sábado, 21 de julho de 2018

Enrique Vila-Matas, explorador de abismos




Enrique Vila-Matas inicia “Exploradores do Abismo” (Cosac Naify, 2013) com uma reflexão que pode nos ajudar a compreender melhor não apenas o grande tema do livro, mas principalmente um projeto literário embutido na trajetória do escritor catalão que fez da literatura o grande assunto de sua obra: “Vou pensando que um livro nasce de uma insatisfação, nasce de um vazio, cujos perímetros vão se revelando no decorrer e no final do trabalho. Escrever, certamente, é preencher esse vazio”. A reflexão integra o texto “Café Cubista”, uma espécie de prefácio para a coletânea de contos, ou melhor, de relatos, ou mesmo tijolos, como sugeriu Daniel Pellizari, ao tratar de “Exploradores do Abismo”. Isso porque, segundo ele, os textos deste volume “compartilham personagens, ideias, linhas narrativas”. Todos eles, direta ou indiretamente, trazem à baila o vazio, o abismo, ou o desaparecimento que move os seres na vida cotidiana, bem como a atividade do escritor na seara da arte contemporânea.


A questão do desaparecimento do autor, bem como o mergulho no vazio ou abismo como essência da atividade literária, que aparecem com recorrência em Vila-Matas, encontram ressonância em outros autores que são evocados em seus livros, como Robert Walser (principalmente em “Doutor Pasavento”), Bob Dylan (em “Ar de Dylan”), James Joyce (em “Dublinesca”), Michel Foucault, Giorgio Agamben, Sergio Pitol, Franz Kafka, Maurice Blanchot, Fernando Pessoa, entre tantos outros - alguns às vezes inventados, como boa parte daqueles que figuram em “Bartleby e companhia” e “Mal de Montano”, duas de suas publicações mais interessantes. Todos eles poderiam ser considerados como exploradores do abismo. Aliás, no livro que leva este nome, os exploradores, segundo o escritor, são otimistas e suas histórias são, em geral, a de pessoas comuns que, ao se ver à beira de um precipício fatal, “adotam a postura do expedicionário e sondam o horizonte plausível, perguntando-se o que pode haver fora daqui, ou além de nossos limites”. São pessoas que “desdenham o tédio existencial tão em voga, parecendo gente antiquada e muito ativa, que mantém uma relação desinibida e direta com o vazio”. Aliás, como observei, é com o vazio que Vila-Matas preenche seu livro “Exploradores do Abismo”.
No conto “A modesta”, por exemplo, o narrador mergulha na procura vazia de uma passante que, à maneira daquela personagem do poema de Charles Baudelaire, lhe escapa e desaparece. Em “Os autistas são assim”, o protagonista tem amor por plateias vazias. Em outro conto, um sujeito escuta a conversa de um casal de vizinhos a falar sobre a matéria escura, esse mistério da astronomia cuja natureza ainda não é bem conhecida e que está centrada no vazio. Em “O dia assinalado”, uma jornalista recebe de uma cigana a previsão de sua morte, passando a viver a vida com o abismo da morte colado em seus passos. É comum, aliás, os seres humanos preencherem o vazio de suas vidas com o medo de outro vazio, o da morte. Em “Amei Bo”, um homem do futuro pousa em um outro planeta para assistir ao fim do mundo”. Em “Vazio do poder”, Vila-Matas aponta politicamente para a ideia de que todo estado é “pura aparência e ficção que responde a uma estrutura falsa, armada em torno de um centro abissalmente vazio”. No conto “Vida de poeta”, uma frase ouvida transforma a vida do narrador: “As obras de arte, escassas, dão conteúdo intelectual ao vazio”. A frase poderia figurar como epígrafe para os contos do livro, já que em todos eles, deparamo-nos com a vaziez da vida a ser preenchida com a própria literatura. Trata-se de um procedimento natural para um escritor que certa vez escreveu: “Tudo o que não for literatura não existe”. 


O relato mais interessante do livro se encontra no texto “Porque ela não pediu isso”, no qual o escritor catalão produz um jogo muito bem arquitetado que arma múltiplas perspectivas narrativas para refletir sobre a capacidade da literatura de criar artifícios e mundos. Nesse caso, trata-se de pensar no abismo e no vazio da própria literatura capaz de ser preenchida com imaginação e talento literário. O mote do texto é a vontade de transportar a literatura para a vida, fazendo da escrita um recurso para se preencher o “tenebroso buraco que chamamos de vida”. Só a leitura desse conto já vale a aquisição da obra.          


A tradução de “Exploradores do Abismo”, que ficou a cargo de Josely Vianna Baptista, foi uma das últimas publicações de Vila-Matas pela Cosac Naify (a última foi “Não há lugar para a lógica em Kassel”, em 2015), antes do desaparecimento da editora, no abismo econômico do mercado editorial contemporâneo. Agora os direitos da obra do autor estão com a Companhia das Letras, que está lançando nesta semana “Mac e seu Contratempo” que, como os livros anteriores, explora os limites entre o romance cômico, a autoficção, a crítica literária e o gênero ensaio. A obra que se publica agora dá continuidade ao projeto vila-matiano de fazer da literatura o grande tema e personagem de sua obra, lançando mão de uma série de citações e referências que direcionam suas histórias para uma reflexão sobre as condições de produção, de existência e de circulação da literatura na contemporaneidade, bem como sobre o lugar do escritor e do leitor nesse processo. Em outras palavras, com sua literatura, Vila-Matas está sempre perguntando: O que pode um escritor? O que estamos fazendo quando fazemos literatura? O que significa escrever hoje? Quais os limites entre a vida e a literatura? Como viver na vida o texto que escrevemos na arte? Como conviver com o vazio da vida na escrita?   

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 21 de julho de 2018.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cristovão Tezza e a tirania do amor



Cristovão Tezza, certamente, figura entre os melhores prosadores da literatura brasileira contemporânea. Tenho acompanhado com interesse seu trabalho desde há alguns anos quando o escritor ainda não era muito conhecido do grande público. Embarquei com ele nas aventuras teatrais com toques fantásticos que povoam seu romance “Ensaio da Paixão”, encantei-me com o poeta marginal “Trapo” e suas incursões literárias pela cidade de Curitiba, aventurei-me pelo universo da arte em seu “Breve espaço entre cor e sombra”, emocionei-me com o premiado “O filho eterno” - no qual Tezza ofereceu aos leitores uma comovente autoficção inspirada no seu contato por meio do filho com o universo da síndrome de down -, passeei pelos registros de “O fotógrafo”, conheci um pouco de sua jornada como escritor na autobiografia literária “O espírito da prosa”, li alguns de seus contos e crônicas, e na semana passada escrevi aqui sobre a publicação de suas conferências literárias, reunidas no livro “Literatura à Margem”, publicado em junho de 2018, no mesmo ano em que o escritor lançou seu novo romance, “A tirania do amor”. Ambos saindo do forno.


Tezza vinha nos últimos anos trabalhando com protagonistas oriundos do universo das letras ou do magistério. Tomem-se como exemplo personagens emblemáticos como a tradutora que dá nome a um de seus mais recentes livros, ou o professor Heliseu, sobre o qual o também professor aposentado Tezza se debruça em um romance publicado em 2014. Aliás, a figura do professor já havia aparecido em “O filho eterno”, e também em “Uma noite em Curitiba”.
Agora, no seu mais recente romance, “A tirania do amor”, o protagonista Otávio Espinhosa é um renomado economista que se relaciona com o mundo por meio de números. Ele é capaz de extrair raízes quadradas complexas em segundos e de solucionar cálculos variados sem qualquer esforço aparente. A todo momento, o protagonista opera suas contas, mas é incapaz de resolver problemas pessoais básicos que envolvem um casamento falido, a relação difícil com o filho revoltado, o abandono da vida acadêmica, bem como o emprego no escritório (prestes a ser incluído em uma operação investigativa pela denúncia de desvio de dinheiro). Some-se a isso uma relação difícil com seu passado, a saber uma convivência complexa com o pai e uma breve carreira como escritor de literatura de autoajuda, em uma obra cujo título sugestivo de “A matemática do amor” foi publicada com o pseudônimo Kelvin Oliva. Depois de descobrir que está sendo traído pela mulher, Otávio toma uma decisão radical: abdicar do sexo. Este é um dia difícil, porque é nele que o protagonista será também despedido do seu emprego.


A ruína profissional e a falência do amor são retratadas em meio às crises políticas do Brasil contemporâneo. À medida que Otávio Espinhosa vai mergulhando no caos afetivo e profissional, o leitor assiste no livro à decadência social e econômica do país. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Isso porque Tezza capta com absoluta eficiência os dramas políticos do presente, refletindo sobre os dilemas enfrentados por uma sociedade que vem a cada dia se sentindo deslocada e abandonada por seus dirigentes.
Em vários momentos da narrativa, Otávio Espinhosa alude à “Ética”, de Spinoza, produzindo conexões com a filosofia para tentar entender a sua vida. Aliás, o filósofo renascentista escreveu sobre a origem e natureza dos afetos, considerando o amor uma alegria acompanhada da ideia de sua causa. A escolha paronomástica do nome da personagem e do filósofo que o acompanha não é fortuita em um livro sobre o amor e sobre a matemática. À medida que o enredo avança, a personagem vai percebendo que sua lógica matemática e racionalista não dá conta de resolver os problemas de seu coração. A beleza do livro, nesse sentido, parece estar ligada a um processo de gradativa transformação da personagem. No entanto, o que mais chama a atenção em “A tirania do amor” é a qualidade na arte de narrar. Influenciado pela teoria da polifonia desenvolvida pelo teórico russo Bakhtin, sobre o qual o escritor/professor desenvolveu sua tese de doutorado, Tezza mescla com eficiência um realismo plástico com o fluxo da consciência das personagens, misturando vozes e discursos em um vai e vem de ideias capaz de tornar sua narrativa mais complexa, mas ao mesmo tempo mais rica, pela pluralidade de impressões e pontos de vista que, inevitavelmente, enriquecem a leitura de uma obra literária.


O tema do romance pode parecer um pouco banal – apesar de que escrever um bom livro sobre o amor parece continuar sendo o desejo de quase todos os grandes prosadores – no entanto, o que torna o romance agradável é a forma como a história é contada. No fim das contas, não importa de que trata o amor, importa o que fazemos com ele. E sua tirania, querendo ou não, nos empurra com força para a vida e, como uma boa ficção, ele sempre pode acabar ou começar em uma boa história.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 07 de julho de 2018

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Entre a felicidade e a infelicidade: Apontamentos sobre “Literatura à Margem”, de Cristovão Tezza




Acaba de sair pela editora Dublinense, de Porto Alegre, “Literatura à Margem”, uma coletânea de conferências do escritor Cristovão Tezza apresentadas inicialmente em eventos literários, congressos universitários e na Academia Brasileira de Letras. Os textos revelam o pensamento inquieto de uma mente prodigiosamente reflexiva e poética. Os leitores do autor, acostumados com seus romances, naturalmente terão agora a oportunidade de conhecer melhor as concepções estéticas que norteiam seu trabalho de criação, bem como o pano de fundo de sua inserção no mundo da ficção.
Integrado a uma obra bastante fértil, que vai se ampliando desde os primeiros escritos dos anos 60 até os romances que conquistaram seu lugar no cânone da literatura brasileira contemporânea - e que levaram o escritor a figurar como uma personalidade do mundo das letras - , o material reunido em “Literatura à Margem” parece dialogar com o livro “O espírito da prosa” (2012), no qual Tezza apresentou uma reflexão ensaística sobre seu fazer literário desde o amadorismo artístico da juventude até a consagração da obra na maturidade. 
As conferências que vêm agora à lume, registradas em livro, podem ser lidas como capítulos de uma espécie de “uma autobiografia literária”, expressão que, aliás, é apresentada como subtítulo do já citado “O espírito da prosa”. Isso porque, independente dos assuntos tratados pelo romancista, sua história de vida é trazida à baila em vários momentos, o que permite aos leitores não apenas comungarem com ele de uma série de reflexões teóricas, mas também vivenciarem o depoimento de uma vida dedicada às venturas e desventuras do que chamamos de “arte literária”.

Na ABL, na conferência História de Leitor

Em uma das conferências, por exemplo, Tezza aborda a sua vida íntima e privada, apresentada paralelamente a uma reconstituição de fatos sociais, econômicos, culturais e políticos do Brasil nos últimos 50 anos, com o objetivo de demonstrar como a literatura brota da infelicidade. Trata-se do texto “História de Leitor”, apresentado na Academia Brasileira de Letras, em 2014. Uma série de fatores contribuíram para o ingresso do autor no mundo da literatura. Desde a perda precoce do pai até a sua mudança do interior de Santa Catarina para Curitiba, na juventude. Para Tezza, a verdadeira origem de um escritor está na infelicidade. A infelicidade produz literatura: “Pessoas felizes, eu gosto de brincar com esta imagem, não escrevem. Os felizes vão à praia, namoram sem conflito, assistem televisão, viajam com alegria, sofrem aqui e ali com parcimônia e compreensão, curtem as delícias da família, respeitam a realidade e os fatos – por que diabos iriam se trancar num quarto para escrever?”. No entanto, mais adiante, ainda na mesma conferência, o autor de “O Filho Eterno” considera que, assim como a infelicidade produz literatura, a literatura produz também felicidade. Na boa literatura, observa o escritor, os finais felizes costumam ser, paradoxalmente, “desmancha-prazeres”. Segundo esse ponto de vista, o bom leitor não suporta “água com açúcar”, preferindo a desgraça, os desdobramentos pesados, “a dura poesia de tudo que não tem solução”. Isso porque “queremos partilhar o que é irredimivelmente incompleto para confirmar que não estamos sozinhos”. Talvez também pela nossa inegável vocação para o trágico, bem como pela necessidade que temos de vivenciar a catarse.

Retrato da Folha de São Paulo

Na conferência que dá nome ao livro, “Literatura à Margem”, proferida na abertura do VII Festival Literário de Mantiqueira, em 2014, Tezza explora o conceito de marginalidade da arte literária para concluir que mesmo sendo quase sempre fruto de um sentimento de solidão, a literatura “nos tira da tábula rasa e oferece-nos a prospecção do passado e a experiência do presente, na comunhão solidária entre autor e leitor”. Nesse sentido, a palavra margem evoca não apenas a consciência da singularidade da literatura – o seu olhar particular sobre as coisas -, mas também o imperativo ético do escritor que escolhe a solidão do risco de fazer o que faz. Alude também à própria condição da literatura como atividade artística não valorizada em meio a tantas outras linguagens, bem como a marginalidade da literatura brasileira em relação àquela praticada em outros países. No entanto, penso que é exatamente essa condição de ser margem que permite a ela olhar com mais distanciamento e, portanto, com mais clareza para a vida (Padre Vieira Certa vez escreveu: “Há de estar apartado dos olhos para se poder ver”). Foi pensando também nessa questão que certa vez rabisquei os seguintes versos: “Nunca sei ao certo / o que vai no centro / se o ponto é o começo do fim / ou apenas o fim do começo / tudo depende da hora / tudo depende do meio // da margem melhor se olha / aquilo que nem sei direito”.
Nas outras conferências que integram a publicação, Cristovão Tezza aborda o fenômeno da criação literária e seus descaminhos, assim como a relação entre a literatura e os domínios da psicanálise, da autorrepresentação e da biografia. Em cada um dos textos a acuidade das ideias e o cuidado de uma escrita sofisticada que não se rende à banalidade nem à complexidade vazia. Em muitos momentos, as reflexões do autor nos conduzem a conclusões muito pertinentes sobre o universo da literatura. Pérolas como estas: “(...) escrever será sempre duplicar o mundo para torná-lo mais habitável”; “(...) o narrador que escreve o livro é, em alguma medida, o psicanalista distante que recompõe e dá sentido aos fragmentos disparatados do evento da vida”; “Numa obra bem-sucedida, partilhamos a utopia de um mundo possível que, sem ocupar lugar real no espaço, será sempre uma chave generosa para que encontremos, narradores e leitores, nosso próprio espaço no espaço real”. Esse é mais um aspecto que aponta para a literatura como uma máquina que nos ajuda a viver melhor.   

Publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 30 de junho de 2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

4 poemas para o amor


para gé

danado esse dengo
jeito de me beijar em silêncio
deixa que dá ao poeta
mote pro seu invento
do caos ao cais
a palavra mar ou mais
em movimento



amo em tu
tudo
e mais
um pouco
aquele sol
em seu sorriso
o charme 
de meu nome
escrito em tua pele
inscrito em teu corpo


e assim a vida vai indo
com você no meu caminho
te amando
de minuto em minuto
de agosto em agosto



Xibiu
Quirodáctilos,
onde pô-los?
até a ilha perdida,
um mar de sargaço
ou abrolhos.
fecho os olhos
para vê-lo bem:
até o centro da ilha
quantas ilhas têm?


estavas assim
no ano retrasado
um pitel para seu marinheiro
sereia fora das águas
numa praia do Rio de Janeiro

c.moreira

domingo, 17 de junho de 2018

O que o leitor quis ler? Notas sobre a estranha prosa de Mário Bellatin



Um escritor que tira sua perna mecânica toda vez que vai entrar em uma mesquita para rezar; um treinador de cães, intitulado Homem Imóvel, que não tem os movimentos dos membros inferiores e superiores e, mesmo assim, treina pastores belgas malinois, contando com a ajuda de seu enfermeiro; o judeu Jacobo Pliniak que, por ser mutante, se transforma, ao longo da trama, em uma anciã, a piedosa dama Rosa Plinianson; o artista Antonio, cuja morte é transformada em obra de arte; o cientista Olaf Zumfelde que descobriu em um remédio a causa da má formação de fetos. Eis algumas das estranhas personagens que povoam os textos de Mario Bellatin, um dos mais produtivos e inovadores escritores da literatura latino-americana contemporânea.



Lembrando por vezes o desfile de grotescos do livro “As Tentações de Santo Antão”, de Flaubert, ou as bizarras atrações circenses do filme “Freaks”, de Tod Browning, os seres imaginados pelo autor mexicano, geralmente mutilados ou sofrendo de algum tipo de anomalia genética, aparecem em livros como “Efecto Invernadero”, “Jacobo el mutante”, “Los fantasmas del masajista”, “Biografía ilustrada de Mishima”, “La mirada del pájaro transparente”, entre outros. Perto da vasta produção de Bellatin, as suas traduções para o português ainda são escassas, mas quem gosta de se aventurar no original pode ler a quase totalidade de seus livros nos volumosos “Obra Reunida” e “Obra Reunida 2”, editados pela Alfaguara espanhola. As duas antologias trazem compiladas quase quarenta novelas do escritor.



No Brasil, saíram, por exemplo, “Salão de Beleza” (Leitura XXI), “Cães Heróis” e “Flores” (Cosac-Naify).
Em “Salão de Beleza”, uma das primeiras e mais conhecidas novelas do autor, encontramos a estranha história de um cabeleireiro que transforma seu salão de beleza em um abrigo para homens em estado terminal, todos vítimas de uma misteriosa epidemia (lembre-se que o livro é publicado nos anos 90, período em que o vírus do HIV apavorava a todos por seus efeitos e causas ainda não bem conhecidos até então). O narrador-protagonista, que antes era fascinado por aquários e peixes ornamentais com a finalidade de embelezar o antigo salão, se transforma sem motivo aparente numa espécie de enfermeiro que assiste uma série de doentes sem lar e que estão próximos da morte: “Pode parecer difícil acreditar nisso, mas quase já não individualizo os hóspedes. Cheguei a um estado em que todos são iguais para mim. No início, eu os reconhecia. Inclusive, uma vez ou outra, cheguei a sentir carinho por algum deles. Mas agora não são mais que corpos em transe rumo ao desaparecimento”. À medida que a narrativa se expande, o leitor fica sabendo do passado do narrador, antes um travesti que se aventurava com seus amigos pelas ruas e saunas da cidade. Boa parte da narrativa é gasta tratando de comentários sobre peixes e seus modos de vida. Estranho e confuso, não?


Em “Cães Heróis”, encontramos episódios não menos inquietantes. A começar pela inscrição que acompanha o título já na primeira página: “Tratado sobre el futuro de América Latina visto a través de un hombre inmóvil y sus treinta pastor belga malinois”. Que tipo de relação se estabelece entre a história do homem imóvel e que é treinador de cães com o futuro de nossa América? O escritor não esclarece. O enredo relata apenas os acontecimentos banais que envolvem a vida cotidiana deste treinador e suas necessidades especiais. Então, de que maneira o livro pode ser lido como uma alegoria das condições futuras da América Latina? A questão nos leva até algumas entrevistas e depoimentos nos quais Mario Bellatin declara seu interesse em produzir não apenas enigmas, mas também uma narrativa que fuja das maneiras tradicionais de representação, maneiras que, segundo ele, estão gastas, principalmente na América Latina. O que o mexicano deseja, assim, é estabelecer uma cumplicidade entre autor e leitores, convidando-nos a produzir o enredo junto com ele, ou pelo menos imaginando para além do escritor possibilidades de leitura para a obra. Trata-se de levar o leitor a transitar por um universo construído a “partir de sua própria lógica”, “a partir de sua própria retórica”. Ou seja, após a leitura de um livro de Bellatin, ao invés de perguntarmos a nós mesmos “o que o autor quis dizer com isso?”, talvez fosse mais interessante lançarmos: “O que nós, leitores, podemos ler com isso?”, ou ainda “O que nós, leitores, podemos inventar com isso?”. Trata-se de uma concepção de leitura pautada pela liberdade nas mais variadas dimensões que um livro possibilita. Se por um lado a prosa de Bellatin é movida pelo “non sense”, complicando a vida do leitor, por outro, é essa mesma complexidade que nos convida a inventar sentidos para os textos que lemos. Para compreender com eficiência o que estou dizendo, os leitores devem se aventurar na leitura de sua obra. Gostando ou não, vale a pena conferir.


Em “Flores”, elaborado em um período no qual o autor ficou hospedado em uma Residência de Escritores, nos Estados Unidos, encontramos um livro-montagem, pautado por um trabalho de artesania que partiu da reunião de textos e notas literárias previamente elaborados. Os fragmentos, escritos separadamente e fora de um projeto de livro, apesar de na maior parte das vezes não terem nada em comum, foram sendo aproximados e editados, até formarem a novela. Ou seja, o trabalho do autor estaria mais em recortar, montar e colar – como numa ilha de edição cinematográfica – do que propriamente em escrever. Vem daí seu ímpeto vanguardista. Isto tem a ver com os interesses do autor, que chegou a estudar cinema.


Assim como em outras novelas, a prosa dispersiva de “Flores” aponta para personagens mutilados, vítimas de anomalias, e outros sujeitos estranhos que, conscientemente ou não, estão atravessados por uma reflexão sobre a identidade em tempos atuais, líquidos. Seres a nos lembrar constantemente que a realidade é uma coisa bem estranha.

Publicado originalmente no jornal Caiçara,  de União da Vitória - PR, em 16 de junho de 2017.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Minha namorada



para Gé,

Cara metade minha
Sem teu mais
O meu é menos ainda 
Sem teus lábios
Sem tua boca
Falta-me um gosto
Falta-me um doce
no céu ou na língua
Sem tuas pernas
Onde esquentar
Minhas pernas
No escuro das noites
longas e frias?
Sem teus pés
Por onde andarei
Só com os meus
Em que ruas
Em que vias?
Sem teus olhos
Para ver tudo
O que vejo
A graça da vida
Que graça terias?

c.moreira

terça-feira, 12 de junho de 2018

Nefelibata



Deitado sobre a grama
E olhando pra cima 
intuo 
ou
Nefelibata e neto trismegisto de todos os 
                                      astros e espaços
invento, inverto ou especulo:
A terra é o céu das estrelas
Ou mesmo uma constelação
O lado de cima
É como o lado de baixo


Para quem a terra é palco de nuvem
O céu é meu chão


c.moreira

domingo, 3 de junho de 2018

A vida e vida de Assionara Souza





No último 21 de maio, recebi com imensa tristeza a notícia da morte da escritora e colega Assionara Souza. A sua perda é irreparável, não apenas pelo que ela escreveu e pelo que viria a escrever, mas também pela sua pessoa, que fez da literatura um modo de encarar a vida e de vivê-la em plenitude. Autora de livros como “Cecília não é um cachimbo” (2005), “Os hábitos e os monges” (2011), “Alquimista na chuva” (2017), entre outros, Assionara se destacou na atual literatura brasileira, chegando a ter sua obra divulgada para além de nossas fronteiras.
Quando a conheci pessoalmente em 2010, chamou-me a atenção a sua inteligência aliada a uma sensibilidade e doçura propositadamente poéticas. A beleza e elegância que se depreendiam de suas palavras me remeteram de imediato a escritoras misteriosas como Clarice Lispector e Hilda Hilst. Percebi desde o primeiro contato uma certa serenidade na voz que lhe conferia um ar nobre e curitibano temperado pelo sutil sotaque nordestino de alguém que nascera em Caicó, no Rio Grande do Norte. Debati com ela em um encontro do Sesc Literário sobre Raquel de Queiroz e tão logo nos conhecemos melhor, naquela mesma noite, ela foi me presenteando com seu livro de contos “Amanhã, Com Sorvete!” (2010), editado pela 7Letras. Reencontrei-a alguns anos depois em um outro evento literário, onde conversamos sobre Valêncio Xavier, e onde a ouvi falar com propriedade e inteligência sobre o escritor pernambucano Osman Lins.



Os contos de Assionara ganham agora para mim outro sentido. Impossível lê-los sem ser tocado pela experiência da precoce despedida a seguir seus passos na escritura. Impossível também não sentir a presença/ausência da escritora em seus textos, num jogo de aparecer e desaparecer que inevitavelmente - como em toda boa literatura - caminha para o artifício, para o truque.  Um leitor que procure a pessoa de um escritor em um texto literário está fadado a buscá-lo onde ele não mais está (talvez Assionara tenha terminado de escrever um livro para agora começar outro). Por isso, assim como em qualquer outro escritor, não se trata de ler biograficamente a obra de Assionara - já que a literatura é sempre uma construção na qual o escritor se despersonaliza para que nasça a escritura. Trata-se de perceber nessa máquina de artifícios - que é a literatura – a fonte das verdades tecidas por meio da ficção. Ali Assionara está inteira. Tudo faz parte do jogo e, sendo o escritor um falso mentiroso (evocando aqui Silviano Santiago), ele, então, só fala verdades e tudo é mentira também. Assionara, assim, está e não está no texto que teceu. É com esse impasse que nós leitores temos que conviver. No entanto, mais do que a ausência ou a despedida, Assionara, em seus livros, celebra a vida e a força das palavras, dos instantes e dos encontros.


 A escritora tem um modo de dizer que é a pura busca da quarta dimensão, um tocar as palavras pelo avesso, galáxias de música e dança, “a aparência das coisas por trás das coisas”, como sugeriu em um de seus contos. Daqui a muitos anos alguém vai achar em meio a outros livros um exemplar velho e surrado de “Amanhã, com sorvete!”. E dali jorrará com alegria tudo o que agora vejo e sinto, seus fragmentos de um discurso amoroso. E Assionara estará todinha ali, viva e em palavra, porque é todo o livro ela mesma: “Constrói do verbo um mundo todo fragmento. Fissura. Costura. Do que foi dito e não feito. Escrito”. A palavra lhe conservará viva.
Lembrando por vezes a profundidade e o ritmo de Caio Fernando Abreu, sem ser piegas na influência, quase todas as frases dos textos de Assionara evocam todo um universo pela amplitude de suas imagens e beleza de seus tons: “entre a sombra e o sol, eu era quase um personagem principal de alguma coisa”, “para desconforto do mímico, antes que entrasse em seu show alguém lhe cochichou ao ouvido que todos os que estavam na plateia eram cegos”. Como não lembrar de Clarice Lispector em tais linhas: “Música no modo como os moços andam. Música no inusitado de corpos se esbarrando. Música diluindo tudo o quanto é sólido. É quando há dança. Fecho os olhos e deixo (...) Estamos dentro da coisa. E a coisa é a paixão. Objeto inquebrável. Objeto que pulsa”. A literatura de Assionara voa no Altíssimo “para não esbarrar em rochedos”. Fico me perguntando por que nunca procurei Assionara pra dizer o quanto seu texto me encantava.


Ao invés da morte, penso aqui nas duas vidas da autora. A que ela viveu (e que vive ainda em alguma esfera de nosso grandioso universo) e aquela que pervive no texto que escreveu. Ela está fadada a ressuscitar a cada vez que um leitor abrir seus livros e se encantar com suas palavras cheias de sabor de amanhã e sorvete. No conto “Órbita dos Silêncios” ela escreve: “O som mudo do silêncio é o que está por baixo da pele”. Para ela o som mudo do silêncio está colado às coisas. Com ele a vida acontece intensa. Talvez esse som mudo seja sua própria palavra, fadada a soar para além da vida. No texto. Assionara vive!


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, 02 de junho de 2018.  

domingo, 20 de maio de 2018

O orangotango marxista ou somos todos macacos



Depois de sofrer um grave acidente que o deixou paraplégico, Marcelo Rubens Paiva escreveu um dos romances mais populares do Brasil nos anos 80, “Feliz Ano Velho”, não só um depoimento jovial e coloquial de seu processo de adaptação à nova realidade, mas também um testemunho da geração que crescera em meio aos “anos de chumbo” e que se preparava, entre o som do rock and roll e as incertezas do futuro, para o processo de redemocratização do país. Depois do sucesso do livro, o escritor mergulhou fundo na literatura e no jornalismo.
Em 2015, Paiva publicou um dos seus livros mais delicados e profundos, “Ainda estou aqui”, uma autoficção na qual revisitou o sinistro episódio familiar envolvendo o desaparecimento de seu pai, o então deputado Rubens Paiva - na ditadura militar -, cujo paradeiro é desconhecido até hoje. Mais do que uma homenagem ao progenitor, o livro é também e principalmente sobre a mãe, Eunice Paiva, uma guerreira que, naqueles tempos, assumiu sozinha as responsabilidades frente ao lar e que, hoje, sofre do Mal de Alzheimer. O romance, poético e político, trata então de dois dilemas, o do pai que nunca foi encontrado – pairando, assim, como fantasma sobre a família - e o da mãe, transformada dia após dia pela doença. Em tempos de revisão histórica, e de um aprofundamento em doenças degenerativas, “Ainda estou aqui” - cujo título vale para tanto para a mãe quanto para o pai - é um dos mais fortes e bonitos livros da literatura brasileira contemporânea.


Agora, Marcelo Rubens Paiva acaba de lançar “O Orangotango Marxista” (2018), que saiu pela Alfaguara. Seria apenas mais um livro entre tantos outros preocupados com nossa crise política e social não fosse a sagacidade narrativa do autor. A começar pelo narrador, um orangotango que desfia em sua zoológica narrativa uma espécie de fábula sem moral sobre os seres humanos e suas contradições.
O romance - ou melhor, a novela - conta a inusitada história de um símio capturado em Bornéu, que cresceu no laboratório de uma universidade do interior de São Paulo. Lá, aprendeu sozinho a ler e quando todos os funcionários iam para casa, ele passava horas estudando na biblioteca. Virou cristão ao ler trechos do Novo Testamento, mas com o tempo passou por um desapontamento metafísico ao perceber que “tudo era uma questão de explorados e exploradores, ou melhor de divisão de classes (espécies)”. Cada vez mais, o narrador vai se interessando pela obra de Darwin, com quem descobriu a proximidade entre macacos e humanos. Encantou-se pela filosofia, conhecendo em profundidade textos de Hegel, Kant e Marx, tomando, então, consciência de sua condição de explorado, o que mudaria a sua forma de encarar o mundo. Depois de se apaixonar pela sua pesquisadora, o orangotango é levado para um zoológico, deixando de ser objeto de estudo para virar uma peça na engrenagem da indústria do entretenimento, na sociedade do espetáculo. A partir de então, ele passa a observar o comportamento dos visitantes, invertendo a lógica natural dos fatos. O homem é seu opressor, mas também sua atração.


Para o orangotango, aqueles que nasceram em cativeiro só conhecem o mundo do opressor e do oprimido: “Mas a maioria, com eu, caçada e aprisionada, arrastada em navios, colocada em containers à força, deve ter, nem que reprimido, o verdadeiro sentido da vida, em contraste com o efeito absurdo que nasce da dominação de um grupo sobre o outro: a liberdade”.
Aos poucos, durante a noite, a personagem começa a incursionar pela cidade, depois de descobrir uma forma de sair do parque. Isso com o objetivo de investigar a vida dos humanos e encontrar uma forma de se libertar de sua condição de explorada. Nessa, que é uma das partes mais interessantes do livro, o orangotango, depois de muito observar o cotidiano das pessoas, acaba concluindo que a vida dos humanos não é tão interessante quanto poderia parecer: “No final de contas, a liberdade que poderia trazer alegria, felicidade e alívio àquelas pessoas mostrava que eram todas escravas de um sistema alienante que impedia de admitir que, no fundo, aquele estilo de vida era triste, deprimente, vazio, entediante e sem sentido”. O primata letrado questiona também a alienação das pessoas por meio dos aparelhos de celular, que fazem com que os macacos nus (homens) deixem de olhar para o mundo, concentrados que estão apenas nas telas da máquina: “Os humanos chegaram num estágio tão elevado de conhecimento e tecnologia que acabarão aprisionados por ela. Já começou”. Isso sem contar nas contradições sociais apontadas pelo símio, que demonstram a incapacidade do homem de viver em sociedade sem subjugar seu semelhante. Lembremos que estamos diante de um narrador marxista.
Inspirado por um rebelde gorila chamado Fidel, que vivia isolado em uma ilha do zoológico, o orangotango desenvolve seus planos de ação revolucionária. E paro por aqui para não “entregar o ouro ao bandido/leitor”.
      Vale observar que o livro de Marcelo Rubens Paiva, em um momento de intensa conturbação política, lança um curioso olhar sobre os dilemas do homem contemporâneo. Faz isso com qualidade alegórica ao propor que vejamos a nós mesmos pela ótica do outro, neste caso a do orangotango. Naturalmente, há uma ironia neste quesito, pois a racionalidade, no livro e talvez fora dele, parece estar mais ao lado dos macacos do que dos homens. Vivemos como os bichos presos em um zoológico. Aliás, segundo uma lógica perspectivista, poderíamos dizer que para o orangotango somos nós os macacos.     

Publicado originalmente no jornal Caiçara, 
de União da Vitória (PR), em 19 de maio de 2018. 

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Wilson Bueno, Mascate de Palavras




Em maio de 2010, o escritor paranaense Wilson Bueno foi brutalmente assassinado em sua própria casa. Ele vivia no Bacacheri, em Curitiba, mas sua verdadeira morada estava situada no mundo das belas palavras, com seus variados matizes, suas nuances fronteiriças que, sem dúvida, contribuíram para expandir sua língua literária. Desde então, lamentamos a perda de um dos escritores mais inusitados, inventivos e singulares da literatura latino-americana contemporânea.
Bueno tencionou como poucos no Brasil os limites da língua. Com suas fusões linguísticas trans-geográficas, em seus volteios transbarrocos, em suas torções sintáticas, extraiu do encurvamento de suas formas uma potência poética bastante incomum, capaz de contagiar e contaminar o nosso idioma com outros falares. Aliás, André Dhôtel escreveu certa vez que a única maneira de defender uma língua é atacá-la e que “cada escritor é obrigado a fabricar para si uma língua”. Os bons escritores são aqueles que criam a sua própria língua. Guimarães Rosa que o diga. Gilles Deleuze, o filósofo das dobras, por sua vez, observou que escrever não significa impor uma forma a uma matéria viva. Isso porque a literatura está antes “ao lado do informe, ou do inacabamento”. Nesse sentido, para ele, escrever é um caso de devir, “sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida”. Clarice Lispector diria, com outras palavras: “Quero não o que está feito mas o que tortuosamente ainda se faz”.

Ilustração: Ricardo Humberto

A prosa de Wilson Bueno desabrocha em rodas de redemoinho, dobrando-se e desdobrando-se sobre si mesma, cada vez que abrimos seus livros a dançar com suas palavras. Das crônicas poéticas de “Bolero´s Bar” (1986) ao testamento literário de “Mano, a noite está velha” (2011), o autor produziu uma série de pérolas que transitaram da poesia concisa aos bestiários, passando pelo diálogo com outros autores – Machado de Assis e Kafka em dois livros específicos - e pela confecção de uma prosa poética neobarroca. Em sua obra, o autor forjou uma curiosa língua literária, misturando o português, o espanhol, o guarani e inclusive o árabe, fazendo do contato entre tais domínios linguísticos um caso amoroso com conotações eróticas. É o que desenvolveu, por exemplo, na bela e inquietante novela “Mar Paraguayo” (1992), que segundo Heloísa Buarque de Hollanda, “promove a declaração, subterrânea, da falência das fronteiras”. Sua política de (des)territorialização da linguagem parece ter reafirmado o argumento de Sérgio Buarque de Holanda de que “somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra”, ou ainda de que somos sempre e inevitavelmente, na língua que for, estranhos a nós mesmos. 



Há um livro ainda muito pouco conhecido de Bueno no qual a mistura erótica das línguas se expande para a própria narrativa. Trata-se de “Mascate”, novela publicada postumamente, em 2014, pela Yiyi Jambo Cartonera, e ambientada na fronteira do Brasil - possivelmente no Mato Grosso do Sul - com seu país hermano, o Paraguai. A obra discorre sobre a relação amorosa entre uma prostituta - possivelmente um homem travestido de mulher ou um transgênero, fica apenas sugerido - e um árabe de nome Faissal Mohamed el-Rachid, um mascate que se torna amante da protagonista. No texto, a narradora, que se diz “marafona” (como na novela “Mar Paraguayo”), se põe a escrever sobre o seu amor ao sírio, que conheceu “en la tarde preguiçossa del putero de Eldorado do Paraná con su maletita comercial llena de bugigangas preciosas”. A história deste encontro, “aberta a la felicidade del viento”, é considerada pela protagonista como uma “charla mateada de azúcar y vino”.


Com suas alegrias e tristezas, a marafona vai desfiando lembranças de seus encontros amorosos com Faissal, expressando seus desejos, lamentando sua partida: “tratê desto muezim pî’aitteguivé, com carícias y indormidas auroras”. No entanto, o grande tema do livro parece ser a própria linguagem amorosa. E como nos ensinou Barthes, o discurso amoroso é sempre de uma extrema solidão. Para ele, o amante não para de correr dentro da própria cabeça. Sua fala existe unicamente por “ondas de linguagem”. Nas linhas de “Mascate”, mais do que escrever sobre o desejo – que em certo sentido se revela impossível – a narradora corporifica a própria linguagem como objeto de desejo. O que deseja aqui e quer ser desejado é o próprio texto, cama de lençóis e palavras. E naturalmente o desejo do amor aumenta à medida que surge a impossibilidade de satisfazê-lo. É quando Rachid vai embora. E sofre o coração da narradora: “En esto momento turbinado y turbilhonado es apenas um corazón latindo às ecâncaras, descarado y lacrimoso, mi marafo corazón pidiendo a los derruimentos del dia ni que sea un miligrama de ternura, atención ô lo que sea el amor”.  


Em meio às frases do livro, surgem palavras árabes e guaranis que vão se integrando ao portunhol selvagem de Bueno: Ahd lulo (colar de pérolas), Ãrtiah nafse (paz de espírito), biah (mascate), shoh lal watta (crepúsculo), biah ashiah sãcar (doce mascate amante meu), purahéirori (canção alegre), tecorori (alegria), taperé (povoado deserto), ñuatimbucú (espinho), che che mandu´á (eu me recordo), entre tantas outras. Essa algaravia babélica poderia ser lida de vários modos na obra de Bueno. Aponto apenas para uma das possíveis reflexões. Trata-se de pensar nos contatos entre culturas diferentes, principalmente em zonas fronteiriças, gerando falares híbridos que problematizam a ideia de uma territorialidade estável. Essa pluralidade linguística e cultural é bem assimilada por Wilson Bueno que soube tirar proveito disso sem esquecer de que as palavras não têm fronteiras. 

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR),
 em 12 de maio de 2018.


domingo, 6 de maio de 2018

Onde estão os anônimos que assentaram os tijolos? Por onde anda Raduan Nassar?



Há alguns dias, 23 de abril, a juíza Carolina Lebbos negou vários pedidos de visita a Lula, que está preso na Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Isso dias depois de não autorizar também as visitas do teólogo Leonardo Boff e do prêmio Nobel da Paz, o argentino Adolfo Pérez Esquivel. As fotos de Boff sentado em frente à sede da PF, independente de questões partidárias, são comoventes, lembrando um quadro de Edward Hooper. Entre os vinte e três pedidos indeferidos pela juíza, um chamou-me a atenção em especial, aquele feito pelo escritor Raduan Nassar. 
Autor de uma das obras mais potentes e bonitas da literatura brasileira do século XX – certamente uma das que mais me emocionam -, Raduan Nassar ficou conhecido depois de publicar “Lavoura Arcaica” (1975) e “Um Copo de Cólera” (1978). Causou um frenesi nos meios literários pela alta qualidade de sua narrativa e logo depois, misteriosamente, silenciou, parando de escrever e abandonando, assim, a literatura. Os leitores tiveram que se contentar com a publicação nos anos 90 de uma série de pequenos relatos antigos, reunidos pela Companhia das Letras com o título “Menina a Caminho”. Raduan desapareceu da mídia, comprou um sítio e virou agricultor, talvez pensando em cultivar plantas mais nobres. Os motivos que o levaram a abandonar a escrita literária foram amplamente discutidos pela crítica, mas nunca devidamente elucidados. São mistérios do autor e sua arte.



Raduan prosperou como agricultor, a fazenda cresceu e há alguns anos o escritor reapareceu na mídia devido ao fato de ter doado a propriedade para o Governo Federal com a contrapartida de que ali fosse instalado um complexo universitário que oferecesse acesso gratuito ao ensino superior a filhos de trabalhadores rurais, negros e indígenas. O Governo, na época presidido por Lula, aceitou e hoje ali funciona um campus vinculado à UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), atendendo mais de quinhentos alunos. Uma parte da propriedade foi doada a um antigo e leal funcionário de Raduan.
Avesso a entrevistas e aparições na mídia, o discreto autor voltou a aparecer em 2016 quando recebeu o Prêmio Camões de Literatura, o mais importante da Língua Portuguesa. Na cerimônia de premiação, Raduan disparou um discurso crítico contra o Governo – um dos responsáveis pela premiação -, sustentando que os fatos atuais, pós-impeachment, configuram um governo repressor atrelado ao neoliberalismo com sua “escandalosa concentração de riquezas”: “(...) mesmo o governo que está aí foi posto e continua amparado pelo Ministério Público e de resto pelo Supremo Tribunal Federal”. O discurso foi rebatido logo após pelo Ministro da Cultura na época, Roberto Freire, em uma veemente defesa ao Governo de Temer. Freire foi vaiado pela plateia.


Fico pensando nesses três episódios, o pedido de visita negado, a doação de sua propriedade para a construção de um campus universitário, o forte discurso contra o Governo na premiação Camões. Soma-se a esses acontecimentos um outro, não menos curioso. Durante a campanha presidencial de Dilma, o autor gravou um vídeo que circulou na internet em apoio à candidata. Fatos inusitados para quem conhece o perfil do escritor e agricultor recluso. Episódios que demonstram não ser assim tão silencioso o seu silêncio. Pelo contrário, Raduan reverbera politicamente na literatura e fora dela. Trata-se da tomada de posição do intelectual em tempos de crise.
Depois do Prêmio Camões, em 2016, Raduan teve toda a sua produção reunida em um volume intitulado “Obra Completa”, que saiu também pela Companhia das Letras. Além dos já citados livros, a publicação trouxe ainda dois contos inéditos e o curioso e belo ensaio “A corrente do esforço humano”, escrito em 1981, mas publicado só em 1987, na Alemanha. Imagino que este ensaio nos ajuda a entender melhor o pensamento do literato, bem como compreender os episódios citados.
No texto, Raduan critica o complexo de inferioridade que ronda os brasileiros, a se sentirem, em sua grande maioria, menos importantes que os estrangeiros. Para o autor, as ideias de que os produtos importados são melhores e de que o homem europeu é superior são antigas e estão muito presentes no pensamento do brasileiro e mesmo no do estrangeiro. Para Raduan, apesar das mudanças ocorridas no pós-guerra, o prestígio europeu ainda é enorme. O homem comum assim como os povos periféricos jamais tiveram seus nomes inscritos como vencedores: “Entretanto, quando se entra em uma residência bem posta, é legítimo perguntar, diante do orgulho do dono da casa, onde estão os anônimos que assentaram os tijolos”. Como seria legítimo perguntar, para os países desenvolvidos, “onde estão os povos, humilhados e ofendidos que concorreram para o seu brilho”. O escritor defende, ao invés da importação e da cópia dos países desenvolvidos, a absorção do que interessaria à suposta comunidade brasileira em termos de pesquisa e conquistas técnicas. Isso porque as ideias são universais, “pertencendo antes à corrente do esforço humano (...)”. Perto de encerrar o ensaio, Raduan Nassar escreve: “Supondo-se que todo homem seja portador de uma exigência ética, não há como estar de acordo com a dominação de uns sobre os outros”. O texto assim nos apresenta um Raduan muito consciente e politizado. Seu silêncio faz barulho.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR, no dia 05 de maio de 2017