domingo, 9 de setembro de 2018

Poema em chamas para o Museu Nacional



Uma reforma no museu não recuperará o afresco de Pompéia, 
O trono de Adandozan, rei do Daomé, ou seu par de sandálias talhado em madeira, 
Nunca mais os cachimbos, conchas, corais, besouros, borboletas, bengalas, múmias 
ancestrais, artefatos etruscos, objetos em desuso que nem sonhava Cabral, 
todos os cacos de um mundo que ainda existia e que agora, contudo, são memórias de um
Brasil do futuro que vai ficando cada vez mais para trás, 
A cabeça de Luzia, outra vez extinta (agora e para sempre), 
o megatério ou preguiça, gigante a encantar as crianças nessa casa imperial, o esquife de
Sha-amun-en-su, e outros sarcófagos há milhares luzindo ouro e seus egitos faraônicos, 
ou o meteorito, todos os tipos de esqueletos, libélulas fossilizadas, cujo voo se misturou às
labaredas da Quinta da Boa Vista, 
variados fragmentos de um mundo de outrora, coisas de dona Teresa Cristina ou de dona
Leopoldina, plumária dos povos indígenas, pedaços de outros impérios, ecos incas ou
tikunas, seus milagres de pervivência, sua teimosia em restar, 
são milênios misturados em cinzas, sábio signo agora incinerado e destinado tragicamente
a se apagar. 
Por quanto tempo a natureza guardou o Maxakalisaurus topai?
O presidente dinossáurico em jornal declarou: "Foram perdidos duzentos anos de trabalho,
pesquisa e conhecimento". Digo: perdidos foram milênios. Eras foram queimadas. Uma
reforma no museu nada disso salvará. Uma reforma no país o Brasil salvará? 
Onde a verba para pesquisa? Onde o pataco do patrimônio, onde a cota da CAPES, onde a
água pra tanto fogo apagar? 
Trágico esse sinistro final! quantos milênios serão necessários para reconstruir o Museu
Nacional?
c.moreira

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O romance-música de Verginia Grando: apontamentos sobre “Se nada mais der certo eu não tenho plano B”




O livro “Se nada mais der certo eu não tenho plano B” (Arte & Letra, 2016) marca a estreia literária da escritora curitibana Verginia Grando, que já possui experiência no cinema e na publicidade. Em literatura, nem sempre as estreias são bem sucedidas, pois geralmente o “primeiro filho” é criado com os erros que decorrem da inexperiência daqueles que o geraram. Não é o caso da autora, pois sua obra primogênita já sugere uma maturidade peculiar daqueles que desde o começo demonstram que estão no caminho certo. O fato não é comum, mas acontece. Talvez essa maturidade venha de sua experiência na produção de roteiros publicitários e cinematográficos.
O romance narra uma semana na vida da escritora G., desde que ela recebe o telefonema de uma editora até o dia da reunião que definiria a publicação ou não de seu livro. Encantam-me essas obras cujos personagens são artistas em busca da própria obra. É o que vemos, por exemplo, em “A louca da casa”, da escritora espanhola Rosa Montero, ou no filme “Oito e Meio”, do italiano Federico Fellini. A protagonista do romance de Verginia Grando tem apenas trinta e cinco anos, mas uma profundidade psicológica impressionante e a impressão que se tem dela, ao lermos o livro, é que estamos mesmo diante de uma pessoa, o que não acontece com todos os personagens que nos são apresentados por contos, novelas ou romances. Ao longo da obra, paralelamente à questão do livro escrito por G. - sobre o qual a única coisa que sabemos é que ela o enviara a uma editora -, muitos fatos vão sendo intercalados: o término mal resolvido de um relacionamento; reencontros com pessoas que passaram pela vida de G. – como casos amorosos que vão reacendendo antigas paixões -; a revisão de questões familiares, como a relação difícil com a mãe e com a irmã; o interesse e o mergulho na própria autodescoberta e transformação da personagem; as incertezas em relação ao futuro da escritora etc.


“Se nada mais der certo eu não tenho plano B” possui uma bela trilha sonora - apontada nos episódios da trama - que vai de um disco clássico de Elton John até um álbum de Nick Cave and the Bad Seeds, passando por Chet Baker e Clube da Esquina. O que faz do romance uma espécie de obra musical, não apenas pelas músicas citadas em meio às cenas, mas também por uma musicalidade inerente ao ritmo na própria narrativa. Tudo isso pontuado por uma série de pequenos e belos detalhes que marcam a observação minuciosa da escritora-protagonista. Refiro-me, por exemplo, ao encontro de G. com uma cadeirante no ônibus. Nesta cena, o olhar trocado entre duas personagens estabelece uma ponte entre dois seres humanos, mostrando a vocação para a comunhão que há em nós. Outros detalhes: uma joaninha prestes a morrer queimada em uma lamparina até ser salva pela jovem, as gotas de chuva escorrendo na janela de um restaurante, uma garça que passa voando baixo “rente ao vidro que ainda está salpicado de gotas de chuva” etc. Penso, como Roland Barthes, que um romance se faz sempre a partir de um conjunto de fragmentos, atos mínimos da enunciação, que vão preenchendo as páginas e alimentando a história que se conta. Trata-se, como sugeriu George Simmel, de “ver no individual o universal”. Há no livro de Verginia Grando uma dimensão profundamente poética na disposição de seu olhar, traduzida na sensibilidade de G., sua protagonista, aberta para esses pequenos detalhes.
Sobre a quantidade de reflexões filosóficas que povoam o livro, bem como as frases poéticas que brotam da boca de seus personagens, isso não prejudica o andamento de sua narrativa. Pelo contrário, amplificam a dimensão poética e reflexiva da obra. Uma frase como: “- Eu estava desenhando teus detalhes dentro de mim e desejando que o teu ar nunca acabe”, proferida por um dos personagens, poderia ser equivocadamente interpretada como inverossímil, exagerada, pretensiosa. No entanto, não esqueçamos que a literatura goza de licenças poéticas. Caso contrário, um romance como “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, não poderia conter os diálogos que apresenta. E no entanto, são justamente eles que fazem a beleza da composição de seus personagens.  


Logo no início da obra, deparamo-nos com as lembranças de infância evocadas por G., na descrição de uma atividade das aulas de inglês. Trata-se daquele exercício escolar em que as pessoas devem completar as lacunas usando palavras que definam o sujeito: “I am..., My name is... I like...”. Essa reminiscência serve para a protagonista pensar na sua relação com a própria literatura, entendida como um exercício no qual cabe ao escritor preencher com palavras o vazio da página: “Ainda hoje ela não conseguia colocar palavras no lugar daqueles espaços vazios”. A frase sugere não apenas a dificuldade de encarar o fantasma da escrita literária, mas também e principalmente a dificuldade de manifestar no texto sua intimidade, pois independentemente do fenômeno literário se caracterizar como uma arquitetura textual, a matéria-prima que lhe dá base e sustentação será sempre o sentimento, a sensibilidade, a pulsão, as paixões, elementos que fazem parte daquele lado misterioso que nunca conseguimos domar completamente sem que corramos o risco de nos transformarmos naquilo que não somos. Isso porque no fundo no fundo da vida, para além dos erros e acertos, quase nunca temos um plano B.      

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 18 de agosto de 2018.

sábado, 4 de agosto de 2018

Entre a palavra e a fotografia: Conversando na Sicília com Elio Vittorini




Diante do livro “Conversa na Sicília”, de Elio Vittorini, talvez fosse mais pertinente perguntarmos como a obra foi montada e não como ela foi escrita. Naturalmente, um romance se faz com palavras, mas nesse caso o conjunto de fotografias que o acompanham contribuem significativamente para fazer dele o que ele é. Isso porque é somente no momento em que as imagens são dispostas na mesa de montagem, em diálogo permanente com o texto, que o romance alcança sua potência poética e política.
Elio Vittorini, que viveu entre 1908 e 1966, escreveu boa parte de sua obra no pós-guerra e, como um bom militante antifascista, fez da literatura um instrumento de denúncia e reflexão social. Isso sem perder a qualidade estética que fez dele um renovador do romance italiano no contexto do neo-realismo.

Elio Vittorini

Lançado inicialmente em capítulos, no final dos anos 30, na revista “Letteratura”, e depois na íntegra em livro, em 1941, “Conversa na Sicília” ganhou a versão ilustrada apenas em 1953, organizada pelo autor com fotos de Luigi Crocenzi e Giacomo Pozzi Bellini. A versão brasileira, publicada pela Cosac Naify (2002), foi traduzida por Valêncio Xavier e Maria Helena Arrigucci. Aliás, Valêncio, em uma entrevista concedida a Joca Reiners Terron, ao avaliar sua obra, lembrou do fascínio nele exercido pelo romance de Vittorini, cujas fotografias lhe ensinaram o papel que a imagem tem que ter no texto: “ser ao mesmo tempo uma coisa alheia, mas inteirada”. Creio que a expressão “alheia, mas inteirada” esteja ligada ao fato da fotografia estar e não estar relacionada ao enredo do livro, ou seja, não é apenas ilustrativa, mas se lança em permanente diálogo – inclusive enigmático – com a obra escrita. Só encontrei essa experiência, além de Elio Vittorini e Valêncio Xavier, em livros do alemão W.G. Sebald, como “Os emigrantes” ou “Austerlitz” e do italiano Umberto Eco, como “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”. A única maneira do leitor compreender essa dimensão “alheia, mas inteirada” das imagens na obra de Elio Vittorini é lendo seu livro.

Luigi Crocenzi

 O romance narra a história de um italiano que, depois de receber uma carta de seu pai, volta para sua cidade de origem para visitar a mãe. Para isso empreende uma viagem que lhe permite captar cenas cotidianas de um povo humilde e oprimido pela vida. O narrador, durante a viagem, ouve histórias de pessoas comuns. Quando chega na vila montanhosa de sua infância, no sul da Itália, é levado por sua mãe solitária a um passeio pela comunidade. Nós, leitores, entramos com eles nas casas de proletários que povoam o livro com suas histórias aparentemente banais. Mas por trás da aparente banalidade o livro vai construindo uma poesia muito singular e típica do neo-realismo italiano, uma poesia que podemos encontrar, por exemplo, no cinema de Roberto Rosselini, Victorio de Sicca e Luchino Visconti.    



O livro possui uma linguagem precisa, seca e agreste – como sugeriu Bernardo Carvalho – o que faz lembrar de um escritor como Graciliano Ramos que, na mesma época estava escrevendo “Vidas Secas”, no Brasil. Aliás, observe-se que Vittorini publica os primeiros capítulos do livro justamente em 1938, ano em que Graciliano lança seu clássico romance. Bernardo Carvalho, em uma crítica, observa que em “Conversa na Sicília” estamos diante não do retrato sociológico de uma realidade, mas da ideia de que “a riqueza desta realidade para a literatura depende da subjetividade do olhar lançado sobre ela”. O narrador, à medida que passeia por sua vila de origem, revisita principalmente a sua infância, em um tempo redescoberto.  



O procedimento de montagem do livro, no jogo de uma relação dialética entre texto e imagem, entre palavras e fotografias - que é um jogo cinematográfico por excelência -, certamente mereceria uma análise mais ampla. Cito apenas alguns exemplos aqui. Em uma passagem, depois de assistir a sua mãe aplicar injeções em algumas mulheres, o narrador reflete sobre o corpo feminino e a descoberta da sexualidade, na infância. O texto é acompanhado da fotografia de uma de Vênus de Giorgione (da pinacoteca de Dresden), da imagem de uma mulher desconhecida, e de um postal no qual se vê a escultura de uma mulher nua. Em meio à narrativa do livro, vão aparecendo fotos alheias, mas inteiradas, que vão construindo anacronicamente um inusitado diálogo com o que é contado: a foto de um menino da Sicília, do vulcão Etna visto do trem Messina-Catânia, de um homem nas montanhas Madonie, de um monumento, de uma mãe, de um doente, de uma vila, de crianças na cidade de Siracusa, etc.


Segundo o próprio autor, assim como o protagonista do livro não é autobiográfico, a Sicília da obra não é a Sicília: “somente porque o nome Sicília me soa melhor do que o nome Pércia ou Venezuela”. Naturalmente, a frase com sabor de ironia mostra a dimensão simultaneamente local e universal do livro. É sim uma obra sobre a Itália, em uma época bélica de pobreza e desesperança, mas é principalmente um livro sobre o triste e porque não dizer belo reencontro com a infância em uma época de não-esperança, questão permanentemente atual. As fotografias do livro mostram bem a marca de seu tempo gravada na aridez de seu cenário e no semblante seus personagens.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 04 de agosto de 2018

sábado, 21 de julho de 2018

Enrique Vila-Matas, explorador de abismos




Enrique Vila-Matas inicia “Exploradores do Abismo” (Cosac Naify, 2013) com uma reflexão que pode nos ajudar a compreender melhor não apenas o grande tema do livro, mas principalmente um projeto literário embutido na trajetória do escritor catalão que fez da literatura o grande assunto de sua obra: “Vou pensando que um livro nasce de uma insatisfação, nasce de um vazio, cujos perímetros vão se revelando no decorrer e no final do trabalho. Escrever, certamente, é preencher esse vazio”. A reflexão integra o texto “Café Cubista”, uma espécie de prefácio para a coletânea de contos, ou melhor, de relatos, ou mesmo tijolos, como sugeriu Daniel Pellizari, ao tratar de “Exploradores do Abismo”. Isso porque, segundo ele, os textos deste volume “compartilham personagens, ideias, linhas narrativas”. Todos eles, direta ou indiretamente, trazem à baila o vazio, o abismo, ou o desaparecimento que move os seres na vida cotidiana, bem como a atividade do escritor na seara da arte contemporânea.


A questão do desaparecimento do autor, bem como o mergulho no vazio ou abismo como essência da atividade literária, que aparecem com recorrência em Vila-Matas, encontram ressonância em outros autores que são evocados em seus livros, como Robert Walser (principalmente em “Doutor Pasavento”), Bob Dylan (em “Ar de Dylan”), James Joyce (em “Dublinesca”), Michel Foucault, Giorgio Agamben, Sergio Pitol, Franz Kafka, Maurice Blanchot, Fernando Pessoa, entre tantos outros - alguns às vezes inventados, como boa parte daqueles que figuram em “Bartleby e companhia” e “Mal de Montano”, duas de suas publicações mais interessantes. Todos eles poderiam ser considerados como exploradores do abismo. Aliás, no livro que leva este nome, os exploradores, segundo o escritor, são otimistas e suas histórias são, em geral, a de pessoas comuns que, ao se ver à beira de um precipício fatal, “adotam a postura do expedicionário e sondam o horizonte plausível, perguntando-se o que pode haver fora daqui, ou além de nossos limites”. São pessoas que “desdenham o tédio existencial tão em voga, parecendo gente antiquada e muito ativa, que mantém uma relação desinibida e direta com o vazio”. Aliás, como observei, é com o vazio que Vila-Matas preenche seu livro “Exploradores do Abismo”.
No conto “A modesta”, por exemplo, o narrador mergulha na procura vazia de uma passante que, à maneira daquela personagem do poema de Charles Baudelaire, lhe escapa e desaparece. Em “Os autistas são assim”, o protagonista tem amor por plateias vazias. Em outro conto, um sujeito escuta a conversa de um casal de vizinhos a falar sobre a matéria escura, esse mistério da astronomia cuja natureza ainda não é bem conhecida e que está centrada no vazio. Em “O dia assinalado”, uma jornalista recebe de uma cigana a previsão de sua morte, passando a viver a vida com o abismo da morte colado em seus passos. É comum, aliás, os seres humanos preencherem o vazio de suas vidas com o medo de outro vazio, o da morte. Em “Amei Bo”, um homem do futuro pousa em um outro planeta para assistir ao fim do mundo”. Em “Vazio do poder”, Vila-Matas aponta politicamente para a ideia de que todo estado é “pura aparência e ficção que responde a uma estrutura falsa, armada em torno de um centro abissalmente vazio”. No conto “Vida de poeta”, uma frase ouvida transforma a vida do narrador: “As obras de arte, escassas, dão conteúdo intelectual ao vazio”. A frase poderia figurar como epígrafe para os contos do livro, já que em todos eles, deparamo-nos com a vaziez da vida a ser preenchida com a própria literatura. Trata-se de um procedimento natural para um escritor que certa vez escreveu: “Tudo o que não for literatura não existe”. 


O relato mais interessante do livro se encontra no texto “Porque ela não pediu isso”, no qual o escritor catalão produz um jogo muito bem arquitetado que arma múltiplas perspectivas narrativas para refletir sobre a capacidade da literatura de criar artifícios e mundos. Nesse caso, trata-se de pensar no abismo e no vazio da própria literatura capaz de ser preenchida com imaginação e talento literário. O mote do texto é a vontade de transportar a literatura para a vida, fazendo da escrita um recurso para se preencher o “tenebroso buraco que chamamos de vida”. Só a leitura desse conto já vale a aquisição da obra.          


A tradução de “Exploradores do Abismo”, que ficou a cargo de Josely Vianna Baptista, foi uma das últimas publicações de Vila-Matas pela Cosac Naify (a última foi “Não há lugar para a lógica em Kassel”, em 2015), antes do desaparecimento da editora, no abismo econômico do mercado editorial contemporâneo. Agora os direitos da obra do autor estão com a Companhia das Letras, que está lançando nesta semana “Mac e seu Contratempo” que, como os livros anteriores, explora os limites entre o romance cômico, a autoficção, a crítica literária e o gênero ensaio. A obra que se publica agora dá continuidade ao projeto vila-matiano de fazer da literatura o grande tema e personagem de sua obra, lançando mão de uma série de citações e referências que direcionam suas histórias para uma reflexão sobre as condições de produção, de existência e de circulação da literatura na contemporaneidade, bem como sobre o lugar do escritor e do leitor nesse processo. Em outras palavras, com sua literatura, Vila-Matas está sempre perguntando: O que pode um escritor? O que estamos fazendo quando fazemos literatura? O que significa escrever hoje? Quais os limites entre a vida e a literatura? Como viver na vida o texto que escrevemos na arte? Como conviver com o vazio da vida na escrita?   

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 21 de julho de 2018.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Cristovão Tezza e a tirania do amor



Cristovão Tezza, certamente, figura entre os melhores prosadores da literatura brasileira contemporânea. Tenho acompanhado com interesse seu trabalho desde há alguns anos quando o escritor ainda não era muito conhecido do grande público. Embarquei com ele nas aventuras teatrais com toques fantásticos que povoam seu romance “Ensaio da Paixão”, encantei-me com o poeta marginal “Trapo” e suas incursões literárias pela cidade de Curitiba, aventurei-me pelo universo da arte em seu “Breve espaço entre cor e sombra”, emocionei-me com o premiado “O filho eterno” - no qual Tezza ofereceu aos leitores uma comovente autoficção inspirada no seu contato por meio do filho com o universo da síndrome de down -, passeei pelos registros de “O fotógrafo”, conheci um pouco de sua jornada como escritor na autobiografia literária “O espírito da prosa”, li alguns de seus contos e crônicas, e na semana passada escrevi aqui sobre a publicação de suas conferências literárias, reunidas no livro “Literatura à Margem”, publicado em junho de 2018, no mesmo ano em que o escritor lançou seu novo romance, “A tirania do amor”. Ambos saindo do forno.


Tezza vinha nos últimos anos trabalhando com protagonistas oriundos do universo das letras ou do magistério. Tomem-se como exemplo personagens emblemáticos como a tradutora que dá nome a um de seus mais recentes livros, ou o professor Heliseu, sobre o qual o também professor aposentado Tezza se debruça em um romance publicado em 2014. Aliás, a figura do professor já havia aparecido em “O filho eterno”, e também em “Uma noite em Curitiba”.
Agora, no seu mais recente romance, “A tirania do amor”, o protagonista Otávio Espinhosa é um renomado economista que se relaciona com o mundo por meio de números. Ele é capaz de extrair raízes quadradas complexas em segundos e de solucionar cálculos variados sem qualquer esforço aparente. A todo momento, o protagonista opera suas contas, mas é incapaz de resolver problemas pessoais básicos que envolvem um casamento falido, a relação difícil com o filho revoltado, o abandono da vida acadêmica, bem como o emprego no escritório (prestes a ser incluído em uma operação investigativa pela denúncia de desvio de dinheiro). Some-se a isso uma relação difícil com seu passado, a saber uma convivência complexa com o pai e uma breve carreira como escritor de literatura de autoajuda, em uma obra cujo título sugestivo de “A matemática do amor” foi publicada com o pseudônimo Kelvin Oliva. Depois de descobrir que está sendo traído pela mulher, Otávio toma uma decisão radical: abdicar do sexo. Este é um dia difícil, porque é nele que o protagonista será também despedido do seu emprego.


A ruína profissional e a falência do amor são retratadas em meio às crises políticas do Brasil contemporâneo. À medida que Otávio Espinhosa vai mergulhando no caos afetivo e profissional, o leitor assiste no livro à decadência social e econômica do país. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. Isso porque Tezza capta com absoluta eficiência os dramas políticos do presente, refletindo sobre os dilemas enfrentados por uma sociedade que vem a cada dia se sentindo deslocada e abandonada por seus dirigentes.
Em vários momentos da narrativa, Otávio Espinhosa alude à “Ética”, de Spinoza, produzindo conexões com a filosofia para tentar entender a sua vida. Aliás, o filósofo renascentista escreveu sobre a origem e natureza dos afetos, considerando o amor uma alegria acompanhada da ideia de sua causa. A escolha paronomástica do nome da personagem e do filósofo que o acompanha não é fortuita em um livro sobre o amor e sobre a matemática. À medida que o enredo avança, a personagem vai percebendo que sua lógica matemática e racionalista não dá conta de resolver os problemas de seu coração. A beleza do livro, nesse sentido, parece estar ligada a um processo de gradativa transformação da personagem. No entanto, o que mais chama a atenção em “A tirania do amor” é a qualidade na arte de narrar. Influenciado pela teoria da polifonia desenvolvida pelo teórico russo Bakhtin, sobre o qual o escritor/professor desenvolveu sua tese de doutorado, Tezza mescla com eficiência um realismo plástico com o fluxo da consciência das personagens, misturando vozes e discursos em um vai e vem de ideias capaz de tornar sua narrativa mais complexa, mas ao mesmo tempo mais rica, pela pluralidade de impressões e pontos de vista que, inevitavelmente, enriquecem a leitura de uma obra literária.


O tema do romance pode parecer um pouco banal – apesar de que escrever um bom livro sobre o amor parece continuar sendo o desejo de quase todos os grandes prosadores – no entanto, o que torna o romance agradável é a forma como a história é contada. No fim das contas, não importa de que trata o amor, importa o que fazemos com ele. E sua tirania, querendo ou não, nos empurra com força para a vida e, como uma boa ficção, ele sempre pode acabar ou começar em uma boa história.

Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), no dia 07 de julho de 2018

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Entre a felicidade e a infelicidade: Apontamentos sobre “Literatura à Margem”, de Cristovão Tezza




Acaba de sair pela editora Dublinense, de Porto Alegre, “Literatura à Margem”, uma coletânea de conferências do escritor Cristovão Tezza apresentadas inicialmente em eventos literários, congressos universitários e na Academia Brasileira de Letras. Os textos revelam o pensamento inquieto de uma mente prodigiosamente reflexiva e poética. Os leitores do autor, acostumados com seus romances, naturalmente terão agora a oportunidade de conhecer melhor as concepções estéticas que norteiam seu trabalho de criação, bem como o pano de fundo de sua inserção no mundo da ficção.
Integrado a uma obra bastante fértil, que vai se ampliando desde os primeiros escritos dos anos 60 até os romances que conquistaram seu lugar no cânone da literatura brasileira contemporânea - e que levaram o escritor a figurar como uma personalidade do mundo das letras - , o material reunido em “Literatura à Margem” parece dialogar com o livro “O espírito da prosa” (2012), no qual Tezza apresentou uma reflexão ensaística sobre seu fazer literário desde o amadorismo artístico da juventude até a consagração da obra na maturidade. 
As conferências que vêm agora à lume, registradas em livro, podem ser lidas como capítulos de uma espécie de “uma autobiografia literária”, expressão que, aliás, é apresentada como subtítulo do já citado “O espírito da prosa”. Isso porque, independente dos assuntos tratados pelo romancista, sua história de vida é trazida à baila em vários momentos, o que permite aos leitores não apenas comungarem com ele de uma série de reflexões teóricas, mas também vivenciarem o depoimento de uma vida dedicada às venturas e desventuras do que chamamos de “arte literária”.

Na ABL, na conferência História de Leitor

Em uma das conferências, por exemplo, Tezza aborda a sua vida íntima e privada, apresentada paralelamente a uma reconstituição de fatos sociais, econômicos, culturais e políticos do Brasil nos últimos 50 anos, com o objetivo de demonstrar como a literatura brota da infelicidade. Trata-se do texto “História de Leitor”, apresentado na Academia Brasileira de Letras, em 2014. Uma série de fatores contribuíram para o ingresso do autor no mundo da literatura. Desde a perda precoce do pai até a sua mudança do interior de Santa Catarina para Curitiba, na juventude. Para Tezza, a verdadeira origem de um escritor está na infelicidade. A infelicidade produz literatura: “Pessoas felizes, eu gosto de brincar com esta imagem, não escrevem. Os felizes vão à praia, namoram sem conflito, assistem televisão, viajam com alegria, sofrem aqui e ali com parcimônia e compreensão, curtem as delícias da família, respeitam a realidade e os fatos – por que diabos iriam se trancar num quarto para escrever?”. No entanto, mais adiante, ainda na mesma conferência, o autor de “O Filho Eterno” considera que, assim como a infelicidade produz literatura, a literatura produz também felicidade. Na boa literatura, observa o escritor, os finais felizes costumam ser, paradoxalmente, “desmancha-prazeres”. Segundo esse ponto de vista, o bom leitor não suporta “água com açúcar”, preferindo a desgraça, os desdobramentos pesados, “a dura poesia de tudo que não tem solução”. Isso porque “queremos partilhar o que é irredimivelmente incompleto para confirmar que não estamos sozinhos”. Talvez também pela nossa inegável vocação para o trágico, bem como pela necessidade que temos de vivenciar a catarse.

Retrato da Folha de São Paulo

Na conferência que dá nome ao livro, “Literatura à Margem”, proferida na abertura do VII Festival Literário de Mantiqueira, em 2014, Tezza explora o conceito de marginalidade da arte literária para concluir que mesmo sendo quase sempre fruto de um sentimento de solidão, a literatura “nos tira da tábula rasa e oferece-nos a prospecção do passado e a experiência do presente, na comunhão solidária entre autor e leitor”. Nesse sentido, a palavra margem evoca não apenas a consciência da singularidade da literatura – o seu olhar particular sobre as coisas -, mas também o imperativo ético do escritor que escolhe a solidão do risco de fazer o que faz. Alude também à própria condição da literatura como atividade artística não valorizada em meio a tantas outras linguagens, bem como a marginalidade da literatura brasileira em relação àquela praticada em outros países. No entanto, penso que é exatamente essa condição de ser margem que permite a ela olhar com mais distanciamento e, portanto, com mais clareza para a vida (Padre Vieira Certa vez escreveu: “Há de estar apartado dos olhos para se poder ver”). Foi pensando também nessa questão que certa vez rabisquei os seguintes versos: “Nunca sei ao certo / o que vai no centro / se o ponto é o começo do fim / ou apenas o fim do começo / tudo depende da hora / tudo depende do meio // da margem melhor se olha / aquilo que nem sei direito”.
Nas outras conferências que integram a publicação, Cristovão Tezza aborda o fenômeno da criação literária e seus descaminhos, assim como a relação entre a literatura e os domínios da psicanálise, da autorrepresentação e da biografia. Em cada um dos textos a acuidade das ideias e o cuidado de uma escrita sofisticada que não se rende à banalidade nem à complexidade vazia. Em muitos momentos, as reflexões do autor nos conduzem a conclusões muito pertinentes sobre o universo da literatura. Pérolas como estas: “(...) escrever será sempre duplicar o mundo para torná-lo mais habitável”; “(...) o narrador que escreve o livro é, em alguma medida, o psicanalista distante que recompõe e dá sentido aos fragmentos disparatados do evento da vida”; “Numa obra bem-sucedida, partilhamos a utopia de um mundo possível que, sem ocupar lugar real no espaço, será sempre uma chave generosa para que encontremos, narradores e leitores, nosso próprio espaço no espaço real”. Esse é mais um aspecto que aponta para a literatura como uma máquina que nos ajuda a viver melhor.   

Publicado no jornal Caiçara, de União da Vitória (PR), em 30 de junho de 2018

terça-feira, 19 de junho de 2018

4 poemas para o amor


para gé

danado esse dengo
jeito de me beijar em silêncio
deixa que dá ao poeta
mote pro seu invento
do caos ao cais
a palavra mar ou mais
em movimento



amo em tu
tudo
e mais
um pouco
aquele sol
em seu sorriso
o charme 
de meu nome
escrito em tua pele
inscrito em teu corpo


e assim a vida vai indo
com você no meu caminho
te amando
de minuto em minuto
de agosto em agosto



Xibiu
Quirodáctilos,
onde pô-los?
até a ilha perdida,
um mar de sargaço
ou abrolhos.
fecho os olhos
para vê-lo bem:
até o centro da ilha
quantas ilhas têm?


estavas assim
no ano retrasado
um pitel para seu marinheiro
sereia fora das águas
numa praia do Rio de Janeiro

c.moreira

domingo, 17 de junho de 2018

O que o leitor quis ler? Notas sobre a estranha prosa de Mário Bellatin



Um escritor que tira sua perna mecânica toda vez que vai entrar em uma mesquita para rezar; um treinador de cães, intitulado Homem Imóvel, que não tem os movimentos dos membros inferiores e superiores e, mesmo assim, treina pastores belgas malinois, contando com a ajuda de seu enfermeiro; o judeu Jacobo Pliniak que, por ser mutante, se transforma, ao longo da trama, em uma anciã, a piedosa dama Rosa Plinianson; o artista Antonio, cuja morte é transformada em obra de arte; o cientista Olaf Zumfelde que descobriu em um remédio a causa da má formação de fetos. Eis algumas das estranhas personagens que povoam os textos de Mario Bellatin, um dos mais produtivos e inovadores escritores da literatura latino-americana contemporânea.



Lembrando por vezes o desfile de grotescos do livro “As Tentações de Santo Antão”, de Flaubert, ou as bizarras atrações circenses do filme “Freaks”, de Tod Browning, os seres imaginados pelo autor mexicano, geralmente mutilados ou sofrendo de algum tipo de anomalia genética, aparecem em livros como “Efecto Invernadero”, “Jacobo el mutante”, “Los fantasmas del masajista”, “Biografía ilustrada de Mishima”, “La mirada del pájaro transparente”, entre outros. Perto da vasta produção de Bellatin, as suas traduções para o português ainda são escassas, mas quem gosta de se aventurar no original pode ler a quase totalidade de seus livros nos volumosos “Obra Reunida” e “Obra Reunida 2”, editados pela Alfaguara espanhola. As duas antologias trazem compiladas quase quarenta novelas do escritor.



No Brasil, saíram, por exemplo, “Salão de Beleza” (Leitura XXI), “Cães Heróis” e “Flores” (Cosac-Naify).
Em “Salão de Beleza”, uma das primeiras e mais conhecidas novelas do autor, encontramos a estranha história de um cabeleireiro que transforma seu salão de beleza em um abrigo para homens em estado terminal, todos vítimas de uma misteriosa epidemia (lembre-se que o livro é publicado nos anos 90, período em que o vírus do HIV apavorava a todos por seus efeitos e causas ainda não bem conhecidos até então). O narrador-protagonista, que antes era fascinado por aquários e peixes ornamentais com a finalidade de embelezar o antigo salão, se transforma sem motivo aparente numa espécie de enfermeiro que assiste uma série de doentes sem lar e que estão próximos da morte: “Pode parecer difícil acreditar nisso, mas quase já não individualizo os hóspedes. Cheguei a um estado em que todos são iguais para mim. No início, eu os reconhecia. Inclusive, uma vez ou outra, cheguei a sentir carinho por algum deles. Mas agora não são mais que corpos em transe rumo ao desaparecimento”. À medida que a narrativa se expande, o leitor fica sabendo do passado do narrador, antes um travesti que se aventurava com seus amigos pelas ruas e saunas da cidade. Boa parte da narrativa é gasta tratando de comentários sobre peixes e seus modos de vida. Estranho e confuso, não?


Em “Cães Heróis”, encontramos episódios não menos inquietantes. A começar pela inscrição que acompanha o título já na primeira página: “Tratado sobre el futuro de América Latina visto a través de un hombre inmóvil y sus treinta pastor belga malinois”. Que tipo de relação se estabelece entre a história do homem imóvel e que é treinador de cães com o futuro de nossa América? O escritor não esclarece. O enredo relata apenas os acontecimentos banais que envolvem a vida cotidiana deste treinador e suas necessidades especiais. Então, de que maneira o livro pode ser lido como uma alegoria das condições futuras da América Latina? A questão nos leva até algumas entrevistas e depoimentos nos quais Mario Bellatin declara seu interesse em produzir não apenas enigmas, mas também uma narrativa que fuja das maneiras tradicionais de representação, maneiras que, segundo ele, estão gastas, principalmente na América Latina. O que o mexicano deseja, assim, é estabelecer uma cumplicidade entre autor e leitores, convidando-nos a produzir o enredo junto com ele, ou pelo menos imaginando para além do escritor possibilidades de leitura para a obra. Trata-se de levar o leitor a transitar por um universo construído a “partir de sua própria lógica”, “a partir de sua própria retórica”. Ou seja, após a leitura de um livro de Bellatin, ao invés de perguntarmos a nós mesmos “o que o autor quis dizer com isso?”, talvez fosse mais interessante lançarmos: “O que nós, leitores, podemos ler com isso?”, ou ainda “O que nós, leitores, podemos inventar com isso?”. Trata-se de uma concepção de leitura pautada pela liberdade nas mais variadas dimensões que um livro possibilita. Se por um lado a prosa de Bellatin é movida pelo “non sense”, complicando a vida do leitor, por outro, é essa mesma complexidade que nos convida a inventar sentidos para os textos que lemos. Para compreender com eficiência o que estou dizendo, os leitores devem se aventurar na leitura de sua obra. Gostando ou não, vale a pena conferir.


Em “Flores”, elaborado em um período no qual o autor ficou hospedado em uma Residência de Escritores, nos Estados Unidos, encontramos um livro-montagem, pautado por um trabalho de artesania que partiu da reunião de textos e notas literárias previamente elaborados. Os fragmentos, escritos separadamente e fora de um projeto de livro, apesar de na maior parte das vezes não terem nada em comum, foram sendo aproximados e editados, até formarem a novela. Ou seja, o trabalho do autor estaria mais em recortar, montar e colar – como numa ilha de edição cinematográfica – do que propriamente em escrever. Vem daí seu ímpeto vanguardista. Isto tem a ver com os interesses do autor, que chegou a estudar cinema.


Assim como em outras novelas, a prosa dispersiva de “Flores” aponta para personagens mutilados, vítimas de anomalias, e outros sujeitos estranhos que, conscientemente ou não, estão atravessados por uma reflexão sobre a identidade em tempos atuais, líquidos. Seres a nos lembrar constantemente que a realidade é uma coisa bem estranha.

Publicado originalmente no jornal Caiçara,  de União da Vitória - PR, em 16 de junho de 2017.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Minha namorada



para Gé,

Cara metade minha
Sem teu mais
O meu é menos ainda 
Sem teus lábios
Sem tua boca
Falta-me um gosto
Falta-me um doce
no céu ou na língua
Sem tuas pernas
Onde esquentar
Minhas pernas
No escuro das noites
longas e frias?
Sem teus pés
Por onde andarei
Só com os meus
Em que ruas
Em que vias?
Sem teus olhos
Para ver tudo
O que vejo
A graça da vida
Que graça terias?

c.moreira

terça-feira, 12 de junho de 2018

Nefelibata



Deitado sobre a grama
E olhando pra cima 
intuo 
ou
Nefelibata e neto trismegisto de todos os 
                                      astros e espaços
invento, inverto ou especulo:
A terra é o céu das estrelas
Ou mesmo uma constelação
O lado de cima
É como o lado de baixo


Para quem a terra é palco de nuvem
O céu é meu chão


c.moreira

domingo, 3 de junho de 2018

A vida e vida de Assionara Souza





No último 21 de maio, recebi com imensa tristeza a notícia da morte da escritora e colega Assionara Souza. A sua perda é irreparável, não apenas pelo que ela escreveu e pelo que viria a escrever, mas também pela sua pessoa, que fez da literatura um modo de encarar a vida e de vivê-la em plenitude. Autora de livros como “Cecília não é um cachimbo” (2005), “Os hábitos e os monges” (2011), “Alquimista na chuva” (2017), entre outros, Assionara se destacou na atual literatura brasileira, chegando a ter sua obra divulgada para além de nossas fronteiras.
Quando a conheci pessoalmente em 2010, chamou-me a atenção a sua inteligência aliada a uma sensibilidade e doçura propositadamente poéticas. A beleza e elegância que se depreendiam de suas palavras me remeteram de imediato a escritoras misteriosas como Clarice Lispector e Hilda Hilst. Percebi desde o primeiro contato uma certa serenidade na voz que lhe conferia um ar nobre e curitibano temperado pelo sutil sotaque nordestino de alguém que nascera em Caicó, no Rio Grande do Norte. Debati com ela em um encontro do Sesc Literário sobre Raquel de Queiroz e tão logo nos conhecemos melhor, naquela mesma noite, ela foi me presenteando com seu livro de contos “Amanhã, Com Sorvete!” (2010), editado pela 7Letras. Reencontrei-a alguns anos depois em um outro evento literário, onde conversamos sobre Valêncio Xavier, e onde a ouvi falar com propriedade e inteligência sobre o escritor pernambucano Osman Lins.



Os contos de Assionara ganham agora para mim outro sentido. Impossível lê-los sem ser tocado pela experiência da precoce despedida a seguir seus passos na escritura. Impossível também não sentir a presença/ausência da escritora em seus textos, num jogo de aparecer e desaparecer que inevitavelmente - como em toda boa literatura - caminha para o artifício, para o truque.  Um leitor que procure a pessoa de um escritor em um texto literário está fadado a buscá-lo onde ele não mais está (talvez Assionara tenha terminado de escrever um livro para agora começar outro). Por isso, assim como em qualquer outro escritor, não se trata de ler biograficamente a obra de Assionara - já que a literatura é sempre uma construção na qual o escritor se despersonaliza para que nasça a escritura. Trata-se de perceber nessa máquina de artifícios - que é a literatura – a fonte das verdades tecidas por meio da ficção. Ali Assionara está inteira. Tudo faz parte do jogo e, sendo o escritor um falso mentiroso (evocando aqui Silviano Santiago), ele, então, só fala verdades e tudo é mentira também. Assionara, assim, está e não está no texto que teceu. É com esse impasse que nós leitores temos que conviver. No entanto, mais do que a ausência ou a despedida, Assionara, em seus livros, celebra a vida e a força das palavras, dos instantes e dos encontros.


 A escritora tem um modo de dizer que é a pura busca da quarta dimensão, um tocar as palavras pelo avesso, galáxias de música e dança, “a aparência das coisas por trás das coisas”, como sugeriu em um de seus contos. Daqui a muitos anos alguém vai achar em meio a outros livros um exemplar velho e surrado de “Amanhã, com sorvete!”. E dali jorrará com alegria tudo o que agora vejo e sinto, seus fragmentos de um discurso amoroso. E Assionara estará todinha ali, viva e em palavra, porque é todo o livro ela mesma: “Constrói do verbo um mundo todo fragmento. Fissura. Costura. Do que foi dito e não feito. Escrito”. A palavra lhe conservará viva.
Lembrando por vezes a profundidade e o ritmo de Caio Fernando Abreu, sem ser piegas na influência, quase todas as frases dos textos de Assionara evocam todo um universo pela amplitude de suas imagens e beleza de seus tons: “entre a sombra e o sol, eu era quase um personagem principal de alguma coisa”, “para desconforto do mímico, antes que entrasse em seu show alguém lhe cochichou ao ouvido que todos os que estavam na plateia eram cegos”. Como não lembrar de Clarice Lispector em tais linhas: “Música no modo como os moços andam. Música no inusitado de corpos se esbarrando. Música diluindo tudo o quanto é sólido. É quando há dança. Fecho os olhos e deixo (...) Estamos dentro da coisa. E a coisa é a paixão. Objeto inquebrável. Objeto que pulsa”. A literatura de Assionara voa no Altíssimo “para não esbarrar em rochedos”. Fico me perguntando por que nunca procurei Assionara pra dizer o quanto seu texto me encantava.


Ao invés da morte, penso aqui nas duas vidas da autora. A que ela viveu (e que vive ainda em alguma esfera de nosso grandioso universo) e aquela que pervive no texto que escreveu. Ela está fadada a ressuscitar a cada vez que um leitor abrir seus livros e se encantar com suas palavras cheias de sabor de amanhã e sorvete. No conto “Órbita dos Silêncios” ela escreve: “O som mudo do silêncio é o que está por baixo da pele”. Para ela o som mudo do silêncio está colado às coisas. Com ele a vida acontece intensa. Talvez esse som mudo seja sua própria palavra, fadada a soar para além da vida. No texto. Assionara vive!


Publicado originalmente no jornal Caiçara, de União da Vitória, 02 de junho de 2018.