Leopoldo
Waizbort, ao dedicar um capítulo de "As aventuras de Georg Simmel" ao
gênero ensaio, desenvolve algumas observações que julgo bastante pertinentes. Simmel
talvez tenha sido um dos maiores ensaístas do final do século XIX e início do
século XX. E é a partir de uma reflexão sobre sua obra, bem como uma análise do
interesse de Simmel pelo ensaísmo, que Waizbort consegue reconstituir o
pensamento do alemão em busca da construção de sua cultura filosófica. Seu
pensamento pervive na obra de pensadores importantes como Adorno, Benjamin,
Lukács, entre outros.
"Movimento, subjetividade e experiência compõe a
constelação do ensaio". Tal ideia é central em Simmel. Nesse caminho, o
elemento associativo desempenha uma função importante: "Simmel nunca
esgota seu objeto, e isto, claro está, é compreendido como uma virtude e não um
defeito". Em outro momento, Waizbort escreve: "Se Adorno tem razão em
apontar a estrutura e a origem musical do ensaio, esta só pode ser a da
variação e do desenvolvimento. Com isso explica-se porque o ensaio é
processo". E ainda: "(...) O ensaio é essencialmente descontínuo. Ele
possui uma relação privilegiada com a vida, ao exprimir o fragmentário,
imprevisto, movimentado, fugidio".
Simmel
costumava lembrar de uma história bastante interessante em suas aulas.
Citemo-la: "Em uma fábula um camponês à morte diz a seus filhos que há em
suas terras um tesouro enterrado. Em consequência disso, os filhos escavam e
reviram profundamente a terra por toda parte, sem encontrar o tesouro. Mas no
ano seguinte a terra assim trabalhada produz três vezes mais frutos (...)"
Tal é a lógica do ensaio. O passeio é mais importante que o ponto de chegada. O
processo é mais importante que o produto.
O voo é mais importante que o pouso: "Simmel
afirmava que o importante não é ter encontrado algum tesouro, mas sim ter
escavado. Tal comparação é semelhante ao passeio. Para quem passeia, o caminho
e a paisagem são mais importantes que o ponto de chegada. Essa ideia é a
própria ideia do ensaio e por isso ele foi, já tantas vezes, desde Montaigne,
aproximado a um passeio que o autor faz e nos convida a acompanhar. Isto
explica também o inusitado, muitas vezes, do ensaio, como se no meio do caminho
se resolvesse tomar uma outra direção. Isto significa que não interessam tanto
as conclusões a que um ensaio poderia levar ou que ele poderia trazer, mas sim
o processo, o desenrolar do pensamento, o espírito que trabalha, em movimento
aventureiro. O movimento é a característica básica do ensaio". Nesse
sentido, o ensaio é pergunta e não resposta: "No ensaio, o principal não é
convencer o Leitor de modo absoluto, mas sim indicar caminhos, fazê-lo pensar.
Já que ele não comprova nada, sua principal tarefa é impulsionar o pensamento.
O ensaio é mais dúvida do que certeza". Daí a ideia enfatizada por
Waizbort de pensar o ensaio a partir da imagem da constelação. Interessa para o
ensaio as relações curiosas travadas entre os objetos, as relações
constelacionais. Essa forma diferenciada de conhecimento estaria intimamente
ligada com o próprio advento da modernidade, cujo seio não abrigaria mais uma
filosofia pautada pela noção de sistema, mas sim por uma cultura filosófica de
cunho ensaístico. Simmel merece releituras.
Eu estou poemando, logo existo, ou pelo menos insisto. Essa é uma das minhas meditações, uma espécie de mantra semântico, esse é meu canto assintático.
"Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem
reacionária, nem progressista: ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer. Assim que ela é proferida, mesmo que na intimidade mais profunda do sujeito, a língua entra a serviço de um poder"
Ao fascismo da língua, Barthes responde com a literatura:
"(…) o signo é seguidor, gregário; em cada signo dorme este monstro: um estereótipo: nunca posso falar senão recolhendo aquilo que se arrasta na língua(…)mas a nós(…), só resta trapacear com a língua(…) Essa trapaça salutar (…) que permite ouvir a língua fora do poder, no esplendor de uma revolução permanente da linguagem eu a chamo: literatura"
"Numa época de aceleração desembestada que a poesia mais se faz desejável. Por quê? Porque o que me parece inteiramente indesejável é a aceitação passiva da inevitabilidade do encolhimento do nosso tempo livre"
Antonio Cicero
"O poder, seja qual for, por ser violência, nunca olha; se olhasse um minuto a mais (um minuto demais), perderia sua essência de poder. O artista, porém, pára e olha demoradamente (...). Isso é perigoso, pois olhar por mais tempo do que o solicitado (insisto nesse suplemento de intensidade) desarranja todas as ordens estabelecidas, sejam elas quais forem, uma vez que, normalmente, o próprio tempo do olhar é controlado pela sociedade"
Roland Barthes
"A linguagem constrói mundos e quando um autor desautomatiza a linguagem, dependendo do grau de sucesso nisso desautomatiza também a percepção do mundo dos leitores e modifica a percepção da realidade, ou das realidades".
Ademir Assunção, em entrevista concedida à revista Etcétera (Curitiba)
"(...) não existe outra atividade humana que nos possa colocar diante de nossa condição subjetiva e social com a mesma intensidade e riqueza de sentidos que a arte, sem que essa experiência exija, como a religião, uma afirmação da transcendência"
Beatriz Sarlo
"Os problemas que enfrentamos de fato não têm, como nunca tiveram os problemas sociais, uma solução inscrita em seu enunciado. Trata-se antes de perguntar para fazer ver do que para encontrar, de imediato, um plano de ação. Não são perguntas sobre o que fazer, mas sobre como armar uma perspectiva para ver"
Beatriz Sarlo
EDUCAÇÃO CRISTÃ
"Mamãe,
fazer poema é pecado?"
Nicolas Behr
"Também nem tudo é assim, escuridão"
Hilda Hilst
"DESEJAR – é a coisa mais simples e humana que há. Não podemos trazer à linguagem nossos desejos porque imaginamos. O corpo dos desejos é uma imagem. E o que é inconfessável no desejo é a imagem que dele fizemos"
Giorgio Agamben
"A língua nova deve surgir de um vazio material; um espaço anterior deve separá-la das outras línguas comuns, ociosas, ultrapassadas, cujo ruído poderia perturbá-la: nenhuma interferência de signos, para elaborar a língua com cuja ajuda o exercitante poderá interrogar a divindade"
Roland Barthes
"É contra uma fala indefinida e incessante, sem começo nem fim, contra ela mas também com sua ajuda, que o autor se exprime"
Maurice Blanchot
"Tudo o que não invento é falso"
Manoel de Barros
"Amor é a palavra que inventamos para dar nome ao Sol abstrato em torno do qual giram nossos pequeninos egos ofuscados, entontecidos, ritmados"
Caio Fernando Abreu
Sólo lo difícil es estimulante
Lezama Lima
Yo creo que la maravilla del poema es que llega a crear un cuerpo (cuerpo del poema,), una sustancia resistente, enclavado entre una metáfora creando infinitas conexiones y una imagen final que asegura la pervivencia de esa sustancia, de esa poiesis.
Lezama Lima
Entre la carta oscura entregada por la metáfora, precisa sobre si y misteriosa en sus decisiones asociativas, y el reconocimiento la imagen, se cumple la vivencia oblicua
Lezama Lima
Como nada memorable me había sucedido en la vida, yo antes era un hombre sin apenas biografía. Hasta que opté por inventarme una. Me refugié en el universo de varios escritores y forjé, con recuerdos de personas que veía relacionadas con su libros o imaginaciones, una memora personal y una nova identidad. Consideré como propios los recuerdos de otros, y así es como hoy en día puedo presumir de haber tenido vida. Después de todo, ¿no es lo que hace todo el mundo? Mi vida no es más que una biografía como la de todos, construida a base de recuerdos inventados.
Enrique Vila-Matas
O que era pior: agora eu ia ter que comer a barata mas sem a ajuda de exaltação anterior, a exaltação que teria agido em mim como uma hipnose; eu havia vomitado a exaltação. E inesperadamente, depois da revolução que é vomitar, eu me sentia fisicamente simples como uma menina. Teria que ser assim (...) Eu não queria pensar mas sabia. Tinha medo de sentir na boca aquilo que estava sentido, tinha medo de passar a mão pelos lábios e perceber vestígios. E tinha medo de olhar para a barata – que agora devia ter menos massa branca sob o dorso opaco.
Clarice Lispector, em A Paixão Segundo GH
O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio reconhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história...
Raduan Nassar, Lavoura Arcaica
No hay silêncio más profundo, más mismo que el alto silêncio de la muerte ô de las estrellas, de que el silêncio de su ausencia estellar, garrandome al pescoço, como una monstruosa forma de pulpo que te prendesse, lesma y repugnante, el corazón – todo nele enovelado – este siempre imprevisto sufrimiento que nos causan las pérdidas, las derrotas, el fracasso contumaz de una saudade sin volta e ni futuro.
Wilson Bueno, Mar Paraguayo
"Em uma fábula um camponês à morte diz a seus filhos que há em suas terras um tesouro enterrado. Em consequência disso, os filhos escavam e reviram profundamente a terra por toda parte, sem encontrar o tesouro. Mas no ano seguinte a terra assim trabalhada produz três vezes mais frutos. Isso simboliza a linha da metafísica indicada aqui. Nós não iremos encontrar o tesouro, mas o mundo que nós escavamos à sua procura trará ao espírito três vezes mais frutos - mesmo se não se tratasse de nenhum modo na realidade do tesouro, mas sim de que esse escavar é a necessidade e a determinação interior do nosso espírito"
George Simmel
A arte também é isto: espaço de encontro, de diálogo e, portanto, de crescimento do ser humano como pessoa. Certas obras de arte, certos textos literários, certos poemas, sem dúvida nos tornam mais solidários com as fraquezas do ser humano, sem dúvida ampliam a percepção de nossos próprios limites, de nossa fragilidade. Essa compreensão é imprescindível para que sejamos capazes de sentir nosso próximo como verdadeiramente irmão.
Luzia de Maria
(...) a poesia, a arte em geral, busca desautomatizar nossa percepção. Porque a rotina, a repetição, o dia-a-dia contribuem para que ela se vá embotando, se automatizando. Vamos perdendo a capacidade de esquadrinhar detalhes e sutilezas, ou seja, olhamos muitas vezes sem enxergar, olhamos sem ver. Quantas vezes passamos por uma rua, passamos por magníficas construções arquitetônicas – dessas que atraem turistas – e não enxergamos a beleza que ali está. Um dia um fotógrafo com alma de artista passa por aquela rua, colhe com sua câmera o que lá estava, posto para qualquer olhar, e quando cruzamos com a foto numa revista, noutro contexto, enxergamos, enfim, o que não enxergaríamos sozinhos.
Luzia de Maria
Yehuda Amichai:
No dia em que minha filha nasceu não morreu ninguém
"No dia em que minha filha nasceu não morreu ninguém. No hospital, e no portão de entrada o aviso disse: "Hoje kohanim têm permissão para entrar." E foi o dia mais longo do ano na minha grande alegria. Eu me dirigi com meu amigo para as colinas de Sha'ar Ha-Gai. Vimos um pinheiro doente, não havia nada sobre ele, mas estava carregado de pinhas. Zvi disse que as árvores prestes a morrer produzem mais pinhas que as árvores saudáveis. E eu lhe disse: Isso que você fez, mesmo sem sabê-lo, foi um poema.
Mesmo sendo um homem das ciências exatas, você fez um poema. E ele respondeu: E você, que é um homem de sonhos, fez uma menina exata com todos os instrumentos exatos de sua vida."
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