-se. É o que talvez escrevesse Walter Benjamin depois de ler Ribamar. O poema de Riba (pela sua disposição gráfica, mas não apenas por isso) é sangue escorrendo pela parede da vida e pela página do livro. Sangue coagulado com cor de tinta da pena, ou tinto como o sangue de cordeiro imolado. Poeta visceral: aquele que expõe suas próprias vísceras, vísceras que são também, paradoxalmente, alheias. Eis a sua pena: a mesma palavra que nomeia uma condenação (pena) é aquela que representa a parte do corpo de uma ave que voa (o poeta é um albatroz) e também sua parte usada como instrumento de escrita, bem leve mas também afiada. Uma pena pode deixar uma cicatriz no corpo, na alma, ou no papel. O mar de seu nome (Riba-MAR), no entanto, é também aquele que faz cicatrizar uma dor como quando o sal é posto pela mãe sobre a ferida depois de uma surra no filho. A violência de suas palavras é excesso de amor pela vida, é amor de mãe (poeta) pelo filho (mundo/palavra). Mas seu nome me diz outra coisa. O dicionário informa que RIBA quer dizer "Margem alta de um rio", "pequena elevação sobranceira a um rio ou mar". RIBA-MAR. A elevação que se precipita sobre o mar. Como a Garganta do Diabo, em Cascais, onde Fernando Pessoa ajudou a forjar o desaparecimento de um bruxo (Aleister Crowley). Um salto em direção ao abismo. Um convite ao caos. Do alto se vê melhor a imensidão. Mas não se trata de forjar nos versos a sujeira do mundo, desistindo da vida, trata-se de ver na dor de toda lida o signo não só de um substantivo (lida é trabalho, esforço fora do comum, labuta), mas também o signo de um verbo disposto a ler o seu mundo e a descortiná-lo para nós em aurora (obra que se lê é obra lida). E isso tudo rima com vida. A beleza da poesia, com dor ou sem dor, é sempre a chama de um novo amanhecer. Quem lê-lo com atenção o achará em cada um de seus versos.

Publicado originalmente no jornal Caiçara de União da Vitória (PR), no dia 26 de outubro de 2019