sexta-feira, 26 de março de 2021

Sobre “14”, de Jean Echenoz: a ópera sórdida e fétida da guerra

 


Deve acontecer com outros leitores também, comprar vez e outra um livro pela capa. Alguém deve ter descoberto em algum momento um grande autor, quase ao acaso, depois de adquirir uma obra e lê-la apenas porque a capa era bonita. Já me aconteceu algumas vezes. Foi assim com o romance “14” (2014, Ed. 34), de Jean Echenoz. Isso que não há nada de muito especial na capa. Apenas o fragmento de uma fotografia que se estende para a contracapa e para as orelhas. Nela, vemos um soldado sentado sobre uma calçada tendo a seu lado uma bicicleta, mas para vislumbrá-la é preciso abrir a orelha de trás. Pequenos detalhes quase passam despercebidos, um cantil e uma pequena panela de campanha. O homem, de vasto bigode, veste um capacete de ferro, daqueles da Primeira Grande Guerra, usa um uniforme azul, botas de cano alto, tem um curativo na mão direita e usa um anel no dedo mindinho. O livro informa que a imagem é um autocromo de Paul Castelnau, de abril de 1917. O título da foto: “Déjeuner de poilu: soldat en bleu horizon avec au fond une librairie endommagée place Royale”.  Sim, vendo agora a legenda é que percebo no fundo da imagem a placa de uma livraria, provavelmente destruída em algum ataque de guerra. Na capa, temos apenas um close na personagem e o nome do autor e do livro em tamanho significativo. Capa trágica e bonita. Comprei o livro e li.



Jean Echenoz não é um escritor muito conhecido no Brasil. “14” é uma das poucas edições de sua obra publicadas por aqui. Certa vez, Enrique Vila-Matas escreveu que as novelas de Echenoz são “grandes máquinas ativas”, “máquinas de prazer”. Diz ainda que sua narração é uma espécie de “ave migratória”. Isso porque há um movimento narrativo que produz constantemente uma troca de perspectivas, como se um movimento de câmeras em seu ritmo cinematográfico regesse literariamente a sua montagem. Por exemplo, em uma das cenas do livro: “O mosquito surge às treze horas no céu perfeitamente azul de um fim de verão no Marne. Projetemo-nos rumo a esse inseto: à medida que nos aproximamos, ele vai crescendo até se transformar num pequeno avião biplano de dois lugares (...)”. Ele vai sofrer um ataque e vai se espatifar no chão. Estamos com os pilotos dentro da cabine. Eles vão morrer. Estamos dentro do filme. É uma cena e tanto. 

Mas falemos brevemente do “14”. Cinco homens vão à guerra, uma jovem grávida espera a volta de um deles (ou dois). Não sabemos se eles voltarão vivos. Alguns morrem, outros voltam feridos, gravemente aleijados ou cegos. Segundo Vila-Matas, “14” contém uma breve, porém densa meditação “sobre o destino das gerações”. O livro faz esse trágico inventário em apenas quinze capítulos, concisos, mas profundos. O relato de um campo de operações na Primeira Guerra faz lembrar alguns dos melhores filmes norte-americanos sobre o assunto. E o combate, no livro, vai se apoderando de nós, como sugeriu Vila-Matas, a ponto de o leitor desejar fugir do terror e “viajar a terras felizes”. Mas o que mais impressiona no enredo é um conflito interior que percorre a vida das personagens e que é mais intuído no momento de leitura do que explicitamente constatado. Os soldados são títeres de um aparelho monstruoso de guerra e seus dramas acabam sendo silenciados por bombas e morteiros. Há uma sutileza na construção das personagens – pouco sabemos sobre elas - que faz do livro um misterioso relato sobre uma guerra mais sutil que percorre a vida dos homens. Todos estamos sempre lutando com a vida. Há um triângulo amoroso implícito que acompanha a trama, o amor de dois irmãos pela mesma mulher. De quem será o filho dela? O triângulo nem sequer é objetivamente apontado. São sutilezas de uma história cuja guerra transforma seus destinos.

Jean Echenoz


O leitor pode não gostar do livro de Echenoz, mas não sairá o mesmo depois da leitura. A construção de seu relato no teatro de operações impressiona pela crueza. Depois de um ataque inimigo a lembrar certas cenas de “Apocalypse Now”, de Coppola, ou de “Destacamento Blood”, de Spike Lee: “Os sobreviventes reergueram-se, mais ou menos constelados de fragmentos de carne militar, de farrapos sujos de terra que os ratos já tratavam de arrancar e disputar em meio aos destroços de corpos espalhados aqui e acolá – uma cabeça sem mandíbula inferior, uma mão com aliança, um pé sem bota, um olho”. Para Echenoz, a guerra é uma ópera sórdida e fétida. E em meio às bombas, na voz das personagens, reina o silêncio. Pouco falam as personagens. Como que a lembrar de Walter Benjamin, depois da Primeira Grande Guerra, escrevendo sobre a pobreza da experiência que nascia nos campos de batalha. Os homens estavam voltando da Guerra pobres em experiências, incapazes de contar o que viram. A literatura talvez nos ajude não só a imaginar o horror, a contá-lo, mas também a tencionar a pobreza da experiência, fazendo do relato uma máquina de prazer (inerente às tragédias bem escritas), mas também uma máquina de fazer pensar.  

 

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em março de 2021    

segunda-feira, 15 de março de 2021

Sobre Esquinas

 Crítica de Esquinas, por Luisandro Mendes de Souza:

Notas de leitura: Esquinas

Meu amigo Caio Bona Moreira me enviou com sua mais recente obra, Esquinas (Micronotas, 2020), um conjunto de ensaios ou poemas em prosa sobre diferentes esquinas de Porto União e União da Vitória (duas cidades unidas, como seus nomes sugerem, mas separadas por um trilho de trem que secciona seus centros comerciais). Algumas são reais e icônicas (como a Av. Manoel Ribas com a av. João Gualberto) e outras são imaginadas (como as ruas Rimbaud e Jean Genet). É um pequeno “roteiro sentimental” das Gêmeas do Iguaçu.

Há uma expressão que me pegou logo nos primeiros textos, o ver. Caio é às vezes um voyer da cidade. É alguém que olha a esquina em alguns momentos de fora dela, e em outros, como no caso da Av. Cruz Machado/Av. Ipiranga, converte a própria esquina em testemunha:

“Daquela esquina, a antiga construção tudo viu e tudo sabe.” […] Ali, certa vez, concentrei meu olhar e contemplei emocionado um Aleph.” (p. 26)

Às vezes ele se coloca nela, como personagem também, e passa a relatar tudo que se passa, como se quisesse fotografar a vida que nela se expressa e que, ao transformar em palavra aquele acontecimento, o transforma em literatura (Av. Manoel Ribas/Carlos Cavalcanti):

“[…] paro entre a Manoel Ribas e a Carlos Cavalcanti e, numa tarde de janeiro, anoto o que vi.” (p. 67)

Não é apenas um documento ou uma tentativa de retratar o mundo (impossibilidade que está na própria origem da literatura: ela não é o mundo mas não há outro caminho pra ela senão cantar o mundo tal como o poeta o sente). Como Drummond, sua matéria é o tempo, mas não apenas o presente.

Há outra forma? Como não se contaminar pelo ambiente em que vivemos? Que pulsão (compulsão?) é essa que nos move a sentir a cidade pela palavra?

E eu diria que é isso o que Caio faz ao longo dos seus “cantos”. Ele é um poeta que canta a sua vila, e também a sente. E é essa sensação que quer nos passar (suas cores, suas vozes, seus personagens):

“Daí tantos jardins sempre bem cuidados de flores e ervas regados com terços, lágrimas, chimarrão, e novenas de Natal. O único macho a sobreviver ali é o de um casal de curucacas a zelar pela segurança da rua no alto de um pinheiro quase quadragenário, uma espécie de trono real, paranista ou para-raios.” (pág. 40, ruas Felipe Schmidt/Voluntários da Pátria)

E o que temos é uma pequena epopeia em prosa, algo bucólica, pois o trem (agora parado, apenas objeto decorativo, eventualmente reativado para passeios), os carros, ônibus, caminhões, motos e bicicletas passam bem pouco por essas esquinas, pois não interessa ao poeta o metal, a mecânica e o ruído. Da engenharia, interessa no máximo o ângulo de noventa graus, esse ponto de encontro de duas retas, mas que ao mesmo tempo que é encontro, permite que algo se esconda.

E ajudados pelo seu olhar, vemos e passeamos, por uma cidade que é a cidade da nossa infância e juventude, embora não seja mais também, pois se as esquinas ficam, os personagens que nelas agora passam já são outros (o bar da esquina da Manoel Ribas com a João Gualberto fechou faz poucos anos).

Para o leitor desavisado isso pode tirar o atrativo do livro. Mas não esqueçamos dos passeios que demos pela Nova Iorque de Henry Miller ou pelo Rio de Janeiro, levados pela prosa de Machado de Assis, João do Rio ou Rubem Fonseca. E também não esqueçamos de tudo aquilo que só vemos porque a literatura nos mostra.

p.s.: a qualidade das ilustrações de Raro de Oliveira podem ser admiradas já na capa do livro.

fonte: https://luisandromendes.wordpress.com/2020/12/11/notas-de-leitura-esquinas/

Sobre Esquinas






O projeto "Página Sonora", do Sesc Santa Catarina (Polo de Florianópolis), produziu essa semana um podcast sobre o livro "Esquinas" (Editora Micronotas). O projeto, atualizado quinzenalmente, apresenta produções literárias catarinenses.
Acesse os links do podcast nas principais plataformas:


Descrição do episódio


Ouça neste episódio um trecho do livro "Esquinas", de Caio Ricardo Bona Moreira.

MOREIRA, Caio Ricardo Bona. Esquinas. Joinville: Micronotas, 2020

Ficha Técnica: Seleção e roteiro: Luciana Tiscoski (Sesc Palhoça) Leitura: Kamila Debortoli (Sesc Florianópolis) Edição: Marina Gelowate Fernandez (Sesc Mafra) Trilha Sonora: "Oceano" de Cleyton Eduardo Souza (Sesc Itajaí) e Peter Allan Ramos (Sesc Balneário Camboriú)


https://open.spotify.com/episode/6Q4kag6WxntEDiO20dtUNI



Caio Ricardo Bona Moreira

Caio Ricardo Bona Moreira surge no “Página Sonora” trazendo ecos do dia Internacional da Mulher, comemorado há pouco. Vale muito a pena conferir o fragmento do conto Mimi Amazonas Júlia Amazonas, do livro Esquinas, que ganha corpo na voz de Kamila Debortoli. O livro é um passeio por lugares, reminiscências, pessoas; são esquinas de encontros os mais inusitados, numa escrita cujo ritmo é quase um convite ao flanar por diferentes tempos. Mais uma vez, Benjamin é referência que se apresenta nas entrelinhas.

















E a clausura é o tema recorrente desses processos de escrita. “Tinha um livro do meio do caminho da rua. Era o Esquinas. Ele me ajudou a encarar esses tempos de clausura que estamos, aliás, ainda atravessando. Foi uma forma de pensar (a)través da literatura, de praticar uma manobra de flanco para contornar a saudade da rua, para matar a saudade da cidade e das gentes. Estar em uma encruzilhada é estar em um lugar de crise, mas não deixa de ser uma oportunidade de vislumbrar a perspectiva de uma outra via. Perambulo logo sou.” E a esquina desdobra-se em muitas camadas de sentidos, quando o autor desvela uma de suas maneiras de pensar seu caminhar literário, nem sempre um flanar tranquilo: “A literatura é essa curva em ângulo aberto pra driblar o perigo ou encarar de frente o viés.”


quinta-feira, 4 de março de 2021

Poéticas como políticas do gesto



Os tempos são duros e ásperos, tristíssimos, mas as notícias boas também chegam, são um alento. Está chegando o livro "Poéticas como políticas do gesto" (Paco edições), organizado pelo professor Daniel de Oliveira Gomes, da UEPG. Tive a alegria de participar com dois poemas e um ensaio sobre Foucault e Oliveira Gomes, ao lado de pessoas queridas como Ana Luiza Andrade, Djulia Justen, Carlos de Assumpção, Alberto Pucheu, Eliane Potiguara, Pedro de Souza, Marcus Siscar, entre outrxs. A edição está linda, tanto na versão impressa quando na do e-book. Viva!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Os Buenos

 


Seriam pássaros feito anjos, não fosse a ausência de asas, bem como o excesso de amor pelos livros, essa fonte ou deságua de tanto desejo e inenarrável paixão. Com qualidades variadas, a julgar pelo nome, são capazes de bem falar várias línguas ou de escrever com presteza o que chamamos de vida, mal rompa a aurora com seus tons violáceos no matiz virginal da manhã. No entanto, gostam mesmo é da noite, quando enclausurando-se nos breus dos bares se travestem de artistas, poetas polimórficos fingindo ser o que de fato e direito são. Nesse palco, são capazes de clarear a escuridão só com seus paetês refletindo a luz de spots, tal qual um ouro de Ofir. Tudo com graça e dom como quem inventaria novos ritmos no arpejo musical de uma cadência que vai se dobrando ao infinito numa trama barroca de luz e sombra. Revoltam-se mas sem nunca perder a ternura, embora a solidão maltrate voraz seus corações inebriados de gim e canção. Talvez por isso muitos deles sejam dedicados na arte de colecionar uma gama enorme de bichos, estranhamente guardados no seio de seus bestiários. Na ficção, os Buenos, infelizmente, morrem cedo, ou seja, antes que a faca do fim corte naturalmente o fio de seus dias. Na vida real, ao contrário, encantam-se, fadados sem dublê a levantarem do chão tirando o pó das roupas, depois de ouvirem ansiosos a sentença final: “Corta!”.  

c.moreira

Imagem: cena do filme Asas do Desejo, de Wim Wenders 

"Bueno´s Bar: Nos Confins do Zoológico", uma homenagem a Wilson Bueno









Em outubro de 2020, dez anos depois da triste partida do escritor paranaense Wilson Bueno, o grupo "Desdobramentos: arte, estética, tempo", coordenado pela professora Maria Salete Borba, da Unicentro, fez uma homenagem ao autor de "Mar Paraguayo", lançando o zine "Bueno´s Bar: nos confins do zoológico", que pode ser baixado gratuitamente no link abaixo. O zine apresenta várias releituras de obras do autor feitas por artistas e pesquisadores de várias universidades . Tive o prazer de participar com o poema em prosa "Os Buenos". O grupo lançou também um vídeo sobre o homenageado. O link segue também abaixo.

 



domingo, 27 de dezembro de 2020

Viagem ao redor do jardim: folhescendo



Cavo aqui a língua, labuto lento a linha, avio feito um vate aqui a via, abrindo assim um sulco, esse ventre agrário da página, essa vinha que é fonte da vida. Vegeto na semeadura e, depois de regá-la, assisto ao broto que cresce em ramo na refloresta da roça. Essa morada é a seu modo uma mônada de minhocas, uma galáxia de formigas e lesmas. Cruzo o templo em meio a um bosque de segredos e seus aromas frescos num poema de Baudelaire, assim como quem dignamente cultiva o hábito de lavar as mãos antes de mexer na terra ou como quem sente que só a Natureza com seus vivos pilares é que sabe mesmo o tempo do verbo madurar. Descobri essas coisas em um livro do século XVIII. Leio nele que Goethe amava a poesia e as plantas. Leio também que Salomon Maimon, pensando obviamente no autor de Fausto, se perguntava o que a arte da poesia tem a ver com o estudo dos vegetais. Decerto a vocação para as semelhanças, o poder de escolher entre uma e outra, como quando falamos assim pra dizer assado e no fim elas se correspondem. E vamos percebendo que ambas diferem mas se tocam nos seus quereres. Folhescer é, de fato, a arte de se desdobrar de si mesmo, ou melhor, de metamorfosear pecíolos em folhas. Urge em seu eito também soltá-las à terra, abandoná-las ao vento, (in)ventando-as, deixando que ele as vire, do seu jeito, vertendo-as, assim, ao seu avesso. É pelar o galho uma vez ao ano para que as folhas, sinfonicamente, brotem de novo em seu eterno retorno tocando um pianíssimo ou ainda seu menos vivaz mezzo piano. Isso diz muito sobre a vida secreta das árvores, de como elas se comunicam entre si ou sobre a unidade no múltiplo, de como a folha guarda nela mesma uma carta na manga, a planta originária. Sobre como um alemão encontrou em outro um modelo para o seu modelo de história. Sobre como o poema está na palavra ou como ela ou um conjunto delas estão contidas nele. Assim como a folha está na semente e assim como esta desfolhada ou aberta está naquela ou em qualquer outra. Assim como um poeta tropical escreveu que “variados são os modos como uma coisa está em outra coisa”, ou que “o homem não está na cidade como uma árvore está em outra” ou que “uma árvore está em qualquer de suas folhas”. Assim como o cientista e o observador estão na coisa observada e num átimo se fundem a ela.  Assim como o anarquismo das trepadeiras nos convida à revolução ou como o veneno num copo-de-leite ou numa coroa-de-cristo nos ajuda a entender a vocação política das plantas. Assim como os matos são sempre rebeldes dentro ou fora do levante. Assim como carpir ou roçar é uma forma de organizar o caos mas também furtar a liberdade do jardim. Assim como a obra está na arte da natureza mais do que a arte na natureza da obra. Assim como numa brincadeira da infância as folhas riscadas sobre o papel se espelham no verso dando origem a uma outra folha sobre a mesma folha. Assim como a planta semeia no jardineiro seu floreio para florescer depois em metáfora. Assim como abri uma edição antiga de Gonzaga Duque e encontrei ao acaso um trevo seco de quatro folhas, percebendo ali uma mensagem cifrada que alguém lançou para alguém há mais de cem anos. Assim como no catimbó ou no terecô ou no candomblé de caboclo as folhas e as rezas sabem de curar, espantar maus espíritos, tirar o carrego e alimentar o axé, nos ensinando que tanto os poemas como as plantas salvam algo em nós. Assim como as folhas são páginas da árvore ou apenas uma relva de Whitman. Assim como uma ideia plantada e cultivada é mais forte que um prédio ou um pedaço de pau. Assim como os naturalistas ao longo do século XIX sempre precisaram dos pintores na ausência da fotografia ou de dotes pictóricos. Assim como quando masco cinco folhas de ora-pro-nóbis só para sentir o seu sumo. É um costume meu assim como de quem se devota a enverdecer no jardim vendo em seus matizes a riqueza de muitos tons, o verde-bandeira, o musgo, o oliva, o floresta, o jade, o turquesa, o esmeralda etc. Quantos verdes dentro do verde? Às três da tarde, como um bocó ou um catador de caracóis ou um velho Manoel sento sob o sol dessa floresta e me arvoro.   


Caio Ricardo Bona Moreira

 (Poema escrito para a "Virada Vegetal", com a curadoria de Cristiano Moreira, para o projeto Quinta Maldita, de Demétrio Panarotto).

https://www.youtube.com/watch?v=YLrLuztZfjo


 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Apontamentos sobre Clarice Lispector em seus 100 anos



Texto dedicado ao amigo Roberto Cossan, cavalo de Clarice

 

De tudo o que foi de mais lindo escrito sobre a Clarice no dia de seu centenário (10 de dezembro de 2020), escrito com Clarice ou escrito para Clarice, cito o querido Roberto Corrêa dos Santos, aliás, já homenageado por Alberto Pucheu em uma linda postagem. Escreveu o Roberto: "Tenho um compromisso com Clarice de mais ainda no dia de seu aniversário aquietar-me. Em nome da sobriedade, ela me disse." Faço das palavras de Roberto a minha aleluia, para Clarice a minha oração.

1 - Penso que o encantamento produzido pela escritura de Clarice Lispector advém muito mais de sua força do que de sua forma (apesar de que ambas estão intimamente ligadas), o que coloca em questão a possibilidade de se mensurar com clareza a relação entre as características de sua obra – plural e enigmática -, e a magia que ela suscita nos leitores. O seu texto, que ora e outra nos convida à cumplicidade e até mesmo à coautoria no ato de leitura, é assim fruto do misterioso encontro entre leitor e escritor. Portanto, imagino que o encanto está mais na ligação, no calor, na energia trocada entre essas duas figuras por meio do pensamento, dos sentidos, do que em cada uma delas separadamente, o autor ou o leitor. O texto é esse elo e sua beleza é inexplicável. Certa vez, em uma de suas crônicas – reunidas posteriormente em “A Descoberta do Mundo" -, a Clarice escreveu que “O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor”. Então, podemos até tentar apontar características que tornaram seus textos memoráveis: a sensibilidade, a poesia, o mergulho no mundo interior, a sondagem psicológica, mas nenhuma característica daria conta de explicar porque amamos tanto a Clarice. É um mistério. Está além da forma. E é por isso, penso eu, que o universo do neutro, do “it”, que aparece em “Água Viva”, do informe, da escrita capturando o pensamento à medida que ele nasce, do objeto pulsante, são elementos que apontam muito mais para o universo da força do que da forma. Clarice é um corpo estranho no modernismo. O que põe em crise qualquer tentativa de comentário. Impossível explicar Clarice. É mais possível ler com ela, escrever com ela, conversar com ela. O memorável parece morar nesse encontro e não em uma característica específica do texto.    

2 – A narrativa de Clarice parece sempre tentar alcançar aquilo que está atrás do pensamento. É claro que ela só vislumbra a isso pensando. O que não chega a ser uma contradição (isso aparece mais em “Água Viva”, mas se dissemina por toda a obra). Atrás do pensamento está Macabéa, a barata da “Paixão segundo GH”, o instante-já de “Água Viva”, os desejos de “Felicidade Clandestina”, tudo o que não se explica, como o enigma do Ovo, em “O Ovo e a Galinha”, só para citar alguns exemplos. Tentar alcançar o que está atrás do pensamento, capturar a vida se fazendo, o mundo no terceiro dia da criação, um ovo ainda não eclodido, é mais arte de bruxaria do que de técnica, apesar de que todo feitiço tem o seu jeito de fazer e Clarice sabia escrever, e sabia o que estava escrevendo. Sabia por em narrativa o Caos/Éden que deveria ser o seu pensamento, seu amor pela vida e pela linguagem.

2.1 - Roberto Cossan, em um lindo depoimento que integra o documentário “Retratos brasileiros: Clarice Lispector”, de Nicole Algranti, falou que “Macabéa é uma personagem que se situa dentro de um quadro muito clássico dentro da obra de Clarice que é a especulação sobre o neutro. O neutro para Clarice é aquilo que pulsa, é uma espécie de caroço da vida, ultrapassa o gênero do humano e reflete sobre o inumano, o transumano. Macabéa é uma espécie de suplemento, de desdobramento da barata que estará lá na Paixão Segundo GH, do grande it, desse grande neutro que está em “Água Viva”. E são diversos os seres que se constituem como puras pulsações. Assim concebe-se a figura de Macabéa.”

2.2 - Ainda com Roberto. No programa "Poesia & Prosa" dedicado a Clarice e apresentado por Maria Bethânia, no canal Arte1, Cossan falou sobre a escritora o que para mim é uma epifania, incorporando na sua crítica o olhar poético: "Sempre temos a impressão de que Clarice estaria o tempo todo mirando ou descrevendo ou observando aquilo que é extraordinário. Há muita observação do extraordinário. Mas o que interessa à Clarice é descobrir no mais mundano, no mais reles, o que há naquilo de extraordinário. O comum, o que se pretende é chegar ao lugar comum. O lugar comum é o lugar de todos, o mar, uma bebida, um frango assado, a observação de um ovo. Está tudo isso na obra de Clarice. A vida cotidiana com todas as suas pequenas ações são extraordinárias se vistas por uma perspectiva iluminada. Clarice trata o tempo todo do miúdo, do pequeno, do imperceptível. Sobre a Macabéa, do romance "A hora da estrela", a Clarice diz assim : 'Macabéa é capim'. Filosoficamente capim é o que se opõe à ideia do ocidente que é uma árvore presa com raiz, galho que é firme mas não sai do lugar. Capim, não, é forte e ninguém consegue exterminar. É o Brasil, o Nordeste, é ela mesma vinda da Ucrânia, é o pequeno, o amor ao pequeno". 

3 – Do ponto de vista patrimonial é lamentável aquela sujeira que amanheceu em torno de sua estátua no Leme há algumas semanas, como a mídia mostrou. É um desrespeito também à memória da escritora. Monumentos devotados a outros escritores já sofreram esse tipo de degradação, como é o caso da estátua de Carlos Drummond de Andrade, também no Rio de Janeiro. No entanto, a foto da imagem de Clarice na praia do Leme, que circulou na internet, revela uma cena que me pareceu bastante familiar. A escritora bela, altiva, séria em meio à sujeira do mundo. Não fecha os olhos para a realidade, pelo contrário, mergulha no mais íntimo e profundo da vida, mas transcende o cotidiano abjeto mirando fixamente o vazio. É assim que a estatua olha. Não conheci Clarice pessoalmente mas imagino que se isso tivesse acontecido eu teria me sentido como que olhando de baixo para o alto, em reverência. José Castello contou que certa vez encontrou Clarice olhando demoradamente para uma vitrine. Ele se aproximou e viu que ela mirava manequins nus. A cena o impressionou. A escritora amava o vazio. Ele é o além/aqui/aquém da palavra. Do ponto de vista estético, a foto me pareceu bela. O lixo em volta só faz de aumentar o tamanho de Clarice. Há uma certa majestade poética no que foi capturado pela foto. Mas não defendo. Continua sendo ecologicamente incorreto.



4 – Não sei se é importante ler Clarice. Só sei que quem não ler estará perdendo uma coisa muito preciosa. É como passar pela vida sem sentir o gosto da maçã. Naturalmente, quem não experimentar não saberá o que perdeu. Talvez ler Clarice não seja importante. Mas se viver o é, e se a vida tem uma realidade amplificada pela sua literatura, se o mundo se amplia com suas palavras, ler Clarice passa a ser fundamental. Mas como a literatura é misteriosa, ela capta uns e não outros – e a própria Clarice falou sobre isso em sua última entrevista, para a TV Cultura – tudo passa a ser uma possibilidade. Ou nos apaixonamos por ela ou não ligamos. Clarice não é meio termo. Eu diria que Clarice é um perigo de beleza.

5 – Do ponto de vista literário, Clarice contribuiu imensamente para a cultura brasileira. Aprofundou uma vertente psicológica de nossa literatura, expandindo suas possibilidades, explorou uma dimensão pouco valorizada até então, fugindo do lugar comum da escrita regionalista, realista, predominante nos anos 30 e 40. Sem a Clarice nossa literatura seria mais pobre. Clarice é incrivelmente lida no exterior, projetando o Brasil em um cenário internacional. Mas tenho certeza de que ela não ligaria para isso. O que está em jogo em sua obra me parece ser muito mais profundo do que uma obra, um período, um país. É a dimensão humana na sua mais profunda busca por uma experiência através da linguagem. É universal.

6 – O centenário da autora convida à leitura e releitura.

7 – Descobri Clarice muito tarde. Só fui lê-la na Faculdade. Comecei por “Hora da Estrela”. Impressionou-me deveras. Nunca havia lido nada semelhante. Impactou-me como Kafka, em “Metamorfose”, que conhecera antes, no Ensino Médio. Mas como sou daqueles que acreditam no tempo certo das coisas, fico feliz. Foi ela quem me encontrou. Clarice disse uma vez que não era ela quem escrevia os livros, eram os livros que a escreviam. Digo algo parecido. Não somos nós que procuramos os livros. São eles que nos procuram e nos leem. Se eu tivesse lido antes a Clarice, não a teria encontrado.

8 – Estudar literatura não pode estar desvinculado do encanto que ela produz. Portanto, a importância de estar permanentemente encantado com a literatura nos ajuda a viver melhor, como sugeriu Tzetan Todorov em “Literatura em Perigo”. É uma herança frágil a dessas palavras que nos ajudam a viver melhor. Temos que zelar por elas. Em um tempo no qual impera a violência, a alienação política, a valorização de bens materiais, a falta de empatia, a tristeza, o sentimento de decadência, acredito que a literatura nos convida a parar e olhar. Paramos e olhamos menos do que deveríamos. O Roland Barthes escreveu que o poder não quer que o homem olhe, deseja que o olhar do homem seja rápido e não pare nas coisas. E a literatura nos convida a parar. A literatura é essa máquina de produzir o vazio. É o nosso “it”, a nossa “Água Viva”. É um motivo que já basta para a cultivarmos com esmero. Ela quebra uma engrenagem, instaurando um contratempo no nosso tempo. Passamos a olhar as coisas fora do tempo, e por isso passamos a ver melhor. Saímos da moda e portanto percebemos a moda. Está tudo lá no ensaio “O que é o Contemporâneo” de Giorgio Agamben, ou nos textos de Clarice. Acho que a boa literatura nos convida a sermos contemporâneos de nós mesmos. Mergulhar em uma subjetividade alheia, conhecer o universo dos outros é uma forma incrível de conhecermos melhor a nós mesmos. Encontrar Clarice é uma forma encontrar em mim aquilo que no fundo sou.

9 - Guardo a letra de Clarice entre meu objetos mais íntimos. Ela está e não ali na letra. O ano do Golpe Militar. A caneta vermelha. Para Antônio Callado e Jean M. Watson, esposa do escritor na época. O exemplar: a segunda edição de Cidade Sitiada (José Álvaro Editor), que ela escreveu em Berna, quando seu marido trabalhou no Consulado. É a letra em cena, seu movimento, sua cor, seu gesto. Eu guardo esse traço aqui.  




Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em Dezembro de 2020.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

A arte de curar o planeta: reflexões sobre a literatura em tempos de adversidade



"Eles tiveram que forjar para si uma arte de viver em tempos de catástrofe para nascer uma segunda vez e em seguida lutar, com o rosto descoberto, contra o instinto de morte que está ativo em nossa história." Camus

 

Em dezembro de 2019, escrevi neste espaço um balanço das leituras que eu havia feito naquele ano. Comecei o texto dizendo: “2019 foi um ano fantástico. Daqueles dignos de um romance em que tudo pode acontecer”. Tratava-se de uma ironia. O fantástico, ali, era referência ao gênero literário que privilegia o caráter mágico das histórias, cujos enredos estão concentrados naquilo que, do ponto de vista da realidade, é inverossímil. Concluí o artigo desejando um ano com notícias melhores, para que tudo fosse mais feliz e menos fantástico. E veio o 2020. O que dizer dele? Quem imaginaria um ano mais surreal?  

Nem passava pela minha cabeça e pela de bilhões de seres humanos que o ano seguinte seria praticamente um filme de terror misturado a uma peça de teatro do absurdo. Com a diferença de que no mundo real e sua trama atroz milhares de personagens morreriam de verdade. E o trágico, então, encarnou-se com força no cotidiano do planeta. Como não lembrar do poema “Impressões do teatro”, de Wislawa Szymborska, publicado em livro em 1972, que trata de apresentar o mundo real como o palco do verdadeiro drama. O mais importante da tragédia é o que acontece depois do final da peça. Ou seja, a tragédia está na vida real e não no teatro.

Impossível não sentirmos tristeza com tantas perdas e outros sofrimentos relacionados à pandemia do Corona Vírus pelos quatro cantos do mundo. Difícil encontrar alguém que não tenha um familiar ou um amigo contaminado pela doença. As recorrentes aglomerações em nossas cidades ou em qualquer outro lugar de nosso país provam que uma grande parcela da população está completamente desinformada ou vive movida por uma falta de escrúpulos imensa. A palavra “gripezinha” tem um peso enorme que transcende nesse processo questões partidárias, transformando-se num vocábulo que revela para todos nós o tamanho do descaso do poder público diante dos fatos. Das supostas oitocentas vítimas já estamos chegando às duzentas mil.

A leitura tem me ajudado a atravessar estes dias tão tenebrosos. Ela não resolve os problemas do mundo, e inclusive me faz pensar no quanto sou favorecido em poder gastar meu tempo também com ela. Faz parte do meu trabalho como professor, além da distração. Mas certamente ela nos proporciona, além do prazer da evasão – o que não significa necessariamente uma alienação ou uma apatia -, o exercício da comoção e da identificação com a dor alheia. Se prestarmos a atenção nas palavras do pensador indígena Ailton Krenak, perceberemos que estamos todos doentes, independente de termos sido ou não contaminados com o vírus. O planeta precisa mudar para não morrer.

A literatura, penso, tem um papel importante nesse processo, pois ela pode ser considerada como uma espécie de máquina intersubjetiva que nos permite mergulhar no universo do outro, identificando-nos com suas dores e alegrias, suas tristezas e seus prazeres. Impossível não sairmos transformados dessa experiência, encontrando nas relações pessoais a possibilidade de um contato mais fraterno e humano com o próximo e com a nossa própria consciência. A pesquisadora francesa Michèle Petit mostrou em seu livro “A arte de ler ou como resistir à adversidade” (Ed. 34, 2009) a potencialidade da literatura em contribuir para a nossa sobrevivência em momentos de grande tensão individual e/ou coletiva, fortalecendo o homem em tempos de grande crise, e funcionando como uma força propulsora de regeneração. Uma sociedade que passa por um grande trauma pode encontrar na literatura condições para a reconstrução de si mesma. Tomemos como exemplo os relatos escritos clandestinamente em campos de concentração, os diários de confinamento em tempos de peste, os livros lidos por alguém durante um momento de crise pessoal, depressiva, os poemas escritos como uma válvula de escape emocional, os livros que transformam nossas vidas, as histórias que os homens contam ao longo da história para não morrer, a arte que nos cura etc. São mistérios e belezas da vida que poderíamos investigar em muitas páginas. 

Os textos literários podem nos trazer alegrias imensas, ou mesmo produzir feridas profundas em nós. Em ambos os casos, concretiza uma experiência positiva, revelando para nós a vida na sua mais profunda essência. Cito aqui alguns dos livros que estão me ajudando a atravessar a pandemia com mais força e menos angústia: o segundo volume da trilogia de Milton Hatoum “O lugar mais sombrio”, chamado “Pontos de Fuga”, que dá continuidade à trajetória de Martin, um jovem que cresce em Brasília durante os anos mais duros da ditadura militar. O lindo livro de memórias, de Fernanda Montenegro, “Prólogo, ato, epílogo”. O poético “Devoção”, de Patti Smith, no qual ela reflete sobre seu processo criativo.  O romance “A glória e seu cortejo de horrores”, de Fernanda Torres, cujo tema perpassa a vida de um artista de teatro e televisão dos anos 60 até a atualidade. Poderia citar tantos outros livros de autores como: Giorgio Agamben, Georges Didi-Huberman, Rafael Ginane Bezerra, Mariana Mello, José Eurico Tejera Lisboa, Cristiano Moreira, Gonçalo Tavares, Wislawa Szymborska, Rubens Francisco Lucchetti, Kaká Werá Jecupé, Eliane Potiguara, Ailton Krenak, Timóteo Tupã Popygua, Cristian Siqueira, Luisandro Mendes de Souza, Laurent Binet, Luiz Rufino, Dennis Radünz, Sylvio Back, Christian Prigent, José Castello, Gustave Flaubert, César Aira, Alberto Pucheu, Alan Pauls, Vinícius de Moraes, Carlito Azevedo, Bertolt Brecht, Enrique Vila-Matas, Ana Porrúa, Bioy Casares etc. A todas e todos que pude ler em 2020 agradeço por terem escrito seus livros e me acompanhado nessa jornada. São obras que me ajudaram a atravessar 2020 com mais fé na vida e com a esperança de que as mortes e todo sofrimento diminuam até desaparecer, o mais rápido possível. É o pedido que faço para Jesus neste Natal e Ano Novo. Boas Festas a todas e todos! Se puderem fiquem em casa! Cuidem-se! 

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 12 de dezembro de 2020.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Lançamento de "Esquinas" (Micronotas, 2020), de Caio Ricardo Bona Moreira



Nesta semana, acontece o lançamento oficial do meu livro "Esquinas" (100 páginas; ensaios/poemas em prosa; Editora Micronotas, 2020).


Apresentação do livro:

"Muitas coisas podem acontecer em uma esquina: um acidente, um encontro ou desencontro, uma epifania, uma desgraça, uma lembrança, ou quem sabe até uma ideia. Lá, o passante que estiver disposto a observar enxergará a síntese misteriosa do banal com o inusitado. 

A encruzilhada é o mundo do (im)possível. Basta parar para ver. Aqui, mais do que um tema ou um assunto, ela é o princípio motor ou gatilho para um conjunto de pequenos ensaios ou prosas poéticas sobre o cotidiano da rua, bem como sobre outras coisas da vida. 

George Simmel aproximou o ensaio do passeio: passear pela rua é uma ótima forma de pensar. Perambulo, logo sou. A cultura filosófica deste importante pensador da modernidade é fruto, portanto, de uma aventura. Perder-se numa cidade será sempre uma ótima forma de conhecê-la. Acho que foi Enrique Vila-Matas quem certa vez anotou: “Escrever é perder cidades”.

A deriva é uma espécie de método. A intermitência, uma riqueza. Trata-se de lançar um olhar filosófico e poético sobre o ponto de cruzamento: ou não é nele que sempre uma via termina e outra começa?

Portanto, esses lugares são um convite à viagem, ou seja, ao devaneio. O poeta se quer um catador. Os textos de “Esquinas”, inventariando seus achados, convidam o leitor a uma caminhada pelas ruas de Porto União (sc) e União da Vitória (pr), cidades que já foram uma só e hoje são cortadas por uma linha de trem. O que une as duas também as separa. 

Mas o leitor não se engane com sua geografia poética. O mapa é de se perder. Essas esquinas literárias são do mundo. Poderiam ser um canto ou uma quina qualquer de Nápoles, Barcelona, Montevidéu, Berlim, Cuiabá, Apucarana, Timbó, Teresina ou Tóquio. Uma curva na rua nos leva a uma outra e o texto vai e vem, assim, sendo tecido, enquanto o trânsito é costurado. 

A capacidade de entrelaçar, aliás, é fundamental para o exercício associativo, peça-chave da poesia. Escrever é inventar cidades. Pensar numa esquina, ou melhor, estar numa esquina pensando, será sempre uma forma enriquecedora de experimentar a vida posta em movimento. Lá, acaso e destino, realidade e ficção, arte e vida, tornam-se indiscerníveis. 

Inspirados ou não em João do Rio, poderíamos dizer: “Eu amo as esquinas”. É lá onde a rua faz a curva/cesura: é lá onde o poema (d)obra. É lá também onde um velhinho encontra o outro e tudo vira prosa."



Fragmentos:

"No encontro da Ipiranga com a Cruz Machado – não com a Avenida São João –, um velho prédio art déco assiste há quase cem anos à cidade envelhecer. Daquela esquina, a antiga construção tudo viu e tudo sabe. Talvez o leitor não acredite, mas na vidraça de uma de suas janelas é possível vislumbrar, nas tardes de abril, aquele ponto do espaço – mágico e borgeano – que contém todos os outros pontos. Ali, certa vez, concentrei meu olhar e contemplei emocionado um Aleph."

"A linha do trem: um pé aqui, outro lá. Onde estou? Nascido aqui, registrado lá, quem sou? A linha do trem que corta uma cidade em duas corta também um coração. Desterritorializado estou. Não sou catarina, não sou paraná. Tal qual franco-argelino, me divido e logo sou. Esaú e Jacó, todos os gêmeos serão sempre irmãos?"

"A esquina é o ponto de repouso que ao mesmo tempo é um ponto de tensão. Se tudo flui, nada permanece. E o que fica é esse (des)contínuo movimento, o exercício de dobrar sem cessar. A esquina une ou corta duas vias? Buda diria que unir-se significa inevitavelmente separar-se. É a natureza da vida. Penso o pensamento nascendo numa esquina. A questão, portanto, é filosófica e não deixa de ser mística. O que encontrarei e quem serei depois de dobrar a próxima quina?"


Sobre o livro, Susana Scramim escreveu:

"De modo muito inteligente e ao mesmo tempo sensível, Caio registra a vida da cidade confrontando o espaço urbano com a geografia sentimental. O resultado desse confronto se lê em Esquinas, trabalho esse que relaciono ao livro de memórias da infância de Walter Benjamin mediada pela experiência com a cidade".

"Nas esquinas de Caio, se pode observar dois fluxos de escrita: em um deles, se dedica a registrar a passagem do tempo e de suas ações no espaço urbano, no outro, se põe a reimaginar de um modo “alephiano” a materialidade das coisas, confrontada àquilo que não está mais ali e que apenas pode ser recriado"



O livro está disponível nas livrarias Arte & Letra (Curitiba) e Livros & Livros (Florianópolis).
Em Porto União e União da Vitória, o livro pode ser encontrado na Papelaria Risca de Giz, na Porto Presentes e no Sebo Macaco Studado.
Também disponível para encomendas diretamente comigo. Na cidade, entrego em casa! Para outras, envio por correio.


Coordenação Editorial: Katherine Funke
Projeto Gráfico: Pierre Themotheo
Ilustrações: Raro de Oliveira
Prefácio: Susana Scramim
Os preços variam entre R$25,00 e R$28,00.

capa aberta


Uma das ilustrações de Raro de Oliveira que integram o
livro "Esquinas"
Alguém adivinha qual?