sábado, 23 de fevereiro de 2019

Política e Poesia no cinema: uma reflexão sobre o filme “No Intenso Agora”, de João Moreira Salles




“No Intenso Agora”, o mais recente filme de João Moreira Salles, faz jus à beleza e profundidade do cinema deste que é um dos mais importantes documentaristas do Brasil contemporâneo. Discípulo direto de Eduardo Coutinho, o cineasta já tinha presenteado o público com belas produções, como “Nelson Freire”, uma cinebiografia do maior pianista brasileiro, “Notícias de uma Guerra Particular”, que retrata o cotidiano dos traficantes e moradores de uma favela carioca, “Entreatos”, no qual o diretor acompanhou a campanha presidencial de Lula em 2002, e o premiadíssimo “Santiago”, um perfil poético do mordomo da família Moreira Salles, obra que na minha opinião é uma mais importantes da história cinematográfica de nosso país.

João Moreira Salles

João Moreira Salles, em “No Intenso Agora”, parte de vídeos caseiros e anotações realizados por sua mãe durante uma viagem à China, em 1966, confrontando este episódio com uma reflexão sobre as manifestações de Maio de 68, na França, bem como passando brevemente pela Primavera de Praga, e pela Ditadura Brasileira. O que todos esses acontecimentos têm em comum, além de atravessarem ou serem atravessados pelo mesmo tempo, é uma questão que vai se delineando ao longo do filme e que contribui para o seu sentido sem deixar de apelar para a sensibilidade do espectador em lê-lo de forma particular. Nesse aspecto, vale considerar que a forma como o filme é montado faz dele um documento não apenas político, mas também intensamente poético, o que é recorrente na obra de Moreira Salles. O próprio título aponta para uma das chaves de interpretação da película que é a questão do tempo, a forma como lidamos com ele, a forma como somos transformados por ele. E ao assistirmos ao filme fica claro o quão atual ele é. O seu tempo é profundamente presente assim como o nosso tempo é profundamente político, assim como é político todo o tempo para todos aqueles que em sua época experimentaram verdadeiramente o seu tempo.


O filme traz um conjunto de registros cinematográficos históricos. Das utopias de Maio de 68, movimento encabeçado por estudantes franceses, até a melancólica constatação de que aquele levante reproduziu as tradicionais estruturas de poder (negros e mulheres, por exemplo, eram, infelizmente, personagens secundárias naquela luta); do engajamento dos operários nas manifestações parisienses e outras cidades da Europa até o fim trágico de jovens como Gilles Tautin e Pierre Beylot; dos ânimos que moveram a Primavera de Praga, que marcou um período de libertação política na Tchecoslováquia durante a dominação Soviética até a autoimolação de Jan Palach, que cometeu suicídio como forma de protesto político naquele país; do entusiasmo militar no Brasil dos anos 60 até a morte do estudante secundarista Edson Luis, assassinado por militares em 1968, no centro do Rio de Janeiro. Todos esses episódios percorrem “No Intenso Agora” como a sinalizar os espectadores para incêndios futuros. E se esses acontecimentos estão no filme é porque alguém os registrou. Eles estão na história. Em um momento da obra, o cineasta observa que essas imagens existem porque a liberdade de expressão não acabou de um dia para a noite. À medida que isso acontecia aumentava a sensação de urgência, enquanto ainda era possível o registro, o testemunho. O filme, nesse sentido, acaba refletindo também sobre os usos políticos das imagens. É uma de suas contribuições.




A milhares de quilômetros da França, da Tchecoslováquia, ou do Brasil, a mãe de João Moreira Salles, na China de Mao e da Revolução Cultural, encontrava um mundo muito diferente do seu. Deparou-se com o inesperado, com muitos homens e mulheres, camponeses, operários, ferroviários, enfim, com experiências de vida diferentes da sua. Fico pensando na imensa semelhança entre os diários e registros de vídeo da mãe do cineasta com os “Cadernos da Viagem à China”, de Roland Barthes, que esteve lá alguns anos depois, em 1974. Barthes encontra no país a preclusão da sensualidade, os cortes de cabelo codificados, a abolição do erotismo, as caligrafias bonitas, o excesso de organização, a ausência de incidentes. Há em seus cadernos um grande número de enumerações, fartas descrições como que a compor séries fotográficas, como por exemplo: “Cinema. Granizo. Balcão. Primeira fileira. Muito Grande. Povaréu. Granizo” e “Farmácia chinesa. Mil gavetas antigas. Cheiro. Pequena balança”. 

Barthes desenha Confúcio em seus Cadernos de Viagem

Barthes e Julia Kristeva na China

Barthes e o grupo Tel Quel na China

Barthes parece ver o país de forma mais negativa, a ponto de confessar – devido ao malogro da viagem - que não tem muito o que anotar, o que contrasta de fato com tudo o que anotou. Ele reclama constantemente de enxaquecas, o que talvez tenha lhe tirado o ânimo da escrita. A mãe de João Moreira Salles, por sua vez, se entusiasma com a viagem. Para ela, a China é muito mais interessante que o Japão, ao contrário de Barthes, que o considera mais inspirador. No entanto, em suas diferentes visões sobre a China, coisas parecidas lhes chamam a atenção, como o coral de meninas dançando e cantando músicas patrióticas (os dois reparam em seus dedos), ambos analisam com atenção os cartazes com dizeres políticos que se espalham pela cidade, ambos visitam localidades semelhantes, monumentos e palácios, ambos escrevem sobre a Cidade Proibida e a Grande Muralha da China.

Elisa Gonçalves, mãe de João Moreira Salles

O balé feminino chinês


Se para Alberto Moravia a Muralha lhe sugere uma serpente, para a mãe do cineasta, a gigantesca edificação se parece com um grande rio. Barthes, por sua vez, apenas descreve o ambiente: “Nublado, frio, glacial mesmo. Muita gente indo e vindo. A montanha ao redor é pelada”. Se a imagem de Moravia aponta para um aspecto selvagem e violento, caracterizado pela serpente, e a descrição de Barthes para a frieza, a associação da mãe, por sua vez, aponta para o tempo, como um rio a fluir lento e constante. Em ambos os lugares, no Oriente e no Ocidente, na China ou na França, Tchecoslováquia ou Brasil, um mundo lutando contra o tempo, mas vivendo-o intensamente no agora.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 23 de fevereiro de 2018

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Tempos sombrios: o que fazer quando reina a obscuridade? Apontamentos sobre “Levantes”, de Georges Didi-Huberman




“Tempos sombrios: o que fazer quando reina a obscuridade?”. A pergunta é feita por Georges Didi-Huberman, em uma passagem da obra “Levantes” (Edições Sesc, 2017): “Pode-se simplesmente esperar, dobrar-se, aceitar. Dizemos a nós mesmos que vai passar. Tentamos nos acostumar”. De tanto nos acostumarmos não esperamos mais nada. E isso equivale à morte do desejo. No entanto, Freud apontou em seu livro sobre o sonho para a indestrutibilidade disso que chamamos de desejo. É exatamente essa possibilidade que nos faria, em plena escuridão, “buscar uma luz apesar de tudo, por mais fraca que fosse”. Para Didi-Huberman, tempos sombrios são “tempos de chumbo”. Eles nos impedem de ver mais além, sufocando nosso desejo, bem como nossa capacidade de pensar. No entanto, a sobrevivência do desejo nos convida ao levante, ou seja, ao ato de levantar-se, rebelar-se, para assumir a vocação do insurgente em dizer “não!”, “eu não concordo!”, desestabilizando assim as potências de uma situação estabelecida, de um poder que tolhe liberdades e oprime.

Didi-Huberman

 “Levantes” apresenta uma vasta reflexão sobre o tema das revoltas sociais, das lutas em prol de melhores condições de vida, das conjurações contra um poder absoluto e opressor. O livro conta com a participação dos teóricos Antonio Negri, Judith Butler, Jacques Rancière, Marie-José Mondzain e Nicole Brenez, além de Didi-Huberman, e traz também o catálogo da exposição que dá nome à obra, e que aconteceu em países como Espanha, México, Argentina e Brasil, entre 2016 e 2018.

Aquilo que se levanta...
Imagem que integra o livro e a exposição
Dennis Adams, Patriot, Série Airborne, 2002.

Segundo Judith Butler, um levante acontece quando pessoas começam a se agrupar, a se deslocar, a se manifestar em público e agir para “desmantelar um regime ou o poder ao qual se sujeitam”. Trata-se, assim, de uma convicção compartilhada capaz de produzir um abalo sísmico no cotidiano social. Geralmente, o Estado vê o levante como uma manifestação caótica, desnecessária e sem fundamento, o que não raro leva o mesmo a usar da intervenção das forças policiais e/ou do exército como uma forma de coibir o levante. Muitos exemplos poderiam ser citados aqui, de “Maio de 68” à “Primavera Árabe”, passando pelo protesto das “Madres de Mayo”, em Buenos Aires, e pelo ataque aos professores da Rede Pública do Estado do Paraná, em Curitiba, no já famoso “29 de Abril”. Tantos outros poderiam ser citados: o “Blackout”, de Nova York, em 1977, as manifestações contra a ditadura no Brasil dos anos 60, as barricadas francesas do século XIX.  


29 de Abril, em Curitiba (PR), Ataque aos Professores

Para Antonio Negri, o levante é sempre uma aventura coletiva: “A ciência política atesta esse fato e exige que o soberano prepare instrumentos para a repressão de qualquer eventual rebelião”. Há nesse processo uma ação linguística, performativa, já que sem o dizer não há levante: “Um manifesto, um escrito, uma inscrição, uma mensagem, um símbolo, uma bandeira, um simples aperto de mão para perguntar ou aprovar; ou ainda o punho fechado: são palavras”, escreve Negri. Falando nisso, como não lembrar, por exemplo, do famoso gesto dos Panteras Negras, nos Estados Unidos: um levantar do braço, um cerrar do punho, ou seja, um levante por excelência.


Didi-Huberman escreve que o levante se faz, de início, com o exercício da imaginação, que “ergue montanhas”. E quando nos levantamos, diante de algo que nos oprime, opomos àqueles que querem tornar impossíveis nossos movimentos a “resistência de forças que são antes de tudo desejos e imaginações, ou seja, forças psíquicas de desencadeamento e de reabertura de possibilidades”. Nesse sentido, o levante é, acima de tudo, uma resistência capaz de fazer sobreviver nossa capacidade de imaginar e sonhar em tempos sombrios.
O livro apresenta também as imagens que integraram a referida exposição, como uma fotografia dos Parangolés, do brasileiro Hélio Oiticica, que revolucionaram o conceito de arte em uma época de grande repressão; desenhos de Goya representando rebeliões; ilustrações expressionistas de Käthe Kollwitz; fotos de Tina Modotti, na Revolução Mexicana; de Alberto Korda, em Cuba em tempos de Fidel Castro e Che Guevara; uma foto de Will Ronis, retratando uma operária discursando em uma fábrica em Paris (1938); as famosas fotografias de Gilles  Caron, registrando protestos nos anos 60; o conhecido cartaz de Hélio Oiticica “Seja Marginal Seja Herói” (1968); imagens de intervenções de Asger Jorn, Man Ray, Carl Einstein e John Heartfield; a fotografia de Manuel Álvarez Bravo, flagrando um operário assassinado em 1934; o registro da autoimolação de um monge budista em Saigon (1963), feito por Malcom Browne; imagens de jovens mortos na Manifestação da Frente de Libertação Grega, em Atenas, realizadas por Dmitri Kessel, em 1944.

Avós da Praça de Maio

El Quijote de la Farola - Alberto Korda - Havana, 1959

Parangolé, de Hélio Oiticica, no Museu Reina Sofia
Aquilo que se levanta

Cildo Meireles

Esses são apenas alguns exemplos de imagens que imortalizaram levantes dos mais variados ao longo da história. Destaca-se entre eles uma imagem da montagem do brasileiro Cildo Meireles dispondo cédulas de dinheiro carimbadas nos anos 70 com a frase: “Quem Matou Herzog?”, que mostra o quão política pode ser uma intervenção poética. São exemplos que apontam para a íntima relação entre o gesto de levantar-se e a possibilidade de manter viva, em tempos obscuros, a capacidade de desejar.

Caio Ricardo Bona Moreira

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Uma macumba para começar bem o ano: Reflexões sobre “Fogo no Mato”, de Luiz Rufino e Luiz Antonio Simas




Acostumados com as obras tradicionais de filosofia, na certa os leitores se espantariam com as páginas de “Fogo no Mato: A ciência encantada das macumbas” (2018, Mórula Editorial), do pedagogo Luiz Rufino, que é doutor em Educação, e do Luiz Antonio Simas, professor de História e cronista de mão cheia. Repletas de alegria e pensamento, de provocação e sábio engenho, as páginas deste curioso livro nos convidam a um passeio por um mundo ainda pouco decifrado e reconhecido pela academia. Isso porque estamos diante de um conjunto de saberes ancestrais e sagrados que alimentam uma rica e complexa teia de cultura popular que só aos poucos vai sendo assimilada pelo nosso mundo secular. Trata-se, aqui, de um Brasil compreendido como terreiro, no qual os encantados, os atabaques, as benzeduras, os juremeiros, Santos e Orixás, fazem a sua morada.  

Mãe Terezinha Bulhões na Cidade de Maria do Acaes. 2008. Foto de Mariana Lima.

As veredas pelas quais passeiam os autores do livro são repletas de encruzilhadas e feitiços capazes de desnortear os leitores que não estiverem dispostos a entrar no jogo de seus encantos. Em uma época na qual a pluralidade de perspectivas é abolida em favor de um sentido único, e as históricas intolerâncias vão se adaptando ao mundo moderno, o estudo de Simas e Rufino reinsere a lógica do cruzamento e o caminho da pluralidade como fonte de excelência para o pensamento. Ao mesmo tempo que afirma sua potência filosófica - apontando outros caminhos para o pensar -, o livro investe em um olhar antropológico que apresenta a nossa cultura popular religiosa, de matriz afro, como detentora de saberes capazes não só de enriquecer o nosso conhecimento, mas também de devolver potência para zonas não domesticadas do nosso corpo e do nosso espírito, alargando nosso olhar para outras concepções de mundo. Essa é uma questão tanto poética quanto política, tanto filosófica quanto antropológica: “(...)há que se ler o encanto para se entender a ciência”.


Os escritores observam que o Atlântico é uma gigantesca encruzilhada: “Por ela atravessaram sabedorias de outras terras que vieram imantadas nos corpos, suportes de memórias e de experiências múltiplas que lançadas na via do não retorno, da desterritorialização e do despedaçamento cognitivo e identitário, reconstruíram-se no próprio curso, no transe, reinventando a si e ao mundo”. Há em “Fogo no Mato” um perspectivismo voltado para a cultura africana que parece dialogar com o perspectivismo ameríndio desenvolvido pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.
 Rufino e Simas partem do pressuposto de que o colonialismo se construiu em detrimento daquilo que foi produzido como sendo o seu outro, gerando uma descredibilidade de “inúmeras formas de existência e de saber”. Trata-se de uma dominação que produziu a morte física, por meio do extermínio, bem como simbólica, através do que os autores chamam de “desvio existencial”.


Desviando desse caminho colonialista, o livro aponta para a valorização de uma perspectiva da ancestralidade, segundo a qual a morte só existe como sinônimo de esquecimento. Aponta também para a perspectiva do encantamento, ao mergulhar no complexo epistemológico das macumbas. Estamos, aqui, diante de uma “pedagogia da encruza” e de uma “arte de cruzamento”. Aliás, a obra traz uma bela nota introdutória na qual ressignifica o termo “macumbeiro”: “definição de caráter brilhante e político, que subverte sentidos preconceituosos atribuídos de todos os lados ao termo repudiado e admite as impurezas, contradições e rasuras como fundantes de uma maneira encantada de se encarar e ler o mundo no alargamento das gramáticas. O macumbeiro reconhece a plenitude da beleza, da sofisticação e da alteridade entre as gentes”. A nota recupera a etimologia da palavra macumbeiro, que vem provavelmente do quicongo “kumba”, que quer dizer feiticeiro. Kumba também designaria os encantadores das palavras, ou seja, os poetas: “Macumba seria, então, a terra dos poetas do feitiço; os encantadores de corpos e palavras que podem fustigar e atazanar a razão intransigente e propor maneiras plurais de reexistência pela radicalidade do encanto, em meio às doenças geradas pela retidão castradora do mundo como experiência singular de morte”. Lindo, não?  


O livro recupera uma certa dimensão mágica da vida ao valorizar elementos que são tradicionalmente tratados como escória, isso por uma questão histórica e política. Refiro-me às culturas periféricas que por serem legadas pelo lado mais fraco (e, no entanto, fortes sempre foram) acabaram por ser completamente desvalorizadas. A cultura que imperou como dominante no Brasil foi a europeia-branca-ocidental, ficando à margem a dos negros e índios. Mas como o jogo ainda não terminou, não nos cabe falar em vencedores ou perdedores. Aos poucos, os que foram vencidos até agora vão se afirmando e conquistando o direito à voz que nunca lhes deveria ter sido tolhido.
A figura em torno da qual gira a filosofia-poética no livro de Rufino e Simas é Exu, o Senhor dos Caminhos, que é o Orixá que faz a ponte entre o céu e a terra, o Orum e o Aiê. Sua figura é controversa, complexa e ambivalente, difícil de ser compreendida, ainda mais do ponto de vista ocidental. Sua cultura se distribui pelo livro como uma forma alternativa de pensamento. Só lendo o livro para perceber sua riqueza. Reza a lenda que Exu é o Orixá que deve ser saudado antes dos outros. É mote para macumba, no primeiro artigo do ano, para que tudo comece bem. Feliz 2019 a todos! Saravá! 


 Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 25 de janeiro de 2019.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Sylvio Back, Yndio do Brasil




Acabo de publicar no mais recente número da revista argentina "Jardín de los Poetas" um artigo sobre o filme Yndio do Brasil, de Sylvio Back, que reúne uma série de fragmentos de obras cinematográficas brasileiras e estrangeiras que abordaram o índio ao longo do século XX. A partir da leitura de Georges Didi-Huberman, proponho uma reflexão sobre a potência poética e política do filme, que desmonta os sentidos tradicionais das obras abordadas, explorando a montagem como procedimento formal e como método de conhecimento. Ao mergulhar no que poderíamos chamar de poética ameríndia, Sylvio Back faz do cinema um veículo de arte e resistência.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA: reflexões sobre o tempo




No final do ano passado, fiz aqui neste espaço um balanço de 2017 no que se refere às leituras literárias que realizei naquele período. Todo final de ano é tempo de refletir sobre o que passou na expectativa de criar um horizonte de possibilidades para o tempo que virá.
Em 2018, para além das obras que apresentei nesta coluna, gastei o meu tempo com outras leituras não menos inestimáveis. É uma pena não ter tempo para comentar sobre elas. Certa vez, César Aira escreveu que ler, como todas as demais atividades, “é um modo de ocupar o tempo”. Poderíamos substituir o verbo ocupar pelo perder, a título de brincadeira. Brinquemos rapidamente com o tempo (aliás, brincar é uma das formas mais interessantes de gastá-lo, e vem daí o sentido de sua inutilidade demasiado prazerosa).


Suponhamos que eu gaste aproximadamente três minutos para ler a página de um livro e ele tenha duzentas e cinquenta páginas (alguns podem ter mais ou menos, tire-se uma média). Isso significa que eu gastaria setecentos e cinquenta minutos para lê-lo, ou seja, umas doze horas e meia. Conto aqui o tempo bruto, sem pausas para descanso ou outras atividades. Se eu ler uma média de 60 livros no ano (um por semana, mais ou menos), já são setecentas e cinquenta horas de leitura, ou seja, algo em torno de trinta e um dias, o que equivale a um mês de leitura ininterrupta. O cálculo é apenas hipotético, portanto sem precisão, mas revela já um dado assustador, o valor que damos aos grifos que chamamos de textos.


Dobrando o tempo dessa atividade ao considerar a leitura de jornais, revistas e outros veículos que contemplam a literatura, poderíamos aumentar a dose para dois meses de pura leitura. Isso sem considerar o tempo que gastamos lendo ensaios acadêmicos, textos de alunos a serem avaliados ou revisados, provas a serem corrigidas, placas de trânsito, bulas de remédio, legendas de filmes, e-mails, mensagens de celular, manuais de instrução, outdoors, cardápios, extratos bancários, horóscopo, etc etc etc. Isso sem considerar o tempo que se gasta para se escrever uma página, bem maior do que aquele que gastamos para lê-la (o tempo seria multiplicado ainda mais). São vários textos escritos para o jornal durante o ano, alguns artigos científicos, uma série de relatórios da Universidade, etc etc etc. São coisas do ofício. Concentremo-nos apenas na leitura gratuita. Quantas outras coisas poderíamos fazer ou inventar com esse precioso tempo? Mas talvez resida nesse dispêndio a altivez de nossa vida, fora de qualquer ideia capitalista de acúmulo econômico do tempo. Georges Bataille chegou a escrever sobre o Potlatch, uma cerimônia religiosa de tribos indígenas norte-americanas na qual, depois de um longo período de acúmulo de bens (como alimentos, por exemplo), gastava-se tudo em apenas uma festa, valorizando-se assim o puro gasto. Penso que a leitura desinteressada seria uma espécie de Potlatch. Ler é uma festa.


Talvez precisemos ler menos para viver mais, no entanto quem garante que ao abandonarmos os livros seremos mais felizes, melhores pais, cônjuges, filhos, amigos, cidadãos? Imagino que quem joga e assiste ao futebol toda semana, investe o seu tempo em algo que lhe dá prazer de forma não muito diferente. E a importância do que lemos e escrevemos pode não ser maior do que a beleza e o prazer que podemos encontrar em uma partida esportiva. São formas de brincar e de gastar o tempo. Um jogo pode ser mais trágico, belo, ou filosófico que uma peça teatral, por exemplo. Nelson Rodrigues sabia disso. Rimbaud abandonou a literatura para viver a vida ao se transformar em um viajante e traficante de armas na Etiópia. Não teria sido essa aventura sua obra mais poética? Se o tempo do Natal é tempo de reflexão, fica, então, lançada a questão.


Vinícius de Moraes, um poeta que tenho descoberto e redescoberto com alegria imensa e curiosidade renovada desde há alguns anos, ao escrever um poema sobre o Natal, em 1946, deixou de lado os aspectos folclóricos e religiosos da data para refletir sobre o motivo da vida, ou seja, sobre aquilo para o que fomos feitos, tudo isso pensando no tempo. No texto, o escritor (libriano como eu) se inspira no Natal para tecer um olhar não apenas sobre o nascimento (assunto indissoluvelmente ligado a essa festividade), mas também sobre o andar da carruagem da vida e sobre a morte. Segundo Vinícius, fomos feitos para “lembrar e ser lembrados”, para “chorar e fazer chorar”, e para “enterrar os nossos mortos”. Na última estrofe, ele observa que fomos feitos para a “esperança no milagre”, para a “participação da poesia”, e para “ver a face da morte”. E finaliza escrevendo: “(...) de repente nunca mais esperaremos... / hoje a noite é jovem; da morte, apenas / nascemos imensamente”. Retirar a morte dessa aura de horror e vê-la principalmente como uma fonte de vida, ou melhor de renovação, é mais do que uma ideia para Vinícius, mas parte de uma maneira singular e religiosa de ver a vida. Nada acaba, tudo se transforma. A expectação do nascimento de Cristo, que se repete por meio do rito, aponta de certa forma para a expectação de um novo período, um novo ano, que nasce como Cristo, e nos convida a renascer com ele. Vinícius chegou a escrever outros poemas sobre o Natal. Um deles integra a famosa série da “Arca de Noé”, pensada para as crianças, e outro acompanha uma crônica de 1953, que se encerra com a seguinte estrofe: “Muito tempo faz... / mas ninguém olvida / que é um dia de paz... / porque fez-se a vida!”.



Na imaginação de Mario Quintana, lá bem no alto de um décimo andar do Ano, vive uma louca chamada Esperança: “E ela pensa que quando todas as sirenas / todas as buzinas; todos os reco-recos tocarem / atira-se / e / - Ó delicioso voo / ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada / outra vez criança (...)”. E tudo recomeçará. Mario devolve sentido para o famoso dito de que a esperança é a última que morre. Que possamos nos encontrar sempre lá, vivos na calçada de 2019, e tendo ao nosso lado incólume – meninazinha de olhos verdes – a louca Esperança: “Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam: — O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...”. Gastemos todo o nosso tempo para gestá-la se inexistente, para lapidá-la se pedra, para encontrá-la se perdida, para regá-la se planta, ou alimentá-la se pequena e frágil. Feliz Natal a todos! Que venha o próximo tempo! E que ele esteja repleto de boas leituras, porque elas sempre honram o precioso tempo que gastamos com elas.



Obs: Agradeço ao jornal Caiçara por gastar seu importante espaço com minhas palavras, permitindo-me nele gastar o meu tempo, brincando com aquilo que amo, com essas palavras que me dizem tanto a respeito de quase tudo.

Publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 22 de dezembro de 2018



sábado, 15 de dezembro de 2018

Maria Bethânia: voz encorpada que (en)canta




Maria Bethânia é para mim mais do que uma intérprete. Tal como o vento, é difícil explicá-la. Até porque, feito uma ventania, Bethânia não carece de explicação. Como um vendaval, pode-se não gostar dela, mas nenhum abrigo é cem por cento seguro (a céu aberto é impossível fugir de uma tempestade). E uma hora ou outra é possível que ela nos encontre os ouvidos e corações abertos. Bethânia não carece também de entendimento. Apenas é. E se fosse preciso ir além do verbo ser – na possibilidade de uma caracterização - eu arriscaria dizer que para mim Bethânia é uma espécie de entidade, dessas que não usam sapatos e flutuam. Não desejo dessa forma mitificá-la (romancear ao exagero uma pessoa como eu ou você, de carne e osso), pois isso seria mascarar a realidade e Bethânia é pura realidade. E pulsa como um texto de Clarice Lispector. Sua voz me soa mágica e cheia de mistérios, e a impressão que tive ao ouvi-la em Porto Alegre, em 28 de novembro, no Auditório Araújo Vianna, é de que seu canto preenche os espaços, ocupa o vazio, aumenta o que nos rodeia. É o que eu disse para a Géssica - esposa/musa que me acompanhava -, na saída do show. Durante duas horas, ao lado de Zeca Pagodinho, a voz da cantora – com sua presença imponente e majestosa - aumentou os espaços, ampliou os sentidos, veludosamente.


Com uma banda que reunia músicos que trabalham com ambos, os dois artistas entraram juntos no palco cantando um lindo samba composto por Caetano Veloso, especialmente para a turnê “De Santo Amaro a Xerém”. A canção, repleta de jogos de palavras, com seus gingados peculiares, une o universo de ambos os artistas, evocando as suas comunidades, a saber, Santo Amaro, na Bahia (Bethânia) e Xerém, no Rio de Janeiro (Zeca Pagodinho): “No alto brilho / um risco raro / que passa do mal ao bem / por cima formando um aro por baixo / um trilho de trem / de Guadalupe ao Amparo / de Xerém a Santo Amaro / de Santo Amaro a Xerém (...)”. Na sequência, “Sonho Meu”, de dona Ivone Lara, embalou o público, assim como a linda “Reconvexo”, de Caetano, algumas pérolas de Gonzaguinha, “Negue”, de Adelino Moreira e Enzo de Almeida Pessoa, que foi imortalizada por Ataulfo Alves, entre outras pérolas bem brasileiras que vieram depois. A plateia delirou. De fato, o show iluminou aquela rio-grandense noite de quarta-feira.


Leitor, leia a prosa poética de “Água Viva”, de Clarice Lispector, e lá encontrará a seguinte frase que talvez ajude a explicar o inexplicável de Bethânia: “Esta é a vida vista pela vida. Posso não ter sentido mas é a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa”. Para além de qualquer entendimento, a arte de Bethânia não se explica porque é corpo e voz postos em movimento (performance), em ação integradora com os ventos e com a terra. Bethânia é ventania, incontestável. Eparrei!


Caetano Veloso observou certa vez que ler Clarice Lispector era como estar diante de uma pessoa. Penso algo semelhante sobre a célebre filha de Dona Canô e irmã de Caetano. Ouvir Bethânia é como estar diante de uma pessoa. O que não significa que essa experiência não tenha um q de sobrenatural. Aliás, Bethânia conta um episódio curioso sobre seu primeiro encontro com Clarice. No final de um show, a cantora sai do camarim e se depara com a escritora falando sobre as faíscas que enxergava em volta dela. Algum tempo depois, ao conhecer a Mãe Menininha do Gantois, em Salvador, e de reverenciar a Mãe de Santo mais conhecida da Bahia, Bethânia diz que a célebre matriarca religiosa afirmou ter visto nela as mesmas faíscas. 


Há um texto no livro “Algo Infiel: Corpo, performance e tradução” (Cultura & Barbárie, 2017), de Guilherme Gontijo Flores e Rodrigo Tadeu Gonçalves que trata de um show de Maria Bethânia. No ensaio, um dos autores (Guilherme ou Rodrigo, não se sabe) escreve que, ao assistir à intérprete cantando os versos ingênuos de “É o Amor”, com uma potência inesperada, entrou em transe: “Do transe muito material que a voz de alguém que canta pode produzir em qualquer um, do transe corpóreo de toda performance”. A canção de Zezé di Camargo & Luciano, extremamente gasta pela recorrência com que foi veiculada pelas mídias, numa obsessão sertaneja desenfreada, ganhou outros contornos na voz de Bethânia. O que prova que a canção é “a abertura por onde o corpo e a voz se fazem sentido, é o espaço em que a forma se completa sempre a caminho – como na etimologia de performance – uma canção só é uma canção quando está num corpo”. E Bethânia canta com o corpo todo. Nesse sentido, sua voz encorpada (en)canta. Segundo o autor do texto, a longa carreira de Bethânia, “capaz de transitar entre a suposta elite cultural e os hits da AM, no decorrer de cinco décadas, é um exemplar precioso da poética do corpo e da poética no corpo”. Celebremos isso tudo. 


Texto publicado inicialmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 15 de dezembro de 2018.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Para ler ao som de Black Sheep Boy, de Tim Hardin: Apontamentos sobre “Só Garotos”, de Patti Smith






Em 2018, a Companhia das Letras reimprimiu as memórias afetivas da escritora, cantora, compositora, desenhista e fotógrafa Patti Smith, um ícone da contracultura norte-americana, que se popularizou durante o movimento punk. O livro intitulado “Só Garotos” – lançado inicialmente em 2010 e traduzido para o português por Alexandre Barbosa de Souza -, é um retrato da curiosa vida da artista na Nova York dos anos 60 e 70, quando ela conviveu com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, um de seus grandes incentivadores e para quem ela prometeu escrever o livro um pouco antes dele morrer. Na capa da edição brasileira, a autora aparece em Coney Island, ao lado do companheiro de aventuras amorosas e estéticas, ambos dignamente trajados à moda dos anos 60, meio hippies e beatniks.

Patti Smith e Robert Mapplethorpe, em Coney Island

A obra se inicia com a infância de Patricia Lee Smith e se encerra com a morte de Robert. Entre os dois episódios, as memórias da escritora vão sendo evocadas e tecidas, poética e delicadamente. Depois de uma gravidez indesejada na adolescência – fato que a levou a entregar seu filho para adoção -, Patti parte para Nova York com a intenção de se tornar uma artista. Ao longo das páginas que se seguem a esse momento de ruptura, os capítulos vão apresentando as suas aventuras na metrópole com ênfase em seu gradativo contato com artistas nova-iorquinos dos mais variados. Do emprego que consegue na cantina Joey´s, na Times Square, passando por um trabalho na livraria Scribner´s, até a sua projeção artística, a autora vai relatando suas descobertas musicais e literárias que vão de Vanilla Fudge, Tim Burkley, Tim Hardim até William Blake, Allen Ginsberg, Dylan Thomas, Bob Dylan, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin etc. Tudo tendo como pano de fundo sua hospedagem em apartamentos baratos, divididos com o companheiro Robert até uma fértil estada no Hotel Chelsea, que serviu de moradia para muitas personalidades e seres curiosos.

No Hotel Chelsea

Patti Smith frequenta com assiduidade a cena cultural underground da cidade – com direito a paradas obrigatórias em bares e casas noturnas que movimentam a cidade mais populosa dos Estados Unidos -, e aos poucos, as portas do mundo da arte vão se abrindo. Mas ela não está buscando se tornar uma celebridade, pois faz parte daquela linhagem de artistas meio misantrópicos que criam seu próprio universo e que só desejam expressar aquela verdade artística que brota do coração e que só é encontrada em sujeitos que nasceram destinados a povoar o mundo com suas belezas particulares. Aliás, em uma das passagens do livro, a escritora apresenta sua concepção de arte. Para ela, “o artista é aquele ser que busca entrar em contato com sua noção intuitiva dos deuses, mas, para criar seu trabalho, não pode permanecer nesse domínio sedutor e incorpóreo. Ele deve voltar ao mundo material para fazer sua obra”. A responsabilidade do artista, nesse sentido, é “equilibrar a comunhão mística com o trabalho criativo”. Nota-se a dimensão sagrada que Patti Smith dá para a arte, sendo o artista esse ser que, independente dos seus mistérios, não abre mão da terra e de transformar essa comunhão na prática efetiva de uma criação, o que não diminui em nada a dimensão mágica de seu afazer.
O livro não relata somente sua vida no interior e em Nova York, mas também uma viagem até a França, quando Patti visita Charleville, cidade natal do poeta simbolista Rimbaud, seu ídolo. Em Paris, visita a sepultura de outro ícone, Jim Morrison, e confessa sentir naquele lugar uma leveza no peito, nada triste: “Senti que ele poderia a qualquer momento sair do meio da neblina e tocar o meu ombro”.

Na sepultura de Jim Morrisson

Em um dos momentos mais comoventes do livro, é descrita a morte de Robert, vítima da AIDS. Personagem tão importante quanto a própria autora, o fotógrafo percorre as páginas de “Só Garotos”, como que a escrever o livro com ela: “Meu amor por ele não podia salvá-lo. Seu amor pela vida não podia salvá-lo. Foi a primeira vez que entendi de verdade que ele ia morrer. (...) A luz entrava pelas janelas sobre suas fotografias e o poema de nós dois juntos pela última vez. Robert morrendo: criando silêncio. Eu, destinada a viver, ouvindo atentamente um silêncio que demoraria uma vida para expressar”. A passagem concentra toda a energia que levou Patti Smith a escrever esse livro.

Com Robert Mapplethorpe

Uma das lembranças marcantes registradas na autobiografia diz respeito ao momento em que Bob Dylan foi assisti-la pela primeira vez em seu show: “Ele estava lá. Subitamente entendi a origem da eletricidade no ar. Bob Dylan tinha entrado no clube. Saber disso teve um estranho efeito sobre mim. Em vez de abatida, senti o poder, talvez dele; mas senti também meu próprio valor e o valor de minha banda”. Há dois anos, Patti Smith apareceu cantando na entrega do prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan. Ela representou o artista que não compareceu. Na sua inesquecível performance, a artista cantou “A hard rain´ a-gonna fall” (1962), composta pelo agraciado e, visivelmente emocionada, atrapalhou-se na letra, desculpando-se pelo fato e tendo que reiniciar a apresentação, emocionando também o público. Foi um fato digno de sua espontaneidade, singularidade, humildade e brilhantismo. 

Na entrega do Nobel a Bob Dylan



Texto publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 01 de dezembro de 2018

domingo, 25 de novembro de 2018

Ondjaki e a poesia como laboratório da língua




Há alguns anos, em uma entrevista concedida à revista literária Etcétera, de Curitiba, o poeta Ademir Assunção observou que a linguagem constrói mundos e quando um autor desautomatiza a linguagem, dependendo do grau de sucesso nisso, “desautomatiza também a percepção do mundo dos leitores e modifica a percepção da realidade, ou das realidades”. Gosto desse argumento porque ele traz à tona uma das grandes questões que envolve a vocação da poesia, que é a de ser um laboratório da língua, lugar onde ela (a língua) se experimenta na sua máxima potencialidade. Pensamos condicionados pelas regras de nossa língua e a poesia, ao desautomatizar a linguagem, tirando-a de seu lugar comum, da zona de conforto do idioma, é nesse sentido uma fonte proteica não só de toda e qualquer língua, mas também do próprio pensamento. A poesia é essa máquina de produzir imagens tal qual caleidoscópio. Giramos, lemos, e assim novos desenhos estão destinados a brotarem do risco (friso aqui o duplo sentido) de todo e qualquer poeta. Poderíamos dizer também, redesenhando os traços de Ademir Assunção, que a poesia, ao desmontar a linguagem, desmonta também a nossa forma de ver o mundo. Desmontagem e desautomatização são essenciais no jogo da atividade poética. Gire mais o caleidoscópio e verá uma sempre nova paisagem de formas e cores. Desmontar a linguagem tem a ver nesse sentido com o ato de brincar. O jogo está sempre presente na lógica de uma brincadeira. E isso dá prazer. O poeta brinca com as palavras, como a criança faz seus jogos na moral de seu brinquedo.


Ademir Assunção

Escrevo tudo isso apenas para saudar a poesia de Ondjaki, escritor nascido em 1977 na cidade de Luanda. Premiado na Angola, seu país de origem, na Europa, e também no Brasil, Ondjaki é autor de romances, contos e poesia, tendo sido traduzido já para o francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio e sueco. Basta abrir seu livro de poemas “Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas” (Pallas, 2011), para percebermos a desautomatização da linguagem de que nos fala Ademir Assunção, gerada em grande parte pela desmontagem da língua portuguesa, a começar pelo próprio título da obra. Essa experiência, que faz lembrar a todo instante do mestre brasileiro Manoel de Barros - aliás fartamente incensado no livro -, faz de Ondjaki uma das vozes renovadoras da literatura de língua portuguesa.

Ondjaki

A todo instante os poemas do angolano, ao desmontarem a linguagem tradicional - produzindo aquele estranhamento que faz da poesia o que a poesia é, na emergência de sua literariedade – embaralham as ideias e os sentidos do leitor apontando para novos sentidos fecundados por sua sensibilidade lírica, bem como por suas experiências frasais (fractais) capazes de alimentarem não apenas sua língua poética, mas principalmente a imaginação do leitor, uma imaginação que é também conhecimento profundo sobre as coisas. Ondjaki olha para o chão a todo instante como a colher estrelas, bem como observa com afinco o céu para nele semear o alimento de sua escrita. Seguindo o preceito de Manoel de Barros, para quem é preciso “chegar a traste para ter grandezas”, o poeta Ondjaki escreve no poema “Chão”, que abre o livro: apetece-me des-ser-me; / reatribuir-me a átomo. / cuspir castanhos grãos / mas gargantadentro; / isto seja: engolir-me para mim / poucochinho a cada vez. / um por mais um: areios. / assim esculpir-me a barro / e re-ser chão. Muito chão. / apetece-me chãonhe-ser-me”. Seus jogos verbais vão estabelecendo uma sintaxe muito peculiar que me faz lembrar daquilo que escreveu Vilém Flusser sobre a poesia, entendida como uma espécie de língua nova. 

Vilém Flusser

Para ele, a característica do verso é a sua originalidade e a poesia produz a língua, porque “articula o inarticulado”. Flusser conclui que a poesia é nesse sentido a “fonte da verdade”. Eis a filosofia do poema. Seu alimento está, naturalmente, na imaginação e na capacidade de ler o mundo com outros olhos: “o pirilampo é a lanterna do poeta”, escreve Ondjaki em um de seus versos. De outros poemas, podem ser pinçados lances poéticos como: “A folha é parede verde / para o sol chegar”; “A despalavreação / pode acrescer de uma vida”; “Encarar o universo com / demasiada intimidade / - a modos que quintal”; “Para ser grilo / há que ter desnoções”.


Nos versos de Ondjaki, um galho pode gentificar uma arve (árvore), um só olhar pode ser uma “voz não dita”, a linha da água pode ser um espelho para o céu “narcisar-se”; a terra experimenta alturas, e o poeta pode ter o céu sob seus pés, até porque “nunca é impossível / pisar um chão de estrelas”; a lágrima é “sensação que escorrega”. Em seu dicionário poético, que encerra o livro, o autor define a palavra “despalavreação”: “é um ensinamento, uma desaprendizagem. Um desmomento. E tem outros nomes: guimarães prosa, manoel de barro, luuandino vieira, mia conto, ou qualquer ser humano que sorria no gigantesco significado das coisas insignificantes”. Estão aí suas influências, ou melhor suas afluências, já que tratamos da poetização de seu mundo natural, ou da naturalização de seu mundo poético.
Para finalizar, uma confissão: não consegui explicar a poesia de Ondjaki. Nem mesmo entendê-la. Natural. Causo que ela não carece de explicação ou entendimento. Como dizia Manoel de Barros, mallarmaicamente, ao comentar em carta os poemas do “camarada angolano”, a “palavra poética não serve para expressar ideias – serve para cantar, celebrar”. Ou como dizia Cacaso, “Poesia / Eu não te escrevo / eu te / Vivo / E viva nós”.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 24 de novembro de 2018.