terça-feira, 12 de junho de 2018

Nefelibata



Deitado sobre a grama
E olhando pra cima 
intuo 
ou
Nefelibata e neto trismegisto de todos os 
                                      astros e espaços
invento, inverto ou especulo:
A terra é o céu das estrelas
Ou mesmo uma constelação
O lado de cima
É como o lado de baixo


Para quem a terra é palco de nuvem
O céu é meu chão


c.moreira

domingo, 3 de junho de 2018

A vida e vida de Assionara Souza





No último 21 de maio, recebi com imensa tristeza a notícia da morte da escritora e colega Assionara Souza. A sua perda é irreparável, não apenas pelo que ela escreveu e pelo que viria a escrever, mas também pela sua pessoa, que fez da literatura um modo de encarar a vida e de vivê-la em plenitude. Autora de livros como “Cecília não é um cachimbo” (2005), “Os hábitos e os monges” (2011), “Alquimista na chuva” (2017), entre outros, Assionara se destacou na atual literatura brasileira, chegando a ter sua obra divulgada para além de nossas fronteiras.
Quando a conheci pessoalmente em 2010, chamou-me a atenção a sua inteligência aliada a uma sensibilidade e doçura propositadamente poéticas. A beleza e elegância que se depreendiam de suas palavras me remeteram de imediato a escritoras misteriosas como Clarice Lispector e Hilda Hilst. Percebi desde o primeiro contato uma certa serenidade na voz que lhe conferia um ar nobre e curitibano temperado pelo sutil sotaque nordestino de alguém que nascera em Caicó, no Rio Grande do Norte. Debati com ela em um encontro do Sesc Literário sobre Raquel de Queiroz e tão logo nos conhecemos melhor, naquela mesma noite, ela foi me presenteando com seu livro de contos “Amanhã, Com Sorvete!” (2010), editado pela 7Letras. Reencontrei-a alguns anos depois em um outro evento literário, onde conversamos sobre Valêncio Xavier, e onde a ouvi falar com propriedade e inteligência sobre o escritor pernambucano Osman Lins.



Os contos de Assionara ganham agora para mim outro sentido. Impossível lê-los sem ser tocado pela experiência da precoce despedida a seguir seus passos na escritura. Impossível também não sentir a presença/ausência da escritora em seus textos, num jogo de aparecer e desaparecer que inevitavelmente - como em toda boa literatura - caminha para o artifício, para o truque.  Um leitor que procure a pessoa de um escritor em um texto literário está fadado a buscá-lo onde ele não mais está (talvez Assionara tenha terminado de escrever um livro para agora começar outro). Por isso, assim como em qualquer outro escritor, não se trata de ler biograficamente a obra de Assionara - já que a literatura é sempre uma construção na qual o escritor se despersonaliza para que nasça a escritura. Trata-se de perceber nessa máquina de artifícios - que é a literatura – a fonte das verdades tecidas por meio da ficção. Ali Assionara está inteira. Tudo faz parte do jogo e, sendo o escritor um falso mentiroso (evocando aqui Silviano Santiago), ele, então, só fala verdades e tudo é mentira também. Assionara, assim, está e não está no texto que teceu. É com esse impasse que nós leitores temos que conviver. No entanto, mais do que a ausência ou a despedida, Assionara, em seus livros, celebra a vida e a força das palavras, dos instantes e dos encontros.


 A escritora tem um modo de dizer que é a pura busca da quarta dimensão, um tocar as palavras pelo avesso, galáxias de música e dança, “a aparência das coisas por trás das coisas”, como sugeriu em um de seus contos. Daqui a muitos anos alguém vai achar em meio a outros livros um exemplar velho e surrado de “Amanhã, com sorvete!”. E dali jorrará com alegria tudo o que agora vejo e sinto, seus fragmentos de um discurso amoroso. E Assionara estará todinha ali, viva e em palavra, porque é todo o livro ela mesma: “Constrói do verbo um mundo todo fragmento. Fissura. Costura. Do que foi dito e não feito. Escrito”. A palavra lhe conservará viva.
Lembrando por vezes a profundidade e o ritmo de Caio Fernando Abreu, sem ser piegas na influência, quase todas as frases dos textos de Assionara evocam todo um universo pela amplitude de suas imagens e beleza de seus tons: “entre a sombra e o sol, eu era quase um personagem principal de alguma coisa”, “para desconforto do mímico, antes que entrasse em seu show alguém lhe cochichou ao ouvido que todos os que estavam na plateia eram cegos”. Como não lembrar de Clarice Lispector em tais linhas: “Música no modo como os moços andam. Música no inusitado de corpos se esbarrando. Música diluindo tudo o quanto é sólido. É quando há dança. Fecho os olhos e deixo (...) Estamos dentro da coisa. E a coisa é a paixão. Objeto inquebrável. Objeto que pulsa”. A literatura de Assionara voa no Altíssimo “para não esbarrar em rochedos”. Fico me perguntando por que nunca procurei Assionara pra dizer o quanto seu texto me encantava.


Ao invés da morte, penso aqui nas duas vidas da autora. A que ela viveu (e que vive ainda em alguma esfera de nosso grandioso universo) e aquela que pervive no texto que escreveu. Ela está fadada a ressuscitar a cada vez que um leitor abrir seus livros e se encantar com suas palavras cheias de sabor de amanhã e sorvete. No conto “Órbita dos Silêncios” ela escreve: “O som mudo do silêncio é o que está por baixo da pele”. Para ela o som mudo do silêncio está colado às coisas. Com ele a vida acontece intensa. Talvez esse som mudo seja sua própria palavra, fadada a soar para além da vida. No texto. Assionara vive!


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, 02 de junho de 2018.  

domingo, 20 de maio de 2018

O orangotango marxista ou somos todos macacos



Depois de sofrer um grave acidente que o deixou paraplégico, Marcelo Rubens Paiva escreveu um dos romances mais populares do Brasil nos anos 80, “Feliz Ano Velho”, não só um depoimento jovial e coloquial de seu processo de adaptação à nova realidade, mas também um testemunho da geração que crescera em meio aos “anos de chumbo” e que se preparava, entre o som do rock and roll e as incertezas do futuro, para o processo de redemocratização do país. Depois do sucesso do livro, o escritor mergulhou fundo na literatura e no jornalismo.
Em 2015, Paiva publicou um dos seus livros mais delicados e profundos, “Ainda estou aqui”, uma autoficção na qual revisitou o sinistro episódio familiar envolvendo o desaparecimento de seu pai, o então deputado Rubens Paiva - na ditadura militar -, cujo paradeiro é desconhecido até hoje. Mais do que uma homenagem ao progenitor, o livro é também e principalmente sobre a mãe, Eunice Paiva, uma guerreira que, naqueles tempos, assumiu sozinha as responsabilidades frente ao lar e que, hoje, sofre do Mal de Alzheimer. O romance, poético e político, trata então de dois dilemas, o do pai que nunca foi encontrado – pairando, assim, como fantasma sobre a família - e o da mãe, transformada dia após dia pela doença. Em tempos de revisão histórica, e de um aprofundamento em doenças degenerativas, “Ainda estou aqui” - cujo título vale para tanto para a mãe quanto para o pai - é um dos mais fortes e bonitos livros da literatura brasileira contemporânea.


Agora, Marcelo Rubens Paiva acaba de lançar “O Orangotango Marxista” (2018), que saiu pela Alfaguara. Seria apenas mais um livro entre tantos outros preocupados com nossa crise política e social não fosse a sagacidade narrativa do autor. A começar pelo narrador, um orangotango que desfia em sua zoológica narrativa uma espécie de fábula sem moral sobre os seres humanos e suas contradições.
O romance - ou melhor, a novela - conta a inusitada história de um símio capturado em Bornéu, que cresceu no laboratório de uma universidade do interior de São Paulo. Lá, aprendeu sozinho a ler e quando todos os funcionários iam para casa, ele passava horas estudando na biblioteca. Virou cristão ao ler trechos do Novo Testamento, mas com o tempo passou por um desapontamento metafísico ao perceber que “tudo era uma questão de explorados e exploradores, ou melhor de divisão de classes (espécies)”. Cada vez mais, o narrador vai se interessando pela obra de Darwin, com quem descobriu a proximidade entre macacos e humanos. Encantou-se pela filosofia, conhecendo em profundidade textos de Hegel, Kant e Marx, tomando, então, consciência de sua condição de explorado, o que mudaria a sua forma de encarar o mundo. Depois de se apaixonar pela sua pesquisadora, o orangotango é levado para um zoológico, deixando de ser objeto de estudo para virar uma peça na engrenagem da indústria do entretenimento, na sociedade do espetáculo. A partir de então, ele passa a observar o comportamento dos visitantes, invertendo a lógica natural dos fatos. O homem é seu opressor, mas também sua atração.


Para o orangotango, aqueles que nasceram em cativeiro só conhecem o mundo do opressor e do oprimido: “Mas a maioria, com eu, caçada e aprisionada, arrastada em navios, colocada em containers à força, deve ter, nem que reprimido, o verdadeiro sentido da vida, em contraste com o efeito absurdo que nasce da dominação de um grupo sobre o outro: a liberdade”.
Aos poucos, durante a noite, a personagem começa a incursionar pela cidade, depois de descobrir uma forma de sair do parque. Isso com o objetivo de investigar a vida dos humanos e encontrar uma forma de se libertar de sua condição de explorada. Nessa, que é uma das partes mais interessantes do livro, o orangotango, depois de muito observar o cotidiano das pessoas, acaba concluindo que a vida dos humanos não é tão interessante quanto poderia parecer: “No final de contas, a liberdade que poderia trazer alegria, felicidade e alívio àquelas pessoas mostrava que eram todas escravas de um sistema alienante que impedia de admitir que, no fundo, aquele estilo de vida era triste, deprimente, vazio, entediante e sem sentido”. O primata letrado questiona também a alienação das pessoas por meio dos aparelhos de celular, que fazem com que os macacos nus (homens) deixem de olhar para o mundo, concentrados que estão apenas nas telas da máquina: “Os humanos chegaram num estágio tão elevado de conhecimento e tecnologia que acabarão aprisionados por ela. Já começou”. Isso sem contar nas contradições sociais apontadas pelo símio, que demonstram a incapacidade do homem de viver em sociedade sem subjugar seu semelhante. Lembremos que estamos diante de um narrador marxista.
Inspirado por um rebelde gorila chamado Fidel, que vivia isolado em uma ilha do zoológico, o orangotango desenvolve seus planos de ação revolucionária. E paro por aqui para não “entregar o ouro ao bandido/leitor”.
      Vale observar que o livro de Marcelo Rubens Paiva, em um momento de intensa conturbação política, lança um curioso olhar sobre os dilemas do homem contemporâneo. Faz isso com qualidade alegórica ao propor que vejamos a nós mesmos pela ótica do outro, neste caso a do orangotango. Naturalmente, há uma ironia neste quesito, pois a racionalidade, no livro e talvez fora dele, parece estar mais ao lado dos macacos do que dos homens. Vivemos como os bichos presos em um zoológico. Aliás, segundo uma lógica perspectivista, poderíamos dizer que para o orangotango somos nós os macacos.     

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória (PR), em 19 de maio de 2018. 

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Wilson Bueno, Mascate de Palavras




Em maio de 2010, o escritor paranaense Wilson Bueno foi brutalmente assassinado em sua própria casa. Ele vivia no Bacacheri, em Curitiba, mas sua verdadeira morada estava situada no mundo das belas palavras, com seus variados matizes, suas nuances fronteiriças que, sem dúvida, contribuíram para expandir sua língua literária. Desde então, lamentamos a perda de um dos escritores mais inusitados, inventivos e singulares da literatura latino-americana contemporânea.
Bueno tencionou como poucos no Brasil os limites da língua. Com suas fusões linguísticas trans-geográficas, em seus volteios transbarrocos, em suas torções sintáticas, extraiu do encurvamento de suas formas uma potência poética bastante incomum, capaz de contagiar e contaminar o nosso idioma com outros falares. Aliás, André Dhôtel escreveu certa vez que a única maneira de defender uma língua é atacá-la e que “cada escritor é obrigado a fabricar para si uma língua”. Os bons escritores são aqueles que criam a sua própria língua. Guimarães Rosa que o diga. Gilles Deleuze, o filósofo das dobras, por sua vez, observou que escrever não significa impor uma forma a uma matéria viva. Isso porque a literatura está antes “ao lado do informe, ou do inacabamento”. Nesse sentido, para ele, escrever é um caso de devir, “sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”. Clarice Lispector diria, com outras palavras: “Quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz”.

Ilustração: Ricardo Humberto

A prosa de Wilson Bueno desabrocha em rodas de redemoinho, dobrando-se e desdobrando-se sobre si mesma, cada vez que abrimos seus livros a dançar com suas palavras. Das crônicas poéticas de “Bolero´s Bar” (1986) ao testamento literário de “Mano, a noite está velha” (2011), o autor produziu uma série de pérolas que transitaram da poesia concisa aos bestiários, passando pelo diálogo com outros autores – Machado de Assis e Kafka em dois livros específicos - e pela confecção de uma prosa poética neobarroca. Em sua obra, o autor forjou uma curiosa língua literária, misturando o português, o espanhol, o guarani e inclusive o árabe, fazendo do contato entre tais domínios linguísticos um caso amoroso com conotações eróticas. É o que desenvolveu, por exemplo, na bela e inquietante novela “Mar Paraguayo” (1992), que segundo Heloísa Buarque de Hollanda, “promove a declaração, subterrânea, da falência das fronteiras”. Sua política de (des)territorialização da linguagem parece ter reafirmado o argumento de Sérgio Buarque de Holanda de que “somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”, ou ainda de que somos sempre e inevitavelmente, na língua que for, estranhos a nós mesmos. 



Há um livro ainda muito pouco conhecido de Bueno no qual a mistura erótica das línguas se expande para a própria narrativa. Trata-se de “Mascate”, novela publicada postumamente, em 2014, pela Yiyi Jambo Cartonera, e ambientada na fronteira do Brasil - possivelmente no Mato Grosso do Sul - com seu país hermano, o Paraguai. A obra discorre sobre a relação amorosa entre uma prostituta - possivelmente um homem travestido de mulher ou um transgênero, fica apenas sugerido - e um árabe de nome Faissal Mohamed el-Rachid, um mascate que se torna amante da protagonista. No texto, a narradora, que se diz “marafona” (como na novela “Mar Paraguayo”), se põe a escrever sobre o seu amor ao sírio, que conheceu “en la tarde preguiçossa del putero de Eldorado do Paraná con su maletita comercial llena de bugigangas preciosas”. A história deste encontro, “aberta a la felicidade del viento”, é considerada pela protagonista como uma “charla mateada de azúcar y vino”.


Com suas alegrias e tristezas, a marafona vai desfiando lembranças de seus encontros amorosos com Faissal, expressando seus desejos, lamentando sua partida: “tratê desto muezim pî’aitteguivé, com carícias y indormidas auroras”. No entanto, o grande tema do livro parece ser a própria linguagem amorosa. E como nos ensinou Barthes, o discurso amoroso é sempre de uma extrema solidão. Para ele, o amante não para de correr dentro da própria cabeça. Sua fala existe unicamente por “ondas de linguagem”. Nas linhas de “Mascate”, mais do que escrever sobre o desejo – que em certo sentido se revela impossível – a narradora corporifica a própria linguagem como objeto de desejo. O que deseja aqui e quer ser desejado é o próprio texto, cama de lençóis e palavras. E naturalmente o desejo do amor aumenta à medida que surge a impossibilidade de satisfazê-lo. É quando Rachid vai embora. E sofre o coração da narradora: “En esto momento turbinado y turbilhonado es apenas um corazón latindo às ecâncaras, descarado y lacrimoso, mi marafo corazón pidiendo a los derruimentos del dia ni que sea un miligrama de ternura, atención ô lo que sea el amor”.  


Em meio às frases do livro, surgem palavras árabes e guaranis que vão se integrando ao portunhol selvagem de Bueno: Ahd lulo (colar de pérolas), Ãrtiah nafse (paz de espírito), biah (mascate), shoh lal watta (crepúsculo), biah ashiah sãcar (doce mascate amante meu), purahéirori (canção alegre), tecorori (alegria), taperé (povoado deserto), ñuatimbucú (espinho), che che mandu´á (eu me recordo), entre tantas outras. Essa algaravia babélica poderia ser lida de vários modos na obra de Bueno. Aponto apenas para uma das possíveis reflexões. Trata-se de pensar nos contatos entre culturas diferentes, principalmente em zonas fronteiriças, gerando falares híbridos que problematizam a ideia de uma territorialidade estável. Essa pluralidade linguística e cultural é bem assimilada por Wilson Bueno que soube tirar proveito disso sem esquecer de que as palavras não têm fronteiras. 

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR),
 em 12 de maio de 2018.


domingo, 6 de maio de 2018

Onde estão os anônimos que assentaram os tijolos? Por onde anda Raduan Nassar?



Há alguns dias, 23 de abril, a juíza Carolina Lebbos negou vários pedidos de visita a Lula, que está preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Isso dias depois de não autorizar também as visitas do teólogo Leonardo Boff e do prêmio Nobel da Paz, o argentino Adolfo Pérez Esquivel. As fotos de Boff sentado em frente à sede da PF, independente de questões partidárias, são comoventes, lembrando um quadro de Edward Hooper. Entre os vinte e três pedidos indeferidos pela juíza, um chamou-me a atenção em especial, aquele feito pelo escritor Raduan Nassar. 
Autor de uma das obras mais potentes e bonitas da literatura brasileira do século XX – certamente uma das que mais me emocionam -, Raduan Nassar ficou conhecido depois de publicar “Lavoura Arcaica” (1975) e “Um Copo de Cólera” (1978). Causou um frenesi nos meios literários pela alta qualidade de sua narrativa e logo depois, misteriosamente, silenciou, parando de escrever e abandonando, assim, a literatura. Os leitores tiveram que se contentar com a publicação nos anos 90 de uma série de pequenos relatos antigos, reunidos pela Companhia das Letras com o título “Menina a Caminho”. Raduan desapareceu da mídia, comprou um sítio e virou agricultor, talvez pensando em cultivar plantas mais nobres. Os motivos que o levaram a abandonar a escrita literária foram amplamente discutidos pela crítica, mas nunca devidamente elucidados. São mistérios do autor e sua arte.



Raduan prosperou como agricultor, a fazenda cresceu e há alguns anos o escritor reapareceu na mídia devido ao fato de ter doado a propriedade para o Governo Federal com a contrapartida de que ali fosse instalado um complexo universitário que oferecesse acesso gratuito ao ensino superior a filhos de trabalhadores rurais, negros e indígenas. O Governo, na época presidido por Lula, aceitou e hoje ali funciona um campus vinculado à UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), atendendo mais de quinhentos alunos. Uma parte da propriedade foi doada a um antigo e leal funcionário de Raduan.
Avesso a entrevistas e aparições na mídia, o discreto autor voltou a aparecer em 2016 quando recebeu o Prêmio Camões de Literatura, o mais importante da Língua Portuguesa. Na cerimônia de premiação, Raduan disparou um discurso crítico contra o Governo – um dos responsáveis pela premiação -, sustentando que os fatos atuais, pós-impeachment, configuram um governo repressor atrelado ao neoliberalismo com sua “escandalosa concentração de riquezas”: “(...) mesmo o governo que está aí foi posto e continua amparado pelo Ministério Público e de resto pelo Supremo Tribunal Federal”. O discurso foi rebatido logo após pelo Ministro da Cultura na época, Roberto Freire, em uma veemente defesa ao Governo de Temer. Freire foi vaiado pela plateia.


Fico pensando nesses três episódios, o pedido de visita negado, a doação de sua propriedade para a construção de um campus universitário, o forte discurso contra o Governo na premiação Camões. Soma-se a esses acontecimentos um outro, não menos curioso. Durante a campanha presidencial de Dilma, o autor gravou um vídeo que circulou na internet em apoio à candidata. Fatos inusitados para quem conhece o perfil do escritor e agricultor recluso. Episódios que demonstram não ser assim tão silencioso o seu silêncio. Pelo contrário, Raduan reverbera politicamente na literatura e fora dela. Trata-se da tomada de posição do intelectual em tempos de crise.
Depois do Prêmio Camões, em 2016, Raduan teve toda a sua produção reunida em um volume intitulado “Obra Completa”, que saiu também pela Companhia das Letras. Além dos já citados livros, a publicação trouxe ainda dois contos inéditos e o curioso e belo ensaio “A corrente do esforço humano”, escrito em 1981, mas publicado só em 1987, na Alemanha. Imagino que este ensaio nos ajuda a entender melhor o pensamento do literato, bem como compreender os episódios citados.
No texto, Raduan critica o complexo de inferioridade que ronda os brasileiros, a se sentirem, em sua grande maioria, menos importantes que os estrangeiros. Para o autor, as ideias de que os produtos importados são melhores e de que o homem europeu é superior são antigas e estão muito presentes no pensamento do brasileiro e mesmo no do estrangeiro. Para Raduan, apesar das mudanças ocorridas no pós-guerra, o prestígio europeu ainda é enorme. O homem comum assim como os povos periféricos jamais tiveram seus nomes inscritos como vencedores: “Entretanto, quando se entra em uma residência bem posta, é legítimo perguntar, diante do orgulho do dono da casa, onde estão os anônimos que assentaram os tijolos”. Como seria legítimo perguntar, para os países desenvolvidos, “onde estão os povos, humilhados e ofendidos que concorreram para o seu brilho”. O escritor defende, ao invés da importação e da cópia dos países desenvolvidos, a absorção do que interessaria à suposta comunidade brasileira em termos de pesquisa e conquistas técnicas. Isso porque as ideias são universais, “pertencendo antes à corrente do esforço humano (...)”. Perto de encerrar o ensaio, Raduan Nassar escreve: “Supondo-se que todo homem seja portador de uma exigência ética, não há como estar de acordo com a dominação de uns sobre os outros”. O texto assim nos apresenta um Raduan muito consciente e politizado. Seu silêncio faz barulho.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR, no dia 05 de maio de 2017

sábado, 21 de abril de 2018

Os últimos ensaios/anseios de Leminski




Recentemente, a editora Grafatório reuniu em uma bela edição artesanal, intitulada “A hora da lâmina” (2017), os últimos ensaios do poeta Paulo Leminski, publicados na Folha de Londrina entre abril e junho de 1989, algumas semanas antes de sua trágica e precoce partida. Inéditos até agora em livro, os artigos – caracterizados pelo autor como textos-ninja – mostram a vitalidade, a inteligência e a versatilidade que o artista curitibano carregou até o final da vida.
Poeta, prosador, tradutor, compositor e roteirista, tendo atuado também no jornalismo, na publicidade e na televisão, Leminski foi uma das mentalidades mais criativas da segunda metade do século XX no Brasil. Herdeiro do concretismo e de outros movimentos vanguardistas - mas também leitor de uma tradição clássica que vai da literatura grega e latina até à poesia oriental -, o paranaense foi autor de alguns dos livros mais interessantes da literatura brasileira contemporânea. Nos últimos anos, sua obra literária e musical tem sido reavaliada e consagrada pelo público, e o samurai malandro - como Leyla Perrone Moisés o caracterizou - vai passando de poeta de província à celebridade nacional.

Leminski foi também professor de cursinho e lutador de judô

A veia ensaística de Leminski – ainda desconhecida ou não muito lida por boa parte dos leitores - é muito fértil e de certa forma põe em relação a criatividade poética do escritor bem como seu olhar crítico não apenas sobre a literatura, mas sobre a cultura em geral, atingindo, assim, outros domínios, como os da música, da filosofia, da política etc. Ele escreveu no prefácio de “Anseios Crípticos” - sua primeira antologia de artigos -, que seus anseios/ensaios eram “incursões conceptuais em busca do sentido”. Para Leminski, só buscar sentido fazia realmente sentido na vida. Dessa forma, os ensaios publicados em jornais e revistas o ajudavam a entender a literatura, a arte, a vida em geral, bem como permitiam a ele comunicar com os leitores seu olhar sobre o mundo. Registre-se que o poeta não gostava que seus textos-ninja fossem chamados de crônicas, talvez por perceber neles uma potencialidade poética e reflexiva que suplantava o gênero tradicionalmente explorado por escritores em jornais brasileiros.
Leminski teve tempo de publicar oito pequenos textos na Folha de Londrina antes de sua morte (o primeiro ensaio foi publicado no dia 07 de abril de 1989, exatamente dois meses antes do suspiro derradeiro). Mesmo bastante fragilizado pela cirrose hepática, e sem conseguir se livrar do vício pelo álcool, o escritor não abriu mão daquela qualidade que caracterizou toda a sua produção.


Felipe Machado, editor de “A hora da lâmina”, observou no prefácio do livro que, em seus textos derradeiros, Leminski esboçou um “verdadeiro elogio do conflito”, lançando bases para um “entendimento bélico da vida cotidiana”. Isso porque em tais ensaios o autor escreveu sem trégua e feito um franco-atirador sobre alguns temas que caracterizaram sua produção crítica e poética, como o rock and roll, a publicidade, a cultura zen e a arte da guerra.
Nos textos iniciais, “Como era boa nossa banda” e “Subversive rock”, Leminski parece ironizar e ao mesmo tempo lamentar a decadência dos grandes gestos, radicais e revolucionários, do rock em roll, estilo que “fez a cabeça” de muitos nos anos 70, 80 e 90. O poeta-ensaísta cita Titãs, Ultraje a Rigor, Legião Urbana, Ira!, RPM, Paralamas do Sucesso, Lobão, Cazuza, sem talvez imaginar que eles sobreviveriam a ele (alguns na ativa até hoje).
No texto sobre a publicidade, o autor esboça uma reflexão bastante ácida sobre seu universo a moldar, com sua força irresistível, os padrões de gosto social. Como os apelos da publicidade se voltam, segundo Leminski, para o hedonismo mais pueril, não estranha vermos nesse mundo um equivalente do “colo materno”. O consumo equivale à grande mãe a fornecer a seus filhos, conforto, segurança e o prazer do aconchego. O poeta, que era também publicitário, sabia muito bem o que isso significava.



Nos textos sobre a filosofia zen, Leminski discute, por exemplo, a separação do corpo e da mente operada por nossa cultura, em contraposição à filosofia zen, que postula uma relação de unidade entre esses dois elementos. Leminski observa que ela pode ser encontrada na prática do lúdico, na arte, no esporte, no amor e no sexo. São áreas do inutensílio – conceito amplamente discutido em sua obra – em que vivemos para além da tirania do lucro e da objetividade.
Nos últimos textos, a guerra é o tema sobre o qual volteia o pensamento ninja do poeta. Neles, o autor discute - da Guerra do Contestado à obra de Sun Tzu, Clausewitz e Myamoto Musashi - a arte da guerra como inerente aos “modos de ser cotidianos de cada pessoa”. Isso não significa que o autor faz apologia à guerra, mas apenas que ela não é analisada apenas como algo que traz dor e destruição, mas também que permite ao homem aprimorar seus limites, conhecendo-se mais plenamente. Há, então, no último Leminski, a “assunção plena do caráter bélico do ato de viver”, para usar sua frase no ensaio “Plano Dois”. Nesse sentido, Leminski aprendeu com a arte da guerra a lutar na guerra da vida. E fez disso também uma arte. O último ensaio saiu no jornal cinco dias antes de dizer adeus. Lutou e escreveu até o final.      

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória (PR), em 21 de abril de 2018

terça-feira, 17 de abril de 2018



Em memória de Jofre Mansur 
(1930-2018)


Lá na Síria
Alá ouve a prece
De tantos patrícios
E uma mãe grita e chora
Enquanto Cristo abraça
o menino morto 
Por bombas e tiros

Onde estarão agora
Os Chaerk, os Mansur,
Os que têm sangue de Elias?
Em Damasco, Alepo,
Al Hasakah, ou em Palmira?
E se tivessem vindo também
Para estes lados
Imigrantes árabes
Primos refugiados
Fazendo daqui outra Síria,
Como seria?

Tanto horror
Pela honra do Ocidente
Tanto ódio a troco de nada
Quem lavará o sangue
Dos sírios
Que escorre a rodo
Pela calçada?


c.moreira,
(Bisneto de Elias Mansur,
Que emigrou de Damasco ao Brasil
Em 1912)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Pequeno ensaio sobre os vaga-lumes e a prisão de Lula




Eu estava preparando para este jornal um texto sobre o poeta japonês Matsuo Bashô quando, no meio do caminho, um acontecimento político desviou a minha rota. E para meus filhos e netos não dizerem no futuro que me calei sobre esse episódio e para a minha consciência continuar como está e para os leitores não pensarem que a política brasileira está agora mais limpa resolvi, então, escrever sobre vaga-lumes.
Sejamos contemporâneos, enxerguemos na escuridão. Giorgio Agamben escreveu em seu belo ensaio “O que é o contemporâneo?” que “todos os tempos são, para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros”. E ser contemporâneo, para ele, é justamente ser capaz de ver essa obscuridade, ser capaz de escrever “mergulhando a pena nas trevas do presente”. Para o filósofo italiano, contemporâneo é aquele que “mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”. Eu acrescentaria a este argumento a ideia de que contemporâneo é também aquele capaz de iluminar, mesmo que com uma discreta luz de vaga-lume, as trevas de seu tempo. Para esta conclusão, inspiro-me no livro “Sobrevivência dos Vaga-lumes”, de Georges Didi-Huberman. Lanço aqui alguns lampejos do quebra-cabeça, na expectativa de que o leitor junte suas peças.
No livro, Didi-Huberman - depois de evocar uma imagem do “Inferno”, de Dante, que diz respeito à aparição de uma pequena luz de vaga-lumes a revelar com seu fulgor os “conselheiros pérfidos” -, relembra de uma carta de Pier Paolo Pasolini encaminhada a seu amigo Franco Farolfi no auge da 2ª Guerra, na qual celebra a amizade e descreve uma noite em que vislumbrou, em Pieve del Pino, uma revoada de vaga-lumes. Em pleno conflito, esses pequenos insetos preencheram a escuridão com seu voo amoroso e luzidio. A irradiação de sua luz, mesmo que frágil e fugaz, seria uma alternativa aos “tempos muito sombrios ou iluminados do fascismo triunfante”. E a arte com sua luz de vaga-lume nos ajuda a pensar e entender melhor a vida quando o mundo escurece.


Algumas décadas depois, Pasolini - associando o momento trágico do pós-guerra, bem como a sobrevivência do fascismo, ao desaparecimento dos vaga-lumes - publicou um artigo no qual refletiu sobre o vazio do poder na Itália, bem como o comportamento imposto pelo poder do consumo a remodelar e deformar a consciência do povo italiano. O cineasta denunciou não apenas a violência policial do período, mas também um genocídio cultural e o desprezo pela Constituição.



Hoje, mais de quarenta anos depois do trágico e brutal assassinato de Pasolini, vivemos ainda um tempo em que “os conselheiros pérfidos estão em plena glória luminosa”. E ao invés de protestar contra a prisão de Lula – questão complexa que tomaria muitas páginas -, prefiro perguntar: “Por que a parcela de brasileiros que teve uma catarse com a prisão de Lula não reivindica com o mesmo afinco o julgamento e a condenação de tantos outros - os quais sabemos – que livres, blindados e tranquilos estão?” Não sou a favor de corrupção, nem de impunidade, muito menos engajado em querelas partidárias e é justamente por isso que me sinto à vontade para escrever sobre isso, não com imparcialidade (sabemos que ela não existe no âmbito das ideias), mas com parcimônia. Como escreveu meu amigo Luisandro Mendes de Souza, “se a sociedade acha que depois da segunda instância o réu deve ser preso, que se mude a Constituição. Mas enquanto isso, o réu pode recorrer em liberdade enquanto tiver chance de recurso. Se assassino pode recorrer em liberdade, porque alguém acusado de corrupção não poderia?”. Por que é o Lula? Não se trata de partidarismo, mas de uma questão legal.


Denunciando uma assimilação (total) ao “modo e à qualidade de vida da burguesia”, Pasolini nos convida a tomar consciência da tragédia. E qual seria ela? A de que “não existem mais seres humanos; só se veem singulares engenhocas que se lançam umas contra as outras”. Não é a isso que temos assistido dia após dia nas redes sociais? O povo, em meio a mil e uma manipulações midiáticas, vai perdendo a capacidade de ler e refletir sobre as coisas. Isso de todos os lados, da esquerda à direita, do popular ao erudito, do rico ao pobre. Não precisamos abrir mão de nossas paixões para avaliar com mais clareza uma determinada situação. No entanto, a catarse a que estamos assistindo – com direito a fogos de artifício pelas cidades, performances bizarras no hotel mal-afamado de Oscar Maroni e slogans como “leva e não traz nunca mais” - escancara a velha e já conhecida história: somos apresentados a um vilão, a um antagonista e torcemos para que ele sofra, morra ou apodreça na cadeia no último capítulo da novela, enquanto os outros personagens, na igreja, assistem ao casamento da mocinha e do mocinho e todos ficam, assim, felizes para sempre. E outra novela começa. Essa é a forma mais fácil e automática de ler, enxergando a vida como quem assiste a uma novela, geralmente global. E se alguém é associado a um dos lados, já vem milhares do outro com pedras na mão. Só que a vida não é uma novela. O jeito é virar vaga-lume.  


Vaga-lumes são aqueles que não se deixam cegar pela luz total dos projetores de shows políticos ou dos palcos de televisão, bem como aqueles que, em meio às trevas do tempo, não deixam de emitir sua luz, seus sinais, seus lúcidos pensamentos. Aliás, a expressão “lucidus”, do latim, deriva de luminoso, ou seja, aquele que é provido de luz. Vaga-lumes são aqueles seres desassossegados que leem com atenção e que, desconfiando das verdades absolutas ou impostas, enxergam melhor no escuro, ou seja, resistem. Aos poucos, pequenas luzes de vaga-lumes vão se unindo, formando uma constelação capaz de iluminar toda uma noite.
Certa vez, Roland Barthes escreveu que o Poder, seja qual for, por ser violência, nunca olha: “se olhasse um minuto a mais (um minuto demais), perderia sua essência de poder”. Para ele, o artista, ao contrário, para e olha demoradamente. E isso é perigoso, pois “olhar mais tempo do que o solicitado (...) desarranja todas as ordens estabelecidas, sejam elas quais forem”. Até porque o próprio tempo do olhar é controlado pela sociedade. Os vaga-lumes, param, olham e, dessa forma, iluminam. Precisamos deles para entender melhor o que está acontecendo. Que a arte e a política nos convidem também a este voo. Aprendamos a ler melhor.

Publicado originalmente no jornal Caiçara,
em União da Vitória, PR, 
em 14 de abril de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Três da tarde




Oh, Senhores, não quero que me destilem o veneno ou que me descortinem o véu de seus saberes, hoje quero só os sabores.
Cientistas, não quero classificar as borboletas no museu dos insetos, quero assistir ao voo de suas coloridas asas.
O menino que sonhava em ser poeta acordou um dia pensando que o traçado do desenho era apenas uma fronteira na qual as cores encontravam seu limite de ser e que não fazia mais sentido  saber se o volume de dentro é que definia o objeto, permitindo-lhe ser o que era, ou se era o espaço por fora que o contornava, dando-lhe forma e exatidão.
Às três da tarde de um onze de abril qualquer, sento em um banco qualquer de uma praça qualquer e descubro o sentido da vida.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

caio


deus nos livre de tantos caios
que aqui assim caíram
fazendo do mundo
um imenso palco meu

seja o caio prado jr.
ou aquele que é castro
ou ainda o petrônio
ou o caio fernando abreu
feliz de quem tem um caio
feliz de quem o caio escolheu

c.moreira

terça-feira, 10 de abril de 2018

Os bons ares de César Aira




César Aira é um dos mais interessantes e produtivos escritores da literatura argentina contemporânea, tendo publicado até agora quase uma centena de livros. Ele escreve pelo menos uma página por dia, o que lhe rende a criação de duas ou três novelas (até quatro) em média por ano – somando-se a essa cifra, às vezes, um livro de ensaios. Ele é assim uma espécie de máquina alucinada de produzir ficção.
Certa vez, o autor defendeu a ideia de que um artista contemporâneo não é aquele que produz obras, mas aquele que inventa procedimentos para que as obras se façam sozinhas. É dessa forma que Aira se constituiu como escritor, inventando um procedimento que se repete com diferença a cada livro, geralmente tencionando os limites do realismo, e acrescentando a esse realismo uma boa dose de “nonsense” que lhe vem de uma certa inventividade vanguardista mais preocupada com a invenção e com a quantidade do que com as tradicionais categorias literárias de qualidade e genialidade. E é talvez por estar despreocupado com a qualidade que o argentino produza uma das obras mais significativas da atual literatura de língua espanhola. Escreve sem medo, distraído vence, arriscando acerta. Talvez essa despretensão seja apenas um jogo também.
Cada livro de Aira é um universo esperado e comemorado pelos leitores. Seus enredos começam geralmente de uma forma bastante banal e vão aos poucos investindo na loucura e no inusitado, encaminhando a história, não raro, para algum cataclismo ou para o apocalipse. O fim do mundo aparece, então, com recorrência em sua obra. Seus personagens, inicialmente banais, vão se revelando muito diferentes do que os leitores esperavam. Seres comuns vão se transformando em robôs, travestis, monstros, ou títeres medonhos. O verossímil e o inverossímil para o argentino não são elementos opostos, e a sua escrita vai, dessa forma, passando de um a outro com desenvoltura.  


Pouco traduzido ainda no Brasil, César Aira tem sido o escritor argentino mais cotado para o Nobel de Literatura. Mas ele não está preocupado com isso. Aira parece não levar a sério a literatura, mas isso pode ser apenas uma ilusão. Seus ensaios assemelham-se, geralmente, a fábulas ou são construídos criativamente como sua ficção. Suas novelas, por sua vez, produzem teorias (tome-se como exemplo seu livro “Nouvelles Impressions du Petit Maroc” editado pela Cultura e Barbárie, em 2011) ou assemelham-se, por vezes, a ensaios que nos convidam ao filosofar. Tudo isso a partir de hábeis jogos de ideias que divertem e fazem pensar. E se esse texto sobre Aira não explica nada é porque a obra desse autor parece produzir não apenas a suspensão do sentido, mas também uma crise no comentário. O melhor jeito de (des)conhecer um escritor é lendo-o.
Sergio Pitol escreveu certa vez que Aira é um dos poucos autores que fazem da escritura uma celebração. Sinto que sua obra me reconcilia com a literatura, porque ler é uma forma de se divertir e mergulho em seus livrinhos justamente em busca de diversão. Abro suas páginas também para passar o tempo. Aliás, o próprio escritor anotou em seu livro “Continuación de ideas diversas” (Universidad Diego Portales, 2014) que ler é um modo de ocupar o tempo assim como as práticas artísticas – todas elas – têm como finalidade principal ocupar o nosso tempo.
Relembremos brevemente, a título de curiosidade, o enredo de algumas novelas aireanas. Em “Um acontecimento na vida do pintor viajante” - publicado em 2000 e editado no Brasil pela Nova Fronteira em 2006 -, o autor recupera a viagem do pintor alemão Rugendas pela Argentina, no século XIX (o pintor veio também para o Brasil com a expedição chefiada pelo Barão de Langsdorff). O livro é pretexto para Aira falar sobre a relação entre arte, história e vida. Em “Congresso de Literatura” (Ula, 1997), somos apresentados a uma série de clones do escritor Carlos Fuentes dispostos a dominar o mundo. Em “Os mistérios de Rosário” (Emecé, 2012), deparamo-nos com o fim do mundo iniciado em uma cidade do interior da Argentina depois que um grupo de professores de uma universidade se vê envolvido em uma manobra de alteração climática.
Em “As noites de Flores” (Nova Fronteira, 2004), o autor imagina a rotina de um casal de aposentados, Aldo e Rosa, que se vê obrigado, depois da crise que assolou a Argentina, no início do século XXI, a trabalhar durante a noite, entregando pizzas a pé no bairro de Flores, nos arredores de Buenos Aires. Mas a história é apenas pretexto para Aira enlouquecer o enredo, produzindo seus volteios esquizofrênicos.  


Em “O Mago” (Mondadori, 2002), Aira retrata um mágico que não possui imaginação. Ou seja, tem o talento, mas não consegue tirar proveito dele. Ao longo do livro, depois de concluir que a magia é a sua realidade e de suspeitar de que, por isso, a sua realidade é uma invenção, o mágico encontra um grupo de editores que o motivam a escrever livros em série. Se ele era mágico, poderia tirar da cartola muitas e muitas obras. Seria um escritor reconhecido e produtivo. Mas, ao contrário do mago, Aira parece possuir não apenas o talento, mas também a imaginação. De que vale uma arte sem ela?   

Publicado originalmente no dia 07 de abril no jornal Caiçara, em União da Vitória (PR)

domingo, 1 de abril de 2018

Chile, 1973, entre a cultura e a barbárie




Nos anos 70, o padre e crítico literário chileno Sebastián Urrutia Lacroix foi contratado para - no estopim do Golpe Militar que tirou do poder Salvador Allende -, dar aulas de marxismo para o ditador Augusto Pinochet e para membros de sua Junta Militar. Ainda jovem, Sebastián trava amizade com o renomado Farewell, proprietário rural que é também um crítico renomado, e que será responsável pela inserção do amigo no mundo das letras. Depois de passar um tempo na Europa, distanciado da realidade política latino-americana, o padre volta para o Chile e encontra o país mergulhado no abismo de uma ditadura atroz. É nesse momento que ele é convidado a lecionar para o General Pinochet. Eis o pano de fundo sobre o qual se descortina o livro “Noturno do Chile” (Companhia das Letras) - publicado originalmente no ano 2000, no Brasil em 2004 -, de Roberto Bolaño, um dos mais representativos escritores da literatura latino-americana contemporânea.


Há sete anos, adquiri um exemplar da obra e, desde então, ela estava esquecida em minha estante. Como um bom vinho chileno, guardado em uma adega, o livro de Bolaño permaneceu para mim ilustremente desconhecido, envelhecendo dignamente. Os motivos que nos levam a ler um livro e não outro são tão misteriosos quanto os verdadeiros motivos que levam um autor a escrevê-lo. No entanto, em meio a tantas barbáries, a tanto descrédito dos direitos humanos, a tanta brutalidade que nos envergonha o país, abri suas páginas esta semana e o li. Talvez o livro tenha me procurado justamente agora por algum motivo especial. E como os vinhos maturados, com os quais convivemos afetuosamente antes da degustação, a obra, oriunda da terra de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, ganhou assim um sabor especial.  
“Noturno do Chile” é a confissão de um Sebastián velho e angustiado em relação a sua participação, mesmo que anônima, nos bastidores da história de seu país. Assim ele abre suas memórias: “Agora estou morrendo, mas ainda tenho muita coisa para dizer. Estava em paz comigo mesmo. Mudo e em paz. Mas de repente surgiram as coisas. Agora não estou em paz”. Então, o padre desfia suas lembranças desde a amizade com o crítico Farewell na juventude, quando conheceu e conviveu com boa parte da intelectualidade chilena, a viagem que fez para a Europa com o objetivo de estudar técnicas de conservação de catedrais, até o seu retorno à terral natal, nos anos 70, quando encontra o país mergulhado em uma crise social depois da morte de Allende e da tomada de poder dos militares, situação que perduraria até os anos 90. Dar aulas de marxismo para Pinochet seria cômico se não fosse trágico. Soa como uma ironia ao passo que parece refletir sobre as relações entre a cultura e a barbárie.    

Pinochet e membros de sua junta militar

Notemos que é graças à projeção intelectual que Sebastián é levado a participar do terror. Em uma das passagens do livro, o narrador relembra os encontros literários na casa de María Canales, lugar que sediava não apenas noites artísticas, mas também sessões de tortura em seu porão. Os visitantes não sabiam e nem sonhavam. Muitas pessoas teriam sido assassinadas naquele lugar. O mesmo casal que promovia a vida cultural em Santiago levava a cabo as políticas do horror naquele estado de exceção. Nesse sentido, uma reflexão sobre a relação entre barbárie e cultura parece ser um dos aspectos mais interessantes do livro. No entanto, a obra transcende a questão política ou social para promover um mergulho nos dilemas humanos. Isso tudo por meio de uma linguagem e de uma construção narrativa que fez de Bolaño um dos maiores prosadores de língua espanhola dos últimos anos.
O autor chileno não está preocupado apenas com a história que conta, seja aquela da ficção ou mesmo a dos episódios sinistros que macularam a América Latina. Está preocupado em primeiro lugar em praticar uma literatura consciente do seu papel e de seu destino no que se refere à qualidade de linguagem, a um ritmo fluido e vertiginoso, bem como a uma grande capacidade de construir imagens.  


Nas páginas finais, o narrador relembra que, em uma das noitadas literárias na casa de María Canales, um dos visitantes - não se sabe se homem ou mulher -, à procura de um banheiro, entra sem querer no porão onde se davam as torturas. María era casada com James Thompson, um empresário americano que prestava serviços para a ditadura chilena. O visitante abriu a porta, acendeu a luz e viu que sobre uma cama havia um homem nu, amarrado pelos pulsos e tornozelos: “O extraviado ou a extraviada, sumida instantaneamente a bebedeira, fechou a porta e tornou em silêncio sobre seus passos. Quando chegou à sala, pediu um uísque, depois outro, e não disse nada”. O elemento assustador não está apenas na tortura, mas também no silêncio daquele que testemunhou e não denunciou. Nem ao menos demonstrou pavor. Eis o silêncio do intelectual. Em tempos de horror podem ser encontrados na cultura ecos também de barbárie. Em outras palavras, o que fazer na arte e na vida com a morte de Marielle e de tantos outros? Inquietamo-nos ou calamos? Afinal de contas, quem matou Marielle?

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória (PR), em 24 de março de 2018.