sábado, 17 de março de 2018

Literatura: substantivo feminino





Na semana passada, no dia 08 de março, comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Tive o prazer de participar, com as professoras Lorena Lima e Gisele Schnorr, no IFPR (Instituto Federal do Paraná), campus de União da Vitória, de uma mesa-redonda, que teve como foco a presença da mulher na literatura. O debate integrou uma semana de atividades relacionadas ao tema. Senti-me lisonjeado e ao mesmo tempo apreensivo por ser o único sujeito masculino a participar dos debates. As mulheres, com todo o merecimento, têm conquistado espaços significativos em todos os setores da sociedade, superando uma condição social que, ao longo da história, não foi generosa e justa com elas. No entanto, falta ainda um reconhecimento maior no que se refere, por exemplo, à remunerações mais honestas e ao pleno respeito a seus direitos, superando formas de assédio e outros tipos de violência que ferem a sua dignidade.
A mesa-redonda tratou das representações da mulher na literatura ao longo dos tempos, da participação de escritoras na produção literária, bem como das polêmicas envolvendo a existência ou não de uma poética propriamente feminina. Poderíamos considerar como literatura feminina apenas aquela produzida por mulheres? Ou também aquela cujos temas estão relacionados ao seu universo? Ou ainda, seria feminina uma poética na qual o narrador ou o eu-lírico são predominantemente femininos independente do sexo do autor?
Arrisco dizer que toda a literatura é feminina, mesmo aquela produzida por homens. Isso porque a intuição e a sensibilidade necessárias à prática da arte literária, em especial à da poesia, são elementos, por excelência, femininos (talvez devêssemos estudar melhor a relação entre o hemisfério direito do cérebro, as mulheres e o texto poético). Sempre acreditei que a arte nos ensina a ver a vida de forma feminina. E o interesse pelo universo feminino certamente me aproximou da arte. A poesia, aliás, é o grande útero da linguagem e ao mesmo tempo o leite que nutre e fortifica um idioma. Se o mundo fosse comandado por mulheres dificilmente assistiríamos a tantas guerras e outras barbáries. As mulheres são mesmo as engenheiras e arquitetas do mundo.
Oswald de Andrade defendeu em seus ensaios a importância da mulher na vida social. Para ele, o mundo se divide na sua longa história em Patriarcado e Matriarcado. Sua tese “Crise da Filosofia Messiânica” argumenta que um novo Matriarcado se anuncia com tudo aquilo que vem junto dele: o filho de direito materno, a propriedade comum do solo e o Estado sem Classes, ou mesmo a ausência de Estado. Sob essa ótica, só quando o mundo voltasse a ser dominado pelas mulheres alcançaríamos o verdadeiro estágio de liberdade, igualdade e fraternidade (ou melhor “sororidade”, para usar uma expressão que me foi apresentada pela professora Giselle Schnorr). A visão anarco-socialista de Oswald é muito bonita e transcende seu pensamento literário.

Oswald de Andrade e Pagu

Até o século XX a participação das mulheres na literatura foi praticamente nula. A maior parte das escritoras produzia uma obra que sequer era divulgada. Em muitos casos, elas adotavam pseudônimos masculinos como condição para a publicação, circulação e valorização de suas obras. É o caso por exemplo de Emily Brontë, que escreveu “O Morro dos Ventos Uivantes”, publicado com o pseudônimo Ellis Bell. No Brasil, nos últimos 50 anos, as mulheres começaram a conquistar espaços mais significativos no cânone literário. Se na primeira metade do século encontramos poucos nomes, como Rachel de Queiroz, Cecília Meireles, Pagu (Patrícia Galvão) e Gilka Machado, na segunda metade proliferam-se os nomes: Clarice Lispector, Hilda Hilst, Adélia Prado, Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Cora Coralina, Helena Kolody, Carolina Maria de Jesus, Marina Colasanti, Zélia Gattai, Ana Cristina Cesar, entre outras. A lista das contemporâneas é grande e vai de Josely Vianna Baptista à Carol Bensimon. 



Veronica Stigger, por exemplo, em “Gran Cabaret Demenzial”, discute questões que aludem, não apenas ao universo feminino, mas também aos dilemas da vida, abordando de forma poética - mas ao mesmo tempo filosófica e política -, o grotesco de um mundo que cada vez mais tem se tornado insuportável. Angélica de Freitas, por sua vez, no livro de poemas “Um útero é do tamanho de um punho”, reflete criticamente sobre preconceitos e estigmas vivenciados pelas mulheres. Em um dos poemas, “Mulher de vermelho”, a poeta assume um eu-lírico masculino para problematizar a voz social que vê na sensualidade da mulher um elemento de promiscuidade: “O que será que ela quer / essa mulher de vermelho / alguma coisa ela quer / pra ter posto esse vestido / não pode ser apenas / uma escolha casual / (...) / o que ela quer sou euzinho / sou euzinho o que ela quer / só pode ser euzinho / o que mais podia ser”. Observe-se que o que se problematiza aqui é discurso que, por vezes, se materializa a partir de casos de estupro: “Que roupa ela estava usando?”. Como se a vestimenta justificasse o crime. As mulheres têm produzido uma arte poética muito rica e significativa na contemporaneidade. Desejo que elas possam cada vez mais ocupar na literatura - e em todos os outros lugares - um espaço que sempre foi seu de direito.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória PR, 17 de março de 2018.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Crimes à moda antiga: os contos verdade de Valêncio Xavier




Em março de 2018, o escritor Valêncio Xavier estaria fazendo 85 anos. Ao invés de lamentarmos os exatos dez anos de sua morte, celebremos a vida de uma das mentes mais criativas da literatura brasileira contemporânea, que escreveu, por exemplo, “Curitiba, de Nós” (1975), “O Mez da Grippe” (1981), Maciste no Inferno (1983), “O Minotauro” (1985), “A Propósito de Figurinhas” (1986), “Minha Mãe Morrendo e o Menino Mentindo” (2001), “Remembranças da Menina Morta de Rua e Outros Livros”, etc.
Valêncio Xavier, paulistano radicado na capital paranaense, explorou com maestria um diálogo entre a literatura, o cinema, o jornalismo e a fotografia. Seus livros se constituem quase sempre como montagens criativas nas quais a relação entre textos e imagens (compostas por fotogramas cinematográficos, fotografias, rótulos, manchetes, colagens em geral) é o princípio constitutivo de uma experiência artística bastante singular. As imagens em sua obra não apenas ilustram os textos, mas são também por eles iluminadas. E a “fricção” entre ambos faz surgir um novo signo literário. Sua literatura é, nesse sentido, intersemiótica.

Valêncio Xavier

Com suas montagens o escritor contou histórias que tiveram como pano de fundo o universo da memória, do erotismo, da tragédia, da morte e do mal. Em boa parte de seus livros, a abjeção aparece como sintoma de uma literatura interessada em retratar a degradação humana, a baixeza do mundo. Tomemos como exemplo seu penúltimo livro, “Crimes à moda antiga” (2004), no qual podemos perceber a violência como eixo temático a nortear os enredos apresentados. A publicação é composta por uma série de “contos verdade”, que partiram de assassinatos praticados no Brasil no início do século XX. A obra, editada pela Publifolha, contou com ilustrações do próprio autor, bem como de Sérgio Niculitcheff. Valêncio pesquisou amplamente cada um dos crimes e os transformou em matéria literária, sem alterar, no entanto, a veracidade dos fatos.

No conto “Os Estranguladores da Fé em Deus”, o autor relembra o caso dos irmãos Paulino e Carlo Fuoco. Os jovens, que trabalhavam na joalheria do tio, foram barbaramente assassinados em outubro de 1906, no Rio de Janeiro, por Eugênio Rocca e Carletto. Em outro conto, “A noiva não manchada de sangue”, Valêncio reconstitui o assassinato de Arthur Malheiros no quarto de um hotel situado na Galeria Cristal, no centro de São Paulo, pelas mãos de sua ex-namorada Albertina Barbosa Bonilha, em conluio com seu marido Elisário Bonilha, nos idos de 1909. As motivações do crime nunca foram completamente esclarecidas. “A Morte do Tenente Galinha” apresenta o fim inglório de um famoso caçador de bandidos na cidade de São Paulo, em 1913, que teve como estopim um adultério. O famoso crime de Cravinhos, no qual uma rica fazendeira - a rainha do café - encomenda a morte de seu genro, também é registrado no livro. São apresentados também dois contos sobre os chocantes crimes da mala - em que os corpos das vítimas são brutalmente esquartejados -, como é o caso da morte de Maria Féa pelo italiano José Pistone, e de Elias Farhat por seu empregado Miguel Trad, um imigrante sírio. O último texto da obra revisita o assassinato, nos anos 30, de dois curitibanos e de dois gaúchos cometido por uma mesma dupla de assaltantes facínoras.

Febrônio

O conto baseado em um crime mais clássico talvez seja aquele que reconstitui a vida do bandido Febrônio e as crueldades por ele praticadas no Rio de Janeiro nos anos 20. Este é um dois bandidos mais famosos do século XX, tendo morrido em um manicômio em 1984. A sua história envolve crimes sexuais, homicídios e misticismo religioso. O personagem é tema de um ensaio de Raúl Antelo (Suplemento Literário, 2009, n.1321), que analisa a monstruosidade de Febrônio à luz de reflexões sobre o mal na obra, por exemplo, de Georges Bataille.

Giuseppe Pistone e Maria Féa a bordo do navio Conte Biacamano

O baú de madeira com o corpo de Maria Féa chegou a embarcar no navio Massilia, mas chamou a atenção pelo cheiro fétido

Para Bataille, o mal e a literatura são inseparáveis. A literatura não nos permite “viver sem ver a natureza separada dos aspectos existenciais mais violentos”. Ela nos possibilita “perceber o pior e aprender como confrontá-lo, como superá-lo”. Talvez se justifique aí a importância da arte ao materializar ou representar o mal, fazendo dele tema de tantos textos cruéis. Não é fortuito que Valêncio Xavier tenha escrito um conto como “No meio do mato matou a mulher índia e depois comeu”, publicado no jornal Nicolau (ano 1, n. 3). No conto, o assassino depois de esfaquear a vítima, corta seu corpo e retira dele os órgãos para comê-los: “Mordeu e enfiou pela boca adentro úmidos pedaços de algum órgão, fígado ou rins, não sei”. Os detalhes da cena são cruéis e minuciosamente descritos. O conto traz a fotografia de uma índia semelhante à vítima, o desenho de um corpo dissecado, algumas inscrições verbais e a representação de uma onça, que aparece no conto se alimentando também da jovem. Há uma dimensão erótica em todo o conto, e a questão sexual motiva o crime. Em todos os elementos que constituem o seu enredo percebe-se a presença do Mal, descrito por Bataille e tematizado tantas vezes por Valêncio. É a monstruosidade do mundo gritando na literatura. Ela nos perturba ao passo que nos convida a confrontá-la.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR, em 10 de março de 2018.             

sábado, 3 de março de 2018

A ficção literária e as cicatrizes do leitor e do mundo: apontamentos sobre “O senhor das moscas”, de William Golding




O escritor, jornalista e crítico literário José Castello escreveu certa vez que a literatura é uma “máquina de perfuração do espírito”. Ela deixa no leitor marcas que nunca cicatrizam completamente: “A melhor forma de tratá-las é transformá-las em novos textos, que geram novas leituras, em um desdobramento infinito de escritores e de leitores que dialogam e se misturam”. Depois de travar contato com um bom livro, nunca saímos ilesos, nem os mesmos. Impossível não ficarmos marcados e feridos ao lermos, por exemplo, “A metamorfose”, de Kafka, “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, ou “Angústia”, de Graciliano Ramos. São obras que nos perturbam, que nos tiram da zona de conforto. Não nos trazem segurança e nos lançam no abismo da vida e das incertezas, causando-nos um certo mal-estar e até mesmo o horror. Como aqueles filmes que depois de serem vistos perturbam o sono. Se toco nesse assunto é para dividir com os leitores a inquietação provocada em mim pelo romance “O Senhor das Moscas” (Alfaguara, 2014), de William Golding, autor que ganhou o prêmio Nobel em 1983.  

William Golding

O romance em questão, lançado em 1954, conta a história de um grupo de meninos que sobrevive a uma queda de avião em uma ilha deserta durante a Segunda Guerra. As crianças ficam isoladas e são obrigadas a se organizarem para sobreviver no inóspito lugar, que lembra por vezes o cenário de “Robson Crusoé”. O ambiente aparentemente paradisíaco (as descrições da paisagem são lindas) vai, no entanto, dando lugar a uma transformação radical em seus personagens. A disputa pelo poder faz com que as crianças se dividam em dois grupos, cuja liderança fica a cargo de Ralph, o protagonista, e Jack, uma espécie de antagonista que será responsável pelo início da barbárie entre os jovens. Ralph, com ares civilizados, valoriza o diálogo e o bom senso, defendendo constantemente a manutenção de uma fogueira que poderá sinalizar aos navios a presença dos jovens na ilha. Jack, responsável pela caça, quebra o contrato social com Ralph, criando e liderando um grupo paralelo que cometerá uma série de atrocidades, que vão desde o roubo dos óculos de Porquinho, fundamentais para que a fogueira seja acesa, até a abolição total da ordem que incluirá mortes e torturas.

Cena do filme Senhor das Moscas, de 1990
personagens em primeiro plano: Ralph e Porquinho

O livro vai ganhando ares de terror. Porquinho, inteligente e organizado, é um personagem que sofrerá “bullying” ao longo de quase toda a narrativa, por ser gordo e desajeitado. O apelido é típico e os jovens quando querem são cruéis. Não é à toa que o escritor paranaense Wilson Bueno, em seu “Manual de Zoofilia” (UEPG, 1997), tenha incluído, ao lado de uma série de bichos, as crianças: “Terríveis pelos domingos, não as queiram, não nunca, riscando a caco de vidro a lataria dos automóveis, exímias caçadoras impiedosas no rastro de gatos e lagartixas”.   
Ao contrário da premissa rousseauniana de que o ser humano nasce puro e a sociedade o corrompe, o livro de Golding parece apontar para o extremo oposto já que à medida que os meninos se afastam da sociedade, ao invés de encontrarem um estágio mais elevado para uma vida plena em meio à natureza, tornam-se carrascos uns para os outros.
Segundo Fabio Silvestre Cardoso, em um ensaio sobre o livro, publicado no jornal Rascunho (edição n°162), “a marca da maldade ganha força exatamente quando as crianças, que no imaginário coletivo representam a bondade por natureza, cometem as maiores atrocidades na medida em que tentam estabelecer as próprias regras de convivência”. O romance, nesse sentido, é um “tipo de manual de sobrevivência porque mostra que, mesmo nas situações mais improváveis, a dominação dos mais frágeis pelos mais fortes pode, e vai, acontecer”.

Cena da adaptação cinematográfica do romance de Golding

O livro poderia ser lido como uma alegoria do mundo pós-guerra dividido em dois grandes blocos. Lembremos que a publicação é de 1954. Ao lado de George Orwell, em clássicos como “A Revolução dos Bichos” e “1984”, a obra de Golding parece funcionar como uma metáfora política do mundo contemporâneo. Mas não se esgota nisso. Caso contrário, perderia potência ao longo dos anos. Não é o que parece acontecer com a obra, que continua atual, apontando para uma política mais profunda que diz respeito às relações humanas e aos jogos de interesse e poder ao longo dos tempos. Não é à toa que o escritor Cristóvão Tezza, em um recente artigo publicado na “Folha de São Paulo” (22/10/2017), tenha sustentado que “O Senhor das Moscas”, em muitos aspectos parece uma “fábula sobre o Brasil contemporâneo”. Ele faz uma breve análise do livro, mas não esmiúça a comparação. Mas a relação é bem possível. Poderíamos pensar no Brasil como uma grande ilha dominada por seres imaturos que brincam de comandar. E da civilidade democrática vamos passando ao despotismo bárbaro e nada esclarecido. São feridas da realidade que a ficção nos mostra. E que ficam marcadas como cicatriz no corpo e no espírito do leitor. Resta saber como essa história termina.  

 Publicado originalmente no dia 03 de março de 2018, no jornal Caiçara, de União da Vitória - PR

domingo, 25 de fevereiro de 2018

A praia como um convite ao devaneio poético



Em tempos de verão, calor e praia, nada como colocar entre nossos (in)utensílios de viagem um bom livro para companhia nas horas de pura vadiagem ou momentos íntimos de solidão. Uma boa literatura nos convida ao contato com o outro quando estamos sozinhos, ao passo que nos permite um mergulho nesse mar que somos cada um de nós, proporcionando uma forma de deixar-nos a sós em meio à algaravia do mundo. Nessa temporada, para quem vai ou já voltou da praia, ou não foi nem irá, vale a pena pisar nas areias do livro de ensaios “A vida descalço” (Cosac Naify, 2013), de Alan Pauls, traduzido por Josely Vianna Baptista. O autor é uma das referências da atual literatura argentina, já tendo publicado no Brasil romances como “O Passado”, que foi adaptado para o cinema por Hector Babenco, bem como a bela trilogia sobre os anos 70, “História do pranto”, “História do Cabelo” e “História do dinheiro”, que foge do lugar comum do revisionismo dos anos de chumbo, promovendo uma singular experiência literária e afetiva.


“A vida descalço” apresenta ensaios que têm a praia como tema e referência. Até aí nada de muito interessante. No entanto, as imagens do livro, postas em movimento, produzem uma constelação que faz de sua escrita um bem armado quebra-cabeça cultural. Alan Pauls, em seus longos parágrafos, estabelece relações curiosas entre objetos variados. Praia, corpo, erotismo, pele, beleza grupal, desejo, literatura e cinema geram signos que inusitadamente se expandem à medida que são postos em contato. A geografia da praia é a geografia do branco, da virgindade, da nudez e é justamente devido a essa pureza que ela nos convida a “reescrituras variadas”. Cada um enxerga no mar o que deseja. Essa parece ser a lógica do ensaio também, gênero que se oferece sempre como uma escrita livre e imaginativa. E explorar poeticamente um tema é uma forma, não só de expandi-lo, mas também de colocá-lo em rede. Tal escrita faz lembrar por vezes o ensaísmo de Roland Barthes.

Alan Pauls na praia de Copacabana

As referências do livro vão desde o “Tubarão” (Steven Spielberg) até “À praia” (Danny Boyle), passando pelo cinema de Fellini, Antonioni, Rodolfo Kuhn e Zinnemann. A cena clássica do beijo entre Burt Lancaster e Deborah Kerr na praia de “A um passo da eternidade” é evocada, bem como os protetores solares da Nívea e da Copertone. Pauls lembra da Roma de Justiniano, o primeiro imperador que regulamentou o “espetáculo do mar e da areia e que proibiu as edificações a menos de trinta metros da costa para proteger as vistas”. Com a queda do Império Romano, a cultura judaico cristã passará a questionar severamente o hedonismo, promovendo uma repressão contra o corpo. A praia passa a ser vista como sintoma de monstruosidade. Essa censura parece sobreviver até os anos 60 e 70 do século vinte quando as roupas de banho deixam de ser tão pudicas e o corpo volta a ser assumido em sua plenitude, a ponto de hoje ficar escondido apenas por poucos centímetros do biquíni. 


Em um dos textos, Pauls relaciona a praia com o reino do sonho e do cinema. O autor observa que sonha-se muito na praia. Isso porque ela é um território livre de imagens: “os sonhos, com suas imagens virtuais, são para a praia o que as miragens são para o deserto: a outra cena de um espaço. (As imagens não podem coexistir com o espaço: só aparecem quando o espaço real se dissipou no sono ou na alucinação)”. Nesse sentido, como sugere em um texto seguinte, se a praia fosse um tela de projeção seria uma tela em branco, “cinema virgem”, que não fascina pelo que irradia, e sim “por todas as imagens que era capaz de suscitar”. Essa liberdade é a mesma que faz com que a praia seja o único espaço público onde, segundo Pauls, “a nudez quase completa não é uma exceção nem uma infração provocadora, e sim um princípio de existência, uma forma de vida, a lei – tácita e unânime, mas não coercitiva – que rege a convivência humana”.


Alan Pauls na infância, na praia

Segundo Pola Oloixarac, Alan Pauls, desafiando os lugares-comuns tanto do pensamento como do prazer, “apresenta a praia como o ambiente de imaginação”. O livro nos conduz “à praia da infância do narrador, às ficções estivais de François Ozon e Eric Rohmer, às areias do Rio de Janeiro dos anos 70, às fantasias ascéticas da antipraia invernal”. Em todos os casos a praia parece produzir um “outro lugar” à margem da vida que costumamos viver.    
Alan Pauls encerra seus ensaios relembrando uma passagem vivida em sua infância quando, doente e impossibilitado de ir à praia, ficara em casa lendo um livro. Para ele, esse livro é o verdadeiro “outro lugar” que tem a forma da felicidade. Segundo o autor, talvez não tenha havido dias em nossa infância “mais plenamente vividos do que aqueles que passamos com o livro pelo qual mais tarde, uma vez que o tenhamos esquecido, estaremos dispostos a sacrificar tudo”. Uma boa praia e um bom livro parecem ser assim o sinônimo da própria felicidade perfeita. Em ambos, a liberdade plena é condição para a própria existência.


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, em 23 de fevereiro de 2018

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas




Entrando nos dias de folia carnavalesca, há quem troque a bagunça por um retiro no campo ou aproveite para ler aquele velho livro desejado com direito a pausas para assistir na TV ao desfile da Escola de Samba preferida: Mangueira, Portela, ou Salgueiro (esta, apreciada incondicionalmente pelo meu amigo Jessé), só para citar as mais tradicionais. Eu, evocando aqui os meus tempos de piá, trocaria a Sapucaí por um desfile da “Vai quem quer” ou da “Zé Totó” (extintas e saudosas Escolas de Samba de nossas cidades, cuja lembrança reforça em mim o sentido dessas singelas e autênticas manifestações de nossa cultura popular), que faziam a festa na Avenida Manoel Ribas, com direito a Rei Momo, passistas e carros alegóricos. Onde andam seus ritmistas? Essas reminiscências evocam outras. A memória é uma teia infinita tecida pela aranha do tempo.
Lembro de uma crônica sobre o carnaval escrita por Lima Barreto e publicada em fevereiro de 1920 (mais tarde reunida no livro “Feiras e Mafuás”), na qual o autor lamenta pelas transformações da festa já em seu tempo. O seu aborrecimento era em específico pela falta de inteligência das músicas que circulavam na época durante o evento. Menos preocupado com a “imoralidade” e a “chulice” que apresentavam e mais com o aspecto intelectual e artístico, Lima apontava para cantigas sem nexo algum, nas quais predominava uma “pobreza de pensamento”. Ele se referia a canções como “Fala meu loro”, um partido alto de Sinhô, tradicional compositor carioca. Sabe-se da qualidade musical não só desse baluarte do samba, mas de tantos outros músicos populares da época, possivelmente ainda incompreendidos por Lima Barreto e certamente depreciados por boa parte da cultura oficial.

Sinhô

O autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma” valorizou amplamente a cultura popular, mas não conseguiu aprovar com unanimidade a produção musical carnavalesca da época. Isso se deu possivelmente pelo baixo nível de complexidade das letras desse cancioneiro, menos preocupado com a sofisticação estética e mais com o desejo de “cair na boca do povo”, sendo assim facilmente conhecido, memorizado e apreciado. Fico imaginando o que Lima Barreto pensaria do carnaval atual no qual impera o gênero sertanejo universitário e o funk. Os carnavais agora são bem outros e de longe se parecem com os bailes do Clube Aliança ou do Concórdia de vinte ou trinta anos atrás.

Carnaval antigo em Porto União da Vitória

Para quem prefere nesses dias de folia se exilar do “proibidão” (termo que segundo Liliam, minha colega de trabalho, refere-se ao funk carioca) e do sertanejo universitário (nada contra os dois estilos – sou eclético -, mas carnaval é tempo de samba e marchinha), sugiro a leitura do romance “Desde que o samba é samba” (Planeta, 2012), de Paulo Lins.
Ambientado no Rio de Janeiro dos anos 20, e tendo como pano de fundo o surgimento do samba em casas de macumba como a da Tia Ciata, bem como a Praça Onze, o livro retrata a história de um triângulo amoroso entre uma prostituta, Valdirene, um malandro cafetão, Brancura, e um português, Sodré. Misturando realidade e ficção, a obra de Paulo Lins conta com uma narrativa ágil (que beira o cinematográfico), com uma linguagem popular – com direito a expressões típicas da época -, bem como com uma exímia reconstituição geográfica, a do belo Rio antigo.

Foliões no Rio de Janeiro dos anos 20

Silvio Fernandes, vulgo Brancura, por exemplo, existiu e fez parte da Turma do Estácio, grupo de sambistas que foram responsáveis pela criação de uma tradicional escola de samba e pela consolidação de seu gênero musical. Baiaco, Bide, Ismael, entre outros, integraram o grupo, sendo agora transformados em personagens. Modernistas como Mário de Andrade e Manuel Bandeira também. Carmem Miranda, por exemplo, aparece visitando um terreiro de Umbanda, religião que estava se disseminando pela cidade junto com o samba. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda, “Desde que o samba é samba” é uma incrível cartografia do mundo da malandragem (e mesmo da violência) nos bairros e morros onde a cultura carioca foi gestada”. 

Deixa Falar (Escola de Samba criada pelo Grupo do Estácio

O livro não se furta de apresentar de forma realista cenas de sexo e violência. Uma das curiosidades do romance é o fato de ter abordado de forma aberta e sem preconceito a homossexualidade de figuras como Ismael Silva e Mário de Andrade, cuja intimidade ainda hoje é tratada com ressalvas por pesquisadores e biógrafos. Lembremos que Paulo Lins escreveu também o romance “Cidade de Deus”, adaptado para o cinema.  

Paulo Lins

Obs: O título deste texto, “Carnaval, samba, malandros e heróis: coisas nossas” é inspirado no livro de crônicas “Coisas Nossas”, de Luiz Antonio Simas – mestre-sala da literatura contemporânea no que se refere à cultura popular carioca, lembrando cronistas como João do Rio e Lima Barreto -, e inspirado também no livro “Carnavais, malandros e heróis”, de Roberto DaMatta, que reflete sobre a essência ou especificidade da sociedade brasileira, tomando a figura do carnaval, dos malandros e dos heróis como criações sociais capazes de explicar ou de pelo menos fornecer um modelo de interpretação para a vida do brasileiro.

Brancura (Silvio Fernandes), personagem do livro

A leitura do livro de crônicas do Simas também é uma boa pedida para o período do carnaval. Cenas carnavalescas do passado, blocos de rua, desfiles, fantasias tropicais, brincadeiras de antigamente, rodas de macumba, quitandas e bares, formam uma “espécie de roteiro sentimental de uma cidade que talvez nunca tenha existido”, como escreveu o autor, mas que certamente vive nele. Bom carnaval a todos!   

Publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 16 de fevereiro de 2018  

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A visita de Che Guevara a Curitiba nos anos 60



Em 1966, antes de viajar para a Bolívia onde foi assassinado em seu projeto revolucionário, Che Guevara passou alguns dias em Curitiba e no norte do Paraná. Durante suas andanças pelo Estado, o guerrilheiro, que já estava se transformando em mito, carregou consigo uma Bíblia na qual teceu anotações cujo conteúdo nos é desconhecido. A revelação é no mínimo curiosa, já que o líder era um socialista convicto. Décadas depois, o livro se transformaria em objeto de procura e de culto entre ex-militantes da esquerda e colecionadores de obras raras.
A visita de Guevara, que nunca foi confirmada oficialmente, é mote para o enredo do romance “A Bíblia do Che” (Companhia das Letras, 2016), de Miguel Sanches Neto, autor de uma produção literária que nos últimos anos tem caminhado para um alargamento das fronteiras entre a história e a ficção.

Che disfarçado


"1966, sete horas e meia de viagem de São Paulo à Curitiba. O ônibus de Guevara chega atrasado na Rodoviária velha, na João Negrão. Seu contato não o esperava na plataforma conforme combinado. Nos ônibus só se podia fumar cigarros, pensando no que fazer Guevara acende um charuto cubano, com o anel trocado para não denunciar sua origem. Em pé, a maleta entre as pernas, esperou para ver se o contato aparecia. De terno e gravata, óculos, sem barba, e com os cabelos tingidos esbranquiçados mais parecia um pacato burguês de meia idade do que o jovem e temido guerrilheiro"

(Valêncio Xavier, Gazeta do Povo, 09 de março de 1997)

Em “Um amor anarquista”, por exemplo, o autor recria um triângulo amoroso entre moradores da Colônia Cecília (Palmeira-PR), que foi uma primeira tentativa de comunidade anarquista no Brasil do final do século XIX. Em “Chá das 5 com o vampiro”, são reveladas as intimidades do escritor Geraldo Trentini, uma alusão ao escritor Dalton Trevisan, que fora amigo de Miguel. O livro rendeu uma série de polêmicas, e inclusive uma possível resposta do “vampiro”, em um texto ácido que integra uma de suas publicações. O romance trata, em certo sentido, das vaidades que acompanham os literatos no mundo das letras. Em “A máquina de madeira”, narra-se a trajetória do Padre Francisco João de Azevedo, precursor na invenção da máquina de escrever. A narrativa é pretexto para o autor refletir sobre a formação da identidade de nosso país e sobre os processos de modernização no final do século XIX. Em “A segunda pátria”, reconstitui-se a cidade de Blumenau durante o advento da Segunda Grande Guerra. O protagonista, Adolpho Ventura, é um negro que sofre com o racismo e a ascensão do nazismo em Santa Catarina. Em uma das passagens mais curiosas do livro, Hitler visita o Brasil, episódio que permite a Sanches Neto, na liberdade da ficção, inscrever novos sentidos para uma história tal qual poderia ter sido, como faz Tarantino em “Bastardos Inglórios”.

Miguel Sanches Neto

Em todos esses romances percebe-se uma tendência à metaficção historiográfica, um conceito criado e discutido por Linda Hutcheon que pode ser encontrado em obras que tencionam os limites entre a literatura e a história, misturando assim realidade e ficção, o que vemos com recorrência na obra, por exemplo, de Jô Soares. É o que acontece também em “A bíblia do Che”.
O episódio que dá origem ao livro pode não ser verídico, mas é verossímil (documentos oficiais chegaram a abordar a viagem de Che ao Paraná em plena ditadura militar), e tem alimentado o nosso imaginário. Miguel Sanches Neto não foi o primeiro a escrever literariamente sobre o assunto. Em 2003, Valêncio Xavier publicou na “Folha de São Paulo” um conto (aliás, apresentado anteriormente na Gazeta do Povo nos anos 90) que tem como tema a mesma visita secreta. Valêncio, que também era cineasta, sonhava em filmar o argumento. 
“A bíblia do Che” tem como narrador um personagem já conhecido de Miguel, que já aparece no romance “A primeira mulher” (Record, 2008), o professor Carlos Eduardo Pessoa. Alguns anos depois de sua primeira aparição, Pessoa, agora ex-professor, vive recluso em uma sala comercial do edifício Asa, no centro de Curitiba e é convidado a uma nova aventura, envolvendo a procura da Bíblia do Che em meio a uma trama policialesca que conta com empresários corruptos e várias perseguições.
O protagonista envolve-se com Celina, a jovem e sonhadora viúva de um lobista envolvido em um esquema de desvio de verbas de empresas estatais em uma rede de corrupção que integra uma série de partidos. Antes de sua morte misteriosa, o lobista passa a ser investigado em uma megaoperação. Qualquer relação com a Lava Jato não é mera coincidência. À medida que Carlos Eduardo Pessoa procura a Bíblia, uma relíquia, investiga a morte de Jacinto Paes, o lobista que o contratou para encontrá-la.
Celina passa a ser perseguida pelos possíveis assassinos de seu marido e a narrativa acaba migrando para a Bolívia, na localidade onde Che viveu seus últimos dias. Mais do que isso é bom não adiantar. Celina é peça-chave.




Che morto na Bolívia (1967) e "O Cristo morto", de Andre Mantegna (séc. XV)
O mito se consolida


Miguel Sanches Neto se inspira na política contemporânea, bem como na crise da esquerda, para refletir também sobre as ruínas de uma série de ideais revolucionários que não morreram, mas que religiosamente parecem agonizar, enquanto procuram sobreviver em tempos de crise.

Texto publicado originalmente no jornal Caiçara (União da Vitória PR) em 03 de fevereiro de 2018.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Coisas de outras vidas







(para a minha Géssica)
Poema para ser lido ao som de Ondatropica,
Cumbia Espacial

Quando eu era cumpadrito
Em los arredores porteños
Ou quando me banhava de lua
Ou de água salgada nas ressacas del malecón
Ou quando descia o morro
Com meu baralho no bolso
Você, morena, sorria e piscava pra mim

Quando o piano tocava
E a plateia do cassino dançava
As estrelas todas brilhavam e
Você, morena, lisa e latina, sorria e dançava para mim

Eu era, como você dizia,
A sua estrela do mar
E todo o cais 
em frente à praça
Enquanto o samba rolava
Beijava a Pedra do Sal e seus sais

Aqui, ou en la Boca ou em Havana
Ontem, hoje ou amanhã
Sempre e até o fim
Seja a minha morena,
latina ou cabrocha,

Sorria e pisque pra mim!

c.moreira

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Livro do Quase ou o adeus a Carlos Heitor Cony




Em janeiro de 2018, perdemos o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony. Ele tinha 91 anos e na bagagem intelectual uma larga experiência no jornalismo e uma vasta produção literária. Perder talvez não seja uma palavra apropriada, porque literatos nunca morrem. A arte, assim como a paternidade, é uma das formas que o homem encontrou para não morrer, pervivendo neste mundo por meio de suas pegadas. Mas sempre que um escritor do calibre de Cony se despede, fica-se a impressão de que perdemos algo muito especial, restando em sua obra algo que ficou a ser dito e que, no entanto, não mais será. Fica a memória e talvez seja ela a verdadeira pegada nossa nesse mundo. Aliás, a memória é o tema do romance mais conhecido e premiado de Cony.


“Quase Memória”, publicado em 1995, é um dos romances mais bonitos da literatura brasileira contemporânea. Eu estava relendo-o, coincidentemente, quando seu autor faleceu. O livro é uma homenagem para seu pai Ernesto Cony. Mas poderia ser lido também como uma espécie de autobiografia, ou melhor uma autoficção, já que o autor, nas páginas iniciais do livro, numa espécie de preâmbulo, problematiza a relação entre ficção e realidade, misturando no romance esses dois universos. Trata-se de uma Teoria Geral do Quase na qual o escritor confessa considerar seu livro um “quase romance” por achar que lhe falta entre outras coisas a linguagem. Para ele, o livro oscilaria, desgovernado, entre a crônica, a reportagem e a ficção. Personagens e situações reais se misturam com elementos fictícios. Com ares que fazem lembrar o filme “Amarcord”, de Fellini, “Quase Memória” é uma dessas obras em que a qualidade de escrita, o real valor do amor e da amizade, a permanência do passado (transformado numa ilha de edição) e o sentido misterioso da vida produzem afetos que justificam uma leitura, o tempo que gastamos com ela e o entusiasmo que ela pode produzir em um leitor.

Ernesto Cony

“Amanhã farei grandes coisas”. O autor da frase, personagem do romance, e pai do narrador do livro, é mote para Cony desfiar uma série de lembranças de sua infância e juventude, tendo seu progenitor como eixo em torno do qual gira toda a narrativa. O enredo tem como estopim uma situação específica. O narrador recebe um misterioso embrulho, sem remetente, no qual identifica as marcas do pai: o laço do barbante sobre o qual está envolvido o pacote, a sua letra inconfundível, bem como o cheiro de fumo e alfazema que gostava de usar, “metade por vaidade, metade por acreditar que a alfazema cortava o mau-olhado, do qual tinha hereditário horror”. O fato curioso é que o pai havia morrido dez anos antes do recebimento da correspondência. A partir de então, desfia-se uma rede de memórias que terá o pai como personagem principal: a capacidade que ele tinha de pôr solenidade nas coisas pequenas, a habilidade para contar histórias e confeccionar balões em datas especiais, a disposição para aventuras inusitadas, a facilidade para envolver-se em confusões homéricas, um jeito de viver e olhar a vida de forma bastante diferente: “sempre vivera satisfeito, era do tipo que recebia um bom-dia como uma homenagem, de tudo em que se metia dava um jeito de extrair prazer pessoal”. Era o sujeito que todo dia, ao dormir, pensava consigo mesmo: “Amanhã farei grandes coisas!”. Desconfio que toda família tem um sujeito como esse personagem. Na minha, era o Valdir, um primo que tinha habilidades incríveis para contar histórias e um jeito muito seu de viver e ver a vida.




O mistério do “quase romance” gira em torno do embrulho recebido. Teria sido mesmo o pai a enviá-lo? O narrador hesita a todo momento em abri-lo. E é em torno dessa expectativa que o livro vai sendo tecido e as memórias evocadas. Não revelo aqui o desfecho da trama para não colocar a carroça na frente dos bois aos leitores que ainda não se aventuraram pelas páginas de Cony. Cumpre dizer que o livro é também um passeio pelo Rio de Janeiro da primeira metade do século XX. Com ele, Carlos Heitor Cony recebeu dois Jabuti, nas categorias Livro do Ano e Melhor Romance, em 1996. No ano 2000, em sua posse na Academia Brasileira de Letras, o escritor, depois de confessar-se agnóstico e afirmando não ter a “disciplina mental para ser de esquerda”, nem a “firmeza monolítica para ser de direita”, tampouco se sentindo confortável na “imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro”, evocou as páginas de “Quase Memória”: “(...) sou filho de um jornalista obscuro que transformei num personagem que todas as noites prometia a si mesmo: 'Amanhã farei grandes coisas!' Nunca fez grandes coisas, mas acreditava que viver era uma grande coisa”. Antes de morrer, Cony desejou uma despedida sem enterro ou homenagens. Partiu humilde.             

Publicado originalmente no jornal Caiçara, em União da Vitória, 
no dia 27 de janeiro de 2018.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Carta-sapato para o Natal de 2017 e ano de 2018




Em 26 de dezembro de 1979, Henfil escreveu para a sua mãe uma daquelas famosas cartas que viriam a ser publicadas em jornais e revistas da época e depois reunidas em livro. Nela, ainda em plena ditadura militar, o cartunista e jornalista realizava um comovente balanço do ano que passara ao passo que fazia da carta um canto de esperança para o tempo que estava por vir: “Mãe, aqui estou eu, em mais um Natal, fazendo desta carta meu sapato colocado na janela”. Na sequência, ele conclui ter sido um bom moço naquele ano: “Eu acho que fui muito bom. Eu fui solidário com todos os meus irmãos Betinhos (...). Voltei pro país que me expulsou como todos os Juliões. Dei murro em ponta de faca como todos os Marighellas. Cantei as prostitutas, as mulheres de Atenas e joguei pedra na Geni como todos os Chicos Buarques. Aspirei cola como todos os pixotes. Fui negro, homossexual, fui mulher. Fui Herzog, Santo Dias e Lyda Monteiro”. A carta é encerrada de forma comovente: “Vou fechar os olhos, vou dormir depressa. Esperando que meia-noite todos entrem pela minha janela. Me façam chorar de alegria, que eu quero viver! A bênção, Henfil”. O artista faleceria alguns anos depois.
Não sei o motivo de ter lembrado desta carta quando esboçava o último texto que escrevo para este jornal no ano de 2017. Talvez pela comoção que geralmente me invade nesse período do ano, a mirar com uma certa e triste alegria desde os trenzinhos de papai Noel a trafegarem pela cidade até o perfume da árvore chamada Dama da Noite (cestrum nocturnum), que floresce nessa época, perfumando as noites de dezembro e janeiro. Talvez a carta-sapato de Henfil nos traga ainda um ar de luta e esperança tão necessários em tempos politicamente obscuros. Paradoxalmente, olho para esse tempo e nele encontro um dos mais bonitos de minha vida, iluminado pelo sorriso de uma filha, que chegou há quase dois anos para alegrar nossa casa e transformar nossas vidas.
2017 foi intenso, tão parecido e diferente dos anos anteriores que só nos resta fazer um balanço e pendurar aqui nossa carta-sapato para o ano vindouro. Pensemos no tema que nos move neste espaço (o jornal me solicita reflexões sobre arte e literatura e tento, então, humildemente fazê-las). 
Na literatura, em 2017, encantei-me com o jovem escritor norte-americano Patrick de Witt, no livro “Os Irmãos Sisters”, que retoma o gênero faroeste, atualizando-o e transformando-o. Degustei o livro “Limonov”, de Emmanuel Carrere, pensando com Dostoiévski que “a verdadeira verdade é sempre inverossímil”. Diverti-me com o livro de crônicas “Coisas Nossas”, do grande Luiz Antonio Simas. Apreciei os mais recentes e esperados romances de Milton Hatoum (“A noite da Espera”) e Daniel Galera (“Meia-noite e vinte”). Conheci um pouco da cultura dos índios Arawetés lendo o famoso estudo de Eduardo Viveiros de Castro, “Araweté, um povo tupi na Amazônia”. Surpreendi-me com o romance-policial “Macumba”, de Rodrigo Santos, que discute a intolerância religiosa em nosso país. Lamentei com o escritor alemão W.G.Sebald os horrores da guerra, lendo “Os imigrantes”. Acertei as contas com minha consciência ao ler uma obra obrigatória pela qual não havia ainda me aventurado, “O coração das trevas”, de Joseph Conrad. Impressionei-me com o inquietante “Conto da Aia”, de Margareth Atwood, que me foi emprestado por uma aluna. Viajei pelas páginas de autores que aprecio como o argentino César Aira, o russo/ucraniano Gógol, Jorge Amado, etc. Poderia citar outros companheiros de viagem, mas o tempo é curto.
Espero que 2018 seja um ano feliz, repleto de realizações e boas leituras, afinal de contas os bons livros nos ajudam a viver melhor. Que em 2018 impere a paz e o amor na vida de todas as pessoas e também nos noticiários. Que as más notícias não cheguem tanto. Que possamos sorrir e dançar mais e que essa dança seja tão bela quanto aquela que assisti com minha esposa há alguns dias no espetáculo “Elementos”, do Grupo Corpo & Dança. Quanta beleza estava posta em movimento no Cine Ópera naquela noite. Que venha 2018 e que ele possa dançar em nós. E que na noite de Natal, como Henfil, possamos fechar os olhos esperando que à meia-noite todos entrem pela nossa janela e nos façam chorar de alegria, posto que todos queremos viver. 


Texto publicado originalmente no jornal Caiçara, 
em União da Vitória-PR, em 23 de dezembro de 2017.