domingo, 25 de fevereiro de 2018

A praia como um convite ao devaneio poético



Em tempos de verão, calor e praia, nada como colocar entre nossos (in)utensílios de viagem um bom livro para companhia nas horas de pura vadiagem ou momentos íntimos de solidão. Uma boa literatura nos convida ao contato com o outro quando estamos sozinhos, ao passo que nos permite um mergulho nesse mar que somos cada um de nós, proporcionando uma forma de deixar-nos a sós em meio à algaravia do mundo. Nessa temporada, para quem vai ou já voltou da praia, ou não foi nem irá, vale a pena pisar nas areias do livro de ensaios “A vida descalço” (Cosac Naify, 2013), de Alan Pauls, traduzido por Josely Vianna Baptista. O autor é uma das referências da atual literatura argentina, já tendo publicado no Brasil romances como “O Passado”, que foi adaptado para o cinema por Hector Babenco, bem como a bela trilogia sobre os anos 70, “História do pranto”, “História do Cabelo” e “História do dinheiro”, que foge do lugar comum do revisionismo dos anos de chumbo, promovendo uma singular experiência literária e afetiva.


“A vida descalço” apresenta ensaios que têm a praia como tema e referência. Até aí nada de muito interessante. No entanto, as imagens do livro, postas em movimento, produzem uma constelação que faz de sua escrita um bem armado quebra-cabeça cultural. Alan Pauls, em seus longos parágrafos, estabelece relações curiosas entre objetos variados. Praia, corpo, erotismo, pele, beleza grupal, desejo, literatura e cinema geram signos que inusitadamente se expandem à medida que são postos em contato. A geografia da praia é a geografia do branco, da virgindade, da nudez e é justamente devido a essa pureza que ela nos convida a “reescrituras variadas”. Cada um enxerga no mar o que deseja. Essa parece ser a lógica do ensaio também, gênero que se oferece sempre como uma escrita livre e imaginativa. E explorar poeticamente um tema é uma forma, não só de expandi-lo, mas também de colocá-lo em rede. Tal escrita faz lembrar por vezes o ensaísmo de Roland Barthes.

Alan Pauls na praia de Copacabana

As referências do livro vão desde o “Tubarão” (Steven Spielberg) até “À praia” (Danny Boyle), passando pelo cinema de Fellini, Antonioni, Rodolfo Kuhn e Zinnemann. A cena clássica do beijo entre Burt Lancaster e Deborah Kerr na praia de “A um passo da eternidade” é evocada, bem como os protetores solares da Nívea e da Copertone. Pauls lembra da Roma de Justiniano, o primeiro imperador que regulamentou o “espetáculo do mar e da areia e que proibiu as edificações a menos de trinta metros da costa para proteger as vistas”. Com a queda do Império Romano, a cultura judaico cristã passará a questionar severamente o hedonismo, promovendo uma repressão contra o corpo. A praia passa a ser vista como sintoma de monstruosidade. Essa censura parece sobreviver até os anos 60 e 70 do século vinte quando as roupas de banho deixam de ser tão pudicas e o corpo volta a ser assumido em sua plenitude, a ponto de hoje ficar escondido apenas por poucos centímetros do biquíni. 


Em um dos textos, Pauls relaciona a praia com o reino do sonho e do cinema. O autor observa que sonha-se muito na praia. Isso porque ela é um território livre de imagens: “os sonhos, com suas imagens virtuais, são para a praia o que as miragens são para o deserto: a outra cena de um espaço. (As imagens não podem coexistir com o espaço: só aparecem quando o espaço real se dissipou no sono ou na alucinação)”. Nesse sentido, como sugere em um texto seguinte, se a praia fosse um tela de projeção seria uma tela em branco, “cinema virgem”, que não fascina pelo que irradia, e sim “por todas as imagens que era capaz de suscitar”. Essa liberdade é a mesma que faz com que a praia seja o único espaço público onde, segundo Pauls, “a nudez quase completa não é uma exceção nem uma infração provocadora, e sim um princípio de existência, uma forma de vida, a lei – tácita e unânime, mas não coercitiva – que rege a convivência humana”.


Alan Pauls na infância, na praia

Segundo Pola Oloixarac, Alan Pauls, desafiando os lugares-comuns tanto do pensamento como do prazer, “apresenta a praia como o ambiente de imaginação”. O livro nos conduz “à praia da infância do narrador, às ficções estivais de François Ozon e Eric Rohmer, às areias do Rio de Janeiro dos anos 70, às fantasias ascéticas da antipraia invernal”. Em todos os casos a praia parece produzir um “outro lugar” à margem da vida que costumamos viver.    
Alan Pauls encerra seus ensaios relembrando uma passagem vivida em sua infância quando, doente e impossibilitado de ir à praia, ficara em casa lendo um livro. Para ele, esse livro é o verdadeiro “outro lugar” que tem a forma da felicidade. Segundo o autor, talvez não tenha havido dias em nossa infância “mais plenamente vividos do que aqueles que passamos com o livro pelo qual mais tarde, uma vez que o tenhamos esquecido, estaremos dispostos a sacrificar tudo”. Uma boa praia e um bom livro parecem ser assim o sinônimo da própria felicidade perfeita. Em ambos, a liberdade plena é condição para a própria existência.


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 23 de fevereiro de 2018

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas




Entrando nos dias de folia carnavalesca, há quem troque a bagunça por um retiro no campo ou aproveite para ler aquele velho livro desejado com direito a pausas para assistir na TV ao desfile da Escola de Samba preferida: Mangueira, Portela, ou Salgueiro (esta, apreciada incondicionalmente pelo meu amigo Jessé), só para citar as mais tradicionais. Eu, evocando aqui os meus tempos de piá, trocaria a Sapucaí por um desfile da “Vai quem quer” ou da “Zé Totó” (extintas e saudosas Escolas de Samba de nossas cidades, cuja lembrança reforça em mim o sentido dessas singelas e autênticas manifestações de nossa cultura popular), que faziam a festa na Avenida Manoel Ribas, com direito a Rei Momo, passistas e carros alegóricos. Onde andam seus ritmistas? Essas reminiscências evocam outras. A memória é uma teia infinita tecida pela aranha do tempo.
Lembro de uma crônica sobre o carnaval escrita por Lima Barreto e publicada em fevereiro de 1920 (mais tarde reunida no livro “Feiras e Mafuás”), na qual o autor lamenta pelas transformações da festa já em seu tempo. O seu aborrecimento era em específico pela falta de inteligência das músicas que circulavam na época durante o evento. Menos preocupado com a “imoralidade” e a “chulice” que apresentavam e mais com o aspecto intelectual e artístico, Lima apontava para cantigas sem nexo algum, nas quais predominava uma “pobreza de pensamento”. Ele se referia a canções como “Fala meu loro”, um partido alto de Sinhô, tradicional compositor carioca. Sabe-se da qualidade musical não só desse baluarte do samba, mas de tantos outros músicos populares da época, possivelmente ainda incompreendidos por Lima Barreto e certamente depreciados por boa parte da cultura oficial.

Sinhô

O autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” valorizou amplamente a cultura popular, mas não conseguiu aprovar com unanimidade a produção musical carnavalesca da época. Isso se deu possivelmente pelo baixo nível de complexidade das letras desse cancioneiro, menos preocupado com a sofisticação estética e mais com o desejo de “cair na boca do povo”, sendo assim facilmente conhecido, memorizado e apreciado. Fico imaginando o que Lima Barreto pensaria do carnaval atual no qual impera o gênero sertanejo universitário e o funk. Os carnavais agora são bem outros e de longe se parecem com os bailes do Clube Aliança ou do Concórdia de vinte ou trinta anos atrás.

Carnaval antigo em Porto União da Vitória

Para quem prefere nesses dias de folia se exilar do “proibidão” (termo que segundo Liliam, minha colega de trabalho, refere-se ao funk carioca) e do sertanejo universitário (nada contra os dois estilos – sou eclético -, mas carnaval é tempo de samba e marchinha), sugiro a leitura do romance “Desde que o samba é samba” (Planeta, 2012), de Paulo Lins.
Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 20, e tendo como pano de fundo o surgimento do samba em casas de macumba como a da Tia Ciata, bem como a Praça Onze, o livro retrata a história de um triângulo amoroso entre uma prostituta, Valdirene, um malandro cafetão, Brancura, e um português, Sodré. Misturando realidade e ficção, a obra de Paulo Lins conta com uma narrativa ágil (que beira o cinematográfico), com uma linguagem popular – com direito a expressões típicas da época -, bem como com uma exímia reconstituição geográfica, a do belo Rio antigo.

Foliões no Rio de Janeiro dos anos 20

Silvio Fernandes, vulgo Brancura, por exemplo, existiu e fez parte da Turma do Estácio, grupo de sambistas que foram responsáveis pela criação de uma tradicional escola de samba e pela consolidação de seu gênero musical. Baiaco, Bide, Ismael, entre outros, integraram o grupo, sendo agora transformados em personagens. Modernistas como Mário de Andrade e Manuel Bandeira também. Carmem Miranda, por exemplo, aparece visitando um terreiro de Umbanda, religião que estava se disseminando pela cidade junto com o samba. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda, “Desde que o samba é samba” é uma incrível cartografia do mundo da malandragem (e mesmo da violência) nos bairros e morros onde a cultura carioca foi gestada”. 

Deixa Falar (Escola de Samba criada pelo Grupo do Estácio

O livro não se furta de apresentar de forma realista cenas de sexo e violência. Uma das curiosidades do romance é o fato de ter abordado de forma aberta e sem preconceito a homossexualidade de figuras como Ismael Silva e Mário de Andrade, cuja intimidade ainda hoje é tratada com ressalvas por pesquisadores e biógrafos. Lembremos que Paulo Lins escreveu também o romance “Cidade de Deus”, adaptado para o cinema.  

Paulo Lins

Obs: O título deste texto, “Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas” é inspirado no livro de crônicas “Coisas Nossas”, de Luiz Antonio Simas – mestre-sala da literatura contemporânea no que se refere à cultura popular carioca, lembrando cronistas como João do Rio e Lima Barreto -, e inspirado também no livro “Carnavais, malandros e heróis”, de Roberto DaMatta, que reflete sobre a essência ou especificidade da sociedade brasileira, tomando a figura do carnaval, dos malandros e dos heróis como criações sociais capazes de explicar ou de pelo menos fornecer um modelo de interpretação para a vida do brasileiro.

Brancura (Silvio Fernandes), personagem do livro

A leitura do livro de crônicas do Simas também é uma boa pedida para o período do carnaval. Cenas carnavalescas do passado, blocos de rua, desfiles, fantasias tropicais, brincadeiras de antigamente, rodas de macumba, quitandas e bares, formam uma “espécie de roteiro sentimental de uma cidade que talvez nunca tenha existido”, como escreveu o autor, mas que certamente vive nele. Bom carnaval a todos!   

Publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 16 de fevereiro de 2018  

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A visita de Che Guevara a Curitiba nos anos 60



Em 1966, antes de viajar para a Bolívia onde foi assassinado em seu projeto revolucionário, Che Guevara passou alguns dias em Curitiba e no norte do Paraná. Durante suas andanças pelo Estado, o guerrilheiro, que já estava se transformando em mito, carregou consigo uma Bíblia na qual teceu anotações cujo conteúdo nos é desconhecido. A revelação é no mínimo curiosa, já que o líder era um socialista convicto. Décadas depois, o livro se transformaria em objeto de procura e de culto entre ex-militantes da esquerda e colecionadores de obras raras.
A visita de Guevara, que nunca foi confirmada oficialmente, é mote para o enredo do romance “A Bíblia do Che” (Companhia das Letras, 2016), de Miguel Sanches Neto, autor de uma produção literária que nos últimos anos tem caminhado para um alargamento das fronteiras entre a história e a ficção.

Che disfarçado


"1966, sete horas e meia de viagem de São Paulo à Curitiba. O ônibus de Guevara chega atrasado na Rodoviária velha, na João Negrão. Seu contato não o esperava na plataforma conforme combinado. Nos ônibus só se podia fumar cigarros, pensando no que fazer Guevara acende um charuto cubano, com o anel trocado para não denunciar sua origem. Em pé, a maleta entre as pernas, esperou para ver se o contato aparecia. De terno e gravata, óculos, sem barba, e com os cabelos tingidos esbranquiçados mais parecia um pacato burguês de meia idade do que o jovem e temido guerrilheiro"

(Valêncio Xavier, Gazeta do Povo, 09 de março de 1997)

Em “Um amor anarquista”, por exemplo, o autor recria um triângulo amoroso entre moradores da Colônia Cecília (Palmeira-PR), que foi uma primeira tentativa de comunidade anarquista no Brasil do final do século XIX. Em “Chá das 5 com o vampiro”, são reveladas as intimidades do escritor Geraldo Trentini, uma alusão ao escritor Dalton Trevisan, que fora amigo de Miguel. O livro rendeu uma série de polêmicas, e inclusive uma possível resposta do “vampiro”, em um texto ácido que integra uma de suas publicações. O romance trata, em certo sentido, das vaidades que acompanham os literatos no mundo das letras. Em “A máquina de madeira”, narra-se a trajetória do Padre Francisco João de Azevedo, precursor na invenção da máquina de escrever. A narrativa é pretexto para o autor refletir sobre a formação da identidade de nosso país e sobre os processos de modernização no final do século XIX. Em “A segunda pátria”, reconstitui-se a cidade de Blumenau durante o advento da Segunda Grande Guerra. O protagonista, Adolpho Ventura, é um negro que sofre com o racismo e a ascensão do nazismo em Santa Catarina. Em uma das passagens mais curiosas do livro, Hitler visita o Brasil, episódio que permite a Sanches Neto, na liberdade da ficção, inscrever novos sentidos para uma história tal qual poderia ter sido, como faz Tarantino em “Bastardos Inglórios”.

Miguel Sanches Neto

Em todos esses romances percebe-se uma tendência à metaficção historiográfica, um conceito criado e discutido por Linda Hutcheon que pode ser encontrado em obras que tencionam os limites entre a literatura e a história, misturando assim realidade e ficção, o que vemos com recorrência na obra, por exemplo, de Jô Soares. É o que acontece também em “A bíblia do Che”.
O episódio que dá origem ao livro pode não ser verídico, mas é verossímil (documentos oficiais chegaram a abordar a viagem de Che ao Paraná em plena ditadura militar), e tem alimentado o nosso imaginário. Miguel Sanches Neto não foi o primeiro a escrever literariamente sobre o assunto. Em 2003, Valêncio Xavier publicou na “Folha de São Paulo” um conto (aliás, apresentado anteriormente na Gazeta do Povo nos anos 90) que tem como tema a mesma visita secreta. Valêncio, que também era cineasta, sonhava em filmar o argumento. 
“A bíblia do Che” tem como narrador um personagem já conhecido de Miguel, que já aparece no romance “A primeira mulher” (Record, 2008), o professor Carlos Eduardo Pessoa. Alguns anos depois de sua primeira aparição, Pessoa, agora ex-professor, vive recluso em uma sala comercial do edifício Asa, no centro de Curitiba e é convidado a uma nova aventura, envolvendo a procura da Bíblia do Che em meio a uma trama policialesca que conta com empresários corruptos e várias perseguições.
O protagonista envolve-se com Celina, a jovem e sonhadora viúva de um lobista envolvido em um esquema de desvio de verbas de empresas estatais em uma rede de corrupção que integra uma série de partidos. Antes de sua morte misteriosa, o lobista passa a ser investigado em uma megaoperação. Qualquer relação com a Lava Jato não é mera coincidência. À medida que Carlos Eduardo Pessoa procura a Bíblia, uma relíquia, investiga a morte de Jacinto Paes, o lobista que o contratou para encontrá-la.
Celina passa a ser perseguida pelos possíveis assassinos de seu marido e a narrativa acaba migrando para a Bolívia, na localidade onde Che viveu seus últimos dias. Mais do que isso é bom não adiantar. Celina é peça-chave.




Che morto na Bolívia (1967) e "O Cristo morto", de Andre Mantegna (séc. XV)
O mito se consolida


Miguel Sanches Neto se inspira na política contemporânea, bem como na crise da esquerda, para refletir também sobre as ruínas de uma série de ideais revolucionários que não morreram, mas que religiosamente parecem agonizar, enquanto procuram sobreviver em tempos de crise.

Texto publicado originalmente no jornal Caiçara (União da Vitória PR) em 03 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Coisas de outras vidas







(para a minha Géssica)
Poema para ser lido ao som de Ondatropica,
Cumbia Espacial

Quando eu era cumpadrito
Em los arredores porteños
Ou quando me banhava de lua
Ou de água salgada nas ressacas del malecón
Ou quando descia o morro
Com meu baralho no bolso
Você, morena, sorria e piscava pra mim

Quando o piano tocava
E a plateia do cassino dançava
As estrelas todas brilhavam e
Você, morena, lisa e latina, sorria e dançava para mim

Eu era, como você dizia,
A sua estrela do mar
E todo o cais 
em frente à praça
Enquanto o samba rolava
Beijava a Pedra do Sal e seus sais

Aqui, ou en la Boca ou em Havana
Ontem, hoje ou amanhã
Sempre e até o fim
Seja a minha morena,
latina ou cabrocha,

Sorria e pisque pra mim!

c.moreira

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Livro do Quase ou o adeus a Carlos Heitor Cony




Em janeiro de 2018, perdemos o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Ele tinha 91 anos e na bagagem intelectual uma larga experiência no jornalismo e uma vasta produção literária. Perder talvez não seja uma palavra apropriada, porque literatos nunca morrem. A arte, assim como a paternidade, é uma das formas que o homem encontrou para não morrer, pervivendo neste mundo por meio de suas pegadas. Mas sempre que um escritor do calibre de Cony se despede, fica-se a impressão de que perdemos algo muito especial, restando em sua obra algo que ficou a ser dito e que, no entanto, não mais será. Fica a memória e talvez seja ela a verdadeira pegada nossa nesse mundo. Aliás, a memória é o tema do romance mais conhecido e premiado de Cony.


“Quase Memória”, publicado em 1995, é um dos romances mais bonitos da literatura brasileira contemporânea. Eu estava relendo-o, coincidentemente, quando seu autor faleceu. O livro é uma homenagem para seu pai Ernesto Cony. Mas poderia ser lido também como uma espécie de autobiografia, ou melhor uma autoficção, já que o autor, nas páginas iniciais do livro, numa espécie de preâmbulo, problematiza a relação entre ficção e realidade, misturando no romance esses dois universos. Trata-se de uma Teoria Geral do Quase na qual o escritor confessa considerar seu livro um “quase romance” por achar que lhe falta entre outras coisas a linguagem. Para ele, o livro oscilaria, desgovernado, entre a crônica, a reportagem e a ficção. Personagens e situações reais se misturam com elementos fictícios. Com ares que fazem lembrar o filme “Amarcord”, de Fellini, “Quase Memória” é uma dessas obras em que a qualidade de escrita, o real valor do amor e da amizade, a permanência do passado (transformado numa ilha de edição) e o sentido misterioso da vida produzem afetos que justificam uma leitura, o tempo que gastamos com ela e o entusiasmo que ela pode produzir em um leitor.

Ernesto Cony

“Amanhã farei grandes coisas”. O autor da frase, personagem do romance, e pai do narrador do livro, é mote para Cony desfiar uma série de lembranças de sua infância e juventude, tendo seu progenitor como eixo em torno do qual gira toda a narrativa. O enredo tem como estopim uma situação específica. O narrador recebe um misterioso embrulho, sem remetente, no qual identifica as marcas do pai: o laço do barbante sobre o qual está envolvido o pacote, a sua letra inconfundível, bem como o cheiro de fumo e alfazema que gostava de usar, “metade por vaidade, metade por acreditar que a alfazema cortava o mau-olhado, do qual tinha hereditário horror”. O fato curioso é que o pai havia morrido dez anos antes do recebimento da correspondência. A partir de então, desfia-se uma rede de memórias que terá o pai como personagem principal: a capacidade que ele tinha de pôr solenidade nas coisas pequenas, a habilidade para contar histórias e confeccionar balões em datas especiais, a disposição para aventuras inusitadas, a facilidade para envolver-se em confusões homéricas, um jeito de viver e olhar a vida de forma bastante diferente: “sempre vivera satisfeito, era do tipo que recebia um bom-dia como uma homenagem, de tudo em que se metia dava um jeito de extrair prazer pessoal”. Era o sujeito que todo dia, ao dormir, pensava consigo mesmo: “Amanhã farei grandes coisas!”. Desconfio que toda família tem um sujeito como esse personagem. Na minha, era o Valdir, um primo que tinha habilidades incríveis para contar histórias e um jeito muito seu de viver e ver a vida.




O mistério do “quase romance” gira em torno do embrulho recebido. Teria sido mesmo o pai a enviá-lo? O narrador hesita a todo momento em abri-lo. E é em torno dessa expectativa que o livro vai sendo tecido e as memórias evocadas. Não revelo aqui o desfecho da trama para não colocar a carroça na frente dos bois aos leitores que ainda não se aventuraram pelas páginas de Cony. Cumpre dizer que o livro é também um passeio pelo Rio de Janeiro da primeira metade do século XX. Com ele, Carlos Heitor Cony recebeu dois Jabuti, nas categorias Livro do Ano e Melhor Romance, em 1996. No ano 2000, em sua posse na Academia Brasileira de Letras, o escritor, depois de confessar-se agnóstico e afirmando não ter a “disciplina mental para ser de esquerda”, nem a “firmeza monolítica para ser de direita”, tampouco se sentindo confortável na “imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro”, evocou as páginas de “Quase Memória”: “(...) sou filho de um jornalista obscuro que transformei num personagem que todas as noites prometia a si mesmo: 'Amanhã farei grandes coisas!' Nunca fez grandes coisas, mas acreditava que viver era uma grande coisa”. Antes de morrer, Cony desejou uma despedida sem enterro ou homenagens. Partiu humilde.             

Publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 
no dia 27 de janeiro de 2018.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Carta-sapato para o Natal de 2017 e ano de 2018




Em 26 de dezembro de 1979, Henfil escreveu para a sua mãe uma daquelas famosas cartas que viriam a ser publicadas em jornais e revistas da época e depois reunidas em livro. Nela, ainda em plena ditadura militar, o cartunista e jornalista realizava um comovente balanço do ano que passara ao passo que fazia da carta um canto de esperança para o tempo que estava por vir: “Mãe, aqui estou eu, em mais um Natal, fazendo desta carta meu sapato colocado na janela”. Na sequência, ele conclui ter sido um bom moço naquele ano: “Eu acho que fui muito bom. Eu fui solidário com todos os meus irmãos Betinhos (...). Voltei pro país que me expulsou como todos os Juliões. Dei murro em ponta de faca como todos os Marighellas. Cantei as prostitutas, as mulheres de Atenas e joguei pedra na Geni como todos os Chicos Buarques. Aspirei cola como todos os pixotes. Fui negro, homossexual, fui mulher. Fui Herzog, Santo Dias e Lyda Monteiro”. A carta é encerrada de forma comovente: “Vou fechar os olhos, vou dormir depressa. Esperando que meia-noite todos entrem pela minha janela. Me façam chorar de alegria, que eu quero viver! A bênção, Henfil”. O artista faleceria alguns anos depois.
Não sei o motivo de ter lembrado desta carta quando esboçava o último texto que escrevo para este jornal no ano de 2017. Talvez pela comoção que geralmente me invade nesse período do ano, a mirar com uma certa e triste alegria desde os trenzinhos de papai Noel a trafegarem pela cidade até o perfume da árvore chamada Dama da Noite (cestrum nocturnum), que floresce nessa época, perfumando as noites de dezembro e janeiro. Talvez a carta-sapato de Henfil nos traga ainda um ar de luta e esperança tão necessários em tempos politicamente obscuros. Paradoxalmente, olho para esse tempo e nele encontro um dos mais bonitos de minha vida, iluminado pelo sorriso de uma filha, que chegou há quase dois anos para alegrar nossa casa e transformar nossas vidas.
2017 foi intenso, tão parecido e diferente dos anos anteriores que só nos resta fazer um balanço e pendurar aqui nossa carta-sapato para o ano vindouro. Pensemos no tema que nos move neste espaço (o jornal me solicita reflexões sobre arte e literatura e tento, então, humildemente fazê-las). 
Na literatura, em 2017, encantei-me com o jovem escritor norte-americano Patrick de Witt, no livro “Os Irmãos Sisters”, que retoma o gênero faroeste, atualizando-o e transformando-o. Degustei o livro “Limonov”, de Emmanuel Carrere, pensando com Dostoiévski que “a verdadeira verdade é sempre inverossímil”. Diverti-me com o livro de crônicas “Coisas Nossas”, do grande Luiz Antonio Simas. Apreciei os mais recentes e esperados romances de Milton Hatoum (“A noite da Espera”) e Daniel Galera (“Meia-noite e vinte”). Conheci um pouco da cultura dos índios Arawetés lendo o famoso estudo de Eduardo Viveiros de Castro, “Araweté, um povo tupi na Amazônia”. Surpreendi-me com o romance-policial “Macumba”, de Rodrigo Santos, que discute a intolerância religiosa em nosso país. Lamentei com o escritor alemão W.G.Sebald os horrores da guerra, lendo “Os imigrantes”. Acertei as contas com minha consciência ao ler uma obra obrigatória pela qual não havia ainda me aventurado, “O coração das trevas”, de Joseph Conrad. Impressionei-me com o inquietante “Conto da Aia”, de Margareth Atwood, que me foi emprestado por uma aluna. Viajei pelas páginas de autores que aprecio como o argentino César Aira, o russo/ucraniano Gógol, Jorge Amado, etc. Poderia citar outros companheiros de viagem, mas o tempo é curto.
Espero que 2018 seja um ano feliz, repleto de realizações e boas leituras, afinal de contas os bons livros nos ajudam a viver melhor. Que em 2018 impere a paz e o amor na vida de todas as pessoas e também nos noticiários. Que as más notícias não cheguem tanto. Que possamos sorrir e dançar mais e que essa dança seja tão bela quanto aquela que assisti com minha esposa há alguns dias no espetáculo “Elementos”, do Grupo Corpo & Dança. Quanta beleza estava posta em movimento no Cine Ópera naquela noite. Que venha 2018 e que ele possa dançar em nós. E que na noite de Natal, como Henfil, possamos fechar os olhos esperando que à meia-noite todos entrem pela nossa janela e nos façam chorar de alegria, posto que todos queremos viver. 


Texto publicado originalmente no jornal Caiçara, 
em União da Vitória-PR, em 23 de dezembro de 2017. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Concerto n.1 para Faca e Oboé





observações sobre o livro "5 bonecas de olhos vazados", de Rubens Francisco Lucchetti, após a leitura.

Um narrador que passeia, feito drone, pelas cenas de um livro, perscrutando as personagens e suas ações, insinuando-se por entre os parágrafos, dirigindo-se ora ao protagonista, ora aos leitores. Esse intenso personagem, que é o próprio narrador, revela ao longo das páginas seus medos, angústias de escrita, gostos de arte e sua história como leitor. Personagens importantes de outras obras do mesmo autor criam um caso exemplar do que poderíamos chamar de auto-intertextualidade (poucos escritores conseguem fazer isso com destreza). A incrível capacidade de transformar em ficção a realidade e a realidade em ficção. Terror/suspense/policial em pura fricção. Personagem/narrador/voyeur/leitor, Rubens se autonomeia pelo menos uma vez ao longo do livro “5 bonecas de olhos vazados” - (trata-se de uma referência à realidade ou de mais um elemento ficcional falando de um outro personagem que é o próprio Lucchetti? Tudo parece se fazer imagem e ficção). Passagens de sua vida são reveladas no livro, mas onde começa e onde termina a realidade? O romance/jogo acontece em meio a uma série de referências à cultura literária e cinematográfica, clássica e popular, e entre ilustrações que fazem lembrar a criativa relação texto/imagem que encontramos em livros como “A misteriosa chama da rainha Loana”, de Umberto Eco, uma homenagem à própria literatura. Um livro para ser lido ao som eletrônico de Daniel Piquê, aliás personagem do livro. Outras referências musicais são apontadas ao longo da trama, basta seguir as sugestões do próprio autor. Curiosamente o tempo do livro parece acompanhar o tempo das músicas. Procedimento criado de forma consciente ou inconsciente? Não importa. Se há ou não uma planta-baixa para a obra, o que importa é que Rubens Francisco Lucchetti se revela um mestre na arquitetura literária. Provavelmente o livro mais bem escrito de sua vida. Rizomático, o narrador divide com os leitores os múltiplos caminhos a serem seguidos durante a própria escrita. Capítulos como o do Sonho – um dos últimos do livro - são dignos de uma obra prima. Segundo Lucchetti, “5 bonecas de olhos vazados” é uma homenagem à Mary Shelley e sua obra Frankenstein. "5 bonecas de olhos vazados" (que nome maravilhoso) é um dos livros mais curiosos que li nos últimos anos. Ele ainda vai dar muito o que falar!
obrigado, mestre!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

R.F. Lucchetti: O Lobisomem de Jardinópolis



Se Curitiba tem o seu vampiro, Dalton Trevisan, bem como o seu Frankenstein, Valêncio Xavier, Jardinópolis, em São Paulo, tem o seu Lobisomem, Rubens Francisco Lucchetti, considerado por Valêncio um dos escritores mais importantes do mundo. Acreditem se quiser, Lucchetti, no auge dos seus 87 anos, é autor de mais de mil e quinhentos livros (a maior parte deles publicada com pseudônimos ou heterônimos), sem contar umas trezentas HQs, vinte e cinco roteiros de cinema, entre outras produções. A cifra extraordinária já é suficiente para nos lançar a busca de seus livros que, curiosamente, são difíceis de serem encontrados. O jeito mais fácil talvez seja entrando em contato com o próprio pelo facebook. A maior parte dos títulos disponíveis são vendidos diretamente por Lucchetti, que os envia aos compradores com um carinhoso autógrafo. A sua obra foi para mim uma grande descoberta em 2017. Como é que eu não havia lido esse gênio antes?



Lucchetti é um mestre na literatura de Horror. Leitor de Bram Stoker, Edgar Alan Poe, entre outros, é considerado o papa da “pulp ficcion” no Brasil. O termo faz referência às revistas publicadas com papel barato que se popularizaram no século XX, geralmente vendidas em bancas de jornal. Gêneros como o de terror, suspense e policial foram bastante explorados por essas revistas. Com o tempo, a expressão passou a designar um gênero menor, uma espécie de subliteratura. Não gosto de pensá-la assim. Prefiro mirá-la a partir da potência imaginativa que levou Quentin Tarantino e Charles Bukowski a inspirarem-se no universo pulp.


A obra “As máscaras do pavor”, por exemplo, se passa em meados da década de 70, em Los Angeles, onde começam a ocorrer uma série de assassinatos que parecem ter sido cometidos por personagens clássicos, como o Drácula, o Fantasma da Ópera, Jack, o Estripador e o Lobisomem. Nesse sentido, o livro é uma homenagem ao cinema e à própria literatura. “Os amantes da Sra. Powers”, inspirado na literatura Noir, inicia-se com um misterioso atropelamento que será presenciado pelo detetive Bernard Calhoum, que se envolverá ao longo da trama em uma série de peripécias. A literatura Noir, com suas belas e sensuais personagens femininas, bem como com seus detetives de chapéu e cigarro na mão, geralmente mistura terror, suspense e policial e se passa em ambientes noturnos e ruas desertas. Em “O abominável Dr. Zola”, narra-se a apavorante história de um louco cientista que usava em suas macabras experiências seres humanos. Dr. Zola, cujo nome é possivelmente inspirado no escritor naturalista Émile Zola, criou um lobisomem a partir de uma inseminação artificial. Outros títulos poderiam ser citados como “O museu de horrores” e “5 bonecas de olhos vazados”, este lançado há alguns dias. No prelo, está o livro “Poemas de Vampiros”, a sair pela editora Clepsidra. Boa parte da obra tem sido publicada pela Editorial Corvo.



Quando assisti ao “O segredo da Múmia” (1982), de Ivan Cardoso, nem imaginava que o roteiro era de R.F.Lucchetti. Clássico brasileiro do gênero “terrir” (por misturar a comédia e o terror), o filme conta também a história de um cientista louco que, neste caso, descobre uma poção capaz de dar vida eterna aos seres humanos, usando uma múmia que, voltando à vida, ameaça os vivos. Outro filme conhecido do mesmo diretor, com roteiro de Lucchetti, é o “Escorpião Escarlate” (1990), que homenageia filmes de aventura e suspense, inspirando-se em antigos programas de rádio. Parceiro criativo de ilustradores como Nico Rosso, Lucchetti criou diversas revistas de histórias em quadrinhos e roteiros para José Mojica Marins, o famoso Zé do Caixão, seu amigo e companheiro na arte do Horror.


Como escritor, Lucchetti permanece fiel a si mesmo. Na folclórica história do lobisomem, um sujeito aparentemente comum, em uma noite de lua cheia, transforma-se em uma horrenda figura monstruosa, meio homem meio bicho, para assustar as pessoas e/ou cometer suas aberrações. Imagino Lucchetti, quando anoitece, trancando-se em seu escritório e deixando escapar de sua imaginação, em todas as noites, suas assustadoras histórias. Quando amanhece, ele adormece seus monstros e retorna à vida comum. É o lobisomem de Jardinópolis.    


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR, em 16 de novembro de 2017.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Palavra de Índio: uma reflexão sobre as Poéticas Ameríndias





A poesia é também coisa de índio e, no entanto, muito pouco se fala das manifestações poéticas praticadas pelas mais variadas tribos indígenas que povoam o Brasil. Aprende-se na escola que o português, logo aqui chegado, em 1500, registrou na “Carta do Achamento” suas primeiras impressões sobre o nativo brasileiro, estranho aos olhos do europeu pelo seu modo de vida e, principalmente, por não sentir vergonha alguma de suas vergonhas. Aprende-se também que, desde então, o índio tornou-se personagem dos mais variados e fantasiosos textos literários, elevando-se no século XVIII a símbolo de luta da elite mineira contra o colonialismo europeu e à herói nacional no contexto de Independência no século XIX. Em muitas obras poéticas deu-se voz ao índio, no entanto, essa voz, trazendo na maior parte das vezes um sotaque europeu, pouco traduziu a imensa riqueza e complexidade de sua cultura. Ao invés de darmos voz ao índio – algo que ele inevitavelmente possui – penso que deveríamos ouvi-lo.



Tenho me interessado pelas Poéticas Ameríndias, que se caracterizam como um conjunto de textos artísticos que brotam da oralidade indígena. Geralmente, são produções culturais relacionadas a cosmogonias, ritos sagrados e festividades das tribos. Nesse contexto, a arte não está desvinculada do universo religioso, pois para os índios não há uma separação entre arte e vida, ou entre arte, religião e vida. Antonio Risério, no livro “Textos e Tribos”, problematizará a noção de Poética indígena, pois para ele os conceitos de poesia e literatura são ocidentais e não traduzem a experiência cultural da palavra operada pelos índios. Ele opta pelo conceito de “textualidades extra-ocidentais”. Para Risério, a marginalização dos textos indígenas e negroafricanos, no Brasil, é um reflexo do “estatuto subordinado dessas culturas no espaço mental brasileiro – reflexo, por sua vez, do lugar ocupado por essa gente, e pela maioria dos seus descendentes mestiços, na estrutura da sociedade nacional”.



Prefiro pensar que os índios, desde muito antes da invasão branca, já eram também poetas. Isso porque em muitas culturas ameríndias o trabalho artístico com a palavra assemelha-se de forma impressionante à atividade que caracterizamos como poesia. Os mbyá-guaranis, situados entre o Paraguai, Uruguai, Argentina e sul do Brasil, por exemplo, chamam de “ñe´eporã” o conjunto de belas palavras - ou palavras adornadas - usadas em seus cantos religiosos. Em tais cantos podemos encontrar expressões metafóricas, polifônicas, léxicos diferenciados, ou seja, elementos encontrados com frequência em textos poéticos da nossa cultura. Usam, por exemplo, a expressão “pequena flor do arco” para falar de uma flecha, ou “esqueleto da bruma” para falar de um cachimbo (os exemplos são dados por Pierre Clastres, em seu livro “A Fala Sagrada”, que compila mitos e cantos sagrados dos índios guaranis). As “ñe´eporã” teriam como objetivo, antes de comunicar algo ou descrever, voltar o seu olhar para a beleza da própria linguagem, intenção maior da poesia também para nós. E essa experiência para os mbyá-guaranis é profundamente sagrada. Exatamente por isso, na maior parte das vezes, o acesso a tais textualidades é vedado ao homem branco.  


Nos anos 50, o antropólogo León Cadogan, depois de salvar um índio de uma condenação injusta, recebeu a permissão dos mbyá-guaranis para ouvir e registrar os cantos chamados “Ayvu rapyta”, que descrevem a origem de todas as coisas depois do surgimento do deus supremo e das palavras. No mito, Ñamandu desdobra-se de si mesmo como uma flor e é alimentado por um beija-flor com alimentos sagrados. Brota, então, a fonte da fala, que para os guaranis é a origem de tudo. E o poder que esse grupo dá à palavra é simplesmente comovente. Alma e palavra são elementos indissociáveis, traduzidos na expressão “ñe´eng” (Palavra-alma). Por meio da palavra, a divindade faz fecundar o ser, portanto a procriação para eles, como sugeriu Bartolomeu Melià, é um ato poético-religioso e não erótico-sexual. O nome de uma pessoa, por exemplo, é a própria pessoa e muitas vezes um xamã usará isso a favor de um doente, trocando um nome por outro para espantar a morte. Aliás, os xamãs, transmissores de vozes divinas, pontes para o além, são verdadeiros poetas que usam as palavras e as músicas para curar. Para os mbyá a cultura branca não sabe usar de forma adequada a linguagem. Para eles, não levamos a sério as palavras e seus poderes. É por isso que quando um índio nos dá sua palavra está nos dando a sua alma. Quantas coisas temos a aprender com eles.



Alguns poetas e tradutores contemporâneos têm se interessado pelas Poéticas Ameríndias, traduzindo cantos indígenas e resgatando, assim, parte de uma sabedoria que ainda está para ser explorada. Falo do trabalho de Josely Vianna Baptista, que traduziu criativamente os cantos do “Ayvu rapyta” no livro “Roça Barroca”. Falo de Alberto Mussa que recriou mitos fundacionais da cultura Tupinambá, em “Meu destino é ser onça”. Falo do poeta português Herberto Helder, que traduziu cantos caxinauás. Falo do portunhol selvagem de Douglas Diegues. Falo de Eduardo Viveiros de Castro, seu perspectivismo, e seu estudo dos cantos xamânicos arawetés. Escritores indígenas têm também se destacado na literatura brasileira como Kaká Werá Jecupé e Daniel Munduruku. Outros têm lutado bravamente por direitos e causas socioambientais, como Davi Kopenawa. São promotores de sabedorias milenares. Que possamos ouvir suas palavras adornadas a nos ensinar que a poesia não pertence apenas a nossa cultura, mas que tem em outras sua morada. Conhecer as palavras sagradas e poéticas dos índios talvez seja um passo importante na luta contra o seu extermínio. O nome deste jornal nunca soou tão poético e profundo para mim quanto hoje.



 Publicado no jornal Caiçara, em União da Vitória,
03/11/2017. As imagens são de Eduardo 
Viveiros de Castro. retratam os Arawetés. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Chimamanda Ngozi Adichie: É coisa de preto!





Na segunda-feira (20), em todo o território nacional, comemorou-se o Dia da Consciência Negra, que acontece concomitante ao Dia Nacional de Zumbi dos Palmares, devido à possível data de sua morte. Aproveito o momento para perguntar aqui quais são os verdadeiros motivos que temos para comemorá-lo. À força do afrodescendente e à alta qualidade da cultura negra em nosso país – fundamentais para a nossa história, para nossa sensibilidade nacional, para nosso presente e futuro – contrapõe-se o racismo velado ou explícito ainda ativo na mediocridade daqueles a quem falta o bom senso. Há alguns dias, por exemplo, redes sociais divulgaram um vídeo no qual um famoso apresentador da Rede Globo, em uma gravação realizada durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos - ao irritar-se com o som de buzinas que atrapalhavam a matéria -, cochicha a seu companheiro de trabalho: “É coisa de preto!”. O vídeo viralizou e a emissora acabou afastando o jornalista. As expressões racistas são tão recorrentes ainda no nosso dia a dia que é bem possível que os leitores deste texto já tenham ouvido muitas vezes durante sua vida a frase “É coisa de preto!”. E enquanto ela for proferida, estando consciente ou inconscientemente atravessada por intenções racistas, uma margem da escravidão não terá terminado. Prefiro inverter o seu sentido para celebrar a vida e a força dos negros e de sua cultura entre nós.



É coisa de preto a obra de Machado de Assis, Cruz e Sousa e Lima Barreto. Os três maiores escritores do final do século XIX e início do século XX, no Brasil, eram negros, o que ironicamente desmonta as teorias racistas vigentes naquele período. É coisa de preto a Geografia de Milton Santos, bem como a arte de Emanoel Araújo. É coisa de preto a literatura de Carolina Maria de Jesus e o inventivo talento musical de Pixinguinha, Donga, João da Baiana, entre tantos outros. O samba na casa da Tia Ciata era coisa de preto. A escultura barroca de Aleijadinho também. O Quilombo de Zumbi era coisa de preto. Todos os outros Quilombos também. A prosa de Joel Rufino dos Santos é coisa de preto, assim como a poesia de Elisa Lucinda, ou os textos de Conceição Evaristo. A música de Caymmi, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Luiz Melodia, Djavan, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, é coisa de preto. O futebol de Leônidas da Silva, Amarildo, Canhoteiro era coisa de preto também. A capoeira do Mestre Pastinha. O cinema de Milton Gonçalves e Grande Otelo. É coisa de preto a voz de Jamelão, as músicas de Lupicínio Rodrigues, e de Nelson Cavaquinho. O sagrado de Mãe Menininha do Gantois, Mãe Senhora e Mãe Stella. É coisa de preto a poesia de Vinícius de Moraes, que se considerava o branco mais negro do Brasil. O trabalho de Abdias Nascimento, Beatriz Nascimento, Jurema Werneck é coisa de preto. A performance musical de Paulo Moura e Johnny Alf também. Poderia preencher páginas e páginas aqui. Faltaria espaço, então, celebramos todos com um salve à negritude brasileira! Principalmente, àquela negritude anônima que desde as senzalas até os trabalhos contemporâneos menos reconhecidos atua bravamente no cotidiano desse imenso Brasil.




Recentemente, descobri uma jovem escritora africana que muito me encantou. Falo de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela ficou conhecida também por alguns vídeos que circulam na internet, nos quais fala sobre questões políticas de grande importância. Em um deles, discorre sobre os perigos de contarmos apenas uma versão da história. Nele lamenta, por exemplo, a ausência de personagens negras em contos de fadas e de heróis em geral.




Gostaria de usar o espaço que me resta para fazer uma referência ao livro de contos “No seu pescoço”, de Adichie, traduzido e publicado recentemente pela Companhia das Letras. No conto que dá nome à coletânea, a escritora relata a vida de uma jovem nigeriana de Lagos que vai tentar a vida universitária nos Estados Unidos. Um aspecto curioso do conto é o fato dele ser narrado em segunda pessoa, mas retratando experiências da primeira pessoa, como se o narrador escrevesse sobre si como sendo um outro, o que demonstra possivelmente um determinada crise de identidade enfrentada pelo ser estrangeiro. Em meio ao choque cultural, social e econômico que Akunna – esse é o nome da personagem – encontra na América, a jovem sente na pele o poder que a pele tem para torná-la vítima de um racismo atroz. A começar pelo desconforto que vivencia em uma faculdade comunitária quando suas colegas olham boquiabertas para o seu cabelo, perguntando se ele ficava de pé quando ela soltava as tranças. Ao invés de responder, Akunna sorria de um jeito forçado. Depois de sofrer tentativas de abuso sexual na casa onde estava hospedada, muda-se para uma cidade que não possuía universidade comunitária. Lá, a jovem trabalha muito por uma remuneração baixíssima e se aproxima de um jovem americano que não a olha como um ser exótico, ao contrário da maioria das pessoas. Com ele se relaciona, mas cedo percebe a distância que marcava fortemente o encontro entre uma negra e um branco: “Pela reação das pessoas, você sabia que vocês dois eram anormais – o jeito como os grosseiros eram grosseiros demais e os simpáticos, simpáticos demais (...)”. Os homens e mulheres brancos diziam “Que casal bonito”, “num tom alegre demais, alto demais, como se quisessem provar para si próprios que tinham a mente aberta”.




Chimamanda Ngozi Adichie é uma escritora feminista que tem levado para seus livros uma intensa reflexão sobre o racismo. Tem, nesse sentido, feito um barulho na literatura contemporânea. Ao invés de lamentar esse barulho, dizendo que é “coisa de preto!”, prefiro saudá-la como uma das grandes revelações da atual ficção nigeriana. A sua arte é também e com muito orgulho “coisa de preto”!       

publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 
em 25 de novembro de 2017